Músicas que refrescam a alma


Jurupoca_64 — 26/3 a 1/4/2021 — Ano 2


Opa!

O tema, ou melhor, a clave aqui é de Tom Jobim, ou o encontro do compositor com a obra de Érico Veríssimo.

É a Introdução do LP da Som Livre O tempo e o vento (1985), trilha sonora da ótima minissérie da TV Globo.

Ganhei meu exemplar num sorteio da Inconfidência FM. Não vivia no Belo. Mas não vem ao caso:

“Quem canta refresca a alma
Cantar adoça o sofrer
Quem canta zomba da morte
Cantar ajuda a viver
Quem canta seu mal espanta
Eu canto pra não morrer”

“Cantar para adoçar o sofrer” alude ao cantar imemorial, e mais perto de nós no tempo entoa o sofrimento do negro nas nossas senzalas, nas ilhas do Caribe ou nos campos de algodão no sul dos Estados Unidos, berço do blues.

O acalanto, a canção de ninar, profissão da fé materna e das amas de leite, também remete ao poder da música para contrapor as aflições humanas.

A canção Passarim, de Tom, do mesmo álbum — abaixo na versão curta (há mais duas no disco, uma instrumental, outra estendida), com a participação de Danilo Caymmi e coro — mantém o clima, um cantar dolente capaz de nos descansar das tribulações cotidianas.

Os belos arranjos de cordas são creditados a Paulo Jobim, Jacques Morelenbaum e Danilo Caymmi.

A inspiração jobiniana parece se cristalizar na mesma sequência, no lindo tema instrumental Chanson pour Michelle, mais tarde “letrado” por Ronaldo Bastos e convertido em Canção para Michelle.

Com a deixa trago uma cantiga de Godofredo Guedes e Ricardo Milo nascida da própria invocação da música para espantar a tristeza e mandar depressa a saudade “ir-se embora”.

Me refiro a Cantar, gravada como seresta por Beto, filho de Godofredo e pupilo do Clube da Esquina, em Amor de índio, seu LP da EMI-Odeon de 1978.

Mas escolho para esta página a iluminada versão de Paula Toller, do revelador álbum da cantora de 1998 (WEA), revelador de seus múltiplos talentos, com um arranjo magistral de Graham Preskett que tem os violões de Marcos Pereira e Ricardo Palmeira e o piano de Antônio Adolfo.

Em 1975, Caetano Veloso incluiu entre as faixas de Joia (Universal) Canto de um povo de um lugar, cançoneta em que o artista parece recuperar algum sonho de menino deixado nos quintais de Santo Amaro da Purificação, alguma aurora ou pôr-do-sol. A gravação é dividida com Perinho Albuquerque.

Termino a sessão com a “parceria” meio maldita de Fagner com Cecília Meirelles chamada Canteiros.

O cearense a incluiu indevidamente na primeira tiragem do canônico Manera Fru Fru manera ou O último pau de arara, LP de 1973.

Metera as mãos em alguns versos do lindo poema Marcha, de Cecília, citou Águas de março, de Tom Jobim, e fez um generoso empréstimo de Na hora do almoço, de Belchior — para creditar autoria apenas a si.

Podia se tratar, mais propriamente, de uma rica adaptação autoral, bastava o compositor caprichar nos copyrights.

Levou nas costas um processo das herdeiras da poeta.

A pendenga iria se pacificar no ano 2.000, quando a Sony Music, por meio de um acordo, obtém autorização para que ele voltasse a cantar a música e pudesse registrá-la, o que  fez ao vivo, num show em Fortaleza.

Além de ajudar a vender Manera Fru Fru manera, Canteiros  entrou para a MPB como uma pedra rara, com seu delicioso refrão de refrescar qualquer a alma exausta: “Eu só queria ter do mato/ Um gosto de framboesa/ Pra correr entre os canteiros/ E esconder minha tristeza”.

A canção não podia faltar no repertório de quem tocava violão nas rodinhas de cerveja ou oferecia serenatas naquelas estranhas noites dos anos 1970.

Fagner afirma que a autoria de Cecília havia sido registrada no encarte do LP, depois cortado pela gravadora, então, Polygram.  Sei.

 Esta versão, autorizada, é de um programa Ensaio, da TV Cultura, datada de 2018 e registrada no CD da Warner/Chappell:


Choro, samba e bossa nova

O craque Hamilton de Holanda ensina até o autor da JU a diferençar os três gêneros e suas variantes. O vídeo é o 17º da série #curiosidades, postados pelo músico durante a pandemia.


Você também pode seguir a lista da Rádio Siutonio no Spotify: 1.000 Canções Brasileiras, que hoje anda pelos 1.013 fonogramas, mas sempre é depurada.


Leia a abertura da Jurupoca #64: A marcha da selvageria

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