Encalhados

Jurupoca_65, 2 a 8/4/2021, ano 2


Foto do do alto: O navio Ever Given encalhado no Canal de Suez, em uma imagem de satélite Maxar Technologies


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

A trozoba que encalhou no Canal de Suez é uma metáfora ideal do mundo, dentro e fora da pandemia.

Conseguiram desgarrar o mamute transoceânico, na segunda-feira, com a forcinha de uma superlua.

Já nosso futuro como humanidade continua preso nos bancos de areia do tempo.

Seguimos encalhados, enfastiados, encruados e encalacrados.

A JU, por sinal, andou semiencalhada.

Vejamos se despega.

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


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Traduções encalhadas

A tradução pegou o vírus do progressismo moral. Até onde sei, estão encalhadas as tentativas de levar ao holandês e ao catalão uma antologia da jovem e bela poeta negra norte-americana Amanda Gorman, que encantou o mundo na posse de Joe Biden. O catalão Victor Obiols, poeta e tradutor rodado e curtido, inclusive de Shakespeare e Oscar Wilde, foi vetado pela editora norte-americana Viking Books, quando já tinha seu trabalho pronto. Ele próprio explicou que “queriam uma tradutora mulher, ativista e perfeitamente negra”. Já a jovem holandesa Marieke Lucas Rijneveld, de 29 anos, romancista premiada e de gênero “não binário” (não se reconhece nem como homem nem como mulher), parecia uma boa escolha à editorial de seu país. Até que uma ativista se revoltou contra o fato de Marieke não ser “orgulhosamente negra” e “spoken word”  (literalmente “palavra falada”, para dizer algo como recitação ou declamação pública de versos) como Gorman.  Marieke então foi excluída, buzinada pela chacrinha militante da época. “Como os holandeses, fui vítima da nova Inquisição (…), terei de procurar betume”, comentou acidamente Obiols.


Encalhados na tradução

A conversa não é mais sobre passagem de um idioma a outro, e todas as dificuldades que esse ofício impõe, ou sobre a singeleza da transcriação, como preferiam os concretistas, encabeçados pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e por Décio Pignatari. É, isto sim,  sobre a indispensável transposição, de autor para tradutor, de gênero — entre as novas e tantas sexualidades, ou não-sexualidades não sei mais — e grupo étnico, além do manifesto engajamento do candidato. O domínio pelo tradutor de uma língua de partida (no caso o inglês) e chegada (holandês ou catalão), além da respeitabilidade de  um currículo, passa a ser critério discutível. Doravante a obra de uma poeta negra será de toda ilegível, e vítima de apropriação cultural, se vertida por tradutora branca, como exemplo. Vai que Augusto de Campos, único sobrevivente da turma concreta, tradutor consagrado que nos deu acesso a algo de um plêiade de poetas em uma dúzia de idiomas, se encantasse com a obra de Gorman. Não ousaria vertê-la ao português. Aos 90 anos, não iria se expor à tamanqueira da cancelação.


Mario encalhado

Eu próprio posso ser uns dois ou três, no máximo, e “um dia afinal toparei comigo”. Mas Mario de Andrade, poeta, crítico, musicólogo, se definiu assim em um poema: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta”. Pode? Sua sexualidade enrustida é muito comentada, e ainda vão torná-la decisiva em releituras críticas de suas obras. O crítico e professor Antônio Cândido, amigo de Mario, disse, muito depois da morte do poeta: “O Mário de Andrade era um caso muito complicado, era um bissexual, provavelmente”.  Dito isso, a literatura brasileira não seria a mesma sem o seu legado, mas bem mais pobre.

Eu sou trezentos…

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.


Identidades encalhadas

“Uma parte de mim é todo mundo:/ outra parte é ninguém:/ fundo sem fundo”. Traduzir-se, poema de Ferreira Gullar (1930-2016), musicado por Fagner, e lindamente interpretado por Adriana Calcanhotto, daria uma rata se escrito hoje. Como assim “todo mundo”?, Gullar, e me perdoe por perturbar sua paz eterna. Não, o maranhense de São Luís, José Ribamar Ferreira, era homem branco binário (hetero, no caso dele). Sua poesia devia ter se prestado a questionar tal condição e seus privilégios. Nada de se espantar com nossa humanidade ferida, nada de compor o Poema sujo, obra supostamente universal, nada de se espantar com a dor da saudade no exílio e com os vãos da memória, depois de se ver escorraçado pela ditadura.

*

Não ergam estátuas de Gullar ou Mário. Será tempo perdido. Logo surgirá um grupelho furioso para botá-las abaixo.

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


Espanto encalhado

Gullar dizia, diz no vídeo acima, que seu acesso à poesia se dava pela claraboia do espanto. Sem espanto, ele afirmava, afirma no vídeo, não há poesia, ou há poesia ruim.


Poesia encalhada

A poesia e a arte encalharam.


Encalhe da invenção

Dizer que poesia e arte encalharam é dizer que a humanidade encalhou na rasura do utilitarismo, na croa da adoração da máquina, nos rasos do farisaísmo terminal.

*

“Uma poesia digna desse nome começa pela experiência da fatalidade. Só os maus poetas são livres”, anotou Cioran. Parece que hoje começa pela identidade.

*

No El País, Enrique Vila-Matas fala da “tenaz destruição da literatura por parte da indústria do livro”, e logo em seguida: “Um bom amigo costumava dizer que não ocorreria à nossa sociedade inventar agora a literatura, se não a houvesse encontrado já pronta”. Ele prossegue: “Pois como a sociedade capitalista ia inventar uma prática tão privada, tão improdutiva do ponto de vista social, e tão difícil de valorar do ponto de vista econômico?

*

Vila-Matas, aliás, lembra Paul Valéry: “Escrever: resolver numa nebulosa interna”. Helahoho! helahoho!


Leitura encalhada

Me pergunto: quem, entre as patrulhas morais, entre um tuíte aqui e uma manifesto corta-cabeças ali, ainda lê autores como Ferreira Gullar, Mario de Andrade ou Vila-Matas? Deduzo que ninguém. Quando muito leem a si próprios no Insta, no Face e no Twitter, e supostamente aos seus iguais, nos mesmos meios, para se encorajar mutuamente.


Bananão encalhado

O Brasil não é para principiantes, dizia Tom Jobim. Talvez seja para cegos. Por aqui, lucidez demais marginaliza.

*

“Dever da lucidez: alcançar um desespero correto, uma ferocidade apolínea”, escreveu, quem mais? Emil Cioran, tremendo desmancha-prazeres; por sinal, também lemos em seus Silogismos da amargura: “O Real me dá asma”.


Poderes encalhados

No Planalto Centrão, nem as Armas aguentam mais.

*

Mas quem pariu Mateus que o embale.

*

Vivemos encalhados, e esmagados pelo império da burrice.

*

Enquanto houver emendas e cargos, suas excelências parlamentares vão levando, entre um sinal amarelo e outro verde.

*

O Lira, cruz-credo.


Dois livros para entender o mundo encalhado

Saíram em português dois baitas livros-alicerces para quem realmente deseja saber onde estamos como espécie, e para onde podemos ir. Em Era do capitalismo de Vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder (Intrínseca, 800 págs., R$ 84,90. Ebook: R$ 62,91) a professora emérita de Harvard Shoshana Zuboff ensina que devemos dar menos atenção a detalhes como tecnologias, algoritmos e universo digital, e olhar para o quadro geral. A extração de dados comportamentais e seu uso para predizer e moldar hábitos de consumo é o busílis do sistema, do que se tornou a web, idealizada, na origem, como meio revolucionário fadado a democratizar o conhecimento, incrementar a democracia e libertar o ser humano. Deu no que deu. Shoshana não é apocalíptica e, creio, uma otimista. A regulação do capitalismo de vigilância, diz a autora, é a pauta das próximas décadas, o jogo decisivo para o futuro da democracia e das liberdades individuais.

*

A decodificadora (Intrínseca, 505 págs., R$ 79,90. Ebook: 49,41) escrito com uma clareza espantosa por Walter Isaacson, biógrafo de Einstein e Leonardo da Vinci, é o outro livro da hora. A história da cientista bambambã Jennifer Doudna, uma protagonista do desenvolvimento da ferramenta de edição genômica denominada CRISPR, é um sumário sobre o estado de arte da biologia e seus usos tecnológicos. Isaacson dá pinceladas precisas na história que começa em a Origem das espécies, de Darwin, e passa pela decifração do genoma humano, desde a descoberta da molécula de DNA e seu papel na hereditariedade até o domínio e simplificação da bioengenharia do CRISPR. As vacinas da Pfizer e da Moderna, desenvolvidas quase num estalar de dedos, não existiriam sem essa tecnologia. CRISPR permite sonhar tanto com a cura da anemia falciforme ou da doença de Huntington como com a edição de bebês perfeitos, mais bonitos, mais fortes e mais inteligentes. Ambos os sonhos custarão os olhos da cara, alguém duvida?


Vigiados e encalhados

Pouca gente sabe disso mas quem usa o Gmail, da Google, concorda em ter a correspondência monitorada por robôs, que prontamente vão lhe oferecer produtos, depois de ler palavras-chaves e sinais periféricos deixados pelo usuário, por meio dos anunciantes que contratam publicidade na companhia. No meu caso, matutei sobre o que podia pintar em minha caixa postal, diante do que às vezes escrevo a amigos. Conclui que as máquinas algoritmas ainda vão me empurrar formicida, uísque, algum livro de Paulo Coelho ou trozobas de autoajuda que nos ensinam a melhor a autoestima, além de meditação profunda, coaching e influencers. Tudo, claro, convites irresistíveis para se cortar os pulsos.


Desencalhado com Uriarte

Leio na Jot Down entrevista bacaníssima com Inãki Uriarte. Sua prosa me soa tão bem quanto nos Diários.

*

Uriarte é um rentista. Nunca teve de trabalhar para valer. Depois que parou de beber, passou a dedicar seu tempo à leitura. Tem 75 anos e vive em Bilbao, vizinho ao Guggenheim. Eis uma vida exemplar.


Desencalhado com Flaubert

É bem difícil entender a evolução do romance moderno, da escrita e da própria educação literária formadora, ocidental, sem Gustave Flaubert. No meu retiro no mato li, mais que reli, havia muito tempo que não pegava o livro, Madame Bovary – Costumes de província, na excelente tradução de Mario Laranjeira. Uriarte cita o poeta Auden na entrevista: «Ordinary human unhappiness is life in its true color» (A vulgar infelicidade humana é a vida em sua cor verdadeira). Mas ultrapassamos essa infelicidade vulgaridade por meio da literatura, ao deparar passagens como esta, em que Rodolphe, o amante de Emma, caçoa de seus ardores: “Pobre mulherzinha! Isso anda bocejando atrás do amor, como uma carpa atrás da água numa mesa de cozinha.”


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Encalhados no “vampirismo moral”

Uriarte se refere também, ao falar de outro assunto, a política no País Basco, à imposição da moral sobre a argumentação e a razão, que é atualíssima. Remete ao escritor espanhol Sánchez Ferlosio, que cunhou a expressão “vampirismo moral”, e gostava de citar o sociólogo Max Weber sobre o farisaísmo das patrulhas da moralidade. Suas guerras, em nossos dias, acrescento, se estendem ao combate à pluralidade e à liberdade de opinião.


Encalhe profissional

Profissionalmente, sou encalhado e encalacrado. Consegui ganhar a vida, depois de deixar as redações, com biscates variados, alguns bem pagos, mas em espírito nunca me movi dos bancos de areia do jornalismo, especialmente do jornalismo cultural. Me sentia, me sinto, velho demais me “reciclar” como “analista de comunicação”, “especialista em marketing digital” ou criador de galinhas, portas onde muitos, entre os mais jovens, foram bater, depois do tsunami que varreu a imprensa no mundo inteiro. Não dediquei mais da metade de minha vida para me tornar uma micróbio do capitalismo de vigilância. Sempre encarei o jornalismo como trabalho mental e intelectual. Nada tem a ver com a produção de porcas e arruelas das relações públicas, ou com a falsa arte dos publicitários. Uma parte de mim pode ser todo mundo, não no meu ofício, profissão de fé, ainda que, tantas vezes, seja o segundo mais antigo do mundo. Encalhei na minha “zona de conforto”, se você quiser, mas jamais compraria essa pedagogia rastaquera de coachings e influencers.


Encalhado no determinismo


Estou longe do jansenismo, aliás da religião, mas a ciência nos mostra sem grandes complicações que o livre arbítrio é conversa para boi dormir.


Encalhado na JU


A Jurupoca é um encalhe, um zona morta de conforto, um trabalho inventado que me toma, entre ler e escrever, sete dias por semana. Mas tem leitores valorosos.


Encalhados com a JU

O leitor da Jurupoca provavelmente concorda com Paulo Francis, que escreveu isso ainda no neolítico, em 1984: “Jornalismo está num baixo tremendo. Oscila de tentativas de agradar da ralé à propaganda. É o jornalismo-rinoceronte à la Ionesco [pausa para informar que o corretor ortográfico do Word desconhece o romeno patafísico, e por sinal a patafísica.]. Bajular a massa não a ensinará a ler. Deve haver muita gente que gostaria de ler palavras civilizadas. Não está sendo atendida.” Waaal, exclamaria o fantasma de Francis baixado em 2021, ao abrir o The New York Times, a The New Yorker ou qualquer jornal brasileiro no advento do caça-clique, da google-dependência e da “clareza moral” progressista. No comentário de Millôr Fernandes: “The cow went to the swamp”, a vaca foi brejo.

*

 Millôr, por sinal, propunha como tradução para Aspone (Assessor de porra nenhuma): “Saaa (Sperm at all assessor)”.

*

Francis queria ser o fantasma do Museu Metropolitano de Nova York. Deve rondar por lá, feliz da vida com a gloriosa ausência do público expulso pelo Corona.


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Desencalhado pela arte

O quadro de Francisco de Zurbarán (1598-1664) ilustrava uma matéria do site da Piauí. Não vi mais nada, não quis ler nada, não me lembro do assunto. A reprodução da natureza morta me roubou o olhar. Algo transcorreu (espanto?, êxtase visual?) na tarde de segunda-feira, dia 29.

*

Comecei a prestar atenção a Zurbarán ao ler e reler o relato Caminhos para Santiago, de Cees Nooteboom, e admirar a paixão do escritor holandês pelo espanhol.

*

Este Bodegón con limones, naranjas y rosa me fez mover a alma da croa. Foi pintado no ano anterior à morte do artista, e hoje pertence ao acervo da fundação Norton Simon, do Instituto de Arte de Pasadena, na Califórnia.

*

O cesto no meio da composição concentra uma luz transcendente, a quintessência da cor. Os outros objetos conformam uma noção cabal de harmonia. As folhas verdes rimam com amarelo e laranja. As sombras deslizam sobre o verniz da mesa e os pratos de estanho, suavizando o efeito do claro-escuro. A rosa equilibra os volumes, e Zurbarán nos manda uma piscadela.




AS 10 MAIS DA ‘MPB’ NESTE SÉCULO

A “linha evolutiva” na MPB, bolação de Caetano Veloso no longínquo 1966, encalhou, como todo mundo sabe, em algum momento nos primeiros anos 1980.

Mas o pulso ainda pulsa, ainda que, em geral, nos antebraços dos mesmos criadores que, dei gratia, gozam do aumento da expectativa de vida no mundo, inclusive no Bananão de Ivan Lessa. Que já estejam todos vacinados!

A Rádio Siutônio compartilha com você uma eleição das dez mais lindas canções lançadas no século 21.

São dez rubis da ‘MPB’, ou reminiscências do gênero nos seus estertores, o que é mais provável.

A ordem da lista é cronológica e decrescente. Não se trata de ranking, não.

*

Francis Hime marcou o aniversário de 80 anos com Hoje (Biscoito Fino, 2019), álbum com repertório inédito. No meu modo de ver as coisas, ganhamos dele um presentão chamado Samba dolente, com uma beleza de letra escrita por Olivia Hime, artista que é sua mulher de uma vida inteira. É um samba cadenciado e maduro, que recorda a maestria de Paulinho da Viola. A melodia é pura invenção de um craque. E os versos parecem reiterar cada nota em linguagem verbal. Falam em tom resignado do “fim de um enredo nunca escrito” e na consolação que é o “avesso da partida” proporcionado pelo amor e pela arte, na expressão de um samba.  “Ah! Como é breve a partida/ Sim, cada instante é uma partida/ Rompendo num único momento/ O que foi, o que seria/ Como se rachasse o tempo/ Como se morresse a luz…”, começa. Não perca o trompete de Jessé Sadoc do Nascimento, ou a sutileza dos “comentários” da cuíca de Marcus Thadeu.

1 – Samba dolente (Francis e Olívia Hime)


Gal Costa lançou A pele do futuro (Biscoito Fino) em 2018, seu 40º álbum, com uma “curadoria” complicada sobre reinvenção de si própria, retomada dos gêneros soul e disco tralalá. Mas as duas canções que sustentam a gravação mal foram notadas pela crítica cultural subsistente, e nada têm a ver com o tralalá.

Ambas apresentam andamentos lentos e letras reflexivas, maduras, filosóficas até, se assim queremos.

2. Viagem passageira (Gilberto Gil)

Teclados, violinos e violas de arco emolduram a voz de Gal. Um Gil bem rodado, nunca decadente, reflete sobre a morte, a “imunidade do tempo” no fim dessa “aventura passageira” que é a vida e o próprio ofício do compositor nesta canção “ainda passageira”.

O mestre baiano, de incomparável destreza e inteligência musical entre seus pares, verseja com a grandeza e a delicadeza perdidas sob as invasões bárbaras e o rebaixamento cultural: “Não mais o esperma e o óvulo da morte/ Não mais a incerteza do binário/ Um tempo liso sem o fuso horário”.

3 – Livre do amor (Adriana Calcanhotto)

Um breve riff  de bateria (Pupillo) abre esse lamento em tom maior sobre a liberdade do amor, que se atinge, diz a canção, com a própria superação do amor, referindo-se mais propriamente à paixão, quando se deixa para trás as “canções melosas” e as “ânsias e anseios” de “vãos pertencimentos”. Preste atenção na guitarra deslizante de Guilherme Monteiro e no trompete altivo de Paulinho Viveiro.


Já de mala e cuia na gravadora Biscoito Fino, Chico Buarque lançou três álbuns com faixas inéditas nas duas década do milênio novo. O artista segue, desde o “fin de siècle” passado, o intervalo autoimposto de cinco anos entre a música, show e disco, e a escritura de seus romances. Chico jamais perdeu a classe e o rigor ao pegar o violão para compor; ao contrário, se fez ainda mais exigente. Pinço duas canções de Chico (2011) e a música-tema do álbum mais recente, Caravanas (2017)

4 – Nina

Já abusei da paciência do leitor, na JU #41, ao dizer de meu encantamento por essa música:

Nina é uma valsa de lírica essencialmente buarquiana na delicadeza e na imaginação da figura feminina. Aqui, decanta melancolicamente uma jovem de Moscou cuja casa pode bem ver na tela (pelo Google Street View?).

A letra, que pode não ser poesia mas é quase-poesia, e certamente literatura, quem sabe outro gênero, como sugeriram poetas e letristas espanhóis reunidos pelo Babelia do El País. Só os muito empedernidos fazem questão de não notar que Chico jamais foi abandonado pelas musas, o que fica claro, claríssimo, diante de seu verso sempre rigoroso, como em “Nina diz que fez meu mapa/ E no céu o meu destino rapta/ O seu” (vejam que astrologia e alusões mitológicas se misturam aí), ou em “Nina anseia por me conhecer em breve/ Me levar para a noite de Moscou/ Sempre que esta valsa toca/ Fecho os olhos, bebo alguma vodca/ E vou”.

O arranjo de Luiz Claudio Ramos é enxuto e exato, na medida para conferir a atmosfera em tom menor que a canção demanda, e que realiza plenamente. Ramos e o próprio Buarque fazem os violões, Jorge Helder está no baixo, João Rebouças no piano e Hugo Pilger no violoncelo; o acordeão é de Marcos Nimrichter.

5 – Sinhá (Chico e João Bosco)

Vou com a versão de João Bosco, de 2017, incluída em Mano que zuera, álbum do selo MP,B/Som Livre, talvez pelo violão ainda mais pleno (João também toca na gravação de Chico) e o gogó aprimorado do mineiro ponte-novense. O bandolim de Luiz Barcelos nessa gravação aprofunda as alusões coloniais da letra, uma fantasia autobiográfica e intemporal do letrista ao imaginar o conto de um “cantor atormentado”, “herdeiro sarará” das “mandingas” do escravo de “um feroz senhor de engenho”, escravo torturado. talvez, vai se saber, porque “enfeitiçou sinhá”: “Por que talhar meu corpo/ Eu não olhei Sinhá/ Para que que vosmincê/ Meus olhos vai furar/ Eu choro em iorubá/ Mas oro por Jesus/ Para que que vassuncê/ Me tira a luz?”.

6 – As caravanas

A Orquestra Mundana Refugi, formada em São Paulo por músicos brasileiros, alguns africanos, palestinos, um chinês, gravou em 2018 uma versão irresistível dessa música. Os arranjos são de Carlinhos Antunes e Daniel Muller, com o emprego de instrumentos incomuns no Brasil, e uma citação muito bem encaixada de Deus lhe pague, faixa de Construção, LP lançado há 50 anos. A parte de cordas é a mesma do arranjo original de Luiz Claudio Ramos, gravado no CD do Chico. Diga-se o que quiser sobre a história, sociologia e até economia que a letra traz à baila, como bem fez Samuel Pessoa. As caravanas põe pretos pobres da periferia (“suburbanos tipo muçulmanos”), rejeitados como a peste pelas elites da zona sul carioca nas suas praias, no plano simbólico de escravos “empilhados nos porões” dos navios negreiros. Nada menos. É forte. Mas ninguém faz letra no mesmo nível de Chico. Pitada: “Sol, a culpa deve ser do sol/ Que bate na moleira, o sol/ Que estoura as veias, o suor/ Que embaça os olhos e a razão/ E essa zoeira dentro da prisão/ Crioulos empilhados no porão/ De caravelas no alto mar.”

Abraçaço (2012, Universal Music), o melhor disco de Caetano Veloso com os rapazes da banda Cê, é aberto com A Bossa nova é foda, agudo comentário do artista que procura atualizar o “mito das raças tristes” e reafirmar a elevação cultural expressa em João Gilberto.


7 – A bossa nova é foda

A Carta de Quarentena #4 deitou algumas linhas sobre essa música. A JU procurou entender as referências culturais da letra que aparecem na segunda estrofe, nos comentários entre colchetes:

Para quem se interessar por um estudo caprichado da letra e música de A bossa nova é foda há este artigo no Art Research Journal de Fausto Borém, professor titular da Escola de Música da UFMG. Transcrevo a letra como a vejo no encarte do vinil que tenho à mão.

“O MAGNO INSTRUMENTO GREGO ANTIGO [A lira, o instrumento, e também o Lyra, Carlinhos, um dos criadores da Bossa Nova, 81 anos no próximo dia 11.]

DIZ QUE QUANDO CHEGARES AQUI

QUE É UM DOM QUE MUITO HOMEM NÃO TEM

QUE É INFLUÊNCIA DO JAZZ [O Lyra de novo, e duplamente. Alusões às bossas Maria Ninguém, gravada por Brigitte Bardot e à deliciosa Influência do jazz, também um samba-jazz metamusical e metatextual pra ninguém botar defeito.]

E TANTO FAZ SE O BARDO JUDEU

ROMÂNTICO DE MINNESOTA, [Bob Dylan, óbvio]

PORQUEIRO EUMEU

O RECONHECE DE VOLTA A ÍTACA: [Argos, o cão de Ulisses na Odisseia, envelhecido e abandonado numa estrumeira, é o único a reconhecer o dono de volta à ilha natal, depois de muito guerrear. O porque/porqueiro é uma jogadinha semântica de alto gabarito.]

A NOSSA VIDA NUNCA MAIS SERÁ IGUAL

SAMBA-DE-RODA, NEO-CARNAVAL, RIO SÃO FRANCISCO,

RIO DE JANEIRO, CANAVIAL, [Caetano situa os polos geográficos da Bossa Nova entre a Bahia e o Rio de Janeiro.]

A BOSSA NOVA É FODA.”


Zé Miguel Wisnik, este jornal tem insistido, é um dos grandes da continuação do que podemos, como resiliência, ainda denominar MPB.

Não é alcançável pelos rebanhos, se disse na JU #53. Esta Pérolas aos poucos é do álbum de mesmo nome de 2003 (Maianga Discos).

Poucos, também foi dito carta, é uma palavra polissêmica na canção, inclusive uma troça poética com Mateus 7,6: “Não deis aos cães o que é santo, nem atireis as vossas pérolas aos porcos, para que não pisem e, voltando-se contra vós estraçalhem.”

8 – Pérolas aos poucos (Wisnik e Paulo Neves)


Gilberto Gil saiu de uma enfermidade séria, em meados da segunda década do novo século, com comentários poéticos sobre suas vivências hospitalares.

Mostrou-se grato e encantado pelo doutor que o tratou, em Kalil, uma das faixas-bônus de Ok Ok Ok (Geleia Geral, 2018), e em outra,Quatro pedacinhos, se inspirou numa biópsia do músculo cardíaco, requerida pela doutora Roberta Saretta, sua médica no hospital Sírio Libanês.

A melodia é entoada com fina prosódia na repetição de “pedacinhos”, na abertura do samba, e diz a estrofe: “Ela mandou arrancar quatro pedacinhos do meu coração/ Depois mandou examinar os quatro pedacinhos/ Um para saber se eu sinto medo/ Um para saber se eu sinto dor/ Um para saber os meus segredos/ Um para saber se eu sinto amor”.

Note a classe das imagens, a fina ironia com a fragilidade do corpo, ironia que exalta a humanidade de um poeta e músico abençoado.

Uma curiosidade sobre o vídeo. No cenário em que a bailarina evolui deliciosamente aparece a obra True Rouge, de Tunga, instalação permanente do Instituto Inhotim.

9 – Quatro pedacinhos

Vitor Ramil lançou o canônico CD Tambong (Satolep Music) no ano 2000. Ok, ainda não era oficialmente século 21, mas calha bem nesta lista. O álbum traz algumas joias como Foi no mês que vem, em que Ramil é acompanhado por folguedos atonais de Egberto Gismonti ao piano, e Não é céu. Se posso eleger apenas uma entre as duas para fechar esta lista, fico com a segunda, que aliás nomeia o “songbook” do artista lançado em 2013 — muito bem recomendado aqui — com participação de Milton Nascimento. O arranjo e o duo são viciantes. Ouça uma segunda vez apenas para apreciar o baixo servido por André Gomes.


10 – Não é céu

Até mais ver.


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