Bia Burra do Bradesco no BBB

Jurupoca_66, 9 a 15/4/2021, ano 2


Foto no alto: Andrea Piacquadio/Pexels | Licença Creative Commons


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Inteligência artificial já tem sexo?

A superinteligência criativa da publicidade diz que sim.

Bia, esta celebridade, todo mundo sabe, é acrônimo de Bradesco Inteligência Artificial.

O cliente do banco nunca tem seu problema resolvido por madame Bia. É sempre enrolado, que é para isso que servem tais robôs.

Uma hora, humanum est, ninguém é de ferro, manda a Bia à ponte que partiu. Acontece muito.

Opa. Peraí. Gênios da propaganda viram uma oportunidade de fazer proselitismo com a clientela feminina e a má consciência do país.

A suposta campanha vende a marca e, por tabela, combate o assédio sexual, um combate tão em voga, não é?, e como se vê, lucrativo.

Tomaram, a peso de ouro, um minuto da abertura do Jornal Nacional para anunciar que a Bia se cansou.

Daqui pra frente tudo vai ser diferente.

Vocês, assediadores, porcos chauvinistas, vão ter de aprender a ser gente.

Bia vai responder os engraçadinhos que a chamam para sair ou a mandam catar coquinhos.

“Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal”.

A frase de Millôr Fernandes, ao falar de Chico Buarque, vale ainda mais para o “idealismo” de campanhas publicitárias melosas que exploram crianças, velhinhos, e pregam contra o racismo e o assédio sexual.

Poucas e boas, diria o primo Franquilim.

O capital tecnológico poupa milhões de postos de trabalho contratando inteligência artificial.  

(Calcula-se que quase 60% dos empregos formais serão cortados nos próximos 20 anos, com IA).

O preço adicional dessa tarifa é a tortura que sofremos estando à mercê de robôs programados por grandes lojas e financeiras, robôs burros feito portas.

Apesar disso, da burrice, normalmente são “femininos”.

Por quê?

Como diz minha mulher, deveriam ser “homens”.

São, afinal, os homens, tais robôs, que não conseguimos prestar atenção no que elas nos dizem, não é mesmo? 

Sim, por que mulheres?

Não haveria sexismo em reproduzir no mundo da IA certos estereótipos?, questionava a JU#08 na notinha Amélia, a IA de verdade.

Dizia o texto: Tem a Joice da Oi, a Aura da Vivo, a Lu do Magazine Luiza e, vejam só, a Amélia da Shell.

“Esses nomes femininos viraram a forma de ‘humanizar’ a interface automatizada de marcas”, explica alguém nesta reportagem de Lílian Cunha

Humanizar, sei.

Observava, a JU, que a inteligência artificial é saudada com um novo passo do imparável progresso humano em linha reta.

Os criativos nos impõe Bias e Auras e Lus como aumento da produtividade, valor agregado, em nome do acionistas e do PIB.

O que é bom para o capital financeiro é bom pra todo mundo, aprendemos de uma vez por todas em 2008, na crise do subprime.

IA, eis a mensagem, é muito superior à estupidez da interface humana.

Moral desse história amoral: com sua nova campanha, o Bradesco conseguiu equiparar a inteligência da mulher brasileira à da Bia Burra. Que feito.

Por isso, sugiro gratuitamente à TV Globo reunir no BBB22, na “Famosa Casa”, as “assistentes virtuais” Bia, Amélia, Joyce, Lu, a Marina do Super Nosso (supermercado do Belo) e outros heroínas do novo feminismo tocado a Inteligência Artificial.

(É questão de tempo pintar um #MeToo/IA (sugiro dar o nome Medeia à assistente virtual do movimento) e as/os (não sei como escrever no idioma assexuado) robôs dignos representantes LGBTQI+Ipsilone e de todas as “raças”.

A audiência, de olhos vidrados e molhados, vai amar.

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


O filósofo coreano Byung-Chul Han é professor da Universidade de Arte de Berlim

É preciso atualizar a divisa “Livre como um táxi”, de Millôr Fernandes. Proponho Livre como um Uber.

No Pasquim, o humorista quebrou o clichê ao tirar o pássaro da jogada, isto é, da conhecida frase, e produzir uma magistral ironia com a extensão da liberdade humana.

Com o Uber, e a “uberização”, as margens da liberdade estreitaram-se ainda mais, embora o mito das Big Tech diga o contrário.

O moto próprio e a vontade de um motorista de Uber são, para dizer o mínimo, relativos.

Ele, ou ela, conduz seu carro e oferece um serviço controlado, supervisionado e avaliado por inteligência artificial.

O verdadeiro condutor é o software de uma empresa que em geral paira sobre estados e normas legais, livre de barreiras e regulações.

O carro automático está no horizonte do Uber para chegar à perfeição.

O Uber torna mais fácil entender a “sociedade do desempenho”, formulada pelo filósofo Byung-Chul Han, movida pela ideia de liberdade e desregulamentação.

O ensaio de Han A sociedade do cansaço é um dos temas dessa desta edição.

A “sociedade do desempenho” estabelece a superação permanente da produção e da dedicação ao trabalho,

Com o Uber nasceu o termo uberização do trabalho.

Expressa, a uberização, a falsa liberdade de “colaboradores” em um mundo sem pressão sindical e sem cartão de ponto, pontuado pelo celular e aplicativos online.

Não há ‘dentro e fora’ no novo mundo, mas um único plano, e uma imensa promiscuidade entre o  trabalho e a vida pessoal.

(No mês passado, analistas do banco Goldman Sacks, pediram formalmente para trabalhar “apenas” 80 horas , em vez das 95 semanais de praxe.)

No lugar do patrão ou chefe onipresente, no novo sistema o indivíduo é vítima de uma autoexploração.

A famigerada síndrome de burnout, diz Han, é o sintoma patológico dessa autocoação, uma liberdade idealizada que torna o sujeito “livre” a um tempo senhor e escravo de si mesmo.

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Millôr Fernandes, lembra Sérgio Augusto, dizia que “Os pássaros voam porque não têm ideologia”.

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Helahoho! helahoho!
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Nossa ‘fraternidade’
com o Corona

O coronavírus mede 70 milionésimos de milímetro. É tão pequeno quanto uma galinha em relação ao planeta Terra, na escala proposta em ótima reportagem do El País.

*

“Um vírus com 30.000 letras em seu genoma não devia poder mutar de forma muito eficiente, entretanto sua expansiva fraternidade hoje conta com bilhões e bilhões de membros que vão testando sua sorte ao acaso”, matuta Ian McEwan. O artigo está no Wall Street Journal (em inglês) e no El País (em espanhol).


Os Lessa Brothers
e o privilégio selvagem

Elio Gaspari mistura na categoria “elite mineira” os inconfidentes, os signatários do manifesto contra a ditadura Vargas e os Lessa Brothers, os Irmãos Cara de Pau que tramaram uma vacinação clandestina e fajuta para si e os seus. “Os maganos pagavam R$ 600 pelo imunizante, e a Polícia Federal acha que o fármaco era falso. Bem-feito”, mangou o colunista.

*

Mas o sentido de “elite” foi intoxicado pela política mequetrefe até se tornar um chavão de porta arrombada. É preciso recuperar dignidade do termo.

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Elite traduz essencialmente valor e qualificação. Messi é um jogador de elite; a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, Margareth Dalcomo, ou a neurocientista Suzana Herculano-Houzel estão na elite da ciência; Marcelo Viana e Artur Ávila são matemáticos de elite etc.

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Os Lessa Brothers, concessionários do ninho de ratos que é o transporte público no país, não são elite de coisa alguma.

*

São, sim, plutocratas patrimonialistas exercitando privilégios sagrados num país selvagem.

*

Nosso Parlamento é um viveiro da raça, a mesma, por sinal, que quer ver logo vacinada, antes da ralé nas filas do SUS.

*

O padrão do nosso transporte público está para o do saneamento básico, como o da educação está para desigualdade de oportunidade e a miséria.

*

O privilégio selvagem do patrimonialista, pai e mãe da corrupção, mantém seu jurássico rabo preso nessa simples equação.


A Piauí vai mal

Não se consegue ler nada do início ao fim nas duas últimas edições da Piauí. A recente troca de diretor de redação parecia promissora. Mas não. Que pena. A revista já foi um oásis no deserto de nossa imprensa.  


Negador-em-chefe

Um negacionista na Presidência é como um Napoleão de hospício a governar o manicômio? Não. É muito pior. É impensável, pois sem precedente. Mas é de embrulhar o estômago.

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“Os homens normais não sabem que tudo é possível”, David Rousset, citado por Hannah Arendt em Origens do totalitarismo.

*

O negacionista terá sido incorporado por uma espécie alienígena?  

Cena de Invasion of the Body Snatchers, no Brasil Vampiros de almas (1956), filme dirigido por Dom Siegel

A verdade cria homens livres, a mentira escraviza e fanatiza.

*

Nunca é demais rever um Goya como este O sono da razão produz monstros.

Francisco de Goya, Caprichos: O sono da razão produz monstros. Cortesia Museu do Prado

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Scorsese e Fellini

No condolente e melancólico O maestro: Federico Fellini e a magia perdida do cinema, Martin Scorsese constata (artigo em inglês aqui, em espanhol acolá) a irrelevância da sétima arte na era do “conteúdo” e do streaming.

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A arte verdadeira entra no mesmo sopão de filminhos sobre gatos, séries pueris, franquias Marvel e documentários furrecas.

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“Os algoritmos, por definição, baseiam-se em cálculos que tratam o espectador como consumidor, e nada mais”, anota o diretor.

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Scorsese encontra alento ao rever a obra de Fellini, de quem foi amigo, numa caixa Blu-ray recém-lançada.

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 “Ver um filme de Fellini era como ouvir Callas cantar, ver Olivier atuar ou Nureyev bailar”, exalta sua, nossa, nostalgia.

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Os filmes do italiano começaram a incorporar seu nome, como em O Casanova de Fellini. O fenômeno só é comparável a Hitchcock, mas Scorsese os distingue. Um é uma marca, ele diz, o outro um virtuoso do cinema.

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 Scorsese comenta a grandeza de longas como La dolce vita, e revela sua predileção por Oito e meio.  


Acabou

“Conteúdo”, tudo e nada, é o fim do jogo.

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 Apocalípticos e integrados, expressão no famoso título da obras de Umberto Eco sobre o debate ideológico dos mass média (meios de comunicação de massa, a indústria da cultura) nos anos 1960, caducaram.

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A massa virou pó, ou átomos, ou partículas elementares.

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A indústria cultural uberizou-se no gosto médio. O público tangido por algoritmos jamais vai pagar para ver “cinema de arte”.

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O próprio ser humano entra no fluxo do “conteúdo”, na ponta do consumo. Somos todos nivelados pelo piso, partículas elementares clicantes.

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Agora, se você pode pagar pela plataforma Filmin (6,95 euros por mês), não pense duas vezes. Quem se sente no inferno na Netflix pode alcançar o paraíso.


Irrelevância

Cultura e arte tornaram-se irrelevantes num mundo de indivíduos soberanos, um mundo que aboliu qualquer necessidade de transcendência, e que elevou o corpo e a saúde a bens supremos, início e fim, última instância.

*

O filósofo coreano Byung-Chul Han, estabelecido entre a Suíça e a Alemanha, fala da “vida desnudada”. Nela, o ser desinfla como um balão furado, o que conduz à pergunta: “em função do que valeria a pena estarmos saudáveis”.

Capas das edições norte-americana e brasileira do livro de Han

Han escreve, o grifo é dele: “A saúde torna-se autorreferenciável e se esvazia num expediente sem meta.

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O filósofo pop recorre a Nietzsche, que dissera, diz Han, “que após a morte de Deus a saúde se erige como deusa”.

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Sociedade do cansaço (Vozes, 136 págs., R$ 29,75, Ebook: R$ 17,91), o ensaio de Han, com ares de panfleto filosófico, tem ideias interessantes para uma conversa entre pessoas inteligentes.

*

Traz um monte de exageros, é verdade, e esnoba, subestima ou ignora a ciência médica de maneira tola, ao tratar da depressão e outra doenças. O que não impede que este livro, lançado em 2014, mantenha-se atualíssimo e referencial.


O “infarto da alma”

Por que nos tornamos escravos do trabalho?

A sociedade disciplinar, da ética do dever e da coerção, estudada por Freud e Foucault, foi superada pela sociedade do desempenho, defende Byung-Chul Han.

*

Vivemos um excesso de “positividade”, de sim, de estímulos, informações e impulsos, e uma pobreza de “negatividade”, de “nãos”.

*

(Essa positividade, me ocorre, aboliu a crítica. Na era da correção política e da infalibilidade moral, ninguém, ou nenhum produto cultural pode ser verdadeiramente objeto da crítica, pois é da natureza dessa prática apontar “sins” e “nãos”. Aliás, a própria obra já se autocensura sob o poder das novas e santas inquisições.)

*

No lugar das pressões da obediência, entram as pressões da superação permanente do desempenho e da produção.

*

Han diagnostica uma “violência da positividade” que se manifesta em “superprodução, superdesempenho e supercomunicação”.

*

O mundo de presídios, quartéis e fábricas saiu de cena.

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No lugar entra uma “sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética”.

*

 “O excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma”, formula Han, como metáfora para “adoecimentos neuronais” como depressão e síndrome de burnout.


Economia da atenção

A atenção moderna, ou pós-moderna, ou da segunda modernidade, ou como se queira, foi fragmentada pelo excesso de informações e estímulos, como nos jogos eletrônicos, que se considera uma nova modalidade artística. Sem a capacidade e ver e contemplar, não pode haver fruição da arte.

*

Nem pode haver contemplação da natureza, por sinal.


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“A paisagem pensa-se em mim”

Sem a atenção profunda e o “recolhimento contemplativo” não dá para sairmos de nós e verdadeiramente notar uma passagem. Han cita o filósofo Merleau-Ponty sobre Cézanne:

“De princípio ele tentou ganhar claridade sobre as camadas geológicas. Depois não se moveu mais do lugar e apenas olhava, até que, como dizia Madame Cézanne, os olhos lhe saltassem da cabeça. […] A paisagem, dizia ele, pensa-se em mim, eu sou sua consciência”.


“Zumbis fitness”

Han tem estilo e é afiado. “Nós nos transformamos em zumbis saudáveis e fitness, zumbis do desempenho e do botox”, ele escreve.  

*

“Assim hoje, estamos por demais mortos para viver, e por demais vivos para morrer”, trocadilha.


Fim de festa

Para Byung-Chul Han, não sabemos mais celebrar. Se nada é sagrado nada é profano. Esquecemos da festa.

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Mas fomos feitos para ser “brinquedos de Deus” (Plantão). Ora, deuses não trabalham, e nada produzem.

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“Hoje, a vida está perdendo cada vez mais intensidade. A vida sadia como sobrevivência é o nível absolutamente mais baixo da vida”, formula o coreano.


A nova era tá aí, a nova era chegou

Os technogurus não cansam de alertar. As máquinas inteligentes estão chegando. Quem não se preparar para isso se verá a mão de calango.

*

“Esqueça seu bacharelado em história europeia”, escreve Curtis White na elegante revista trimestral Lapham.

*

O futuro é de quem estudar ciência, tecnologia, engenharia e matemática, as disciplinas STEM, na sigla em inglês. O resto é silêncio, e desemprego.

*

White, claro, ironiza a certeza de que não há alternativa ao capitalismo tecnológico, ou de vigilância, ou à economia da eficiência e da aceleração, ou como se queira.

*

A vida é provida e vivida na tela do computador, trabalho, compra e venda entre quatro paredes.

*

 “Lá fora”, no exterior, as estrelas se apagam com a iluminação urbana e a poluição do ar, o próprio céu desaparece. Esse artificialismo é o céu da prosperidade.  


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Livres da Som Livre

A Globo vendeu a gravadora Som Livre para a Sony. Boa notícia para quem segue o Fantástico e outros programas da emissora. Deve se ver livre da onipresença de Wesley Safadão, Marília Mendonça e toda uma trozoba de “sertanejos”.]


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Yamandu

Yamandu Costa é um dos grandes. Seus contemporâneos somos uns sortudos. Na pandemia, vivendo em Lisboa, podemos vê-lo se apresentar semanal e gratuitamente na rede. Sua criatividade é borbulhante.

*

Semente Música Viva é um projeto que herda o espírito do glorioso Bar Semente, na Lapa carioca, fechado, creio, em 2017. Yamandu faz a direção artística e Aline Brufato, uma das ex-proprietárias do bar, assina criação e direção artística.

Programação

  1. Sexta-feira, 2 de abril – 20h30 às 21h30 – Yamandu Costa
  2. Sábado, 3 de abril – 20h30 às 21h30 – Marcello Gonçalves e Anat Cohen (vídeo abaixo)
  3. Domingo, 4 de abril – 20h30 às 21h30 – Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker
  4. Sexta-feira, 9 de abril – 20h30 às 21h30 – Bebê Kramer
  5. Sábado, 10 de abril – 20h30 às 21h30 – João Donato
  6. Domingo, 11 de abril – 20h30 às 21h30 – Semente ChoroJazz

*

Franquilim da Silva, primo do Siutonio Anthuvis, mandou aplausos, aplausos e aplausos para Marcello Costa e Anat Cohen. Regalou-se com todo o repertório, e quase babou com a versão de Paula e Bebeto (Milton Nascimento e Caetano Veloso).

*

Oba, Marcello e Anat preparam o lançamento de um novo álbum, depois do sucesso de Outra coisa, em que interpretam a obra de Moacir Santos.

*

Escreveu Franquilim ao pé do vídeo:

Simpatia, teu nome é Anat! A música da dupla é simpática, o sete cordas de Marcello é simpático, a clarineta de Anat é simpática: Salve, simpatia!

*

Tocaram In the Spirit of Baden, composição de Anat. A música é uma festa. E evidencia o quanto a arte de Baden é viva. Não se pode esperar mais de uma homenagem.

*

Anat é israelense, com residência em Nova York. Mas não fica muito longe do Brasil. Conta que o choro lhe mudou a vida.

*

Depois de uma carreira como saxofonista de jazz nos EUA, adotou a clarineta para tocar choro no Rio, e não largou mais o instrumento. Fala português bem e graciosamente.


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DEZ CANÇÕES PARA SAIRMOS
DA ‘GARGANTA DO FOSSO’

O mote aí do título é de A terceira lâmina, canção-profecia de Zé Ramalho que integra este programa da Rádio Siutonio.

A letra  de Ramalho escrutina “a cabeça do homem”, que “afastado da terra” pensa na “fera que o começa a devorar”.

Sim, pelo humor, beleza, poética, riqueza melódica e harmônica, as dez músicas que se seguem podem bem dar a um cristão uma ideia de como sair do “poço/ da garganta do fosso/ na voz de um cantador”.

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1 – Vampiro (Jorge Mautner)

Trufa branca de Cinema transcendental, álbum de Caetano Veloso com A Outra Banda da Terra, de 1979. Era, veja você, o LP de Oração ao tempo, Cajuína, Trilhos urbanos, Elegia, Beleza pura. Puxa vida. O vampiro luxurioso, um chocolate com pimenta, é incorporado por Caetano e seu violão. A criatura vai “sugando o sangue dos meninos/ e das meninas” que encontra. O humor refinado da letra afirma a rica contribuição de Jorge Mautner à MPB. Gosto especialmente de duas quadras (a segunda remete à navalha nos olhos, imagem icônica do filme O cão andaluz, de Luis Buñuel.)

(…)

E fico embriagado de você
E fico embriagado de paixão
No meu corpo o sangue já não corre
Não, não, corre fogo e lava de vulcão

(…)

Você é uma loucura em minha vida
Você é uma navalha para os meus olhos
Você é o estandarte da agonia
Que tem a lua e o sol do meio-dia


Agora, três canções de uma trilha sonora muito melhor que o filme que ajudou a rodar, Para viver um grande amor (1983), dirigido por Miguel Faria Júnior. São parcerias de Chico Buarque e Tom Jobim, Carlos Lyra, Vinícius de Morais e Djavan. Como o LP original não está nas plataformas de streaming, pincei as melhores versões que achei nos três casos.

2 – Meninos, eu vi  (Tom Jobim e Chico Buarque)

Faixa do CD As músicas de Tom Jobim e Chico Buarque, da formação Quarteto em Cy – MPB 4 (1997), com participação de Chico.

3 – Sinhazinha (Despertar), de Chico Buarque

Mônica Salmaso é acompanhada ao piano por André Mehmari, em fraseados com inflexões webernianas. De Iaiá, CD de 2003.

4 – A violeira (Tom Jobim e Chico Buarque)

“Não tem carranca/ Nem trator, nem alavanca/ Quero ver quem é que arranca/ Nós aqui deste lugar”, diz o refrão deste xote, ou xote-rapsódia segundo o professor Roniere Menezes. A canção acompanha a saga de uma emigrante nordestina que sai do Crato, Ceará, e entre idas e vindas, amores e biscates, arranja uma penca de filhos até que vai dar com a família, feliz da vida, no Rio de Janeiro, em Ipanema. Do show Na carreira (2012), de Chico.


5 – Mineira (João Nogueira e Paulo César Pinheiro)

Sambão para ninguém botar defeito, desses que põem um defunto a balançar. Cada fonema da letra, rica em aliterações, se agrega à um percussão completa, com a “baixaria” magistral de um violão por comissão de frente.

“(…) Ô mineira
Samba que samba no bole que bole
Oi morena do balaio mole oi se embala do som dos tantãs
Quebra no balacochê do cavaco ou rebola no balacubaco
Se embola dos balagandãs (…)

Peça da longa e frutífera parceria de Nogueira e César Pinheiro, lançada no LP da EMI Vem que tem, em 1975, depois inserida em diversas coletâneas.


6 – A terceira lâmina (Zé Ramalho)

Brado apocalíptico do terceiro álbum do artista (A terceira lâmina, 1981). É embalada por um arranjo de cordas, regidas pelo maestro Miguel Cidras, coro e uma instrumentação que inclui o violão Ovation 12 cordas de Geraldo Azevedo. A letra caiu à perfeição no gogó profundo de Zé Ramalho, como o som de trombetas celestiais num filme de Cecil B. de Mille.  

(…) E virá como guerra
A terceira mensagem
Na cabeça do homem
Aflição e coragem
Afastado da terra
Ele pensa na fera que o começa a devorar
Acho que os anos irão se passar
Com aquela certeza
Que teremos no olho
Novamente a ideia
De sairmos poço
Da garganta do fosso
Na voz de um cantador


7 – A linha e o linho (Gilberto Gil)

“É a sua vida que eu quero bordar na minha/ Como se eu fosse o pano e você fosse a linha/ E a agulha do real nas mãos da fantasia/ Fosse bordando, ponto a ponto, nosso dia a dia”. Versos iniciais dessa canção tão cativante e tão ideal sobre a relação amorosa. Linha e linho, os sexos figurados no desenho de um bordado. Elevada representação do amor e da arte. Gil conta sobre essa música, em texto disponível no site do artista:

“Nós estávamos em Paris, no Hotel Meurice, onde Hitler havia feito o seu quartel-general quando da Ocupação, e onde também saiu Extra na mesma ocasião. Flora tinha acabado de adormecer; ainda a acariciei um pouco e já estava entrando num estado de torpor quase sonho, quando me chegaram as primeiras frases. Havia a maciez da pele dela, a do tecido do lençol e os bordados na colcha – todos os elementos; minha sensação era de leveza, paixão e afeto. Aquelas palavras ficaram como que boiando num éter, e eu já tinha me deitado, mas resolvi me levantar e completar a letra toda. No final ainda me lembrei da minha mãe e da minha avó bordando nos panos os motivos que eu cito. Dias depois fiz a música.

Flora, a bela mulher do compositor, musa da canção, aparece na plateia neste vídeo do show Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, levado em 2012, na Globo.


8 – Padrão (poema de Fernando Pessoa com música de André Luiz Oliveira)

Quantas vezes terei ouvido essa canção, ou recorrido à beleza do poema musicado e interpretado por Caetano Veloso? Não faço ideia. Primeira faixa do precioso LP patrocinado pela Gradiente, distribuído como brinde da empresa em 1986. Doze poemas de Mensagem, único livro que Fernando Pessoa viu publicado em vida, enaltecendo a saga dos descobridores quinhentistas, e musicados pelo baiano André Luiz Oliveira, ganharam interpretações de Gil, Gal, Elizeth Cardoso, Ney Matogrosso e Zé Ramalho e Cida Moreira. Caetano sobressai em Padrão pela força dramática, como nota o texto do encarte. Francis Hime assumiu arranjos, regência e teclados. Violões de seis e sete cordas dominam a tessitura do arranjo de Padrão, com um bandolim nas notas finais e lindas frases da flauta de Demétrio Santos Lima nos compassos intermediários.  


9 – Cambalache (Enrique Santos Discepolo Deluchi)

O tango agudo sobre a dúbia moralidade na primeira metade do século 20 segue firme e forte. Caetano interpreta um sucesso de Enrique Santos Discepolo Deluchi (1901-1951), poeta, compositor, ator e dramaturgo argentino. Cambalacho, o negócio fraudulento, o conluio, tornou-se, nos anos 80 ou 90, um termo caro ao brasileiro, e deu nome a uma novela da Globo. Faixa do disco Caetano Veloso, de 1969, o mesmo de Irene, Os argonautas, Atrás do trio elétrico e Não identificado. As bases foram gravadas por Caetano em Salvador, acompanhando-se ao violão, e entregues ao produtor Manuel Barembeim, nos estúdios cariocas da Polygram. Rogério Duprat foi incumbido dos arranjos. 1969 é o ano do exílio do artista. O álbum lançado em agosto é o único de sua discografia com capa limpa, sem foto. Caetano andava sureco desde a temporada num quartel do Exército, no Rio. Nota-se que o artista sempre se esforçou para cantar o melhor possível em outros idiomas, no caso o castelhano portenho, e se sai bem. Na terceira estrofe são citados Ringo Starr e John Lennon. São, claro, “cacos” caetânicos. Os dois beatles não haviam nascido em 1935, quando a música de Discepolo era lançada.


10 – Como dois e dois (Caetano Veloso)

Com o Rei, claro. Faixa de Roberto Carlos (1971), álbum clássico da MPB com todos os méritos, e seu primeiro disco de estúdio, gravado em Nova York. Os arranjos de Jimmy Wisner proporcionaram ao artista tudo que ele tinha direito. Como dois e dois saiu com uma sublime levada blues, instrumentação deliciosa e banking vocal digno das grandes estrelas, como tinha que ser.


Siga A Rádio Siutônio Apresenta: 1.000 canções brasileiras no Spotify. A lista vai por 1.020 músicas, mas é sempre remexida e, espera-se, melhorada.

Até mais ver, e obrigado pela leitura!


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2 comentários sobre “Bia Burra do Bradesco no BBB

  1. Sobre a BIA e outras tantas IA’s de plantão, eu concordo em gênero (rsrsrs) com sua mulher: deveriam ser “homens”. Eu sugeriria, por exemplo, o Raul, neto sucessor e herdeiro do inteligentíssimo, equilibradíssimo e educadíssimo Hal (lembra-se dele?). Com Raul, 99% dos problemas seriam, certamente, resolvidos e não haveria porquê mandá-lo à ponte que caiu. Mas, humanum est, se alguém ousasse fazê-lo sem motivo, correria o sério risco de Raul cortar-lhe o suprimento de oxigênio kkkk.

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