Palhaçada! A dor da gente não sai no jornal

Jurupoca_68 – 23 a 29/4/2021 – ano 2


Nasci quando estourava o samba “cara de palhaço”, veja a amável leitora, e outro sucesso dos mesmos autores cantava a infelicidade de uma Joana de tal que errou na dose, no amor e de João

Haroldo Barbosa (de pé) em outubro de 1960 com o ator e dublador Jomeri Pozzoli e o ator e diretor Armando Nascimento. Foto: Wikimedia Commons/Domínio Públicodução jornal O Globo

Foto do alto: Haroldo Barbosa (reprodução Jornal O Globo).


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Folgo em saber que em 1961, natalício deste jurupoco, só deu Palhaçada.

Luiz Reis e Haroldo Barbosa, autores da música, terão vaticinado algo sobre a criaturinha que seus pais agregavam ao país e ao mundo, ao léu?

A letra diz assim:

“Cara de palhaço
Pinta de palhaço
Roupa de palhaço
Foi este o meu amargo fim;
Cara de gaiato,
Pinta de gaiato,
Roupa de gaiato,
Foi o que eu arranjei pra mim.

Estavas roxa por um trouxa
Pra fazer cartaz,
Na tua lista de golpista
Tem um bobo a mais
Quando a chanchada deu em nada
Eu até gostei
E a fantasia foi aquela que esperei.

Cara de palhaço
Pinta de palhaço
Roupa de palhaço
Pela mulher que não me quer,
Mas se ela quiser voltar pra mim
Vai ser assim,
Cara de palhaço,
Pinta de palhaço
Roupa de palhaço
Até o fim!”

A suposta profecia fez um baita sucesso.

Elizeth Cardoso, Ivan Curi, Doris Monteiro e Miltinho são alguns dos cantores que dividiram o estouro do samba nas paradas de 1961.

Foram dez discos de 78 rotações, como informa Pedro Paulo Malta no site Discografia Brasileira (no link do primeiro parágrafo).

Severino Araújo e Zé Bodega, Walter Wanderley, Osmar Milani e Haroldo do Monte gravaram o samba também em LP, no mesmo ano.

Segundo o  site Hi-Fi Masterpeaces, há 60 anos Palhaçada veio ao mundo em pelo menos nove compactos e 12 álbuns.

Isso é que estrear bem.

Malta garimpa até uma versão em inglês, escrita para um musical off-Broadway (Joy, 1966) sob o título Nothing but a fool.

Minha Palhaçada favorita, incluída na lista A Rádio Siutonio apresenta: 1.000 canções brasileiras, é de Rosa Passos (Biscoito Fino, 2011), acompanhada por um trio da pesada: Jorge Helder (contrabaixo), Luiz Galvão (violão) e Rafael Barata (bateria).

Essa mulher, esta Rosa, domina como poucas a arte de “dividir” o canto e temperar o samba com as artes do jazz.

Mas nem só de Palhaçada viviam os parceiros Haroldo Barbosa e Luiz Reis naquela quadra.

No ano anterior, 1960, Elizeth lançara Notícia de jornal, outra cria viçosa e sagaz da dupla.

Que são esses caras?

Capa do LP da RGE lançado em 1990, uma coletânea de vários artistas com sucessos da dupla Haroldo Barbosa e Luiz Reis. Foto: Reprodução do site do IMMuB

Haroldo Barbosa (Rio de Janeiro, 1915-1979) também foi um prolífico jornalista, produtor e diretor de rádio e TV.

O homem está metido na criação de dezenas de rubis do cancioneiro nacional. Entre essas gemas fulgem:

Pra que discutir com madame? (com Janet de Almeida, 1956)

Adeus, América (com Gerado Jacques, 1948)

Eu quero um samba (com Janet de Almeida, 1945)

Tim tim por tim tim (com Geraldo Jacques, 1951)

De conversa em conversa (com Lúcio Alves, 1943).

Ademais, Barbosa, diz João Máximo neste artigo, terá sido o primeiro artista multimídia do Brasil.

Criou (ainda no rádio) a Escolinha do Professor Raimundo e, em dupla com Marx Nunes, deu grife a programas televisivos de sucesso estrondoso como Balança mais não cai, Satiricon, Faça humor, não faça a guerra e Planeta dos homens.

(Bobagem mencionar que o centenário de um artista deste tamanho, transcorrido em 2015, passou em brancas nuvens).

O autodidata Luiz Reis (São Luiz, 1926-Rio de Janeiro, 1980) começou sua carreira cá no Belo, em 1943.

Pandeirista depois pianista, ainda mandava bem no violão e na bateria.

De volta ao Rio, se tornaria um ás da boemia carioca Zona Sul.

Cabeleira, como era chamado pelos amigos, ligou-se à turma do “sambalanço”, gênero, assim como a bossa nova, também influenciado pelo jazz; um samba “flex demais”, na definição de Orlandivo, que reinou nos anos 1950 e 1960.

Sim, mas e o outro samba?

Notícia de jornal reaparece no primeiro semestre de 1961 em 78 RPM, defendido por três vozes femininas:

Elizeth Cardoso, Helena de Lima —com andamento mais cadenciado— e Claudia Zimmer.

Quem ouviu alguma coisa de MPB conhece Notícia de jornal nem que seja do álbum Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo, de 1975.

A letra é pura maestria e refinamento.

Os versos “Errou na dose, errou no amor, Joana errou de João/ Ninguém notou, ninguém morou na dor que era o seu mal/ A dor da gente não sai no jornal” são magistrais, canônicos, obra prima.

Com ocorre em Palhaçada, Você ouve o samba uma vez e cada sílaba melódica acompanhada de seu fonema fica gravada na cuca indistintamente.

Perfeição é o nome disso.

“Tentou contra a existência num humilde barracão
Joana de tal, por causa de um tal João
Depois de medicada, retirou-se pro seu lar
Aí a notícia carece de exatidão

O lar não mais existe, ninguém volta ao que acabou
Joana é mais uma mulata triste que errou
Errou na dose, errou no amor, Joana errou de João
Ninguém notou, ninguém morou
na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal

O lar não mais existe, ninguém volta ao que acabou
Joana, é mais uma mulata triste que errou
Errou na dose, errou no amor, Joana errou de João
Ninguém notou, ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal

Nos especiais de TV de Chico Buarque, enxertados mais tardes com novas gravações e encaixados em cinco DVDs, há um momento engraçado em que ele mais cantarola que canta Notícia de jornal, a voz empastada de birita, com uma Paula Toller ainda bebê.

O corte do vídeo aí pega o final da sequência em que Chico discorre sobre o piropo, o galanteio, a cantada de classe, o assunto desde sempre da canção popular, de que aliás se tratou um pouco na JU passada.

(Não sem razão, Chico elege Every time you say goodbye de Cole Porter como a “mais linda canção do mundo”.)

Palhaçada à parte deste abre-alas, gosto de pensar que quando nasci, um anjo torno, desses que vivem na sombra… não, nada disso.

Gosto de pensar que quando a Bossa Nova despontava para o mundo pintavam dois sambas de estirpe, criação de compositores desgraçadamente esquecidos.

Como esquecida anda a própria e — conforme aquele ex-caderno de ex-cultura — elitista MPB.

MPB que mal é notícia de jornal.

Palhaçada de novo.

Há dezenas de sites que fazem companhia à Jurupoca no gosto pela canção popular e valorizam sua história.

E se você quer saber, Oswald de Andrade delirava.

As massas nunca comeram ou comerão o biscoito fino mais excelso, a iguaria assada pela verdadeira arte.

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Parem as máquinas

Lendo algo de Arden las redes, ensaio do espanhol Juan Soto Ivars, dou com esta carta de um leitor afiado, enviada à redação do El País:

“Ontem me caiu um copo de vidro e se quebrou. Conto aqui porque, como há tanta gente que vive disso no Twitter e demais redes sociais, também pensei que podia interessar aos leitores deste periódico. Hoje me caiu um copo de vidro, e depois tive que juntar os cacos”.


Tempo fragmentado

Claudio Magris diz nesta entrevista que a pandemia deverá mudar o mundo mais que a Segunda Guerra Mundial. Aos 82 anos, algo deprimido, há tempos recluso e ausente de seu chegado (e delicioso) Caffè San Marco em Trieste, o autor de Danúbio lamenta a “fragmentação do tempo”. Mas essa é a dura realidade para quem tem mais de 50 anos e não vive em outro planeta.

*

Não é sem dor que se vive, ou sobrevive, num tempo estilhaçado, sem lastros e referências.

*

“Pertenço a uma geração para quem o presente não é apenas hoje, quarta-feira ao meio-dia (…)”, reflete o escritor. “É um tempo mais largo. Meus filhos não a viram, mas a Segunda Guerra Mundial forma parte de suas vivências, do que está presente em sua casa. E agora há uma espécie de fragmentação desse tempo”.


Memória curta e uma ferida

Magris conta que quando dava aulas no Bard College, em Annandale-On-Hudson, em Nova York (onde Hannah Arendt também ensinou), 15 anos trás, ele se viu obrigado a desistir de uma classe. Na turma de 36 estudantes, apenas 5 ou 6 sabiam que fora Stálin.

*

“Disse a eles que não podíamos seguir adiante. Não era como nomear um importante soberano asiático de séculos atrás”, justifica o triestino. “Stálin forma parte de um mundo vivido, com todas suas traições, milhões de mortos em nome de certos ideais… Algo que te marca não apenas o tempo breve da jornada. Seria como fazer um curso sobre o amor em Flaubert e alguns [alunos] não saberem o que é o amor e o sexo. Devo começar falando dos órgãos do corpo humano? Isso é algo que tem se ampliado de um modo incrível. E me faz sentir, de alguma maneira, mais perto da morte. Porque a morte é o cancelamento. E observar como tudo o que sinto como um presente duradouro vai se apagando, produz uma ferida”.

*

A propósito, Cícero:

“Não saber o que aconteceu antes que nascêssemos é como ser sempre criança”.


 

Vincent van Gogh: Girassol, 1887. Cortesia do Museu Metropolitano de Nova York

Indústria da “justiça social”

A expressão é da coluna mais recente de João Pereira Coutinho, a quem não lia há algum tempo. O português caçoa de universidades britânicas que começam a instituir a “escrita inclusiva”, ao permitir erros gramaticais de “grupos marginalizados”. Afirmam aqueles doutos que a exigência da “escrita correta” é coisa da “cultura branca elitista” da Europa do Norte.

*

Coutinho confirma a ruína das humanidades, o que não vem de hoje, mas parte da longa desconstrução das “noções arcaicas de verdade” ao longo do malfadado “pós-modernismo”. Claro, ele diz, não se vai falar seriamente em “matemática inclusiva”: “(…) no mundo real, a ‘matemática inclusiva’ levaria à queda de pontes; a ‘física inclusiva’ levaria à queda de aviões; e se o leitor, no bloco operatório, soubesse que o seu cirurgião era versado em ‘anatomia inclusiva’, o melhor era tentar fugir dali antes que a anestesia começasse a fazer efeito.”

*

Aí JPC inscreve a “escrita inclusiva” numa das “mil ramificações” da indústria da “justiça social”, indústria, ele diz, que “nasceu deste imperativo: reinterpretar e refazer o mundo através da lente do ativismo”.

*

Meu palpite é que a expectativa de que quem entrar numa universidade possa ser isentado de ler e aprender, por “marginalizado”, representa uma regressão mental à Idade da Pedra.

*

E, óbvio, não passa da condescendência de ideólogos que se julgam capazes de consertar os desvios morais da sociedade.

*

Bibliotecas públicas, e o ensino público, são conquistas seculares. Menosprezar sua função, franqueada ao esforço de quem queira aprender, é puro absolutismo moral. Por esse caminho, cedo ou tarde voltaremos a rastejar em pântanos.  


Inclusão sem debate

Por um tuíte, cassaram um título de ‘humanista do ano’ a Richard Dawkins, autor de O gene egoísta e Deus um delírio. A honraria havia sido concedida em 1996, 25 anos atrás, pela Associação Humanista Americana (NAACP na sigla em inglês). Dawkins é acusado de “degradar os grupos marginalizados” por meio do “disfarce do discurso científico”.

*

O tuíte imperdoável: “En 2015, Rachel Dolezal, presidente da seção branca da NAACP, foi vilipendiada por se identificar como negra. Alguns homens optam por se identificar como mulheres, e algumas mulheres optam por se identificar como homens. Quem nega que sejam literalmente quem se identificam será vilipendiado. Discutir.”

*

Em 2015 Dawkins havia escrito: “Uma mulher trans é uma mulher? Pura semântica. Se a definição for pelo cromossomo, não. Se for por autoidentificação, sim. Eu a chamo de “ela” por cortesia”.

*

Eu a chamo de “ela” também, sempre, por educação. Mas Dawkins, um evangelista chato do ateísmo, simplesmente ousou pensar e opinar, como escritor e biólogo que é, e com uma contribuição a dar como “intelectual público”. Não pode. Sãos os novos tabus.

*

No mundo fechado e absolutista da inclusão não se conjugam verbos como “debater”, “discutir”, “questionar”, mas sim “aceitar”, “baixar” (a crista) e “calar”.

*

No fundo é uma questão de laica, nesse caso partindo de quem (a NAACP) se estabeleceu como uma campeã na defesa do humanismo. Fim de papo. Fim de mundo?


Jean-Léon Gérôme: Pigmaleão e Galatéa, by, c. 1890. The Metropolitan Museum of Art

Diversidade sem debate

Quem quer entender em profundidade por que o jornalismo ainda é indispensável dever ler correndo um artigo de Leonel Barber, ex-diretor por 15 anos do Financial Times. Aqui o original em inglês; acolá uma tradução em espanhol.

*

Barber defende a aplicação justa do que no Brasil se chama criticamente de “outroladismo” (bothsidesism em inglês ou ambosladismo” em espanhol) contra a corrente que prega “clareza moral”, por acreditar que a imparcialidade ou a busca da objetividade é uma conversa fiada em tempos de Trump e redes sociais. Mas Barber põe o “progressismo” moral contra a parede ao fazer ver que a defesa da “diversidade” não se aplica, segundo seus heróis, à diversidade de opiniões, e fatalmente se converte em intolerância e censura.


Val Britton: Sonho em azul, 2018, tinta, acrílico e colagem em papel. Galeria Wendi Norris, São Francisco. Exposição Art Dubai 2018

Carinhoso 150 vezes

A Rádio Batuta coligiu 153 gravações de Carinhoso, a canção clássica de Pixinguinha com letra de Braguinha. A lista vai desde o registro original, de 1928, a uma versão recente pinçada em 2009.


Apoie a Jurupoca

Se você costuma ler este jornal, que é aberto e gratuito, e nele encontra algum valor, permita que eu venda meu peixe: considere contribuir com sua continuidade, por meio de doação ou assinatura espontânea. Clicando aqui verá como pode fazer isso. Desde então, muito obrigado.



DO “ANJO 45”
À “CABRITADA MALSUCEDIDA”

Ouvia Kátia Flavia, a Godiva do Irajá e me ocorreu meia dúzia de músicas que trata de uma forma ou outra, com mais ou menos humor, lirismo ou gravidade, de figuras marginais às voltas com a lei, em geral contra a lei e a ordem.

*

1— Charles, anjo 45 (Jorge Ben Jor)

Jorge Ben Jor teria exaltado as proezas do guerrilheiro Avelinio Capitani, marinheiro revoltado que integrou luta amada, também conhecido como “Charles Anjo 45” e “Gatilho nº 1”.

Pelo menos é o que reporta pesquisa do historiador Flávio Rodrigues, em tese defenda na USP. Mas a conversa é controversa.

Sabe-se que Ben Jor não assume tal inspiração.

Quando a música foi lançada, no LP Jorge Bem, era 1969. Ninguém dava sopa com o AI-5 à porta.

A versão de Caetano e Ben Jor tem seu primeiro registro no compacto simples Caetano Veloso, de novembro de 1969, com Não identificado do outro lado.

“Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?

Charles, Anjo 45
Protetor dos fracos
E dos oprimidos
Robin Hood dos morros
Rei da malandragem
Um homem de verdade
Com muita coragem
Só porque um dia

Charles marcou bobeira
E foi tirar sem querer féria
Então os malandros otários
Deitaram na sopa
E uma tremenda bagunça o nosso morro virou
Pois o morro que era o céu
Sem o nosso Charles um inferno virou
Mas Deus é justo e verdadeiro
Antes de acabar as férias
Nosso Charles vai voltar

Paz e alegria geral
Todo o morro vai sambar
Antecipando o carnaval
Vai ter batucada
Uma missa em ação de graças
Vai ter feijoada
Whisky com cerveja
E outras milongas mais

Muitas queimas de fogos
E saraivadas de balas pra o ar
Pra quando o nosso Charles Voltar
E o morro inteiro feliz assim vai cantar

Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles
Como vão as coisas Charles?

Ôba, ôba, ôba Charles
Como é que é
My friend Charles?
Como vão as coisas Charles?
Ôba, ôba, ôba Charles, Charles, Charles, Charles, Charles…”


2—Kátia Flávia, a Godiva do Irajá (Fausto Fawcett e Carlos Laufer)

A parceria de Fausto Fawcett e o baixista Carlos Laufer é um sucesso de 34 anos.

E parece que o único hit de Fawcett. Mas que hit, e como é viciante.

Falam que foi o primeiro RAP tocado em rádio FM.

Estourou em 1987, no álbum Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros.

Entrou na trilha sonora da novela O Outro (1987), da TV Globo, e do filme franco-britânico Lua de Fel (1992), dirigido por Roman Polanski.

Dez anos depois voltou a pipocar nas paradas com Fernanda Abreu, aí no videoclipe já visto quase 900 mil vezes.

A gravação de Fernanda tem a sacada de botar Garota de Ipanema como música incidental, provocando um choque antitético.

A Godiva do Irajá, ex-miss Febem, é a antigarota de Ipanema por todos os méritos.

Conta-se que Fawcett se inspirou na mulher de um contraventor, a “louraça” de nome Kátia Flávia que apareceu no noticiário policial de jornais do Rio.

Parece que a moça botou para quebrar numa boate barra-pesada do Irajá, zona norte carioca.

O compositor então fez renascer na Baixada Fluminense, no início da redemocratização, o mito de Lady Godiva, a aristocrática inglesa que viveu no século 11, quem, conta a lenda, apreciava cavalgar em pelo, ela e o animal.

Outra graça da música é a referência ao Exocet, míssil francês badalado na Guerra das Malvinas, ou das Falklands, se você prefere.

Em 4 de maio de 1982, um AM39 Exocet lançado de um jato argentino afundou o destróier HMS Sheffield, então o navio mais moderno da Royal Navy.

Sua majestade Elizabeth II não podia imaginar esse feito carnavalizado em bocas e bundas do Rio de Janeiro.

“Kátia Flávia
É uma louraça Belzebu
Provocante
Uma louraça Lúcifer
Gostosona
Uma louraça Satanás
Gostosona e provocante
Que só usa calcinhas comestíveis e calcinhas bélicas
Dessas com armamentos bordados
Calcinha de morango
Calcinha geladinha
Calcinha de rendinha

Ex-miss Febem
Encarnação do mundo cão
Casada com um figurão contravenção
Ficou famosa por andar num cavalo branco
Pelas noites suburbanas
Toda nua, toda nua
Toda nua, toda nua
Matou o figurão
Foi pra Copacabana
Roubou uma joaninha
E pelo rádio da polícia ela manda o seu recado
Pelo rádio da polícia ela manda o seu recado
Get out, get get out!

Pelo rádio, pelo rádio, pelo rádio, pelo rádio
Pelo rádio da polícia ela manda o seu recado
Alô polícia
Eu tô usando
Um Exocet
Calcinha!
Um Exocet
Calcinha!
Meu nome é Kátia Flávia
Godiva do Irajá
Me escondi aqui em Copa

Alô, alô
Polícia
Polícia pode vir
Polícia Belford Roxo, de Duque de Caxias
Polícia Madureira, polícia Deodoro
São Cristóvão, Bonsucesso, da Benfica
Da Pavuna, da Tijuca, de Quintino, do Catete, Grajaú
Polícia do Flamengo, polícia Botafogo

Da Barra da Tijuca
Polícia, polícia, polícia
Polícia pode vir
Porque

Meu nome é Kátia Flávia
Godiva do Irajá
Me escondi aqui em Copa
Kátia Flávia
É uma louraça Belzebu
Provocante
Uma louraça Lúcifer

Gostosona
Uma louraça Satanás
Gostosona e provocante
Que só usa calcinhas comestíveis e calcinhas bélicas
Louraça Belzebu
Calcinha antiaérea

Louraça Lúcifer
Calcinha framboesa
Louraça Satanás
Calcinha de morango
Louraça Belzebu
Calcinha Exocet
Alô polícia
Eu tô usando
Um Exocet
Calcinha!
Um Exocet
Calcinha!”


3— O meu guri (Chico Buarque)

Na capa uma memorabilia. Posso ler, meio apagado, numa garatuja de Bic azul sobre o papel branco plastificado: 16/12/1981, e uma rubrica.

Quase 40 anos! Putz.

Os matriculados no CEFET tínhamos um descontinho na Cotec, delícia de loja na Escola de Engenharia da UFMG, ali na avenida do Contorno, cá no Belo.

Almanaque, o álbum de Chico Buarque que acabara de sair, trazia uma das capas mais bonitas de Elifas Andreato.

De um lado um folhinha de 1982; do outro o horóscopo do ano, “pensamentos” extraídos das letras das canções, fases da lua e créditos autorais, um autêntico almanaque.

O mesmo motivo tem variações no encarte, com as letras, fotos de estúdio e um quadro caça-palavras.

É o disco de As vitrines, Ela é dançarina, A voz do dono e o dono da voz (talvez o melhor lado A da discografia buarquiana) e Almanaque, Tanto Amar, Angélica, Moto-continuo e Amor barato, lado B.

Se As vitrines é a canção mais celebrada do disco, e isso é justo, Almanaque é uma diversão, a carpintaria poética de um pai inspirado pela curiosidade das filhas pequenas, com versos dessa categoria:

“Quem é que sabe o signo do capeta, o ascendente de Deus Nosso Senhor/ Quem não fez a patente da espoleta explodir na gaveta do inventor/ Quem tava no volante do planeta que meu continente capotou”.

Mas a canção que mais me tocava, e ainda toca este cansado coração, é O meu guri.

Quando a ouço me acode e toca a devoção mariana, a figuração de todas as madonas, e penso na Compadecia ao falar deste onírico lamento em alegro, ma non troppo, filtrado na mais profunda das ternuras maternas, sobre o filho pivete que sai para “trabalhar”.

Claro, a graça maior de O meu guri são as ironias que recheiam a letra.

Pena que hoje seja raro alguém com menos de 50 anos entender e apreciar ironias, o que ajuda a tornar a MPB assim, como dizer, elitista, segundo aquele ex-caderno…

Franklin da Flauta e o violão de Helio Delmiro, com a marcação de um tamborim, introduzem com leveza o tema do samba, no estupendo arranjo de Francis Hime, então cordas e o coro começam a preencher os silêncios.

“Quando seu moço nasceu meu rebento,
não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
e eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar,
Fui assim levando, ele a me levar
E na sua meninice,
ele um dia me disse que chegava lá


Olha aí, olha aí olha aí, é o meu guri
Olha aí, olha aí, é o meu guri e ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular,

tanta corrente de ouro, seu moço ,
Que haja pescoço pra enfiar,
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
chave, caderneta, terço e patuá,
um lenço, e uma penca de documentos,

pra finalmente eu me identificar (REFRÃO)
E ele chega,

chega no morro com carregamento,
pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador,
rezo até ele chegar cá no alto
essa onda de assaltos tá um horror.
Eu consolo ele, ele me consola,
boto ele no colo pra ele me ninar,
de repente, acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar (REFRÃO)
E ele chega.

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos
Legenda e as iniciais,
eu não entendo essa gente, seu moço,
Fazendo alvoroço demais.
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar,
Desde o começo eu não disse, seu moço?
Ele disse que chegava lá” (REFRÃO)


4—Acorda amor (da dupla fictícia Julinho de Adelaide e Leonel Paiva)

Única música de Chico Buarque em Sinal Fechado, seu famigerado disco de 1974, concebido para dar a volta na implacável zaga da censura.

Samba contra a truculência do amado regime do Caveirão.155 mm, a letra diz muito, ou sugere, ainda hoje, sobre a insegurança de moradores dos morros cariocas nas incursões de Bopes da vida, quando a polícia sobe para, impunemente, “mirar na cabecinha”, como ensinava o patético governador Wilson Witzel.

Gravado por Joyce, o samba caiu muito bem na verve de Jards Macalé, no volume 2 do Songbook Chico Buarque, de 1999.

“Acorda, amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão

Acorda, amor
Não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão de escada
Fazendo confusão, que aflição
São os homens
E eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão

Se eu demorar uns meses convém, às vezes, você sofrer
Mas depois de um ano eu não vindo
Ponha a roupa de domingo e pode me esquecer

Acorda, amor
Que o bicho é brabo e não sossega
Se você corre o bicho pega
Se fica não sei não
Atenção

Não demora
Dia desses chega a sua hora
Não discuta à toa, não reclame
Clame, chame lá, clame, chame

Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão
(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)”


5 — Polícia no morro (Geraldo Pereira e Arnaldo Passos)

O cabrito do doutor, aliviado por Bento, foi bem aproveitado. Em janeiro de 1952, o coro do bicho cobriu tambor para o carnaval. No ano seguinte rendeu outro samba a Geraldo Pereira (ver a seguir).

Cabritada malsucedida e Polícia no morro são encadeadas neste pot-pourri do CD Chico Buarque de Mangueira (1988) puxado por Cristina Buarque e Carlinhos Vergueiro. Também entram na roda Como será o ano 2000 (Padeirinho) e Agoniza mais não morre (Nelson Sargento).

“A polícia tá no morro
Atrás do cabrito do doutor
Que o Bento matou e fez tambor
O comissário mandou dizer
Que a escola só sai se o cabrito aparecer

Fez ver a diretoria que toma a bateria
E encana o pessoal”
Termina com a sujeira
Prende o apito e a bandeira
Acaba com o carnaval


6— Cabritada malsucedida (Geraldo Pereira e Wilton Wanderley)

O samba foi gravado pelo próprio Geraldo Pereira na RCA Victor, num 78 rotações. Era setembro de 1953.

A história da álacre cabritada arruinada pela polícia foi interpretada por Luiz Melodia no álbum Estação Melodia (2007).

Mais tarde entrou no repertório do show do artista registrado em DVD pela Biscoito Fino.

“Bento fez anos,
E para almoçar me convidou,
Me disse que ia matar um cabrito,
Onde tem cabrito eu tou,
E quando o “Comes e Bebe” começou,
No melhor da cabritada,
A Polícia e o dono do bicho chegou.

Puseram a gente sem culpa,
No carro de radiopatrulha e levaram,
Levaram também o cabrito,
E toda a bebida que tinha, quebraram,
Seu Comissário, zangado,
Não tava querendo ninguém dispensar,
O patrão da Sebastiana,
É que foi ao distrito,
E mandou me soltar.

Puseram a raça sem culpa,
No carro da radiopatrulha e levaram,
Levaram também o cabrito….”


Até mais ver, e obrigado pela leitura!


CLIQUE AQUI PARA ASSINAR
A NEWSLETTER DA JURUPOCA.


 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s