Simplíssimo: estou louco

Oremos. É o Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, e o Caveirão nas nossas costas.


Jurupoca_69 – 30/4 a 6/5/2021 – ano 2
Hebdomadário de cultura, ideias e
 alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Hoc est hoc est simplicissimum

Nada a dizer da multitudinária adição
de enredos menstruais sociovirtuais

No convescote da roda do ordenador
neca de nada é não

Querido diário, bem disse Sarlo,
Beatriz, brava gente argentina:

“À aceleração que domina a
 imprensa  audiovisual, a internet
impôs um ritmo de
esquecimento alucinante:
é  uma grande memória coletiva
que  padece de Alzheimer”.

E deito em ti tão bem este aqui,
de um jornalzinho do Café Kahua:

Ritorno — Goiorgio Caproni

“Sono tornato lá
dove non ero mai stato
Nula, da come non fu, è mutato.
Sul tavolo (sull’incerato
a quadretti) ammezzato
ho ritrovato il bichiere
mai riempito. Tutto
è ancora rimasto quale
mai l’avevo lasciato.”

Espelho, espelho meu,
se na travessia  lhe dão bananas,
o fim já não se importa: o fim a si se fina

E pela estrada afora me vou bem contente
levar doçura contra o que em mim odeia

Querido diário, me explico ao cabo com Gabo
e seu Buendia viejo atado à castanheira:

“— Hoc est simplicisimun —contestó él—: Porque stoy loco.”

Antônio Siúves: versão alterada do poema Redes sociais, Moral das Horas, p. 65, 2013, Manduruvá Edições Especiais.


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

O padre Pirard, jansenista, ensina a seu pupilo Julien Sorel, em O vermelho e o negro (Stendhal), que não se deve jamais falar em sorte mas na Providência.

À luz do jansenismo não há livre arbítrio, você sabe.

E boas ações importam picas.

Tendemos ao mal, ao pecado; a graça divina é predestinada e, pecado!, mal distribuída, só os eleitos a desfrutam.

O olhar radical de um jansenista não deve ver muita Graça em nosso mundo de pernas pro ar.

Matutei como um teólogo em xepa de feira livre.

Mudamos muito desde a Revolução Francesa e Napoleão Bonaparte, muita vez [por favor, dedicado revisor, considere Machado de Assis] para pior.

Os rachas entre jansenistas e jesuítas não eram esse negócio fulanizado de narrativas de hoje em dia,

Essa miséria sarnenta em que eu digo que o Chuchu é lilás e você diz que é carmesim e ambos temos e não temos razão, ou estamos vivos e mortos como o gato de Schrödinger.

Uns e outros, jesuítas e jansenistas, miravam cousas do outro mundo enquanto, é certo, acumulavam pecúlios e mantinham seu poder por aqui.

Agora está “assim” de narrativas, pão e circo de quem vive nos grilhões do WhatsApp.

Negacionistas convulsos se opõem a narrativas do jornalismo independente (“Globolixo!, bramem por aí), numa punheta de ódio a duas mãos com a esquerda radical.

Punheta, por sinal, é pecado.

Uma iluminação de shopping center ilude as trevas que nos engolfam nas ruas e cidades, no céu.

Onde foram parar os cuidados com as “coisas do outro mundo”?

Sim, dito de outra forma, a imanência sepultou toda transcendência junto com toda metafísica.

Oremos.

Há uma grande oferta da palavra de Deus, a preço módico; passa em toda maquineta de cartão de crédito.

Deus do céu mediante crédito na praça.

O Senhor é hipotecado nas esquinas por um carro novo ou uma LG de 60 polegadas.

E o além tem diligentes e a cada legislatura maiores representações no Congresso.

Evangelistas do meu pirão primeiro.

Com mandato, verba de gabinete e tribuna ninguém precisa mais chutar a santa.

Do Pentateuco a Brasília é um pulo.

A Bancada da Bíblia abençoa a Bancada da Bala, que não cospe fogo na Bancada do Boi, que aboia corifeus da Ivermectina.

É o Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, e o Caveirão nas nossas costas.

Sim, oremos.

Sabe-se que o Dr. Jairinho é legião, como feminicidas e pedófilos no Bananão [ver Ivan Lessa].

Não há de ser nada, meus amigos, meus irmãos.

Já sabemos que o próximo membro do STF será um bíblia “terrivelmente evangélico” e tão douto quanto o eminente e elusivo ministro da Educação.

O sangue de cristo, que tem poder, ilumina facções do ódio.

Iluminará Renan das Alagoas, que prepara a volta do Redentor, ex-presidiário redimindo.

E há quem o tome, o sangue, em comunhão com milicianos.

O nível já elevado da Corte se tornará um must, como diziam antigos colunistas sociais.  

Ninguém vai perder os debates do ministro bíblia com Lewandowski, Gilmar Mendes, Nosso Kassio, Cármen Lúcia e Dias Toffoli.

Esses infalíveis terão muito a ensinar a um país de taturanas.

Lá em riba do Rio Grande, no país do Capitão América e da Mulher Maravilha, o Cinturão da Bíblia esteve com Trump o tempo todo, não abriu e não abre.

Eis a nossa sina, nossa praga tropical, que é bíblica, e sem Biden.

O novo Censo, merendado pelas novas emendas “cheque em branco” do Planalto Centrão, podia nos surpreender ao revelar o real tamanho do povo de Cristo.

E o papa? E o Urbi et Orbi?

Desde Roma, a palavra do papa se perde como um gemido em meio ao estrondo apocalíptico das redes sociais, do Big Data, das Big Tech.

Um grande clangor de metais anuncia a eternidade de cada hora.

Já os evangelistas do ateísmo do dia a dia, como Richard Dawkins, autor de Deus uma ilusão, não sabem onde pôr o desejo.

Pregam em nome da ciência, da ilustração, do humanismo.

Mas sabem que não há como salvar um mundo velho demais.

O mundo está dessorando.

A pirralha mimada e iluminada brada contra a emergência climática,

E sua meiguice derrete glaciares e faz arder florestas.

Mas há otimismo nos laboratórios de genômica.

Os editores do DNA têm o destino nas mãos com o CRISPR, essa rebimboca da parafuseta no motor da vida.  

Quase não há censura que impeça os engenheiros do Gênesis de curar todas as doenças e criar, mediante cobre, o Humano 2.0.

No princípio não era o Verbo, mas uma molécula de RNA.

Prometeu criando o primeiro homem, cerca 30 a.C. Museu Thorvaldsens, Copenhague

A esperança agora vai pro espaço.

A Nasa faz um drone (“helicóptero” para os mais entusiastas) voar em Marte

E converte uma pitada de gás carbônico do planeta em oxigênio.

Diacho, não temos ainda nem uma colônia de férias por lá.

Mas os incorporadores vão chegar cedo ou tarde, com seus resorts, campos de golfe e piñas coladas.

Celebridades como Anitta e Gisele Bündchen serão as primeiras a plantar alfacinhas na terra vermelha e pedregosa.

ETs não precisam mais falar o inglês corrente para atiçar nossa fantasia, como nos seriados antigos.

A viagem às estrelas doravante é negócio de empreendedores bilionários, o que sempre equivalem a visionários nos relatos de jornais.

Elon Musk deu o primeiro passo ao fabricar espaçonaves para a Nasa

E daqui a pouco para o turismo espacial (lojinhas na Lua venderão souvenirs. Que chique!).

Pensar tudo isso me põe fora de órbita. Se segure leitor.

Humildemente confesso minhas dívidas e minhas dúvidas.

Heróis da Marvel dançarão funk e reggaeton?

Gamers serão objetos de ruminações escolásticas na nova Bizâncio?

Asmodeu tem perfil no Instagram?

Quem ganhou a última na liça do Twitter, as trupes da Anitta ou os carbonários do Salles?

A seita esotérica do Salles conspira para cobrir a Amazônia de pasto e shopping. Vão vender apito, espingarda e Leite Moça para o índio.

O Vale do Silício vai patrocinar a Jurupoca?

Na-na-ni-na-não.

O autor não é um eleito da Providência. É fadado ao pecado desde criancinha,

Ou já tinha feito da JU, seu hebdô preferido, amável leitora, o embrião duma startup com inversões milionárias.

Aterrizei.

Me restarão 5% de juízo.

Oremos.

Estamos, sim, condenados, pois temos a lição primeva:

“O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo sob o sol”. Eclesiastes 1:9

Mas e daí, não é?

Mesmo com todavia/ com todo dia/ com todo ia/ todo não ia/ a gente  vai levando etc. [ver Chico & Caetano].

A resposta não está no fim, mas no princípio.

A resposta está no poemeu [ver Millôr] que abre este número da carta, de seu hebdomadário favorito, meu irmão, e lhe dá um título,

Um poemeu do Moral das horas, que cita o Buendia acorrentado ao castaño em Cem anos de solidão [ver Gabriel García Márquez, Gabo para os chegados] no trecho assim em português:

“O Padre Nicanor, que nunca tinha encarado desse modo o jogo de damas, não pôde voltar a jogar. Cada vez mais assombrado com a lucidez de José Arcadio Buendía, perguntou-lhe como era possível que o mantivessem amarrado numa árvore.

— Hoc est simplicissimum: — respondeu ele — porque estou louco.”

*

“A histeria de sobreviver faz com que a vida seja passageira”, diz Byung-Chul Han em seu novo livro, A sociedade paliativa, com um trecho antecipado no Clarín.

“O prolongamento da vida a qualquer preço acaba se convertendo em nível global no valor supremo que relega todos os demais valores”, segue o filósofo coreano de fala alemã.

*

A JU, este seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin da pena da galhofa e de tinta da melancolia.

*

 “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.”

*

Saravá, Vinícius!

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


O caso escabroso do predador sexual das Casas Bahia

Fernando de Barros e Silva, apresentador do podcast Foro de Teresina, acusou o silêncio da imprensa. Interesses comerciais poderiam explicar por que a reportagem da Agência Pública não explodiu como o escândalo do pústula João de Deus. A reportagem é intitulada As acusações não reveladas de crimes sexuais de Samuel Klein, fundador da Casas Bahia. Como grande e poderoso anunciante, sugeriu Barros e Silva, a rede de lojas faria pressão para que o caso não extrapolasse as páginas do site.

*

Mas o alegado criminoso, Samuel Klein, morreu em 2014, supostamente impune. Esse fato “pouco jornalístico”, ou melhor, pouco sensacionalista, e a ausência de vídeos e cenas policiais me parecem uma causa mais provável, ainda que absurda, do parco interesse pela matéria. E Barros e Silva é um tanto paranoico com o jornalismo além da revista Piauí.

*

O texto da Agência Pública é dividido em 12 partes e assinado por seis repórteres. Foram ouvidas 35 pessoas e coletados testemunhos de vítimas e documentos. Klein é apontado com um monstro sexual, aliciador de crianças e adolescentes, dos 9 aos 12 anos. As menores eram abusadas na sede da empresa, em São Caetano do Sul, nas várias residências de lazer e no iate do bilionário. A rotina de desfrute de Klein e seus convidados teria se prolongado de 1989 a 2010.


Hackers analfabetos

O Brasil deve ser o único país do mundo em que hackers tiram do ar o principal acervo cultural à disposição de pesquisadores e de todo mundo. Terão confundido a FBN (Fundação Biblioteca Nacional), onde estão a Hemeroteca Digital e os Documentos Históricos, com a Casa da Mãe Joana? É quase certo que não saibam ler funcionalmente, por abandonar a escola no quarto ano.


Legendas em inglês

Para quem perdeu a fala do homem na ONU, aqui vai uma síntese do discurso em inglês: “Let’s put aside the howevers e go straight to the ends. I’m here do kill the snake and show the stick”. Dizem que logrou convencer o mundo a nos restituir as tais perdas internacionais. Me refiro, claro, à Sua Excelência, o eterno prefeito de Sucupira Odorico Paraguaçu.


Cândido

O Dr. Pangloss diria que nossos 3 Poderes são o piores possíveis. Seguiria esbanjando otimismo.


Oi, você aí, negacionista, olhe o Vietnã

Se você quer saber o que um governo pode fazer para controlar a pandemia, mire o Vietnã. Ouça a primeira parte do podcast em que Renata Lo Prete entrevista um jovem professor brasileiro vivendo no país asiático. Com campanhas maciças de comunicação, confinamento, testagem obrigatória e outras ações, o Vietnã mantém uma taxa de mortalidade de 0,04 por cem mil habitantes, contra 173,9 no Brasil. A densidade demográfica vietnamita (290 hab. por Km²) é mais de três vezes maior que a brasileira (87 hab. por Km²).


Enquanto isso, no Bananão,
sabe aquela gripezinha?

Site da Folha de S.Paulo hoje (29/04) às duas e pouco da tarde

Sorel, um herói

Retrato de Stendhal por Félix Valloton, 1897, La Revue blanche, Bibliothèque Nationale de France. Domínio público.

Releio O vermelho e o negro depois de décadas. Não me lembrava patavina. Stendhal, pseudônimo de Henri-Marie Beyle (1783-1842), era feio, fervoroso, apaixonado e superiormente inteligente. É um dos inventores do romance moderno. Penso que esculpiu Julien Sorel com a lava que seu cérebro secretava por ter nascido próximo da Revolução e participado, como tenente, das guerras napoleônicas. O jacobino Beyle gostava de viver na Milão do império austríaco, de ver as óperas do Scala e correr atrás de damas e atrizes que em geral o rejeitavam.

*

Sorel, jovem, bonito, altivo, se queixa da “Providência madrasta” que lhe deu “um coração nobre e nem mil francos de renda”. Ele se debatia ao recusar o prazer: “Uma fonte límpida que vem estancar minha sede no deserto ardente da mediocridade que atravesso tão penosamente”, e ponderava: “Ora essa! Que bobagem: cada um por si nesse deserto de egoísmo que chamam de vida”. Seu ardor e vontade de poder são abortados pela guilhotina.

*

Nosso herói inflamado conhece como poucos as dores da paixão maldada, como o descreve o narrador: “Se tivessem inundado seu peito com chumbo fundido, teria sofrido menos”.

*

Stendhal tem conversas com o leitor, entre parênteses, algumas longas, como quando nos chama a atenção: “Pois bem, senhor, um romance é um espelho que se carrega ao longo da estrada. Tanto pode refletir para seus olhos o azul do céu como a imundície do lamaçal da estrada.”

*

As reflexões do Sorel condenado sobre a fraqueza do corpo e da mente para enfrentar a morte com bravura é um legado precioso à nossa humanidade, num livro que se aproxima dos 200 anos existência.

*

“Assim também a morte, a eternidade, coisa muito simples para quem tivesse órgãos bastante amplos para concebê-las”.


Pleasure

Prazer, grafado assim em inglês, é o que Stendhal confessa ter sentido ao notar que acabavam de guilhotinar dois sacerdotes na praça vizinha. Ele estava em casa, concentrado en traduzir algo das Metamorfoses, de Ovídio, quando ouviu o alarido da multidão. “Foi o único sangue que o Terror de 93 derramou em Grenoble [cidade natal do autor]”, anota na autobiografia ou diário romanceado Vida de Henry Brulard, publicada postumamente, que leio numa edição espanhola. “E ainda há algo pior”, ele acrescenta. “I am ainda em 1835 the man of 1794”. O homem de 1794 não podia ter mais de 11 anos.

*

Carlos Fuentes: “Há uma frase que resume toda a essência de Stendhal e, concretamente, de Vida de Henry Brulard: o amor é um perfeito egoísmo compartido”.

Nove emigrantes vão para guilhotina em 1793. Autor desconhecido. Do livro La Guillotine en 1793, de H. Fleischmann (1908). Domínio público – Wikimedia Commons


Jean-Baptiste Camille Corot: Ville-d’Avray, 1860. The Frick Collection, Nova York


A Semana, 100

Para a patota de O Globo, a Semana de Arte Moderna de 1922 não passou de uma quermesse modernista. É mais uma polêmica com potencial de atrair cliques como bananas a drosófilas melanogaster.  Com o centenário da Semana já próximo, o jornal reescreve o movimento como uma súmula de rusgas intelectuais, e culpa o “paulistocentrismo” (sic) historiográfico por desprezar os regionalismos. Nem uma palavra sobre o que foi a Semana e sua importância, já que alguma ela teve. Um título da mesma matéria apregoa: Minas ajudou depurar ‘caipirice’ dos modernistas”. O redator atribui às Minas dos Matos Gerais um “cosmopolitismo” sob as benções do barroco e do Aleijadinho. O jornal não se livra do recalque, velho de guerra, contra a superação do Rio por São Paulo como centro cultural. E anda a mascatear seu marketing de veículo nacional, mas se mostra tão carioca e provinciano como sempre. Melhor se voltar para os cosmopolitas do BBB, de quem cuida muito bem.


Entenda como o ex-caderno de ex-cultura
 da Folha teme a assombração de Dante Alighieri
(Oh, Virgílio, me leva pro inferno!)

Quer um exemplo de título caça-níquel acima de todos os escrúpulos? “Biografia de Dante que foi best-seller na Itália estilhaça imagem clássica do poeta”. “Capa” do ex-caderno de ex-cultura. O livro do medievalista Alessandro Barbero sobre Dante Alighieri, lançado para a celebração de 700 anos do autor de Divina comédia, deve sair no Brasil até o fim do ano. Estou a fim de ler. O ex-caderno simplesmente não cumpre a promessa do título. Não revela como a tal  imagem foi “estilhaçada”. Essa expressão hoje denota acusações homofóbicas ou transfóbicas e o obrar do revisionismo histórico. Nada disso. Dante, coitado, mal tem leitores sérios quanto mais um público com uma imagem formada sobre quem o grande homem foi ou deixou de ser na sociedade do século 13 em que viveu.


Mark Rothko: Sem título (verde e marrom) Kate Rothko Prizel e Christopher Rothko, VEGAP, Madri. Cortesia Museu Thyssen-Bornemisza 


Quem aguenta?

Que coisa insuportável é o Oscar. Aquela usina de políticas de ação afirmativa que se tornou Hollywood há muito perdeu o rumo da inovação e do próprio cinema, arte que soube tão bem cultivar. Todo ano o mundo inteiro repercute a chatice pretensiosa de quem se acredita capaz de fazer justiça com uma arte rala e repetitiva, enquanto produz lixo de primeira. Que a Coréia nos regaste, e xeque-mate.


Briga de cachorro grande

O New  York Times te aconselha a não convidar para o mesmo pé de porco Mark Zuckerberg e Tim Cook, respectivas majestades do Facebook (Instagram e WhatsApp) e da Apple. O Face vive de monitorar dados de usuários para vender anúncios. Cook diz que o negócio é insustentável. Fazem beicinho um para o outro. E a partir dessa semana os donos de aparelhos Iphone poderiam optar por terem ou não suas contas rastreadas pelo “robôs” de Zuckerberg. Isso tem potencial para batizar a lucratividade de um negócio de 70 bilhões de dólares, diz o Times.


Vacina

Ainda no Times, o melhor roteiro sobre a fabricação da vacina da Pfizer contra a Covid-19. Vai aqui em inglês.


Novos porteiros

O Washington Post listou quem são os novos “gatekeepers”, ou “porteiros” da informação, quem decide o que as multidões veem e como se conectam [apud coluna Toda Mídia]. Estão lá Facebook, Youtube, Twitter, Google e Apple, provedores de nuvem (AWS, da Amazon), serviços de pagamento como PayPal, registradores de domínio (GoDaddy) e provedores de internet (Comcast). Nelson de Sá lembra que faltaram na lista as plataformas de streaming Netflix, Amazon Prime Video e Disney+. E que a Europa, acuada, tenta reagir. Os mamutes guiam audiências e orientam a produção audiovisual planetária. E podem cortar contas, como fizeram com a remoção de Trump do Twitter (e até do Spotify) ou com a plataforma TikTok, retirada das lojas de aplicativos Androide e Apple na Índia.

*

Países como o Brasil estarão sempre à mercê desse poderio esmagador que concentra os meios de comunicação e entretenimento modernos. Todas as análises críticas sobre as consequências dessa nova figuração do mundo ainda são tímidas.

*

Para dar só um exemplo, o peso das redes sociais na vitória do Caveirão segue muito subestimado.


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A rádio Siutonio, a rádio que não vale um mecônio, traz esta semana dois álbuns que acabam de chegar para todos e ninguém, como anda a música na era do streaming. Um tem um saboroso sotaque lusitano e melodias universais; outro mata saudades e alegra quem nunca perdeu o encanto pelo som pernambucano da Banda de Pau e Corda.

*

Zambujo, Voz e violão, um lenitivo

O português António Zambujo acaba de lançar seu décimo álbum, Voz e violão, com 13 canções, nova entrega de um grande artista.

Não canso de ouvir sua versão, em inglês, de Mona Lisa, o clássico de Ray Evans e Jay Livingston, um standard de Nat King Cole.

Não temos no Brasil em atividade um cantor da classe de Zambujo.

Não me refiro só à beleza da voz. Me interessa mais à arte de cantar de maneira original e dar vida às canções.

Bom que ele se reconheça influenciado por nossa música e tenha lançado um disco precioso com a obra de Chico Buarque.  

Este Voz e violão é uma aposta na singeleza, na chalaça, expressão ainda corrente em Portugal, e na antiga tradição do menestrel.

Fruto da pandemia, traz um divertimento suave como o marulho de um riachinho. Seu disco é um lenitivo.

Lote B (Pedro da Silva Martins/Luís José Martins), a primeira “faixa”, conta a que veio o disco: “E só com uma voz e uma guitarra eu fiz/ Parar a rua inteira, parar a rua inteira/ Vim tocar pra ti uma canção que te escrevi/ Quando alguém me diz: O teu amor não mora aqui”.

O fado Rosinha dos limões lembra uma cantiga de roda. Graça de canto em louvor à inocência que ainda, sim, tem algo a dizer sobre o amor: “Quando ela passa/ Apregoando os limões/ A sós, com os meus botões/ No vão da minha janela/ Fico pensando, que qualquer/ Dia, por graça/ Vou comprar limões à praça/ E depois, caso com ela!”.

Os Martins também assinam Bricolage, balada alegre sobre um pai de primeira viagem às voltas desajeitadamente com a montagem do berço.

A letra e a melodia sincopada expressam humor e empatia: Começaste a chorar depois de rir/ Fiz um belo jantar e vais dormir/ Ainda bem porque assim eu leio as instruções que não li / Ainda está por nascer alguém que supere o meu amor por ti.”

E hilária O sol de azar (Agir), sobre a infelicidade de um sujeito que se queixa da sorte e do céu com ótimas razões. O verso final é o fino: “No meu aniversário/ O cabrão do Mario/ Deu uma bicicleta sem selim/ Presente envenenado/ Mas foi dado de bom grado/ Então senta o teu rabo aqui por mim”.

Além de Mona lisa, Zambujo dá versões refrescantes para Como 2  e 2, de Caetano Veloso, e para o eterno bolero Tu me acostumbrate, de Frank Domingues.


Banda de Pau e Corda,
50 anos ano que vem

A Pau e Corda segue na estrada, como se diz em Minas. O grupo pernambucano fundado 1972 tornou-se um ícone cult da década mais dourada da MPB.

Sérgio Andrade, vocalista e percussionista, remanesce como fundador, com as mortes de Roberto Andrade (bateria) e Paulo Resende (baixo), em 2017.

A Biscoito Fino enseja a volta da Banda quase 30 anos depois de seu último álbum com repertório inédito.

A capa é de Elifas Andreato, artista gráfico que é ele próprio um selo de nobreza da MPB.

Missão do cantador, o novo disco, persevera no colorido rústico da tessitura de timbres de violões, viola e flautas, sua marca de nascença.

A música tema, de Sérgio Andrade, lembra velhos brados sobre a “missão” do artista que se presta a alegrar o povo e também a  ajudá-lo a arrancar as “ervas daninhas” da injustiça social. Tem ecos de Elomar e Geraldo Vandré.

Na mesma linha engajada entra Fogo de brasileiro (Sebastião Baiano e Sérgio Andrade), com o apoio carimbado de Chico César e o pífano incendiário de Alexandre Rodrigues, o Copinha.

O grupo agregou Júlio Rangel (viola e vocal) Sérgio Eduardo (contrabaixo) Zé Freire (violão e vocal) Yko Brasil (flauta transversal e pífano) Alexandre Baros (bateria, percussão e vocal).

O frevo Estrela Cadente (Sergio Andrade e Waltinho), com Mestre Genaro no acordeom, é outra faixa para se ouvir muitas vezes, também o caso de Tudo num balaio só (Natan Marques/Murilo Antunes), com Zeca Baleiro como convidado.

Até mais ver, e obrigado pela leitura!


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