Na hora da nossa morte

Quando mais se tem pressa de viver, esse viver inflacionário subtrai algo da vida, que se desvaloriza. Trabalhamos e nos divertimos para não enxergar essa economia temporal


Jurupoca_71 – 14 a 20/5/2021 – ano 2
Hebdomadário de cultura, ideias e
 alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto: Interior da capela Rothko, em Houston, no Texas, EUA


SALMO, Paul Celan

Ninguém nos molda de novo com terra e barro,
ninguém evoca o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florescer.
Ao teu
encontro.

Um Nada
éramos nós, somos, continuaremos
sendo, florescendo:
a rosa-de-nada, a
rosa-de-ninguém.

Com
o estilete claralma,
o estame ato-céu,
a coroa rubra
da palavra púrpura, que cantámos
sobre, oh sobre
o espinho.

Paul Celan: Salmo, tradução Cláudia Cavalcanti, Iluminuras, 1999, pág. 95


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

O luto.

Quando a morte é urgente, como nesta pandemia, a vida se precipita, não é?

E o efeito disso é que todos vivemos menos. Não penso na extensão da vida. Penso no teor e na intensidade do vivido.

Não quando a morte vem a nós, porque a dor é vitalíssima.

Quem perdeu quem ama para o Corona sabe como é constrangedor — no sentido de aperto e constrição — se estar ao largo na hora da morte. Não poder consolar e ser consolado com um abraço.

Numa tarde quente de fevereiro, eu era o único amigo de um amigo querido que podia se juntar à sua mulher e filhas, pouco antes da cremação de seu corpo. Soubera de sua morte horas antes.

A funerária permitiu que olhássemos o ataúde dentro do veículo estacionado. Dissemos umas palavras, sob nossas N95, e seguimos o féretro atrás do carro, num breve cortejo até a instalação, o forno. Logo, quando me despedia da família, ao me virar, subia a fumaça branca. Tudo não durou meia hora, a extinção.

O mundo não termina numa explosão, mas como um gemido, diz o verso famoso que encerra Os homens ocos, do Eliot.

É assim com quem sofreu, com quem perdeu um naco de si e algo da própria história.

Mas isso em close, no plano fechado da câmara.

Se abrimos a cena para uma visão panorâmica, a história é outra.

A morte em massa nesta pandemia dará trabalho aos estudiosos do futuro, suponho, para explicar os vivos, os sobreviventes, os contemporâneos.

 “A vida continua”, apelo que acompanha a humanidade desde sempre, parece ter se tornado um mote urgentíssimo em nossa época, ato reflexo.

A Covid-19 chegou quando vivemos o pleno distanciamento higiênico da morte.

Há muito o novo normal é o ambiente hospitalar asséptico, o coma induzido na UTI, a dinâmica do serviço funerário e a crescente adesão à cremação, a perda da busca da transcendência na fé, e a própria ordem econômica regida pela tecnologia.

Tudo nos afasta da morte, como sociedade.

Alfred Kubin: O melhor médico, c. 1901

Faz tempo que exéquias, réquiens, missas solenes são peças clássicas, repertório de salas de concerto.

E o próprio luto não é o mesmo.

Não que não haja vivências comuns entre a mortandade pelo coronavírus e a devastação causada em outras epidemias.

Há cem anos, o luto se dissipava no auge da gripe Espanhola, relata Ruy Castro em Metrópole à beira-mar.

No início da pandemia a paisagem carioca já ficara enegrecida pelo luto das famílias.

Ruy conta que a Casa das Fazendas Pretas —comércio no centro do Rio que “garantia lutos elegantes e completos em doze horas”—vendia como nunca.

Mas logo, quando defuntos eram largados na rua e passaram a ser transportados nos vagões de bondes chamados “taiobas”, o luto deixava de ser um ritual indispensável, “inclusive entre as funcionárias da Fazendas Pretas”, observa Ruy, “e qualquer cor passou a representá-lo”.

Mas vieram novos tempos, com seus novos selos. E novas sociabilidades se impuseram, novas configurações do viver.

Uma era de academias de fitness abertas dia e noite traz seus próprias imperativos —e incompatibilidades próprias com a morte.

O bordão “saúde é o que interessa, o resto não tem pressa” é enganoso quando não se presta ao humor. A saúde e o resto têm, sim, muita pressa.

A vida e o fluxo das redes rodam em moto-contínuo (moto-contínuo que, me parece, deixou de ser uma máquina hipotética, um experimento mental da física, para se tornar uma coisa real) a bater o bumbo e ditar o ritmo no qual devemos remar.

Me pergunto qual seria o significado moderno da resposta de Jesus ao discípulo que, antes de atravessar o rio e seguir seu mestre, pede para enterrar o pai: “Segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos” (Mateus 8, 22)?

Não sei a resposta.

Mas para um desavisado pode até parecer que nunca fomos tão cristãos.

Tal a falta de cerimônia com que tratamos os mortos alheios. A começar dos patriotas insuspeitos que deram de ostentar sua fé nacionalista como antigas beatas da TFP.

Só que, no lugar do luto pesado e dos rosários no pescoço, vestem verde e amarelo.

E impiedosamente conspurcaram essas nossas cores identitárias, que perderam de vez a simbologia de rito geral e coletividade de uma nação.

A pé ou em carreatas tóxicas pisam cheios de orgulho, feito galinhas chocas, sobre centenas de milhares de mortos, e se ufanam de um país governado pelo Caveirão.

Mas os extremistas convulsos estão sozinhos.

A estatística mortuária é uma rotina, quadro fixo no telejornal, até que a morte de alguém famoso parece gritar dentro das almas, e uma parte da coletividade se vê enlutada, e o respeitável público também.

Mas isso não significa muito, se perde logo. A atual chusma de morto não se compara, em pathos, à morte de Ayrton Senna, digamos.

De resto impera a velocidade. E quanto mais acelerados, mais vazios nos sentimos, mais em falta do que significar como vida.

A era da egolatria sugestivamente é a mesma do quase histérico chamado à resiliência, à volta ao trabalho o quanto antes, aos Bitcoins e tais.

Os vivos nem tão vivos têm à disposição — não é o caso de mencionar a farmacopeia e o arsenal terapêutico de Lacan a florais de Bach — o grande e inovador mercado da reinvenção da vida.

É preciso reinventar-se para seguir vivo, se sentir vivo, ou considerado vivo à luz da vida bem vivida, segundo os bem vivos, entre os quais notórios gurus vivaldinos.

Curiosamente, quanto maior é o clamor para que nos reinventemos, pouco importa que estejamos a um passo de bater a caçoleta, o próprio além é contingente.

Pieter Brueghel, o Velho: O triunfo da morte (detalhe), 1562 | Museu Joanneum, Graz, Áustria

Não é que afinal nos acostumamos à ideia de morrer um dia, e nos resignamos ao pó, aos oceanos do Nada em cujas profundezas filósofos mergulharam a perder o fôlego.

O Nada é que não diz mais nada, não dá náusea, não inspira odes, não faz sofrer o ateu ao ouvir Bach ou Beethoven ou Mozart (aliás, se puder, ao ler estas linhas, toque aí em cima o comecinho do Réquiem, só até o Kyrie eleison, o Senhor, tende piedade”).

Quando mais se tem pressa de viver, esse viver inflacionário subtrai algo da vida, que se desvaloriza. Mais e mais, trabalhamos para não enxergar essa economia temporal.

É exatamente quando lemos, ouvimos música, dançamos (“Eu só poderia crer em um Deus que soubesse dançar”, disse Nietzsche) ou quando experimentamos o quer que seja que nos permita exaltar fato de estar vivo que sentimos a vertigem do abismo.

E a vertigem do abismo deve ser evitada a todo custo, não importa a quantidade de cliques na telinha que essa ordem do mundo exija.

Esquecer a vertigem é urgente.

E a morte não pode nos decepcionar.

Ainda que venham aos milhares e aos milhões, o que podem os mortos?

Para que servem?

Não unem quem está separado, não lembram que somos pó e ao pó reverteremos, como costumavam lembrar, não promovem réquiens, não comovem além da conta.

Os mortos nunca foram tão supérfluos; nunca valeram tão pouco.

E, nós, vivos, ou quase vivos, meio mortos, meio vivos, nunca fomos tão indignos deles.

Gustav Klimt: Morte e vida, 1910–15 | Museu Leopold, Viena

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

“Desespero cultural” e o
ressentimento das massas

Há ótimos livros na praça de pesquisadores acadêmicos sobre o ataque às instituições em governos de extrema direita. Dois deles foram sugeridos aqui. Mas se você quer um relato histórico e jornalístico, além do mais de uma insider da política norte-americana e europeia, leia O crepúsculo da democracia (Record, 182 págs., R$ 29,39, e-book: 27,97), de Anne Applebaum. Casada com um político liberal polonês, com quem vive entre Varsóvia, Londres e Washington, Applebaum relata, a partir de vivências pessoais, como a política autoritária baseada na mentira e no ressentimento pode destruir amizades e solapar nações. Prêmio Pulitzer por Gulag, seu livro sobre os campos de concentração soviética, ela escreve a análise mais direta que pude ler sobre as motivações do Brexit, da ascensão de Trump ou do sucesso do partido espanhol Vox. E seu conhecimento dos bastidores do poder no leste europeu conduz o leitor para o centro do debate público em países como Polônia e Hungria. Uma de suas conclusões é que se tornou “possível mentir repetidamente sem consequências” (pô, mas disso estamos carecas de saber, não é?). Tarimbada, Applebaum sabe que a imprensa e o jornalismo profissional deixaram de balizar as conversas gerais. Isso foi catastrófico. As pessoas agora leem o que querem, e redes sociais como Youtube ou Facebook as colocam dentro de bolhas, onde têm mais e mais do mesmo produto, de desodorante a opinião. E a grande maioria não vai conferir as asneiras que lê em sites dedicados a checar e contextualizar fatos. A complexidade do mundo, a cacofonia e modernização produziram o que a autora chama de “desespero cultural”. Os militantes de Trump ou do Caveirão querem respostas simples e lineares, em vez de ruído, por mais absurdo que sejam. Teorias da conspiração são lineares como promessas de curas à margem da ciência, da “pílula do câncer” à cloroquina, ambas, por sinal, defendidas pelo Caveirão desde a primeira hora. E no primeiro caso com um dos dois ou três projetos de lei que conseguiu aprovar em 30 anos de perniciosa função parlamentar.


As barbas brancas da mentira

Uma boa reportagem de O Globo lembra que a expressão negacionismo, desde o francês “négationnisme”, surgiu no Tribunal de Nuremberg. Designava a negação do Holocausto, da Shoah. Há negacionista que desprezam a realidade e aqueles que se aferram às “verdades alternativas”. A falsificação da história é fundamental no governo autoritário. É o que ocorre na Hungria do primeiro-ministro Viktor Orbán ou na índia de seu colega Narendra Modi. Para o historiador argentino Federico Finchelstein, um dos entrevistados de Ruan de Sousa Gabriel, fascista é o político que, além de mentiroso, acredita nas próprias “narrativas”. “A mentira fascista está de volta com políticos como Bolsonaro, que não só mente, mas também tenta tornar a realidade parecia com as mentiras que conta”, ele diz. Mais centrado e rodado, o italiano Carlo Ginzburg lembra que “os usos políticos da mentira são notícia velha”. Mas a fraude, aliás gazopa, balona ou boquejo, sempre circulou por transmissão oral. A novidade, como sabemos, é o desenvolvimento e a popularização de uma tecnologia de comunicação ideal à disseminação de lorotas. São os odiodutos. Ginzburg, autor do clássico O queijo e os vermes e luminar da micro-história, diz que é um exagero afiliar os historiadores pós-modernistas à nova era, mas uma parte da tergiversação sobre a relatividade da verdade, em torno do que é facto e ficção, começou com essa turma. “Ele [o pós-modernismo] tornou as pessoas mais fracas diante delas [fake news]. A intenção podia ser boa, mas o resultado político é catastrófico”, observa. “Lutamos contra as fake news provando que são falsificações. Se a noção de falsificação não faz mais sentido e não distinguimos mais fato e ficção, estamos perdidos”, pondera.


Oh, crianças derrubadoras
de estátuas: cresçam logo!

“Não há nada mais trágico que um homem que perdeu a memória”, diz o historiador irlandês Peter Brown, professor emérito de Princeton, hoje aos 85 anos. Leio sua entrevista no Babelia (encontre aqui a tradução do El País Brasil) motivada pela reedição em espanhol de El mundo de la Antigüedad tardía. De Marco Aurelio a Mahoma [O mundo da Antiguidade tardia. De Marco Aurélio a Maomé]. Incrivelmente, o livro parece não ter sido publicado no Brasil. Encontro seu ensaio sobre esse tema no primeiro volume de História da vida privada (Companhia das Letras, 1985). O homem é um portento. Chamado de “maior historiador vivo em língua inglesa”, é alguém que dominou 20 línguas e diversas disciplinas para realizar seu trabalho. Brown também diz que pior que esquecer a história é distorcê-la com meias verdades, como fazem políticos para açular medos e ressentimentos. O professor tem a lição definitiva que os infantes progressistas derrubadores de estátuas deveriam aprender. “Não assumir a parte vergonhosa do passado é recusar estar aqui e ser adulto. Parte da identificação do adulto é a o pertencimento a gerações anteriores”, ele argumenta. “Qualquer pessoa madura deve assumir os membros anteriores de sua família, é um sinal de maturidade. Uma espécie de resiliência”, prossegue, ao ilustrar: “Júlio César é um exemplo. Matou milhões de pessoas. E o terrível é que sabemos disso porque ele publicou. Devemos então rechaçar totalmente o Império Romano porque foi baseado nisso? Não, temos que aplicar, suponho, o que agora chamamos visão binocular para enfocar corretamente”.


Com a pena de morte informal,
segue a marcha da selvageria

O Rio de Janeiro continua lindo e dominado por milícias, narcotráfico, e em certos bairros por ambos, consorciados. E dominado pela subespécie de onde vem seu novo governador, que no Rio prolifera como bactérias em placa de Petri. Percebe-se à primeira olhada sua filiação ao mangue do parasitismo criminoso. Quem mandou matar Marielle? Agora, a resposta da corporação ao Massacre do Jacarezinho, ecoado pelo vice-presidente Mourão, Mourão (mourão/ Vara madura que não cai/ Mourão, mourão, mourão/ Catuca por baixo que ele vai) foi de perfeita adequação com a selvageria: “É tudo bandido”. Cada país tem as frases históricas que merece. O Caveirão: “Ao tratar como vítimas traficantes que roubam, matam e destroem famílias, a mídia e a esquerda os iguala ao cidadão comum, honesto, que respeita as leis e o próximo. É uma grave ofensa ao povo que há muito é refém da criminalidade. Parabéns à Polícia Civil do Rio de Janeiro”.

*

Jacarezinho, não desanimes não. Manda aí, Mônica, manda aí Monarco.


Dante nas estrelas
(Dante tra le Stelle)

Há poesia em iniciativas como esta de lançar às estrelas uma edição integral impressa em ouro e titânio (materiais resistentes à noite sideral) da Divina comédia. Vai na próxima missão de astronautas na Estação Espacial Internacional, a ISS.  Neste ano celebra-se o sétimo centenário da morte de Dante Alighieri. Se alguma vida inteligente capaz de nos sintonizar achar a cópia a flutuar no universo, terá em mãos, quem dúvida?, um dos maiores feitos de nossa espécie miserável. Claro, há um bom dinheirinho nisso. A editora bolonhesa responsável pelo projeto prepara uma edição luxuosa e exclusivíssima da obra, e receberá do espaço uma cópia assinada pelos integrantes da ISS.


Entenda com o ex-caderno
de ex-cultura da Folha
 aposta suas fichas na mocidade
que não lê jornal


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A Rádio Siutônio, a rádio que não vale nem encômio nem mecônio, quem sabe a sonhar com uma redenção pandêmica, e com o Carnaval que virá, e que seu apresentador não vai brincar —toca para você com muito amor e carinho uma canção pouco conhecida, a despeito de sua nobreza. Também lembra que há 50 anos censores babões dormiam no ponto e eram sacudidos pelo sucesso de Apesar de você, aquele hino buarqueano contra o general, ou contra os milicos todos. E  ainda diz uma palavra de saudade pela morte de Cassiano, nosso maior soul man.


Bora’ Brincar no
 Bloco do Eu Sozinho?

No afeto que toda música encerra, quem não sai no Bloco do Eu Sozinho? E quem não desfila no Bloco do Eu Sozinho em todo instante decisivo? A folia é metáfora perfeita. Mesmo em meio ao calor da festa comunal, seja sob as graças do álcool e éter, ainda assim, cada qual sai de si mesmo, ainda que se fantasie e se iluda um pouco sobre essas coisas, antes da quarta-feira. Mas tal figura só poderia ter surgido no reinado de Momo, que se transformou em deus em 1919, quando sobreviventes foram à forra da gripe Espanhola e do terror da Indesejada no Rio. No livro Metrópole à beira-mar, ao qual se volta nesta JU, Ruy Castro nos conta que o “bloco” foi criada pelo jornalista Julio Silva. Nos três dias daquele Carnaval ele saiu na Avenida de fraque, metade ao avesso, calça listrada e chapéu tirolês. Tocava corneta e cantarolava uma algaravia. “Não aceitava adesões, não se deixava abraçar e portava uma tabuleta com os dizeres Bloco do Eu Sozinho”, diz Ruy. Imagino que Marcos Valle e Ruy Guerra se inspiraram em Silva — que sustentou sua fantasia em 53 carnavais, segundo Ruy — para compor Bloco do eu sozinho, uma marcha-rancho lançada em 1967 por Valle, e defendida pela dupla Cynara e Cybele no Festival da TV Excelsior. Pulamos junto e sozinho, diz a requintada letra da canção, um verso que expressa em cheio “essas coisas” de que falava. Entre os intérpretes da música estão Joyce Moreno e, mais recentemente, Dor Caymmi, no álbum Edu, Dori & Marcos, lançado pela Biscoito Fino em 2018. A versão de Chico Buarque, no Vol. II do Songbook Marcos Valle (1998), é a de que mais gosto.

BLOCO DO EU SOZINHO (Marcos Valle e Ruy Guerra)

No bloco do eu sozinho
Sou faz tudo e não sou nada
Sou o samba e a folia de fantasia cansada
Sou o novo e o antigo
Sou o surdo e o entrudo
Visto farrapo e o veludo
Faço um breque, depois sigo

No bloco do eu sozinho
Sozinho sou cordão
Sou a esquina do caminho
Sou rei Momo e Damião
Sou o enredo da parada
Sou cachaça e sou tristeza
Pulando junto e sozinho faço da rua uma mesa

No bloco do eu sozinho
Sou São Jorge que passeia
Sou alguém que esquece a Lua em favor de uma candeia
Sozinho sou a cidade
Sou a multidão deserta
Pé na dança e mão aberta em busca da vida cheia

No bloco do eu sozinho
Sou a seda do estandarte
Sou a ginga da baiana
Sou a calça de zuarte
Sou quem briga e deixa disso
Sou Oropa e Aruanda
Sou alegria de Rosa que nunca brinca em serviço

No bloco do eu sozinho
Sou a sorte e o azar
E o folião derradeiro que abre os braços pra brincar
Sou passista e sou pandeiro
E nas pedras da calçada
Sou a lembrança mais fria de um mundo sem madrugada

No bloco do eu sozinho
De toda e qualquer maneira
Na bateria calada
Nas cinzas de quarta-feira
Nos confetes da calçada
Nas mãos vazias de Rosa
Sou alegria teimosa
Sambando pra não chorar


Quando censores babões dormiram no ponto

No último dia 7 deram 50 anos que a Censura acordou para Apesar de você, essa espécie de hino de Chico Buarque contra a ditadura. A música apareceu no final de 1970 e logo fez sucesso num compacto do próprio Chico (com Desalento do lado B) e na vozes de Elizeth Cardoso e Clara Nunes. Vigia o AI-5 mas o censor que liberara a canção viu na letra apenas a inocente choradeira de um infeliz que levara da amada um pé na bunda. Até que surgiram notinhas na imprensa que aludiam à “mensagem” subjacente, que atingia o coração do regime ou do próprio ditador Garrastazu Medici. Aquele desabafo que conquistava a classe média foi parado pela retranca fardada quase seis meses depois de ganhar as paradas. O veto foi anunciado em 7 de maio de 1971. “Para não restar dúvida, um grupo de militares invadiu a fábrica da gravadora Phillips e destruiu todas as cópias no estoque”, conta direitinho em O Globo o repórter William Helal Filho. “Da mesma forma, os exemplares do compacto a venda nas lojas foram recolhidos e destruídos.” Apesar de você só voltaria a ser executada em 1977, com a abertura promovida por Geisel, e ressurgiria no LP de Chico do ano seguinte, o Disco da Samambaia, última faixa lado B.

Manuscrito da letra de Apesar de você.
Acervo Chico Buarque no Instituto Antônio Carlos Jobim


Descanse em paz, Cassiano

Primavera (vai chuva), A lua e eu, Coleção e outro sucessos o consagraram. Ficou conhecido como a cara mais ilustre do soul brasileiro, alguém que aprendeu a temperar a influência da música norte-americana com a nossa doçura inzoneira. Cassiano morreu no Rio no último dia 7, aos 77 anos, de choque séptico decorrente de doença pulmonar, conforme O Globo. Sua música deu a Tim Maia um de seus maiores hits e espalhou alegria e romantismo pelos anos 1970 afora. Não foi pouco. Descanse em paz, Cassiano. Neste comentário na Folha, Jairo Malta diz que o artista vivia há tempos no ostracismo, longe do público, ainda que reverenciado entre músicos. Cassiano era um pouco mais velho que Hyldon, que estourou com Na Rua, na Chuva, na fazenda…, e segue na ativa. Ao lado de Tim Maia, Tony Tornado, da banda Black Rio e de outros expoentes introduziram no Brasil a influência do funk e do soul norte-americanos e o som de estrelas como Otis Redding, James Brown e Stevie Wonder. O movimento ainda é cultuado em bailes black por todo o país.

Até mais ver, e obrigado pela leitura!



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— A JU, este seu amado hebdô, tomou emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —



 

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