“Coisas de internet”

O general-filósofo, o Caveirão, o canário-da-terra-verdadeiro e a hora azul: a Jurupoca é um secos e molhados político-cultural. Você acha de tudo aqui. Aproveite os preços baixos!


Jurupoca_72 – 21 a 27/5/2021 – ano 2
Hebdomadário de cultura, ideias e
 alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto (detalhe): Diego Rodríguez de Silva y Velázquez: El bufón Calabacillas (1635 – 1639). Cortesia Museo Nacional del Prado


Oração para aviadoresManuel Bandeira

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
De feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.

Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai


Satélite – Manuel Bandeira

Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
Satélite.

Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!

Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
— Satélite.


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

“Coisas de internet”, soltou o general-filósofo na CPI da Covid. Olerê e olará! Que síntese.

A frase não saiu de um novo McLuhan fardado, mas tem fumos filosóficos. Mira e acerta na mosca do Zeitgeist, o tal do espírito do tempo.

A era da pós-verdade, dos “fatos alternativos” e da guerra de narrativas fez das redes sociais um universo paralelo, pela primeira vez na história da humanidade.

O Twitter permitiu a Trump driblar a imprensa como quis, e as redes deram vida nova a toda sorte de conspiração, curandeirismo e falsificação da verdade.

A próprio estatuto da verdade, como lembrou o historiador italiano Carlo Ginzburg, vinha por décadas sendo colocado contra a parede por pensadores pós-modernos.

Com a internet, o questionamento desse estatuto se tornou um festival permanente. Monitores das redes sociais medem a temperatura da opinião pública pelo quantitativo da reação multitudinária contra e favor a isso e aquilo. A qualidade das emissões pouco importa.

Os depoimentos de asseclas do Caveirão na CPI são de dar nó nas tripas e nos miolos de qualquer pessoa sã que ainda insista em se pautar pela realidade do Sol e da Lua, da vida e da morte, e do balizamento da medicina e da ciência.

A reveladora expressão do general-filósofo — “coisas da internet” — significa: nós somos os novos bufões. Não nos levamos a sério e esperamos que vocês também não levem. Depois de séculos explorados como bobos da corte, chegamos ao poder e vocês vão ter que nos aturar! — Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa — exclamam.

 “Coisas da internet”, como síntese, é parente do “duplipensar” orwelliano. É um tipo moderno de ficção ao alcance do homem comum. E os políticos — quem mais podia ser? — se tornaram os principais artistas dessa arte a vingar num mundo demente e sem memória

Tudo pode, tudo passa a ser possível e plausível, até negar as causas evidentes que ajudaram a produzir até agora quase meio bilhão de mortos no país. Até negar os mortos.   

*

“Tem alguns idiotas que até hoje ficam em casa”, peidorreou Caveirão.

Sou idiota, sim, profundamente.

Quando saio à rua, saio sempre de máscara: idiota duplo.

Chego a idiota ao cubo, ou seja, igual a mim mesmo, euzinho, ademais canalha, canalha demais por chamar de curandeiro quem defenda a vigarice do “tratamento precoce”.  

Sim, sou canalha, mas tenho uma alternativa ao “tratamento precoce” do Caveirão: rapé! Três cafungadas na lua nova, e pronto… lá vai vírus.

Mas, parafraseando o Rei, eu me pergunto: quantos idiotas estão vivendo só, isolados?

Sei, como tudo mundo, que os brasileiros temos o dom exacerbado da idiotia.

Na presente quadra somos uns idiotas resignados, uns idiotas dignos de Jó.

Só que de um Jó sem fé, desprezível, que sofresse por nada, por nada poder fazer, por nada poder provar, um Jó que sofresse por Deus nenhum, um Jó masoquista, só.

Afinal, suportamos, resilientes, viver no Bananão (vide bula do Emplasto Ivan Lessa, remédio milagroso contra a sarna da asneira. Se não melhorar, procure um médico) nos últimos dois anos, quatro meses e, quando escrevo, 20 dias e umas tantas horas.

Melhor esquecer, arvorar, relevar, melhor dormir.

O Caveirão, afinal, vai se desmilinguindo, e talvez não exista mais até o final do seu maldito mandato.

*

Agora, muito mais importante para este resiliente idiota, canalha e, ainda por cima, poeta, ainda que bissexto, malgré lui, como era chique dizer, à francesa, nos anos 1920, pois mais importante que tudo isso é ver um canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola) —chapinha na intimidade dos carcereiros/gaioleiros das Minas dos Matos Gerais.

Em minha adolescência só o víamos aprisionado, ao lado de pintassilgos, curiós, sabiás, melros, bicos-de-lacre…

Pelas tantas, como quem alcança a revelação, pude ver meus canários à solta por aí, em toda parte, dadivosos como só eles.

A alegria que um canarinho transmite, como a lição daqueles lírios do campo bíblicos, expõe o miserável egoísmo de quem o quer apenas para si e seu divertimento.

Na sua perfeita compleição, na pura flama amarela, um canarinho é signo de esperança mais intenso que o louva-a-deus, mas auspicioso que a ave-do-paraíso.

Canário-da-terra-verdadeiro fotografado por Josiane Aparecida de Freitas. Sob licença Creative Commons

O canarinho está para a jabuticabeira como a esperança para a infância.

Mas o que é a esperança?

É o seguinte, conforme Manuel Bandeira em seu Rondó do capitão, escrito em 8 de outubro de 1940:

Bão balalão,
Senhor capitão,
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza,
Não é de aflição:
É só de esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A aérea esperança…
Aérea, pois não!
—Peso mais pesado
Não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!

João Ricardo musicou o poema, incluído no álbum do grupo Secos & Molhados de 1973:

*

Me parecia natural gostar de Ewa Wilma como atriz e admirar a grande mulher que ela foi. Descansa em paz, estrela.

*

A popularidade nas redes sociais eleva mediocridades e apequena quem se distingue da manada. Foi um canto de sereia para um craque como Sérgio Augusto. Ruy Castro faz muito bem em se manter distante. Aliás, nem celular o homem topou.

*

A eternamente bela Bruna Lombardi promove uma tal “Rede Felicidade” em suas redes sociais, leio no Estadão. “A felicidade é um ato de resistência”, ela diz.

Oh, Bruna, morrerei sem saber o que sua linda frase quer dizer.

*

 “Modelo fitness” parece ser um novo nome para a mais antiga das profissões. Os jornais tratam do negócio como qualquer outro serviço oferecido no mercado, como o de qualquer microempreendedor individual, o MEI. Nada contra. Mas seria melhor dar ao serviço seu nove verdadeiro, afinal modelo é modelo, prostituta é prostituta. Ambas merecem respeito.

*

A manhã de domingo é a tese e o final de tarde, antítese. A síntese é o sono.

*

Hamlet: “… to sleep — to sleep, perchance to dream — ay, there’s the rub, for in this sleep of death what dreams may come…”.

*

A hora azul – em algum lugar no futuro

Vem da expressão francesa l’heure bleuethe blue hour no inglês. É o período do lusco-fusco da tarde que no hemisfério sul pode ir das 5 às 7 horas da noite. É um período crucial para portadores da síndrome da bile negra. Encontrei um texto extraviado, parte de um livro igualmente extraviado. A hora azul – em algum lugar no futuro é o título. Foi concebido como um capítulo-parênteses do dito livro, e vai como tal, assim:

(A aspereza aveludada do linho branco só era superada em beleza pela alvura da blusa escolar engomada e bem passada pela mãe à noite, na véspera de um primevo Sete de Setembro. A trama do tecido reluzia suavemente, enquanto eu me sentava na mureta, em frente à cantina.

Eu vivia ali uma espécie de ressuscitação, e ao poucos procurava me recolocar no mundo. Havia experimentado outra vez um tipo de colapso que ainda se repetiria em anos vindouros, durante todo o curso de comunicação social.

Ao tomar o ônibus até a capital, às cinco horas da tarde, logo nos primeiros minutos da curta viagem eu costumava adormecer profundamente para despertar, já próximo à rodoviária, com uma terrível sensação de abandono, quase como se não soubesse mais quem era, ou como se houvesse perdido o sentido de estar ali, dentro de um ônibus e, ao descer na estação, ter de tomar o lotação que me levaria até o campus e participar dos rituais cretinos da sala aula ou do laboratório, ter de me concentrar na lição de um mestre e de conviver proximamente com dezenas de pessoas de quem mal sabia os nomes, e examiná-las, às vezes uma a uma, nas cadeiras ou bancadas ao lado e à frente, e deparar um arco de caracteres que ia do tímido ao simplório e ao arrogante, do tolo ao exuberante, da feminilidade contrariada à mais sincera máscara da luxúria. Pai, se for possível afastar esse cálice… Era a frase que recordava com frequência, enquanto me debatia no limbo, entre o sono e a vigília.

No entanto, os fluxos da cidade, o tráfego humano e o fedor das ruas logo me forçavam a sair do torpor daquela espécie de morte, e recobrar algum ânimo para seguir o roteiro que então me parecia a mais sólida e infame das rotinas, a qual, afinal de contas, havia sido livremente almejada e conquistada, ou não?

Mas ali, agora, ainda não completamente refeito, o prazer de vestir a camisa de linho branco que pertencera ao irmão, de alguma forma fazia com que eu já não me importasse de estar longe e alheio a todos, distante da comunhão que percebia na conversa das meninas, na camaradagem entre dois sujeitos de óculos e barbicha e nos casais de namorados arrulhando ao largo. Que importava tal fardo enquanto a luz filtrada era rebatida pela camisa branca de mangas curtas que usava, e que havia herdado do irmão, enquanto todas as coisas deixassem de responder pelo que eram? Pois bastava olhar na direção do horizonte moribundo que oscilava entre o róseo e o violeta para achar uma compreensão da inutilidade de tudo, do vácuo que sobrevém à nudez do hábito, e sentir uma aproximação mais viva, elevada e natural que a daquele burburinho de autômatos a gozar a idade do ouro.

Então, ao tentar prolongar meu estado de onipotência poética para dentro da tarde, notei que abaixo no jardim e à frente do oratório, bem no fundo do pátio, surgira o rosto familiar de Rodião, muito alto e magro, barba de uma semana, Bamba de cano alto, jeans pálidos de todo dia e uma simples camiseta escura. Lá estava ele, conversando com a moça de vestido malva, a quem iria dali a pouco me apresentar e que, pensava, bem podia ser minha namorada.

Ao vê-lo, logo abandonei o estado de ilha em que procurava me encerrar para me pôr a salvo. Pois Rodião era uma descoberta, terra à vista do continente a que uma amizade se equivale para sempre. Nós havíamos nos conhecido no dia da matrícula, quando éramos os últimos a penetrar o guichê onde se entregava os papéis, antes de irmos ter com o diretor.

Rodião pediu-me que descesse, então nós e a estudante de vestido malva nos pusemos a conversar, e eu já me via inteiramente reposto ao ambiente, acreditava, e até podia trocar um ou outro aceno, pronto para enfrentar a primeira aula.

Por deus, estava mesmo me sentindo confortável naquele final de tarde, e a camisa branca de linho, que ainda guardava em si emanações arroxeadas do crepúsculo, era uma espécie de salvo-conduto para minha integração à comunidade. Contudo, bastava tomar-me a sombra desse mínimo de euforia com o bem-estar que em tudo contrastava com o que vinha sentindo, para receber a fisgada da ameaça de que um novo trespasse me poria do lado de fora do amálgama verdadeiro que eu sabia chamar-se realidade. Então, a lutar para que tal não sucedesse, eu tentava fixar o movimento das árvores lá fora, além dos vidros das janelas, e me transportar para o interior do bosque, até os limites do campus.

Haveria um futuro, por certo, para além da hora azul, e quem sabe a noite pudesse acolher seu embrião, e logo começar a gestá-lo para os dias claros que viessem. Haveria o amigo Rodião, a moça de vestido malva, os livros, todos os livros, e as viagens com que sonhasse. Eu me aferrava a essa crença como quem se agarra ao mistério e tenta viver em paz.)

Max Klinger: A hora azul (1890). Museu de Belas-artes de Leipzig. Wikimedia Commons/Domínio público

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Odiodutos massacraram Covas na final

Em janeiro, o prefeito Bruno Covas levou o filho ao Maracanã. Foram torcer para o Santos na final da Libertadores. Com o campo vazio, não se aglomeraram e permaneceram de máscara o tempo todo. Ele saía de dez seções de radioterapia. Odiodutos sociais caíram de pau impiedosamente. Chamaram-no de hipócrita, por São Paulo estar fechada. Uma crueldade, pensei então. Era evidente que aproveitavam o jogo, torcedor e pai, naquela prorrogação.


Sertanejos ou o canibalismo musical

“O sertanejo virou a verdadeira música popular brasileira”, diz ao Globo um ícone desse negócio bilionário. Apenas um dos sucessos do vale-tudo que se tornou o “gênero” fez R$ 850 mil no streaming. Para tirar isso nas plataformas no streaming é preciso ter uma China inteira de audiência, vários Brasil a te ouvir sem parar. Nos últimos anos o sertanejo engolfou ritmos como funk, pop eletrônico, piseiro, forró, brega e pagode. É campeão em tudo: streaming, execução em rádio, venda de discos, arremesso de peso e cuspe à distância e, claro, som de festas de condomínios a 100 decibéis. Antes da pandemia o negócio de shows girava R$ 4 bilhões anuais, informa a reportagem. Leio que artistas como Marília Mendonça, Jorge & Mateus, Zé Neto & Cristiano, Gusttavo Lima e Henrique & Juliano são mais populares que os Beatles e, por sinal, que Jesus Cristo. Conforme o tal astro e guru, o compositor Júnior Gomes, o sertanejo “é um ritmo camaleão”, que “se adapta aos outros. Traz o concorrente, aglutina e se renova”, ele explica. Deveria dizer traga o concorrente, canibaliza e se renova, mas deixa pra lá. Realmente divertida é a “árvore genealógica” bolada pelo Globo para explicar a história do gênero, quer dizer, gêneros sertanejos. Galhos e ramos atuais do “pagonejo” saem de um mesmo tronco que inclui designações como “funknejo”, “feminejo” e “bruto” com e sem viola. No mesmo tronco, abaixo do “universitário” e do “pré-universitário”, aparece o pessoal da “transição do rural para o urbano”, artistas como Renato Teixeira, o jornal aponta, Sérgio Reis e duplas como Chitãozinho & Xororó e Zé Rico & Milionário. Já na raiz do sertanejo —a música caipira plantada com as primeiras gravações no final dos anos 1930 — entram, como exemplos, Cornélio Pires e Alvarenga & Ranchinho. Um golpe de vista crítico racha essa árvore artificial em mil pedaços. A árvore parece ter sido pensada por alquimistas do marketing das gravadoras. É possível seguir as origens da música popular brasileira, do choro ao maxixe, da chula e da chula-raiada ao samba e ao samba-canção e à Bossa Nova e ao que se passou se chamar de MPB, incluindo a Tropicália etc. Mas não dá para engolir, seja por sociologia, temática, técnica, instrumentação, o que seja, como ancestral da promiscuidade musical sertaneja de hoje aquele avuncular “caipira”. Renato Teixeira ou Almir Sater estão para o “funkenejo” como Bidu Sayão estava para a axé music. O estouro da indústria perpassa as classes A/B/C/D/E. Entre as classes médias, ricas ou remediadas, expõe uma clara regressão no gosto musical. A ascensão econômica havida no Brasil nas últimas décadas, quando e como pôde haver, foi acompanhada de uma implacável decadência artística e cultural. Isso é claríssimo na música. Mas boca de siri. Falar no assunto dá o maior galho com as patrulhas do pensamento. Até um ícone insuspeito da esquerda, como o professor de filosofia da USP Vladimir Safatle, que é pianista e compositor, levou um pau cerrado ao tangenciar o assunto, quando ainda escrevia na Folha, no artigo O fim da música.

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Como os aliens do filme boníssimo que é Marte ataca, de Tim Burton, tenho alergia mortal não ao country, mas a seu parente brasileiro dos últimos 30 anos. Minha cabeça explode já ao primeiro compasso, como as cabeçorras dos simpáticos marcianos de Burton.


Alfred Kubin: O passado esquecido engolido (1901). Wikimedia Commons – Domínio Público

Stalin para principiantes

“É insano, praticamente incompreensível, que milhões de pessoas tenham lamentado a morte de um tirano que destruiu suas vidas, que torturou e matou”, diz ao Estadão o cineasta ucraniano Sergei Loznitsa, ao falar do documentário Funeral, que estreia na plataforma MUBI (o trailer abaixo traz, em inglês, o título original do filme, “Funeral de Estado”). Respondia a um pergunta sobre a histeria gerada pela morte de Stalin em 1953, quando multidões em desespero só faltaram se rasgar nas ruas. As novas gerações não sabem nada disso, ou não se importam; o século e o milênio estão achatados num mesmo plano mental. Mal sabem quem foi Stalin. Hoje em dia, na ditadura mal disfarçada de Vladimir Putin, “a percepção em relação a Stalin mudou na Rússia”, conta Loznitsa a Luiz Carlos Merten. “Ele é exaltado pelas autoridades como administrador eficiente e vencedor da 2ª Guerra Mundial. Monumentos são erigidos em sua homenagem em quase todas as cidades através da Rússia e o que não faltam são livros sobre ele nas livrarias”, relata.

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Esse processo de “reabilitação” de Stalin, ainda que constrangido, também pode ser observado no Brasil, como vimos nas tertúlias de Caetano Veloso com o historiador marxista youtubeiro Jones Manoel sobre a obra do filósofo e historiador marxista italiano Domenico Losurdo. O trailer aí do filme de Loznitsa conta um conto.

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Mas nossa substância como humanidade é esponjosa em relação ao passado. Não há de ser nada. Vem aí o transumanismo para dar um jeito em nossos defeitos.


Ian Buruma e a paroquia global

A defesa radical de noções de raça, identidade ou classe social está tornando o mundo culturalmente mais pobre e provinciano. Editores, curadores de arte, produtoras de audiovisual e instituições culturais burocráticas se deixam guiar pelo império da correção moral das patrulhas ideológicas. Há forte tendência acadêmica, nos Estados Unidos, sobretudo, e não é de hoje, de cancelar estudos de Homero a Shakespeare e até de iluministas como Voltaire e Diderot, e todo Iluminismo junto. Seriam todos racistas e supremacistas brancos. Ian Buruma, escritor holandês radicado nos EUA, lembra que, a despeito de seus usos pervertidos pelo colonialismo, partiu da Ilustração o interesse intelectual por outros povos e culturas, da filosofia chinesa ao Bhagavad gita, cuja primeira tradução europeia do sânscrito data de 1785. A pretensão universalista do racionalismo evidentemente foi um erro, mas democracias fundadoras como a França e os Estados se estabeleceram como civilizações inclusivas para o imigrante. Buruma, ensaísta especializado na Ásia e autor de quase 20 livros, perdeu em 2018 seu cargo como editor da The New York Review of Books, talvez a publicação literária de maior prestígio no mundo, por ter publicado um ensaio que se contrapunha à hegemonia do #MeToo, assinado por autor acusado por mulheres de violência e assédio sexual— que já havia sido absolvido em tribunais. Buruma é considerado um progressista refinado, elegante e equilibrado, um liberal na tradição anglo-saxônica. Esses atributos clássicos de um editor se tornaram desprezíveis diante do poder conquistado pelos movimentos de afirmação racial e identitária. A discussão e o enfrentamento livre de ideias estão proibidos. O principal resultado disso é o emburrecimento geral.


A sombra monstruosa da censura

Leio que uma nova editora vai publicar a biografia de Philip Roth por Blake Bailey, depois de a obra, já na praça e muito elogiada pela crítica especializada, ter sido retirada pela W.W. Norton, depois de seu autor ser acusado de assédio e violação sexual. Bailey tem se defendido das alegações, mas o caso vai além disso. Roth morreu depois ser tachado, em toda sua carreira literária, de misógino e antissemita por feministas e judeus radicais. Agora, o escândalo que envolve Bailey chamusca o próprio Roth. Por muito pouco sua obra ainda não foi banida e condenada ao esquecimento, como a filmografia de Woody Allen, por exemplo. Dá preguiça conversar sobre a separação entre autor e obra, conversa mais velha que a serra do Curral. A inteligência superior de Roth e a profundidade de romances como O teatro de Sabbath e Pastoral americana ainda mantêm seus livros inalcançáveis pelo furor das milícias do pensamento. A escritora argentina Débora Mundani se mostra indignada, em artigo para o Clarín, com o fato de o “espírito punitivo [do politicamente correto] não apenas mirar o conteúdo como também a quem o emite, condenando ao silêncio público, que nada mais é que uma forma de invisibilidade e desaparição, tanto da obra como do artista”. Ela se pergunta: “Acaso uma obra esteticamente valiosa pode ser criada, só e somente só, por uma pessoa moralmente íntegra?” Para ela, proibir a distribuição da biografia de Bailey (e pelo amor de Deus!, que todas as denúncias contra ele sejam investigadas e que ele, considerado culpado, pague por seus crimes) não é muito diferente de fazer fogueiras públicas para promover a queima de livros “degenerados”, como já vimos, não faz tanto tempo assim. Mas editoras norte-americanas já estão impondo na surdina, em segredo, draconianas “cláusulas de moralidade” aos seus contratados, informa El País. “A sombra da censura paira sobre esses novos termos contratuais, cuja definição de escândalo é vaga o suficiente para soar o alarme”, diz o relato.


O Brasil como abstração

É  preciso abstrair muito para se enxergar o Brasil como democracia, como um país mais ou menos estruturado para permitir sua existência como nação. Demanda o empenho de boa educação e alguma renda. Só uma elite, aí sim, bem-educada, bem-informada e interessada é capaz de perceber a funcionalidade das instituições, ainda que torpes e claudicantes. É claro que isso não basta, há franjas radicais em todas as classes. E como diz Javier Marías, a ignorância hoje é ‘transversal’ e transfronteiriça”.  Mas sem tais pré-condições, é jogo perdido, e regressão política na certa. O modo como operam os poderes é torto e incompreensível para a imensíssima maioria das pessoas que aderem ao niilismo. O STF, por ter o papel balizador da Constituição, facilita demais a vida de versões sobre conluios e defesa de privilégios. Do Congresso nem se fale. A reedição dos Anões do Orçamento com o Tratoraço revelado pelo Estadão, como também a desenvoltura desse Lira, é a mais hedionda exibição de pornografia política, e liberada para todas as idades. Quanto ao atual Executivo, bem, segue em frente com as quatro patas no chão. Vícios e ineficácia galvanizam odiodutos e conservam a polarização. Tudo isso atinge as pretensões do centro político, e marginaliza quem, de boa vontade, busca respeitar os fatos e não se deixar render à paranoia ou aos automatismos do viés ideológico.

Caravaggio: Medusa, cerca de 1597. Galleria degli Uffizi, Florença

Ódio contra ódio

Embarcam nos odiodutos também correntes que vivem no púlpito do sermão de uma nota só sobre o “ódio” alheio. Na Folha, a colunista Djamila Ribeiro atribui ao “projeto de ódio” de patriotas fakes a “precarização” da UFRJ. A questão é que nunca existiu um “projeto de ódio”. O que existe é ignorância brutal, incultura e analfabetismo funcional guindados ao poder. Caveirão e alguns de seus ministros e ex-ministros sequer dominam regras básicas do idioma. São broncos que tipicamente arrotam certezas e uma percepção vulgar da história.


Boneca de porcelana

Conrado Hübner Mendes, professor de direito constitucional USP e colunista da Folha, criticou duramente o PGR Aras. Referindo-se à diabólica atuação do Caveirão na pandemia, Mendes  escreveu: “O Poste Geral da República é um grande fiador de tudo que está acontecendo”. Apois. O PGR Aras, sem ter mais o que fazer, já que engaveta tudo que lhe chega às mãos contra o presidente que o elevou à dignidade do cargo, representou contra o colunista no Conselho de Ética da USP.

*

O gesto intimidatório, o que mais?, do PRG, apenas reitera sua figura liliputiana.

*

Mendes ensina, ao ser entrevistado sobre o affaire:

“Quando falamos de crimes contra a honra como calúnia (imputar crime) ou difamação (atacar a reputação), a interpretação do Código Penal não pode ser a mesma entre autoridades públicas e cidadãos comuns. Isso faz parte do pacote: não se pode ser autoridade e se comportar como uma boneca de porcelana ao mesmo tempo”.

ATUALIZAÇÃO (22/;05): Aras também entrou com queixa-crime contra o colunista da Folha, por calúnia e difamação, na Justiça Federal de Brasília.


João Pedro ainda não descansa em paz

“João Pedro, que gostava de pizza e igreja, morreu há um ano, e o caso pouco avançou”, diz o título de reportagem da Folha. Anna Virginia Balloussier reporta:

“[…] Há um ano, no dia 18 de maio de 2020, João Pedro Matos Pinto foi jogar videogame na casa de um primo, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ).

Três policiais civis, em operação conjunta com a Polícia Federal, rondavam a região de helicóptero. Do ar dispararam 29 vezes, como contaram depois, em depoimento. Um dos tiros de fuzil atingiu a barriga de João Pedro.

Ele foi colocado dentro da aeronave da Polícia Civil e levado até a capital do estado. Não resistiu e morreu. Tinha 14 anos e estava animado com a TV que o pai tinha comprado naquela mesma manhã, junto com uma cama para ele e a irmã caçula, no quarto que os dois compartilhavam. Faria 15 no mês seguinte. […]”.

A Ju Extra — Carta de Quarentena #06, em 22/05/2020, deu a nota:

Deu no New York Times (versão em português): ‘Licença para matar’: por trás do ano recorde de homicídios cometidos pela política no Rio |  Uma análise do Times constata que policiais disparam sem restrições, sob proteção de superiores e políticos, certos de que não haverá consequências para homicídios legais. A reportagem do jornal norte-americano saiu na segunda-feira (19). Como para ilustrá-la ou reiterá-la, no dia seguinte mataram o menino João Pedro Matos Pinto, de 14 anos. João foi baleado e morto em uma operação das polícias Civil e Federal em São Gonçalo, região Metropolitana do Rio. O governador Witzel é da mesma cepa homicida de onde brotou o chefe do Executivo. “Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente”, já pregava este nos anos 1990; “a polícia vai mirar na cabecinha e… fogo, anunciava aquele na campanha eleitoral. Tiveram milhões de votos por defender o bafo do “excludente de ilicitude”, essa permissão aos crimes policiais contra pobres moradores de favelas. Então, veja-se quem pode e quem não pode chorar por Joãozinho, ou, por um segundo, sentir-se na pele de seus familiares.

Um ano depois, o mesmo Core, tido como elite da Polícia Civil do Estado, protagonizou o Massacre do Jacarezinho. “Tudo bandido”, sentenciou o vice-presidente da República, ajuizando as execuções, ou a pena de morte informal que vigora no país para pobres e miseráveis, tendo ou não ficha criminal, em territórios controlados pelo narcotráfico. Na área bem maior comandada pelas milícias, grupamentos formado por policiais, afastados ou na ativa, quase não ocorrem operações policiais. As milícias [leia aqui comentário do livro A República das milícias, de Bruno Paes Mano] são o que Demétrio Magnoli chama de “a polícia do b”. “A seleção [de mortos] do Jacarezinho para a Operação Exceptis parece obedecer a uma lógica de negócios. Quem ganha com uma eventual troca de guarda na favela?”, indaga Magnoli, sugerindo como linha de investigação a possibilidade de que o massacre esconda um ataque planejado contra o facção sanguinária que controla o Jacarezinho. Diferentemente de seu rival, o Terceiro Comando, o Comando Vermelho não é dado a “joint ventures” com as milícias.


 Johann Natterer: deesenho de jurupoca – jiripoca ou jerupoca (Hemisorubin platyrhynchos). O naturalista integrou a missão ao Brasil do imperador austríaco Francisco I, de 1817 a 1835

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A Rádio Siutônio, a rádio que não vale encômio ou mecônio, e não tem patrimônio, curtiu à beça duas lives que caíram na rede essa semana: uma homenagem ao compositor Carlos Lyra prestada por grandes intérpretes de sua música, e um “ensaio aberto” de Chick Corea, gravado pouco antes da morte do pianista, em fevereiro, e dedicado ao Brasil. A rádio ainda não se cansou de tocar Negro amor, do último álbum de Gal, em duo com Jorge Drexler, agora com ao pretexto do lançamento de um clipe com os dois artistas.

Uma lira para o Lyra

“[…] Mais que nunca é preciso cantar/ É preciso cantar e alegrar a cidade/[…] Porque são tão tantas coisas azuis/ há tão grandes promessas de luz…” Cantarolo a Marcha da Quarta-feira de Cinzas, parceria de Carlos Lyra, 88 anos no último dia 11, com Vinicius de Moraes. Grandes promessas de luz é Vinicius em estado puro, celestial. Vinicius, cujo único estado de graça era o etílico, como notou Paulo Francis. Vinicius e Lyra, como Vinicius e Tom, ou Bosco e Blanc, ou, ainda lá atrás, Sinhô, Francisco Alves e Mario Reis, é uma entre tantas conjunções culturais que oferecem um lenitivo contra nosso miserê, já que orgulham e alegram uma cidade, o país, o mundo. Escrevo enlevado pela live de sexta-feira passada, nos canais Blue Note Rio e São Paulo, dedicada a Lyra. O arrecadado com as doações vai para o projeto Visão Esperança. Lyra é um monumento. Sua música ensolarada é cem por cento filha do Rio de Janeiro e animada pelo espírito afirmativo que a cultura assumiu entre os anos 1950 e o golpe militar. Os convidados da Live deixaram claro o quanto ele faz jus a todas as reverências que vier a receber. Contemporâneos da mesma geração como Roberto Menescal, ou o mais velho que Lyra, João Donato, e o mais jovem Marcos Valle, compareceram; Salmaso cantou Primavera (Lyra e Vinicius) deliciosamente; o casal Morelenbaum fez Maria Ninguém; Toquinho frisou o enorme melodista e sua influência na geração posterior, e escolheu Se é tarde me perdoa (Lira & Ronaldo Bôscoli); Joyce Moreno (Sabe você, de Lira & Vinicius) e Leila Pinheiro (Lobo Bobo, de Lira & Bôscoli), suas ótimas intérpretes, renderam parabéns. Stacey Kent e Jim Tomilson, dos EUA, enviaram saudades, e por sinal lembranças de como Lyra, como João e Jobim, ainda influencia o jazz. Levaram em português Quem quiser encontrar o amor (Lyra & Geraldo Vandré). Ivan Lins mandou a fundamental Influência do jazz (Lyra), e Roberta Sá, acompanhada por Nelson Faria, linda e saborosamente, Coisa mais linda (Lyra & Vinicius). Parafraseando Chico Buarque, essa canção é um piropo perfeito, a mais alta expressão do piropo. E pensar que perdemos a classe e a elegância para enaltecer a beleza, o amor e o sexo (leia mais a respeito na Rádio Siutônio da JU# 67). Nelson Faria ressurge melodiando e harmonizando para a voz de Zélia Duncan Canção que morre no ar (Lyra & Bôscoli). Não podiam faltar evidentemente, como sucessores em verve e invenção, Gilberto Gil (Você e eu, de Lyra & Vinicius) e Caetano Veloso (Quando chegares, de Lyra). O aniversariante pinta já no final para agradecer com Minha namorada (dele e Vinicius). Aí, para fechar a live, vem do Japão uma ingente festa coletiva dedicada ao aniversariante. Por lá conhecem e valorizam os benefícios de nossa melhor música para a saúde da alma. E sambem demonstrar sua gratidão.

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Caetano canta a pedra de toque: as canções de Lyra são feitas com perfeição.

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“A Bossa Nova é Phoda. Carlos Lyra é Phodalho!”, anotou o primo Franquilim nos comentários do Youtube. A JU curtiu.


Uma alô para o Brasil
 já perto do adeus

O pianista Chick Corea, morto em 9 de fevereiro, vítima de câncer, havia gravado em seu estúdio, no final de 2020, uma apresentação para a Blue Note brasileira. Desde o último sábado este “ensaio aberto” está nos canais da casa no Youtube. Corea o dedica a Stan Getz, cujo quarteto  integrou, e a João Gilberto e Tom Jobim. Uma hora da melhor música contemporânea que você pode ouvir. Logo no início ele faz uma leitura de Chega de saudade. Improvisa sobre a melodia, claro, mas em momento algum quebra a espinha do original. Em seguida, apresenta uma peça de Domenico Scarlatti, para comentar que o compositor italiano do século 17 foi uma da influências de Tom, que costumas ser mais associado a Debussy e Ravel. Então, quando o ouvimos tocar algo do russo Alexander Scriabin, já do período moderno, conseguimos facilmente erguer uma ponte auditiva com a música do brasileiro. Corea emenda esplendidamente com Insensatez, extraindo comentários de cada compasso dessa obra prima versionada por quase todo o jazz norte-americano e além.  


E não tem mais nada, negro amor

Saiu um clipe de Gal e Jorge Drexler de Negro amor, que a Rádio Siutônio comentou na JU #58, do último álbum de Gal. É um primor esse duo, refrescando a versão em português de Caetano e Péricles Cavalcanti para  It’s All Over Now, Baby Blue, de Bob Dylan.

Até mais ver, e obrigado pela leitura!


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— A JU, seu amado hebdô, tomou emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —


 

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