O mundo como farsa e tapeação

Schopenhauer nos incitava a combater o obscurantismo com todas as armas e sem transigência. Que seu espírito ilumine o vale das sombras que atravessamos

Jurupoca_73 28/5 a 3/6/2021
Hebdomadário de cultura, ideias e alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto: Schopenhauer em 1859. Deutsche Digitale Bibliotheke. Fonte: Wikimedia Commons


Soneto da rosa – Vinicius de Moraes
Rio de Janeiro, 1954

Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.
E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, e agora
Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude
Para que o sonho viva da certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza.


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Para ele, a mera expectativa da felicidade era o caminho certo da ruína. Reduzir a dor o quanto pudermos, eis o que temos à mão, e nisso todo ser humano deveria se engajar, ele ponderava.

Filosofia e arte ajudam a nos tornar menos infelizes, ele garantia.

Arthur Schopenhauer (1788-1860), viveu bem para sua época, 72 anos.  Seus escritos póstumos, populares e repleto de resmungos contra uma miríade de objetos, do imperativo categórico (“almofada para asnos”) ao jogo de baralho (“a falência declarada de todos os pensamentos”), nos divertem hoje.

Mas sua misantropia — mais bem fundamentada que a de muitos — é coisa séria.

O filósofo via o mundo como inferno ou “colônia penal”.

“O mundo é o pior de todos os mundos possíveis”, ensinava. E comparava os seres humanos a “uma sopa rala com um pouco de arsênico.”

Resumia a condição humana nesses termos: vivemos cercados pela dor e a necessidade, e se escapamos de ambas, o tédio nos espreita.

Seu ceticismo é comovente: “A glória é o rumor da vida, e a vida é a grande paródia da vontade, ou seja, aquilo que mente mais do que o homem.”

Como não simpatizar com quem vemos, em seus muitos retratos, penteado como um deus grego caído, mas ainda a observar seu semelhante com fogo nos olhos e a expressão de um rochedo?

Suas palavras sobre o negacionismo, que azucrina nossas vidas neste momento, desabrocham como flores.

“O obscurantismo é um pecado, talvez não contra o espírito santo, mas certamente contra o humano, o que o torna imperdoável”, diz em seus escritos coligidos em A arte do insulto.

O velho Arthur incitava a mim e a ti, que prezamos a lucidez, a combater o obscurantista com todas as armas:

“É preciso apontá-lo sempre e por toda parte, sem transigências, àquele que o cometeu, e fazer deste motivo de desprezo em todas as ocasiões enquanto ele viver e até mesmo depois que morrer.”

A JU tem tentado seguir esse preceito.

Que seu espírito ilumine o vale das sombras que atravessamos.

Não, insistia Schopenhauer, é um erro subestimar a ignorância.

“A incapacidade, a total falta de discernimento e a bestialidade do gênero humano”, ele dizia, no que parece ter sido seu testamento filosófico, “me indignaram e me arrancaram o antigo suspiro: Ilumani generis mater nutrixque profecto stultitia est”, ou seja, a estupidez é a mãe e a ama-de-leite da nossa espécie.

*

“Minha época e eu não fomos feitos um para o outro: quanto a isso, não há dúvida. Mas qual de nós vencerá o processo diante do tribunal dos pósteros?”, perguntava-se o autor de O mundo como vontade e representação.

Bom, pode-se afirmar que ele se superou diante da posteridade. Seu pensamento é um dos mais influentes na história da filosofia e das artes.

E o tempo?

“O tempo é aquilo que faz com que a cada momento tudo se transforme em nada em nossas mãos, perdendo, portanto, todo o seu valor.”

Leio isso e não me contenho. Pego a caixinha de fósforos e batuco um samba de Wilson Batista e José Batista, Meu mundo é hoje (ver a Rádio Siutônio). Cantarolo as estrofes finais da letra,

Tenho pena daqueles
Que se agacham até o chão
Enganando a si mesmo
Por dinheiro ou posição

Nunca tomei parte
Desse enorme batalhão
Pois sei que além de flores
Nada mais vai no caixão

Schopenhauer em 1852 (data provável). Domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

A negatividade da Arte de insultar é um elixir para nosso dias, em que padecemos de um “excesso de positividade”, na expressão do filósofo coreano Byung-Chul Han.

Devemos fechar os olhos e calar a boca diante da estultice, da baixeza, da infantilidade e da pobreza nas artes e na cultura.

A crítica à cultura foi praticamente abolida nos ensaios jornalísticos, quando a espada do cancelamento paira sobre as cabeças bem pensantes, e anula a boa vontade.

Me pergunto por que ainda não pulverizaram o busto de Schopenhauer esculpido por Elisabeth Ney em 1859, pertencente ao museu da artista em Austin, Texas.

Como! Ainda me deixam? intacta a imagem de quem, sobre o igualitarismo, pontificava:

“O  intelecto não é uma grandeza extensiva, mas intensiva: sendo assim, um único indivíduo pode tranquilamente opor-se a dez mil, e uma assembleia de mil imbecis não faz um único homem inteligente.”

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Notas para violino, trombone e xequerê

Passa, boiada

Sou um fazendeiro do ar e meus bois voam livres e invisíveis. Não há regramento ou burocracia que os prendam em curral algum. Meus bois de sol banham-se na nata celestial e trocam o capim provisório pela prana perene.

Frank Mark: A vaca amarela (1911).Solomon R. Guggenheim Museum, New York, Solomon R. Guggenheim Founding Collection

Liquidez seca

Assim como há, até o momento em que esta JU é batucada, uma dúzia de gêneros para elegermos o mais apropriado ao nosso intra-imo — e temos até o suspiro último para fazer escolher, ou mudar a escolha, como quem toma a extrema-unção — sabemos que existem pelo uma dúzia tipos de inteligências por aí, ainda que entre essas não haja muita escolha, é um negócio ainda a depender de avanços na engenharia genômica. O governo de sua excrescência Caveirão.155 mm, por exemplo, tem um estoque de inteligência bruta monstruoso, provido pelo próprio Caveirão e suas muitas eminências ministeriais na saúde, ciência, sustentabilidade ambiental, educação etc. Ocorre que, descontada a ação administrativa, além de pronunciamentos, de todos os luminares na Esplanada, do tal estoque de inteligência bruta resultada um saldo negativo de inteligência líquida, um saldo devedor, portanto seco, se o generoso leitor compreende tal contabilidade. São perdas enormes, talvez impagáveis, papagaios que serão empurrados para as próximas gerações.


MSP

Lanço o Movimento dos Sem Parque. Dois meses ou mais sem passear no parque municipal, essa minguada área verde que comeram pelas beiradas, mas ainda assim constitui um oásis na aridez do centro-sul do Belo. Ao cerramento sanitário durante a onda roxa segue-se a “vacinação dos gatos”. Se a vacinação dos humanos vai assim, em ritmo Dorival Caymmi, imagina a dos gatos. No Belo, essa cidade placebo cortada por um ribeirão-esgoto, nunca foi tão difícil se arejar.

*

A propósito, o tapamento do esgotão Arrudas fora projetado como embelezamentos, tais como “bulevares” de inspiração parisiense. Milhões de reais foram torrados no marketing político que vendeu essa patranha. Mas os “bulevares” do Belo lembram sim Paris, como não? Não a cidade que nasceu das reformas do barão Haussmann no século 19, e que nos encanta, mas outra, empesteada, anterior, posta abaixo.

*

O Belo volta pior em cada reencarnação. E a cidade viveu quatro ou cinco em 123 anos de existência.


Kafka e a identidade

“O que eu tenho em comum com os judeus? Pouco tenho em comum comigo mesmo e deveria, bem quietinho, me postar a um canto, satisfeito por poder respirar.” (Diários – 1909-1923, Todavia, 576 págs., R$ 87,99 Ebook: 26,91). Os cadernos do escritor editados nesses diários trazem esboços literários e registros de um ser irrealizado, confrontado pelo pai, pelo desejo sexual insatisfeito e pela própria existência. Mas nunca se perde a dimensão do criador, por mais que ele se debata por não conseguir escrever o que idealizara. Sabia de seu tamanho; seus dons literários não integram suas aflições. Escrevia, precisava escrever, escrever era a essência da uma mente insone, em permanente criação. O mais desconcertante são trechos em que o homem, o escritor Franz Kafka, se confunde com K., ou Joseph K., um personagem do próprio. O leitor se arrepia. Não ler Kafka é uma falta imensa em uma educação literária, e na vida.


Francisco José de Goya y Lucientes: Chuva de touros | Los provérbios – Disparates de tontos (1816–1823). Achenbach Foundation for Graphic Arts. Museu de Belas Artes de São Francisco

Extra, extra

Bancas de jornal passaram a vender até jornal, para o serviço de pets, a quilo. Na idade de ouro do impresso, ao menos serviam para embrulhar peixe.


Vinicius digital agorinha

Nessa quinta-feira (27) caiu na rede o Acervo Vinicius de Moraes. Boa notícia para adoçar um pouco a amargura circunstante. A iniciativa de descendentes do poeta, compositor, cantor, dramaturgo, diplomada, crítico e jornalista, anuncia a entrega inicial de 11 mil documentos do acervo guardado na Casa de Ruy Barbosa, no Rio. Pesquisadores, leitores, fãs de Vinicius  podem se esbaldar com seus roteiros para cinema, peças teatrais, poemas, letras de música e vasta correspondência com uma vastidão de amigos, além de uma galeria de fotos.


A Revolução Cultural norte-americana

De Antonio Molina Muñoz, o temperado escritor e colunista do El País, sobre a censura nos EUA à biografia de Philip Roth, escrita por Blake Bailey, em seu texto mais recente: “Nos departamentos de literatura das universidades norte-americanas o grau de liberdade de pensamento é mais ou menos equivalente ao da China durante a Revolução Cultural, e o da liberdade de expressão não muito superior ao da Coreia do Norte”. Molina lembra a reação de um rabino nos EUA ao sucesso de O complexo de Portnoy, essa divertidíssima novela que fez fama e fortuna de Roth: “O que se está fazendo para silenciar este homem?” Ou o grande erudito judeu Gershom Scholem, amigo de Walter Benjamin, para quem o livro poderia produzir “um novo Holocausto”. A presunção de inocência saiu de moda. Agora, sim, é possível silenciar autores acusados de crimes, com ou sem respaldo do devido processo judicial, e a própria obra dos acusados some de roldão.


Capital humano vai para o ralo,
e o exemplo de Naomi Munakata

O podcast O Assunto #461, de Renata Lo Prete, exibido nesta quinta (27), entrevista o economista da UFV Claudio Considera. O pesquisador explica os resultados do estudo que conduziu e sua indicação de que as mortes de pessoas entre 20 e 69 anos, causadas pela Covid-19, geraram prejuízos de pelo menos R$ 5,9 bilhões anuais ao Brasil. O programa ilustra já na abertura o significado da devastação de gente ainda jovem para produzir o que for, com o exemplo de Naomi Munakata. A maestrina morreu em março do ano passado, aos 64 anos. À frente por muito tempo do coro do Teatro Municipal de São Paulo e do coro da Osesp, Naomi foi uma artista capaz de ensinar a ricos e pobres o valor da arte e da beleza na existência pessoal e comunitária. Maior referência de sua geração em canto coral no país, especializada na Suécia, a grande escola mundial nessa área, a maestrina era adorada por seus muitos discípulos, funcionários do teatro e da orquestra e por quem teve oportunidade de desfrutar de seu trabalho como regente.


“Esgana”

“Temos por aqui uma espécie de ‘Esgana’: carga tributária da Espanha e serviços públicos e padrões de Gana”, resume o economista Marcelo Nery, da FGV Social, ouvido em reportagem na Folha de Fernando Canzian. Na última década o Brasil teve seu pior desempenho em 120 anos, com trabalhadores menos qualificados e informais empurrados para a miséria. A pandemia promoveu um rebaixamento em massa da classe C diretamente para a E. Miseráveis, com renda inferior R$ 246/mês, eram 24 milhões, 11% da população, em 2019, antes da pandemia; chegaram a 16% no primeiro trimestre de 2021, o equivalente a 35 milhões de almas. O país está mais endividado e com a maior carga tributária relativa aos programas sociais desde 1980, ou seja, em péssimas condições para deter o empobrecimento por meio de programas sociais como os realizados no período FHC e depois com o Bolsa Família, na era Lula.  


James Ward: Retrato de dois bois extraordinários, propriedade do conde de Powis (1814). Yale Center for British Art.

Apps-divã para mamães

Recorte de tela do Estadão.com na manhã dessa quarta-feira (26)

Os botões do Vale do Silício são viçosos e curam até amor-próprio mal resolvido de mãe. A propósito, o Estadão passou a adotar as manchetes imperativas (saiba, aprenda, entenda…), ideais ao jornalismo online atual — nunca foi tão fácil ser um editor. Mamães que se sentem pressionadas pela vida podem desabafar num app-divã e se livrar dessa besteira de culpa e baixa estima. Afinal, mamães precisam ser mamães felizes, cheias de coragem para criar filhotes felizes, aptos para surfar felizes na onda da vida desde a primeira resfolegada, e já vindo à luz tão felizes quanto foram felizes na paz e no calor do útero.


Aprendam, meninos nas comunicações

Recorte de tela da Folha online às 09:04 horas dessa quarta-feira (26)

Uma boa matéria (reportagem, artigo etc.), para ter visibilidade aos olhos dos robôs Google, deve ter título imperativo (ver nota anterior), responsivo (iniciado com “porque”),  ou interrogativo (aberto com “por que”). Deve-se facilitar a vida do leitor, que tem mais o que fazer que ler atentamente um texto do começo ao fim. Estudantes de jornalismo, atenção: não deixem de clicar bastante em suas telinhas, percorram os títulos e assimilem o manual. Aí no exemplo, temos um modelo brilhante de recuperação do bordão popular “Freud explica”. Quem tem mais de 40 vai se lembrar que dizíamos isso muito, a toda hora, sem ter nada a ver, no boteco coisa e tal. O próprio Sigmund, claro, nem podia imaginar o efeito Bombrill de sua vasta obra.


Corrida do ouro

Youtubeiros, influenciadores, modelos fitness, coaches, celebridades-pipocas do BBB, funkers, gamers, sapos na lagoa, correi. É chegada a hora de faturar.


Velho e desatualizado

Vejo dez minutos de TV ou zapeio por páginas de cultura online e me sinto um velho do segundo milênio, 130 anos inteiros, tal o número de celebridades que aparecem, às vezes dúzias em uma semana, de quem jamais ouvi falar. Estrelas do funk e do BBB explodem como pipoca em pacotões de micro-ondas.

*

O jornal da família Marinho, não por nada, bate o bumbo do ranking de jornal mais lido do país. O BBB, atração alta cultura campeã da emissora do conglomerado, opera na mesma realidade. Somos o que nos tornamos, pois não?

*

A veterana colunista Sonia Racy, do Estadão, traz uma extensa entrevista ping-pong titulada: “O funk é gigantesco e muda vidas’, diz Pocah, que acha que o gênero ainda sofre preconceito”. Não sei quem é miss Pocah. Ainda não desfrutei de sua obra musical. Mas sinto falta nas folhas digitais de quem, por escrever, pensar, produzir arte, tenha algo a dizer para nos ajudar a pensar, encontrar resposta ou apenas nos distrair como seres inteligentes, em vez de nos tratar como imbecis.

*

Represento uma cultura, como também uma política, mortinhas da silva, bem sei. A feiura e o desprezo pela criação artística parecem ter sido definitivamente incorporados pela sociedade, em todas as classes. O mais infernal é essa confraternização hipócrita do igualitarismo. Pocah, nesse mundo, vale tanto com uma diva do “feminejo”, quanto uma sinfonia de Beethoven, quanto uma novela de Kafka, quando uma celebridade-pipoca do BBB. O relativismo venceu com as armas da hipocrisia e a segurança servida pela guarda do pensamento e da moral.  


As ondas

Vira e mexe uma diva do pop revela ter sido abusada sexualmente quando jovem. A coisa parece ser epidêmica. Lady Gaga, Anitta, Madona, Xuxa são algumas de que me vale a lembrança. E leio naquele ex-caderno de ex-cultura: “Moby repudia Bolsonaro, comenta affair com Natalie Portman e diz querer ser gay”.  Um homem poderá também, presumo, “querer ser lésbico”. A identidade está aberta à intervenção autoral e pode ser patenteada.

*

Comum a tudo isso é o interesse pela vida pessoal das celebridades, a começar da vida sexual, depois seu alinhamento com as cláusulas morais do contrato social idealizado pelas vanguardas do progresso.


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A Rádio Siutônio, você sabe, não vale encômio, mecônio e não tem patrimônio, como certas rádios mineiras sintonizadas pela Lava Jato. Mas dedica a você semanalmente, como muito amor e carinho, uma refinada seleção musical. Nesta edição, a redescoberta de José Mauro, cantautor dado como morto pela própria gravadora, inglesa, por sinal, que reedita os únicos dois álbuns do artista, lançado nos anos 70. Passamos pelo samba delicado e refinado de Wilson Batista e seus parceiros, para registrar o aniversário próximo de 50 anos do show-mito Gal a todo vapor, também conhecido como Gal Fa-tal.

*

Canções são ruins quando a melodia é previsível e mal compreendida pela letra.

*

Deu New York Times: José Mauro vive!

José Mauro em foto recente feita por José Bispo/divulgação

Autor de apenas dois álbuns cults — Obnoxious, de 1970, e A viagem das horas, lançado em 1976 — e dado como fantasma pela gravadora inglesa Far Out Recordings, especializada em música brasileira,  responsável por seu ressurgimento. Seu nome? José Mauro Soares da Cunha, artisticamente José Mauro, cantor, compositor e violonista. Até o ano passado, a própria Far Out comprava história da desaparição definitiva do artista. José Mauro teria sumido em circunstâncias obscuras. Falava-se em acidente de moto e em prisão e tortura nos calabouços da ditadura. Lorota boa. O homem, hoje aos 72 anos, leva uma vida calma em uma vila de casas simples em Vargem Pequena, bairro afastado da quase rural da Zona Oeste carioca. A viagem das horas será lançado nesta sexta-feira (28). Me liguei pelo New York Times, depois fui checar nossas folhas. Encontrei a história de José Mauro contada ainda em mais detalhes em reportagem da Época. Ouça aí e me diga o que achou. Eu suspirei, surpreso. As canções são parcerias de Mauro com Ana Maria Bahiana, também jornalista e que há muitos anos vive em Los Angeles.


Obnoxious (1970), de José Mauro e Ana Maria Bahiana, produzido por Roberto Quartin, fundador do selo Forma, com arranjos e regências de Gaya

Rua Dois


Lealdade, um samba
jovial, beira os 80 anos

Mônica Salmaso fez, em quarteto, no Ô de casas 159, a deliciosa Lealdade (Wilson Baptista e Jorge de Castro). O samba é pura delicadeza, curto e raro. Para um tempo de melodramas sonoros e dor de corno, a letra de Lealdade manda um recado jovial e certeiro sobre a igualdade entre os sexos e a liberdade no amor. Incrivelmente, é pouquíssimo gravado, desde seu lançamento por Orlando Silva no início de 1943 (fora registrado em estúdio em dezembro de 1942). O conheci com Caetano, no álbum do show, voz e violão, gravado Golden Room do Copacabana Palace; corria o ano de 1986. Encontro também no Youtube uma gravação clandestina de João Gilberto. “Wilson Batista é um dos maiores compositores de samba de todos os tempos. Paulinho da Viola e João Gilberto também dizem isso. É uma injustiça que um sambista, tão atual ainda hoje, seja pouco conhecido”, disse a cantora e compositora Cristina Buarque, expert em samba e sambistas, à cantora Eliete Negreiros. João Gilberto gravou de Batista Preconceito (com Marino Pinto) e Louco (com Henrique de Almeida), de que me lembro agora. E dele, com José Batista, Paulinho da Viola imortalizou ainda mais (upa!) Meu mundo é hoje, no LP A dança da solidão, de 1972, e quem não conhece estes versos: “Eu sou assim/ Quem quiser gostar de mim eu sou, assim…”.

A versão de Eliete, no início da cardta, também é muito boa, não é?


Lealdade – Wilson Batista e Jorge de Castro

Serei, serei leal contigo
Quando eu cansar dos teus beijos, te digo
E tu também liberdade terás
Pra quando quiseres bater a porta
Sem olhar pra trás

Se o teu corpo cansar dos meus braços
Se o teu ouvido cansar da minha voz
Quando os teus olhos cansarem dos meus olhos
Não é preciso haver falsidade entre nós.


Gal, há quase 50 anos

A Folha promoveu a sinergia, como se doura a pílula do mais com menos no jornalismo digital, ou seja, só se demite e ninguém entra. Juntou o caderno de domingo Ilustríssima — feito para leitores não muito interessados no permanente festival de fofocas caça-cliques e banalidades para crianças — com seu ex-caderno de ex-cultura. Mas trouxe, na estreia do Ilustríssima Ilustrada, acho que é assim, um ótimo ensaio-reportagem de Claudio Leal, jornalista e acadêmico de história do cinema na USP, sobre o cinquentenário de Fa-tal, nome icónico do show Gal a todo vapor, lançado pela cantora baiana em 12 de outubro de 1971 no teatro Tereza Rachel, São Sebastião do Rio de Janeiro. Gal Costa, aos 26 anos, retinha todas as luzes que um artista pode reter, naquele tempo sombrio, mas de muita festa nas “Dunas da Gal” em Ipanema.

*

Mas se o show de Gal, na palhada do Tropicalismo, foi um acontecimento cultural relevante e deve ser lembrado, o disco do show ao vivo não honra essa memória. A gravação é péssima. Para mim se salva Antonico, que Gal conta ter aprendido do próprio Ismael Silva, e pouco mais. Claro, há outros bons momentos como Fruta gogóia (domínio público), Sua estupidez (Roberto Carlos e Erasmo Carlos) e Como 2 e 2 (Caetano Veloso) , mas o conjunto soa datado, mal-ajambrado e difícil de ouvir. Não me refiro ao álbum duplo, o LP, e ouvi-lo talvez me trouxesse outras sensações. O CD da Philips que tenho em mão é uma porcaria, sem encarte com letras e dados autorais e muitíssimo mal-acabado. Tocar os fonogramas no streaming não fede nem cheira.  

*

Até mais ver, e obrigado pela leitura!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —


 

 

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