Contra o suplício do Caveirão, Sísifo

A profilaxia da Covid-19 pode ter melhores resultados conjugada à profilaxia do atraso, logo, ler ou não ler Albert Camus faz uma baita diferença nesta hora pesada como uma rocha dos infernos


Jurupoca_74 – 4 a 10/6/2021
Hebdomadário de cultura, ideias e alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto: Tiziano Vecellio: Sisyphus (1548/1549), detalhe. Cortesia do Museu do Prado, Madri


Um deus

 — Arnaldo Antunes —

um deus efêmero

um deus com sexo

um deus com gênero

e que envelhece

um deus com fim

um deus assim

merece prece

Um deus que conta

o seu segredo

um deus que apronta

mas tem medo

um deus que erra

e recomeça

merece reza

Um deus que sofre

e que se alegra

um deus com sorte

e sem promessa

um deus que pensa

um deus ateu

merece crença

Um deus talvez

volúvel deus

um deus que ovula

todo mês

um deus que paga

sua comida

merece vida

Arnaldo Antunes: poema do livro Algo antigo (Companhia das Letras, 2021)


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

— Viver não é mole.

— Nunca foi.

— Na batata: nenhum algoritmo, aplicativo ou plataforma tornarão a vida mais fácil.

— Mas o que é viver, afinal?

— Pois é. A vida humana nem sempre é “vida inteligente”.

— Isso é pacífico, data vênia.

— Então, não disse?: livre pensar é só pensar (Millôr).

Hora de abrir portas e janelas para arejar: profilaxia do Covid-19.

Hora de abrir as janelas do espírito para iluminar: profilaxia do atraso (obscurantismos, todo tipo de terraplanismo, os ideológicos na cambulhada).

O “homem absurdo” valoriza cada cêntimo de vida, cada conquista, e também a razão, a inteligência e a claridade. Salve.

O “homem absurdo” encara a vertigem do abismo, a indiferença do universo e a falta de sentido da vida, que só pode ser medida “em termos humanos”. Salve, salve.

Apois, estou, claro, a bulir com O mito de Sísifo, a saudar o ensaio de Alberto Camus por cujas páginas não bordejava há uns 30 anos.

O título original (Le Mythe de Sisyphe) tem mais força no original  francês por ressoar “o mito decisivo”, que afinal é do que trata — como se diz hoje, quando a filosofia ou bem é pop ou nasceu morta — essa “narrativa” (aspas obrigatórias, você sabe, o termo decaiu ao nível da tertúlia futebolística de copo sujo, e nunca mais foi o mesmo).

“O absurdo nasce do confronto entre o apelo humano [à felicidade e à razão] e o silêncio irracional do mundo”, regrifo.

Tranquilo, não? Percebemos isso desde meninos.

Viver para Albert Camus é olhar o absurdo bem nos olhos, na lata.

“Ao contrário de Eurídice, o absurdo só morre quando viramos as costas para ele”, formula.

(Camus alude à historinha de Orfeu: com lindas melodias, o poeta mitológico convence Hades a liberar sua amada, que morrera picada por uma ninfa má disfarçada de cobra venenosa. Orfeu está a um passo de realizar seu desejo mas não se contém. Ao se virar para ver Eurídice, já rediviva, antes da hora, burlando o veto divino, dá com os burros n’água).

“Por isso, uma das poucas posturas filosóficas coerentes é a revolta, o confronto perpétuo do homem com sua própria escuridão”, conclui Camus.

Este é o célebre texto que afirma logo de cara: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.”

Camus, alguém já disse, defende um vitalismo trágico, cuja força está na noção desgarrada da existência humana, em não ceder à tentação do irracionalismo filosófico, ideológico ou religioso.

Logo, o desafio de sua ideia-chave, o suicídio como questão essencial, se ilumina.

Camus é o humanista, o pensador da clareza, do equilíbrio e, acima de tudo, o cara da lucidez.

Diante do absurdo da existência, será razoável eu chutar o balde e me livrar de toda angústia.

Mas rejeitar o suicídio é ao “mesmo tempo consciência e recusa da morte”.

É “manter a aposta maravilhosa e dilacerante no futuro”.

Que sentido pode ter o castigo de Sísifo infligido pelos deuses, aquilo de carregar a pedra até o topo do morro, vê-la rolar pela gravidade, descer a colina e repetir a tarefa para todo o sempre?

Na futilidade desse esforço, diz Camus, está o triunfo possível de uma vida percebida em cada ‘hoje’, na vida nunca adiada, na vida que recusa o niilismo e a promessa divina de outra existência (a tal da vida eterna e verdadeira).

Em vez de três ave-marias e dois padres-nossos, deveríamos amiúde considerar Sísifo e sua “razão de viver”.

Ao descer a colina e respirar, ao se refazer do cansaço, ao se recompor, Sísifo curte seu momento de liberdade, uma liberdade necessariamente limitada, com prazo determinado, mas pode até caçoar dos deuses.

Sísifo não desiste, cumpre seu fardo, suporta seu suplício.

“A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração do homem. É preciso imaginar Sísifo feliz”, lemos no belíssimo fecho do ensaio, lançado em plena Segunda Guerra Mundial.

Ao “homem absurdo”, propõe Camus, cabe prosseguir sua aventura no tempo de sua vida.

Não importa que a vida não faça sentido. Não precisamos de transcendência além da consciência de que podemos viver com essa falta de sentido, essa terrível cárie.

A consciência humana, do “homem absurdo”, prevalece quando não se ilude com o tempo.

É preciso levar o tempo no sentido pleno do destino, de sua fluidez, sabendo muito bem, como canta Gilberto Gil, que ao findar a estrada vai dar em nada. (Aliás, Se eu quiser falar com deus, a canção, pode ser “lida” como um monólogo do “homem absurdo”, se olharmos para o Deus do compositor como álibi:

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Eu tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
E tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada)

Camus adverte o leitor: “Vivemos no futuro: ‘amanhã’, ‘mais tarde’, ‘quando você conseguir uma posição’, ‘com o tempo vai entender’. Estas inconsequências são admiráveis, porque afinal trata-se de morrer.”

Só podemos compreender a realidade, e a ordem do mundo regida pelo “acaso-rei”, em termos puramente humanos, ou seja, nada de mitologias sobre pecado, castigo, recompensa, nada de nostalgias de searas inalcançáveis.

Daí O mito de Sísifo exaltar o inconformismo, a rebeldia que revaloriza a vida.

“Estendida ao longo de toda uma existência, [a revolta] restaura sua grandeza. Para um homem sem antolhos não há espetáculo mais belo que o da inteligência às voltas com uma realidade que o supera”, diz Camus.

A inteligência de que dispomos é do que precisamos para não nos deixar fanatizar, radicalizar por proféticas promessas redentoras destinadas a consertar o mundo, promessas que, transformadas em religião secular, e isso ainda outro dia, levaram ao extermínio de milhões de seres humanos, de nossos semelhantes.

Camus lutou na resistência contra o nazismo, com a França ocupada. Vitorioso, logo se veria isolado, atacado pelos ex-amigos.

Ele não vai aceitar a defesa que Sartre e outros intelectuais marxistas, plenamente hegemônicos à época, faziam do stalinismo, cegos ou indiferentes ao sofrimento infligido aos “inimigos do povo” do outro lado da Cortina de Ferro.

A leitura de Camus — por mais que hoje possamos matizar suas noções de liberdade e consciência, ao ter em conta a contribuição da ciência nas últimas décadas, aquele negócio do limites da autonomia humana, da dança dos neurotransmissores etc. — faz um bem enorme a um brasileiro submetido à nefasta conjunção do “binômio” Covid-19/Caveirão.155 mm.

Como diria Alain de Botton, o divulgador da filosofia que vende livros como pão fresco, Camus ainda nos serve para alguma coisa.

Ler Camus, inclusive seus romances, pode fazer muita diferença quando o país se aproxima das 500 mil vidas ceifadas na pandemia, uma tragédia simultânea à intransigência de um negacionismo autoritário parido pelas trevas.

*

Um registro ameno: me encantou a live-show-recital de Arnaldo Antunes na galeria do Inhotim dedicada à obra de Tunga (leia mais na Rádio Siutônio), no último sábado.

O real resiste, cantou o poeta e compositor neoconcretista, de seu álbum mais recente:

“É só pesadelo, depois passa/ Na fumaça de um rojão/ É só ilusão, não, não/ Deve ser ilusão, não, não/ É só ilusão, não, não/ Só pode ser ilusão // Miliciano não existe/ Torturador não existe/ Fundamentalista não existe/ Terraplanista não existe/ Monstro vampiro assombração/ O real resiste…”

Anônimo (imitação de Josep de Ribera), século 17. Cortesia Museu do Prado, Madri

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô…
Ghi — …?

NOTAS PARA OBOÉ, FAGOTE
E CAIXINHA DE FÓSFOROS

Saudade e nostalgia

Funes, o memorioso,  o conto de Jorge Luis Borges, começa por dizer: recordar é verbo sagrado. O narrador encontra Funes pela primeira vez — a música original da prosa merece ser tocada — quando “después de un día bochornoso, una enorme tormenta color pizarra había escondido el cielo. La alentava el vento del Sur, ya se enoloquecían los árborles…” (Depois  de  um  dia  bochornoso,  uma  enorme  tormenta  cor  de  ardósia  escondera  o  céu. Animava-a o vento do Sul, já enlouqueciam as árvores…). Veremos que Irineu Funes, depois de levar um tranco, tornara-se um prodígio, um jovem capaz de recordar cada instante passado, cada paisagem, cada posição de nuvens no céu. “Sospecho, sin embargo”, diz o narrador, que Funes “no era muy capaz de pensar. Pensar es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer. En el abarrotado mundo de Funes no había sino detalles, casi inmediatos.” (Suspeito, entretanto, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes não havia senão pormenores, quase imediatos.) Pensar é esquecer. Donde a inevitável nostalgia, inclusive aquela de quando não havíamos nascidos, ainda não existíamos, oh, quanto tempo! Mas é preciso distinguir a nostalgia da saudade. Nostalgia é dolência. É quando o passado irrompe, e nos pomos a recriar o vivido. E essa recriação, para enfeiar ou embelezar memórias, a que somos condenados, em geral equivale a uma superação, a um impulso para seguir viagem. Também temos saudades do que não vivemos, e isso é ser imaginoso. Não podemos nem deveríamos desejar estar aquém ou além da saudade. A saudade de nossos instantes de plenitude como amantes, pais, irmãos, amigos, instantes de fruição da beleza e da arte. A saudade é o dividendo que o investimento (aventura) na vida nos paga. Nem sempre, claro, a saudade pode ser redimida, não podemos “matá-la”. Ainda assim, é o que temos de mais sagrado à mão, sem dever nada a fantasias e esoterismos.

José Ferraz de Almeida Júnior: Saudade, 1899 Pinacoteca do Estado de São Paulo. Domínio Público. Wikimedia Commons

O mundo como saudade e decepção

Mas, como na letra 24 quilates de Ouro de tolo, de Raul Seixas, confesso abestalhado que estou decepcionado. Se o generoso leitor descontar a decomposição natural de quem envelhece, reconheço que o mundo não me cai bem. O papa faz uma brincadeira (“Voi non avete salvezza: troppa cachaça e niente preghiere») e lhe caem matando. Até a divina Renata Vasconcelos faz cara esquisita no Jornal Nacional. “Estou surpreso e feliz, porque foi uma experiência única. Olhar nos olhos do papa, ver seu semblante tranquilo, o sorriso afetuoso”, disse à Folha o padre João Paulo. E é assim com tudo mais. A polissemia das palavras é passada pelo filtro da correção moral e política é empobrecida, enfiada num dicionário estúpido, unívoco. Perde-se um tempão com debates vazios e furiosos regidos pela ordem do algoritmo. Tudo é estéril. Tudo murcha entre a manhã e a noite.


Cultura algorítmica

“Aos 79 anos, domina sete línguas, luta caratê, toca violão e segue dando aulas e conferências. Contraiu Covid-19 no ano passado. Entre maio e junho, permaneceu internado por 43 dias. Precisou de respirador mecânico duas vezes, ficando 14 dias intubado”, conta uma reportagem da Folha sobre o novo livro de Muniz Sodré, A sociedade incivil, que espero ler em breve. Sodré é um patrimônio dos estudos de comunicação, um beabá de quem cursa jornalismo. Autor de 45 livros, cuida na nova obra da “cultura algorítmica”, ou da desigualdade entre o poder do oligopólio das big tech (Facebook, Apple, Amazon, Netflix e Google) e a liberdade dos usuários das redes. No atual estágio do capitalismo financeiro, o jornalismo é dissolvido pela busca do clique, e o espaço público tende a ser privatizado. “A sociedade incivil” nasce da desvalorização da política e do Parlamento, o que é um fenômeno mundial. Mas no Brasil a coisa desandou num desastre horroroso com a necropolítica do Caveirão. “Não é possível fazer revolução pelo voto, mas sempre foi possível fazer reformas pelo voto. Mas esse poder se esgotou, porque ficou na mão da tecnoburocracia”, diz Sodré na entrevista. “O sistema político como um todo, a política de partidos, a política parlamentar, passou a não valer mais nada. São apenas jogadas entre grupos para se revezar no poder. Incluo nisso também o PT. O que existe são apenas tonalidades afetivas diferentes.”


Cultura política

A internet ganhou um peso real nas eleições brasileiras apenas em 2018. Redes sociais e o WhatsApp desbancaram a hegemonia que era mantida pela TV desde a redemocratização. Tropeçamos no Caveirão, e de lá para cá a “popularidade digital” é (quase) tudo que conta na análise política. Caveirão aposta nos meios digitais para se reeleger, por meio das guerrilhas culturais e da disseminação de notícias falsas, em manter a polarização extremada. Lula também conta com isso para retornar ao Planalto. Tudo conspira para a seu terceiro mandato. A margem para a conversa política conduzida pela “sociedade civil” (economia e instituições privadas, grosso modo) nunca foi tão estreita. O espaço da “cultura política”, de que falava Otávio Frias Filho ao escrever sobre Gramsci, foi dilacerado pela inovação tecnológica na comunicação e pelo “turbocapitalismo financeiro”.


De volta à tal fotografia

Soldados alemães e milicianos ucranianos atiram numa família de judeus em Miropol, Ucrânia — 13 de outubro de 1941. Coleção histórica dos Arquivos do Serviços Secretos, Praga

Leio uma amostra grátis de The Ravine (o barranco), sem previsão de lançamento em português, de Wendy Lower. A autora realiza um trabalho magnífico de investigação histórica sobre a fotografia reproduzida acima, um raro instantâneo do extermínio de milhões de judeus no leste da Europa, a que teve acesso por acaso. O documento havia sido descoberto em arquivos da polícia secreta da antiga Checoslováquia. Embora na Segunda Guerra Mundial as câmaras portáteis fossem muito populares entre os soldados alemães, os comandos nazistas se empenharam para sepultar os massacres e apagar todos os traços da existência de suas vítimas. São raros os flagrantes, como esse, da ação genocida no Holocausto. O fotógrafo clica no momento exato dos disparos à queima-roupa contra a cabeça de uma mulher judia. Ela segura a mão do filho ajoelhado, e possivelmente tenta abrigar outra criança no espaço onde ela se curva sobre o menino descalço. Wendy procurou interpretar cada quadrante da imagem, e agarrou-se a cada pista suscitada. Conseguiu determinar a data precisa, o local onde ocorreu a chacina e seguiu a trajetória das vítimas com o objetivo de restituir sua existência neste mundo.


Quimera e Pandora

Pesquisas avançadas para o desenvolvimento de órgãos humanos em animais transplantados, realizadas na França, na China e no Japão, trabalham com os chamados embriões quiméricos. São embriões de animais, em geral de macacos, nos quais se introduzem células humanas. Os cientistas franceses Pierre Savatier e Irène Akso, entrevistados pelo El País, dizem que é coisa de alguns anos ou décadas para que sejam realizados os primeiros implantes em humanos de órgãos “quiméricos”, um pâncreas ou um fígado, por exemplo. Por hora, a coisa engatinha. As culturas celulares são feitas in vitro e de maneira controlada. Savatier define o momento em que um embrião “quimérico” será implantado no útero de uma mulher — não se duvida que o experimento será feito em algum lugar, cedo ou tarde — como a abertura da Caixa de Pandora.


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A Rádio Siutônio não tem patrimônio nem vale mecônio ou encômio, mas persegue o que de melhor nossa canção popular produziu e produz. Esta semana, nossa programação está voltada para a melhor das “lives” exibidas no transcurso da pandemia do Corona.


Sério: 45 minutos de revolta,
 graça, poesia: mó de música

Arnaldo Antunes, um risonho, um ser que ao envelhecer conservou o ar de adolescente falsamente tímido, estava sério, com a braveza que o roteiro pedia, e a gravidade que a conjuntura do país exige. Live, show, recital? Os três. O espetáculo mais inventivo que vi no Youtube na vilegiatura do Corona. Emocional, bem ensaiado, dedicado, íntegro, uma entrega de arte inequívoca e sincera. Tudo é inteiro e verdadeiro; você sente cada nota ressoar no espaço, cada som-palavra ser absorvido, rebatido ou transviado. Estreou sábado (29/05) ao meio-dia, direto da Galeria Psicoativa Tunga, no Inhotim. O artista se manifesta inequivocamente contra o terraplanismo, contra a tortura e contra as milícias. A razão resiste, ele canta-falado. No palco da galeria, apenas ele e o jovem pianista com cara de menino Vitor Araújo, a quem coube os arranjos marcados por frases atonais e efeitos stravinskyanos. Tive muito prazer em conhecer João (Arnaldo Antunes e Cesar Mendes), canção que tece loas a João Gilberto:

“São tantos e tão poucos têm noção
De como se inaugura uma nação
Não é bem com monumentos
Ou com balas de canhão

É quando uma brisa
Bate na respiração
E entra no juízo de um João
Que dedica todo empenho
E amor ao seu engenho

Para arejar
Os cantos da canção
E dar sentido à nossa sensação
Milhares de partículas no ar
Reviravoltam numa vibração
Para nos dar sua benção
Para nos tirar do chão

Como se a rotação
Da terra fosse então
Essa voz e esse violão
Quando uma só pessoa
O silêncio aperfeiçoa

Toda a multidão
Escuta o coração
E se torna civilização


O roteiro inclui a bela Vilarejo (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte e Pedro Baby) e Na barriga do vento (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Pedro Baby, Pretinho da Serrinha e Marcelo Costa). Não sei se isso já foi dito ou mesmo reconhecido pelos autores, mas essa canção me pareceu inspiradíssima em Summertime, a ária de George Gershwin da ópera Porgy and Bess, de 1935, letrada por DuBose Heyward. Enquanto essa canta “One of these mornings/ You’re going to rise up singing/ Then you’ll spread your wings/ And you’ll take the sky// But ‘til that morning/ There’s a’nothing can harm you/ With daddy and mammy standing by”, aquela entoa no refrão: “Filho amado/ Quer voar/ Quando chegar/ Sua hora estarei ao seu lado pra te impulsionar// Meu rebento/ Meu bebê/ Quando crescer/ Na barriga do vento sua asa batendo hei de ver…”

*

Ah, o show, a live, o recital, o que seja, não é dedicado ao Caveirão.

*

Até mais ver, e obrigado pela leitura!


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A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —


 

 

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