JU_75: O jacaré que queria ser gente – Uma fábula pós-verdadeira

Era uma vez um poderoso jacaré de nome Jeka que sonhava em ser vacinado com uma milagrosa vacina de RNA mensageiro para se tornar humano, pois a supostos humanos governava


Jurupoca_75 – 9 a 17/6/2021
 Hebdomadário de cultura, ideias e
 alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto: jacaré-de-papo amarelo (Caiman latirostris). Autor da imagem: Adriana Araujo Costa. Licença creative commons


O lugar onde sempre estamos certos

Do lugar onde sempre estamos certos
nunca brotarão
flores na primavera.

O lugar onde sempre estamos certos
é batido e duro
como um pátio.

Mas dúvidas e amores
esfarelam o mundo
como uma toupeira, um arado.

E um murmúrio será ouvido no lugar
onde havia uma casa —
destruída.

Yehuda Amichai: Terra e paz – antologia poética, tradução Moacir Amâncio (Bazar do Tempo)


Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Esta é uma fábula pós-moderna, e por que não dizer, pós-verdadeira, uma narrativa de paz e amor, bicho.

Era uma vez um jacaré empoderado.

Seu nome era Jeka e ele escondia um grande segredo em cápsulas de artilharia mantidas no fundo dos pântanos de um portentoso país meridional.

Jeka sonhava com uma vacina milagrosa que o fizesse virar gente, pois alegadamente humanos governava, não animais da classe Reptilia, ordem Crocodylia, família Alligatoridae.

Todo mundo acreditava na narrativa segundo a qual Jeka se borrava de medo de vacinas e não podia nem ver um agulhão que desmaiava. Lorota boa.

Jeka não tinha salvação fora da ciência mais pontuda, era essa a mais profunda, absoluta e rotunda pós-verdade.

Para continuar empoderado e mandachuva daquele país, era mister que Jeka se metamorfoseasse em H. sapiens, mamífero bípede da ordem dos primatas e da família hominidae, conhecida como a pior espécie de sanguessugas da Terra.

Naquele país meridional favorecido por selvas eternas, rico em todos os minerais, a política dos homens absorvia democraticamente não apenas jacarés, mas tal-qualmente javalis e javaporcos, além de velhos mamutes bem conservados. E toda essa alimária alimentava a esperança de transmutar-se em seres humanos exemplares e tementes a Deus.

Toda manhã, o Jacaré Jeka orava, beijava a jacaroa primeira-dama na testa, vestia sua capa de capitão repleta de medalhas recebidas por bravura em combate e excelência na gestão da coisa pública, dava um atlético tresvolteio e virava o herói Super-Cretino Fundamental, líder máximo de um país de cretinos que vieram da selva, conforme revelara o líder de uma nação vizinha, por sinal um hipopótamo.  

Um belo dia, o Super-Cretino jogou fora o palanque de seus antepassados — um caixote de querosene Jacaré (o que mais?) — no qual se projetara na carreira parlamentar, depois de sentar praça e servir heroicamente no pântanos e no mato selvagem de seu país, rico em ferro e nióbio.

É que Jeka acabara por descobrir a modernidade dos palanques eletrônicos, beneplácito dos gênios eternamente jovens do Vale do Silício que reinavam no planeta desde a aurora do milênio.

Em pós-verdade, em pós-verdade vos digo: Jacaré Jeka assumia, e com deleitado orgulho (chegava a chorar), a identidade de Super-Cretino Fundamental 3.0.

Abençoado por bruxos moitados em remotas casernas, Jeka trocara o velho caixote de querosene que trouxera do mato como dádiva do avô, ainda menino, pelos poderes do Twitter, das lives no Face e de outras aplicações tecnológicas revolucionárias.

O filósofo aristotélico-tricolor Nelson Rodrigues, no longínquo século passado, explicara o fenômeno, melhor dizer a ontologia do empoderamento dos jacarés e outros bichos cretinos fundamentais, humanidade inclusa, ainda hoje heróis incompreensivelmente irrevelados, vai se saber por que, pela Marvel, por Hollywood, pela Globoplay e pela Netflix:

“É o cretino fundamental”, esclarecia o Anjo Pornográfico. “Ponha o cretino fundamental em cima dessa mesa, ou de um caixote de querosene Jacaré e você mande ele falar, ele dá um berro, imediatamente, milhares de cretinos fundamentais se organizam, se arregimentam, se aglutinam”.

“E se confraternizam”, teria aduzido postumamente o autor da tragédia Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, “é festança no pantanal”.

Ah, já podemos contar nessa altura de nossa fábula pós-verdadeira que o nome do país governado por  Jeka, nosso jacaré mitológico, vinha a ser Bananão [ver Lessa, Ivan Pinheiro Themudo].

E que o Bananão era um país onírico e vigilante situado entre a república quadrúpede de Belarus e a república ultrademocrática da Venezuela, num ponto futuro e equidistante entre Vladimir Putin, Daniel Ortega, o cangaceiro Kim Jong-un e o herói Simón Bolívar, este representado pela reencarnação, então já falecida, do bravíssimo comandante Chávez, vulgo Nicolás Maduro, por sua vez cupincha da linda líder partidária Gleisi Hoffmann, que sonhava virar Elizabeth Montgomery, isto é, Samantha, a feiticeira boazinha que era só mexer seu narizinho e, num átimo, instalava o controle social da imprensa, embora tal alusão seja dispensável nessa fábula real.

O tempo passou depressa como costuma passar e o povo do Bananão — onde, ao menos para a casta judiciária, ouro e diamantes brotavam do chão como em Eldorado, lendário da América do Sul onde foram parar Cândido e Cacambo no conto de Voltaire — aprendeu a ser governado pelo jacaré, exatamente ao contrário do normal republicano, conforme doutas considerações de pesquisadores de Ciências Políticas na Universidade Federal de Minas Gerais.

Sucedeu que o povo, influenciado pelo provecto periodista Alexandre Garcia, perfeitamente lúcido na idade de 164 anos, “naturalizava” (um jargão acadêmico) Jacaré Jack, isto é, Jacaré Jeka, segundo se comentava nos pubs onde bebiam os politicólogos da Federal, na cidade bananeira do Belo.

O presidente Jeka era mais um fato da vida e da história, como a peste bubônica, a ameaça nuclear ou a hegemonia do sertanejo e do funqui [ver Suassuna, Adriano Vilar] na terra devastada da MPB.

Só que Jacaré Jeka, diferentemente de todas essas desgraças, que, sim, são normais, assegurava o ancião Garcia, era um fato alvissareiro, quase tão alvissareiro, acrescentava o reacionário (“e com muita honra (sic)”) decano da crônica política, quanto as pororocas do Amaral Neto ou a Proclamação da República, conhecida quartelada ocorrida no Bananão em 15 novembro de 1889.

*

Numa bela manhã de domingo ensolarado, ainda bem cedo, antes até do primeiro culto evangélico, uma varinha de condão mágica feita de RNA mensageiro em forma de imunizante, criada e comercializada por uma joint venture entre Pfizer e Sinovac, operou a tão sonhada e milagrosa antropomorfização de Jacaré Jeka, alegadamente, conforme esta sincera pós-moderna e pós-verdadeira narrativa.

Nosso herói, não obstante, agora homem, dizia-se, na nova e ansiada forma de vida, não só conservou como quintuplicou os seus plenos poderes de Super-Cretino Fundamental à frente de um país de cretinos; conservou capa de capitão e cinturão de utilidades apetrechado de vara de pescar, foice e enxada para capinar, balas de canhão calibre 155 mm, remédio para exterminar verme, remédio para eliminar malária, spray nasal para detonar coronavírus, LSD de ema e Leite Moça.

Nossa narrativa pós-verdadeira, um fake news desconstrutivista à vera, assegura que Jeka pós-humano (“uma vez Jeka, sempre Jeka”, bradava o herói) deu como favas contadas a definitiva e de uma vez por todas terminada “venezuelização” do Bananão.

Com um Exército para chamar de seu, uma Marinha e uma FAB (Força Aérea do Bananão) no bolso do colete, além de servidores com licença para soltar fogo pelas ventas e queimar bosques milenários, e ganhando o burro do cobre, nosso herói da mitologia pós-Martin Cererê, então, acreditava-se, ser humano, doravante Jeka Kaveirão, pôs bloco e tropas nas ruas.

Jeka Kaveirão venceu o bom combate hétero contra ímpios comunistas globalizantes que não dominavam o tupi guarani.

[Sons de clarins e ressoar de cascos de cavalos no asfalto, junto com o rolar estridente das lagartas dos tanques].

[Entra o coro greco-venezuelano vestido de verde e amarelo, a balouçar o símbolo augusto da paz, com harpas e violas caipiras ao fundo: — Mitô, mitô, mitô!]

Jeka logrou, ao fim e ao cabo, por vias direitas, enfiar goela baixo da imprensa socialista litros de cloroquina e voto impresso em urna eletrônica (ambos se tornaram desnecessários), além de outras benesses patrióticas, tais quais porretes e dildos extra large produzidos pela indústria nacional Taurus.

Depois que o Congresso e o STF foram derrubados por milicianos trazidos de Rio das Pedras, Jeca Kaveirão se viu livre para governar, e o Bananão para prosperar.

Conta-se que o Bananão enriqueceu ainda mais que o Eldorado visitado por Cândido e Cacambo.

Houve festa no Pantanal, festa na Faria Lima, carnaval em Rio das Pedras e quermesse no mato e em todos os demais quistos patrióticos-democráticos, todos up to date com a Revolução Digital.

Deste este dia, Kaveirão dispensou as fatiotas oficiais bem cortadas e não tirou mais, nem para dormir, ou fornicar sem aditivos, o cuecão e a capa de Super-Cretino Fundamental, comandante-em-chefe de uma nação cretina.

Com os tanques do seu Exército na zaga de quatro, ele pôde virar o jogo.

O Bananão venezuelizado, no The End bacaninha de nossa fábula pós-moderno-verdadeira, encarna a narrativa ditada por coletivos iluminados por Deus, e benzidos a um tempo pelo Aiatolavo [ver Tolentino, Bruno Lúcio de Carvalho] e pastores portadores de maquininhas abençoadas à guisa de cruz. Era só aproximar o plástico e, milagre!, pumba!, importância transferida, nem tinha de enfiar ou passar nada.

Abaixo de Deus e de Jeka Caveirão, triunfou a república bolivariana do Bananão/Eldorado, doravante pátria amada brasílica.

Triunfou a ciência da doutora Toma Goshi, nee Yamaguchi, promovida a ministra plenipotenciária da Saúde e dos Bons Costumes Héteros.

Todos se salvaram na 5ª onda da pandemia do Sars-CoV-64.

E agora éramos, cretinos, felizes para sempre.

Agnes Meintjes: Lazarus: Whimsical Anthropomorphic Alligator

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

NOTAS PARA BOMBARDINO,
 TANTÃ E BAIXO CONTÍNUO

Viemos da selva e daí?

Patriotas, sossegai vossos fachos! Não há desdouro algum na declaração do presidente argentino Fernandez sobre nossa origem, ao confundir uma letra de tango com um dito erudito do mexicano Otávio Paz. Está tudo bem. Não é certo? Recorro ao Cassiano Ricardo do Martin Cererê supracitado: somos pretos, europeus portugas e índios na base, não somos? Pois todos viemos de selvas de um jeito ou outro. Não havia mais que selva por aqui quando aqueles chegaram (a Terrinha ainda era um tanto selvática, creio) e estes, que há muito reinavam em selva absoluta, a esperar seus semelhantes d’além mar para que sucedesse a orgia genética, o caldeirão das três raças, que, afinal, forjaria nossa nova raça única, ecumênica, pacífica, próspera e prafrentex. Eta nois!


Machos armados e amarelados

Com sua candura para escrever, que podemos chamar de temperança e experiência, Fernando Gabeira diz que não há outra posição ajuizada que não a resistência ao “chavismo de direita” [expressão de Rodrigo Maia] em curso no país. Sem a costura de um arco de oposição inequívoco, ou seja, sem a simples retoma da polarização entre o incumbente e o lulopetismo, não teremos salvação. “No Brasil, ainda estão de pé a imprensa, os juízes e uma parte do Congresso. Sem um grande apoio popular, não resistem sozinhos”, escreve Gabeira. “De uma certa forma, discutir outra coisa que não a resistência, em termos políticos, equivale à frase da doutora Luana Araújo para a crise sanitária: ‘É como se estivéssemos discutindo de qual borda da Terra plana vamos pular’”, sugere.


A milicialização da Exército (1)

“A sigla EB não faz mais jus ao significado original — Exército Brasileiro. A partir de 3 de junho de 2021, deve ser entendido como Exército Bolsonarista, tal e qual uma milícia privada”, anotou o colunista do UOL, Vinícius Rodrigues Vieira, a matutar sobre a decisão da Força de não punir o general Pazuello. Vieira, doutor por Oxford, é professor na Álvares Penteado (FAAP) e na FGV. “Simbólico que, no mesmo dia, em Rio das Pedras — área dominada por milicianos de verdade —, um prédio tenha caído, ceifando a vida de uma menina e seu pai. É a trágica — embora perfeita — metáfora de um país em escombros […]”, prossegue o mui escorreito artigo.


A milicialização da Exército (2)

E o Estadão deu o editorial “Chavismo caboclo”, tal-qualmente escorreito, em que cita Roberto Barroso, o ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, à TV Cultura, no ano passado (é um beabá, mas precisa ser repetido): “As Forças Armadas não podem se identificar com o governo porque numa democracia existe alternância de poder. Se as Forças Armadas são governo e o governo é derrotado nas urnas, as Forças Armadas são derrotadas e acabou. Evidentemente isso não pode acontecer”.


Falou e disse, doutora

“Foi impressionante a rapidez com que as vacinas foram feitas, e muitas pessoas trabalharam sem parar para que conseguíssemos chegar onde estamos agora […]”, disse à Folha a física brasileira Angela Olinto. “Espero que as pessoas fiquem orgulhosas dos cientistas”, ela concluiu. A JU está cheia de orgulho, doutora, e seu redator já traz em si o primeiro shot duma AstraZeneca. Olinto, física de astropartículas, leio na Folha, é formada pela PUC do Rio e doutorada pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Hoje é reitora da Divisão de Ciências Físicas da Universidade de Chicago (EUA) e acaba de ser eleita membro da Academia Americana de Artes e Ciências e da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.


Lições nunca aprendidas

Em Lições Amargas: Uma história provisória da atualidade (Intrínseca, 256 págs., RS49,90, ebook: 22,41), Gustavo Franco aproveita o recolhimento da pandemia para renovar o diagnósticos das mazelas estruturais do país. Começa por demonstrar por que o “Brasil é o país da procrastinação”, citando inclusive Luís da Câmara Cascudo: nossa lentidão é “protocolar, litúrgica, dignificante”, e o país “não tem problemas, apenas soluções adiadas”. Registra que não é a primeira vez, desde os anos 1980, que atravessamos longa estagnação. Economicamente, o Império “foi um desastre”, e a Abolição poderia ter sido feita 30 anos antes. E agora, nos últimos 40 anos, perdemos a oportunidade de entrar para o Primeiro Mundo nos últimos, seguindo a trilha da Coreia e de outros países asiáticos. Mas marchamos firmes como caranguejos. “Não apenas continuamos emergentes”, ele diz, “como agora a maldição que assombrou a Argentina no século XX – terminar o século mais pobre do que começou – parece muito próxima do Brasil do século XXI”. Franco, economista com Ph.D. pela Universidade de Harvard que presidiu o Banco Central, é cultíssimo literariamente, com um livro sobre a economia em Machado de Assis, e escreve bem pacas. Em Lições amargas, conclui na parte mais interessante do livro, sobre a ciência, que “não parece possível afastar a idiotice […] como explicação para os problemas pelos quais o Brasil tem passado”, isso depois de recorrer a entendimentos acerca da cretinice que passam por obras de Erasmo de Roterdã (Elogio da loucura), da historiadora Barbara Tuchman (A marcha da insensatez), de Nelson Rodrigues (vários escritos) e do historiador italiano Carlos Cipolla (As leis fundamentais da estupidez humana). O país é dado a soluções mágicas para economia, como a aposta desenvolvimentista na inflação, tal imposto inflacionário, como está ocorrendo agora, e em planos heterodoxos de terrível memória. Desde a Revolta da Vacina, em 1904, vastas parcelas da população rejeitam a medicina convencional. E há muita gente boa, inclusive na academia, a papagaiar que “ciência é apenas uma narrativa, uma de muitas, e todas são válidas”. Em capítulos mais propriamente econômicos, nunca chatos, Franco repassa as ilusões pátrias sobre o papel do Estado, a política de juros e a abertura ao comércio internacional. Fica claro que não é só estupidez. Estatais aos montes, corporações e lobbies empresariais combatem a ferro e aferro o fim de mamatas e boquinhas. “O Brasil ainda está preso a um anticapitalismo selvagem”, arredonda. Insiste que o país foge das chamadas “boas práticas” internacionais de liberdade econômica como o diabo da cruz.  Desmonta mitos sobre o Consenso de Washington e o neoliberalismo, eterna nêmesis da esquerda. Suas conclusões são iluminadoras nessa hora nebulosa que atravessamos, em que uma euforia econômica convive com o atraso mental, quando nunca estivemos tão remotamente distantes de aplainar o fosso da desigualdade e da miséria.


Traduções da Comédia

Segundo o Babelia, o caderno de literatura e ensaios do El País em espanhol, faz tempo que Alberto Manguel se levanta às seis da matina e, ainda em jejum, lê diariamente um canto da Comédia (Divina), anotando suas sensações numa caderneta. Quando chega ao final do poema de 15 mil versos alexandrinos, começa tudo de novo, em looping. Convidaram Manguel para escrever uma ensaio sobre as novas traduções de Dante, morto há 700 anos, em 1321, para o espanhol. O resultado é um aula, um profundo, erudito e acessível mergulho no universo do poeta florentino, especialmente sobre a importância da tradução para uma “leitura infinita” da Comédia e para o entendimento da própria criação do autor, muitíssimo influenciado por Virgílio e pelo latim. Fabulosa inteligência concentrada.

Sandro Botticelli: Mapa do inferno, 1480/1490. Biblioteca Apostólica Vaticana


O silêncio dos anjos

Nós, agnósticos, não podemos esperar que nenhum anjo nos ouça. Reencontro, também no Babelia, a prosa deliciosa da argentina Beatriz Sarlo. Ganho meu dia ao lê-la. Nesta crônica, acho que posso chamar assim, embora esse não seja um gênero reconhecido fora do Brasil, ela recorre à primeira das Elegias de Duíno, de Rilke, para falar de nossa dificuldade em apreender o sentido das experiências trágicas, seja a da Primeira Guerra, no caso do poeta em língua alemã, seja a da peste atual do coronavírus. “Nossa subjetividade seguirá oscilando entre a incerteza e a ilusão”, ela escreve. Sarlo nos lembra que por mais que a ciência salve vidas e nos oriente, dificilmente pode nos ajudar nesse “momento decisivo em que a esperança e a desesperança se enfrentam como rivais que aspiram a dominar subjetividade, projetos, ilusões”.

Allegory of the Plague. Biccherna book cover. Siena, Italy, 1437. Inv. K 9224. Photo: Saturia Linke. Image send to Sarah Arnold (Transaction : 632479637969687500) © Bildarchiv Preussischer Kulturbesitz / Art Resource, NY / Art Resource

Alegoria da peste, Siena, 1437 | © bpk Bildagentur / Kunstgewerbemuseum, Staatliche Museen, Berlin / Saturia Linke / Art Resource, NY


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“Ouço, choro. As melodias e a harmonia me fazem chorar. Hoje em dia, a melodia e as letras bem-feitas morreram”, diz Erasmo Carlos ao Estadão.  Com 80 anos desde o dia 5, dois cânceres e um marcapasso cardíaco no prontuário médico, o Gigante Gentil, sua célebre alcunha, espera a saída de cena do Corona para voltar a fazer shows e prosseguir com a carreira. O homem é um manancial. Quem pôde assistir seus shows sabe o que ele sabe de rock. Vendo sua entrevista no show de Pedro Bial, é difícil não se comover com a sinceridade e a lucidez de um homem do povo, reto ao se remeter à sua origem pobre, um brasileiro entre milhões que não podia sonhar em cursar uma universidade. E também com a história da pessoa sofrida pela perda de um filho e da ex-mulher, que se matou em 1996. Aí vão  sucessos do Tremendão da lista 1001 Canções da MPB, da Rádio Siutonio no Spotify. A JU e esta seção não podiam deixar de festejar o aniversário do “amigo de fé” do Rei, um artista que filtrou e reteve o tempo na memória de quem o acompanha desde a Jovem Guarda. Saúde, bicho!

Gilda Midanni/Divulgação

*

Cachaça mecânica (Erasmo e Roberto)

Destaque do LP da Polydor Projeto salva terra, de 1974, além de Sou uma criança e não entendo nada e Negro gato (de Getúlio Cortes). Um dos esteios do rock brasileiro, Erasmo domina a canção romântica, mas se revela também bom sambista como neste mais apropriadamente sambossa sobre a saga carnavalesca e um João: “João bebeu/ Toda cachaça da cidade/ Bateu com força/ Em todo bumbo que ele via/ Gastou seu bolso/ Mas sambou desesperado/ Comeu confete/ Serpentina/ E a fantasia’.

Coqueiro verde (Erasmo e Roberto)

O Pasquim, o jornal alternativo que entrou para a história, como a atriz Leila Diniz, ou Narinha (a paisagista Sandra Saionara Saião Lobato Esteves, que suicidou em 1996, por ingestão de cianureto) com quem fora casado, pintam uma aquarela confessional e temporal. Do LP da RGE Erasmo Carlos e os Tremendões, de 1970, álbum que marca seu amadurecimento pessoal, com a força de Narinha, e principalmente artístico. O álbum inclui Saudosismo (Caetano Veloso), Jeep (H. Denis e Vítor Martins) e Teletema (Antônio Adolfo e Tibério Gaspar).

Sentado à beira do caminho (Erasmo e Roberto)

Com 107 fonogramas no IMMuB, sucesso entre sucessos de Erasmo, fez e faz história dentro e fora do país. Canção gravada por Erasmo com grande pathos, em compacto de 1969. Uma de suas últimas entregas à RGE.

Mesmo que seja eu (Erasmo e Roberto)

O registro original de Erasmo, do LP Amar pra viver, ou morrer da amor (Polydor, 1983) tem uma inusitada introdução do artista falando das sensações que o levaram a compor esse rock irresistível, depois meio que reinventado por Marina.

Cama e mesa (Erasmo e Roberto)

Confesso sem pudor que me amarro neste brega luxurioso. Pesquei para a lista 1001 Canções da MPB da Rádio Siutônio a gravação de Erasmo e Zeca Pagodinho do volume II do CD Erasmo Carlos Convida, de 2007.

Gatinha manhosa (Erasmo e Roberto)

Lançada no distante (quase impensável) 1966 pelo selo RGE, no LP Você me acende, essa baladinha meio infantil se confunde com a carreira e o jeito de ser do Tremendão. Os acordes iniciais do teclado abrem um visão da época e se carregam com a história familiar de quem tenha vivido nos últimos 60 anos.

Negro gato (Getúlio Cortes)

Getúlio Cortes era o compositor favorito de Roberto Carlos no início da carreira do Rei, começo dos anos 1960, segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. A música foi gravada por Renato e seus Blue Caps, em 1963, e três anos depois a versão de Roberto se tornaria um de seus grandes sucessos. Gravações de Erasmo, Luiz Melodia e Marisa Monte mantiveram o rock vivinho. Gosto muito dessa gravação, festiva como pede a Jovem Guarda, com Erasmo, Léo Jaime, Renato e Seus Blue Caps, Fagner, Leno, Golden Boys, Jerry Adriani e Almir — que abre o disco O pulo do gatoTributo a Getúlio Cortes, de 2002.


Um tributo franco a João

Anote aí: sai semana que vem (16) no streaming o disco João Gilberto eterno, tributo, digamos, nipo-brasileiro, ao artista que faria 90 anos nessa quinta-feira (10). A franqueza do projeto reside no fato de que João ter recebido no Japão tudo que precisava, a começar de simpatia, silêncio e condições perfeitas para exercer sua arte incomparável. Leio em O Globo que do lado brasileiro, produzido por Mario Adnet, cantam no álbum de 15 faixas Mônica Salmaso e Guinga (Chega de saudade), Moreno Veloso (Bim bom), Jean Charnaux (Um abraço no Bonfá), João Donato e Antonio Adnet (Minha saudade), Rosa Passos (Doralice), Leila Pinheiro (Você e eu) e Joyce Moreno (Estate).

*

Até mais ver, e obrigado pela leitura!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —


 

 

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