Minha vida de blogueiro

Há dois anos, esta Jurupoca começava a piar e a propor um sortimento de ideias para valorização da cultura, contra a vulgaridade, o sensacionalismo e a “guerra de narrativas”


Jurupoca_76 18 a 24/6/2021
 Hebdomadário de cultura, ideias e
 alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto: Imagem do filme sueco Minha vida de cachorro, dirigido por Lasse Hallström, e que estreou em 1985




Opa! e opa!, querida leitora, querido leitor.

Minha vida de blogueiro é uma aventura, um filme, uma comédia dramática.

Minha vida de cachorro, filme do sueco Lasse Hallström a que recordo  ter assistido num cinema de São Paulo, aos soluços — lá se foram 30 anos — não é mais tragicômico. Nem mais agônico.

Busco no Houaiss a etimologia de agonia: “gr. agōnía,as no sentido de ‘luta nos jogos, exercício em geral, combate, agitação da alma, angústia, aflição’ pelo lat. agonīa,ae no sentido de ‘vítima sagrada, ansiedade, dor, perturbação’ […]”.

Sim, um combate, ai de mim.

Mas não, nada a lamentar.

Combate, “agitação da alma”, angústia e ansiedade são de nossa natureza, tão autônomos quanto a pulsação cardíaca.

Quando cessam, já éramos, ai de nós.

*

Peguei no tranco como blogueiro — esta palavra infame para um jornalista do século passado — depois de muito ensaiar?

Creio que não.

Ensaios blogueiros caducaram em servidores na nuvem, na cloud, onde interessamos se tanto ao Big Data, à ordem global da riqueza contemporânea, na qual a condição humana se resume para valer a dados e traços rastreáveis por robôs, mercáveis e úteis ao aprimoramento da inteligência artificial.

O Blog do Siúves + Jurupoca, antes Jornal do Siúves e Livro de Viagem, ainda é jovem no sentido de ser um rebelde da blogosfera, seja em “conteúdo”, seja em instrumental tecnológico.

Quando ouço falar em “inbound marketing” e indecências que tais tenho vontade de tomar cloroquina com Fanta uva.

*

Essa lírica introdução é um aceno agradecido a meu raro leitor.

Neste sábado, 19, faz dois anos do envio da edição #zero desta carta.

Dois anos juntos!

Seleção cultural; pitacos gerais, atrevidos, ousados, arriscados até; leituras comentadas; algum desafogo d’alma; alguma poesia; bastante música, quase sempre popular brasileira; altos e baixos pra dedéu.

Constante aqui, por certo, o intuito de prover um sortimento de ideias que possam interessar à “humanidade leitora”, no dizer de Javier Marías, aquela humanidade, penso, ainda capaz de ler com gosto um texto de mais de cinco linhas; ainda sensível à criação e ao pensamento; ainda firme no propósito de distinguir a existência da mera e frívola sobrevivência.

Tal propósito será sempre avesso ao sensacionalismo clicante, ao BBB, à pornografia vendida como música, à fofoca sobre celebridades, à tribalização ideológica e identitária, à beligerância cultural e aos conflitos narrativos.

Segue-se uma brevíssima retrospectiva da carta, revista ou jornal hebdomadário — a escolha é sua.

Muito obrigado!

*

Você há de se lembrar: a JU é lançada via e-mail, aderindo à breve onda de newsletters entre escritores, e quinzenal.

Com o advento da pandemia, em março de 2020, saem nos intervalos as edições de quarentena.

Já como hebdô nos bandeamos para este Blog do Siúves com todo o acervo a tiracolo (as edições estão aqui, integrais), preservando a Tinyletter, como uma cartinha aos assinantes, ainda por e-mail.

Essa é nossa historinha.

*

A primeira frase: A Jurupoca vai piar, logo começo por dizer algo original.

A JU #0 alardeava o Turismo cultural e literário na Europa: Propostas, relatos e diários de viagem a 65 destinos, livro ainda nos arremates, então.

O livro saiu no apagar das luzes de 2019.

E já o Corona abria seu tour de volta ao mundo, com o cancelamento de todas as viagens de turismo…

Mas estamos prontos, ansiosos para a reabertura, quem sabe no próximo ano, com vacinação geral e irrestrita.

*

A JU #0 não clamava às musas.

Preferia, prefere, a inspiração beckettiana do Worstward Ho (peça traduzida no Brasil como Melhor pior):

Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” (Tente. Fracasse. Não importa. Tente de novo. Fracasse melhor.).

Um jurupoco rebelde da blogosfera não pode ter outro diapasão para se afinar na cacofonia do universo digital.

Hoje fracasso melhor que ontem, tá ligado?

*

A nota Fracassar melhor, aliás, equivalia, vejo agora, a um mini-editorial, a uma declaração de princípios da JU.

Prosseguia assim:

Somos todos iguais nesta noite sob o mantão da imbecilidade. Um país amazônico e diabólico, que sequer conseguiu prover serviço de esgoto para mais da metade de sua população, perde tempo e a energia mental de Itaipus em tuítes e fofocário político imprestável.
Em
As viagens de Gulliver, Jonathan Swift narra, com grande clarividência para um leitor brasileiro, o grande cisma de Lilipute, que causou milhares de mortos naquele império de homúnculos (os seres medem 15 cm de altura), entre Extremidade-Grandinos e Extremidade-Pequeninos, em torno da forma ideal de quebrar o ovo para comê-lo, se pelo lado maior, conforme a tradição, ou pelo menor, segundo a heresia revolucionária…”.  

*

Helahoho! helahoho! Soou previdente? Se você disser que sim, pago-me a labuta e seco da testa uma gotinha de suor; se disser que não, como o Cubas pago-te um piparote.

Pois, desgraçadamente, segue fortalecida a marcha da insensatez.

E a “guerra de narrativas” parece fazer parte da própria natureza das redes sociais ou de grupos de WhatsApp e Telegram.  

Por toda parte vemos Extremidade-Grandinos e Extremidade-Pequeninos trocarem inabaláveis certezas, quando não flechas e perdigotos narrativos.

A cretinice fundamental é uma espécie de tiririca, de placa beta-amiloide que recobre nossos dias, destrói a razão e promove o esquecimento instantâneo.

O país se reduz à rotina de uma distopia aborrecida — traduzindo a “boring dystopia” do pessoal da revista Baffler.

A pseudociência e o negacionismo têm vasto público, urubus sobrevoam os girassóis e canhões miram nossas cabecinhas.

Seguimos a discutir, impávidos — conforme doutamente formulou a infectologista Luana Araújo na CPI, — sobre de que lado da Terra plana vamos saltar.

E cada vez mais isolados no mundo.

*

Estes dois anos da Jurupoca correspondem ao abandono dos diários que eu vinha mantendo com alguma disciplina. A JU assumiu esse papel.

Não é tão íntimo e especular quanto aqueles pretendiam ser, mas me ponho aqui, tal-qualmente franco, para o bom leitor.

A Jurupoca também é um (diáfano) diário.

*

Uma palavrinha — retrospectiva e presente — de gratidão.

Os leitores-amigos da JU que contribuem com assinaturas espontâneas são poucos, alguns, e valiosíssimos.

Não dá para ganhar a vida como blogueiro (argh!) incapaz de faturar com anúncios do Google e avesso à dinâmica do hipermercadão digital.

Mas um trabalho dedicado necessita de alguma compensação, ainda que simbólica.

É preciso sobreviver ao pau de arara da insônia e de algum incentivo para lidar com cada manhã.

Não sou diletante, nunca fui. Escrever de graça para um jornalista digno do nome é fim de linha.

Acredito no valor do que escrevo, e como todo mundo que faz o que gosta, meu ofício é o de tomar a vida em contradança, até o último acorde, nada menos.

Se prestar, prestou, se não prestou, será tarde para pedir desculpas.

Muito obrigado, assinante!

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô…
Ghi — …?


—NOTAS PARA CHOCALHO, PÍFANO E VIBRAFONE—

Revelação da serra

É domingo, seis e cinco da manhã. Da janela a leste desta redação uma camada espessa de nuvens entre o negro, o cinza e o verdescuro cria um muro compacto, uma montanha consorte sobre o recorte da serra. — Carlos, nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Logo entra a manhã e a montanha, escavada pela luz, vai graduando tons de cinza até a clareira do branco e o violáceo: aí revela-se a Serra do Curral, há muito coberta pelo aglomerado urbano.

Mark Rothko: Sem título (Preto e cinza), 1969/70. Solomon R. Guggenheim Museum, New York,©
1998 Kate Rothko Prizel & Christopher Rothko / Artists Rights Society (ARS), New York


Covardia

Chamar Kaveirão de genocida é a um tempo não compreender e banalizar o genocídio; é desfocar a cena dos verdadeiros crimes de responsabilidade cometidos por Sua Excrescência. Não há razão de ser ou pretexto humano razoável (diante do que a política não passa de um peido) que justifiquem a não abertura de um processo de impeachment até aqui. O Parlamento brasileiro e o próprio país já estão impichados aos olhos do mundo e da história. Nossos tataranetos ainda vão se envergonhar de nossa covardia.


Bestializados e bilontras

Parafraseando José Murilo de Carvalho em seu livro indispensável, assistimos bestializados à democracia ser corrompida por uma Presidência bilontra.

*

“O bilontra é o espertalhão, o velhaco, o gozador; é o tribofeiro”, esclarece José Murilo.

*

Depois de investigar em profundidade as raízes da República, a formação social do Rio naquele período e de distinguir cidadania de “estadania”, ou, no que conta, o status do cidadão republicano daquele que mistura “coisa pública” (res publica) e “cosa nostra”, Os bestializados conclui, referindo-se à antiga capital federal, que a Nova República não conseguiu transformar o fundo do quadro: “A Cidade, a República e a Cidadania continuam dissociadas, quando muito perversamente entrelaçadas”. Se a sentença enquadra o Rio, enquadra também a nação.


Um presidente no picadeiro

Segundo Rosângela Bittar, colunista de política favorita desta Jurupoca, Kaveirão, a despeito de se vender como machochô, se borra de medo de perder as eleições, ser condenado pelo Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia, e preso. Isolado no mundo, com seus crimes contra a saúde pública varejados pela CPI, sua “autoconfiança, expressa em sinais de que pode tudo, é falsa. Acompanhamos sua performance como se ele estivesse no picadeiro. Ora engolindo fogo e soprando-o sobre a seleção brasileira de futebol, que obrigou a jogar a Copa América, competição refugada por três países mais responsáveis que o nosso. Resultado parcial: 52 infectados em apenas duas rodadas”, anota a jornalista. “Ora no tiro ao alvo dos palanques eleitorais, nos quais nem a motocada de 12 mil fanáticos, nem a genuflexão de militares da ativa, conseguem lhe dar consistência. Como no globo da morte, irrompe em avião prestes a decolar lotado, onde colhe o fundo musical de sua campanha à reeleição, que não será aproveitado nos jingles: Genocida!”, prossegue o texto que, nessa quarta (16) pelo meio-dia ocupava o alto da homepage do Estadão.


China orwelliana

O governo chinês continua a reprimir a minoria muçulmana uigur, não há novidade nisso, e eis a questão. Uma das frentes da política oficial impede o nascimento de crianças entre o grupo étnico. Mulheres são forçadas a implantar contraceptivos, e uma ginecologista que realiza o procedimento de retirada de um DIU é condenada a seis anos de cadeia; o marido que a engravida pega dez anos, e para seu lugar, em casa e no leito conjugal, é enviado um homem da maioria étnica Han. Crianças e adolescentes são rotineiramente encerrados em campos de concentração para serem “reeducados”. São relatos atualizados recentemente por Nicholas Kristof em sua coluna no New York Times. Os Estados Unidos e outras democracias ocidentais silenciam. Quanto ao resto do mundo, longe dos olhos fechados, longe do coração. Como escreve Richard Bradford na introdução de sua biografia de George Orwell: “Mas erradicamos o pesadelo de 1984 não é mesmo? Pelo contrário. Como parceiros no comércio global, estendemos nossas tigelas de pedintes para a China, cujo Partido Comunista no poder poderia muito bem ter usado o romance de Orwell como um manual de instruções.”


A longa perna da mentira

“Não posso vê-los. Logo não existem”. A tirada, a sério, de Pete Hegseth, apresentador do programa Fox & Friends (Fox News), em 2019, rodou o mundo como uma espécie de aforismo negacionista. Hegseth, que tem no currículo um diploma pela Universidade de Princeton, se referia aos micróbios! Ele ainda disse, para alegria da claque, que havia uma década não lavava as mãos. A pandemia da Covid parece ter catapultado as fakes news e a abrangência da pós-verdade. Como profilaxia da loucura, nos vemos obrigados a tentar entender o que ocorre na cabecinha de quem acredita e espalha cretinices sobre o combate ao coronavírus ou se empenha em campanhas antivacinas. A revista Nautilus traz uma oportunidade de ouro: uma conversa, ou entrevista ping-pong, com os filósofos da ciência Cailin O’Connor e James Owen Weatherall, autores (e marido e mulher) do livro The Misinformation Age: How False Beliefs Spread (A era da desinformação: como as crenças falsas se espalham). Além da tendência natural de acreditarmos em quem confiamos, e não no que penamos, da notória vilania das redes sociais e de seu uso político por governos etc., O’Connor e Weatherall explicam que a própria concorrência científica e o uso mal-intencionado ou enviesado de pesquisas acadêmicas ajudam a confundir o público. Lembram como a indústria do cigarro conseguiu, por décadas, induzir fumantes ao autoengano ao relativizar, com argumentos supostamente científicos, estudos que desde os anos 1950 associavam o tabagismo ao câncer. São técnicas sofisticadas de desinformação utilizadas amplamente também nos debates sobre a aprovação de novas drogas farmacêuticas. Os filósofos discutem como o jornalismo científico ruim se tornou uma praga. Estudos provisórios sobre efeitos do café, do vinho ou da gordura saem a cada dois meses, muitas vezes com conclusões disparatadas, e o leitor atrapalhado começa a desconfiar da própria ciência. “Há um tremendo incentivo para se publicar coisas que são surpreendentes ou novas, porque é assim que você obtém curtidas e cliques”, nota O’Connor. Ela puxa a orelha de editores responsáveis pela seleção de artigos científicos que pautam páginas de opinião. Divulgar estudos individuais é uma maneira corrente de gerar desinformação. A pesquisadora diz que um jornal sério deveria valorizar os bons estudos que demonstram, em bloco, como a ciência progrediu num intervalo de tempo. “Isso daria uma imagem muito menos enganosa do que é a ciência”, afirma.


Escravos do tic-tac

A sociedade contemporânea é obcecada com o passar das horas. Pode-se dizer que somos uns cordeiros do tempo. E nem sempre foi assim. No final do século 19 houve ataques a relógios públicos em Paris e Mumbai. O excelente romance O agente secreto, de Joseph Conrad, é inspirado na história real de um anarquista desastrado que, no ano de 1894, em Londres, provavelmente planejara pôr uma bomba no Royal Observatory, guardião simbólico do Greenwich Mean Time (GMT), mas o artefato explode quando o sujeito se dirigia ao local, matando-o. A hora GMT, implantada dez anos antes pelo império britânico, fora o primeiro relógio global a estandardizar o tempo. A medição do tempo por meio de dispositivos fabricados pelo homem é uma história longa iniciada no século 14. Uns 300 anos mais tarde surgiu o relógio de pêndulo. No século 19, no período entre o colonialismo e o imperialismo, a hora GMT passa a disciplinar os negócios internacionais, as rotinas de trabalho e a frequência dos trens. O próximo avanço ocorreria nos anos 1950, com o desenvolvimento do relógio atômico, baseado na contagem de oscilações de átomos de césio. Nascia a regência da hora mundial por meio da Coordinated Universal Time (UTC). Nosso calendário e, digamos, a relojoaria da divisão do tempo e do espaço terrestre em fusos, espelham-se na translação e rotação da Terra — 365 dias, 24 horas e subdivisões. “Nada disso é verdade. A Terra não é uma esfera perfeita com movimento perfeito; é uma massa redonda irregular abaulada em ambos os polos e oscila”, leio no artigo de Joe Zadeh na revista Noema. “Não gira exatamente 24 horas por dia ou orbita o sol em exatamente 365 dias por ano. Apenas meio que faz [isso]. A perfeição é um conceito humano; a natureza é irregular.” Durante a pandemia, são correntes relatos de percepção estranha ou distorcida do tempo. Pois este, quem sabem, seja um bom momento para se entender que relógios, hoje onipresentes em telonas e telinhas, são uma maneira de banalizar o tempo mas, intrinsecamente, de regular a vida e a produtividade geral. Nossa atenção perdeu a escala dos eventos naturais. Relógios de sol e observações do tempo baseadas na floração de algumas espécies ou nas quatro estações precederam o dispositivo. Ainda hoje há tribos que não se dobram à hora GMT. Disciplinamos nossos corpos, hábitos e a própria existência no tempo do relógio e da semana de sete dias, com repercussão no tempo biológico. Nosso humor e psique não se ajustam muito bem ao correr dos ponteiros ou dos dígitos nos displays. O tempo ditado pelo relógio torna contraintuitiva a observação de fenômenos que não ocorrem em escalas uniformes, como o aquecimento global. Zadeh cita o crítico literário Fredric Jameson, campeão dos “estudos culturais”, para quem “é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo”, para indicar como é complicado perceber o que o “capitalismo tem feito com nossa percepção do tempo através dos relógios”. Talvez não haja mais o que fazer (nem pensar?), “agora que parece incrustado em nossa própria psicologia ver o tempo com um bem que se pode gastar ou desperdiçar”, anota Zadeh.

Philippe de Champaigne: Vaidade, ou Alegoria da Vida Humana, de, c. 1645. Musée de Tesse, Le Mans, França

*

Um relógio de todas as horas

O vídeo The clock (2010) deu a Christian Marclay, um artista multimídia suíço, o prêmio Leão de Ouro da Bienal de Veneza de 2011. Desde então a obra, muito celebrada, segue em cartaz mundo afora. O vídeo consiste numa montagem de 24 horas feita com trechos de filmes bem conhecidos e clips televisivos. O ciclo completo é funcional, isto é, opera como um relógio verdadeiro, mas faz com que o espectador, paradoxalmente, perca a noção do tempo.


Jornalismo de autoajuda e vitimário

O mundo do leitor clicante (que em geral clica no que é mais “leve”, divertido, picante, ou seja, no que lhe entra pelo plexo solar, tal cérebro abdominal) salientou o gênero universal do jornalismo de autoajuda. Entram nessa rubrica cuidados com a felicidade, a saúde, a beleza, a sexualidade plena até os 120 anos e a decoração holística. Outro gênero, mais recente, que se tornou proeminente é o que chamo de “jornalismo vitimário”. Essa nova “editoria geral”, por assim dizer, com aspas, dá centralidade à busca e à valorização de campeões do sofrimento, da rotina de vítimas autodeclaradas ou reconhecidas assim pelas patrulhas do pensamento. Se o jornalismo é bem-feito nesses casos é outra história. O jornalismo que adere ao conceito da vítima como “herói do nosso tempo” (expressão do professor italiano Daniele Giglioli, citado no livro A tirania dos especialistas, de Martim Vasques da Cunha) não se sente obrigado a aprofundar suas afirmações em estudos de caráter histórico ou análises de dados e estatísticas, e assim prover visões complementares, mais bem fundamentadas na realidade; nem se fale em ouvir o outro lado. O essencial é o proselitismo de se mostrar simpático à tribalização e ao progressismo moral. Jogam-se, tantas vezes, para escanteio causas mais profundas e históricas de problemas, ou fontes de informação desviantes de certezas “autoevidentes”, com o que se poupa um esforço maior de apuração e compreensão de um país de bestializados e bilontras; para não falar em polêmicas desnecessárias na redes sociais, o que no final das contas pode acarretar perda de assinantes e anúncios de empresas inscritas no capitalismo do bem, ou consciente, filiadas à noção tão em voga e resumida na sigla ESG (Environmental, Social and Governance). O jornalismo com o rabo preso na luta do bem contra o mal guarda a marca do viés e da regressão. Mas, claro, é difícil escapar da assombração do espírito do tempo (Zeitgeist em alemão).


Cada um na sua; o jornalismo cultural na dele

O tal ex-caderno de ex-cultura vive de apresentar e explicar novidades ao leitor clicante e, supostamente, cretino, tal o abuso das formas “por que” e “saiba” nos títulos das matérias: ‘Saiba quem é o DJ fulano de tal que arrasa em Campina Grande’; ‘Por que Freud explica que videojogos redimem o mal-estar da civilização’ — coisas assim. Os editores de jornalismo cultural não têm uma vida fácil num mundo em que a tecnologia, entre outras coisas, reforça a tribalização social e a guetização cultural. Lendo uma das entrevistas do escritor norte-americano Don DeLillo organizadas pela Companhia das Letras (danada de boa nisso; editor de O Tempo, participava de bom grado dessas rodadas) para divulgar seu novo romance, O Silêncio. Na matéria de O Globo, Ruan de Sousa Gabriel diz que o livro “flerta com a poesia” e ilustra essa afirmativa com certa passagem do livro em que que uma mulher distraidamente faz exercícios nas ruas de Nova York, “enquanto o restante da população se desespera com o apocalipse tecnológico”, de que trata a história de DeLillo. Penso, sem ainda ter lido O silêncio, que pode ser menos poesia que realismo puro. Vivemos social e culturalmente dentro de casulos. Creio que a pandemia do Corona, no início, e só no início, provocou um redespertar comunitário, ainda que por Zoom, ou um desejo maior de confraternização. Mas logo, por hábito, “naturalizamos” a tragédia, à espera da normalização. E lá vamos nós, de olho no relógio, cada qual na sua rotina. O mundo de um ou de muitos pode estar em ruínas, enquanto uns e outros seguem praticando seus joggings matinais tão saudáveis, como se diz, na boa, entre uma e outra conferida na timeline do Face ou do Twitter.


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A Rádio Siutônio, a rádio sem comerciais, destaca neste programa o novo disco de Guinga e dá um pitaco sobre João Gilberto eterno, o belíssimo disco lançado esta semana em homenagem ao 90º aniversário de João, produzido no Brasil e no Japão. Emenda com um toque sobre a vinda a público, pela primeira vez, na Rádio Batuta, da série de gravações de João Gilberto feitas na Bahia por Carlos Coqueijo, nos anos de 1959 e 1960, uma delas ao lado de Vinicius de Morais, outra de Astrud Gilberto, sua mulher à época. E a rádio ainda divide com você a descoberta de uma versão (nova ao menos para o apresentador que vos fala) ou de mais uma linda versão de What a wonderful world.

*

Guinga ele mesmo

Há no mundo um novo disco de Guinga, nome artístico de Carlos Althier de Sousa Lemos Escobar, 71 anos deste o último dia 10. É uma boa notícia para o mundo. Zaboio, com 11 faixas, é o primeiro inteiramente de sua autoria, dele, que mantém uma generosa conta de parceiros. Chico Buarque, Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc são apenas alguns entre os mais bem cotados. O álbum carrega-se de memórias da infância do compositor na periferia de um Rio de Janeiro ainda semirrural, de seu pai, de uma cozinheira negra e de Sérgio Mendes, seu chegado. Cantar é certa ousadia de Guinga. A voz curta, algo roufenha, não é sua dádiva maior. Mas o ouvinte se surpreende com o resultado da combinação dessa voz sem muitos recursos com um dos violões mais inventivos que já surgiram na MPB. A riqueza melódica e harmônica casa-se bem com a melancolia da voz e, talvez se possa dizer, da voz interior que criou essas canções. Sobre a frase de Chico citada por Ubiratan Brasil, entrevistador do Estadão (“Qualquer um que se interesse por música brasileira vai passar por Guinga”), o artista devolve: “Isso me dá a sensação de dever cumprido, de que tenho sido honesto com o dom que recebi da música. E é preciso tratá-la com respeito, honestidade e paixão.” Pinço aqui as duas faixas de que mais gostei: Meu pai e Jogo de damas, que ele canta com Mônica Salmaso.

*

O vídeo abaixo é uma chamada para uma entrevista de Guinga a Luiz Fernando Vianna, programada pela Rádio Batuta em 2018. O cantautor comenta o fato de sua música ser considerada “difícil” e “complexa” por muitos; como canja, mostra a autobiográfica Meu Pai. Vianna escreve que, a despeito de tal “complexidade”, Guinga “está mais do que reconhecido como um dos principais compositores brasileiros, dono de uma originalidade que cativa especialmente os músicos mais jovens, que o têm como grande referência”.


João Gilberto eterno

Saiu o álbum, lançado no Japão pelo selo Road and Sky (distribuído pela Universal), ao menos na loja ITunes. Neste link podemos ouvir uma amostra de cada faixa, o suficiente para notar o primor da produção, encarregada a Mario Adnet e Shigeki Miyata. O repertório mais típico de João, lembrado no mês em que o artista faria 90 anos (10/06), foi entregue a músicos e intérpretes que receberam ou buscaram sua influência e conhecem a revolucionária dimensão de seu canto e violão. Espero que o disco apareça nesta sexta (18) nos Spotify da vida.

[Atualização em 20/06]

Ouça aqui uma entrevista com Mario Adnet sobre João Gilberto eterno na rádio MEC.

O produtor conta do dedicado trabalho remoto de gravação do álbum, em estúdios, casas, onde pôde ser com os impedimentos do coronavírus.

Conta também como de sua parceria com Miyata, da escolha do repertório e da escritura dos arranjos de base.

*

E finalmente temos o álbum disponível no streaming por aqui, não só no Japão.

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Entrementes, a Rádio Batuta traz este mês a série completa das gravações de João Gilberto na Bahia registradas em fitas de rolo pelo compositor, jurista e jornalista Carlos Coqueijo (1924-1988). Na série de áudios da abertura, Coqueijo, então presidente da Associação Atlética da Bahia, recebe Vinicius de Moraes e João Gilberto na sede do Clube em Salvador. Depois de apresentado pelo anfitrião, Vinicius tem uma fala breve e reveladora sobre o sentido mais profundo da Bossa Nova, movimento erguido sobre o alicerce de uma nova batida de violão. O poeta deixa claro que, a despeito da necessária influência do jazz de que tanto se falava criticamente, com as harmonias que permitiam variações e improviso, nada era mais brasileiro do que uma música que atendia a expectativas de renovação pelas novas gerações de artistas ligadas às mudanças culturais que ocorriam no país. João toca e canta alguns sambas que fariam parte de seu repertório nas décadas seguintes. A segunda gravação é de um  show íntimo de João e Astrud Gilberto na casa de Coqueijo, em 10 de setembro de 1959.  Outra apresentação doméstica, apenas de João, ocorreu em 28/11/1960, na mesma casa de Coqueijo, também autor (com Alcyvando Luz) de É preciso perdoar, gravada por João pela primeira vez em seu “álbum branco” de 1973. É engraçado ouvir Vinicius, ainda no oficio de diplomata, dizer que não podia se negar a soltar a voz na ocasião (canta Pela luz dos olhos teus acompanhado por JG), mas que “absolutamente” não era um cantor.


Outra linda versão  

Vendo o último episódio (sexta temporada) da série policial Bosch (Prime Video) descubro nova e linda versão de What a wonderful world (Bob Thiele, George David Weiss, canção lançada por Louis Armstrong em 1968) com Chris Botti e Mark Knopfler. A trilha do seriado, por sinal, é de primeiríssima linha. Harry Bosch é um escrupuloso detetive da velha guarda chegado no cool jazz. A sétima e última temporada é prometida pela Amazon para o próximo dia 25.

*

Até mais ver, e obrigado pela leitura!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —


 

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