Do Burro Hidrófobo ao “cloroquinista”

 O “médico marrom” — contraface do “homem de branco”, conforme Pedro Nava — será uma patologia social permanente? Ao compor a figura do Burro Hidrófobo, o memorialista parece ter apontado para desgraças que podemos reconhecer com grande nitidez no plano atual  


Jurupoca_77 25/6 a 1/7 de 2021
 Hebdomadário de cultura, ideias e
 alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto: James Gillray: Sangria, 1804 (detalhe). Sydney Living Museuns © Fideicomisso do Museu Britânico


Sob o trópico de câncer


Sai, Câncer
Desaparece, parte, sai do mundo
Volta à galáxia onde fermentam
Os íncubos da vida, de que és
A forma inversa. […]
………………………………………..
Furbo anão de unhas sujas e roídas
Monstrengo sub-reptício, glabro homúnculo
Que empestas as brancas madrugadas
Com teu suave mau cheiro de necrose
…………………………………………
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de matéria plástica
Tu e tuas galochas
Tu e tua gravata carcomida
E torna, abjeto, ao Trópico
Cujo nome roubaste. Deixa os homens em sossego […]
………………………………………………

Vinicius de Moraes: Sob o trópico de câncer, com os cortes no poema como epigrafado em Galo das trevas | Pedro Nava – Memórias 5


Médico, cura-te a te mesmo
Lucas — IV, 23

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Um dos efeitos colaterais da pandemia, em meu paciente caso, é um adeus a antigas ilusões sobre praticantes da arte médica.

Assistir à grotesquerie de, como dizer, médicos e seus colegiados — desde a cimeira de convicções políticas pantanosas — praticar a mais conspícua charlatanice foi demais: o golpe de vento e a gota de estricnina que faltavam para endurecer uma alma reverente.

O contraste do charlatanismo marginal com a nobreza, obviamente hegemônica, da pratica médica na pandemia só agrava o quadro colateral, a indignação. Essa nobreza é evidente e reconhecida, mas o busílis aqui é outro.

Como todo mortal ignaro educado, sempre tratei por senhor o mais tenro residente a que submeti um vaticínio, quero dizer um diagnóstico de meus males espirituais, físicos e imaginários, meus medos de “ter alguma coisa”, uma brotoeja, uma arritmia, um nódulo, medos tantos e graduados vida afora.

Crianças, sonhávamos em ser astronautas ou médicos, ocupações supremas e aventurosas. Havia quem levasse à tumba — jornalista, químico ou silvicultor — a frustração de médico irrealizado.

Terrivelmente pior, claro, será a frustração daquele que sobrepõe na campa o peso de uma existência de médico medíocre, reles, mau discípulo, preguiçoso, estranho no ninho da ars medicina, arte da cura. E ainda pior terá sido a frustração de seus pacientes!

Reconheço a dureza do estudo médico, a vocação, a inteligência e a dedicação que demandam: de saída algo como uma década de ralação, quando excele, e nesse caso o aprendizado se estenderá quanto durar a carreira.

Além do mais, do médico se exige uma compostura social e familiar, diferentemente de quem pode se dar ao luxo de cometer excessos e estripulias por aí, pois um doutor se desmoraliza por muito pouco. “Conservarei imaculada minha vida e minha arte”, diz o juramento de Hipócrates na sua forma tradicional. Imagine um cirurgião de ressaca.

Donde meu respeito, submissão e passividade diante de doutores e doutoras que defronto num consultório ou sala de operações. Mas devagar.

Um amigo médico, um “homem de branco” (já me explico) me ajudou a acordar, a largar de exageros. Ele é um médico “de branco” como tantos e fundamentais nas trincheiras do SUS e em toda parte, nas frentes de batalha da covid.

Há na medicina, como em toda corporação, ele me fez ver, seu excedente de medíocres, quando muito dos bons técnicos, além, digo cá pra mim, das autênticas bestas sem noção, indignas da Arte, alheias à ética e, como agora se escancara, aos rigores do método científico.

Para esse excedente, legião, o estudo e a disciplina requeridos pelo experimento, pelo passo a passo, pela submissão de resultados à revisão dos pares (peer review) configuram barreiras injustificadas e tediosas, donde dispensáveis.

Vivemos e passamos por poucas e boas. No foro da intimidade me deparei, ainda outro dia, com a incúria de um corpo clínico que sonegou a um ser mais que querido cuidados protocolares na emergência. Senti e sinto na pele a catástrofe da incompetência e da displicência arrogante.

Mas minha conversa aqui é outra.

Aqui é o queixo caído do cidadão, que é o mesmo do jornalista, sua mandíbula pensa por acompanhar o medonho espetáculo de doutores por direito a sustentar um pendor por vezes homicida, ainda por cima guarnecidos por suas guildas.

A tal da autonomia do médico, a que essa gente se arroga, nos termos em que é colocada equivaleria à liberalidade de prescrever sangrias contra o cálculo biliar, com o resguardo da autoridade corporativa e 200 anos de atraso!, emergindo, como um fantasma, diretamente das névoas da “medicina heroica”.

Por trás do “tratamento precoce” não há ciência alguma. Isso meu sobrinho-neto de quatro anos é capaz de ver entre dois pulinhos e uma risada.

Resta a pantomima da ideologia, o negaceio do fanatismo e a indecente exibição da estultice de refratários aos fatos e ao chamamento à realidade.

Num mundo ideal, doutores “cloroquinistas” e “vermifuguistas” reincidentes seriam contidos em camisa de força, uma medida extrema de proteção social, e recolhidos pelo alienista Bacamarte na sua Casa Verde.

Pedro Nava (1903-1984), médico, memorialistas e um dos maiores estilistas do idioma, estabelece no Galo das trevas, quinto volume das Memórias, a dicotomia moral “o branco e o marrom” para distinguir médicos… de médicos.

Ao falar de sua vasta prática clínica e acadêmica, durante a qual pôde ver de tudo, toda sorte de patologias, misérias, toda a escala de sofrimentos físicos e mentais, ele acresce:

“E vi também os colegas. O santo, o sábio, o heroico, o desprendido, o dedicado, o sincero, o altruísta vivendo para os doentes e tratando dos doentes — o homem de branco. E o pérfido, o imprestável, o ignorante, o comodista, o rapace, o egoísta, o fariseu vivendo para si e tratando só do próprio ventre — o médico marrom”.

Nava, a essa altura, está prestes a nos apresentar o Egon.

O autor introduz a figura desse primo-irmão-alter ego para se ver mais à vontade na continuidade da narrativa, na busca do que falta de seu tempo perdido, por interposta terceira pessoa do discurso.

Sucede que a partir daí o autor começará a conjurar decepções, ingratidões e fundas mágoas acumuladas numa veneranda carreira de clínico, reumatologista e catedrático.

O que surge nas páginas seguintes, até o volume final, O círio perfeito, tem muito de  uma diatribe endiabrada, angustiada, voraz, espasmódica e catártica, em uma das melhores prosas que o idioma já produziu, à parte o suprassumo da arte de esculachar desafetos.

Deixo que as Memórias falem por si, nesta passagem a cuidar, entre outros, do nosso personagem, figuraça polissêmica, tentadoramente sugestiva ao exame de um leitor arguto nos dias de hoje:

“[…] Foi por esse tempo [1968] que publiquei o meu Baú de ossos e comecei a ter o nome no jornal. A bile que lhe subiu do fígado em forma da atrabile — “o humor negro que não ferve” — foi o veneno a afogar seu coração ou a esponja de plástico que ele tem no lugar dessa víscera. Data daí a época em que se conjuntaram ele — Burro Hidrófobo — o “Piolho Lázaro”, o Cadaveiroz Raposo Tastuffo, o J. Capacho Bizarro Sintagma, o Wladwin Pichelingue Mamede, o Pelino Pelaio Filho e outros canalhas maiores menores para planejarem o altabaixo com que se tentou me cortar ao meio — […] Já o Verme Morfético ou ‘Piolho Lázaro’, seus motivos não deixaram de ter analogias com os do Burro. […]”.

O escritor regurgita palavras sem peias e perfurantes sobre um colega,  mau médico, a quem beneficiara na carreira, prestara favores e até emprestara dinheiro, e que lhe pagou com os lancinantes venenos da inveja.

Mas, antes de partir para essas vias de fato retóricas, como eu dizia, ao introduzir o Egon, Pedro Nava deslinda um aspecto do caráter do “médico marrom” ao qual recorro nesta hora.

Isso me auxilia a tentar entender a personalidade do terraplanista/cloroquinista/vermifuguista com anel e canudo, currículo às vezes salpicado de títulos e tantas vezes egresso das melhores escolas, aquelas custeadas com o suor do povo brasileiro.

Aplico a categoria do “médico marrom” ao caso do doutor empolgado, capaz de pisar na razão, coicear a ciência e esbofetear a prudência que seu pares lhes cobram, se é que cobram, além de juízo e comedimento.

“Sua análise é reveladora e estranha”, escreve o Nava, já se reportando ao Egon. “É difícil amizade entre médicos, ela é por assim dizer impossível, pela consciência que temos de nossa impotência, fraqueza, nulidade, diante da Doença e da Morte”, lemos no Galo das trevas.

Vamos mais um pouco com o escritor:

“Sabemos nada da intimidade do fenômeno biológico normal e menos ainda do patológico. Entretanto, fazemos tudo para que a humanidade otária acredite em nossa infalibilidade, nosso saber, nossa posse da verdade e cada um quer que o doente o julgue o Papa, o médicin miracle no seu terreno e especialidade. E nesse farisaísmo caminhamos cabeça alta, orgulhosos e sonoros com odres cheios de vento”.

Helahoho! helahoho! Glorioso Pedro da Silva Nava, pobre homem do caminho novo das Minas dos Matos Gerais, bendita seja vossa pena premonitória. Saudade.

Pois estamos neste momento neuroticamente regredidos às brumas medievais, à mercê de Valdete Vibrião Colérico (extrapolando um pouco e humildemente, com a devida vênia, a verve naviana), e da liderança do Burro.

Estamos a tomar na cara, e em cheio, o nauseabundo conteúdo dos “odres cheios de vento”, despejados justamente por autoproclamados papas que dão as costas para o imperfeito ritual de construção da verdade — processo que apenas a verdadeira ciência provê e que por sinal é o único que temos, salvadoramente, à mão.

É impossível fazer a contabilidade das vítimas que o governo federal e seus cúmplices ajudaram a infectar e a morrer pelo Sarc-Cov-2, somadas aos sobreviventes iludidos (morte da razão) e maltratados por curandeiros.

Mas sabemos que entre os mais de 500 mil mortos a que chegamos no último sábado contam-se às carradas as vítimas da burrice ativa (ver Oscar Niemeyer), inclusive a exercida por centenas, quem sabe milhares de doutores, cegos adeptos do “Kit Covid”, das nebulizações de cloroquina e outras sangrias simbólicas e diabólicas mais.

Pois falava de ilusões perdidas.

Sim, o amigo médico está certo. É tolice alguém se surpreender com a ruindade, o despreparado e mesmo a perversidade de doutores entupidos de orgulho e que se bastam na própria cretinice.

Suspeito que “médico marrom” é uma patologia social que nos acompanha desde Hipócrates.

Parafraseio o prefeito Odorico Paraguaçu, na pena certeira de Dias Gomes, e chamo “marronzistas” a essas verdadeiras assombrações que aparecem para quem estudou e ousou aprender a pensar como homem de ofício, de ciência, humanista, quem se deixou guiar pela busca da verdade — muitos dos quais, médicos, se veem ameaçados fisicamente por pacientes contrariados quando lhe recusam prescrever garrafadas.

Na hora do câncer, buscamos um bom oncologista por saber que estaremos seguros ou bem-servidos pela última palavra no tratamento da doença.

Pela mesma razão, esperamos a conclusão dos melhores estudos científicos para nos orientar com a segurança possível na vigência da peste.

Em meio a uma pandemia abrumadora, um leigo crédulo não podia esperar ver tantos médicos marchar na contramão da saúde pública como porta-estandartes do obscurantismo — já na segunda década do terceiro milênio, quando, questão de meses, graças a novos saberes rigorosos e tecnologias como o mRNA, se produziram as melhores vacinas.

Num país pobre e mal-educado como o nosso, portanto mais vulnerável à “ciência alternativa” e à enganação das fake news, essa atitude é especialmente perversa, catastrófica e criminosa. É o que me faz batucar essas linhas.

(Para não falar do singelo e proverbial despreparo, como o de um doutor no interior de Minas que ao atender um casal amigo com covid inicial lhes enfiou duas páginas de receituário com todas as prescrições que lhe vieram à testa, inclusive a de um corticoide que podia ter sido letal nessa tapa da doença.)

Vimos na Alemanha nazista o doutor Mengele e comparsas torturarem vítimas da Shoah em experimentos realizados em nome da “ciência ariana”.

Menos de cem anos depois — ó razão, ó mistério, ó sina — deparamos, aqui e acolá, também no estrangeiro, com médicos seguidores de outras ideologias e de outra espécie de líder estrambótico  — o populista radical de direita e esquerda — que a mim claramente recorda a figuração literária do Burro Hidrófobo, imortalizada pelo grandíssimo Pedro Nava.


Ver esta semana um afilhado, via Youtube, prestar seu juramento de médico fez-me derramar de orgulho, e primeiramente porque, para quem o observa desde o berço, é barbada assegurar que a Arte acaba de ganhar um oficiante que lhe será dedicado e em tudo honrará.

Estátua de Pedro Nava, acompanhado por Carlos Drummond de Andrade | Rua Goiás, perto do cruzamento com Bahia, centro do Belo. Bronzes de Leo Santana, 2003. Foto: A. Siúves

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô…
Ghi — …?


— NOTAS PARA CONGA, BONGÔ, MARACA, FRIGIDEIRA E APITO  —

Maritacas celebram, ipês não têm nada a declarar

O Ministério da Motosserra perde seu bem-amado titular. Folia no matagal. Provisória, sim, mas justificada!


A sociedade inglesa desventrada

Um punhado de pó, de Evelyn Waugh, tem a melhor cena de bebedeira que conheço na literatura. Em Londres, dois amigos que se sentem deprimidos enchem a cara num clube e no fim da noite vão parar no que, mudando o que for preciso, reconheceríamos como um puteiro de boa aparência. A principal diversão dos camaradas é ligar para o flat várias vezes de Brenda, a mulher do protagonista que o trai com um idiota. A descrição de sua ressaca é igualmente épica. O humor de Waugh, talvez o mais elevado da literatura anglo-saxônica, mais que refinado é circunstancial. O narrador nos parece anos-luz distante de sua narrativa. A vacuidade da sociedade inglesa nos anos 1930 (o livro é de 34), a pantomima dos divórcios arranjados, a falta do que fazer são seus temas centrais. A decadência de uma alta classe média inculta e improdutiva, que crê ainda possível se arranjar na vida com fantasias aristocráticas, se espraia na decadência do império britânico, que enxergamos no fundo. Waugh traz Tony Last, anti-herói dessa história, para selvas brasileiras, onde é feito prisioneiro e leitor de um mameluco analfabeto apaixonado por… Charles Dickens. Sua imaginação para elaborar subtramas, como um pintor que observar distraidamente o mundo que o acerca, é um negócio sério.


Quiz: alarmes de carro

Ganha um pastel de Belém na Lapa lisboeta quem conseguir me explicar para que servem os alarmes de carro, além obviamente de azucrinar impunemente quem não ameaça o patrimônio de ninguém. Cartas para a redação.


La mascarilla

Reconheço mais uma vantagem no uso da máscara: falar sozinho sem denunciar um  surto psicótico — vá que um arroubo d’alma, um verso, uma cantiga.

*

É verdade que os menos pudicos não precisam de máscara para nada disso. Bastam-lhes um fone de ouvido para soltarem a voz por aí, como alucinados, e nos inteirar de suas vidas amorosas e relações de trabalho.


O jornal impresso ainda existe, mas acabou

O Estadão, sem mais para que, bate o bumbo por ter assumido a liderança nacional de circulação impressa. Propagandeia a circulação média diária de 76,4 mil exemplares, contra 72,8 mil de O Globo, na segunda colocação, conforme dados do IVC. Quase caio da cadeira. O que ainda esperam para parar as rotativas? Não faz tanto tempo assim um jornal nacional vendia uns 300 mil exemplares diários, o que já era pouquíssimo comparativamente aos países ricos, e nos bons tempos dos fascículos dominicais a Folha chegava a bater no teto do 1 milhão de exemplares. Atrás de O Globo vem o Super Notícia, filhote popularesco de O Tempo, a R$ 0,50 o exemplar. Circulando no Belo e metrópole, o Super liderava esse mercado, até quando me interessei pelo assunto, com mais de 300 mil exemplares por dia. Pois escorregou para 70,7 mil, informa o Estadão.

*

Os jornaleiros que hoje faturam vendendo quilos de encalhe para o serviço de pets, em breve terão dificuldade para se reabastecer com a mercadoria.


Elogio ao JN

Nossa esquerda mais radical deveria — para começo de conversa — reconhecer a beleza do trabalho jornalístico realizado pelo Jornal Nacional  na pandemia, um trabalho que, até onde posso ver, segue demonizado pelo lulopetismo, como hoje é vilipendiado pelo Kaveirão e suas hostes. William Bonner e Renata Vasconcellos a cada noite prestam aos brasileiros um serviço negligenciado pelo governo federal e sua penca de ministros da Saúde. É preciso reconhecer o valor disso, por justiça e honestidade. Bonner e Renata, ademais, fazem o principal contraponto midiático ao ataque perverso e constante contra o direito à saúde estabelecido na Constituição. E nem um cartazete de reconhecimento nos protestos! Pois o JN merece todo os laureis que couberem ao grande jornalismo. Sua distinção, sabemos, fere no fígado a diminuta figura do nosso incumbente, por ver reiteradamente como a liberdade de imprensa e o bom jornalismo são capazes de sobrepujar com folga os esforços da mídia partidária e venal — além de apontar a mendacidade criminosa de extremistas empoleirados em redes sociais. Apenas a inveja, quando não a bile ideológica, quando não a mera cretinice impedirão o “coleguinha” de reconhecer a pertinência desse elogio.

Runas da discórdia

Nacionalistas e nativista viverão sempre na infância da humanidade. Discórdia, guerras, destruição e genocídio não atenuam o fervor irracional de grupamentos fanatizados. Além de refúgio dos canalhas e valorosa moeda de políticos oportunistas, o nacionalismo se presta a debates intermináveis sobre a pureza e superioridade cultural deste ou daquele povo. Um arqueólogo que descobriu, num sítio da República Tcheca, runas (escritura de origem germânica) inscritas em um osso de vaca datado do século 6º, é ameaçado de morte, leio em texto do New York Times (mal) traduzido pelo Estadão. Para eslavos nacionalistas, o primeiro e único sistema de escrita aceitável é o cirílico, criado no século 9º pelos monges Cirilo e Metódio chegados à Morávia, com suas variações correntes na Rússia, Ucrânia, Bulgária e Sérvia. Uma escrita “alemã” precedente ao cirílico? Absurdo, heresia! Segundo a reportagem, o achado é visto entre os tchecos como “parte de um esforço para minar a identidade nacional a serviço da União Europeia, projeto baseado na ideia de que os europeus devem e podem se dar bem”. A maioria dos tchecos, segundo uma pesquisa, acredita que a adesão do país à União Europeia está destruindo a identidade nacional. Esse tipo de atitude é a linha de frente a sustentar regimes populistas e autoritários, uma chocadeira de linchadores contra minorias e “inimigos” da pureza étnica. Como se sabe, não existe tal coisa, pureza étnica, exceto para os alucinados de sempre que sonham com a grandeza das páginas de sangue e horror que se empilham na história.

Augusto Ferrer-Dalmau Nieto: Rocroi, o último terço, 2011, obra inspirada na Batalha de Rocroi (1643), entre franceses e espanhóis durante a Guerra dos Trinta Anos | Wikimedia Commons


Olha aí a tainha, dona Carminha!
Caiu o preço do surubim, aproveita, seu Quinquim!

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A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta
Afinal, toca exclusivamente o que gosta
E prefere mil vezes o olor dos percevejos
A ouvir um acorde dos novos sertanejos
Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque
A aturar um segundo do batidão pornofunk

Mas se ainda assim for bom pra você, ouvinte irmão,
Seja muito bem-vindo à nossa programação.

*

“São coisas vestindo nadas”

Enquanto a rádio estiver no ar, volta e meia regressará a este álbum-jardim do Éden (o paraíso na tradição judaico-cristã, mãe do Ocidente) que é Música em Pessoa (LP da Som Livre de 1985 | CD da Biscoito Fino de 2002). Desta feita, vou tocar para nosso deleite a faixa com Edu Lobo. De Edu também é o arranjo; Cristóvão Bastos vai ao piano e Marcio Montarroyos no trompete; o maestro Chiquinho de Moraes assina o arranjo de cordas. Você precisa se perder de si para se deixar boiar nesses versos, como tantos do poeta português, quintessenciais (de quinta-essência, para Aristóteles o elemento etéreo que compõe as esferas celestes, distinto de terra, água, fogo e ar). Sinto, ao ouvir o poema musicado, que Edu Lobo conseguiu alcançar Pessoa em outra dimensão, linguagem, arte. E digo o mesmo do piano de Bastos e do trompete de Montarroyos, que nos rouba de nós enquanto dança com o silêncio. Isso também é uma espécie de bênção, ouvinte irmão.

— Meus pensamentos de mágoa – Poema de Fernando Pessoa | música de Edu Lobo

Boiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Boiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Não sei se existe ou se dói.

4-8-1930
Arquivo Pessoa

Hieronymus Bosch: O jardim das delícias terrestres, cerca de 1450-1516. Museu do Prado, Madri. Creative Commons. Clique aqui para ver a imagem em altíssima resolução.

Uísque duplo com Gudin

Dois sambas de Eduardo Gudin (ambos parcerias com José Carlos Costa Netto), cantor e compositor paulistano que dificilmente será citado como referência por um jovem menos interessado, mais ligado à novidades do Tik Tok como a “seresta” maranhense. Mas Gudin é catedrático Academia Imaginária da MPB (AIMPB), que acabo de fundar.

Verde (Eduardo Gudin/José Carlos Costa Netto).

Um de seus principais sucessos, aqui faixa do LP Eduardo Gudin e Vânia Bastos (Eldorado, 1989), com um arranjo bem colorido de Décio Cascapera no qual se destacam os “comentários” do sax alto de Roberto Sion.

Paulista (Eduardo Gudin/José Carlos Costa Netto)

Outro samba delicado do mesmo álbum e com os mesmos músico no estúdio. Outro clássico da MPB.


Faraco, un brésilien a Paris

Outro samba dolente e de classe é este Outro tempo. Marcio Faraco é um cantor e compositor exigente, de uma estirpe afinada à de Gudin, mas você precisa viajar a Paris para descobri-lo. Eu o achei, por meio de um de seus discos, numa lojinha do Marais, por sugestão do vendedor. Há muito ele deixou o Brasil, onde, suponho, concluiu que não havia mais lugar para a MPB, depois de ter gravado pela Biscoito Fino. A música é de seu último CD, Cajueiro, de 2014 e, como os três anteriores, lançado pelo selo independente Harmonia Mundi/World Village.

— Outro tempo (Márcio Faraco/Hervé Morisot)

*

Até mais ver, e obrigado pela leitura!


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