O samba da serotonina

 

Cronista se vê apertado para falar da química cerebral com a leveza possível, mas tudo tem sua graça, afinal, como ensina Montaigne, para aproveitar melhor a vida é preciso aprender a morrer


Jurupoca_78 2 a 8/7 de 2021
 Hebdomadário de cultura, ideias e
 alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto: Paul Gauguin: Nunca mais (Nevermore), 1897 (detalhe). Courtauld Institute of Art | Universidade de Londres. Wikimedia Commons


O samba da serotonina

O samba da serotonina
é um sambinha meio blues
no tempo binário oscila
(vai não vai, vai não fui)

Então seca a dopamina
e a oxitocina dançou

À luz no oeste endurece
como chiclete no fim
já noturno é omelete
cozida à moda malsã
clara batida em neve
sob a grossa lava de ovo
do ovo que gorou

Antônio Siúves: Moral das horas, 2013, Manduruvá Edições Especiais

Reclames da farmácia espiritual

“Sofre de solidão?
Medique-se.

Padece de temponada (temporão)?
estique-se.”

Desafinando o coro dos contentes
‘Sa menina, meus amô?
Ô dó! Isso não tá nada bom
Tome fluoxetina
Pra você entrar no tom

Se o problema é mais de fundo
E ferem os males do mundo
A miséria, a guerra
O terror, nada lhe apraz
Equilid, mon amour, é sucedâneo da paz

E você rapaz, como vai de autoestima
Descorçoado com o insucesso vil?
Ora, não desanima
Engula já seu Ludiomil

Encare o Anafranil e seja mais você
Se não gosta da vida como ela é
Por assim dizer, prêt à porter

O amor acabou
A carreira não anda a mil
Nada é justo ou lhe cai bem?
Cipramil hoje, amanhã também

Sem saída
Não tem carinhos do seu bem?
Anda logo, experimenta Donaren

Se não malhar todo dia nem
Praticar esporte, já sabe
para isso se faz o Parnate

Stablon contra farol baixo
Para mala leche, Luvox
Nuvem negra, abandono?
Wellbutrin, Clo e o magnânimo Lexapro

Efexor é tiro certo
Amytril a solução
Se no final das contas
Não toleras a solidão

Pare de se empanturrar de doce
Chocolate e paçoca, anorética
Contra o recidivoso gosto de fel
Não há amargura sináptica
Que resista ao edulcorante Ixel

O mundo lhe parece opaco
Nada mais faz tchan-tchan-tchan!?
Desenvelheça com Maxapran

Melancolia, moça Maria
O ocaso lhe faz chorar?
Com Pamelor, minha nega
Sua bile negra vai clarear

Sem lugar, seu Misael
Roí-lhe a alma a Grande Falta
O Rivotril já não lhe basta?
Entre hoje mesmo com Cymbalta

E você, jovem Rita Lina
Doce selenita linda
Pare de flutuar assim
Aterrisse já com Roxetin

Se a dondoca perdeu o gosto de gastar
(Gastou demais, não pode pagar)
A farmácia espiritual para tal desengano
É presta em aviar o genérico Milnaciprano

Livre-se da fossa (com todo esse
Taedium vitae também pudera)
Contra o velho spleen pense em Pondera

Para quadros de timidez
Como o do Rô, a quem tudo faz corar
E se fala em público dana a gaguejar
Paxil mata a sociofobia de vez

Se nada disso der conta
Da sua dor de corno sublunar
Aplique um tranco no destino
No orgulho e na má sorte
Todo dia, bem cedinho
Mire o tempo do Zoloft

Antônio Siúves: Moral das horas, 2003, Mandururá Edições Especiais

Opa, vamos apear. Ora, vamos!

Bioquímica cerebral, “falhas nas fendas sinápticas”… Eta ferro. Que tal essas brenhas em uma crônica?

O gênero, reza a escrita, deve de ser tão leve quanto um texto de Laurinha Medioli.

Não se aborreça. Tentarei ser o mais leve possível, embora livre.

A flutuação de hormônios e neurotransmissores liga-se ao grau de felicidade de cada um de nós, certo?

A genética, explica a ciência, pode ser dona de metade do latifúndio da satisfação — uma terratenente da felicidade.

Estilo de vida, o ambiente em que vivemos, nossas interações sociais e, cá entre nós, o acaso, entram na dança.

O Samba da serotonina é um poema explícito sobre tal balé.

Integram a companhia de dança primeiras-bailarinas formadas nos cafundós da evolução: a dopamina velha de guerra (a.k.a hormônio do bem-estar, formador de hábitos, “molécula motivacional”), a oxitocina (sua presença luxuriosa está dos prelúdios do fuquifuqui e nas contrações da parturiente) e as endorfinas (nas boas ondas que premiam o exercício físico, quase como prize de lança-perfume).

Nosso bem-estar, impulsos amorosos, proximidade, opressões no peito, desejo de viver 350 anos com quem amamos, — no sexo, reacender o clamor e o pico na veia do orgasmo — sumir no intrincado e confuso mapa da existência, tudo isso — sensações — vem grandemente dessa dança química dodecafônica.

Uns de nós somos por natureza alto astral, “pra cima”, levamos bem a vida, somos dados, expansivos, conquistadores de todas as graças e necessidades afetivas.

Outros, numa escala da melancolia à depressão severa, “pra baixo”, somos o que somos, aí de nós.

Para a sobrevivência pacificada dos últimos contribui, aleluia, a farmacopeia, mormente a surgida nas últimas décadas, e inaugurada pelo cloridrato de fluoxetina (princípio ativo do Prozac).

Há pencas de livros, como o brilhante O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon, que decupam a saga humana da depressão, seus entendimentos e tratamentos. Há psiquiatras, há terapeutas etc.

Li bastante. Me tratei um bocado.

Ou de onde viriam os Reclames da farmácia espiritual — poema que vai acima em versão um pouco modificada?

No foro da intimidade de paciente, no eumesminho, posso dizer que a droga farmacêutica opera o milagre possível de reerguer um deprimido mais morto que vivo.

Penso, sinto, norteado pela química cerebral, à parte o que os deuses me deram, que o efeito do antidepressivo é bom enquanto dura.

Chega-se a uma época, a um platô, mas opa, pera lá.

Recomeço daqui na primeira pessoa. Não quero confundir um leitor desavisado com generalidades de leigo. O platô a que me refiro vale exclusivement pour moi, é só meu, de mais ninguém.

Apois, de novo. Cheguei a um tempo, a um platô, a um estágio de sentir falta, quase saudade de certas sensações, de ver no que davam altos e baixos d’alma, emoções mais intensas sem o filtro anestésico e regulador da droga engolida, beneficamente, por anos e anos.

Para alguém dado à criação isso é bem complicadinho, quase impensável, bem indizível.

Ao pensar nisso e escrever isso, sigo cético.

Sucedeu que decidi, com uma suposta autonomia que me resta, retirar um remédio que me acudia eficazmente, um fármaco que parecia exclusivo, cortado sob medida, meu feitio e minha cara.

Se não me arrependo até aqui, não posso contar vantagem, jamais contarei, pois sei de mim.

A parada é torta, uma aposta na zebra, um anti-heroísmo ou um heroísmo de xepa, tanto faz.

Me voltaram, como esperava, instabilidades e oscilações de humor, inflexões na curva do temperamento, algum mergulho emocional mais fundo, em geral em águas turvas de velhos poços camaradas.

Devagar, vou perdendo o que chamo “filtro anestésico”, na falta de outro termo para nomear a regulação neuroquímica das emoções pelo fármaco.

Por certo, são partes de mim. Deixar que essa dança ordinária da conexão de hormônios e neurotransmissores e suas manifestações corporais (fadiga, náusea e tontura) transpareçam ou não no que eu escrevo, com o equilíbrio possível, é um trabalho linha a linha, palavra por palavra.

*

“Aquilo que Montaigne é, ele o é em vista da morte”, lemos na introdução de Erich Auerbach na edição dos Ensaios do filósofo francês (Penguin-Companhia). “Se deseja possuir a si mesmo a cada instante, é porque este pode ser o último”, ensina o filólogo e crítico de literatura alemão.

Para não deixar que o medo da morte o impedisse de aproveitar a vida, Montaigne aprende a “lisonjear” a Indesejada, assim como as dores causadas pelos cálculos renais, doença que o acomete vida afora.

O medo da morte e a dor eram parte dele, não havia nada mais sábio a fazer além de se habituar com suas feições, de deitá-las no colo, por assim dizer.

O próprio Montaigne diz no ensaio Que filosofar é aprender a morrer: “A morte é o fim de nossa caminhada, é o objeto necessário de nossa mira; se nos apavora, como é possível dar um passo à frente sem ser tomado pela ansiedade?”

Entre o não existir e a morte e entre uma crise e outra de suas litíase, a fruição da vida, como o gozo da saúde, são esplêndidas oportunidades, afirma o autor de Os Ensaios.

*

Ainda prefiro a poética, o Pessoa de Segue o teu destino e aquele seu “Deixa a dor nas aras/ Como ex-voto aos deuses”.

*

“Passar por uma depressão suave sem remédios tem certas vantagens. Isso dá a sensação de que se pode corrigir os desequilíbrios químicos através do exercício de sua vontade química”, lemos no livro de Salomon, um pouco antes de ele desmitificar esse e outros, tantas vezes, equívocos de quem tenta aprender a “caminhar sobre  brasas” e atravessar a depressão “com suas próprias pernas”.

*

Tenho alguma facilidade de prosseguir a partir do meu convite semanal a você,  o “vamos apear?”.

Sinto mais prazer que dor, ou melhor, ao escrever espanto o nada. Escrevo para encarar o dia a dia, acho que já disse isso aqui, de carona com o Belchior.

É uma espécie de dieta espiritual.

Isso de um lado. O outro lado é mais difícil de abordar.

*

“Toda arte encontra sua expressão na metáfora da garrafa do náufrago que atira sua mensagem ao mar sem saber a quem ela chegará”, disse o médico e escritor Moacyr Scliar (1937-2011) numa entrevista a Mario Sabino nas páginas amarelas de Veja (1997). “Essa mensagem tem chegado a bem poucos, é verdade, mas em inúmeros casos talvez ela pudesse ser um substituto para os artifícios químicos. As pessoas que leem, que se nutrem de arte, sabem que nenhum homem é uma ilha e que todos padecem, em maior ou menor grau, das limitações da condição humana.”

*

Os amigos que incentivam essa publicação talvez saibam que sem eles a JU teria ido para o saco, e seu redator retornado a seus diários, ao menos pela diabólica necessidade de escrever.

*

Sinto falta de escrever poesia. Verdade? — me indago.

Poesia é destino diabólico.

Como esperava, minha primeira coletânea, de 2013, como tantas, padece hoje nos sebos, espero que requisitada ao menos por um diabólico leitor.

A quem interessar possa (nunca se sabe, cutuca a bruxa má da esperança): em uma loja no Belo sai a R$ 6,90; em outro, de Curitiba!, a R$ 10. E ainda tem o frete.

É raro mas pode suceder de algum diabólico leitor de poemas — diabólico por não ser deste mundo — de um aventureiro perdido no ciberoceano descobrir esta outra coletânea, exclusiva do blog.

Assim é que é. Poeta, poeta, sabe o que o espera.

Vira e mexe, páginas de cultura de jornais —  que não parecem mais justificar sua existência online — exaltam  o “fenômeno” da poesia no Instagram. Isso já é velho até.

Sei. O que se chama de poesia ali, numa razão quase absoluta, é imprestável sequer como arroubo sentimental; não vale a singeleza do “batatinha quando nasce/ se esparrama pelo chão…”.

*

Sair do Insta, apagar de vez minha conta no Face e meus rastros Twitter, me desligar, me fez um bem danado.

Afirmo isso com uma rara convicção, quase com alegria por ter abandonado superado a etapa do caga-nem-sair-da-moita com essas redes.

O final é como sempre é. Minha rede analógica, íntima e pessoal é composta por amigos e família.

E isso já é muito, ao menos para quem não vive sem ler, pensar, escrever. E, como há muito a ler, pensar e escrever, não vai gastar suas horinhas para saber o que se passa por lá, aquele novo todo dia refeito exatamente igual.

Acompanho os acontecimentos, notícias, sou um interessado seguidor do mundo que viajou o que pôde com aguçado interesse e respeitosa curiosidade.

Não preciso de outras distrações. Acho sem graça “videocassetadas” e memes no geral. Prefiro a graça duradoura de um romance de Ubaldo ou de Greene ou de Waugh ou dum filme de Woody Allen. Não vivo sem música. Me divirto com séries policiais. Quanta coisa, né?

E gosto de ter contato com os amigos, da conversa pacífica.

Aliás, o antidepressivo me ajudou também nisso. Me refiz desapaixonado na política e na intolerância com a burrice.

Durante um tempo me faltou a minha parca inteligência; sobrava bile e atrabile. Por minha culpa, minha tão grande culpa, minha máxima culpa (tum-tum-tum no peito, como alguns entusiasmados fiéis faziam durante a missa).

Aprendi um pouco mais a examinar os fatos com mais rigor, desdobrá-los, buscar outras fontes, livros que aprofundam o que o noticiário muitas vezes tangencia.

E estou aprendendo a lisonjear o silêncio.

Também me ajudou nessa pacificação sentir de perto a catástrofe do fanatismo na personalidade alheia, em ver como o extremismo se torna um tipo de cegueira. Um horror.

Grandes inteligências não são imunes a esse adoecimento da razão. Uma tristeza.

Mas aqui também não há uma receita geral. Somos mais ou menos o que somos para o bem e para o mal.

Aertgen van Leyden (atribuído): São Jerônimo em seu estúdio à luz de velas, entre 1520/1530, museu De Lakenhal, Holanda. Wikimedia Commons

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô…
Ghi — …?


— NOTAS PARA VIOLINO SOLO EM DÓ MENOR —

Da alquimia à cloroquinia

É revelador reler Saturno nos trópicos – A melancolia europeia chega ao Brasil, de Moacyr Scliar. Ao paciente da peste negra, que quase extinguiu a população da Europa no século 14, administravam-se remédios como arsênico, mercúrio e sapos secos, cita o autor. Pelas tantas aprendemos que Girolamo Fracastoro, médico, poeta e matemático veronense que viveu no transbordo entre os séculos 15 e 16, defendia o guaiaco, madeira de uma árvores também conhecida como pau-santo, para controlar a “doença francesa”, outra de vários apelidos da sífilis. Não se sabe se como tratamento precoce, ou seja, se o cidadão deveria tomar sua dose antes de entrar num prostíbulo. Doenças venéreas são associadas à deusa Vênus. Outros especialistas apostavam suas fichas no mercúrio, também nome de deus, e a “polêmica mercúrio-guaiaco” encobria uma guerra comercial. A abordagem da doença pela alquimia ocorria numa era em que muita gente manjava de ocultismo, cada qual com sua escola ou, por assim dizer, com seu terreiro, como pais de santo. Hermes Trismegistus  (“três vezes grandes”; note a divinal concorrência), deus dos gregos que viviam no Egito, inspirava práticas secretas ditas herméticas, as mesmas que os prescritores de remédios como a cloroquina para tratar a covid devem ter acesso nos dias atuais. 

Pieter Bruegel, o Velho: O Alquimista, cerca de 1558. Wikimedia Commons

Silêncio e reencarnação

Ouço um desses investidores — novos gênios da raça — anunciar o advento das motocas elétricas. Alvíssaras! Motocas silenciosas, já muito usadas na China, tornarão o mundo mais suportável. Não vou nem pensar no banimento, um dia, quem sabe, dos alarmes de carro da face da Terra, ou começo a simpatizar com a ideia da reencarnação.


Novas récitas no Grande Teatro Planalto-Centrão

No palco deste tal país de verdes e amarelos amarronzados, a mesma e contínua indignação com a selvageria, a mesma bulha, a mesma fúria. Mudam-se os atores, e os figurinos e os meios de divulgação podem até mudar, mas atos e entreatos, e o mais importante, texto e contexto, não. Na plateia os tolos, todos nós, bobos da corte, nos divertimos com nossa própria credulidade. A moral dessa revista de comédia trágica, genuíno gênero nacional, não é segredo na galera. Faxineiros e encanadores ungidos pelas urnas e régios desentupidores de toga cumprirão, diligentes, a função de manter o teatro sempre pronto, lustroso e cheiroso para a próxima função. “The show must go on” é o mantra nada original de advogados milionários em seus camarote de frente para o palco e acesso franqueado às coxias. Donos de coleções de gravatas e relógios que valem um tutu gordo, assistem tudo de suas frisas nobres, onde se serve apenas do bom e do melhor. Vivem do show, isto é, da renda do espetáculo.


Enquanto isso, naquele ex-caderno de ex-cultura

O novo jornalismo de autoajuda e o novo jornalismo vitimário se alimentam das lições diárias de Anitta à humanidade e uma e outra receita de rabada. O colunismo de rede social também faz sucesso. Fulano postou isso, sicrano fez uma graça no Insta ou no Face — tudo manhas para ganhar um carinho do leitor clicante e um troco do Google.


Supremacia de gênero

Enquanto o Brasil e o mundo se distraem com os superpoderes de Anitta e as lições de vida de Britney Spears, ativistas da ideologia de gênero impõem sua fé em que somos “identidade” antes de seres ou coletividade humana. Coletividade sim, desde que numa intercessão com a “comunidade” LGBTQ+”, incluso radicais que se guiam pela ética canceladora e dão bananas para a liberdade de expressão. Sua hegemonia cultural se estende pela Europa e domina amplamente academia e imprensa norte-americanas. O Brasil parece aderir . Vivemos o que o escritor e dramaturgo canadense Allan Stratton, colaborador da Quillette,denomina “gender supremacism” (supremacismo de gênero), onde vigoram pseudociência e dogmas fantasiosos sobre o sexo biológico.


Racismo e jornalismo

“O racismo é tão asqueroso que, invocado contra alguém, pode ser uma pecha moralmente letal. É tão certo atacá-lo quanto exige certeza ao dirigi-lo contra alguém”, escreveu Jânio de Freitas, colunista decano da Folha, sobre as acusações contra a moça e o namorado da bicicleta roubada no Leblon. O jornalismo parece ter descoberto as vantagens da moral canceladora, ao aderir ao massacre de reputações. O áudio de um “zap” de uma infeliz de Santo Antonio do Amparo, cuja pobreza de repertório verbal denunciava parca educação e analfabetismo digital (incapacidade de compreender o alcance de uma manifestação privada que, extraviada de seu contexto, viraliza) vai parar nos telejornais com estardalhaço. A exposição da pessoa lembrou a ação dos linchadores digitais, mas isso hoje passa por bom jornalismo. Uma denúncia desprovida de contexto, análise e cuidados com o “outro lado” é considerada virtuosa e justa em si mesma. As TVs tentam “exemplar”, no sentido de dar lição, advertir, a audiência com uma pedagogia sem método e critério. A mulher de Minas é racista? Parece que sim, além de tola. Seu comentário sobre a moça que venceu o concurso de beleza é imbecil e abominável. Mas quantos repassaram o áudio serão tão racista quanto ela. O problema tem outra dimensão. O caso expõe uma ignorância universal sobre o funcionamento da internet e do mundão besta em que vivemos. Nele sobram idiotas digitais e tecnológicos. Será legítimo dar publicidade em cadeia nacional a uma mensagem destinada a um grupo privado de WhatsApp? Se isso vira tendência, não faltarão pautas “jornalísticas” e sensacionais e virtuosas aos vigilantes do ciberespaço. E se qualquer mensagem originalmente circunscrita à esfera privada for considerada uma manifestação válida de “opinião pública”, estaremos muito perto de encarnar de vez a distopia orwelliana à realidade, com os meios de comunicação assumindo o papel de Grande Irmão. E de BBB, a Globo, onde vi a repercussão dessa “notícia”,  manja bem.


Nossa cara no espelho da internet

Recordo ter lido Pierre Lévy (As tecnologias da inteligência – O futuro do pensamento na era da informática; editora 34, 1993) na primeira metade dos anos 1990, e  encantado. Seu pensamento é fluído, vigoroso e sua escrita, brilhante. Nesse e em outros livros, Inteligência coletiva, Cibercultura etc., ele prefigurou grande parte do que se tornou a internet nas décadas seguintes. No subtexto de As tecnologias havia um certo deslumbramento com as possibilidades da internet, e todos nós éramos mais ou menos assim naquele liminar dos novos tempos. Mas leio uma entrevista de Lévy a Borja Hermoso, no El País e me rendo à sua lucidez. O homem, nascido em Tunes há 65 anos, é filósofo e doutor em sociologia e história da ciência; professor da Universidade de Ottawa e uma eminência no Canadá. Denomina Apple, Microsoft, Google, Facebook, Amazon e quejandas de “estados-plataformas”, potências tecnológicas que se sobrepõem aos estados-nação. “Provavelmente acabarão por desenvolver suas próprias moedas”, ele comenta. “Já contam com métodos de reconhecimento de identidades mais precisos que os dos próprios governos; já regulam a opinião pública, já que são elas que dominam as redes sociais onde as pessoas se expressam, assim, quando decidem censurar algo, o fazem e pronto, e se decidem valorizar algo acima do resto, a mesma coisa”. Lévy insiste nas imensas perspectivas, ainda mal aproveitadas, do emprego da cibercultura na educação, como videojogos para ensinar matemática. E nota que a internet não tornou a humanidade pior do que já era, apenas ampliou nossa cara no espelho. “Está claro que as pessoas não se tornaram más ou mais sensíveis às teorias conspiranoicas por culpa das redes sociais. Rumores absurdos existiram ao longo de toda a história. Houve genocídios bastantes antes que existisse internet, não?”, ironiza. “Nem no Holocausto judeu nem o genocídio armênio nem nos massacres de Ruanda existia internet. Muitos não querem ver isso, mas já éramos malíssimos […]”. Claríssimo. Mas culturalmente estamos regredidos, doutor Lévy. A difusão em massa de “teorias conspiranoicas” talvez seja apenas a ponta de um iceberg.


Vai uma sardinha?

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A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta
Afinal, toca exclusivamente o que gosta
E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos
A ouvir um acorde dos novos sertanejos
Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque
A aturar um segundo de batidão pornofunk

*

Uma canção-manifesto

Nos versos finais de O estrangeiro (do álbum Estrangeiro, de 1989), Caetano Veloso parafraseia Bob Dylan sobre João Gilberto. É uma amarração cifrada para uma de suas canções mais bonitas. “Tem muita graça”, como ele próprio diz à Eucanaã Ferraz no encarte Sobre as letras do livro Letra só (Cia das Letras, 2003).

Dylan escreve na contracapa de Bringing it all back home (1965): “my songs’re written with the kettledrum in mind/a touch of any anxious color, un-/ mentionable. obvious. an’ people perhaps / like a soft brazilian singer . . . i have/ given up at making any attempt at perfection […]” (“Minhas canções são escritas com o timbal em mente, um toque de qualquer cor inquieta, in-dizível. As pessoas talvez prefiram a suavidade de um cantor brasileiro. Desisti de qualquer tentativa de alcançar a perfeição.)

Na canção de Caetano ouvimos: “Some may like a soft Brazilian singer. But I’ve given up all attempts at perfection” (“Talvez algumas pessoas gostem da suavidade de um cantor brasileiro. Mas eu já desisti de fazer qualquer tentativa de alcançar a perfeição”).

Paralelos entre a influência de João Gilberto, da Bossa Nova e de Bob Dylan percorrem as canções de Caetano Veloso desde sempre. No livro Verdade tropical (Cia das Letras, 1997) ele escreve: “Agora, o tropicalismo estabelecido, eu ouvia e reouvia maravilhado Bringing it all back home […].Até hoje, esse é o disco de Dylan que mais emociona.” (pag. 271). E logo na página seguinte: “Até hoje, no entanto, a densidade de Dylan me interessa e a sua personalidade artística me apaixona […]”.

Estrangeiro, o disco (sem o artigo, aludindo, creio, à produção novaiorquina do trabalho), rebusca a verve da Tropicália (a capa disco traz a maquete criada por Hélio Eichbauer para a peça “O Rei da Vela” de Oswald de Andrade, encenada em 1967 por José Celso Martinez Correa) e a rebeldia/incômodo do poeta que se divide entre a evidência da maravilha e o atraso, entre o velho e novo, entre a utopia e a estupidez do real, entre o belo e o Amaro (assim, em caixa alta, para lembrar de onde ele veio, o Recôncavo.)

O estrangeiro é um canção com densidade e textura, altiva, altissonante, provocante, áspera e tensa — tensão e aspereza salientadas pelas guitarras distorcidas de Arto Lindsay e Bill Frisell, pelos teclados de Peter Sherer (ele e Lindsay produziram o disco) e pela percussão de Naná Vasconcelos, cuja voz também ouvimos no contracanto.

A letra não se constrói por estrofes, flui como uma espécie de manifesto poético-sociocultural, como a tomada de posição de um artista que se localizada no espaço (o Rio de Janeiro, o Brasil) e no tempo e num “desmascaro” revela, como um Rimbaud no Rio, sua coleta de iluminações.

Na praia de Botafogo, diante do morro do Pão de Açúcar, o artista compõe impressões sobre a Baia de Guanabara que remetem a um compositor (Cole Porter), um pintor (Paul Gauguin) e um antropólogo (Claude Lévi-Strauss na sua obra Tristes trópicos).  E música, pintura e uma certa percepção antropológica se inscrevem na letra/poema.

A luz que explode abre a paisagem da cidade até contrastar a cegueira — cegueira ou quase cegueira que não tolhe a criação de Ray Charles, Stevie Wonder, Hermeto, e pode até aguçar a percepção das coisas.

Talvez seja preciso cegar para se ver em profundidade a beleza com seus desvios nas distorções culturais da cidade e do país.

Distorções que, “cego às avessas”, ele clama em sonho, alumbrado pela visão pontilhista (do pintor francês Seurat) e impressionista, pelo desejo de finalmente ver reeducados pai, filho e espírito santo. Amém.

Volto à canção e concluo que o “macho adulto branco” hoje tem sua síntese na Presidência da República. O “ato hipócrita” nunca foi tão valorizado sob a tutela da moral canceladora.

E o Planalto Centrão está lotado de uma gente que acha certo “riscar os índios” e “nada esperar dos pretos”.

Estrangeiro, ouvinte de sempre dessa canção, vejo — agora, singularmente, mais que nunca — no lugar e no momento.

E ainda me pone los pelos de punta escutar: “E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo/ E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo.”

*

O videoclipe abaixo foi dirigido pelo próprio Caetano Veloso, e tem participações das atrizes Regina Casé e Paula Lavigne (inda menina-moça) e José Celso Martinez Correia.

O estrangeiro – Caetano Veloso

O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara

O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela

O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara

Pareceu-lhe uma boca banguela

E eu, menos a conhecera, mais a amara?

Sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela

O que é uma coisa bela?

O amor é cego

Ray Charles é cego

Stevie Wonder é cego

E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem

Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?

Uma arara?

Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara

Em que se passara passa passará um raro pesadelo

Que aqui começo a construir sempre buscando o belo e o Amaro

Eu não sonhei:

A praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia branca e óleo diesel

Sob meus tênis

E o Pão de Açúcar menos óbvio possível

À minha frente

Um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas

À áspera luz laranja contra a quase não luz, quase não púrpura

Do branco das areias e das espumas

Que era tudo quanto havia então de aurora

Estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas

E uma menina ainda adolescente e muito linda

Não olho pra trás mas sei de tudo

Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo

Mas eu não desejo ver o terno negro do velho

Nem os dentes quase-não-púrpura da menina

(Pense Seurat e pense impressionista

Essa coisa da luz nos brancos dente e onda

Mas não pense surrealista que é outra onda)

E ouço as vozes

Os dois me dizem

Num duplo som

Como que sampleados num Synclavier:

“É chegada a hora da reeducação de alguém

Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém

O certo é louco tomar eletrochoque

O certo é saber que o certo é certo

O macho adulto branco sempre no comando

E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo

Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita

Riscar os índios, nada esperar dos pretos”

E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento

Sigo mais sozinho caminhando contra o vento

E entendo o centro do que estão dizendo

Aquele cara e aquela:

É um desmascaro

Singelo grito:

“O rei está nu”

Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu

E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo

E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo

(“Some may like a soft brazilian singer

But I’ve given up all attempts at perfection”)


Obrigado, Salmaso

Voz, violão, flauta (Teco Cardoso) e metrônomo. E uma deliciosa versão de Blackbird (Lennon / McCartney), esse clássico contemporâneo da canção popular que McCartney foi buscar em Bach. Devemos, creio que muita gente, a Mônica Salmaso. Sua generosidade em prover sua arte gratuitamente na série Ô de casas, nos shows gravados, agora neste “me deu vontade”, é um lenitivo durante toda a pandemia. Ouvir sua voz de timbre inequívoco, doce e ligeiramente áspero, a voz de alguém que ao “cantar fácil” encobre um tanto de estudo e técnica, é descansar da ruidosa tempestade que nunca para, uma tempestade seca e viscosa.

Até mais ver, e obrigado pela leitura!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin assim de nada da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —


 

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