Cringes, bagatelas & pererecas

Aí me pergunto por que não vemos a toda hora gente desabar na rua feito viciado em analgésico nos EUA, não pela ação dos opioides, mas sob efeito do tédio


Jurupoca_79 – 9 a 15/7 de 2021
 Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto: Audrey Flack: Marilyn, 1977. Acervo do University of Arizona Museum of Art


Arthur Rimbaud

“Enfim, ó ventura, ó razão, removi do céu o azul, que é negro, e vivi, centelha de ouro da luz pura. Por prazer, adotava a expressão mais ridícula e desvairada possível:

Achada, é verdade?!

Quem? A eternidade.

É o mar que o sol

         invade.

Observa, minh’alma

Eterna, o teu voto

Seja noite só,

Torre o dia em chama.

Que então te avantajes

A humanos sufrágios,

A impulsos comuns!

Tu voas como os…

— Esperança ausente,

Nada de oriétur.

Ciência e paciência,

Só o suplício é certo.

O amanhã não vem,

Brasas de cetim.

Deves o ardor

Ao dever doar.

Achada, é verdade?!

— Quem? — A Eternidade.

É o mar que o sol

        Invade.

Enfin, ô bonheur, ô raison, j’écartai du ciel l’azur, qui est du noir, et je vécus, étincelle d’or de la lumière nature. De joie, je prenais une expression bouffonne et égarée au possible:

Elle est retrouvée.

Quoi? L’éternité.

C’est la mer allée

            Au soleil.

Mon âme éternelle,

observe ton voeu

Malgré la nuit seule

Et le jour en feu.

Donc tu te dégages

Des humains suffrages,

Des communs élans!

Tu voles selon…

— Jamais l’espérance,

         Pas d’orietur.

Science et patience,

Le supplice est sûr.

Plus de lendemain,

Braises de satin,

         Votre ardeur

         Est le devoir.

Elle est retrouvée.

Quoi ? – L’Éternité.

C’est la mer mêlée

           Au soleil.

Arthur Rimbaud: Prosa poética. Edição bilíngue. Tradução, prefácio e notas  Ivo Barroso. Topbooks, 1998. Págs. 172/73.
John Baldessari: Calcanhar, 1986. Los Angeles Museum County of Art, Modern and Contemporary | © Courtesy Estate of John Baldessari

Opa, vamos apear. Ora, vamos!

Os repórteres Bolívar Torres e Talita Duvanel explicam que a palavra inglesa cringe, já quase tão popular quanto Anitta, expressa “gostos embaraçosos de outras pessoas”, trocando em miúdos significa mico ou vergonha alheia.

O termo ganhou a praça digital nos embates por afirmação ególatra dos “zennials” — a geração Z dos nascidos entre 1995 e 2010 — com os millennials, da Y — rebentos de 1981 a 1995.

Antes disso, num tempo mais largo, seríamos todos, como no império americano, “baby boomers”, dados à luz de 1960 a 1980, referidos também por geração X — suponho que de incógnita: pensei essa besteira ao refletir sobre o esporte da rotulação, tão em voga em nossos dias. Percebem que há letrinhas e enquadramentos para tudo, como se fôssemos, pudéssemos ser, várias subespécies mais ou menos filiadas do gênero Homo?  (Pode que já tenham corrigido a taxonomia, a classificação dos seres vivos, e deveria escrever Homxs?)

Aí ai; ai aí.

Ai, ai, ai.

Aí, aí, aí.  

Aí já me pergunto por que não vemos a toda hora gente desabar na rua feito viciado em analgésico nos EUA, não pela ação dos opioides, mas sob efeito do tédio. Eu próprio vez ou outra tenho de me sentar ou buscar um apoio para não capotar.  

Não seja tão rabugento, Antônio. Dê uma chance ao cringe e todo o pá daqui, pá de lá da galera a brotar tão bela quanto a floração do ipê.

Tá bom. Adiante, então. Mas do que trata a trozoba?

Não sei se você tem idade para se lembrar do pop star Ritchie. Há uns 350 anos ele estourava com Menina veneno. Cidadão britânico, dera aulas de inglês no Rio antes de sua Menina ganhar rádios e programas de TV como o Cassino do Chacrinha.

Pois Ritchie reapareceu dia desses, leio no Globo, para ensinar gratuitamente que cringe é verbo inglês, não adjetivo. “Dizer q ‘fulano é cringe’ não faz sentido algum”, tuitou. “No máximo, poderia se dizer que fulano é “cringeworthy” (digno de desgosto, asco ou desprezo). De nada?”, esnobou camarada.   

Depois de Ritchie, no mesmo jornal, Eurípedes Alcântara pegou o touro a unha.

“Em inglês, cringe é verbo. Significa encolher-se, rebaixar-se ou adular servilmente alguém. Reapareceu como adjetivo. Uma pessoa, alguma coisa ou atitude podem ser chamadas de cringe se forem ultrapassadas, datadas, fora de moda”, anotou o ex-mandachuva de Veja. “Só vale de uma geração mais nova para as mais velhas. Deve ficar um tempo em circulação, mas é de prever que em breve falar cringe será cringe e, então, sumirá”, ajuntou.

O artigo de Alcântara me foi bem proveitoso. Ele pergunta “se o pessoal recorre a esses neologismos para aumentar a clareza do que lhes vai pela cabeça ou para escamotear intenções ou preconceitos”. A indagação é justa.

Em maio deste ano — sigo com mister Eurípedes — a Academia Francesa, órgão com poder normativo sobre o idioma, vetou o uso de pronomes de gênero neutros — todxs no lugar de todos ou todas. O jornal britânico Financial Times lamentou não existir do outro lado do Canal da Mancha “uma autoridade central como a Academia Francesa”.

*

Eu próprio matuto amiúde se neologismos e maneirismos não esconderão má vontade, incompreensão ou desprezo em relação ao idioma herdado, além de certa onipotência de quem acabou de chegar ao mundo e se vê “podendo”, pronto para derrubar estátuas, recodificar a linguagem e reformular a gramática à imagem e semelhança de sua fé no advento da vida eterna, quase como jovens demiurgos.

*

Lendo Montaigne aprendi uma deliciosa expressão latina. O filósofo a foi buscar em Sêneca, nas Cartas a Lucílio: Transcurramus solertissimas nugas Passemos sobre essas bagatelas tão solertes, na tradução de Rosa Freire D’Aguiar.

Bagatelas solertes.

Helahoho! helahoho!  

Bagatela é bugiganga, cacareco, ninharia, futilidade.

É um signo correlato ao bizantinismo de nosso tempo, em tanta coisa mais bizantino (frívolo, inútil, pretensioso) que Bizâncio, a capital do Império Romano do Oriente que deu origem ao termo.

Sinto que grande parte da, como dizer, agenda atual refletida nos debates históricos, nos manifestos para calar hereges de ocasião tão comuns nos Estados Unidos e que importamos de lá, num escambo com nossas commodities, parece alimentar novas “utopias”, entre aspas porque vão longe disso, estão na ordem do tópico, local.

Nesta terça (6), me informei por João Pereira Coutinho, que se reportou a David Brooks, colunista do New York Times, sobre o “lookism”, pecado social  (o mais recente) do preconceito contra feios. Beleza e feiura também são fruto de construção social, atestam os novos revisionistas bem pensantes. Por enquanto, avisa JPC, ainda não se propuseram cotas para feios — essa ação virtuosa logo se revelaria difícil de carregar. Minha mulher me acode que também há, às pampas no Brasil, o preconceito com mulheres bonitas que ascendem a cargos de comando, mas já vou longe.

Assim, sem cotas, faço que nem ouvi falar da nova trozoba.  

“Lookism” é só a última palavra de quem deseja passar o mundo a limpo. A pretensão de consertar o que há de velho, errado e injusto geralmente encobre o fato de que tentativas anteriores fracassaram.

Esforços para consertar a humanidade por meio da anulação (não disse crítica) de quem é considerado infiel, parasita, “inimigo do povo”, pária etc. acabaram em totalitarismo, com massacres e genocídio.

Enquanto isso, a miséria, a desigualdade, a perseguição a minorias por governos fundamentalistas, a subjugação e exploração de mulheres e crianças, para nada dizer da emergência climática, seguem apresentando sua fatura de exclusão e sofrimento.

Mas tudo isso soa como drama menor na visão futurista dos novos iluminados pela verdade mais pura e verdadeira, legionários na vanguarda do Twitter.

*

Criticar é cringe demais.

Ser cringe é “cutucar o balaio” [Paulo Francis, aliás Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, 1930-1997] de dogmas, ortodoxias, certezas de aço. “Os judeus achavam Spinoza um renegado e queriam linchá-lo. Os cristãos achavam Spinoza um judeu safado e queriam linchá-lo”, anotou Francis sobre a frase do filósofo holandês que o fez odiado em vida e depois da morte: “A caridade é intrinsecamente indesejável porque é uma paixão”. Hoje, nos países democráticos, Spinoza (1632-1677) provavelmente seria chamuscado pela cancelação. Posso ver editoras americanas banindo-o de seus catálogos, ideólogos imputando-lhe usurpação cultural e invasão do lugar da fala alheia. Pobre Spinoza, pobre de nós.

Mas é fato que saiu de uso avaliar com acuidade e profissionalismo o lançamento de um livro, de um espetáculo teatral ou de um disco com o propósito de orientar o leitor, para ficar no óbvio.

Me parece que isso representa uma perda cultural tremenda. A crítica é indispensável para formar e orientar bons leitores e cinéfilos.

Quem quer que pense em opinar com sinceridade, por mais que se veja preparado e bem-informado, refugará, nos melhores casos, para não favorecer a hipocrisia vigente.

É preciso ganhar a vida, e alguém dificilmente se arrisca no papel de paladino das ideias com a hipoteca do apê na balança.  

Sim, os críticos foram os primeiros a perder cabeças nos cortes promovidos nas redações; sim, um crítico, não vai brigar para exercer seu ofício, pelo direito à liberdade de expressão e, digamos, do “lugar da crítica” quando periga ser cassado nas redes sociais, daí perder o emprego por contrariar a moral; e sim, o próprio status da crítica perdeu o sentido com o advento das redes sociais.

Faz mal não, vamos chover no molhado. Continuo a me molhar, miseravelmente suscetível aos movimentos tectônicos da cultura do meu tempo.

*

Hoje, as audiências são guiadas por algoritmos e supridas pelo gosto médio do que mais agrada e prevalece nas bolhas do consumo mais uniformes do entretenimento.

Graças ao admirável mundo novo do Vale do Silício.

Gratuitamente e por prazer, usuários alimentam algoritmos do Spotify, da Netflix, do IMDb (Internet Movie Database) e assemelhados, e o público interessado vai se levar pelas médias.

Esse sistema de custo zero ou quase zero tirou e tira o ganha pão de muita gente.

Funciona perfeitamente e todos ganham, todos que sejam um tempo passivos e proativos perante o mundo.

Mas não para todos. Artistas e, em geral, “produtores de conteúdo”, se estrepam.  

Não é difícil notar que a criação se apequena, sob o risco de se extinguir, sem a contribuição de artistas à míngua, sem ganhame nesta distópica gratuidade da internet.

De qualquer forma, é um pouco tarde, amigo.

“A arte já não tem o mesmo lugar na sociedade”, concluiu o prestigiado crítico literário William Deresiewicz, autor de  The death of the artist: How creators are struggling to survive in the age of billionaires and Big Tech (A morte do artista: Como os criadores lutam por sobreviver na era dos bilionários  e das Big Tech). “Não creio que tenha essa imagem sagrada [da arte] e odeio dizer isso, mas [a arte] já não tem o significado espiritual que um dia teve. Se converteu em algo que as pessoas consomem”, ele diz nesta entrevista a Saioa Camarzana, no El Cultural.

*

James Rosenquist: Marilyn, 1974. Tate Gallery. © James Rosenquist/VAGA, New York and DACS, London 2021

A persona digital, essa não é cringe.

Sonhei que minha persona digital fazia um bruto sucesso em Quixeramobim.

Ai de mim. Acordei quando começava a festejar o festival de acessos de quixeramobinenses neste blog.

Se ganho na loteria, juro, contratarei os coachings mais caros, como quem toma banhos de loja, para arrumar minha combalida persona digital. Será o fim de meus dilemas, o silêncio dos meus ais.

E correrei para me consultar  com psicanalistas de grife, que hão de me socorrer para apaziguar o conflito entre minha pessoa, meu eu profundo e outros eus e minhas identidades, tudo desavindo com minha persona digital.

Sonhei depois de ler, mais uma vez (juro que não é merchã, não ganho um puto com isso) no Globo uma matéria perfeitamente acrítica, portanto exemplar quanto ao novo jornalismo cultural, sobre o mercado crescente da mercadoria empacotada como “persona digital”.

É crescente a procura entre influencers  e outras categorias por cursos do tipo “Melhore sua  persona digital em dez dias”.

Talvez até se possa fazer bom jornalismo cultural e ficar bem com todo mundo, como quer a nova etiqueta, sem questionar, contrapor ideias sem, num palavrão, data vênia, amável leitora, problematizar a pauta.

A tal matéria parte do fato acabado, como se apresentasse a receita campeã do último certame Masterchef: na era digital e impulsionados pelo Corona nos tornamos irremediavelmente produtos telemáticos, logo, para se ganhar a vida é mister aprimorar o leiaute, o avatar, a embrulho, a postura e quem sabe até bulir com o ser nas  zonas de conforto da ontologia.

Quem contestar essa realidade dada, para dizer o mínimo, esse, sim, coitado, é cringe.

Aprendo que a fórmula universal do sucesso, conforme os especialistas em persona digital tem uma palavra mágica: autenticidade. Algumas personalidades conseguem ser mais autênticas que outras.

Graças a técnicas de marketing e desenho digital e, sei lá, lições de gestual e expressão corporal,  dá para colocar uma autenticidade sobre outra na praça digital.

Ainda se revelará aos povos a lei básica da persona digital: a autenticidade é diretamente proporcional ao ajuste da oferta à demanda.

Barbara Kruger: Sem título (Não seremos mais vistas, nem ouvidas), 1958. Cortesia Tate Gallery Liverpool

RÁDIO SIUTÔNIO

A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta
Afinal, toca exclusivamente o que gosta
E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos
A ouvir um acorde dos novos sertanejos
Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque
A aturar um segundo de pancadão pornofunk}
Mas se ainda assim foi bom pra você, ouvinte irmão,
Seja muito bem-vindo à nossa programação

*

Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser louvado:

O brasileiro trata graciosamente diversos anfíbios anuros arborícolas, especialmente aqueles da família dos hilídeos, na intimamente, de perereca, além de caçote, rã, raineta, rela e tanoeiro.  

O povo é um inventalínguas, decanta o Haroldo de Campos, e a língua anda sob os melhores influxos.

Perereca é sinônimo de travesso, piririca, safado, vira-mexe, insofrido e lascarino, entre outros adjetivos gozosos. Ah, e endemoniado, visse.

Como substantivo, registram-se  as acepções radinho de pilha, instrumento de tortura, coisa pequena e insignificante, garrucha ou pistola de carregar pela boca e, último mas não menos importante, periquita.

A curiosidade masculina que aparece aqui também é profícua em apelidos do que há uns 500 anos era cognominado Bráulio — numa campanha do Ministério da Saúde para incentivar o uso de camisinha nos desafogos da folia.  

Não há menino ou menina que antes dos cinco anos não aprenda meia dúzia dessas gostosas palavras galhofeiras e risonhas.

Creio que essas variações ocorram em todos os idiomas, desde o castigo divino infringido à Torre de Babel e mesmo antes, a Eva e Adão, quando degredados do Éden.

Mas divago. À perereca.

Há coisa de cem entradas no Spotify de composições que se aproveitam do simpático anuro para fazer graça e alguns trocados. Quase tudo chulice, vulgarismo tirante ao pornô, não obstante, angelical perto de um hit da diva Popozuda.

Há exceções legais. Sei de duas, que vamos tocar aqui.

Uma é Perereca, sambaião surrealista segundo o jornalista Pedro Alexandre Sanches, composto por Chico Anysio e Arnaud Rodrigues e lançado lá atrás, nas fumaças de 1975.

A outra é a gravação de Caetano Veloso, agora em 2002, para uma composição do desconhecido Sérgio Amado, chamada Voa, voa Perereca.

*

A dupla Chico Anysio (1931 – 2012) e Arnaud Rodrigues (1942 – 2010) saiu do humorístico Chico City  para ganhar as paradas de sucesso em 1974 e em anos seguintes.

Fez história com Urubu tá com raiva do boi, Vô batê pá tu, Aldeia e várias outras canções divertidas que nos ajudaram a desafogar uma época de retranca cultural.

Perereca  (Faixa A1 do LP Baianos & os Novos Caetanos Vol. 2 – Som Livre, 1975; CD reeditado em 2017)

La no Central Parque tem uma lagoa

Cheia de sapo e uma perereca boa

Filha querida de madame rã que tem muito fã

Mas não é uma sapa atoa cuida da filha mais bela

Que é sem dom pra ser donzela

Todo sapo tá na dela mas em volta é só capim

E a perereca cantando assim

E a perereca cantando assim

Eu tava ali curtindo de canoa

E vi um sapo-boi, o rei das minas da lagoa

Um bicho doido de olho estufado com o peito inchado

Como todo peixe que voa e partiu para a conquista

Dando uma de surfista e com ela deu de vista

E pediu cante pra mim

E a perereca cantou assim

E a perereca cantou assim

Olho no olho no meio do lago

Teve pouco papo sapo-boi (ih) e era gago

Aproveitaram o resto do dia rancando mosquito

E mergulhados n’água fria

Mas o sapo era fera

Numa pererepaquera

Se não fosse a rã já era

E a bronca foi ruim

E a pereça chorava assim

E a perereca cantando assim

De madrugada o sapo deu bandeira

De óculos ray-ban escorregou na ribanceira

Caiu de frente dos olhinhos dela

E já bateu pra ela

Sou atleta de primeira

Mas a noite era criança

Começou então a dança

Acordaram vizinhança

E a história teve fim

Com a perereca suspirando assim

Com a perereca suspirando assim…

E a mãezinha dela soluçava assim…

E o sapo gritava “até que enfim”…

E a galera toda fazia assim…

“Ó, é o seguinte, eles querem usar minha cuca, então, eu tô de cuca pronta e vô bate um papo… aí é o seguinte: a perereca é filha do sapo-boi com a sapa vaca, tá sabendo? A perereca é filha daquela que foi sem nunca ter sido… é isso aí…

Boto banca e eu fui pro brejo. Tem que facilitar, tem que colaborar… sempre pinta um sapo com a sua presença…

É… ond’é que eu tô, malandro? Que bandeira… Eu tô aqui na maior das inocências, malando… Qual que é? Qualé… eu entrei numa de morgar, tá sabendo? Entrei numa de morgar…”

*

Um Sérgio Amado ubriaco conta a alguém num bar como sua perereca, por assim dizer, foi dar nas graças de Caetano Veloso, aí no vídeo abaixo. Me fio que seja ele mesmo no vídeo, Amado. Não pude confrontar sua imagem na internet. O cara parece não existir na rede, um prodígio para um compositor, mesmo que bissexto, e invejável.

O citado Pedro Alexandre Sanches, numa época em que a crítica musical ainda era festejada, definiu Voa, voa perereca como “avacalhação brega/vulgar”, desse jeito!

— Que é isso, (naquela época) moço? — reajo duas décadas depois.

Afirmo que a cançoneta está mais para uma modinha provençal. Não há nada de vulgar nestas gravação.

Voa, voa perereca, posso afirmar, ganhou um registro transcult na voz de nosso menestrel e gênio da raça (parafraseando Tom Jobim sobre Chico Buarque) de Santo Amaro da Purificação, Caê de Canô, como dizemos em Minas.

É um primor de singeleza a última faixa do álbum Eu não peço desculpas, de Caetano Veloso e Jorge Mautner.

Ouçamo-la com atenção. É preciso figurar entrelinha e subtexto. Uma formação em desconstrucionismo  ajudará o audiófilo exegeta a navegar na densa construção da letra.  

Voa, voa perereca (Sergio Amado), com Caetano Veloso

Coitada da perereca dela

É tão bela, é tão bela

Coitado do meu passarinho

Tão sozinho, tão sozinho

Coitada da perereca dela

É tão bela, é tão bela

Coitado do meu passarinho

Tão sozinho, tão sozinho

A perereca quer voar

Voa, voa perereca

Mas não deixe aqui nesse cantinho

Tão sozinho, meu passarinho

*

Anda, Luzia, vem pro carnaval

Meu irmão mais velho era o que mais gostava de música na família, o mais afinado. Tinha seus discos e cantarolava coisas que trazia de uma época ainda, então, remota demais para um caçula, deus me perdoe, “baby boomer”.

Escrevi sobre Antonico, de Ismael Silva, que ele me ensinou.

Hoje ele me lembrou Anda, Luzia, breve e deliciosa composição de Braguinha (ou João de Barro, aliás, Carlos Alberto Ferreira Braga, 1907-2006)  lançada por Silvio Caldas em 1946.

Algo do patrimônio que carrego vem deste irmão.

Como tudo que importa, uma melodia se prende nas teias neuronais, e isso é o que somos ou nos tornamos.

Elegi essa bonita versão de Toquinho, do álbum Toquinho, la chitarra e gli amici (Diario e Ricordi 1982-1983).

Esse disco inteiro, aliás, é um breve master class de música popular brasileira. Toquinho vai de Ernesto Nazaré a Paulinho da Viola para mostrar o choro; ensina como se tocava samba antes e depois de João Gilberto; aponta suas influências, a começar de Tom Jobim; lembra Jorge Benjor e Chico Buarque, primeiros parceiros; destaca a arte do percussionista Papete (José Ribamar Viana, 1947-2006) e, claro, se detém em Vinicius, de quem foi, além de amigo, ele diz no disco, pai e filho, avô e neto.

Mas o que sempre aprendemos com Toquinho é que seu violão nada tem da modéstia e sobriedade de sua figura como artista. A sonoridade que produz nesse instrumento é tão própria quanto seu olhar, seus cabelos longos ou sua dicção. Nunca o citam para ilustrar a grande inventividade da escola do violão brasileiro — nesse disco, por sinal, ele toca uma valsa de Dilermando Reis. Uma injustiça.

Anda, Luzia – Braguinha

Anda, Luzia

Pega um pandeiro e vem pro carnaval

Anda, Luzia

Que essa tristeza te faz muito mal

Apronta a tua fantasia

Alegra o teu olhar profundo

Que a vida dura só um dia, Luzia

E não se leva nada deste mundo

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Que tal contribuir com a JU,
uma publicação coerente e independente?

Se você costuma ler este hebdô, uma publicação aberta e gratuita, permita que eu venda meu peixe: considere contribuir com 30, 40 ou 50 reais por mês — ou menos ou quanto puder na data que melhor lhe convier, a título, na falta de outro nome, de “assinatura espontânea”. Clicando aqui você verá como pode fazer isso.

Ah, por favor: se você colabora mensalmente, não se esqueça de aparecer! A JU não tem mecanismos digitais de fidelização, lembrança, muito menos de cobrança. Conta com a sua generosidade e boa memória. Muito obrigado!


 — clave | NOTAS PARA CELLO, RABECA, AGOGÔ E GANZÁ | clave —

“‘Estou radiante’, posta Ludmila”

O superlativo absoluto sintético Ilustríssima é autoexplicativo, mas hoje salienta uma pretensão manchada pela crise do jornalismo e a longa e mal resolvida migração dos veículos impressos para o ambiente online.

Mas a regressão do jornalismo cultural na era do caça-clique e do salve-se quem puder não livra ninguém. O Estadão decai e O Globo nunca foi muito dessas coisas. Há alguns anos o diário da família Marinho acabou com o Prosa & Verso, o caderno de sábado dedicado aos livros, sem olhar para trás. Hoje é o secos e molhados entre os jornais de circulação nacional que mais se orgulha da mixórdia descerebrada que serve ao assinante, ou seja, não sente culpa nenhuma, enquanto nos concorrentes detecta-se certa esquizofrenia entre o que foram e o que não conseguem se tornar.

*

Enquanto isso, naquele ex-caderno de ex-cultura o colunismo de rede social nos dá, diariamente, pequenas injeções de ânimo sobre o futuro do gênero. 

Ou o que dizer de um título como “Entenda por que somos obcecados por reality shows…”.

Nós, quem?!, caras-pálidas uspianas da Barão de Limeira?


Novos sócios no clube Homo

Detalhe de página online captura de tela do El País Brasil

A conversa sobre “raças humanas” é primitiva, como primitiva é a incapacidade de correspondermos, como seres humanos, à humanidade de um semelhante que se distinga pela cor ou o que seja. Muito desse mal a educação pode corrigir, quando não o bom berço. Mas  há um atraso, um gap imenso em relação ao conhecimento científico disponível e sua divulgação e apreensão pelas pessoas. Penso nisso ao ler uma excelente reportagem de Nuño Domínguez no El País Brasil sobre novos achados e reviravoltas nos estudos sobre a origem da raça humana, esta sim, única a existir no planeta. “As descobertas da última semana indicam que cerca de 200.000 anos atrás havia até oito espécies ou grupos humanos diferentes. Todos faziam parte do gênero Homo, que nos engloba”, explica. Somos, provavelmente, fruto da hibridização entre essas outras espécies humanas “com as quais, não muito tempo atrás, compartilhamos planeta, sexo e filhos”. O “homem dragão” ou Homo longi encontrado na China é o sócio mais novo do clube do qual já fazem parte o Homo de Nesher Ramla, encontrado em Israel, os neandertais (com quem convivemos até outro dia no tempo evolutivo, há 40.000) e denisovanos, que tiveram seus habitats na Europa, os primeiros, e na Ásia, os últimos, e com quem nos embolamos em cavernas e campinas. Como se sabe disso? Rastreamento genético. E ainda: o Homo luzonensis, identificado em uma ilha das Filipinas, o “gabiru” (de metro e meio) Homo floresiensis, “homem das flores”, habitante de um território correspondente à Indonésia atual, o Homo erectus, o primeiro Homo viajante que saiu da África há cerca de dois milhões de anos, e ainda o Homo daliensis, fóssil também desenterrado na China. Questão fascinante é sabermos por que nós, sapiens, somos os únicos remanescentes do clube  Homo na Terra. A reportagem de Domínguez colhe as hipóteses de vários estudiosos.


Seu nome é Destruição

A Piauí do mês traz um substancioso artigo do filósofo político Renato Lessa, adaptação de uma conferência do autor na mais alta academia francesa, a École des Hautes Études en Sciences Sociales. Não vi  nada com mais profundidade e inspiração sobre a ruína provocada pelo “amigo da morte” – “expressão”, diz Lessa, “que é o substrato real da marca de fantasia ‘chefe de Estado’”. O texto tem uma chave-mestra: “A destruição se dá por atos e palavra”. Após um preâmbulo sobre o efeito semântico da palavra “podre”, Lessa compila uma espécie de inventário da ação dos “operadores da destruição” em diversos campos. Eles destroem a língua ao apodrecê-la, no seu exemplo, citando de nariz tapado um desses operadores que aludiu às colegas parlamentares como “portadoras de vagina” (devo citar o texto: “A expressão por ele usada é uma metonímia pobre, cuja emissão contém fortes elementos de infestação: desumanidade, misoginia, sexismo e brutalidade inaudita. Parece-me um terrível exemplo para que fique claro o alcance da palavra podre.”); destroem a vida, por retirar a mortandade do âmbito de direito público para o registro estritamente natural; e destroem “território e povos originários”, com a regressão à perspectiva colonial, da “preação de índios” e exploração da riqueza disponível não no país, mas num local, numa terra aberta ao, digo eu, empreendedorismo bandeirante conquistador.


Ocupação

A leitura de Lessa fez estourar na panela de pressão de meus miolos tão cansado uma metáfora que me pareceu bastante boa para o que vivemos: a ocupação. Estamos sob ocupação. Fomos invadidos. Instituições democráticas e a própria “dimensão tácita” (Lessa) da convivência humana foram usurpadas. Os colaboracionistas vão muito além de nossa Vichy simbólica e mental, o chaparral que é Brasília. Estão em toda parte. E temos uma resistência branda exercida pelos maquis do momento. No meio fica quem prefira normalizar o monstro, os oportunistas crentes de que, passada a infestação, tudo será como antes — uma gente também colaboracionista à sua maneira.

*

Sinto que qualquer coisa abaixo da desobediência civil é moralmente imprestável. Mas nesse pesadelo de que não despertamos nunca ainda não surgiu o primeiro justo, o resistente número 1 digno do nome.

Cartaz de propaganda do regime de Vichy. Acima, o retrato do Marechal Philippe Pétain e o lema “Travail, Famille, Patrie” (trabalho, família pátria) sobre machado de guerra  franco e uma representação da França rural e industrial, lançado em 1942

Resumo da opereta

Elio Gaspari escreve direto e claro, e quem abriu sua coluna nesse domingo (4) pode ler um fulgurante resumo da opereta vagabunda que não sai de cartaz no Bananão [ver Lessa, Ivan Pinheiro Themudo]: “A vacina com pixuleco de um dólar humilha um país onde já morreram mais de 500 mil pessoas e, entre os vivos, há 14,8 milhões de desempregados”, desenhou o jornalista e historiador. “Passados dois anos da promessa de uma ‘nova política’ com Jair Bolsonaro [a.k.a Valdete Vibrião Colérico, Kaveirão, Caveirão.155mm, Bostonaro], chegou-se a algo muito pior. Sabia-se que as tais ‘bancadas temáticas’ que dariam suporte ao governo eram uma fantasia, prima do nióbio, do grafeno e da cloroquina. Tudo acabou nas mãos do Centrão, reforçado pelo primarismo das milícias.”


Circo do mundo

Lead do artigo “Miracle Cures and Magnetic People. Brazil’s Fake News Is Utterly Bizarre” (as notícias falsas do Brasil são completamente bizarras), de Vanessa Barbara, colaboradora do New York Times, nesta segunda-feira (5)

A arte engajada cubana está no cárcere

Alô., Lula, alô Gleisi Hoffmann, alô Chico Buarque, alô Fernando Moraes, alô Boulos, alô você: o regime cubano, ora presidido por Miguel Díaz-Canel, continua a reprimir duramente a oposição e a impedir toda manifestação cultural dissidente. O caso mais recente é o do artista Hamlet Lavastida, de 38 anos, preso há duas semanas no presídio de Villa Maristsa. O lugar é um famoso centro de tortura, “onde todo mundo canta”, como se diz numa canção. Programava-se na feira de arte contemporânea Arco, em Madri, uma manifestação em solidariedade a Lavastida, emulando a performance que o próprio iria apresentar no evento aberto nesta semana. Desafiar a propaganda do regime é fatal na (segundo a franja mais radical da esquerda brasileira) Edência Ilha dos irmãos Castro. Rappers, pintores, videoartistas têm enfrentado o regime por meio de pósteres, grafitis, colagens e vídeos, narra reportagem do El País (atenção, desavisados, ou em coma pré-1989: não se trata de um periódico financiado pelo imperialismo ianque). Registraram-se dezenas de detenções nos últimos meses, conta o jornal espanhol. O regime ampliou a repressão a pessoas dissidentes e coletivos de artistas. A nova geração de criadores, diz ao El País a artista cubana Coco Fusco, professora em Nova York em contato com colegas perseguidos, domina as novas tecnologias, é viajada e mantém uma rede de contatos no exterior que confronta o “sonho da revolução convertido em produto de consumo e imagem”, como ela coloca. “Os serviços de segurança do Estado decidiram declarar guerra a todos que se queixam porque sabem que o país está em um momento politicamente vulnerável ”, disse Fusco.

Detalhe de página online do diário espanhol El País (8/7), às 11h05

*

Até mais ver, e obrigado pela leitura!


CLIQUE AQUI PARA ASSINAR A NEWSLETTER DA JURUPOCA.


— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin assim de nada da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —

Um comentário sobre “Cringes, bagatelas & pererecas

  1. Sugiro uma nova categoria interseccional: a daqueles que são discriminados por seus nomes próprios. Dei-me ao trabalho de procurar o nome do jornalista responsável pelo artigo sobre o manual da persona digital. Talita Duvanel. Apropriado.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s