JU_80 | Carrancas fardadas me acertam na cabeça

O Esquadrão da Morte — sugere Darcy Ribeiro — nasceu ou foi “instituído” em 1964. Hoje tem upgrade miliciano e ampara ameaças camufladas em “notas conjuntas” de militares


Jurupoca_80 – 16 a 22/7 de 2021
 Hebdomadário de cultura, ideias
e  alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto: Antonio Henrique Amaral: Brasiliana 9, 1969 | Museu de Arte Contemporânea MAC USP 


A inspiração

Não creio na inspiração

essa bruxa radiosa

que sopra a canção

e te faz alegre ou triste.

Mas que ela existe, existe!

Ledo Ivo: A inspiração, de Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004. Via Acontecimentos, blog de Antonio Cicero.

Acervo do jornal O Estado de S.Paulo (reprodução)

Opa, vamos apear. Ora, vamos!

Não vai ter golpe. Na América Latina nunca se sabe, mas, dei gratia, ainda não dispomos de um túnel do tempo, dispositivo que acalmaria os corações assombrados dos saudosos dos tanques nas ruas, do AI-5, saudosos especialmente dos porões da tortura.  

As vivandeiras alvoroçadas que ainda vão aos bivaques bulir com os granadeiros [ver Castello Branco, Humberto de Alencar] parecem voar em vassouras.

A Guerra Fria é passado, donas de preto não saem em procissão a sojigar rosários em nossas fuças, e longe do Biden tocar outra Operação Brother Sam. O mundo, aliás, conspira contra viradas de mesas brucutus.

Isso não quer dizer que não seja uma porcaria assistir ao desfile de carrancas fardadas pelo Planalto Centrão a brandir cassetetes metafóricos contra nossas cabecinhas.  

No divertido Aos trancos e barrancos – Como o Brasil deu no que deu, a que sempre volto, Darcy Ribeiro batiza 1964 de “Ano Animal”. O capítulo do livro dedicado à “revolução gorila” começa por alinhar a proclamação da ditadura, num significativo 1º de abril, ao surgimento do Esquadrão da Morte.

Num só parágrafo, Darcy põe o bandido Cara de Cavalo (Manoel Moreira, chapa do artista plástico Hélio Oiticica) no mapa astral do país em conjunção com o general mineiro Olímpio Mourão Filho, que se definira como “vaca fardada” (“Em matéria de política, não entendo nada. Sou uma vaca fardada.”).

Cara de Cavalo metera-se num fuá em Vila Isabel com o policial Milton Le Cocq, matando o comandante do Esquadrão Motorizado. Em resposta, o marginal é trucidado por colegas de Le Cocq, denominados “homens de ouro”. “Assim, o que era uma ‘escuderia’ de militares começou a se converter no Esquadrão da Morte”, assinala Darcy.

A ideia do Esquadrão da Morte, que sobrevive com o upgrade miliciano e na prestação de serviços públicos, parece excitar a sexualidade distorcida de muitos vigilantes, herdeiros espirituais do governo militar e de seu imaginário de ordem, progresso, honorabilidade e tal — com Deus, coitado, acima de tudo, Deus que santifica a matança de pobres (“tudo bandido”) excluídos do tal Estado de Direito democrático.

Deficiências cognitivas levam uma franja adoradora da ditadura a idealizar o extermínio de foras da lei como receita para a paz social — sob as bênçãos de Deus, por certo, Senhor que agora abençoa a candidatura de um pastorzinho mequetrefe ao STF.

Cinquenta e sete anos e uma “Constituição cidadã” depois, o Ministério da Defesa e os chefes das três Forças soltaram uma nota fedorenta contra o presidente da CPI.

Se queimaram com a alusão a um “lado podre das Forças Armadas”; de quebra, o textinho ameaçava a todos os democratas, a todos nós que esconjuramos décadas de arbítrio e brutalidade e, como na canção do Chico, nem podemos ouvir clarim.

O chefe das Forças Armadas e sua família nunca esconderam sua simpatia pela organização miliciana que governa boa parte do Rio de Janeiro, portanto pela instituição do Esquadrão da Morte. A família, como todo mundo sabe, sonha com a formação de milícias entre policiais militares e bombeiros — rota venezuelana alternativa para a implosão da democracia.

Pois a nota conjunta milica dizia que “as Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro”.

Sei.

A ideia que fazem da “democracia e da liberdade” é do arco da velha.

Os militares se dão uma importância histórica lastreada apenas na força de suas armas e no monopólio da violência. Estão entre os grandes responsáveis por nosso atraso civilizacional.

A quartelada de 1889, a que o povo assistiu “bestializado” [ver nota Bestializados e bilontras na JU#76], desencadearia nas décadas seguintes uma constante movimentação golpista de comandos que se julgavam salvadores da roça.

Cento e trinta e dois anos depois não nos livramos do fantasma autoritário, da perversa regressão que desencanta quem passou por poucas e boas desde a redemocratização.

Ameaças de quarteladas ainda empesteiam o ar e pronunciamentos brucutus cortam como faca cega o tecido malformado da democracia brasileira.

Fernando Gabeira diz que somos um país seduzido por “retropias”. “Há sempre um passado idílico para o qual se quer voltar”, escreveu na coluna “Sem medo de militares”. Acredita que “aos poucos, vamos aprender a dizer ‘nunca mais’ para regimes autoritários no Brasil”.

Sim, Gabeira, aos poucos, devagar, devagarinho, aos soluços.

 *

Gravado no Boteco Telemático

— O Brasil não é para principiantes, dizia Tom Jobim.

— Apois. E a América Latina é para literatos.

— Como assim?

— A democracia aspira ao realismo mágico.

*

— Outra coisa: nossas instituições têm os institucionais que merecem. Viu o Fux convidar Valdete para um cafezinho e na saída arrotar que cumpria um “papel constitucional”?

— É. Acho que o presidente não estava bem de saúde. Que Valdete?

— Sua excrescência Valdete Vibrião Colérico, vulgo Kaveirão, aliás ca-ca-ca-, desculpa, Caveirão.155 mm — 155 mm sendo o calibre de um bala de canhão.

— Muito prazer. Mas cê perdeu o Magnoli. Ele deu nome ao troço na Globonews: conluio. Desafiou os institucionais a apontar o artigo da Constituição que estabelece o conluio como arranjo democrático.

— História velha e vetusta como nosso pendor patrimonialista para apaziguar a Casa Grande.

— Gostei do que você disse aqui outro dia sobre a figura ímpar do “desentupidor de toga”, institucional que sempre dará um jeito de vestir a selvageria com o disfarce do Estado de Direito, não importa quantas, no dizer de Marco Aurélio Mello, quantas “idas e vindas” sejam necessárias para desobstruir o fluxo e deixar tudo funcionando direitinho.

— Obrigado. Mas não é? Quando declamam que “as instituições estão funcionando”, confetes e serpentinas chovem no baile do Planalto Centrão. Para enxergar melhor a narrativa, só tomando um porre de LSD com MDMA, psilocibina e Crush.  

— É a marcha-rancho psicodélica do Planalto Centrão.

— Saideira?

— Claro.

*

E o bilionário Branson. Por Santa Margarida dos Feijões Contados! Depois de torrar US$1 bilhão, o herói finalmente pôde dar seu  pulinho no espaço.

Saiu na frente do concorrente Jeff Bezos na jornada às estrelas. Bezos, que deixou o comando da Amazon para tocar a empresa aeronáutica Blue Origin, também deve subir aos céus ainda este mês.  

*

Ah, a profunda náusea do tédio do mundo. Contra a dispepsia espiritual, tomo umas gotas milagrosas de W.H. Auden:

Moon landing (agosto de 1969) – (primeiros versos)

It’s natural the Boys should whoop it up for

so huge a phallic triumph, an adventure

it would not have occurred to women

to think worth while, made possible only

because we like huddling in gangs and knowing

the exact time: yes, our sex may in fairness

        hurrah the deed, although the motives

        that primed it were somewhat less than menschlich.

Descida na lua

É natural que os Rapazes gritassem oba-oba a

tão enorme triunfo fálico, aventura

    que a mulheres jamais teria acontecido

    achar valesse a pena, foi possível só

porque gostamos de juntar-nos em bandos e sabendo

a hora exata: sim, o nosso sexo pode com justiça,

    gritar hurra pelo feito, muito embora seus motivos

    fossem pouco menos do que menschlich.

Tradução José Paulo Paes: W.H. Auden – Poemas, Companhia das Letras, 1986, pág.  177.

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


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— clave | NOTAS PARA FLAUTA DOCE | clave —

Thriller polonês

O suspense policial Rojst (em inglês The mire, a lama, como devia ser chamado em português, talvez a variação “o pântano”) é uma produção polonesa de baixo orçamento. Mas a sólida cultura audiovisual do país, o preparo técnico da equipe de produção e o elenco se distinguem. a segunda temporada se perde um pouco em subtramas novelescas, mimos ao gosto médio do público. Ainda assim é um bom passatempo. A lama do título revela crimes precariamente investigados por policiais e repórteres de um jornal decadente. Por outra perspectiva, é a intrincada história do país que ameaça se revelar no pântano. Para a Polônia geografia é destino. Nazistas e soviéticos, vizinhos, fizeram dela terra arrasada. Principal polo do genocídio judeu (três milhões e vítimas), o país sofreu em seguida os horrores encomendados por Stálin, basta lembrar Katyn. Indiretamente, esse passado é o subtexto de Rojst. A série começa com a aparição de cadáveres na floresta próxima à pequena cidade ficcional do oeste da Polônia, onde também se sepultou um desses episódios sombrios da Segunda Guerra. Essa história envolve o passado de um jornalista da Gazeta da Noite em final de carreira. A primeira temporada corre no começo dos anos 1980. A Polônia ainda é um satélite de Moscou desconfigurado por desmandos comunistas. Vemos isso na escala reduzida das instituições públicas do lugarejo. Na segunda temporada, os mesmos personagens ressurgem envelhecidos em 1997, ao lado de alguns novos e decisivos para a resolução da nova trama. A abertura da economia, quase dez anos depois do derretimento da União Soviética, cevou os piores vícios do capitalismo, conservando tendências autoritárias e feudos bilionários de amigos do rei. Como sabemos, as coisas não melhoraram muito desde 97 [veja a nota “Desespero cultural” e o ressentimento das massas na JU# 71]. Ao lado da Hungria, a Polônia é hoje um dos principais redutos europeus do populismo autoritário de direita.

O ator polonês Andrzej Seweryn como jornalista Witold Wanycz na série Rojst’97

Marianne e Leonard

Há documentário à pampa nas famosas plataformas streaming. Imagino que os custos das produções, em geral mais baixos, expliquem a inundação do gênero. Pouca coisa presta. Um ou outro trabalho ainda justifica o formato, por certo, da concepção à realização. É o caso deste Marianne e Leonard: Palavras de amor (Netflix), do diretor britânico Nick Broomfield. Contar o relacionamento do poeta, cantor e compositor canadense Leonard Cohen (1934-2016) com a norueguesa Marianne Ihlen (1935-2016), elevada à condição de musa maior entre a plêiade de mulheres do artista, não é café pequeno. Envolve um personagem complexo, uma temporalidade culturalmente revolucionária e seus refluxos nas décadas seguintes. Mas a pretensão de Broomfield corresponde à estatura do cineasta. As biografias de Cohen e Marianne são narradas com admiração e sinceridade, mas sem concessão ao oba-oba. O amor entre os dois é uma história cheia de fraturas, marcada por profundas diferenças de berço. Cohen, filho de judeus abastados e cultos, bem estabelecidos no Canadá; Mariane, uma norueguesa de classe média sem maiores talentos, ou mesmo formação profissional, vinda de um casamento precoce e mãe de um menino; quando já havia caído no mundo, sua família esperava que ela se fixasse em Oslo, empregada como secretária ou recepcionista e pudesse levar uma vida estável para criar seu primeiro filho. O documentário mostra como Cohen aproveitava criativamente aquele tempo de drogas, amor livre e grande disponibilidade sexual. Marianne também vai na onda, mas não conta com o talento, o repertório e os recursos de um ídolo cult para remar contra a corrente. É o lado fraco. Broomfield salienta o saldo amargo da festa móvel [ver Hemingway, Ernest] contracultural na vida de filhos semiabandonados ou tangidos de lá para cá. O documentário é luzidio sobre a trajetória de Cohen, desde seu medo pânico do palco na juventude à consagração como astro consagrado; desde a reviravolta como monge budista por largos anos e seu empobrecimento depois de ser roubado por uma empresária de longa data e, nos últimos anos, a volta por cima, mas já perto do fim. A grande beleza do filme é conseguir sustentar a ideia de um elo entre os amantes a perdurar até a morte de ambos com apenas três meses de diferença. O ritmo da narrativa é adequado, o depoimento de amigos, amantes e maridos são mais que valiosos. Mas Broomfield não podia fazer a costura que fez na montagem sem a riqueza do acervo de imagens que levantou, a começar das cenas de Marianne e Leonard em Hydra, a paradisíaca e ainda primitiva ilha grega onde se conhecem, no início dos anos 1960.

*

Cohen tributou à amada a inspiração de canções tão lindas quando esta Birds on the wire. Ouçamo-la.

Birds on the wire – Leonard Cohen

Like a bird on the wire

Like a drunk in a midnight choir

I have tried in my way to be free

Like a worm on a hook

Like a knight from some old fashioned book

I have saved all my ribbons for thee

If I, if I have been unkind

I hope that you can just let it go by

If I, if I have been untrue

I hope you know it was never to you

Like a baby, stillborn

Like a beast with his horn

I have torn everyone who reached out for me

But I swear by this song

And by all that I have done wrong

I will make it all up to thee

I saw a beggar leaning on his wooden crutch

He said to me, “You must not ask for so much.”

And a pretty woman leaning in her darkened door

She cried to me, “Hey, why not ask for more?”

Oh like a bird on the wire

Like a drunk in a midnight choir

I have tried in my way to be free


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“Narrativas”

Trecho da entrevista do professor da USP Eugênio Bucci a Renata Lo Prete no podcast O Assunto #492 desta segunda-feira (12/7):

“[…] Se nós dermos um salto no tempo e chegarmos ao final do século 20, nós vamos ver que os ideólogos perderam o emprego. Eles não têm mais vez. Não é pelas ideias, não é pelos modelos racionais que os partidos se distinguem uns dos outros. E também não é por aí que eles vão disputar corações e mentes. Quem cresceu na constelação interna dos partidos é essa figura […], o marqueteiro. Saiu o ideólogo e entrou o marqueteiro; saem as ideias, sai a razão, sai de cena a análise dos fatos e entra o apelo publicitário e outras técnicas de marketing que se dirigem às sensações, se dirigem às emoções do eleitor. E aí a palavra narrativa ganha uma força relativamente recente. A narrativa é a historinha que vai ser contada para o eleitor ou para outros setores da sociedade. E uma historinha que será capaz de fazer com que cada um se sinta personagem daquilo, e que será capaz também de fazer com que os candidatos do partido pareçam mocinhos, pareçam heróis, pareçam pessoas movidas por sentimentos bons e edificantes…”.

*

Bucci tem um novo livro nas vendas, A superindústria do imaginário. O que alguém treinado a pensar e ensinar nos possa dizer vale outro numa época de desvalorização dos fatos! e barateamento da noção de democracia. Bucci vê uma “discurseira vazia e histérica em torno das narrativas” no teatro nacional da CPI da covid. Para o professor [ver, na JU#11, comentário sobre o livro Existe democracia sem verdade factual? ] os discursos cretinos contra o jornalismo e os jornalistas partem de quem não tem “capacidade cognitiva de apreender o valor dos fatos e a natureza dos fatos”. Para essa gente, ele diz na conversa com Lo Prete, não há muita diferença entre a política e a disputa entre claques de auditórios de um programa de televisão. A selvageria [tema da edição de número 64 da JU] acaba por triunfar nessa orgia circense e desagregadora da razão e do arranjo social civilizado em torno dos fatos.


Se Belchior vivo fosse…

Não canso de me surpreender com as novidades dispostas na venda de secos e molhados na qual se transformou aquele ex-caderno de ex-cultura. Me desculpe o leitor por bater tanto nessa tecla, mas leio a Folha todos os dias, respeito o jornal, devo ao jornal seus bons serviços, mas não posso evitar. E sou sincero.

Claro, se estivesse vivo, Belchior teria reaparecido em público, retomado sua carreira, pago suas dívidas, feito as pazes com a família e lançado um novo disco com belas canções sobre seus anos de fuga e ostracismo.

Não tenho a menor ideia de quem é tal heroína, de onde ela vem e o que faz para entreter seus fãs. Mas todo mundo já sabe qual é o segredo dos ricos. Aliás, a “elite branca e alienada” é pura batata frita, meu senhor, minha senhora.


Magnoli e Coelho: visões da burrice

“[…] As ruas também não são o que parecem. Sob a direção de partidos e movimentos que orbitam ao redor do lulismo, as manifestações antibolsonaristas são esculpidas de forma a evitar a unidade”, anotou Demétrio Magnoli. “É por esse motivo que, ao lado da bandeira do impeachment, os organizadores erguem estandartes contra a ‘política neoliberal’ e as privatizações”. Magnoli é um liberal democrata, simpático, creio, à socialdemocracia. E Marcelo Coelho, colunista da Folha com ficha impecável chancelada pela esquerda uspiana não alucinada, escreveu: “É preciso ter muita burrice política […] para reclamar do apoio tucano às manifestações pelo impeachment de Bolsonaro. E é preciso ser pior que um bolsominion para fazer como alguns militantes do PCO, que no domingo passado partiram para a agressão contra quem também estava contra Bolsonaro na avenida Paulista”, mandou quartafeira passada (6/7).


RÁDIO SIUTÔNIO

A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta
Afinal, toca exclusivamente o que gosta
E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos
A ouvir um acorde dos novos sertanejos
Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque
A aturar um segundo de pancadão pornofunk
Mas se ainda assim foi bom pra você, ouvinte irmão,
Seja muito bem-vindo à nossa programação

*

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Lábios que beijei, 3 versões

A valsa Lábios que beijei, de J. Cascata (Álvaro Nunes, Rio de Janeiro, 1912-1961) e Leonardo Azevedo (Rio de Janeiro, 1908-1980) foi gravada linda e originalmente por Orlando Silva em 1937. E se tornou um dos maiores sucessos dos dois compositores e de Orlando. Clássico do cancioneiro popular, encanta grandes cantores e segue entre nós como uma dádiva. Se a idealização romântica da mulher etc. não cabe mais em nossa época, pior para nossa época. O português da lírica é atrozmente belo, a melodia faz pensar em urnas gregas, é isso que conta. Dá vontade de ouvir sem parar versos como “…. O mar na solidão bramia/ E o vento, a soluçar, pedia/ Que fosses sincera para mim… Sou a estátua perenal da dor… Tua imagem permanece imaculada/ Em minha retina cansada… Passo os dias soluçando com meu pinho/ Carpindo a minha dor sozinho”.

*

Seleciono três gravações entre as que mais admiro. É interessante notar como o arranjo da versão do português António Zambujo logra uma união ideal entre as sonoridades do fado e da nossa seresta, no seu colorido instrumental perfeitamente harmônico. Caetano a incluiu em Fina estampa ao vivo (1995), show de sua grande antologia da música latino-americana e um de seus melhores álbuns, auge de sua parceria com o violoncelista e arranjador Jaques Morelenbaum. E a de Mônica Salmaso, na versão ao vivo do CD Alma lírica (Biscoito Fino, 2011), acompanhada pelo pianista e maestro Nelson Ayres e do flautista Teco Cardoso, é prodigiosa em cada inflexão de seu canto. J. Cascata e Azevedo, tenho certeza, se veriam honrados.

Lábios que beijei – J. Cascata e Leonardo Azevedo

Lábios que eu beijei

Mãos que eu afaguei

Numa noite de luar assim

O mar na solidão bramia

E o vento, a soluçar, pedia

Que fosses sincera para mim

Nada tu ouviste

E logo que partiste

Para os braços de outro amor

Eu fiquei chorando

Minha mágoa cantando

Sou a estátua perenal da dor

Passo os dias soluçando com meu pinho

Carpindo a minha dor sozinho

Sem esperança de vê-la jamais

Deus, tem compaixão deste infeliz

Por que sofrer assim?

Compadecei-vos de meus ais

Tua imagem permanece imaculada

Em minha retina cansada

De chorar por teu amor

Lábios que beijei

Mãos que eu afaguei

Volta, dai lenitivo à minha dor

Tua imagem permanece imaculada

Em minha retina cansada

De chorar por teu amor

Lábios que beijei

Mãos que eu afaguei

Volta, dai lenitivo à minha dor

*

Zambujo e Gal no Dia de Camões

Canções bonitas são se prendem ao tempo, a modas, senão à liberdade de criar e ensejar o belo. Este mini-concerto de António Zambujo com a participação de Gal Costa, na rede desde sábado (10/7), nos propõe um passeio por alguma essência que nos aguarda, esteja à mão ou recôndita. Zambujo me parece hoje um dos melhores do mundo na arte soberana de voz e violão. Temos Gal em Modinha para Gabriela, de Dorival Caymmi. Sua participação parece não ter sido bem ensaiada e está mal-arranjada. Não importa. Atravessamos 20 minutos num suspiro. A iniciativa luso-brasileira celebrou o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

*

Até mais ver, e obrigado pela leitura!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin assim de nada da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —


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