JU_81|Lira e o aquecimento global no Planalto Centrão

Essa é boa. Um lambuzado pelo “presidencialismo de coalizão” — a ponto de aboiar a maioria que sustenta o Curral Lunático — se preocupar com as engrenagens disfuncionais do regime. O presidente da Câmara dos Deputados é um monumento no Planalto Centrão, um césar!, aliás, Arthur César Pereira de Lira. Ave, Lira!


Jurupoca_81 – 23 a 29/7 de 2021
 Hebdomadário de cultura, ideias e
 alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto: (detalhe) Francisco de Goya y Lucientes de: (detalhe) Saturno devorando a seu filho Copyright ©Museo Nacional del Prado


Pero Vaz de Caminha
a descoberta
Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra

os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados

primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real

as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha

Oswald de Andrade: Paul Brasil, 1921. Obras completas 7, Civilização Brasileira, 1974, p. 80

“Com Ciro Nogueira, Bolsonaro entrega orçamento  secreto e seu futuro político ao Centrão”

Reportagem de Malu Gaspar em O Globo, nesta quinta-feira (22)

“[…] Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma. […]

E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro—o que d’Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, 1º dia de maio de 1500.”

Trechos da “Carta” de Pero Vaz Caminha, enviada ao rei D. Manuel I (1469-1521) para comunicar ao soberano o Descobrimento, datada 1º de maio de 1500

“Quando Pero Vaz de Caminha descobriu que as terras brasileiras eram férteis e verdejantes, escreveu uma carta ao rei: tudo o que nela se planta, tudo cresce e floresce… e o Gauss da época gravou!”

Narrativa que introduz Tropicália, de Caetano Veloso, na voz do baterista Dirceu. Gauss é Rogério Gauss, operador da mesa de som, no estúdio onde a canção era gravada, em 1967

“Arthur Lira cria ‘sistema de castas’ para distribuir R$ 11 bilhões em emendas a deputados”

Título da reportagem de Malu Gaspar publicada em O Globo nesta terça-feira (20/7)

“Por aqui, o mais vistoso e simbólico procedimento para a responsabilização jurídico-política contra o arbítrio de uma alta autoridade nacional, o impeachment presidencial, foi entregue ao arbítrio caprichoso de uma outra autoridade – o presidente da Câmara dos Deputados. Qual é o fundamento legal para esse poder absoluto que Arthur Lira (PP-AL) julga ter, para decidir sozinho se e quando as acusações pendentes contra Jair Bolsonaro poderão ser apreciadas pelas instituições competentes para avaliá-las?”

Do artigo Controlando o tempo do impeachment, dos professores de Direito da USP Rafael Mafei e Virgílio Afonso da Silva, publicado no site da Piauí.

A farinha é feita de uma planta/ Da família das euforbiáceas, euforbiáceas […] Você não sabe o que é farinha boa/ Farinha é a que a mãe me manda lá de Alagoas”

Djavan: Farinha

Opa, vamos apear. Ora, vamos!

Ave, Lira!

Quando vejo o presidente da Câmara dos Deputados em ação, comprovo o aquecimento global. Não tenho mais dúvida. Sua figura é a revelação de um glaciar alagoano, a revivência de uma criatura ancestral, um fóssil vivo!, como um mamute que acordasse aos pulos depois de atravessar séculos no gelo. Se a metáfora climática não lhe parece justa, pense na gelada em que nos metemos, patrícios, sub-raça de ovelhinhas tosquiadas pelo Planalto Centrão desde Cabral, quando nem havia Centrão nem Planalto Central nem nada.

Mas o Lira [Arthur César Pereira de], hein?

Ave, Lira!

Que apetite!

— Lembra o Saturno de Goya.

Que desenvoltura!

— Faz e anda para a repercussão negativa de seu absolutismo na imprensa. Dá um banho na imprensa.

Quanta ousadia!

Cuidado com a carteira, turista sonso!

— Não faltam pickpockets no Plantado Centrão.

Olha a conta! Noves fora,

Fundão, 5,7 bilhões + “orçamento secreto” [trator, muito trator para semear oportunidades], 11 bilhões + parlamentarismo “semipresidencialista [essa é boa! Um lambuzado pelo “presidencialismo de coalizão” — a ponto de aboiar a maioria que sustenta o Curral Lunático — agora se preocupa com as engrenagens disfuncionais do regime] + “distritão” e reforma eleitoral das mil e uma noites = PIG (Pedidos de Impeachment na Gaveta).

Um onipresente!

Ave, Lira!

Deviam mandar desinfetar (ou benzer) a cadeira — a curul, como ensinava Jânio Quadros — da Presidência da Câmara dos Deputados.

Nádegas tão patrióticas e excelentíssimas quanto as de Eduardo Cunha, Severino Cavalcanti e Inocêncio de Oliveira repousaram em seu estofo suas adiposidades republicanas. 

Aqui ainda não é Rádio Siutônio, mas a Jurupoca, comovida, precisa dedicar com muito amor e carinho três (três!) canções ao presidente da Câmara. Têm a ver com os Brasis  redescobertos. 

As duas primeiras recordam uma potência da imaginação, como nos víamos nos espelhos da arte, apesar de todos os pesares, ou como ainda era possível ser brasileiro e se consolar com a alta criação; a última, atualíssima, mostra o que sobrou: o adjetivo esdrúxulo em U.

Antes dos números musicais, vai de pinga poemeto irmanado com Pero Vaz/Oswald/Duchamp,

Ave, Lira!

Inaugura um monumento

no Planalto Centrão

Ave, Lira!

Tem suas vergonhas tão nuas

Com tanta inocência assim

Descobertas, que

Há nisso desvergonha nenhuma

Ave, Lira!

O monumento não tem porta

Ave, Lira!

O monumento é bem moderno,

Ave, Lira!

E nos jardins os urubus passeiam

A tarde inteira entre girassóis,

Ave, Lira!

Morituri te salutant.

Tropicália – Caetano Veloso (1967)

Sobre a cabeça, os aviões
Sob os meus pés, os caminhões
Aponta contra os chapadões
Meu nariz

Eu organizo o movimento
Eu oriento o Carnaval
Eu inauguro o monumento
No Planalto Central do país

Viva a Bossa, sa, sa
Viva a Palhoça, ça, ça, ça, ça
Viva a Bossa, sa, as
Viva a Palhoça, ça, ça, ça, ça

O monumento
É de papel crepom e prata
Os olhos verdes da mulata
A cabeleira esconde
Atrás da verde mata
O luar do sertão

O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga
Estreita e torta
E no joelho uma criança
Sorridente, feia e morta
Estende a mão

Viva a mata, tá, tá
Viva a mulata, tá, tá, tá, tá
Viva a mata, tá, tá
Viva a mulata, tá, tá, tá, tá

No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa e fala nordestina
E faróis

Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E no jardim os urubus passeiam
A tarde inteira entre os girassóis

Viva Maria, ia, ia
Viva a Bahia, ia, ia, ia, ia
Viva Maria, ia, ia
Viva a Bahia, ia, ia, ia, ia

No pulso esquerdo o bang-bang
Em suas veias corre
Muito pouco sangue
Mas seu coração
Balança um samba de tamborim

Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhores
Ele põe os olhos grandes
Sobre mim

Viva Iracema, ma, ma
Viva Ipanema, ma, ma, ma, ma
Viva Iracema, ma, ma
Viva Ipanema, ma, ma, ma, ma

Domingo é o fino-da-bossa
Segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça
Porém

O monumento é bem moderno
Não disse nada do modelo
Do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno, meu bem
Que tudo mais vá pro inferno, meu bem

Viva a banda, da, da
Carmem Miranda, da, da, da, da
Viva a banda, da, da
Carmem Miranda, da, da, da, da
Cavalo ferro – Raimundo Fagner e Ricardo Bezerra (1972)
Montado num cavalo ferro
Vivi campos verdes
Me enterro em terras trópico-americanas
Trópico-americanas
 
E no meio de tudo
Num lugar ainda mudo
Completo ferro, surdo e cego
Por dentro desse velho, desse velho,
Desse velho mundo

Pulsando num segundo letal
No Planalto Central
Onde se divide, se divide, se divide
O bem e o mal, mal, mal, mal

Vou achar o meu caminho de volta
Pode ser certo pode ser direto
Caminho certo sem perigo, sem perigo, sem perigo, 
Sem perigo fatal
O cu do mundo – Caetano Veloso (1991)

O furto, o estupro, o rapto pútrido
O fétido sequestro
O adjetivo esdrúxulo em U
Onde o cujo faz a curva
(O cu do mundo, esse nosso sítio)

O crime estúpido, o criminoso só
Substantivo, comum
O fruto espúrio reluz
À subsombra desumana dos linchadores

A mais triste nação
Na época mais podre
Compõe-se de possíveis
Grupos de linchadores

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


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— clave | NOTAS PARA TAMBORIM | clave —

Liberdade e potência

O filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi, farol da esquerda mundial ainda pensante, em uma fina entrevista à Revista Ñ, do argentino Clarín, diz que direita e esquerda trocaram de papéis. Enquanto o populismo fascistoide de direita nasce de uma “rebeldia sem conteúdo” dos destituídos e deserdados do capitalismo tecnológico, elegendo Trump para começar, a esquerda se tornou puritana: “Isto se funda sobre uma vergonha da esquerda frente ao conceito de liberdade, como se fosse um valor absoluto. Por outro lado, desencadeia a reivindicação de um individualismo agressivo que é essencialmente resultado da impotência contemporânea”. Bifo puxa a orelha da esquerda pelo abandono da crença no coletivo, na organização social. Não se pode desvincular a ideia de liberdade da potência, e a potência, para o bom marxista, vinha do velho clamor aos explorados pelo capital: “trabalhadores, uni-vos etc.”. Além disso, é punheta e romantismo.

*

“Sabemos que quanto mais intensa e veloz é a comunicação, mais caótica se faz nossa capacidade de elaboração intelectual e emocional”, diz Bifo pelas tantas, e logo: “Eu explico o fascismo contemporâneo, quer dizer, o trumpismo, como essa incapacidade de manejar conjuntamente a aceleração da infosfera e a elaboração consciente”.


Francisco de Goya y Lucientes,: Murió la Verdad (Morreu a verdade) Copyright de la imagen ©Museo Nacional del Prado

A moda da ignorância

Comecei a ler a coletânea de ensaios Tempestade perfeita – Sete visões da crise do jornalismo profissional (História Real, 2021), escritas por jornalistas brasileiros como Pedro Bial e Merval Pereira. Larguei de lado, achei muito chato, muito tatibitate. Mas sou grato a Roberto Feith, autor da apresentação, por citar A morte da verdade – Notas sobre a mentira na era Trump (Intrínseca, 2018), de Michiko Kakutani, que logo baixei e leio com muito mais proveito. Kakutani é uma “velha conhecida”. Editor de cultura de O Tempo, passei vários de seus textos para Simone Mordente traduzir para o Magazine. Por quase 40 anos, Kakutani foi uma prestigiadíssima crítica de literatura do New York Times, e faturou um Pulitzer. Topei com a gravura de Goya que ilustra esta nota na abertura de seu livro. A morte da verdade, nêmesis de Goya, também é o mote aqui. Um vasto repertório intelectual embasa sua investigação do envenenamento do “domínio da razão”: Por que a crença — ela escreve, recorrendo ao austríaco Stefan Zweig — na ciência, o humanismo, o progresso e a liberdade, pode dar lugar a “seu oposto, o terror e a emoção das massas?” O desprezo pela base consensual dos fatos e a busca da verdade não começaram com Trump ou com o Vibrião Colérico. “O relativismo está em ascensão desde o início das guerras culturais, na década de 1960”, diz a autora. “Naquela época, a desrazão foi abraçada pela Nova Esquerda bem-intencionada, ansiosa para expor os preconceitos do pensamento ocidental, burguês e primordialmente masculino; e por acadêmicos que pregavam o evangelho do Pós-modernismo, que argumentava que não existem verdades universais, apenas pequenas verdades pessoais — percepções moldadas pelas forças sociais e culturais de um indivíduo”, reconta. Uma corrente deletéria e abstrusa do pós-modernismo conseguiu “demonstrar” a muitos crédulos na academia que até a ciência não passava de uma forma de narrativa ou ficção. O “desconstrucionismo” de Derrida deu nó em pingo d’água, por meio de uma prosa empolada e obscura, para impor a subjetividade e a impossibilidade de entendimento objetivo em qualquer texto ou leitura, ainda que uma bula de remédio. Este foi o caldo primordial onde negacionistas e antivacinistas, a “direita alternativa” nos EUA ou a extrema direita bananeira foram beber, ainda que não saibam disso. A irracionalidade que inspirou os “fatos alternativos” é uma espécie de neta da contracultura, argumenta Kakutani. Então veio a internet e a maluquice se expande vertiginosamente nas redes, ganhando novas táticas de falseamento e barateamento da verdade. Kakutani cita um livro de 2007 de Andrew Keen, “empreendedor do Vale do Silício”, para quem a internet, “além de democratizar a informação de maneira insonhada pela humanidade, incorporava e promovia ‘sabedoria das multidões’ sobre o conhecimento estabelecido e empírico, “nublando perigosamente os limites entre fato e opinião, entre argumentação embasada e bravata especulativa”. Parafraseando Kakutani, ignorância está na moda e dificilmente vai sair.

*

Kakutani cita esta passagem de Hannah Arendt em Origens do totalitarismo, já referida pela JU, mas vale a pena ler de novo:

“O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento).”


A ditadura Ortega não larga o osso

Em maio, Daniel Ortega, ditador de fato da Nicarágua nos seus 75 anos, que tem por vice-ditadora a mulher, Rosario Murillo, mandou prender mais um. “Desde princípios de junho mais de vinte cabeças visíveis da oposição, possíveis candidatos das eleições presidenciais de novembro de 2021, ativistas de direitos humanos, heróis da luta contra Somoza e jornalistas foram presos sob acusação de ‘favorecer a ingerência estrangeira’”, relata o sociólogo Gilles Bataillon no Letras Libres. A repressão do tirano custou recentemente a vida de 300 pessoas em protestos, além de milhares de detidos, sistematicamente torturados em calabouços. Com uma população de 6,46 milhões de habitantes, a Nicarágua tem 150 mil exilados. No El País, Almudena Grandes conta que, em uma de suas frequentes viagens à Nicarágua, soube diretamente pelo padre poeta sandinista Ernesto Gardenal, morto no ano passado, que seu acesso à internet fora cortado a mando do governo. O padrão dos tiranetes é conhecido: ódio à imprensa, repressão e uma retórica vomitória contra o inimigo estrangeiro ou o “imigo do povo”. Ortega, velho ícone da esquerda latino-americana, tem resistido como pode a pressões de dentro de fora de sua triste e miserável republiqueta. Prende e arrebenta e não larga o osso. Tem muitos admiradores no Bananão. 


A festa no céu de Jeff Bezos

Os jornais brasileiros, por sinal também o espanhol El País, deram mais destaque à “façanha” de Jeff Bezos que os grandes jornais dos EUA. Washington Post e New York Times noticiaram com discrição e sem oba-oba, e olha que Bezos é dono do Post. Como antecipou este jornal (que tal?), Bezos foi passear no espaço apenas alguns dias depois de seu rival bilionário Richard Branson. Tudo na base dos bilhões, queimados como o combustível do foguete espacial. O foguete de Bezos, aliás, é um foguetalho, uma trozoba assustadora, um horror de desenho. Branson proclamou que vai abrir o universo para a humanidade e mudar o mundo para sempre. Só isso! Claro, no futuro todos nós entraremos na fila para dar um pulinho fora da atmosfera e postar umas fotos no Instagram. Nem será preciso ter um ou dois bilhões de dólares para comprar o bilhete.


Eu teletrabalho, tu…

Sou pelo verbo teletrabalhar, desde o substantivo teletrabalho. Os espanhóis já o vão incorporando, teletrabajar, no caso. Teletrabalhar tem raízes sãs no idioma e é muito mais simpático que monstruosidades anglófilas tipo “startar” e “inicializar” (derivado de initialize).


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[RÁDIO SIUTÔNIO]

A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta/ Afinal, toca exclusivamente o que gosta/ E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos/ A ouvir um acorde dos novos sertanejos/ Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque/ A aturar um segundo de pancadão pornofunk/ Mas se ainda assim foi bom pra você, ouvinte irmão,/Seja muito bem-vindo à nossa programação

Volto, como prometi na cartinha passada (na Tiny, para assinantes; você também pode assinar clicando aqui), ao álbum A Música em Pessoa (LP da Som Livre de 1985 | CD da Biscoito Fino de 2002), desta vez à faixa é Emissário de um rei desconhecido, poema pinçado do Cancioneiro (Passos da Cruz XIII) de Fernando Pessoa, musicado por Milton Nascimento e arranjado por Toninho Horta, de quem são os violões que ouvimos em par com a voz de Eugénia Mello e Castro. Cada fibra de nossa humanidade presa a “uma corda de inconsciente” (verso de Passos da Cruz) parece ter sido percebida e recriada por Pessoa, ou seja, cristalizada em linguagem, no idioma português. Pessoa, gênio e pai nosso. Sua leitura, aliás, vale uma missa, é cheia dessas epifanias. Amo esse disco porque me parece que a música, quando transpõe com felicidade um poema, amplia sua ressonância e potência. Sinto que isso é verdade em quase todas as 15 faixas deste álbum miraculoso.

Passo da Cruz XIII - Emissário de um rei desconhecido 

Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido...

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido...

Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...

Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...


Nota do Arquivo Pessoa: “Poesias. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 57. | 1ª publ. in Centauro , nº 1. Lisboa: Out.-Dez. 1916. 

 *

Garoto por Cainã

Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto (1915-1955), é um Pico da Neblina na paisagem do violão brasileiro. O disco do jovem cearense Cainã Cavalcante, em trio com Guto Wirtti no baixo e Paulinho Braga na bateria e uma sonoridade entre o choro e o jazz, é uma imersão vibrante na obra de Garoto.

Aqui, a entrevista do músico e compositor a Luiz Fernando Vianna, na Rádio Batuta.

*

Até mais ver e obrigado pela leitura!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin assim de nada da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —

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