JU_82 | Rayssa nos deu à luz

Quando está no pódio, quando sorri e quando dança, nossa dor cessa. Para isso vale alguma poesia, ajudar a cicatrizar as feridas do mundo. Merecíamos mesmo uma atleta brincante. Merecíamos?


Jurupoca 82 – 30/7 a 5/8 de 2021
 Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Foto do alto: Rayssa Leal com sua medalha em Tóquio. Foto: Breno Barros/rededoesporte.gov.br


Escritos com o corpo

I

Ela tem tal composição
e bem entramada sintaxe
que só se pode apreendê-la
em conjunto, nunca em detalhe.

Não se vê nenhum termo, nela,
em que a atenção mais se retarde,
e que, por mais significante,
possua, exclusivo, sua chave.

Nem é possível dividi-la,
como a uma sentença, em partes;
menos, do que nela é sentido,
se conseguir uma paráfrase.

E assim como, apenas completa,
ela é capaz de revelar-se,
apenas um corpo completo
tem, de apreendê-la, faculdade.

Apenas um corpo completo
e sem dividir-se em análise
será capaz do corpo a corpo
necessário a que, sem desfalque,

queira prender todos os temas
que pode haver no corpo frase:
que ela, ainda sem se decompor,
revela então, em intensidade.

II

De longe como Mondrians
em reproduções de revista
ela só mostra a indiferente
perfeição da geometria.

Porém de perto, o original
do que era antes correção fria,
sem que a câmara da distância
e suas lentes interfiram,

porém de perto, ao olho perto,
sem intermediárias retinas,
de perto, quando o olho é tato,
ao olho imediato em cima,

se descobre que existe nela
certa insuspeitada energia
que aparece nos Mondrians
se vistos na pintura viva.

E que porém um Mondrian
num ponto se diferencia:
em que nela essa vibração,
que era de longe impercebida,

pode abrir mão da cor acesa
sem que um Mondrian não vibra,
e vibrar com a textura em branco
da pele, ou da tela, sadia.

III

Quando vestido unicamente
com a macieza nua dela,
não apenas sente despido:
sim, de uma forma mais completa.

Então, de fato, está despido,
senão dessa roupa que é ela.
Mas essa roupa nunca veste:
despe de uma outra mais interna.

É que o corpo quando se veste
de ela roupa, da seda ela,
nunca sente mais definido
como com as roupas de regra.

Sente ainda mais que despido:
pois a pele dele, secreta,
logo se esgarça, e eis que ele assume
a pele dela, que ela empresta.

Mas também a pele emprestada
dura bem pouco enquanto véstia:
com pouco, ela toda também,
já se esgarça, se desespessa,

até acabar por nada ter
nem de epiderme nem de seda:
e tudo acabe confundido,
nudez comum, sem mais fronteira.

IV

Está, hoje que não está
numa memória mais de fora.
De fora: como se estivesse
num tipo externo de memória.

Numa memória para o corpo
externa ao corpo, como bolsa,
Que como bolsa, a certos gestos,
o corpo que a leva abalroa.

Memória exterior ao corpo
e não da que de dentro aflora;
E que, feita que é para o corpo,
carrega presenças corpóreas.

Pois nessa memória é que ela,
inesperada se incorpora:
na presença, coisa, volume,
imediata ao corpo, sólida,

e que ora é volume maciço,
entre os braços, neles envolta,
e que ora é volume vazio,
que envolve o corpo, ou o acoita:

como o de uma coisa maciça
que ao mesmo tempo fosse oca,
que o corpo teve, onde já esteve,
e onde o ter e o estar igual fora.

João Cabral de Melo Neto: Poesia completa, Alfaguara, 2020 

Opa, vamos apear. Ora, vamos!

Quem não tenha uma rocha dentro do peito, renasceu um instante-diamante de luz e alento. E beleza e delicadeza, que redimem a vida por um triz.

Rayssa Leal foi um contraveneno.

[Aquela sentença-peçonha-premonitória-alerta-síntese-imoral-da-história: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff…” ainda fede, apunhala nossa humanidade, ofende pai e mãe, cospe na gratidão por quem nos alfabetizou, apodrece a linguagem, trinca a pedra, encarde o céu.]

Rayssa é o antídoto da graça contra a brutalidade, um cetim a recobrir a aspereza.

Quando está no pódio, quando sorri e quando dança, nossa dor cessa. Para isso vale alguma poesia, ajudar a cicatrizar as feridas do mundo. Merecíamos mesmo uma atleta brincante.

Merecíamos?

Esse tempo todo acossado por duas pestes em pas de deux fez pensar em castigo bíblico, e também na redenção.

Então, por um segundo que se estende, Rayssa abre o mar vermelho da descrença e testa nossa fé no semelhante.

Ao dançar em Tóquio, a menina de Imperatriz voou sobre a ira e o fel, sobre os Sarney e os Cafeteira, e mandou um “360 flip” sobre o Planalto Centrão.

Essa mocinha é a antítese do que sofrem meninas pobres desvalidas, especialmente as do Norte e Nordeste.

Ela é inalcançável e incompreensível pelos brucutus, inalcançável como uma estrela.

Ah, quem dera pudéssemos dizer: “Somos todos Rayssa” ou “Rayssa nos representa”.

Mas não.

A menina cristaliza a maravilha da fera. Ela é sua natureza cristalina. Ela é dela.

Rayssa e suas circunstâncias.

Rayssa e seus milagres.

Rayssa e sua imunidade adquirida à selvageria.

Rayssa nos deu à luz de novo.

Muita gente renasceu naquela hora, iluminada por uma mocinha maranhense, uma atleta brincante.

O nome disso também é simpatia, essa afinidade moral que liga pessoas e torna nossa espécie viável. 

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

— clave | NOTAS PARA PIO DE NHAMBU EM DÓ | clave —

Saudade do Armando

Saudade do Armando Nogueira. O texto da crônica televisiva e jornalística em geral decaiu demais. Espelha hoje um empobrecimento cultural sem tamanho, e espelha a Daim (Déficit de Atenção pela Infantilização do Mundo). Tentam, apresentadores, ser bonzinhos, uns mais bonzinhos que os outros, mais certinhos, modelares, puritanos, sábios sem saber, enquadradinhos. Tentam desesperadamente, coitados, não dizer um ‘a’ que os ponham em desgraça com o moedor de reputações das redes sociais. Lugares comuns inundam grande parte desses comentários e destilam um tédio incapacitante. Que perda. Que pena. Quanto tentam dizer algo bonito e marcante são traídos por um repertório literário pobre que denuncia excessos de internet, leituras ralas, redes sociais e games.


RIP

Crianças de várias gerações, a minha inclusa, e ainda numa TV em preto e branco!, passaram horas se distraindo com Scooby Doo e outros tipos que ele dublou. Com o Seu Peru, estrela entre estrelas da Escolinha do Professor Raymundo, a mesma coisa. Ainda hoje, pela hora do jantar, entediado com o não ter o que dizer do noticiário televisivo, mudo logo para a Escolinha. Não importa o recorde de reprises, é inumano não se render à graça do personagem e ao espetáculo da atuação em cada um de seus números. Orlando Drummond (1919-2021), descanse em paz.


Biles

O festival de quem diz a coisa mais bonita e positiva sobre a atitude de Simone Bales expõe a hipocrisia como uma das grandes vulnerabilidades desta aldeia global mixuruca que o mundo virou. Crucifica-se e santifica-se ao compasso dos cliques. As redes sociais são a Grande Irmã com o controle total. Os meninos eternos do Vale do Silício podem ganhar seus dividendos, mas também estão à mercê do monstro que criaram.


Tóquio 2020!

E o Comitê Olímpico Internacional insiste em chamar os eventos correntes de “Tóquio 2020”. “É como se todo mundo quisesse ser lembrado desse ano”, leio divertido numa newsletter da Baffler.


Metades

O Belo, como, suponho, outras tantas cidades do país, tornou-se um acampamento de desabrigados, desempregados, desassistidos, arruinados, abandonados. Barracas individuais de camping surgiram “do nada” e se espalharam na zona sul, área hospitalar e centro. Com ou sem barracas, demarcam a posse provisória de passeios e marquises com carrinhos de supermercados, cobertas, panelas, papelões, latas, badulaques. Imagino que a PBH, sob o estranho pretexto de vacinar gatos e não sei que mais, mantenha o Parque Municipal fechado para que não corram para lá. Esses arruinados não valem algum mutirão, uma política emergencial, um empréstimo da CEF ou no BB? Ilusão. Tem sido assim não é de agora, e poucas civilizações conseguiram resolver o problema da desigualdade, extrema ou não. No ensaio sobre os canibais brasileiros da França Antártica, conta Montaigne que a três tupiniquins, levados a Rouen na época de Carlos IX, foram apresentadas as belezas arquitetônicas da cidade, a pompa e os requintados costumes do reino. Depois quiseram saber as impressões dos “selvagens”, que de selvagens nada tinham, diz Montaigne, sobre o que viram. Primeiro, disseram que não tinham em grande conta a figura do rei. “Em segundo (eles têm uma tal maneira de se expressar na sua linguagem que chamam os homens de “metade” uns dos outros) que tinham visto que havia entre nós homens repletos e abarrotados de toda espécie de comodidades, e que suas metades eram mendigos às suas portas, descarnados de fome e pobreza; e achavam estranho como essas metades daqui, necessitadas, podiam suportar tal injustiça, que não pegassem os outros pela goela ou ateassem fogo em suas casas.”


Montaigne e o “kit covid”

No ensaio seguinte, Montaigne nos olha com ironia com quatro séculos de distância e arrepiante atualidade. Ao falar do campo fértil que são as coisas desconhecidas para as imposturas, o filósofo cita Platão para dizer que a “ignorância dos ouvintes permite ao manejo de tais matérias secretas uma bela e longa carreira, em absoluta liberdade”. Conclui que se crê com mais firmeza naquilo que menos se sabe, “e que não há pessoas tão seguras quanto as que nos contam fábulas, como alquimistas, especialistas em prognósticos, astrólogos, quiromantes, médicos, id genus omne [todos os dessa espécie.]”. Grifei médicos (os Ensaios saíram na segunda metade dos 1500)  a lembrar que no complemento id genus omne entre representantes contemporâneos, entre nós, em 2021, na figura de médicos que prescrevem “kit covid” e pregam “tratamento precoce”.


Contraexemplo

Os negadores do Holocausto, da Shoah, podem ensinar algo, como contraexemplo, a meninos progressistas que se descobriram revisores radicais da História e se sentem moralmente elevados por isso, por cima da carne seca, uma sensação comum a muitos vanguardias que formaram fileiras com os totalitarismos. Uma visão borrada pode eleger episódios do passado e passar por cima de etapas imprescindíveis para o entendimento geral dos fatos, de uma época, com sua complexidade sempre contraditória. É um perigo acreditar que todas as verdades são “subjetivas” ou parciais. Retomo o livro de Michiko Kakutani, comentado na JU passada, numa passagem em que a autora cita a professora Deborah E. Lipstadt sobre o desconstrucionismo (fina flor do obscurantismo intelectual francês que fez escola e empregava jargões como “indeterminação dos textos”, “formas alternativas de conhecimento” e “instabilidade linguística” da linguagem) no seu livro Denying the Holocaust. “A história desconstrucionista […] tem o potencial de alterar radicalmente a forma como a verdade estabelecida é passada de geração em geração, e isso pode fomentar um panorama intelectual em que nenhum fato, nenhum evento e nenhum aspecto da história tem qualquer significado ou conteúdo fixo. Qualquer verdade pode ser recontada. Qualquer fato pode ser reformulado. Não há uma realidade histórica definitiva”, escreve Kakutani em A morte da verdade.

*

A saturação das notícias, não duvido, de mãos dadas com as redes sociais (redes fecais para Antonio Muñoz Molina) leva ao alheamento atual, à preguiça de buscar o conhecimento e à resignação com a ignorância. E a causa da saturação — a falta de critérios de edição ao se juntar informação relevante com fofoca, e análise com “diversão” — é a submissão do jornalismo online à lógica das redes. “Na web, onde cliques são tudo e entretenimento e notícias estão cada vez mais misturados, o material sensacionalista, bizarro ou revoltante sobe para o topo, com posts que apelam cinicamente para a parte rudimentar de nossos cérebros — para emoções primitivas como medo, ódio e raiva”, diz Kakutani em seu precioso ensaio.

*

“Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós. Huxley temia que a verdade naufragasse num mar de irrelevância”, compara Kakutani com verve e sabor, ao lembrar o que Admirável mundo novo e 1984 predisseram sobre nosso tempo. Nessa altura ela recorre a um livro chamado Amusing ourselves to death, de Neil Postmanm, publicado no longínquo 1985. Segundo esse autor, a distopia de George Orwell se aplicava à URSS, mas o cenário imaginado por Aldous Huxley representava melhor naquele quarto o perigo que rondava as democracias liberais do Ocidente, ou o “pesadelo de uma população narcotizada demais por trivialidades expostas para se envolver, exercendo o papel de cidadãos responsáveis.” Mas, diz Kakutani, a era Trump, ao operar numa realidade paralela autocrática, ao atacar como “fake news” o trabalho investigativo do jornalismo profissional, reacendeu a importância de 1984.

*

A liberdade de imprensa, lembra a autora, por muito tempo tem sido o caminho mais efetivo para se chegar à verdade. Justamente por isso é o inimigo número 1 de Trump, do Vibrião Colérico etc.


Trump (a.k.a Agente Laranja) x Vibrião Colérico

Deu no Washington Post (24/1/2021)

Deu no Globo (29/7/2021)


Ética e política da identidade

O projeto de um novo iluminismo não é café pequeno, e aquele de uma ética que ponha na ordem do dia a busca por valores realmente universais e, assim, transculturais, tampouco. Mas exatamente a isso se dedica Markus Gabriel, catedrático de epistemologia e filosofia moderna e contemporânea da Universidade de Bonn. Tem uma meia dúzia de títulos traduzidos no Brasil, sendo o mais recente, creio, Eu não sou meu cérebro: Filosofia do espírito para o século XXI (Editora Vozes, 2018). Agora está saindo em língua espanhola seu novo livro, que em português podia se chamar Ética para tempos sombrios. Valores universais para o século XXI. O autor considera um erro terrível dar à ciência a palavra final sobre a política, como ocorre em tantos lugares na pandemia. Esse papel, defende, deveria caber à ética e autonomia das pessoas. Cá nos trópicos essa conversa pode não fazer sentido, e grandemente não faz, e é mais perigosa que na Europa. Mas devagar. Seu tema preferencial talvez seja os embustes de empresas como Facebook e Google com seuo mantra sobre a “emancipação” dos seres humanos pela tecnologia. “A ideia mais estúpida de todas, para dizer isso de forma clara, é que o progresso científico e tecnológico pode substituir o progresso ético”, ele diz ao Letras Libres. “É a ideia mais estúpida de todos os tempos e de toda a história da humanidade, porque substituir o progresso ético pelo científico-tecnológico só nos leva à autodestruição”, prossegue, lembrando antes que a “ciência acumula mais mortes que a religião”, o que é inquestionável se olhamos para o século passado, sem falar na possível disseminação de vírus manipulado sem laboratórios… Gabriel também lembra do mal que representa confundir a voz das maiorias com a democracia, e como autores lembrados no livro de Kakutani, concorda que a pós-modernidade engravidou e pariu o relativismo moral. “A pós-modernidade e uma falsa concepção de democracia vêm juntas. A democracia real é a que aceita que há algo que se sobrepõe à política, e esse algo é a dignidade humana”, diz. Ele também finca posição quanto à impossibilidade de política da identidade e ética coexistirem. “A política da identidade é contrária à ética. A ética é radicalmente universal. O princípio da ética parte do fato de que o outro pode ter razão”, ensina. “Exatamente o contrário do que está passando agora no campo da ideologia contemporânea. E creio que a política da identidade é sobretudo uma tentativa de evitar fazer isso bem”, reflete, para desdobrar esse raciocínio: “Às vezes se defendem essas políticas como aquelas que protegem a minorias, mas na realidade não é assim. De fato, atuam como os tecnomonopólios, que utilizam as minorias como meio para ter acesso a mais mercados [….]. É possível ser mais cristalino?


Em defesa da mulata e das palavras

“[…] Que outros, não eu, a pedra cortem/ Para brutais vos adorarem,/ Ó brancaranas azedas,/ Mulatas cor da lua vem saindo cor de prata/Ou celestes africanas:/ Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá |Balada das três mulheres do sabonete Araxá (Manuel Bandeira)

“Ah, essa mulata quando dança é luxo só…” | É luxo só (Ary Barroso e Luiz Peixoto)

Vem de uma remota batucada/ Numa cadência bem-marcada/ Que uma baiana tem no andar/ E, nos seus requebros e maneiras/ Na graça toda das palmeiras/ Esguias altaneiras a balançar// São da cor do mar e da cor da mata/ Os olhos verdes da mulata…” | Olhos verdes (Vicente Paiva)

“Quando eu morrer,/ não quero choro nem vela,/ quero uma fita amarela gravada com o nome dela // Se existe alma, se há outra encarnação/ Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão” |Fita amarela (Noel Rosa)

“Este mulato franzino, menino/ Destino de nunca ser homem, não/ Este macaco complexo/ Este sexo equívoco/ Este mico-leão/ Namorando a lua e repetindo:/ A lua é minha/ Branquinha” | Branquinha (Caetano Veloso)

“Você começa a olhar com um olho gótico/ De cristão legítimo/ Mas eu sou preto, meu nego/ Eu sei que isso não nega e até ativa/ o velho ritmo mulato” | Ele me deu um beijo na boca (Caetano Veloso)

“Mulata bossa nova, caiu no hully gully/e só dá ela, ê ê ê ê ê ê ê/ na passarela”  | Mulata Iê-iê-iê ou Mulata bossa-nova (José Roberto Kelly)

Emiliano Di Cavalcanti: Mulata na cadeira (1970), Coleção Santander

Essa história já está velha mas está por aí. Ganhou a parada dos corações e mentes sensíveis à correção política e às etiquetas das tribos identitárias. Exilados das redes sociais comem frio os quitutes assados nos quiproquós, nos fuás ideológicos travados nas liças das redes sociais. Malho em ferro frio, portanto, mas vá lá. Fazer o quê? Antes: respeito quem não deseja ser chamado de mulata ou mulato por ter aversão à etimologia do vocábulo: mulo, híbrido, mestiço — a origem da palavra é bem antiga, remonta pelo menos a 1488, segundo o Houaiss. Essa etimologia foi redescoberta e salientada na última década, creio, no contexto da luta contra o racismo. Jamais defenderia meu ponto de vista perante quem a palavra desperte sensações negativas. Meu problema é quando se tenta baixar uma etiqueta moral para enquadrar quem insista em se expressar livremente; quanto se baixa, como dogma, uma acepção uniforme da palavra como sinal de racismo. É do gosto absolutismo ideológico contemporâneo lançar tarrafas lineares e autoritárias sobre os signos e arrastar tudo que pegue. Me parece um despropósito converter o mero pronunciar ou cantarolar a palavra “mulata” ou “mulato” em ofensa racial, num menoscabo ou mesmo xingamento. “Racista”, “nazista”, “fascista” são impropérios unívocos e cristalinos, cujo significado é semanticamente irrecorrível. Não vou tagarelar aqui sobre noções de semiologia ou semiótica, mas um signo não pode ser reduzido e preso na gaiola da etimologia. Na comunicação, a palavra não é decodificada pela raiz, mas segundo o sentido comum a um idioma e a uma cultura. E raízes se perdem, emigram, miscigenam quando transplantadas pelos povos, séculos afora, no uso e na invenção. A língua é um fenômeno em constante evolução. A palavra mulato/a pertencera ao universo da fala escravista e adentrara a literatura como atributo do desclassificado, da coisificação da mulher como objeto sexual e da vítima socialmente maculada. Mas creio que, dentro do rio corrente da evolução do idioma, “mulata/o” tornou-se um “ícone” cultural aberto e transcendente. O povo reinventou e transfigurou a expressão. Palavras são signos, e signos dançam em seus referentes/significantes/significados que não são necessariamente intercambiáveis, mas penetram a alma de uma cultura. A linguagem é inesgotável. A palavra mulata, como eu a pronuncio e decanto, e creio que isso valha para muita gente, incorpora uma ideia positiva ou neutra de cor da pele, também de beleza, e integra um imaginário estético e artístico, um repertório cultural, como tentei mostrar nos exemplos acima, à guisa de epígrafes. Mas certas pedagogias censórias vivem de enquadrar os signos nas bulas da correção política. Isso fere a liberdade e representa uma infeliz e absurda regressão civilizatória, data vênia. Como diria o robô do seriado Perdidos no espaço (para quem tem mais de 50 anos), aquela simpática “velha lata de sardinha enferrujada” do Dr. Smith, “não tem registro”. Tenho horror  de ver a livre expressão cerceada, palavras manietadas e maltratadas. Mas precisamos nos entender, vale?

*

Como todo mundo sabe, a origem de “trabalho” vem do latim vulgar tripalium (torturar e também um instrumento de tortura). Pode que é por isso, na “sociedade do desempenho” [falei da obra do filósofo coreano Byung-Chul Han na JU#66] não há mais trabalho nem trabalhadores; ninguém mais “trabalha”, vive uma única e mesma existência. Todos nos tornamos “colaboradores” num mundo ditado pelas sinergias sem ética. Não há mais casa e oficina, dentro e fora, meio de ganhar a vida e ambiente doméstico. Um “colaborador” não resolve problemas, dificuldades, remedia “dores” dos clientes, como ouvi alguém dizer dia desses, com expressão comovida. Brinco, por certo, sobre a etimologia de “trabalho”. Ocorre que nos expressamos com o repertório que acumulamos. A origem das palavras se perde, temos que buscar um léxico para apreendê-la, como fazem os estudiosos. As palavras giram, os signos voam…


Neopuritanismo

Do ateliê Pieter Aertsen: Natureza morta com carne a Sagrada Família, cerca de 1551. Fundação Santander

O tema é impensável no Brasil. Quando mais de 20 milhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar, e uma pequena multidão se aglomera para conseguir alguns ossos doados por um frigorífico, cala-te boca. Mas na Europa está na moda a causa contrária ao consumo de carne, em nome da preservação da vida. Na Espanha, há pouco,la polémica del chuletón quase se converte em crise política. Imaginar a abolição do consumo de carne é um luxo impensável em países com populações subnutridas ou famintas, e o mundo desgraçadamente ainda está cheio deles. Como Cuba, onde nasceu Ernesto Hernández Busto, que saiu de lá aos 17 anos e hoje, aos 53, vive na Espanha. A privação de carne que ele sofreu na Ilha ajudou, imagino, a formar o crítico da “sociedade da abundância” e de suas manias. Busto escreveu um ensaio para refutar o que chama de “neopuritanismo” em moda no pensamento moderno. “Neopuritanismo” abarca ainda “o feminismo, o ecologismo extremo e a correção política em geral”, como leio no Clarín. O nome do livro é Cerdos y niños. Por qué seguimos siendo carnívoros (Porcos e crianças. Por que ainda somos carnívoros). O correspondente do Clarín em Madri entrevistou Busto num restaurante de longuíssima tradição cujo cardápio tem como protagonista suculentos leitões de leite ao forno. Provavelmente é o Botín. Martín De Ambrosio, autor dessa entrevista, assegura que o ensaio traz um corpo erudito e acessível de razões em defesa do hábito carnívoro, e Busto afirma que se preparou dez anos para escrevê-lo. Se bem que é bom ter um pé atrás quando um cubano e um portenho se veem ao redor dum cochinillo asado. Seja como for, me interessa um autor que demonstra uma coragem rara (é impensável que uma editora brasileira o publicasse hoje) para defender que a alimentação não se presta apenas à nutrição e conformação do corpo, mas se trata de um ritual simbólico que celebramos e que nos humaniza, ou coragem para afirmar que “vivemos a cultura da reclamação e do revisionismo de certas atitudes humanas, como as tendências feministas ou “especistas” (racismo da espécie humana em relação às outras), mas tudo isso é minoritário e ignora o profundo”. Como Bastos, creio que é essencial “recuperar uma perspectiva simbólica e deter a censura”. Quando fala em “neopuritanismo”, o autor mira o coração da cultura norte-americana hegemônica na academia e nas sociedades que orbitam as grandes cidades e sua imprensa de esquerda. Se o puritanismo antes perseguia a liberdade sexual, hoje parece combater o próprio status da liberdade. “Não se pode usar gênero masculino, não se pode contar contos [histórias infantis] violentos, não se pode. Basta”, clama o cubano, e um cubano nascido em 1968 aprende para sempre o que é viver de fato e de direito uma ordem do “não se pode”. Por óbvio: não se trata de condenar conquistas históricas do feminismo e de toda diversidade, nem a opção vegana de quem quer que seja. Basto tem, entre seus focos, a cultura “neopuritana” do feminismo radical que busca controlar a “ambiguidade da relação sexual”, onde é preciso “assinar um documento de consentimento antes do flerte”, tendência, aliás, ele diz, que é um divisor de águas dentro do próprio feminismo.

*

O “neopuritanismo” militante, como o vejo, é um sintoma do Déficit de Atenção pela Infantilização do Mundo, síndrome formulada aqui (Daim), síndrome diagnóstica na Jurupoca #10.


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[A RÁDIO SIUTÔNIO APRESENTA: 1001 CANÇÕES BRASILEIRAS]


 A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta/ Afinal, toca exclusivamente o que gosta/ E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos/ A ouvir um acorde dos novos sertanejos/ Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque/ A aturar um segundo de pancadão pornofunk/ Mas se ainda assim foi bom pra você, ouvinte irmão,/Seja muito bem-vindo à nossa programação

Chico, Caetano e o homem velho

A canção inspirou o romance. O velho Francisco, do álbum Francisco, de 1987, deu no Leite derramado, lançado em 2009 pela Companhia das Letras. O que me interessa aqui é a sensibilidade de Chico Buarque para o mundo, sensibilidade que ultrapassa a decantada dimensão do “feminino”. Aliás, Caetano Veloso e também Gilberto Gil me parecem mais profundos que Chico nessa temática. Mas Chico, aos 24 anos, compusera O velho — “… O velho vai-se agora/ Vai-se embora/ Sem bagagem/ Não sabe pra que veio/ Foi passeio/ Foi passagem…” (do álbum Chico Buarque Volume 3, de 1968), que já mereceu de Caetano uma justa louvação. Caetano, criador da também esplendorosa Oração ao tempo [na qual me detive JU#63] parece citar aquela canção de Chico na sua O homem velho (do disco Velô, de 1984) que ponho entre as sete maravilhas de sua obra. O professor Pasquale Cipro Neto expôs a riqueza dessa música ao apontar um paralelo do homem velho, aqui num registro nobre e positivo, com o poema Os ombros suportam o mundo, de Carlos Drummond de Andrade (“Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?/ Teus ombros suportam o mundo/ e ele não pesa mais que a mão de uma criança”), quando ouvimos na canção de Veloso “O homem velho deixa vida e morte para trás/ […] O homem velho é o rei dos animais/ A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol/ As linhas do destino nas mãos a mão apagou/ Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n rol/ As coisas migram e ele serve de farol…”. Pasquale exalta a inversão de “As linhas do destino nas mãos a mão apagou”: “Como se não bastassem a beleza e a profundidade do sentido desse verso, há nele a quinta-essência da construção linguístico-literária. Ao inverter a ordem natural da frase (A mão apagou as linhas do destino nas mãos) e, consequentemente, mantê-la na voz ativa (a passiva seria As linhas do destino nas mãos foram apagadas pela mão), Caetano é certeiro: mostra com ênfase e sabedoria o que faz a mão (que aí é metáfora e metonímia da vida, da passagem do tempo) com as linhas do destino que temos nas mãos.” E o que dizer? de versos como “Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval/ Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal/ Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual/ Já tem coragem de saber que é imortal”. Bem, essencialmente a mortalidade equivale a imortalidade e, sim, é preciso descortino para enxergar isso. Já o Chico de O velho Francisco é um autor definitivamente maduro, a imaginar a história de um velho, homônimo, cuja memória se apaga, as lembranças se amalgamam e tudo pode ter acontecido ou não, mas que toca fundo em quem tenha frequentado um asilo de doentes de Alzheimer, num verso como “Hoje é dia de visita/ Vem aí meu grande amor/ Hoje não deram almoço, né/ Acho que o moço até/ Nem me lavou”. Numa epifania, a realidade se abre; sofremos pelo que ouvimos, e vimos, e pelo que, possivelmente, nos espera.

O Velho Francisco 


 Já gozei de boa vida
Tinha até meu bangalô
Cobertor, comida
Roupa lavada
Vida veio e me levou

Fui eu mesmo alforriado
Pela mão do Imperador
Tive terra, arado
Cavalo e brida
Vida veio e me levou

Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco, vem
Todo domingo
Tem cheiro de flor

Quem me vê, vê nem bagaço
Do que viu quem me enfrentou
Campeão do mundo
Em queda de braço
Vida veio e me levou

Li jornal, bula e prefácio
Que aprendi sem professor
Frequentei palácio
Sem fazer feio
Vida veio e me levou

Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco, vem
Todo domingo
Tem cheiro de flor

Eu gerei dezoito filhas
Me tornei navegador
Vice-rei das ilhas
Da Caraíba
Vida veio e me levou

Fechei negócio da China
Desbravei o interior
Possuí mina
De prata, jazida
Vida veio e me levou

Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Hoje não deram almoço, né
Acho que o moço até
Nem me lavou

Acho que fui deputado
Acho que tudo acabou
Quase que
Já não me lembro de nada
Vida veio e me levou
O Velho — Chico Buarque

O velho sem conselhos
De joelhos
De partida
Carrega com certeza
Todo o peso
Dessa vida

Então eu lhe pergunto pelo amor
A vida inteira, diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira
Que ele não brincou

Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar

Nada
Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar

O velho de partida
Deixa a vida
Sem saudades
Sem dívida, sem saldo
Sem rival
Ou amizade

Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me diz que sempre se escondeu
Não se comprometeu
Nem nunca se entregou

E diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar

Nada
E eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar

O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não sabe pra que veio
Foi passeio
Foi passagem

Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me é franco
Mostra um verso manco
De um caderno em branco
Que já fechou

Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar

Não
Foi tudo escrito em vão
E eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar
O homem velho — Caetano Veloso

O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais

A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock'n'roll
As coisas migram e ele serve de farol

A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fugaz
Do sexo das meninas

Luz fria, seus cabelos têm tristeza de néon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom

Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal

*

That’s all folks. Inté e obrigado por ler a Jurupoca!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin assim de nada da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —

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