JU_83 | Rexitegues autossatisfatórias

Justiçamento de estátuas, patrulhas do idioma e de fantasias carnavalescas, censura e autocensura, vai longe o neopuritanismo dos ideais superiormente solidários. Causas civilizatórias de fundo como a universalização do saneamento básico ou a qualificação do ensino público não merecem o mesmo fervor devotado pelo vanguardismo cultural às políticas de identidade, ideologismo avesso ao diálogo e, essencialmente, à liberdade de expressão


Jurupoca_83 – 6 a 12/8 de 2021
 Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


(Foto do alto) Salvador Dali: Rosto do grande masturbador (1929). Museu Reina Sofia, Madri


Segue a declamação na íntegra, pela atriz Catarina Guerreiro, em vídeo da RTP, de Uma pequenina luz, poema do português Jorge de Sena (1919-1978) do qual um fragmento foi gravado por Maria Bethânia em Noturno, seu álbum recém-lançado (mais na estação Rádio Siutônio). Quando um brasileiro (não alienado) se vê perdido numa selva escura, diariamente esmagado pela brutalidade e pela mentira elevadas a política de Estado, a voz do poeta se torna um salmo.

Uma Pequenina Luz – Jorge de Sena

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.

25/9/1949

Opa, vamos apear. Ora, vamos!

Nosso vanguardismo cultural e ideológico é do arco da velha, sô, um assombro, um vício nada solitário, pois tribal e comunal. Vivemos uma revolução virtuosa, uma quebra de paradigma moral esterilizante. Entramos na era da Autossatisfação Grupal clicante. Antropólogos e artistas bem situados, com posições atualizadas naquilo (a imagem é velha) que há 500 anos tascou-se de esquerda festiva ou caviar, encontraram uma Revolução Periférica para estender seus ideais superiormente solidários, potenciados pelas novas tecnologias de “comunicação” polarizantes, pós-modernas e masturbatória. Xi, todos chiam, xi, chiam sim senhor, afinados como sapos no lagoão cibernético, a tocar e trocar a delícia inquisitorial das rexitegues gozosas, um círculo celestial só alcançável pelos espíritos imaculados. Protestantes se arriscam a ser queimados vivos em fogueiras eletrônicas. Apois.

#parrusca

Controvérsias sobre personagens históricos despertam frenesi, rendem bulha e borbulha gorda na Grande Irmã (epítome da internet e das redes sociais lançada por este hebdô) e mesmo uma reportagem de sete minutos no Fantástico, um tanto manca editorialmente, rasa como córrego na seco, é certo, mas uma TV é uma TV. E o novo jornalismo submisso à Grande Irmã é pop, é tec e está na Globo.

#sarâmbia

A correção política e o neopuritanismo pegaram o jornalismo de jeito em nome da tal “clareza moral” made in USA. Então, tome falsas equivalências entre fontes que se reportam à documentação disponível, historiográficas, e outras, comprometidas antes com causas e com certo ideal de Justiça. E tome rexitegues autoeróticos, autocongratulatórias, autossatisfatórias. Reações negativas na esfera da Grande Irmã são um desastre tanto para as gentes como para as marcas, como se  sabe. Quando, depois de levar tardes inteiras de tuitaços, começam a perder anunciantes, então, danou-se. Melhor ter muitos cuidados!

#segogadatarde

Mas, essa menina e esse menino, não vamos criar aqui uma tribuna em defesa do Borba Gato ou do Raposo Tavares. Estamos no Belo, onde, ainda, sinto uma dor no meu peito por me lembrar disso, desgraçadamente não cismaram com o assombroso Tiradentes da Afonso Pena. E garantiram, inclusive, que nosso mártir maior fora senhor de escravos! Se toparem, vamos à luta, picaretas em punho, contra o mito de pedra. Crucifiquemo-lo, derrubemo-lo, enforquemo-lo mais vezes, quantas forem preciso para sossegar almas neopuritanas.

#segóviaboralá

Nem quero retomar o fio da meada que leva ao justiçamento de estátuas mundo afora. Longe da JU questionar o status democrático da destruição de patrimônio público, por mais “polêmico” seja o ícone odiado em voga. Parece que já superaram o ponto. Mas como canta o Bituca, o coração de estudante, e o de muitos pós-doutores, têm razões que a própria razão desconhece.

#gloriosa

Mas o busílis desta crônica era o vanguardismo cultural e ideológico e perdi um pouco a tramontana. Ou talvez não.

#giribidenow

Volto a isso, mas antes uma palavrinha sobre o carnaval, logo o carnaval [reino da subversão das regras sociais, morais e ideológicas — em que as hierarquias se invertem, daí a carnavalização, donde o mundo às avessas] logo no carnaval passaram a militar as PFAs (patrulhas da fantasia alheia), formadas por neopuritanos que tentam pregar no peito dos transgressores, via Twitter, a marca AP (apropriador cultural), quase como aquele escarlate A (de adúltera) no romance de Nathaniel Hawthorne. Sobre isso já testei sua paciência semana passada. Acrescento apenasmente que a onda neopuritana tropical chamou atenção da temperada The Economist em 2017. Um bloco feminista decidiria, só agora eu soube, isto é, o ciclope Google, tronco maior da Grande Irmã, me soprou, pois decidira cancelar Tropicália, de Caetano Veloso, vexado, o bloco, vamos ver, com o verso “os olhos verdes da mulata”, por sinal uma citação de Olhos verdes, de Vicente Paiva. “Os olhos verdes da mulata” tralalá…. enrubesce muitos neopuritanos. Pois a mim sempre deslumbrarão. O comentário de Caetano à revista: “Meu pai era mulato. Penso em mim como mulato. Eu amo a palavra” (“My father was mulato. I think of myself as mulato. I love the word”). Por essa e outras o Lessa [ver Lessa, Ivan Pinheiro Themudo (1935-2012)] dizia, com justiça, que baiano não nasce, estreia.

#sebastiana

Antropólogos militantes do tribalismo de gênero e ideólogos insones de olhos rútilos [ver Rodrigues, Nelson Falcão (1912-1980)] assumiram um protagonismo favorecido pela tecnologia nas plataformas da Grande Irmã, como também os bocas-tortas da direita servis ao Vibrião Colérico (a.k.a. Kaveirão.155mm) e a suas crias mentalmente univitelinas (e prejudicadas), com seus adesistas militares e paramilitares, milicianos, a propósito, também do atraso, da falsificação e da jumentice hidrófoba verde-amarelo de nariz marrom. Essa soldadesca que se levanta fantasmagoricamente em 2018, sou capaz de apostar, não fugiria do inferno, assim multitudinária, sem ajuda da diabólica maquinaria da Grande Irmã.

#número-cinco

E o assombro?

#jerkingoff (termo mais corrente no Brasil e de compreensão geral)

Demandas civilizatórias de fundo a exemplo da universalização do saneamento básico ou a qualificação do ensino público não merecem o mesmo fervor e disposição multitudinários tangidos por algoritmos, muito menos a mesma efusão e profusão de rexitegues que engolfam, entre tantas, as reivindicações identitárias. (Aliás, o césar Lira, ave, Lira!, empregador de pai, mãe, filho e espírito santo; Ciro, o Grande, luminar progressista do Piauí; o paxá Pacheco, todos potentados, omissos ou cúmplices dos crimes diários praticados pelo Vibrião, deveriam ser bombardeados por rexitegues cidadãs, tal-qualmente o engolidor de espadas Aras, Procurador-Gavetário da República, o homem é um móvel imóvel! Mas divago. A lenga-lenga para dizer do perfunctório de certos anseios onanistas diante de uma realidade demolidora.)

#fingerfucking (idem)

Aliás, do problemão do saneamento, para puxar só uma perninha de rã do assunto, lembram os jornais quando pinta pesquisa nova do IBGE ou do Instituto Trata Brasil. Aí, mais uma vez, estampa-se garrafal que metade dos brasileiros está condenada a uma existência crítica por não ter a merda recolhida em casa ou água limpa para beber. Rexitegues assim não têm cor, cheiro nem sabor.

#fingerjob (ibidem)

A mesma coisa na educação, com Idebs/Enens.

#cinco-contra-um (totalmente fora de uso)

Pois que, em verdade, em verdade vos digo: nem tudo se compara em sex appeal ideológico autossatisfatório nas convocatórias da olímpica modalidade #batbronha nas tardes do Twitter.

Aliás, #siririca, #ciclejerk, #handjob, #punheta, #automasturbação, #quiromania.

Tenho tudo à mão no meu bilíngue Dicionarinho do palavrão & correlato, obra de suma importância do sábio Glauco Mattoso (Record, 2005, p. 86), um cego capaz de ver na escuridão.

Então, ficamos assim:

#¡fuegonoBorbaGato!

#¡Bota-abaixo! (A senha é válida em qualquer “polêmica” e, ipso facto, contra representações nefastas em gesso, pedra, pedra-sabão ou bronze que perturbem o sono e o superior ideal de neocaretas. Fico na fila para, quando chegar a vez do mártir maior das Minas, a reinar na praça que é dele, Afonso Pena com Brasil, avenidas do Belo. Tomara tenha, o mártir maior, seus dias contados por ali.)

Blogueiros, memeiros, tuiteiros, influenceiros e youtubeiros, uni-vos! Correi!

#ospurosnopoder

A revolução está na ponta do mouse, do dedo ou da mão!

#salveosanjos #jurupocajá #ajudeaju

*

E a falta do que comer?

A Rádio Siutônio celebra os portentosos 80 anos de Ney Matogrosso, sua grandeza artística e sua naturalidade para pôr os cornos acima da manada. Mas, antes da rádio, uma coisinha: como se sabe, militantes da política de gênero não perdoam Ney por ele, logo quem!, não erguer bandeiras da causa! Num perfil que saiu Folha, de Lucas Brêda, o cantor disse o seguinte acerca disso: “Falo institucionalmente, mais do que socialmente, porque socialmente o povo está morrendo de fome, não está preocupado com o sexo do outro. O povo está com fome, está virando mendigo.”

Yayoi Kusama: Sala Espelho infinito (2011/2017). Fotografado (21/3/2015) por Pablo Trincado. Licença de publicação Wikimedia Commons

Por que me ufano de Galvão Bueno

Insone às 5 da madrugada, me enrolo num grosso cobertor cor de abóbora e ligo a TV. Medalha, medalha, medalha. Galvão Bueno se ufana aos brados retumbantes. Nunca deixou de se ufanar. Galvão é o Amaral Neto das pororocas esportivas. Medalha na vela! Vai para a oligarquia da modalidade, como outras tantas, esgrima, hipismo, já populares e acessíveis aos nossos fenótipos todos, diria, não sei, talvez, a ginasta campeã, hoje comentarista.

*

Não importa. Porrinha ou tênis de mesa, nos ufanamos do Bananão [ver o Lessa] do mesmo jeito. Nos rasgamos do mais jubiloso dos júbilos. Mas eu me ufano do Galvão. Por quê?

*

Deveras o admiro, o cabra me parece um dadaísta extraviado no espaço e no tempo. Pois o Galvão, na madrugada dessa terça, estava supostamente escalado para narrar Brasil e México. Mas  há 12 minutos os craques se esfalfavam pelo domínio da pelota, peralá, quase foi gol… E o Galvão? Nem aí. Se esquecera das quatro linhas para melhor celebrar a medalhada que acabáramos de conquistar em lagos, campos, mares, céus e quadras de Tóquio-2020. “E posso garantir que vem mais aí… posso ver daqui agora, no boxe…”, prosseguia o homem, enquanto Douglas Luiz tocava para Anthony, que passava para Richarlyson, que chutava para boa defesa de Ochoa. E daí? Com sua quilometragem imbatível, eu sei, você também, Galvão é capaz de prever o placar de qualquer partida. Manjara que aquele bolerão da madrugada ia dar zero a zero. Só os pênaltis iam contar. Esperava a hora decisiva para entrar em campo, aos 90 e tantos minutos, intervalo que soube empregar muito bem para atiçar nossa pantagruélica sede por medalhas, medalhas que elevam nossa autoestima e nos ajudam a esquecer um pouco do Vibrião.

*

Há quanto tempo temos Galvão Buenos como animador do nosso orgulho esportivo? Cem, 120 anos anos? Sei que faz tempo. Quantas lágrimas! derramamos, minha gente, um Arrudas inteiro. Vencedores, perdedores (“fiz tudo que pude”; “dei meu melhor”; “é nosso herói”, comenta chorosa uma ex-campeã no canal campeão, sobre o fiasco de um moço nas argolas) brilham em Tokyo.

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


— clave | NOTAS PARA MATRACA EM SI BEMOL MENOR  | clave —

A arquitetura de Oscar Niemeyer convive em harmonia com as palmeiras, os roxos dos ipês e os passeantes numa manhã de domingo na Praça da Liberdade, no Belo. Foto: Rachel Botelho

Físico e “psicológico”

Ultimíssima de Tokyo, juro. O que mais repetem nos jogos, âncoras, comentaristas, atletas, contrarregras e gandulas é que um vencedor deve ter preparo físico e psicológico. Depois do affair Simone Baile, então, não tiveram outro assunto, além, claro, das lágrimas e medalhas. São muitas emoções, bicho! Soa como se “corpo” e “mente” fossem cartesianamente entidades separadas e autônomas. Mas a vida mental não é um produto exclusivo do cérebro. “Não existe mente sem corpo. Nosso organismo contém um corpo, um sistema nervoso e uma mente que deriva de ambos”, ensina o neurocientista António Damásio no singular A estranha ordem das coisas – as origens biológicas dos sentimentos e da cultura (Cia das Letras, 2018). O cérebro “fiscaliza” o funcionamento de cada parte do corpo e reflete o estado do corpo. É um processo dinâmico, essencialmente cooperativo.  Ponha-se nessa relação os sentimentos e o ambiente sociocultural e chegaremos à deliciosa e fascinante noção de homeostase, que, diz o professor português, não é muito pop, mas sua dinâmica é decisiva durante todo o duradouro e eficiente processo evolutivo de regulação da vida.


Desconstruindo Cuba

Cortes do painel Cultura profiláctica, instalação em papel recortado, obra do artista cubano Hamlet Lavastida, recentemente preso pelo governo cubano. Fotos: reprodução da revista Himpermediamazine.com

A ditadura de partido único cubana tachou a multidão que saiu às ruas contra a escassez de alimentos, os péssimos serviços de saúde e os frequentes apagões na ilha, no recente 11 de julho, de “revolucionários equívocos, mercenários e delinquentes”. “Se o contexto não fosse dramático, a classificação pareceria digna de Woody Allen”, notou um redator da newsletter do Babelia (El País). “Lembram o diálogo de Desconstruindo Harry”, ele indaga o leitor?

Ela: você não tem valores. Toda sua vida é niilismo, cinismo, sarcasmo e orgasmo.

Ele: Sabe? Com esse slogan, na França, me fariam presidente da República.”

E ainda: “Revolucionários equívocos, mercenários e delinquentes parece uma definição da pós-modernidade”. O 11-J foi, como se sabe, uma mobilização popular como não se via há 30 anos no regime instalado em 1959, hora encabeçado pelo picolé de chuchu Miguel Díaz-Canel. “O Estado cubano é um museu de ineficiência”, resume o artista plástico Hamlet Lavastida nesta entrevista à revista online Hypermedia Magazine. Lavastida, nascido em 1983, foi preso em 26 de julho, quando regressava ao país depois de exibir a instalação Cultura profiláctica numa galeria berlinense, acusado de “incitação ao crime”. Sua prisão é uma entre dezenas nos últimos anos, com o aumento da repressão do governo Díaz-Canel.

Cubanos nascidos depois da queda do Muro e do fim da ajuda soviética ao país, conectados ao mundo pela internet, simplesmente não engolem mais a cantilena defumada do credo comunista — essa velha mística ainda tão atrativa para a esquerda latino-americana. Movimentos intelectuais e artísticos como o Instituto de Artivismo Hannah Arendt (Instar), o Movimiento San Isidro (MSI) e o 27N [referência ao dia de novembro de 2020, quando ocorreu uma “parada coletiva” pela liberdade de expressão, reunindo uns 300 artistas, ativistas e intelectuais em frente ao Ministério de Cultura] apontam abertamente as contradições entre o discurso oficial e as terríveis condições de vida na ilha. “É a mesma geração que alucina todos os dias no Instagram com o pacto entre o novo dinheiro e a velha nomenclatura [referência ao capitalismo de Estado implantado pelo regime nos últimos anos] que levou à recomposição iconográfica de nossa oligarquia tropical”, descreve no Babelia Iván de Nuez, ensaísta cubano morador de Barcelona. Não se trata da insatisfação de uma oposição monolítica ou de uma adesão cega ao “neoliberalismo”, como um esquerdista mais fervoroso logo concluiria. Jovens marxistas que ainda apostam na manutenção da via socialista com soberania nacional, mas defendem a liberdade de expressão e o fim da repressão policial, convivem com coletivos de artistas visuais, rappers e ativistas mais radicais. É uma juventude de muitas vozes que concordam com a necessidade de abertura política e mudança na economia . O apelo socialismo sí, represión no se incorporou às conversas de quem insiste em pensar e criar sem submissão às diretrizes oficiais do partido, relata o El País. Por óbvio todos, ou quase todos, excluindo uma minoria alinhada com os cubanos da Flórida, são contra o bloqueio norte-americano, mas o veem como um álibi por demais surrado a encobrir os desmandos e a incompetência do regime. “Os escritores nascidos nos anos 80 em Cuba são mais globais, mais digitais, mas autobiográficos e mais preocupados com o feminismo e a ecologia que com o patriotismo”, traz outro texto, assinado por Camila Osório. Mesmo um artista fechadíssimo com o regime como Silvio Rodríguez (seu contemporâneo Pablo Milanés há muito se tornou um crítico da ditadura), ademais participativo e interlocutor de jovens perseguidos, não é cego sobre os problemas enfrentados pela população cubana. “Em Cuba vivemos uma situação crescente de estresse social e estou consciente de que não é só culpa do bloqueio. Desde muito tempo, economistas, cientistas políticos e cidadãos se queixam de medidas econômicas anunciadas que inexplicavelmente não foram postas em prática. Todo esse atraso também é responsável pelo sucedido [11-J]”, ele diz nesta entrevista.

Captura de tela (reprodução) de foto da AFP que mostra a prisão de um homem durante os protestos de 11 de julho em Cuba

*

A uma TV mexicana, Lula aconselhou Daniel Ortega, ditador da Nicarágua, a “não abrir mão da democracia” e a apostar na alternância no poder. Já é alguma coisa, e importa pouco que o ex-presidente reaja a pressões por seu alinhamento acrítico a Cuba. Assim é a política. “Eu dizia ao [Hugo] Chávez, dizia ao [Álvaro] Uribe: toda vez que um governante começa a se achar insubstituível e começa a se achar imprescindível, está surgindo um pouco de ditadura naquele país”, disse o ex-presidente, relatou Patrícia Campos Mello. Noves fora o que se ponha na sua pesada conta, é preciso reconhecer que Lula jamais ameaçou atravessar o rubicão da democracia.

Yayoi Kusama: Narcissus garden, Inhotim, Brumadinho, Minas, Brasil. Foto: Stephanie Torres, licença Wikimedia Commons

Nazismo x comunismo

“[…] Há quem diga que a alegada superioridade do comunismo sobre o nazismo está no fato, comprovadamente histórico, de o comunismo ter ajudado a derrotar Hitler. Seria uma explicação perfeitamente válida se, em 1939, Stálin e Hitler não tivessem assinado um pacto de não agressão (na verdade, foi um pacto para partilhar a Polônia e estabelecer ‘esferas de influência’ no leste da Europa). Além disso, convém não esquecer que Stálin abasteceu a Wehrmacht durante todo o front ocidental, praticamente até as vésperas da invasão nazista da União Soviética. […]” Leia mais na coluna de João Pereira Coutinho. Coutinho localiza a bizarrice de quem se recusa a comparar os dois regimes totalitários ao fato de “a linguagem do nazismo” ser “repulsiva e indefensável”, enquanto a “linguagem comunista, independentemente das consequências, é tão suave aos nossos ouvidos”, por ser fundada em brados por “igualdade” e “justiça”. JPC elogia bastante o filme Caros camaradas – Trabalhadores em luta, de Andrei Konchalovsky, sobre o massacre de dezenas de trabalhadores que se revoltaram contra a falta do que comer em Novocherkassk, em 1962, durante o governo de Nikita Khrushchev. Lyuda é uma apaniguado do partido, que ele defende radicalmente, até que perde uma filha na repressão militar. A cegueira de Lyuda, comenta brilhantemente JPC, ou sua “fantasia reacionária”, por ainda defender o “legado” de Stálin, cujos crimes haviam sido denunciados por Khrushchev no histórico discurso de 1956, “encarna o que existe de inesgotável na alma do crente: uma infinita capacidade para o autoengano, desde que a retórica do ideal nunca seja contaminada pela evidência da realidade”.


“Doutora Fiocruz”

Era capaz de marcar uma consulta com a dra. Margareth Dalcolmo, pneumologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, apenas pelo prazer de conhecê-la e ter com ela um dedo de prosa. De desfrutar de seu saber, inteligência e elegância durante toda a pandemia, nas suas inúmeras aparições em jornais e TVs, me rendi de vez ao saber pelo Valor que a leitura de A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, foi decisiva em sua opção pela medicina e, na especialização, se viu estimulada por A montanha mágica, de Thomas Mann. “Nas brechas dos plantões da Santa Casa, a então residente sentava em um cantinho da escadaria do hospital para acompanhar o jovem Hans Castorp em um sanatório para tuberculosos”, narra Adriana Abujamra. Dalcolmo filia-se à tradição humanista de médicos como Pedro Nava. “Médico que só sabe medicina nem medicina sabe”, ela recitou para a repórter a frase, que atribuiu a um médico português. “Metade de sua biblioteca é de títulos acadêmicos, a outra, de romances”, narra a matéria da seção Na mesa com o Valor. “Não há outra profissão que compulsoriamente nos torne humanistas. Você lida com o ser humano o tempo todo”,  ela diz à repórter.


À margem da margem

O documentário Buracos negros: No limite do conhecimento (Netflix, 2021) deve ser servido sem restrições a adolescentes curiosos. Acompanhamos um time de cosmólogos de elite dedicados à pesquisa dessa estranha formação, que risca uma margem para as leis universais da física. Vemos Stephen Hawking (1942-2018), morto durante as filmagens, num encontro com colegas astrofísicos e matemáticos. Um deles enche um quadro com equações cabeludíssimas com a naturalidade de um menino a desenhar sua casinha com árvore e sol. Outro grupo, paralelamente, desenvolve o admirável projeto internacional que permitiu a captação da primeira imagem de um buraco negro, divulgada em maio de 2019. O diretor Peter Galison consegue, sem afetação, dramatização, excesso de cortes e falação, levar um leigo a dar um passinho na direção do conhecimento disponível sobre buracos negros e do árduo, rigoroso e não menos fascinante progresso da ciência cosmológica.

Descansem em paz

As mortes do filósofo José Arthur Giannotti, do cientista político e ex-ministro da Cultura Francisco Weffort, e do crítico musical e ensaísta José Ramos Tinhorão, nesses últimos dias, representam também a pesada perda de intelectuais preparados, respeitados e capazes de refletir e publicar com originalidade autonomia. São figuras imensas perto da pequenez atual em que o pensamento genuíno acovarda quem não se enquadre nos ditames do tribalismo ideológico e identitário. Estamos desgraçadamente mais pobres de ideias críticas. 


Enquanto isso, no ex-caderno de ex-cultura de O Globo


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[A RÁDIO SIUTÔNIO APRESENTA: 1001 CANÇÕES BRASILEIRAS]

 A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta/ Afinal, toca exclusivamente o que gosta/ E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos/ A ouvir um acorde dos novos sertanejos/ Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque/ A aturar um segundo de pancadão pornofunk/ Mas se ainda assim foi bom pra você, ouvinte irmão,/Seja muito bem-vindo à nossa programação

Ney, 80

Foto: Leo Aversa/Divulgação

Feliz aniversário para Ney Matogrosso. Além de parecer 20 anos mais jovem, o homem é fenomenal como artista e também pela autonomia e integridade que o antecedem onde ele atue ou se manifeste. Não é pouco para um país onde a falta de caráter é crônica, senão hegemônica. Aí no primeiro vídeo o tema do álbum Bloco na rua (Sony Music, 2019), que redescobre e enaltece a canção de Sérgio Sampaio (1947-1994). Depois, Nu com minha música (Caetano Veloso: “vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor”), canção tema do novo EP , com o distinto violão de Marcello Gonçalves, também inspirado arranjador da faixa, e a lindíssima Mi unicórnio azul (Silvio Rodríguez), com arranjo de piano e violoncelo do tecladista Sacha Ambach. Mauro Ferreira especulou que o unicórnio da canção seria um emblema do homoerotismo rechaçado em Cuba. O próprio cantautor cubano contradiz essa versão, segundo esta página de uma rádio costa-riquenha. Rodríguez teria se inspirado num grande amigo, o poeta e revolucionário salvadorenho Roque Dalton, morto em 1975 em estranhas circunstâncias. O filho de Dalton falara a Rodríguez sobre a visão de um unicórnio nas montanhas salvadorenhas.

Maria Bethânia fotografada por Jorge Bispo/Divulgação

Beta, Beta, Bethânia, 75

Feliz aniversário (com atraso) para Maria Bethânia. Caráter e autonomia também jamais faltaram a esta artista, que fez 75 anos em 18/6. Bethânia acaba de lançar Noturno (Biscoito Fino), talvez o melhor CD surgido nesta pandemia. A escolha de repertório, como sempre, é das mais esmeradas, como a produção de Jorge Helder. A faixa Bar da noite (Bidu Reis e Haroldo Barbosa), garimpada nos anos 1950, podia entrar na playlist da Rádio Batuta inspirada na boa memória da artista para canções que ouvira no rádio em Santo Amaro da Purificação e, como Caetano Veloso, vem registrando em disco ao longo da carreira. O sopro do fole, composição do sobrinho Zeca Veloso, põe um novo talento na ribalta. Zeca, violonista e compositor, merece ser observado pelos próprios passos. Ultrapassa o prestígio do pai.


A beleza difícil

Meu Deus, será possível, quem não entendeu? Roubo e mexo com um verso de Libra (José Miguel Wisnik) para me interrogar sobre um enigma que cerca essa canção na voz de Eveline Hecker, de Ponte aérea, CD da Biscoito Fino de 2004. Desde 9 de julho de 2016, data da postagem da faixa no Youtube, apenas 134 almas desfrutaram de seu encanto. Posso sugerir vários porquês, mas isso não desfaz o mistério: a beleza nunca foi tão acessível na história humana, mas poucos a buscam verdadeiramente. Parece ter sido o terceiro e último disco da carioca Eveline, também professora de canto, hoje aos 63 anos, a me fiar na Wikipedia. Ela é acompanhada em Libra por Wisnik ao piano e Zeca Assunção no contrabaixo.

Libra – José Miguel Wisnik 

Teu véu
Do mesmo fio em que a vida teceu
Sua fibra
O céu
A cristaleira de estrelas no breu
Se equilibra
Você e eu
A sós e nós
O amor valeu
O amor valeu por todos nós
E eu
Se vejo a luz que vem dos olhos teus
É o que livra
Meu Deus
Será possível quem não entendeu
O sol brilhar
Amanheceu
E assim se fez
A luz nasceu
A luz nasceu mais uma vez

Sangue e pudins da rebeldia

“Não guardo segredo mas sou bem secreto, bem secreto/ É que eu mesmo não acho a chave de mim”. Rapaz, não é todo dia que se vê um verso desses incrustados na melodia como flores no caule de uma linda planta. Abel Silva, o letrista de Fagner em Sangue e pudins (Raimundo Fagner, 1976), aqui se aproxima de um poema simbolista. Os signos se dividem entre a revelação (juízo final, apocalipse) e o medo de um jovem, ao amadurecer, perder a força secreta da rebeldia. Luiz Melodia a gravou em duo com Fagner no disco Amigos e canções, de 1998, e nesse mesmo ano saiu em uma caixa de Zé Ramalho, em faixa emendada com Eternas ondas, de sua autoria. No LP original de Fagner temos em estúdio Luiz Alves (contrabaixo), Robertinho Silva (bateria), Wagner Tiso (piano) e Robertinho de Recife (viola 12 cordas). Há ainda o registro de Simone, incluído em Cigarra (1978). Sua interpretação exagerada anula a força, portanto, a poesia da letra, coisa rara na obra dessa artista. Não ficou melhor a ideia de relacionar a canção incidentalmente com As curvas da estrada de Santos, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. A busca conflituosa pela revelação de uma nada tem a ver com a da outra, ainda que ambas expressem uma típica rebeldia etária naqueles anos.

Sangue e Pudins – Fagner e Abel Silva

Não quero saber quem sou, morro de medo
Nem quero saber aonde vou, é muito cedo

Talvez se eu arrancasse de minha língua o sinal
Talvez se eu inventasse o juízo final

Talvez se eu prometesse sangue e pudins
Ou se eu costurasse a roupa dos querubins

Mas o que eu quero saber
É o que apronta este lado do teu rosto
E o que faz o sossego morar no que está posto

Não guardo segredo mas sou bem secreto, bem secreto
É que eu mesmo não acho a chave de mim

 *

That’s all folks.

Inté e obrigado por ler a Jurupoca!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin assim de nada da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —

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