JU_84 | De como Pantagruel julgou, há 500 anos, uma ação similar à do “votimpresso”

De como um pesadelo pode aglutinar o alarme sobre aquecimento do planeta, um samba de breque dos bons, urubus mendicantes, tanques no Planalto Centrão, uma mina de lítio e uma querela entre dois personagens de Rabelais — os senhores de Beijacu e Chuparrabo — em torno de uma causa muito estranhamente similar, 500 anos depois, ao “votimpresso”, julgada pelo douto Pantagruel, amado filho de Gargântua


Jurupoca_84 – 13 a 19/8 de 2021
 Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


(Foto do alto): Gustave Doré: Ilustração do livro de Pantagruel, 1901. Domínio público – Wikimedia Commons


A asa

Eu não sinto a asa
que bote no meu sono 
o avião? O correio?
Eu não ouço a asa
o dia todo em meus ouvidos.
O pensamento! A usina! 
Eu não alcanço a asa
a serenidade da asa
o voo da asa.
Ou a asa do retrato na parede
a asa dos sonhos a asa dos navios.
Eu nunca penso na asa
com que jamais despertei
nenhuma manhã.

João Cabral de Melo: Poesia completa (p. 42). Alfaguara. Edição do Kindle.

*

Distopia

substantivo feminino

(patologia) localização anômala de um órgão no corpo

1 lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia

1.1    qualquer representação ou descrição de uma organização social futura caracterizada por condições de vida insuportáveis, com o objetivo de criticar tendências da sociedade atual, ou parodiar utopias, alertando para os seus perigos; antiutopia [Famosas distopias foram concebidas por romancistas como George Orwell (1903-1950) e Aldous Huxley (1894-1963).]  

Dicionário Houaiss

Opa, vamos apear. Ora, vamos!

Um dia, sei lá quando, um galo cantou bem aqui num apê por perto, no Belo, longe da roça, longe do mar e Iemanjá. Sonhara? De fato. Fazia um púrpura pôr-do-sol e dois urubus mendicantes meio humanos, um preto e um branco, vinham até mim, uma hora. Me apontava, o branco, o preto era mais arredio, a terra esturricada sob o barranco onde me encostara, e a falta do que beber e comer. Que queriam de mim aquelas belas aves? Não me ameaçavam. Seus olhares eram compassivos até. Se bem que eu lhes quebrasse o galho, fenecesse e apodrecesse logo, ali.

O sonho se alternava com a vigília e persistia um padrão intermitente, como marcado por metrônomo, resistente a cada um de meus truque habituais para apagar a fixação onírica, em geral fixação em alguma faina; inclusive não adiantou o recurso que costumava ser tiro e queda nessas horas: rezar. Primeiro o Credo, depois a Salve-rainha, então dois Pais-nossos e três Ave-Marias.

O reloginho do Kindle marcara 2:54 sobre a página de algo que eu lia, um poema do Cabral, A asa, acho, e não conseguia me livrar de me ver a um tempo ouvir e cantar, em looping, no contratempo entre sonhar e despertar, o samba de breque Baile no elite, de João Nogueira e Nei Lopes, gravado por João, “Fui a um baile no Elite, atendendo a um convite/ Do Manoel Garçom (Meu Deus do céu, que baile bom!)”.

Onde eu estava nesse sonho medonho? Acordado, recordava: “…Meu amor/ Vi chegando um trem de candango/ Formando um bando/ Mas que era um bando de orangotango/ Pra te pegar/ Vinha nego humilhado/ Vinha morto-vivo/ Vinha flagelado/ De tudo que é lado/ Vinha um bom motivo/ Pra te esfolar…”. Esse o sonho de vingança da travesti Eloína contra seu amante, um cana, em Não sonho mais, canção escrita por Chico Buarque para o filme República dos assassinos, de Miguel Faria Jr. O meu era outro, o tema, outro, que voltara a tocar depois de dois bocejos, “Que coisa bacana, já do Campo de Santana/ Ouvir o velho e bom som: trombone, sax e pistom.”

Onde eu me achava? Claro! O barranco em que me recostara ficava no topo de uma montanha na área de um vulcão extinto, terreno o qual, lera no New York Times, deverão explodir, superado dois ou três litígios, para abrir a maior mina de lítio dos Estados Unidos, o lítio, sendo um novo ouro na economia dos homens, essencial na fabricação de baterias de carros elétricos, ajudará a salvar o mundo. E o mundo ao menos tem salvação? “O traje era esporte que o calor estava forte/ Mas eu fui de jaquetão, para causar boa impressão”.

Conformado com a presença dos dois urubus, lia já outra coisa. Era o documento, ainda sob embargo para divulgação pelos jornais; eu lia o sumário do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que me fora enviado pelo FedEx, não por e-mail, pelo portuga da ONU, seu Guterres; eu lia o diagnóstico tenebroso que apresentava uma margem muito estreita, uma brechinha de nada, uma rachadinha para os mais otimistas crerem que é possível deter a elevação da temperatura da Terra até 2050. “Naquele tempo era o requinte o linho S-120/ E eu não gostava de blusão (É uma questão de opinião!)”.

Ai, mais uma quebra de sono, comum, inclusive, em quem já tem a próstata do tamanho de uma goiaba-araçá graúda. Não se dorme mais, é verdade, dizia Dustin Hoffman num filme em que faz um veterano agente da CIA, um vilão no fim das contas, nunca esqueci. “Passei pela portaria, subi a velha escadaria/ E penetrei no salão.” De hora e hora levantamos, os prostáticos, para ir ao banheiro tentar, insatisfatoriamente, esvaziar a bexiga, o fluxo urinário, fininho, mormente no inverno, por vezes não passa dum excruciante gotejamento. E até se sonha que está se aliviando, e isso não passa do impulso neuronal para nos fazer acordar e ir ao vaso.

É de deixar um cabra arretado, além de mareado. “Quando dei de cara com a Orquestra Tabajara/ E o popular Jamelão, cantando só samba-canção./ Norato e Norega, Macaxeira e Zé Bodega/ Nas palhetas e metais (E tinha outros muitos mais)”. É de sonhar com o sono de barriga cheia e incontido, de quem bateu um pratão e tomou todas, na adolescência. Nunca mais, nunca mais. “No clarinete o Severino solava um choro tão divino/ Desses que já não tem mais (E ele era ainda bem rapaz!)”. Este inverno no Belo está estranhamente parecido com o inverno à vera. Mesmo o Belo, já mais para área da Sudene, depois da Pampulha estamos quase já em Salvador, no dizer de uma professora de Português do Cefet, está bem frio. E dormimos melhor no inverno, entre cobertores, na quentura que, quem sabe, remete a algo do aconchego uterino, quando estávamos à caminho da luz. “Refeito dessa surpresa, me aboletei na mesa/ Que eu tinha já reservado (Até paguei adiantado).” Quando o calor vier para valer nos trópicos, temia, vamos evaporar de repente, todos então ao pó revertidos, todos só partículas, todos novamente nadinha. O Pantanal, já viram? E o Dixie na Califórnia? Só desgraça. “Manoel, que é dos nossos, trouxe um pires de tremoços/ Uma cerveja e um traçado (Pra eu não pegar um resfriado).”

Agora, quero ver um pesadelo maior que este. Além do clima, dos urubus mendicantes, da mina de lítio, do samba em looping que nem a reza antiga desembaraçava dos cordões dos miolos, podia ouvir o barulho dos tanques de araque da Marinha a poluir a Esplanada sob olhares piratas de autoridades perfiladas no Planalto Centrão, uma patetice sem tamanho, eta ferro, eta gente besta, gritava alguém da antiga geral, no meu sonho. “Tomei minha Brahma, levantei, tirei a dama/ E iniciei meu bailado (No puladinho e no cruzado)”.

Entramos então, em outra futura ditadura?, eu empapado de suor; uma ditadura jamais pode melhorar, diz a lei, dum Garrastazu Geisel de Costa e Silva Figueiredo Branco a um Vibrião Kaveirão Colérico de Lira Nogueira Neves & Filhos é que se anda. “Até Trajano e Mário Jorge que são caras que não fogem/ Foram embora humilhados (Eu tava mesmo endiabrado!)”.

Os tanques da Marinha desfilavam distantes do mar no Planalto Centrão, um show de roer os bofes e os bagos de um beato. No sonho, o votimpresso, como dizem bons clínicos gerais mineiros da capital e da roça, destiladores de quinta-essência, esse saber herdado dos alquimistas, tomara o posto da Legação da Cloroquina na epopeia brasiliana corrente: “Ói, ocê, num sabe? Sem votimpresso com ivermectina é caganeira na certa, com febre, dor de garganta e a vorta do Lula e do comunismo inda por riba. Votimpresso neles!, sim sinhô, votimpresso é tratamento precoce contra esse negócio de marxismo cultural vermeio”.

Sucedeu então que na minha insônia cunhada no meio de um pesadelo distópico intervalado por um metrônomo dos infernos entrava a leitura, decisiva nessa historinha, que eu mantinha e mantenho, como quem salmodia, de Pantagruel e Gargântua, Vol. 1 da nova e pioneira edição (editora 34) das obras completas de François Rabelais com tradução, organização, notas e excelentes serviços prestados ao idioma e a todos nós, amantes dos livros, neste instante pelo professor paranaense Guilherme Gontijo Flores, e, então, “Quando o astro-rei já raiava e a Tabajara caprichava/ Seus acordes finais (Para tristeza dos casais)”, eu entrava no capítulo décimo:

Como Pantagruel julgou com equidade uma controvérsia maravilhosamente obscura com tanta justiça que seu julgamento foi julgado admirabilíssimo.

Pantagruel, um gigante do Direito, entre tanta coisa mais, o maioral, julgou uma  ação, a causa sobre o diferendo entre os senhores de Beijacu e Chuparrabo, que se enfrentavam numa longa disputa em torno de algo, muito bem comparando, como o votimpresso, um tema digno de biroscas sem banheiro de estradas de terra, onde, numa emergência, mijamos e cagamos no mato, atividade esta que, sem bom treinamento, pode ser desastrosa, como ouvi certa vez de um primo sábio.

Os autos do processo como que traziam, mutatis mutandis, extensos testemunhos de médicos cloroquinistas pós-graduados, mestres da seita hermética Doutores do Tratamento Precoce dos Últimos Dias, testemunhas em favor do votimpresso, e advogados pagos com muito tutu, um deles o marquês de Kakay.

Em primeiro lugar, na Rue du Fouarre”, em Paris, narra Rabelais, Pantagruel “enfrentou a todos os regentes mestres, mestres de artes e oradores e fez todos tomarem no cu”, e o gigante enfrentaria até, estivesse ele por lá, o marquês de Kakay, que por levar um tomanocu no ar acabou provocando, com muito gosto, a demissão do Dodge Diogo Mainardi no Manhattan Connection.

Primeiro, Pantagruel, depois de dispensar a leitura dos autos e juntadas acumuladas por um tempão e mandar à merda os advogados, ouviu o querelante senhor de Beijacu. “Toquei a pequena, feito artista de cinema/ Em cenas sentimentais (à luz de um abajur lilás).” E depois permitiu a Chuparrabo proceder sua defesa em douto linguajar.

Discursa então Chuparrabo, conforme Rabelais, como acabara de ler, e o texto já adentrara minha distopia onírica, como réu sem adevogado nesta pendenga da putaquipariu: “É votimpresso ou vão todos tomar no cu” (aqui por minha conta), mas descreve Rabelais:

“E vejo comumente em todas as boas gaitas-de-fole que, quando se vai à caça de aves, fazendo três voltas de vassoura pela chaminé e insinuando sua nomeação, só se faz tensionar os rins e ventilar o cu, se porventura estiver demasiado quente, e ripa na chulipa, e assim que mal se leu a carta, já devolvem a vaca farta. E um resultado similar se deu, no dia de São Nunca….”

E ia por aí a peroração de Chuparrabo, uma peça de invejar o Gilmar Mendes e o colega dele, Nosso Kassio, e ainda mais, de invernar o eminente jurisconsulto Nosso “Poste” Aras. A obra de Rabelais, que ora atendia intercaladamente minha vigília com o sonho distópico marcado em ritmo 2/4, era, é, foi, 1532, praticamente 500 anos atrás, data da primeira edição, um marco da Renascença. “Num quarto sem forro, perto do pronto-socorro/ Uma sirene me acordou (em estado desesperador)/ Me levantei, lavei o rosto, quase morro de desgosto/ Pois foi um sonho e se acabou”.

Acabava aí o samba, “(Seu Nélson Motta deu a nota que hoje o som é rock and roll./ A Tabajara é muito cara/ E o velho tempo já passou!)”, só para recomeçar, num ritornelo enxofrado que parecia exalar de Sua Excrescência, se bem que dali não exalaria um samba bom, ainda que infernal, nada que preste, além das emanações de nabos e feijão. Talvez algum sertanejo pós-universitário.

Rabelais esconjurou e esconjura ainda acadêmicos conservadores da Sorbonne, pernóstico de todos os tamanhos, prelados, censores, golpistas, Torquemadas, poderosos de qualquer século e costados.

“O julgamento de Pantagruel foi de pronto reconhecido e ouvido por todo mundo e devidamente impresso e redigido nos Arquivos do Palácio, de forma que todo mundo começou a dizer:

“Salomão, que na dúvida restituiu o filho à mãe, jamais mostrara tal façanha de prudência como a do bom Pantagruel: que felicidade a nossa de tê-lo em nosso país”.

E o que dizia o paradigmático acórdão de Pantagruel sobre o diferendo que muito se assemelhava ao do votimpresso? Começava assim:

“Uma vez visto, ouvido e sopesado o diferendo entre o senhores de Beijacu e Chuparrabo, a corte declara que, considerando a horripilação do morcego ao declinar do solstício estival para cortejar baboseiras que sofreram mate de peão pela má vexação dos lucífugos presentes no clima trans-Roma de um madeiro encavalado portanto uma balestra nos rins, o querelante teve justa causa em calafetar o galeão que a governanta inflara, pé calçado e outro nu, reembolsando baixo e firme em sua consciência tantas asneiras quando a pelagem de dezoito vacas…”.

E por aí seguia o acórdão. Mas precisaríamos dos constitucionalistas Gilmar Mendes, Nosso Kassio e Nosso Aras, além do marquês de Kakay, para entender as sibilinas tecnicalidades da peça pantagruélica.

Aprendemos na obra de Rabelais verdades há muito irreveladas, a exemplo do cudepilado das viúvas ou uma leitura definitiva da doutíssima obra A arte de peidar em público (Ars honeste pettandi in societate), tudo saber produzido pelo estudo prolongado e arraigado da 7 artes liberais medievas, o Trivium (retórica, gramática, dialética) e o Quadrivium (música, astronomia, aritmética, geometria), nas quais, aliás, eu via tudo isso no panorama onírico que abrira no escuro tumultuoso do meu quarto, se especializou a turma da dieta, no sentido de conjunto de capítulos de uma ordem religiosa, dos Doutores do Tratamento Precoce do Últimos Dias.

“E foi a Avignon, onde em menos de três dias se apaixonou”  Pantagruel, podemos ler um pouco antes, “porque as mulheres de lá adoravam brincar de tomanotoba, já que era terra papal”. Avignon fora uma das sedes papais, como aprendemos no ginásio, até mil, duzentos e qualquer coisa. “Fui a um baile no Elite, atendendo a um convite/ Do Manoel Garçom (Meu Deus do Céu, que baile bom!)”. Tudo de novo… Caralho! (Interjeição autoral).

Algo em mim forcejava desesperadamente por despertar e me livrar de tudo, tudo, depois do desfiles dos tanques peidorreiros da Marinha no Planalto Centrão, depois do fim do mundo previsto no IPCC, depois da possibilidade de meu cadáver apascentar a fome de dois simpáticos urubus, legais demais essas aves, uma preta outra branca, de aparência quase humana, depois da mina de lítio estadunidense, depois do samba em looping, depois cloroquina e depois do votimpresso, quem sabe depois de voltar para o antes de ter nascido, donde, acho, muita gente, moi dentro, nunca deveria ter fugido, como somos levados a crer nessas horas amargas e pantagruélicas. 

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô
… Ghi — …?


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— clave | NOTAS PARA BOLINHA DE TOTÓ EM FÁ SUSTENIDO MENOR | clave —


Página do jornal britânico The Guardian de terça-feira: Parada “república de banana” de Bolsonaro condenada por críticos, diz a manchete. Via coluna Toda Mídia, da Folha.

Erramos 

Errei, na JU passada, ao tagarelar sobre o neopuritanismo, quando generalizo sobre o acovardamento intelectual diante de patrulhas do pensamento e, em regra, a submissão do jornalismo online aos ditames da Grande Irmã. Ainda que uma exceção a confirmar a regra, é possível encontrar gente como José de Souza Martins, sociólogo e Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP, que escreveu no Valor (6/8) assim: “[…] Os atacantes, por desconhecerem completamente o assunto, fizeram Borba Gato falar e agir 200 anos depois de morto, por meio de sua ação iconoclasta. São cúmplices do Borba Gato falso e fantasioso que se apossou de suas pessoas e de sua consciência ingênua”. Martins diz com clareza e brilho tudo que precisa ser dito sobre o episódio: “Em primeiro lugar, o acontecido documenta o atual estado da ignorância no Brasil, a insuficiente escolaridade, a pobreza do nosso senso comum, a nossa partidarização sem politização, o nosso atraso social, político e cultural.” Escorreitíssimo, prossegue o professor: “O ato revela o estado deplorável em que o país se encontra, no estado de insuficiências dos que querem e precisam protestar e não conseguem, capturados e instrumentalizados pelo ideologismo redutivo e empobrecedor que nos sobrou da falsa política que historicamente nos domina.

*

A Folha dá que em Lisboa vandalizaram o Padrão dos Descobrimentos. O belo monumento à beira do Tejo, emblema do passado colonial português e atualmente um centro de cultura, é, diz a matéria, objeto de “polêmica” e “reflexão”. Se é assim, estamos conversados, e o jornalismo cumpriu sua missão, por mais absurdas sejam “polêmica” e “reflexão”, pura e simplesmente alinhadas assim, sem discussão, pau a pau a busca da verdade história e o delírio reivindicante da esquerda puritana. Deve ser isso a tal “clareza moral” exportada pela academia norte-americana. Em Lisboa já atacaram uma  estátua do padre António Vieira, e um deputado socialista, hoje governo, diz o despacho da correspondente da Folha, propõe que se bote abaixo o Padrão. Por que também não abolir Os lusíadas de Camões, além de Mensagem e dos poemas sebastianistas de Fernando Pessoa, que tal-qualmente exaltam os feitos e as figuras dos Descobridores? Se alucinações derivadas de visões anacrônicas da história de nada servem para melhorar a vida dos índios, hoje, ao menos dão oportunidade a progressistas alucinados de ostentar no espelho sua musculatura intelectual e seu senso de justiça, o qual, como sabemos, é insuperável. Mas vamos morrer de esperar que concordem, digamos, com a destruição das estátuas de Karl Marx, cujas ideias, afinal de contas, alicerçaram a engenharia social stalinista e sua produção de milhões de vítimas, para citar um único caso. Chegamos ao dia de andar na rua e reconhecer bronzes do bem e bronzes do mal. Manuel Garçom, por favoire, uma, não, três bagaceiras!


A Grande Irmã e a lei da selva

Youtube, Facebook, Instagram e outras cabeças da Grande Irmã onde você se informa, diverte, milita, sei lá, não custa lembrar, faturam e se mantêm como empresas trilionárias inclusive graças à polarização que alimentam. Seus algoritmos concentram informações que despertam emoções negativas ou primitivas: medo, ódio e raiva. Campanhas de desinformação fraudulentas das milícias do Vibrião atacaram sem trégua o sistema eleitoral brasileiro (sem falar que as lives do Vibrião Colérico são um maçaroca de fraude, charlatanismo e curandeirismo do começo ao fim). “Ao analisar dados das três redes sociais, fica evidente que existe uma campanha coordenada do bolsonarismo na defesa de voto impresso a partir da instalação da CPI. Há uma reação, e a base acompanha Bolsonaro”, resumiu Guilherme Felitti, da Novelo Data, à repórter Marlen Couto, em matéria de O Globo publicada no domingo antes da votação da PEC. A fraude e a falsificação se tornaram uma ordem de perfeita “normalidade” nas redes sociais. A “ética” que a Grande Irmã mal pratica nos Estados Unidos, ao reagir a investigações abertas por autoridades, não vale para repúblicas bananeiras. Para um país selvagem, a lei da selva.


Ainda a crise

O último ensaio do livro, Jornalismo: ética e responsabilidade, de Merval Pereira, é o mais denso e afinal de contas o texto realmente indispensável de Tempestade perfeita – Sete visões da crise do jornalismo profissional (História Real), já referido nesta JU. Merval explica a um leitor que nunca pisou numa redação o que está em jogo na “repartição de poder dos meios de comunicação de massa com os indivíduos”. Cita o professor brasileiro Rosental Calmon Alves, da Universidade do Texas, ao dizer que “estamos saindo de uma cultura de meios de massa para a de massas de meios”. E recorre ao filósofo francês Jean Baudrillard e a Nicholas Carr, ex-diretor da Harvard Business Review, para mostrar os efeitos da cacofonia num mundo em que cada indivíduo pode se transformar em fonte de informação para milhares de pessoas. O “encantamento e a repetição em círculos” da informação gera fragmentação e uma percepção desconexa da realidade. É por aí que andamos. Merval também esclarece que, a despeito da revolução tecnológica, a funcionalidade da democracia e da esfera pública ainda dependem da mediação da imprensa e de seu papel de informar e formar a opinião, como assenta o filósofo alemão Jürgen Habermas, citado no ensaio. O colunista de O Globo fecha seu texto com um beabá sobre a importância da imprensa que deveria ser emoldurado e presenteado aos detratores do jornalismo profissional:

“Diante dos acontecimentos, [o jornalismo] é aquele que primeiro busca traduzi-los, explicá-los, revelá-los, esforçando-se para fazê-lo da maneira mais isenta possível. Não é o conhecimento que a História propicia, mas ajuda a escrever a História. Não é o conhecimento que a filosofia permite alcançar, mas tem na busca da verdade e do bem comum um alicerce filosófico. Estará sempre longe, muito longe, de encontrar toda a verdade. Mas buscá-la é o seu propósito.”


Enquanto isso, naquele ex-caderno de ex-cultura


Manchas olímpicas

Gastança, desperdício, rastros de corrupção, favorecimento a governos autocráticos e oligarquias políticas mancham há muito tempo a realização dos jogos olímpicos, diz Yasmeen Serhan em The Atlantic, no artigo “How Much Longer Can the Olympics Survive” (quanto tempo vão sobreviver as Olimpíadas?). O Comitê Olímpico Internacional se dá bem com dirigentes chineses e mandatários do Cazaquistão, e faz e anda para cobranças de reformas. Já se propôs fazer da Grécia a sede permanente das Olimpíadas, o que honraria a origem ancestral do esporte e poria fim às “guerras de lances e gastos excessivos que ofuscam seu propósito de unir o mundo” — proposta esta essa olimpicamente ignorada pelo COI.


Céline redivivo

Descobriram-se montes de manuscritos do “monstro admirável” Louis-Ferdinand Céline, deixados para trás pelo escritor, autor de Viagem ao fim da noite, ao fugir da França prestes a ser libertada, em 1944. A história dos achados, 77 anos depois, por certo renderá algum livro, pois anda sobre misteriosas pernas sem tronco nem cabeça. Um jornalista do Libération fora procurado por um homem que lhe teria lhe entregue a papelada guardada em malas enormes, com a condição que esperasse morrer madame Céline, pois se tratava de um esquerdista que não desejava enriquecer a viúva direitista do escritor. Madame Destouches ainda viveria 15 anos desde então, e só bateria seus botins em 2019, aos 107 anos. Pois bem, pode haver vários livros novos nesse baú, material agora de posse de dois herdeiros de Céline. O caso é narrado tim-tim por tim-tim por Use Lahoz, no El País. Devo adiantar que o epíteto “monstro admirável” é do ensaísta e historiador de arte Élie Faure.


Descanse em paz, Paulo José

Paulo José no documentário Todos os Paulos do mundo, de 2018. Vitrine Filmes/Divulgação

O gaúcho Paulo José (1937-2021) era um desses artistas com o dom de alegrar e serenar quem o visse. Era um vocacionado profundo, capaz de penetrar o campo estelar das melhores aspirações humanas e expressá-las com grande naturalidade, seja ao atuar, dirigir ou se comunicar com o público, numa entrevista, por exemplo. Devo-lhe,e a Flávio Migliaccio, meu aprendizado sobre o drama e o misterioso dom da empatia. Minha primeira adolescência foi preenchida pela presença dos dois atores no seriado Shazan, Xerife e Cia, escrito, dirigido e estrelado por eles, de 1972 a 1974. Nunca mais o perdi de vista. Acompanhei seu enfrentamento do mal de Parkinson, com tristeza e também satisfação por vê-lo encarar a doença e preservar a carreira. Coincidências acontecem, e em uma madrugada recente, ao zapear a TV, insone, e vê-lo interpretar Benjamin Zambraia no filme de Monique Gardenberg baseado no romance de Chico Buarque, eu me perguntava, como estaria Paulo José durante esse tempo de pandemia? Era saudade. Na cena, longa e agônica, ele chega em casa e busca no armário um arquivo de fotos recortadas de uma modelo por quem fora apaixonado quando jovem. Estava ali, naqueles minutos, concentrada toda a arte de uma grandíssimo ator, estupendo ser humano a quem um país inteiro deve muitíssimo.


Descanse em paz, Tarcísio Meira

Tarcísio Meira em O Camareiro, sua última peça, em atuação que lhe valeu o Prêmio Shell de melhor ator de teatro em 2016. Divulgação

Sei da morte de Tarcísio Meira (1935-1921) lodo depois de redigir a nota acima. Um amigo me enviara para ouvir a gravação por Jair Rodrigues do tema de Irmãos coragem, novela de 1970 que marca a ascensão do ator como galã da TV Globo, com um “in memorian” por comentário, mas não ligara os pontos, até abrir o notebook, depois do almoço. São Brasis que se vão, respondi, então, ao zap. A carreira de Tarcísio Meira é épica e se confunde com o panorama cultural do país na era em que a televisão unifica o imaginário popular. Seu casamento com Glória Menezes, outra legenda, de longa duração, servia a esse mesmo imaginário como rota complementar ao sucesso artístico, na vida pessoal. Mas Meira foi um grande também no teatro e no cinema, ao viver personagens de Glauber Rocha e Nelson Rodrigues. Seu jagunço Hermógenes, na minissérie Grande sertão: veredas, ou seu Capitão Rodrigo de O tempo e o vento, adaptação da obra de Érico Veríssimo, também pela Globo, foram marcantes e, estou certo, ajudaram a formar milhares de leitores. Sim, são Brasis que se vão, e ficamos na saudade.


[A RÁDIO SIUTÔNIO APRESENTA: 1001 CANÇÕES BRASILEIRAS]

 A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta/ Afinal, toca exclusivamente o que gosta/ E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos/ A ouvir um acorde dos novos sertanejos/ Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque/ A aturar um segundo de pancadão pornofunk/ Mas se ainda assim foi bom pra você, ouvinte irmão,/Seja muito bem-vindo à nossa programação

Morro velho – Milton Nascimento

No sertão da minha terra
Fazenda é o camarada que ao chão se deu
Fez a obrigação com força
Parece até que tudo aquilo ali é seu
Só poder sentar no morro
E ver tudo verdinho, lindo a crescer
Orgulhoso camarada
De viola em vez de enxada
Filho do branco e do preto
Correndo pela estrada atrás de passarinho
Pela plantação adentro
Crescendo os dois meninos, sempre pequeninos
Peixe bom dá no riacho
De água tão limpinha, dá pro fundo ver
Orgulhoso camarada
Conta histórias pra moçada
Filho do senhor vai embora
Tempo de estudos na cidade grande
Parte, tem os olhos tristes
Deixando o companheiro na estação distante
"Não esqueça, amigo, eu vou voltar!"
Some longe o trenzinho ao deus-dará
Quando volta já é outro
Trouxe até sinhá mocinha pra apresentar
Linda como a luz da lua
Que em lugar nenhum rebrilha como lá
Já tem nome de doutor
E agora na fazenda é quem vai mandar
E seu velho camarada
Já não brinca mais – trabalha. . .

Há duas gravações canônicas e intocáveis de Morro velho, uma do próprio Milton Nascimento, do LP Courage, de 1968 (a composição havia sido apresentada no ano anterior, incluída no primeiro álbum do artista, originalmente chamado Milton Nascimento e lançado pelo pequeno selo Codil, que tinha Travessia — canção vice-campeã do FIC, o Festival Internacional da Canção — como porta-bandeira) e outra de Elis Regina (1945 – 1982), nove anos mais tarde. São dois rubis luminosos preciosíssimos do nosso cancioneiro popular e emblemas de uma era em que não faltava talento nem recursos para que a grande arte pudesse se expressar magnificamente. No caso de Milton, o arranjo é assinado por Eumir Deodato, cujo nome é uma grife de criatividade e requinte. Deodato já havia sido co-arranjador de Morro velho em Milton Nascimento, ao lado deLuiz Eça, e logo abriria o mercado norte-americano a Bituca. Em Courage, o arranjo de cordas dá profundidade e salienta a singeleza da letra, expressiva sobre um ambiente sociocultural que fala da ancestral desigualdade brasileira. O violão de Milton que ouvimos na introdução abre as sensações e prepara o ambicioso crescendo. O piano foi entregue a Herbie Hancock, cuja maestria também ajuda a imprimir esse que é um dos momentos mais elevados da MPB. A gravação de Elis, do álbum com seu nome de 1977, trouxe para o estúdio novamente o violão (um Ovation aqui) de Bituca e sua batida. O arranjador, César Camargo Mariano, convocou apenas um violoncelo, de Antonio Carlos Del Caro, para cristalizar a pureza do canto de Elis. O efeito desse minimalismo brota como uma homenagem às raízes plantadas, e ainda bem vivas, por Deodato.


Vida de Ney

Julio Maria, autor da biografia de Ney Matogrosso (458 págs., R$ 89,90, Cia das Letras), é um dos mais competentes jornalistas culturais dedicados à música em atividade no país. Seu nome recomenda a leitura do livro, lançado no início do mês, que espero fazer em breve. No Valor, Eduardo Magossi comenta que “Ney cantou, com sua liberdade, para criminosos esquecidos na penitenciária Lemos de Brito e jazzistas europeus no Festival de Montreux; travestis deserdados na Galeria Alaska, famílias tradicionais no Circo Tihany e metaleiros no Rock in Rio”. E prossegue: “Enfrentou os militares, a homofobia, a aids e até a covid-19, que revela ter tido no início de 2020, sem apresentar sintomas.” Outra coisa que chamou atenção de Magossi foi a liberalidade do cantor nos anos em que integrava o grupo Secos & Molhados. “É surpreendente a revelação de que nesse período Ney não tinha conta em banco e todo o dinheiro que ganhava colocava em um saco e deixava na sala da casa que dividia com muitos amigos para que quem estivesse precisando pudesse pegar”, lemos nessa resenha.

*

Joaquim Ferreira dos Santos fez um programa bacana na Rádio Batuta reunindo gravações por Ney, desde seu primeiro disco solo, de 1975, de canções que, quando jovem, ele ouvira no rádio e na coleção de 78 rpm do pai. A chamada do especial, “Ney Matogrosso, transgressão e tradição”, é um título felicíssimo por sintetizar o caráter de um grande artista impresso em sua obra.

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That’s all folks.

Inté e muito obrigado por ler a Jurupoca!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin assim de nada da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —

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