JU_85 | A linguagem infectada pela mentira

Jurupoca_85 – 20 a 26/8 de 2021
 Hebdomadário de cultura, ideias e
 alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


O ácido da mentira e da grosseria destrói a linguagem e acelera a degeneração do idioma. Parafraseando George Steiner, o português-brasileiro não é mais uma língua vivida. É apenas falada


(Foto do alto): A foto de cortesia publicada pelo site Defense One (15/8), é a imagem do ano para o blog. Vemos o interior do avião C-17 ‘Reach 871’, da Força Aérea dos Estados Unidos, voando de Cabul para o Catar com mais de 600 pessoas a bordo


APERITIVO

— Um Drummond e um João Cabral no começo de vida poética e já grandes. O CDA de Alguma poesia, a bulir com o prosaico e com o teatro do (mau) caráter nacional; e um JC simbolista, encantado pelo onirismo surrealista. —

Explicação

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres, folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos é que faço meu verso. E meu verso me agrada.

Meu verso me agrada sempre...
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta 
sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
A beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrcgo vagabundo,
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.

E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era...
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.

Quem me fez assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta? 

Carlos Drummond de Andrade: Alguma poesia (1930).  Record, 2011, pag. 113.
Dentro da perda da memória 
               A José Guimarães de Araújo 

Dentro da perda da memória
uma mulher azul estava deitada
que escondia entre os braços 
desses pássaros friíssimos
que a lua sopra alta noite
os ombros nus do retrato.

E do retrato nasciam duas flores
(dois olhos dois seios dois clarinetes)
que em certas horas do dia
cresciam prodigiosamente
para que as bicicletas de meu desespero
corressem sobre seus cabelos.

E nas bicicletas que eram poemas 
chegavam meus amigos alucinados.
Sentados em desordem aparente,
ei-los a engolir regularmente seus relógios
enquanto o hierofante armado cavaleiro
movia inutilmente seu único braço.

João Cabral de Melo Neto: Pedra do sono. Poesia completa (p. 50). Alfaguara. Edição do Kindle. 

“Nessa selva de aço e de antenas
Beija-flor tou chorando suas penas
Derretidas na insensatez do asfalto”

De Espelho cristalino, canção epítome do LP de Alceu Valença lançado em 1977

Opa, vamos apear. Ora, vamos!

A própria linguagem é uma vítima do cerrado bombardeio à razão, à lógica e ao senso comum (comunitário). Nosso idioma também foi (ainda mais) degenerado pela antipolítica (política entendida como “arte ou ciência de governar”).

A fraude oficializada (e naturalizada pelo Procurador Geral da República e pelo presidente da Câmara dos Deputados) e a contínua expressão da mentira, bem como o império da grosseria e da ameaça destroem o caráter e a funcionalidade essencial da linguagem (que há muito vem perdendo seu tônus pela falta do influxo da educação geral e literária sobre o inventalínguas do povo, por um lado, e pela assimilação crua e não digerida do inglês como língua franca, de outro.)

A língua que falamos, nosso português-brasileiro, é um idioma ainda jovem e já exaurido e decaído (talvez se possa dizer impotente). Será que morreu?

Talvez daqui a pouco apareça outro patoá dominante, algo um “brasinglês”, definitivamente desfiliado do português materno (“a minha pátria é a língua”, do dizer de Pessoa).

Um idioma pode sim perder o equilíbrio, inclusive para expressar o equilíbrio, além da medida do que é belo e justo.

Venho recorrendo à poesia para tomar ar puro (acredito que a poesia nunca foi tão necessária, e, claro, nunca foi um hábito tão solitário quanto hoje, muito próximo da desaparição, ainda que perdure).

Tento, com a poesia, escapar por um instante do fato de que o português-brasileiro com o qual nos entendíamos minimamente foi gravemente corrompido.

E de que essa corrupção é tão daninha para a linguagem como a erva de passarinho para a espiritualidade de uma árvore (digamos que o “sistema imunológico” da linguagem se torna cada vez mais frágil).

Penso no raciocínio translúcido que encontro num texto qualquer, um período que impacta pela inteligência e por se aproximar da verdade, e que atesta a preservação de nossa capacidade de enxergar (e sentir e pensar); penso numa passagem literária, na letra de uma grande canção, num poema que incitam sensações (e nosso amor pela língua). E penso no meu semelhante que lê e ouve a mesma coisa e não entende (ou sente) nada.

(E penso na pobreza em geral da literatura contemporânea, da música popular contemporânea, do jornalismo contemporâneo, da novela contemporânea, do cinema contemporâneo, do país contemporâneo.)

Quando rasgada e aviltada, a linguagem perde a força para representar uma consciência comum.

Frases e sentidos já não passam de retórica quando a linguagem perde o viço e o vínculo.

É por meio da linguagem que compartilhamos crenças e hábitos em sociedade. A destruição do idioma afeta exatamente esse liame.

Essa é a leitura que faço do artigo (a melhor interpretação que pude ler sobre a tragédia do desgoverno corrente) do professor de filosofia política Renato Lessa, A destruição, publicado pela revista Piauí de julho e que trago novamente à baila na JU.

Lessa recorre ao filósofo e psicólogo escocês Alexander Bain (1818-1903) para dizer que a linguagem degenerada é capaz de quebrar a crença, definida como “hábito da ação”:

“Embora se mova no interior da dimensão tácita, ou seja, dentro dos limites compartilhados por todos, a linguagem pode dar passagem e abrigo a um ato de fala que destrói esses limites e todo o ambiente semântico sobre o qual incide: a palavra podre.”

A destruição parasita a palavra, diz Lessa nos termos dele:

“O sujeito que emite a palavra podre, mais do que algoz da gramática, é inimigo da semântica e da forma de vida a ela associada.”

O autor diz em seguida que a “palavra podre”, ao minar a “dimensão tácita”, se impõe pela brutalidade, na “premissa do não limite”. E com isso, produz “o cenário um tanto trágico de dissolução de uma lógica e de um repertório compartilhados.”

Ecco (Q.E.D. para quem quiser e Helahoho! helahoho!)

“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, ouvimos lá atrás. (Você sabe de quem e quando ouvimos, ou acaba de aterrissar de Júpiter).

Outras frases podres foram excretadas e quase todo diabólico dia tem alguma novidade a testar a escala negativa da imundície, o lixão onde provém o negacionismo “conspiranoico” (bom neologismo espanhol). Mas basta essa aí, citada por Lessa, como emblema.

A frase doeu e ainda rói. A disseminação de seu ácido pela soldadesca da destruição queima a possibilidade de um concerto ético e moral, e vem acelerando a destruição da linguagem e a decrepitude do idioma.

O que representa para a sociedade a perda de tamanha energia para se arrostar (com resultados insatisfatórios) os ataques de ódio e mentira contra o jornalismo profissional, contra as vacinas, ou falsificações como “tratamento precoce”, “ameaça comunista” e “voto impresso”?

Nesse intervalo, fatigados pelo desperdício energético, todos morremos um pouco (além de ter de aprender a conviver com uma inusitada presença da morte).

O saldo, o resíduo, a escória maldita poderão ser esquecidos e tudo superado, quando voltarmos ao “normal” depois da pandemia, e quando passar o adoecimento da linguagem parasitada pelo advento do Vibrião Colérico?

Temo que não haja mais “normal” para as gerações do presente.

O “apodrecimento da linguagem” é um processo de longa duração; uma degenerescência que afeta a inteligência, a imaginação e a qualidade da criação.

O século passado tem vários tomos com lições acerca disso. Algumas podem nos iluminar, por aproximação histórica que seja, quem sabe.

“De acordo: a Alemanha do pós-guerra é um milagre. Mas é um milagre muito estranho”. Assim, George Steiner (1929-2020) abre o ensaio O milagre vazio (Linguagem e silêncio, Companhia das Letras, 1988, pág. 133). “O que morreu foi a língua alemã”, escreve logo abaixo, ao refletir sobre o aniquilamento causado pelo nazifascismo: “Abra os jornais diários, as revistas, a torrente de livros populares e eruditos despejados pelas novas impressoras […]. Não é mais a língua de Goethe, Heine e Nietzsche. Nem mesmo a de Thomas Mann. Algo de imensamente destrutivo aconteceu a ela”. Steiner diz em seguida:

“Uma língua mostra que traz dentro de si o germe da dissolução de várias maneiras. Atividades mentais que um dia foram espontâneas tornam-se mecânicas, hábitos cristalizados (metáforas mortas, símiles vulgares, slogans). As palavras ficam mais compridas e mais ambíguas. Em lugar de estilo, surge a retórica. Em lugar de uso comum preciso, surge o jargão. […] a linguagem deixa de estimular o pensamento, e apenas o confunde. Em vez de carregar cada expressão com a maior energia e ausência de rodeios disponível, afrouxa e dispersa a intensidade de sentimento. A língua não é mais uma aventura (e uma língua viva é a maior aventura de que o cérebro humano é capaz). Em suma, a língua não é mais vivida; apenas falada”.

Sinto precisamente isto: o português-brasileiro não é mais vivido; apenas falado.

Como agravante, a linguagem se deteriora num ambiente em que a engenharia das novas tecnologias da informação passou a guiar os interesses (e desejos) humanos e a juntar e disjuntar esses interesses (e desejos) por meio dos algoritmos, ordenações que produzem a imensa riqueza das Big Tech (pois assim opera a grande máquina publicitária da Grande Irmã). 

Essa ordenação, aliás, influencia inclusive o manejo do idioma e o estreitamento do repertório vocabular. 

A corrupção do português-brasileiro, em particular, nasce nas redes e se manifesta na falação e na cacofonia das redes.

Isso ao menos serve (serve?) para nos lembrar da necessidade das “atividades do espírito enraizadas no silêncio” (ainda no dizer de George Steiner em outro ensaio do mesmo livro), como a leitura, a música e a poesia.

Nosso alheamento em relação a isso e nosso grande apego ao divertimento (“meias verdades, grosserias, simplificações, trivialidades…”) completam o retrato de um tempo trágico, apenas mais um na história humana, è vero, mas história nossa, contemporânea. 

O que estou tentando dizer é que o “apodrecimento da linguagem” pela ação elástica e deletéria da falsificação e da violência verbal ocorre no campo fértil de tecnologias desumanizadoras.

Contrariamente às aparências, e à dinâmica da economia, estamos mais pobres, mais solitários e mais sem ter o que dizer.

Apesar da revolução tecnológica e da comunicação planetária instantânea, nunca, como humanidade, e isso é cada vez mais evidente no Brasil, nunca fomos tão sem graça, tão repetitivos e tão decadentes, ao menos no que diz (dizia) respeito às “atividades do espírito enraizadas no silêncio”.

*

— Você já entrou no TikTok?
— Não. Agora meu único aplicativo é o Tic-Tac.

*

Voltam os sabiás a cantar na vizinhança. Melhora a qualidade de vida.

*

Toco enlevado a leitura de Pantagruel e Gargântua (Obras completas de François Rabelais – vol. 1, organização, tradução, apresentação e notas de Guilherme Gontijo Flores, editora 34). Vou pela segunda parte, o livro de Gargântua. Um pílula, só pra você, leitor assíduo: Epistemão, escudeiro de Pantagruel, perde literalmente a cabeça durante uma batalha e desce aos infernos, até ser ressuscitado pelo sábio devasso Panurgo, que recoloca o pescoço do amigo no lugar. Epistemão reclama por votar muito cedo ao mundo sublunar. Estava a apreciar os Campos Elíseos. E até tivera um breve convescote com simpáticos diabos. Vira que os grandes vultos da história e da épica literária, Xerxes, Ciro, Aquiles, Dario etc. estavam em posição invertida neste outro mundo em relação aos filósofos céticos e humildes. Os papas iam de mal a pior. O papa Júlio era pasteleiro, o “papa Sisto untador de bexiga” [a doença], “o papa Júlio pasteleiro”, e “o papa Calixto era barbeiro de xibiu”.

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


— clave | NOTAS PARA FLORES DE IPÊ AMARELO (AO VENTO) COM CÉU AZUL EM SOL MAIOR | clave —

A volta do terror Talibã

Que cenas!, incluindo a imagem do ano, que vai acima desta edição. E quanto barulho (e quanto sangue e corpos despedaçados) por nada no Afeganistão. “Eu fui um fuzileiro no Afeganistão. Nós nos sacrificamos por uma mentira”, reconheceu um capitão reformado no New York Times. Com o Talibã (estudante), mulheres voltam ao regime de burca e cárcere privado, e perigam ser mortas (se acusadas de adultério) por apedrejamento ou transformadas em escravas sexuais. Adeus escola para meninas. O mundo é tão velho quanto a humanidade, e como a crueldade. Pouco importa se os homens se chamam Bush, Trump, Obama ou Biden. A extensão da desgraça de fato é detalhe. Muda o painel histórico, permanecem a indiferença e a hipocrisia, comuns em toda a empresa colonialista, no genocídio armênio, na Shoah, na Líbia, agora na Síria… Somos uns tolos alimentados pelo noticiarismo de ocasião. No fundo, a merda.


O Capanema no “feirão da União”

Fachada norte do Edifício Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro. Foto: Marcos Leite Almeida/AMB/Wikimedia Commons

É fogo no Museu Nacional; é fogo na Cinemateca; é fogo na Amazônia; é fogo na roupa! O Vibrião Colérico é fogo na roupa! Não que ele mereça ser associado ao simpático slogan da loja de roupas Abdalla (“O Abdalla é fogo na roupa”), de gloriosa memória no Belo para quem se aproxima perigosamente da sexta década. Mas não perco o mote. No desgoverno atual do Planalto Centrão, Meio Ambiente, Saúde, Educação e Economia revelam antes um padrão desídia (senão um modus operandi delinquente) que ações que possam ser chamadas de políticas públicas. Agora, o Edifício Gustavo Capanema, construído como sede do Ministério da Educação e Saúde (inaugurado em 1945) — “o mais importante monumento arquitetônico construído no Brasil no século 20” — entra no “feirão imobiliário da União” ideia do superministro de Pantomima Paulo Guedes. Cristina Serra, na Folha, escreveu o melhor que pude ler a respeito de mais este crime cultural do desgoverno vitriólico e incendiário. Seu texto curto é uma bonita crônica-libelo contra a destruição desta riqueza cultural e histórica. A jornalista assenta o Edifício Capanema no alicerce lírico da memória. Lembra Vinicius de Moraes em carta a Rubem Braga, então cobrindo a Campanha da Itália (“[…] Digam-lhe especialmente do azul da tarde carioca, recortado entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual mesmo em Capri.”). E lembra Carlos Drummond de Andrade, que trabalhou no edifício por 30 anos, e foi quem, repõe Álvaro Costa e Silva, General para seus íntimos, no texto logo abaixo ao de Cristina, “sugeriu a Capanema abandonar o projeto do catedrático Archimedes Memória e convidar Lúcio Costa para elaborar novo plano, do qual Le Corbusier foi consultor e Oscar Niemeyer, idealizador do desenho final, que incorpora o pilotis à cidade, fazendo do espaço entre as colunas um passeio público.” Mas, eu dizia, Cristina cita CDA, que foi chefe de gabinete de Capanema, em seu diário, cujo trecho transcrevo aqui completo (foi parcialmente cortado para caber no espaço da coluna): “Dias de adaptação à luz intensa, natural, que substitui as lâmpadas acesas durante o dia; às divisões baixas de madeira, em lugar de paredes; aos móveis padronizados (antes, obedeciam à fantasia dos diretores ou ao acaso dos fornecimentos). Novos hábitos são ensaiados. Da falta de conforto durante anos devemos passar a condições ideais de trabalho. Abgar Renault resmunga discretamente: ‘Prefiro o antigo’. (…) Das amplas vidraças do 10º andar descortina-se a baía vencendo a massa cinzenta dos edifícios. Lá embaixo, no jardim suspenso do Ministério, a estátua de mulher nua de Celso Antônio, reclinada, conserva entre o ventre e as coxas um pouco da água da última chuva, que os passarinhos vêm beber, e é uma graça a conversão do sexo de granito em fonte natural. Utilidade imprevista das obras de arte”.

*

Além de Lúcio Costa e Niemeyer, o antigo MES (Ministério da Educação e Saúde), no número 16 da Rua da Imprensa, Centro do Rio, representa uma das mais ricas realizações da arquitetura moderna brasileira. O projeto incorpora o trabalho dos arquitetos Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Machado Moreira e Ernâni Mendes de Vasconcellos. Burle Marx foi autor dos jardins. E o exterior é decorado com azulejaria de Cândido Portinari, pinturas de Alberto da Veiga Guignard e Pancetti e esculturas de Bruno Giorgi, Adriana Janacópulos e Celso Antonio Silveira de Menezes. Desde 2014, o Capanema, que também sediava o Ministério da Cultura no Rio, está, em tese, sendo restaurado sob supervisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Vista (fachada sul) do Palácio Gustavo Capanema. Foto Oscar Liberal/Iphan

Cinema Novo

É do balacobaco o documentário Cinema Novo (2016), disponível no Netflix. Seu diretor, Eryk Rocha, parece ter se inspirado em A música segundo Tom Jobim (2012), de Nelson Pereira dos Santos, ao costurar com excelente propósito imagens de acervos, dispensando (e poupando gastos com) a coleta de material novo. A montagem revela um esforço de pesquisa incomum no cinema documental brasileiro. Cenas marcantes de várias dezenas de filmes que construíram o movimento alternam-se com passagens de encontros, entrevistas e conversas entre os realizadores. A turma toda compareceu. Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman, Cacá Diegues, Luiz Carlos Barreto, Ruy Guerra e companhia lá estão, protagonistas, por meio de suas obras ou em agônicas reflexões sobre o preço que a inovação estética cobrava em audiência. Ouvir Glauber dizer repetidamente a palavra “cinema”, com o açúcar de sua fala baiana, tem o pendor dum abracadabra. Redescobrimos um tempo de iluminações criativas e consciência de que, a despeito das dificuldades de financiamento e exibição, aqueles filmes não eram feitos para o bico do povo. Muitos dos debates que o documentário revive cuidam desse dilema: a impopularidade de filmes realizados por artistas que se sentiam iluminados por renovar a linguagem cinematográfica e, ao mesmo tempo, pretender representar a originalidade política e sociocultural do nosso subdesenvolvimento!

*

A produção do Cinema Novo faz pensar num tesouro legado a uma posteridade que, mais educada e preparada, pudesse melhor compreender (e se identificar) com filmes como os de Glauber Rocha ou Joaquim Pedro de Andrade. Pena que o cinema seja uma arte (materialmente até) relativamente perecível, e pena que ainda estejamos muito longe de termos uma “massa” capaz de consumir biscoitos finos fabricados pela, vá lá, alta cultura, parafraseando a (deliciosa) imagem de Oswald de Andrade. Além disso, o mais pretensioso do cinema brasileiro atual, o de Bacurau, Aquarius etc., releva quando muito o lume de uma binga perto do archote de inteligência e criatividade que ardeu nas cabeças (e câmaras) daquela geração.


O “Poste Geral da República” joga maré

O PGR Nosso “Poste” Aras tem um entendimento peculiar das garantias constitucionais e até, deus do céu, dos direitos humanos. O homem parece ser bom no jogo de amarelinha, hábil em pular com uma perna só e chegar ao céu de sua manutenção no cargo, com serviçal do Vibrião. Ele joga o jogo e é capaz de lavrar pareceres históricos como este que assegura a livre manifestação de quem defende a tomada do poder no muque e na bala. Isso quando se digna a se pronunciar, porque em geral prefere ficar na muda, na zona de conforto da inação. Naturalmente, Nosso Aras foi contra (como certa cepa de advogados que cobram milhões de reais por simples consultas) a prisão do ex-deputado trabalhista, barítono de opereta e galã chanchada, animador das milícias do Vibrião en las redes fecales [ver AMM]. O parecer iluminista de Nosso Aras afirmava que a medida em questão, a prisão do ex-deputado, “serviria apenas para cercear liberdade de expressão”. O interessante é que Nosso Aras não titubeou ao processar quem o chamou de “Poste Geral da República”; processou e levou tinta na Justiça. No fundo, é um coitado, “Prevaricador” Geral da República, como o tacham seus pares.


Da arte de bem falar mal: MSC

“Em dez minutos, os pançudos que vestem fardas Prada avacalharam a ideia [de] que darão um golpe de Estado. Caricatos por vontade própria, os pavões verde-oliva grasnaram o seu QI de tico-tico, cacarejaram alto e bom som o quanto são furrecas. Uma tremenda chinelagem.”. Mario Sergio Conti abriu desse jeito seu artigo mais recente na Folha. Valeu-se de Drummond em Explicação, poema de Alguma poesia: “Aqui a gente sabe que tudo é uma canalha só”, e também disse que nossas Forças Armadas não sabem o que é guerra contra o inimigo externo: “da Cabanagem à Balaiada, de Canudos à quartelada de 1964, a oficialidade verde-amarela ataca internamente”. E, ainda (não quero transcrever aqui seu artigo todo, que vale muito ser lido da primeira à última palavra), em andamento de velho deboche marxista: “A força estatal tem lado. É contra o povo, contra os pobres, contra os rebeldes. É tinhosa na defesa dos poderosos, dos ricões e da ordem social. Ao longo do tempo, a função de baluarte dos bem de vida tornou-se uma ideologia abilolada.”


Quantos Tarcísio Meira?

O biólogo Fernando Reinach ironiza quem prefere não usar a expressão “imunidade de rebanho”, por considerar que as pessoas não são gado, mas aceita que a população seja tratada como tal, quando não é informada sobre taxas de reinfecção, internação e morte entre os já vacinados. “Afinal, alguma vaca é informada das vantagens e desvantagens da vacina que recebe no brete?”, cutuca o professor titular da USP. Ele diz em seu artigo para o Estadão, no último sábado que os dados se perdem na Anvisa e a imprensa “se acovarda e não exige acesso”. A razão, segundo ele: “caso os dados mostrarem que uma vacina é inferior a outra, a população pode preferir um imunizante ou outro. E como as vacinas, por incrível que pareça, estão associadas a diferentes grupos políticos, isso dará munição para a disputa eleitoral.” Reinach argumenta que informações sobre os riscos que os já vacinados correm poderiam ajudar na melhor forma de prevenção nesta fase da pandemia.


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ESTAÇÃO SIUTÔNIO

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A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta/ Afinal, toca exclusivamente o que gosta/ E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos/ A ouvir um acorde dos novos sertanejos/ Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque/ A aturar um segundo de pancadão pornofunk/ Mas se ainda assim foi bom pra você, ouvinte irmão,/Seja muito bem-vindo à nossa programação

Sérgio Reis nas paradas golpistas

O entrevistei uma vez, 350 anos atrás, num hotel mixuruca do Belo. Lembro que o homem como o chapelão parecia ter três metros de altura, e a simpatia do mesmo tamanho. Idoso e mal de saúde, possivelmente enrolado em malfeitorias,  deu de defender pateticamente o golpe sulfúrico e enxofrento do Vibrião. O podcast Café da Manhã, da Folha, pegou a deixa para entrevistar o professor da Universidade Federal de Pernambuco Gustavo Alonso, autor do livro Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira. É boa a conversa. Alonso, claro, é um entusiasta do tema, e oferece o subsídio necessário a quem queira entender em perspectiva o fenômeno sertanejo como fruto da nossa indústria cultural. Lembra que Reis, como Renato Teixeira e mesmo Amir Sater não nasceram sertanejos, mas, digamos, se redescobriram em tempo. E retrata essa música (músicas) desde os anos 1930 diante do fundo socioeconômico do país. Mas posa de provocateur fácil ao comparar a revivência da antropofagia (desde a Semana de Arte Moderna de 1922) pela Tropicália com a usina sertaneja de hits. Bobices. O gênero, ou gêneros sertanejos (precisam de aspas sempre) nunca foi capaz de pensar a si mesmo ou formular um programa estético. Em comum, no geral, nas últimas décadas, apenas o mau gosto excruciante e degenerado do canto em terça (três notas acima na escala) das duplas, que nasceu, conforme Matinas Suzuki Jr., com a importante dupla Cascatinha e Inhana. Não há roscofe que aguente.


Caymmi com glacê filosófico

O relicário de Dorival Caymmi (1914-2008) não tem só canções praieiras, não senhor, e vem desde seus grandes sucessos na voz de Carmem Miranda, ou O que é que a baiana tem?. Sua lírica é quase sempre ensolarada. Nosso mitológico baiano nunca foi lá muito chegado à dor de cotovelo que reinava no samba-canção. Esta Nem eu tem seu romantismo recoberto de fino glacê filosófico: “O amor acontece na vida/ Estavas desprevenida/ E por acaso eu também/ E como o acaso é importante, querida/ De nossas vidas a vida/ Fez um brinquedo também”. Caymmi é um artista da síntese, da essência e da precisão (“O mar quando quebra na praia/ É bonito/ É bonito…”: para que mais?). O amor aqui é o amor, fruto do acaso, como uma rosa é uma rosa é uma rosa. Suas imagens pairam sobre um turbilhão de metáforas românticas. No site Discografia Brasileira podemos ouvir a primeira gravação de Nem eu pelo próprio Caymmi, em disco de 78 rpm, lançada em julho de 1952; no ano seguinte a canção ganhou a voz de Hebe Camargo. O registro inicial imprimiu a delicadeza que a canção exigia. Arroubos e extravagâncias em dó de peito a estragam, como provou Jamelão. Mas há ótimas gravações na praça. Minhas preferidas, justamente pela chave original da delicadeza, vão abaixo. A do jovem português Salvador Sobral me surpreendeu e encantou quando a ouvi pela primeira vez. Tem um grande frescor. É como se Caymmi a tivesse escrito ontem e a enviado de presente a um menino lisboeta.

Nem eu – Dorival Caymmi

Não fazes favor nenhum
Em gostar de alguém
Nem eu, nem eu, nem eu
Quem inventou o amor
Não fui eu
Não fui eu, não fui eu
Não fui eu nem ninguém

O amor acontece na vida
Estavas desprevenida
E por acaso eu também
E como o acaso é importante, querida
De nossas vidas a vida
Fez um brinquedo também

Não fazes favor nenhum
Em gostar de alguém
Nem eu, nem eu, nem eu
Quem inventou o amor
Não fui eu
Não fui eu, não fui eu
Não fui eu nem ninguém

Vem de longe a MPB, o que você está achando?

Esta tem 141 anos de vida. Que tal? Pois é, vem de longe a música popular brasileira. Primeiro choro, segundo estudiosos, a polca Flor amorosa é uma composição de Joaquim Antônio da Silva Callado Júnior (1848-1880), carioca, mulato, grande flautista e conceituado professor desse instrumento. Callado costuma ser nomeado “pai do choro”. Depois de sua morte, a melodia de Flor amorosa recebeu a letra bem encaixada de Catulo da Paixão Cearense (1863-1946). Sem letra, até hoje é uma unanimidade no repertório do gênero; com letra, em 2018 foi incluída no CD, já recomendado aqui, A paixão segundo Catulo (selo Sesc). A faixa é interpretada com maestria por Leila Pinheiro e Rodrigo Maranhão. Adoro ouvir e ouvir e ouvir de novo o português parnasiano de Catulo neste choro-canção. A flauta da gravação, cujo canto parece terçar com a do próprio Callado, é do também saxofonista Mário Sève, arranjador e produtor do álbum. Caso você se interesse pelo assunto, Francisco Adelino de Frazão defendeu na Universidade Federal do Piauí a dissertação Literatura e música: uma análise semiótica das canções Ontem ao luar, Flor amorosa e Cabôca de Caxangá, de Catullo da Paixão Cearense. O texto é interessante e fluente.

Flor amorosa – Joaquim Callado e Catulo da Paixão Cearense

Flor amorosa, compassiva, sensitiva, ó, vê! Por quê?! 
És uma rosa orgulhosa, presunçosa, tão vaidosa?! 
Pois olha: a rosa tem prazer em ser beijada... É flor! É flor! 
Oh! Dei-te um beijo, mas perdoa... Foi à toa, meu amor.

Em uma taça perfumada de coral, um beijo dar, não vejo mal. 
É um sinal de que por ti me apaixonei. Talvez em sonhos foi que te beijei. 
Se tu puderes extirpar dos lábios meus um beijo teu, tira-o por Deus. 
Vê se me arrancas esse odor de resedá!... 
Sangra-me a boca... É um favor! Vem cá!

Não deves mais fazer questão. Já pedi. Queres mais? Toma o coração! 
Oh! Tem dó dos meus ais. Perdão. Sim ou não?... Sim ou não?... 
Olha que estou ajoelhado a te beijar, a te oscular os pés, Sob os teus... Sob os teus olhos tão cruéis. 
Se tu não me quiseres perdoar, beijo algum em mais ninguém eu hei de dar. 

Se ontem beijavas um jasmim do teu jardim, a mim... 
A mim... Ó, porque juras mil torturas, mil agruras, por que juras?
Meu coração delito algum por te beijar não vê... Não vê!
Só 

Edu 70 anos em nova edição

A Biscoito Fino relança o álbum com a gravação do show que festejou os 70 anos de Edu Lobo (CD e DVD saíram originalmente em 2013), gravado no Theatro Municipal do Rio. Esta edição especial chega ao streaming com oito faixas adicionais.

That’s all folks. Inté e obrigado pela leitura!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin assim de nada da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —

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