JU_86 | Hic bibitur

Jurupoca_86 – 27/8 a 2/9 de 2021
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Aqui se bebe, diz o latim do título. E aqui se cantam “canções de beber”, como as que compôs Fernando Pessoa inspirado no Rubaiyat de Omar Khayyam. O devoto de Dioniso passa longe ou perto do alcoolismo? Que cada um fale por si. Platão, citado por Montaigne, dizia:  “A embriaguez é uma prova boa e segura da natureza de cada um”. Outra coisa é o favoritismo de Rabelais aos “ilustríssimos manguaceiros”, com os quais a Ju se identifica


(Foto do alto): Henri de Toulouse-Lautrec: No Café La Mie. Cerca de 1891. Museu de Arte de Boston. Domínio público


APERITIVO

É a segunda vez que este Bandeira baixa nesta seção da Jurupoca, mas o motivo da edição, a orbitar os prazeres do vinho, rogava pelo bis; que valha ao leitor a pena o ler de novo!

Bacanal 

Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco…
Evoé Baco!
 
Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo…
Evoé Momo!
 
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos…
Evoé Vênus!
 
Se perguntarem: Que mais queres,
além de versos e mulheres?
— Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…
Evoé Baco!
 
O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!…
Evoé Momo!
 
A Lira etérea, a grande Lira!…
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!

1918

Manuel Bandeira: Bacanal. Estrela da vida inteira, pp 79-80. Nova Fronteira, 1993. 

Caravaggio: Bacchus (cerca de 1598). Galleria degli Uffizi, Florença, Itália. Domínio Público

Opa, vamos apear? Ora, vamos!

Treino na esteira do meu tédio e malho no texto desta Ju. Dou duro. Saúde boa. Agora, com a marvada pinga é que eu me atrapaio, entende? Entro na venda e já dou meu taio; quando pego no copo, dali não saio; ali memo eu bebo, ali memo eu caio. Só pra carregar é que eu dô trabai!

Eita, Brasis!

Uma pro santo, outra pro sorocabano Laureano (1909-1996), outra para Inezita Barroso (1925-2015), que consagrou a moda, outra pra mim. Eu podia, sabe, ter me consultado com o bom e célebre doutor Silvius, que atendeu Montaigne.

Esse clínico, dr. Silvius (meu sogro, risonho, só pronunciava assim meu Siúves), conta o autor de Os ensaios, recomendava um porre mensal como choque metabólico. Terapia para renovar a boa digestão:

“Ouvi Silvius, excelente médico de Paris, dizer que, para evitar que as forças de nosso estômago se tornem preguiçosas, é bom uma vez por mês despertá-las com esse excesso [encher a cara] e atiçá-las para evitar que se entorpeçam.”

O próprio Michel Eyquem, Seigneur de Montaigne (1533-1592), cultivava a temperança, esta magna virtude. “Meu paladar e minha compleição são mais inimigas desse vício do que minha razão”, lemos em Sobre a embriaguez, “pois […] acho-o mesmo um vício covarde e estúpido, mas menos mau e prejudicial que os outros, que, quase todos, chocam mais diretamente a sociedade e o público.”

Se bem que o filósofo francês tenha como marco do exagero, como dizer, um benchmarking épico na bagaceira, pois se refere a certo cavalheiro, “personagens de altas empreitas e êxitos famosos”, que tranquilamente, durantes as refeições, “não bebia menos de cinco lotes de vinho”. E vamos às notas saber que “cinco lotes” equivalem à magnitude de 20 garrafas!, sendo um lote quatro pintas e uma pinta quase um litro. Um portento.

Montaigne até hoje é admirado pela sabedoria e por seu antidogmatismo (“ninguém diz nada contra Montaigne. É o único escritor dessa grandeza que escapa de contestação”, anotou Paulo Francis). Não refuta Platão, seu grande mentor, que proíbe o vinho para menores de 18 anos, mas perdoa quarentões para cima que se “deleitem assim” e levem generosamente a “seus convivas a influência de Dioniso, esse bom deus que devolve aos homens a alegria, e a juventude aos velhos, que suaviza e amolece as paixões da alma, assim como o fogo amolece o ferro.”

Montaigne ainda pinça das Leis, diálogo platônico, esta lição: “a embriaguez é uma prova boa e segura da natureza de cada um”. Noutras palavras: é preciso saber beber sem se deixar brutalizar ou idiotizar e, claro, se matar depressa demais pela bebida.

E Platão, veja você, ainda ensina que o “vinho é capaz de fornecer à alma temperança, e ao corpo, saúde”. E que entre as dádivas de Baco está a capacidade de “dar às pessoas de idade a coragem de se divertirem em danças e na música, coisas úteis e que não ousam empreender em estado normal.”

Já minha própria natureza, humilde e nada filosofante, se por um lado persevera para guardar distância do alcoolismo, com sucesso relativo, por outro é mais chegada aos “ilustríssimos manguaceiros” a quem François Rabelais (1494-1533) dedica sua nota introdutória à “vida espantosíssima” de Gargântua, progenitor de Pantagruel.

Hic bibitur (latim traduzido como “aqui se bebe” ou “aqui se pode beber”), declara Rabelais, por meio do pseudônimo Alcofribas (anagrama do próprio nome), para conclui assim seus prolegômenos:

“Então se esbaldem, meus amores e, quando puderem, e sobranceiramente leiam o resto para o benefício do corpo e proveito dos rins. Porém escutem, seus jegues, ou que a úlcera lhes arrebente as penas: lembrem de brindar por mim para empatar, que agorinha eu já entorno.”

Minha geração, cheia de jegues manguaceiros, bebeu como os alemães da época de Montaigne (pelo menos levavam a fama de insuperáveis chupa-rolhas da Europa: “Os alemães bebem qualquer vinho com quase igual prazer: o objetivo é engoli-lo mais que saboreá-lo”, observa o ensaísta).

Começávamos muito cedo a lida etílica, desgraçadamente, em Minas, no país todo, mormente no interior, e ainda hoje um brasileiro jovem mama bem, a ponto de encabular qualquer estadunidense (como se deve dizer agora) mais ou menos puritano.

A Turma do funil, marcha de Mirabeau com Milton de Oliveira e Urgel de Castro, é um hino de nossa quadra carnavalesca, no caso agregue à introdução esperta de Chico Buarque e Tom Jobim (no Baixo Leblon), que aprecio demais da conta: “Quando é tão densa a fumaça/ Que o tempo não passa/ E a porta do bar já fechou// Quando ninguém mais tem dono/ O garçom tá com sono/ E a primeira edição circulou// Quando não há mais saudade, nem felicidade/ Nem sede, nem nada, nem dor// Quando não tem mais cadeira/ Tomo um besteira de pé no balcão/ Eis que da porta do fundo/ Do oco do mundo/ Desponta o cordão: Chegou a turma do funil…”

Hoje é mais ou menos moda não beber. Além disso, persegue incansavelmente a nós, dionisíacos, certo reducionismo científico que tenta dissuadir um biriteiro em potencial até de sentir o bouquet de uma boa taça ou, antes de morrer, provar uma branquinha de Salinas na cuia, sob pena de perdemos definitivamente os miolos, com condenação degradante à morte precoce e ao enxovalho social. Tal é a ciência da vida eterna, meu bem.

Esta Jurupoca, como poria o tema um editorial do Estadão, tem horror ao alcoolismo, e o alcoolismo nada tem a ver com a camaradagem entre beatos de Baco, outro nome de Dioniso.

Xô neopuritanismo! Depois de enxugar como uma esponja por décadas, de vez em quando moderadamente até, não vou renegar o prazer pretérito nem abjurar os excessos que sequer um jumento cometeria. Seria negasr quem fui e sou; além disso paguei por cada um deles. Oh, criancinhas maiores de idade, não façam como eu faço. Comigo não, violão! Podia até subscrever a autobiografia sacana de Jaguar, que brinca com a Neruda: Confesso que bebi. Memórias de um amnésico alcoólico.

A verdade verdadeiríssima é que entre a meia-idade e a veíce somos levados, na marra, por mais que nos rebelemos, a nos resignar à autoridade do pâncreas, do fígado e de outros órgãos associados ao metabolismo dos altos espíritos.

Vísceras fragilíssimas as nossas!, a propósito. Se nossos antepassados lá atrás ao menos houvessem descoberto como destilar o mé, que meu amado irmão denominada “grozope”, e de tal néctar ter-se provido para sobreviver e reproduzir, seríamos hoje, vai hipótese!, mais resistentes, até capazes, sei lá, de virar o caneco sem culpa nenhuma até os cem, cento e dez anos.

Pois sim. Chega-se a um tempo em que uma canequinha de nada prenuncia um medonho alvorecer. As ressacas vão se tornando mais e mais devastadoras; perto delas, eu diria, com escusas ao poeta, o pior dos círculos infernais é um delicioso piquenique.

Logo, salve a temperança, ainda que tardia!

Mas enquanto se pode gozar (“até aqui tudo bem”) nos divertimos à beça. Não vou maldizer a alegria e a festa! Celebrar a vida e seus pontos luminosos sem vinho, champa, cerva, uísque, bourbon, rum, tequila, cauim, cana, orujo, grapa, bagaceira, pisco ou o trago de sua devoção, leitora amiga, é da maior sem-graceira. Um vazio, um horror, um crime de lesa-ritual. Imperdoável.

Há grande proveito em rodas de bar, bailes, jantares, convescotes, pescarias, rodas de pôquer, acampamentos e debates amigáveis em que implodimos e refazemos o mundo à nossa imagem e perfeição, entre uma e outra saideira.

Não serei ingrato aos espíritos do álcool. Inclusive, devo confessar: no ponto final onde descerei (não pisa fundo, não, seu motô!, sem pressa!), em PL — o gavetão que me aguarda e alguns dos meus já se recolheram (e você, leitor, é meu bastante procurador) — quero que se imprima na plaqueta de bronze, pode ser em corpo 5, à guisa de epitáfio, estes fragmentos do Rubaiyat de Omar Khayyam (poeta, matemático, astrônomo persa) de que já disse algo na Jurupoca Extra – Carta de Quarentena #05.

O Augusto de Campos os verteu da versão em inglês de Edward Fitzgerald, celebrado poeta inglês do século XIX. Essas quadras me parecem quinta-essenciar razões imbatíveis de um pinguço de escol:

Do Rubaiyat de Omar Khayyam

IX
Em Naishapur ou Babilônia, alguma
Taça, ou amarga ou doce, sempre espuma,
Verte o Vinho da Vida, gota a gota,
Vão-se as Folhas da Vida, uma a uma.

XXV
Ah, vem, vivamos mais que a Vida, vem,
Antes que em Pó nos deponham também,
Pó sobre Pó, e sob o Pó, pousados,
Sem Cor, sem Sol, sem Som, sem Sonho – sem.

LXV
Inferno ou Céu, do beco sem saída
Uma só coisa é certa: voa a Vida,
E, sem a Vida, tudo o mais é Nada.
A Flor que for logo se vai, flor ida.

Falando nisso, Fernando Pessoa… pera lá; compostura, redator.

Antes de terminar este suelto devo brindar ao pessoal que que aqui figurou tão bem: doutor Silvius, Michael, Rabelais, Laureano, Inezita, Chico, Tom, Mirabeau, Milton, Platão, Neruda, Francis, Khayyam, Fitzgerald, Augusto, Jaguar, Pessoa e a nós, meu camarada.

Mas dizia, agora sim: a Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, guarda o exemplar do poeta com a tradução do Fitzgerald, em edição alemã, todo sublinhado e anotado.

Bom manguaceiro que era, a ponto de morrer disso ainda muito jovem, Pessoa experimentou em sua obra métrica e temática do Rubaiyat.

Publicou-se em Portugal, por exemplo, o volume Canções de Beber. Rubaiyat na Obra de Fernando Pessoa. É de sua lavra este singelo quarteto [atualizo-o para o português-brasileiro corrente]:

“Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta.
Ora o vinho bebemos porque é festa,
Ora o vinho bebemos porque há dor.
Mas de um e de outro vinho nada resta.”
Fernando Pessoa numa taberna lisboeta, 1929. Domínio público.

NOVO: VEJA A LISTA DE LINKS DE TODAS AS EDIÇÕES DA JURUPOCA


Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


— clave | NOTAS PARA LIRA SEM CORDAS | clave —

Um brinde a João  

 [...]

“Um cão sem plumas é
quando uma árvore sem voz. 
É quando de um pássaro
suas raízes no ar. 
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem.”

[...]
o mar e sua carne
vidrada, de estátua, 
seu silêncio, alcançado
à custa de sempre dizer 
a mesma coisa, [...]

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.” 

Adormeço com o eco desses versos de João Cabral de Melo Neto, do Cão sem plumas. Diz Caetano numa ótima canção, Outro retrato, que este era o João que não gostava de música. Mas compunha a dele próprio, digo eu, própria, e com uma vertiginosa exatidão que tem a claridade da Super Lua. O poeta está aqui, está aí, à mão. Não saí de minha cabeceira neste agosto desgostoso.


Wittgenstein poeta, brindo a isso

Encontrar alguém que também vê o mesmo que vemos sozinho é uma alegria só. Sem treino nem bestunto para alcançar a filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein, me deliciava há tempos com o Tratado lógico-filosófico… como leitor de poesia!, e como tal via e vejo muita sabedoria neste livro, publicado há cem anos. Pois deparo com isso: “Eu diria que o Tractatus é menos uma das grandes obras filosóficas do século 20 que um dos mais imaculados volumes de poesia modernista escrita nos últimos cem anos”, reivindicado pelo escritor e editor Ed Simon em The Millions. De cara o autor argumenta que as sete sentenças do primeiro capítulo do Tratado estão organizadas como stanza (estrofe) de um poema no qual observa uma métrica e figuras de linguagem como a anáfora — na repetição de “o mundo”, ou a sofisticada reiteração de abstrações como “mundo”, “fatos”, “coisas”.

Em português (tradução do alemão Luiz Henrique Lopes dos Santos, Edusp, 1994), fica assim:

“O mundo é tudo que é o caso.
O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas.
O mundo é determinado pelos fatos, e por serem todos os fatos.
Pois a totalidade dos fatos determina o que é o caso e também tudo que não é o caso.
Os fatos no espaço lógico são o mundo.
O mundo resolve-se em fatos. 
Algo pode ser o caso ou não ser o caso e tudo o mais permanecer na mesma.”

A mim impressiona no Tratado tal-qualmente a sexta seção, algo que estica e encolhe, no esconde-esconde em ritmo binário que marca grande parte da obra, mas nos pede uma vida para penetrar seus compassos:

“Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo.
A lógica preenche o mundo; os limites do mundo são também seus limites. 
Na lógica, portanto, não podemos dizer: há no mundo isso e isso, aquilo não.
[...]
O mundo e a vida são um só.
Eu sou meu mundo. (O microcosmos.)
O sujeito que pensa, representa, não existe. [...]

Acolá, ainda tropeçamos com ditos como este: “O mundo é independente da minha vontade” ou esta formulação definitiva, na sexta parte:

“A morte não é um evento da vida. A morte não se vive.

Se por eternidade não se entende a duração temporal infinita, mas a atemporalidade, então vive eternamente quem vive no presente.

Nossa vida é sem fim, como nosso campo visual é sem limite.

O livro termina, no capítulo 7, como uma única frase-conclusão, de longe a mais conhecida do Tratado e citada a torto e a direito: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar!”. [No original é assim:  Wovon man nicht sprechen kann, darüber muß man schweigen.]


Um brinde a Glauber

Glauber Rocha. Foto licenciada como Wikimedia Commons

Glauber morria há 40 anos (22/08/1981), aos 43 anos [informação corrigida]. Atestado de óbito: septicemia decorrente de broncopneumonia. Nos seus últimos anos escrevia para o Correio Braziliense, numa permuta por hotel e comida. Glauber reinventava o português para escrever, impelido pelo vulcanismo de seu pensamento: “A cultura brazyleyra está com kanzer. Toritoma Maligno. Carcinoma Embriogênico. Melonena pulverizantyz. Metástase: os efeitos destrutivos possuíram órgãos, membros e almas dos artistas, dos burocratas que se ocupam de produzir, realizar e distribuir cultura no Brazyl. A televisão está contaminada pelos enlatados promocionais do FBI e da CIA (órgãos de segurança yankz).” No programa Abertura, da TV Tupi (1979), lhe deram um quadro para fazer o que bem quisesse. Ia ao ar aos domingos, creio, e me fazia, com 19 anos, ir dormir feliz da vida naquela noite brasileira, início da transição política, vida pela frente, janelão da idade escancarado, hormônios a borbulhar. Glauber exsudava apelos à leitura, à criação, a ver cinema, à inteligência geral: renovava, abria, encorajava, esperançava.

*

É coisa fina o texto de Claudio Leal, na Folha: Glauber Rocha, morto há 40 anos, influenciou e brigou com gigantes do cinema. Trata da relação estética e pessoal do cineasta com seus pares no mundo, todos grandes, da admiração que provocava e das influências que sua obra pode revelar. Mas didático para o leitor jovem interessado na história do cinema brasileiro é o artigo de Luiz Carlos Merten, jornalista veterano dedicado ao cinema, hoje colaborador do Estadão. Merten põe até um guiazinho intitulado Glauber essencial. Mas melhor que ambos para se reler agora e sempre é a reportagem (que nada deve a uma New Yorker) O crepúsculo de Glauber, de Geraldo Mayrink, originalmente escrita para a Playboy e mais tarde ampliada pelo autor. Mayrink começa por lembrar que, depois de ser preso pela ditadura, se exilar, em 1970, e regressar ao país, em 76, Glauber estava doido, na opinião de muita gente incapaz de entendê-lo. Já se debatia com o longa-metragem A idade da terra, saga do seu ocaso que tentara em vão financiar em Paris, Roma, Moscou, Cidade do México e até em Hollywood! Quando lhe pediam um roteiro acabado, enrolava. É que a história não parava de se transformar dentro de sua cabeça. O cineasta fez a esquerda patrulheira dar faniquitos ao dizer, com antevisão, que o general Geisel começaria a abrir a ditadura. E lhe cobriram de pau e fel ideológico quando declarou, como puro agente provocador: “Se quiser fazer política, vou ser deputado estadual pela Arena (o partido do governo) na Bahia”. Mayrink e todos que repetem isso têm razão: Glauber foi um homem barroco capaz de se impor, antes de tudo, pelo plano geral e histórico que trazia numa consciência sempre penetrante e angustiada.

*

Gosto muito dessa história: quando voltou ao país, Glauber vai morar no Rio, e logo declara sobre a cidade:  “É um porto velho decadente, um embarcadouro apodrecido que soçobra num mar de merda”. Pois já estava assim, então! Vem de longe, claro, a impiedosa destruição da cidade mais bonita do mundo. Mayrink põe a frase no contexto: “recitou ele lentamente, melodiosamente até, com pausas e entonações, vestindo cuecas e olhando pela janela de seu quarto de hotel [em Ipanema], ao repórter Nirlando Beirão, que o entrevistava para IstoÉ sobre política cultural”.

*

Revejo, com proveito, no canal Curta, o documentário de Silvio Tendler, de 2004, Glauber o filme. Labirinto do Brasil. É indispensável como retrato do cineasta nascido em Vitória da Conquista e para que possamos dimensionar a falta que ele faz. Está no Youtube, aí.


Fantasia ‘estadunidense’

Mare of Easttown, na HBO, estrelada por Kate Winslet, é um divertido dramalhão policial com algumas passagens memoráveis, graças à boa direção e ao bom desempenho de um elenco supimpa. Uma crítica essencial que se pode fazer à minissérie é que ela representa a atualização de uma Fantasia de Walt Disney para os dias atuais, adaptada para uma audiência mais ou menos adulta. A redenção estadunidense (como se deve dizer agora americana ou norte-americana) não deixa ninguém de fora. Até um diácono, antes acusado de pedofilia e atacado fisicamente, se salva a tempo de fazer o sermão pascoal da salvação, uma amarração do reencontro comunitário com a verdade, a justiça e a esperança, depois de uma sucessão de crimes, desgraças e traições. Pais e filhos, amantes, vizinhos na cidadezinha se reencontram na missa dita com simbolismo pascoal. Reina a paz num microcosmo de uma “América” (entre aspas pode?) terrivelmente dividida e desigual, parcialmente dominada por Mickeys e Patetas e Metralhas negacionistas antivacinistas, trumpistas, evangelistas, nacionalistas.


Salò no Havaí

E vejo, também na HBO, The White Lotus. No final do sexto e último episódio me bateu a sensação de ter assistido (até o final desta vez, sem “sair do cinema” na metade do filme, como ocorrera em priscas eras) a Salò ou os 120 Dias de Sodoma (1975), de Pier Paolo Pasolini, uma figuração do fascismo italiano no período da 2ª Guerra Mundial. E não só porque a cena escatológica do último episódio da minissérie, em que vemos alguém estrumar explicitamente, me lembrou o ritual coprófilo da fita de Pasolini. É preciso ter estômago para ver essa dita comédia, para mim comédia digamos, noir, criada, escrita e dirigida por Mike White. A vida dura, coitados, dos ricões que vão descansar no luxuoso resort havaiano que nomeia a minissérie é exposta com uma crueza inédita. Os diálogos são nauseantes, excruciantes até, ainda mais quando frisados por uma trilha sonora que parece ter se inspirado em rituais satânicos pós-modernos. Aqui, sim, literalmente entramos na intimidade e nos dramas da gente milionária que, imaginamos, podia bem fazer parte do círculo da família Trump. Todo o dinheiro que a turma torra para fazer de conta que não é profundamente inculta, vazia, mimada, fútil e imbecil não dá para o gasto. Não me tirou uma única gargalhada a sátira de personagens como a jornalista freelance que escreve matérias caça-cliques e não sabe se tem fome ou sede, a empreendedora filiada aos unicórnios do Silicon Valley que fala mandarim, ou a senhora adiposíssima que não se entende com as cinzas da mãe que leva consigo. Há na história um fino destilado da elite liberal (centro-esquerda) norte-americana obcecada com afirmação de gênero e, aqui de passagem e criticamente, com a exploração dos povos oprimidos pelo imperialismo. De um jeito ou de outro, The White Lotus me parece indispensável à compressão do que está em jogo em nosso tempo, da ordem econômica à ordem cultural da civilização do espetáculo envenenada pelas redes sociais.


Brindes a Júlio e Décio

Tenho muitos livros que nunca li. Pego Música impopular (Global, 2ª edição, 2003), coletânea de críticas e ensaios do maestro Júlio Medaglia, hoje aos 83 anos. Vou direto ao texto sobre a Bossa Nova e o Tropicalismo. É bem escrito e interessante mas me parece ter sido articulado principalmente para que o autor se autoretratasse como um dos protagonistas da Tropicália. Ele explica com muita clareza a evolução técnica que a Bossa Nova representou para o samba e como o movimento dos meninos bem de vida sepultou o samba-canção. Agora, a demolição em regra da MPB dos anos 1970, se era injusta antes, e reagiu-se duramente ao maestro, hoje não tem pé nem cabeça. Como um Pantagruel da erudição musical, Medaglia desfaz do conjunto da obra como decadente e irrelevante. Nota-se que ele não ouviu nada. Acha bonita as letrinhas ingênuas da Bossa Nova e mesmo da Jovem Guarda, em contraste com os arroubos de dor de cotovelo de antes, mas não diz um ‘a’ sobre os grandes letristas da MPB que surgiram. Cultor da Jovem Guarda e de tudo que aconteceu na música nacional de “1960 a 1972”, juras que nada mais prestou depois disso. Passa por cima inclusive dos discos mais tardios de Tom Jobim, ou dos arranjos de Francis Hime e de outros maestros de formação erudita como a dele; se cala sobre a importância de Belchior,  Fagner e outros artistas para captar criativamente as aspirações e sensações do jovens da época, da mesma forma que a Bossa Nova serviu um novo requintado para os meninos de classe média mais antenados em sua época; não pia sobre a exuberância criativa de João e Aldir, Dori Caymmi, Paulo César Pinheiro e outro magníficos letristas; e pelamordedeus!, parece não saber quem é Milton Nascimento ou o Clube da Esquina! Gostei mesmo foi do prefácio de Décio Pignatari (1927-2012), simplesmente porque me deu saudade de sua verve provocativa:

“A música de alto repertório [de que trata uns 75% do livro de Medaglia, da vanguarda do século 20: Schönberg, Berg, Webern, Erik Satie, Charlie Ives, Ornette Coleman etc.] é a mais sofrida das artes, neste país, onde qualquer roqueiro pélvico ou cantora gatanhuda ganha mais e tem mais tempo e espaço nas mídias do que um oboísta, que precisa estudar oito anos para ser minimamente competente. Para que sobreviva, muita orquestra é obrigada a tocar arranjos sinfônicos de ‘Mamãe eu quero’ em inaugurações oficiais”.

(Ih, Décio, só fizemos piorar, e degringolamos ao fundo do poço na era das redes sociais! Descanse em paz, poeta!)


Um brinde a Paulo José

No Estadão, Sérgio Augusto perfila Paulo José como o “ator mais bem preparado intelectualmente de sua geração”. Conta que em O padre a moça, de Joaquim Pedro de Andrade, Paulo viveu integralmente como o tal vigário, seu personagem no filme, em São Gonçalo do Rio das Pedras, distrito do Serro, Minas. Corria o ano de 1965. Ele andava de batina por toda parte no lugarejo. “Fui padre full time. Quando não estava filmando, ia à igreja tocar harmônio. As pessoas me pediam bênção na rua”, contou a Sérgio.


Um brinde a Charlie Watts

O mais simpático, fácil de admirar pela simplicidade e o sorriso que foi se tornando definitivamente avuncular, avô e pai de família dedicado que de fato ele era. Leio no excelente obituário de Carlos Marcos, no El País, que Charlie Watts adorava visitar o Prado, em Madri, como outros museus mundo afora, uma compensação à torrente de turnês que não lhe agradava nada. “Era o pulso do rock’n’roll: logrou com sua bateria singela armar todo o ritmo dessa máquina de fogoso rhythm & blues que são os Rolling Stones”, escreve Marcos. Culto, gostava de criar cavalos e tocar na pequena banda de jazz que formara. “Uma vez chegou a afirmar que preferia ao titã do jazz Charlie Parker a qualquer banda de rock’n’roll”. No Guardian, Alexis Petridis o define como o “olho calmo e brilhante da tempestade rock’n’roll dos Rolling Stones”. E o esboça assim: “Ele era sossegado, engraçadíssimo e infalivelmente modesto, características que teoricamente vestiam melhor sua primeira profissão como desenhista gráfico que o mundo turbulento do pop nos anos 1960”. E no New York Times, Gavin Edwards o distingue como “reservado, digno e elegante”, e cita Bruce Springsteen num prefácio para o livro do baterista de sua banda, Max Weinberg: “Tanto quanto a voz de Mick e a guitarra de Keith, o som da caixa de Charlie Watts são os Rolling Stones. Quando Mick canta, ‘é apenas rock’n’roll, mas eu gosto’, Charlie está atrás, mostrando o porquê!”


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A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta/ Afinal, toca exclusivamente o que gosta/ E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos/ A ouvir um acorde dos novos sertanejos/ Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque/ A aturar um segundo de pancadão pornofunk/ Mas se ainda assim foi bom pra você, ouvinte irmão,/Seja muito bem-vindo à nossa programação

“Encadernação vistosa para iletrados”

Descubro na rede: não faz muito tempo, Afonso Borges, criador e curador, como se diz hoje, do Sempre um Papo, há 35 anos! (Afonso é um amigo e incentivador de primeira hora desta Jurupoca), fora acordado com esta música na ideia numa madrugada de pandemia. Pois tinha me ocorrido, Afonso, ao ouvir dia desses a playlist da rádio, tocar Elegia aqui. Resumo da história: um poema do inglês John Donne (1572-1631), Elegy XIX: To his Mistress Going to Bed, é traduzido por Augusto de Campos (Elegia: indo para o leito, em O anticrítico), musicado por Péricles Cavalcanti (Rio de Janeiro, 1947) e interpretado por Caetano Veloso no LP Cinema Transcendental, de 1979. Desço tudo aí para seu deleite. Elegia é uma gema do alto erotismo, do qual nos desacostumamos para sempre diante da degradação pornográfica e do esmagador rebaixamento cultural do país. Uma palavra sobre Donne: foi um poeta metafísico, filho de pais católicos (sua mãe descendente direta de Sir Thomas More). Virou anglicano, pregador (autor de sermões antológicos) e decano da catedral londrina de Saint Paul. “Donne arriscou-se à danação provinciana”, escreve Augusto no Anticrítico, “para ensinar que a poesia é sempre o contrário do que dizem as regras que ela é”. Grande entre os grandes. O êxtase é outro de seus poemas mais conhecidos. Uma palavrinha sobre Cavalcanti: um compositor e músico a correr pelas beiradas da MPB. Seus discos são quase desconhecidos mas entre seus intérpretes, alinha o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, estão Caetano, que além de Elegia botou Blues no álbum Outras palavras, Arnaldo Antunes, Lulu Santos (Festa do prazer), Arrigo Barnabé, Fafá de Belém, Tetê Espíndola, Adriana Calcanhoto (Mais um bolero), Gal Costa (Clariô, O céu e o som e Negro amor, versão, com Caetano, de It’s All Over Now, Baby Blue, de Bob Dylan.), Cássia Eller (Eu queria ser Cássia Eller) e Simone (Elegia). Uma palavrinha sobre a gravação de Elegia no Cinema Transcendental: Caetano andava à época com A Outra Banda da Terra, mas aqui entraram apenas violão e clave, tocados por ele e Tomás Improta. E uma palavra sobre a canção, a ideia da canção, a oportunidade da canção: o poema é magistral; a tradução, obra ousada com grande liberdade pelo Campos “transcriador”; e a melodia tem a levada ideal sugerida pelo erotismo da poesia. Bem, está tudo aí, abaixo, mas devo ainda frisar a exuberância desta imagem de Donne transposta assim por Augusto: “Como encadernação vistosa/ Feita para iletrados, a mulher se enfeita/ Mas ela é um livro místico e somente/ A alguns a que tal graça se consente/ É dado lê-la”. (Like pictures, or like books’ gay coverings made/ For lay-men, are all women thus array’d;/ Themselves are mystic books, which only we/ (Whom their imputed grace will dignify).

Elegia: indo para o leito – Tradução de Augusto de Campos

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
    Deixa que a minha mão errante adentre 
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre. 
Minha América! Minha terra à vista, 
Reino de paz, se um homem só a conquista, 
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério! 
Liberto-me ficando teu escravo; 
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
    Nudez total! Todo o prazer provém 
De um corpo (como a alma sem corpo) sem 
Vestes. As joias que a mulher ostenta 
São como as bolas de ouro de Atalanta: 
O olho do tolo que uma gema inflama 
Ilude-se com ela e perde a dama. 
Como encadernação vistosa, feita 
Para iletrados, a mulher se enfeita; 
Mas ela é um livro místico e somente 
A alguns (a que tal graça se consente) 
É dado lê-la. Eu sou um que sabe; 
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora, 
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes: 
A coberta de um homem te é bastante.

To His Mistress Going to Bed – John Donne 

Come, Madam, come, all rest my powers defy, 
Until I labour, I in labour lie. 
The foe oft-times having the foe in sight, 
Is tir’d with standing though he never fight. 
Off with that girdle, like heaven’s Zone glistering, 
But a far fairer world encompassing. 
Unpin that spangled breastplate which you wear, 
That th’eyes of busy fools may be stopped there. 
Unlace yourself, for that harmonious chime, 
Tells me from you, that now it is bed time. 
Off with that happy busk, which I envy, 
That still can be, and still can stand so nigh. 
Your gown going off, such beauteous state reveals, 
As when from flowery meads th’hill’s shadow steals. 
Off with that wiry Coronet and shew 
The hairy Diadem which on you doth grow: 
Now off with those shoes, and then safely tread 
In this love’s hallow’d temple, this soft bed. 
In such white robes, heaven’s Angels used to be 
Received by men; Thou Angel bringst with thee 
A heaven like Mahomet’s Paradise; and though 
Ill spirits walk in white, we easily know, 
By this these Angels from an evil sprite, 
Those set our hairs, but these our flesh upright. 
    Licence my roving hands, and let them go, 
Before, behind, between, above, below. 
O my America! my new-found-land, 
My kingdom, safeliest when with one man mann’d, 
My Mine of precious stones, My Empirie, 
How blest am I in this discovering thee! 
To enter in these bonds, is to be free; 
Then where my hand is set, my seal shall be. 
    Full nakedness! All joys are due to thee, 
As souls unbodied, bodies uncloth’d must be, 
To taste whole joys. Gems which you women use 
Are like Atlanta’s balls, cast in men’s views, 
That when a fool’s eye lighteth on a Gem, 
His earthly soul may covet theirs, not them. 
Like pictures, or like books’ gay coverings made 
For lay-men, are all women thus array’d; 
Themselves are mystic books, which only we 
(Whom their imputed grace will dignify) 
Must see reveal’d. Then since that I may know; 
As liberally, as to a Midwife, shew 
Thy self: cast all, yea, this white linen hence, 
There is no penance due to innocence. 
    To teach thee, I am naked first; why then 
What needst thou have more covering than a man. 
Elegia – Música de Péricles Cavalcanti sobre a tradução de Augusto de Campos

Deixa que minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo
Nudez total todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la
Deixa que minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo
Nudez total todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la
Eu sou um que sabe

Um brinde à baianinha Baby do Brasil 

Baby, baianinha do Brasil, menina do Rio e do Rá e, eu diria, a me lembrar de uma banda universitária do Belo, (podia ter sido) também do Grande Ah!, 18 filhos criados, paleta sideral azuis nos cabelos, mulher arretada. Como poucas cantoras de voz curta, encontrou seu lugar e conseguiu se plantar no pedaço da MPB. Seus frutos estão aí. Alguns ainda se distinguem, a reluzir, caso deste Farol da Bahia, faixa do álbum Acabou chorare, de 1972.

That’s all folks. Inté e obrigado por ler a Jurupoca!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin assim de nada da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —


 

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