JU_87 | A cultura na clandestinidade

Jurupoca_87 – 3 a 9 de 2021
Hebdomadário de cultura, ideias e
 alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


O intelectual norte-americano Adam Kirsch, ao afirmar (em ensaio provocador e oportuno) que no século XXI a cultura é contracultural (por trazer “mais risco social do que recompensa”, além de “alienação da comunidade” ou mesmo da família) conduz o leitor brasileiro à própria realidade (e a uma não menos profunda transformação cultural)


(Foto do alto): Imagem da exposição Guggenheim Las Vegas Art of the Motorcycle. Wikimedia Commons


APERITIVO

SEBO DE SETEMBRO: UM POEMA READY-MADE
PARA O DIA DA INDEPENDÊNCIA,
FERIADO DO FIM DO MUNDO

{O Brasil murcha a imaginação, resseca o estímulo intelectual. Um sonho intenso! Louco! Raios vívidos! As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado? Em-in-fâ-mia-nós-so-mos-os-pri-mei-ros. Desesperar jamais: aprendemos muito nesses anos. Louco! Mas não traduzia o mais pálido intuito político: o jagunço é tão inapto para aprender a forma republicana como a monárquico-constitucional. Louco! Dir-se-ia que a própria terra onde estavam construídas as nossas casas se purgava dos seus humores, deixando subir à superfície furúnculos que até então a minavam por dentro. Louco! O Brasil é um terreno estéril! Já choramos muito. Aqui não brotam ideias! Muitos se perderam no caminho. Quero ver brotar o perdão! Louco! Nuvens no mata-borrão do céu chupavam manchas torturadas: encontrou o seu paciente quase caindo do leito, vomitando, em grandes golfadas, uma bílis rosada numa lata de lixo. Louco! Eu fumo e tusso fumaça de gasolina. Vence na vida quem diz sim (se te deixam louco, diz que sim). Porque gado a gente marca: tange, ferra, engorda e mata. Mas com gente é diferente. Louco! Nas calçadas ocorria a mais de um notívago sentir sob os pés a massa elástica de um cadáver ainda fresco. Ô gostosura de fim-de-mundo!… Mais garrida! Flexa, povo! Louco! Palmas para os pigmeus do bulevar. Louco! Salve a cor morena do Brasil fagueiro. Salve a mulata: nossa grande produção (não foge à luta!): são, são, são, são quinhentas mil morenas, loiras cor de laranja, cem mil; salve, salve, teu carnaval, Brasil! O Brasil inteiro vale menos que o Estudo número 3, opus 10, de Chopin! Louco! A imagem do Cruzeiro resplandece.}


Opa, vamos apear. Ora, vamos!

Como os peixes figurados nas catacumbas (uma cifra da fé do cristão perseguido), sonhei que arqueólogos do futuro achavam em tumbas desenterradas fragmentos de partituras de Mozart e Villa-Lobos, trechos de Guimarães Rosa anotados a carvão, versos de Fernando Pessoa a giz e figurações (com pigmentação vermelha) do Êxtase de Santa Tereza, de Gian Lorenzo Bernini.

Ao acordar me dei conta do disparate daquela miséria de metafonírica, se posso inventar essa palavra. E quão ousado fora transpor a arte como sucedânea da fé (nessa altura do campeonato da série Z!), na aproximação simbólica da crença com o sonho humanístico da ilustração.

Sonhar ainda se pode. Mas o que agora está em jogo não é um veto à liberdade de expressão ou religiosa (ainda que isso ainda aconteça, na China, no Afeganistão, na Arábia Saudita e por ali), mas a simples extinção de um sentido de ser.

 “Como assinalam a desaparição de certas espécie de sapos ou insetos, está em curso uma profunda transformação climática, no caso uma transformação cultural”, assinala Adam Kirsch no estimulante (para dizer pouco) ensaio Culture as counterculture, publicado na revista literária The New Criterion.

Kirsch, prestigiado poeta, editor e ensaísta norte-americano (é bem mais que isso), sustenta que o estado atual da cultura, no século XXI, é de uma existência, ou resistência (por que não?) contracultural.  

Embora encare a realidade norte-americana e debata os descaminhos da “alta cultura” no seu país, Kirsch é culto e inteligente demais para se deixar entrincheirar no bolorento dramalhão do embate entre realização artística e consumismo, entre a iluminação e a banalidade.

 Ainda jovem (45 anos) não perderia tempo em fazer tábula rasa da cultura pop (e até concorda com Susan Sontag em que o pop oferece prazeres legítimos genuínos que nos fariam falta se não existissem).

Seu texto não trata disso.

Mas um leitor brasileiro do ensaio sente-se bem à vontade para cortar o advérbio “alta” e considerar simplesmente a “cultura” (e não é difícil dizer por quê).

Contracultura aqui, agora

Vejo as coisas assim: a realidade entre nós é que Debussy e Villa-Lobos ou Guerra-Peixe ou Radamés ou Bidu Sayão (e a propósito Nelson Freire) frequentariam com prazer o botequim acadêmico de Pixinguinha, Tom Jobim, Ary Barroso, Milton, Dorival, Gil, Noel, e todos os (geniais) instrumentistas…

Ou podemos pensar em outros gêneros musicais, no modernismo, no concretismo, na poesia e na ficção literária mais difícil produzida nos últimos cem anos: tudo que podemos chamar genuinamente de “cultura” integra, também por aqui (e agora) o campo contracultural e subversivo (já veremos isso melhor), o mesmo onde Kirsch situa a “alta cultura” nos EUA.

No Brasil, teríamos que convocar a ciência jurídica de Pantagruel para comprovar a existência ou a sobrevivência ou a relevância de alguma “alta cultura” em 2021 (poucas e boas!)

(De novo ao Kirsch) O autor percorre um longo caminho de proposições e refregas acerca do papel social e valor de uma formação cultural mais autêntica.

Retorna à época vitoriana, século XIX, quando a cultura passava a ser vista na Inglaterra como panaceia civilizatória.

Restabelece a fértil influência do crítico britânico Matthew Arnold (1822-1888) e seu livro Cultura e anarquia (1869) sobre a inteligência norte-americana — relida cento e tantos anos mais tarde pelo historiador Lawrence Levine (1933-2006), que apontou criticamente a fragilidade das célebres hierarquias “highbrow/lowbrow” (alta criação e entretenimento vulgar).

“Doçura e luz” (Sweetness and light)

Arnold era um utópico sobre o poder da cultura de influenciar a democracia, reeducar elites bárbaras e classes médias filistinas.

O homem definia a cultura como “o melhor do que foi pensado e dito no mundo”, e sublinhava a experiência cultural como o nobre desfrute de “doçura e luz”.

No século XX, no retrospecto de Kirsch, em vez de a cultura democratizar a democracia, ocorre o contrário.

A expansão da alfabetização e da educação pública, a disseminação de bibliotecas e o surgimento de tecnologias como o fonógrafo e a rotogravura é que democratizam a cultura.

Mas logo se descobriu, continua o autor, que “as mesmas forças que tornaram a alta cultura acessível (ou, se diria, inclusiva) também criaram uma cultura de massa mil vezes mais popular, lucrativa e influente.”

Kitsch, indústria cultura e outras milongas

Para muitos críticos, abriu-se a caixa de Pandora. Antes da metade do século passado, em 1939, o influentíssimo crítico judeu marxista Clement Greenberg (1909-1994) já observa a marcha triunfal do “kitsch”.

James Joyce e Pablo Picasso, maiores representantes dos valores genuínos da criação, conforme Greenberg, cediam seu posto ao facilitário e à frenética globalização, com perda das identidades locais e consumo de mero divertimento padronizado, degenerado e embalado como cultura.

Menos de duas décadas depois surgiria a demolidora e longeva diatribe filosófica na órbita da “indústria cultural”, pontificada pelos filósofos alemães marxistas Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1894-1973).

Protagonistas da famigerada Escola de Frankfurt, a dupla colocava a indústria da cultura como um ramo (ou seria um tronco?) do capitalismo, capaz, na era da “reprodutibilidade técnica”, impor goela abaixo do consumidor um mundo projetado como sombras na caverna de Platão, ou uma “falsa consciência”, por meio do canto da sereia de mercadorias como filmes, música (incluindo o jazz), ficção barata e propaganda, tudo para encobrir a realidade.

Coube ao crítico, editor e filósofo Dwight Macdonald (1906-1982), interpõe Kirsch, notar que na esfera socialista a cultura estava longe de cumprir os ideais humanísticos de elevação espiritual.

Na prática, o sistema soviético operava no mesmo registro da indústria cultural, impondo de cima para baixo o que devia e podia ser apreciado pela massa (pior, devo acrescentar, condenando à morte ou ao degredo o artista que se rebelasse contra o “realismo socialista” jdanovista).

Susan na estrada de Damasco

Nos anos 1960, ao reagir ao patriarcado e saudar os novos tempos de paz e prazer, a contracultura fez tudo que podia para minar a (assim observada) autoridade da “alta cultura”.

Isso ia dos beats a Susan Sontag (1933-2004), que num ensaio famoso cantarolou em excelente prosa que esse negócio de botar os Beatles degraus abaixo de Beethoven numa escada estética não tinha nada a ver.

Menos de 30 anos depois, lembra Kirsch, Sontag viveria intelectualmente seu momento apóstolo Paulo na estrada de Damasco.

Em um “melancólico posfácio” na reedição daquele texto, ela reconheceu que muitos gurus intelectuais aproveitavam a festa da contracultura para “derrubar portas já dependuradas nas dobradiças”, e que as “artes mais transgressivas” tinham se revelado “frívolas e consumistas”.

A Sontag de 1996 revelava que não tinha mais problema para dizer que, sim, se tivesse que eleger entre Dostoiévski e The Doors, ficaria com o primeiro (mas por que faria isso?).  

Apóstolos do caos e surfistas

Kirsch esbarraria na perfeição se botasse Umberto Eco (1932-2016) na conversa (não o fez, quem sabe pelo fato de o italiano não ter sido tão influente nos EUA quanto fora no resto do Ocidente).

Foi Eco, em Apocalípticos e integrados (1965), quem originalmente procurou modular o universo dos profetas do fim do mundo, visionários da diluição e da pobreza cultural, filhos das teses da Escola Frankfurt, e dos surfistas do presente, felizes consumidores das benesses barateadas pela tecnologia, com seu poder de determinar os fluxos da criação e a nova inteligência, conforme os poéticos arrazoados do canadense Marshall McLuhan (1911-1980) em livros-bomba como A galáxia de Gutenberg ou Os meios de comunicação como extensão do homem.

Extinção online em tempo real

Mas é no admirável mundo novo século XXI que a porca torce o rabo de vez.

No advento miraculoso das novas tecnologias que revolucionam a comunicação, romperam-se todas as hierarquias e mediações.

Os profetas da felicidade universal do Vale do Silício anunciam a revolução dos dispositivos que permitiriam a quem pretendesse se tornar músico, escritor ou artista.

Deu no que deu:

Vivemos o começo de um processo aparentemente irreversível de extinção de certas espécies de sapos e insetos…

Kirsch observa que as plataformas de streaming e o livro eletrônico (um quase oligopólio da Amazon com o Kindle)  e (se ele não aduz, aduzo eu) as redes sociais conseguiram, isto sim, comprovar o quão insignificante se tornou a demanda pela “alta cultura” (ou pela cultura se quisermos).

O ensaísta estima que não mais 1,5% da população dos EUA, cerca de 1,6 milhão de pessoas, ainda podem se interessar pela música clássica ou a leitura de livros complexos como os de Joyce.

Enquanto o primeiro movimento da 5ª Sinfonia de Beethoven obtinha 1,5 milhão de streams, uma pop star chamada Olivia Rodrigo faturava mais 800 milhões.

No Brasil, quantos seríamos? Trezentas mil almas? Menos?

Rejeição e alienação

Se o ideal da formação cultural mais apropriada é uma história antiga e conturbada, “o que é novo” nisso tudo, afirma Kirsch, “é a rejeição da alta cultura tanto na teoria como na na prática”.

A palavra de ordem é inclusão.

O curador de uma exposição no Guggenheim sobre a beleza das motocas (Art of the Motorcycle), lemos no ensaio, declarou que chegara o tempo de prestarmos menos atenção em artistas como Monet, segundo ele um ícone do elitismo eurocêntrico.

O museu, defendia esse curador, deveria se tornar cada vez mais um “espaço inclusivo, onde todos sejam reconhecidos e ouvidos”.

Por essas e outras, Adam Kirsch concluirá seu texto dizendo:

“Finalmente, a cultura é contracultural no sentido de que traz mais risco social do que recompensa. Preferir coisas que são antigas, distantes e difíceis para aquelas que são imediatas e onipresentes significa alienar-se de sua comunidade, em alguns casos, de sua própria família”.

No século XXI, diz ainda nosso autor, “a cultura não é um ativo nem sequer nos estritos recintos onde poderia parecer mais cômoda”, ou seja, na academia.

Guinga na contracultura

Hoje, nos termos do autor, “esteticismo, pessimismo”, encarar a “dificuldade” de ler a obra de Proust (aqui em libérrima interpretação deste redator), entender algo de pintura ou ouvir, nem digamos Beethoven mas, sei lá, Guinga! ou João Bosco! Também são gestos altamente contraculturais.

Cultuar Pixinguinha ou Jacob do Bandolim (terão ambos ficha limpa nos arquivos de integridade moral dos neopuritanos?) é ser mais subversivo que um adepto da contracultura nos anos 60, quando se trocava “ideais da modernidade”, como “ironia, complexidade e consciência da tradição em favor de sinceridade e imediatismo”.

“Um certo desafio elegante”

Kirsch ainda podia ter juntado aos seus argumentos (penso humildemente) que o populismo cultural se fortaleceu tanto desde o final do século passado que acabou por receber várias (e duras) camadas de verniz ideológico (santificado pelas bênçãos de ideologias que se consideram o sal da terra).

Parafraseando o autor, no século XXI, enquanto a rudeza cultural de filisteus se torna um ativo, defensores do “desfrute de um certo desafio elegante” são denunciados como esnobes e intimidadores.

Ao terminar de ler o ensaio de Adam Kirsch pensei logo em escrever isso, e não terminaria esta lenga-lenga sem dizê-lo: nós, da contracultura, subversivos da nova ordem, minoria invisível, sabemos sobejamente que a cultura é perfeitamente inútil. E aí que está o busílis. 

Ou, nas palavras de Kirsch, a cultura “não é um meio para um fim, mas um fim em si mesmo — o que a torna o oposto do dinheiro, nosso padrão usual para medir o valor.”

*

Arte e serventia

Dizer que a cultura não é um meio para se chegar a um fim não é o mesmo que dizer, como faz Oscar Wilde no prefácio de O retrato de Dorian Gray, que “toda arte é completamente inútil”. Mas bate no mesmo alvo. “Não significa que a arte seja inútil”, diz Javier Cercas nesta coluna, “significa apenas que é inútil aos olhos do utilitarismo burguês ignorante que asfixiava Wilde e a seus contemporâneos (e que ainda sai a campo por nossos respeitos).

Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


— clave | NOTAS PARA SERROTE EM RISTE (PARA SE TOCAR COM O ARCO) | clave —

VALE A PENA LER DE NOVO (AINDA NÃO LEU?). EM OUTRAS PALAVRAS: A FI(M)EMG É UMA DECADÊNCIA INFAME. SEU MANIFESTO EM PROL DO CANGAÇO DIGITAL É A PROVA DO FIM. A INDÚSTRIA MINEIRA SÓ ANDA PARA TRÁS OU, NO MELHOR DOS CASOS, DE LADO. NAS MINAS DOS MATOS GERAIS, DESDE AS ENTRADAS E BANDEIRAS PROSPERIDADE EQUIVALE A DESTRUIÇÃO AMBIENTAL. COMEM SERRAS, VOMITAM COMMODITIES E O ATRASO É GERAL. AS CIDADES DA MINERAÇÃO SE TORNAM UNS AGLOMERADOS FEIOS AMEAÇADOS DIARIAMENTE PELA HECATOMBE. E O ZEMA NEM GEMEU NA GARGANTUESCA CIDADE ADMINISTRATIVA?

*

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Filosofia em ação

“Já é hora de desmitificar o sublime”, diz o filósofo alemão Peter Sloterdijk, referindo-se ao romantismo que cerca a natureza, ou certa ideia da natureza, desde a Europa mais culta do século XIX — e também ao advento da pandemia da covid. Vírus e bactérias, pestes e devastações são perfeitamente naturais, não é de agora. “Para Goethe, a natureza se vale da morte como meio para [em tradução bastante livre] prover mais vida. Devoto demais para ouvidos modernos”, ele observa a Hector Pavon, no Clarín.  Sloterdijk cumpre bem o papel que defende para o filósofo (“um trabalhador público do esclarecimento” no lugar do “filósofo de gabinete”). Sua obra resgata o termo “imunologia” da esfera biológica por sua aparição originária no direito civil romano, no sentido de proteção de funcionários públicos contra abusos autoritários (donde “imunidade parlamentar” etc.), e por extensão, argumenta, de resguardo e proteção comunitária contra vulnerabilidade humana a toda espécie de dano; isso inclui cidades, habitações seguras e vacinas, por exemplo. Daí ele defender a transformação da “metafísica clássica numa imunologia geral”. Mas nada protegeu o planeta da “espiral de desgraças” que resultou da vingança dos EUA contra os atentados de 11 de Setembro, que completa 20 anos neste mês, pondera. As reações irrefletidas (para atender à demanda interna, acrescento) causaram mais de um milhão de mortes no Afeganistão, no Paquistão e no Iraque, aponta o filósofo. Em outro bordo, desconstrói a lenga-lenga sobre os fanáticos do Al Qaeda e do Isis pregar uma “visão distorcida” do Islã, como ouvimos toda noite na GloboNews. O resgate histórico das disputas teológicas que levaram à retórica jihadista (“guerra santa”), ele diz, revela consequências que remontam à invasão napoleônica do Egito, em 1798. Seja como for, para Sloterdijk as correntes do islamismo que pregam a paz e contestam a legitimidade da jihad não são muito convincentes. “Uma olhada nos livros de história é suficiente para ver que o Islã se mostrou quase sempre uma religião da espada; para dizer isso com suavidade, sempre teve grandes dificuldades com os infiéis”, disse.

*

Também grifei nessa entrevista a passagem em que Sloterdijk explica porque havia dito, numa viagem à França, que “a mediocridade salvará a Europa”. Sustentam seus bigodes que o continente, depois de figurar como farol do mundo dos séculos XVI ao XX, e de ter se rebaixado em duas guerras mundiais, hoje se “conforma no clube dos impérios humilhados que aceitaram que não lhes resta outra alternativa senão uma política de circunspecção pós-imperial”. Ironiza, então, o fato de Grã-Bretanha, com o Brexit, ter se entregado ao “sonho anacrônico da soberania imperial”. Com a saída da turma, ele diz, a União Europeia, que “era por si demasiado grande, não tem muito que lamentar.”


Faulkner retratado

É difícil não saber quem foi William Faulkner e ainda mais difícil ignorar a importância topográfica de sua obra depois de lermos o artigo de Paulo Nogueira no Estadão deste domingo, a propósito do lançamento de uma nova edição do romance Luz de agosto no Brasil, pela Companhia das Letras.  


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ESTAÇÃO SIUTÔNIO

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A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta/ Afinal, toca exclusivamente o que gosta/ E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos/ A ouvir um acorde dos novos sertanejos/ Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque/ A aturar um segundo de pancadão pornofunk/ Mas se ainda assim foi bom pra você, ouvinte irmão,/Seja muito bem-vindo à nossa programação

Antena da raça

Só pode ser o dom do artista, aquilo que se chamava de “antena da raça”, para explicar tão oportuna e bem-vinda reaparição. É que Alceu Valença solta agora, quando mais precisamos de coisas desse nível, nova versão da deliciosa embolada Papagaio do futuro, música que apresentara na última versão do FIC (Festival Internacional da Canção), exibida pela TV Globo, em 1972. A composição o levou, irmanado com Geraldo Azevedo, a bater na porta de Jackson do Pandeiro (1919-1982), em sua casa no subúrbio de Olaria, no Rio de Janeiro. Convenceram o ídolo de ambos a se apresentar com eles no festival. Problemas técnicos acabaram por gorar a classificação de Papagaio do futuro no FIC. Mas ficou estabelecida uma relação pessoal de Alceu com o mestre, uma de suas grandes influências artísticas. A embolada entrou como faixa (lado B) do LP da Som Livre (1974) Molhado de suor. O avulso de Papagaio do futuro lançado nessa terça-feira (31) pela gravadora Deck é um alento, a expressão concentrada da arte de Valença e de sua alegria e verve, capazes de nos tirar do sério, quando a seriedade ameaça nos matar neste país tropical tão pobre e trieste.

Papagaio do futuro – Alceu Valença

Estou montado no futuro indicativo
Já não corro mais perigo
Nada tenho a declarar
Terno de vidro costurado a parafuso
Papagaio do futuro
Num para-raios ao luar...

Eu fumo e tusso 
Fumaça de gasolina
Olha que eu fumo e tusso 

Quem sabe, sabe, que não sabe sobra
Sempre sobra, cobra caminha
Sem ter direção 
Que sabe a cabra
Da barba do bode? 
A ave avoa
Sem ser avião

Vamos salvar as serras da beira do
Rio a Santana 

Serra do Mar, Serra da Remetedeira
Para cantar eu sou madeira 
Cheguei na Serra do Poço
É um colosso a Serra do Riachão, 
Brejo, Brejão, tô na Serra da Capela
O Catuaba tá doente da goela
Ficou de sentinela se ele morrê
Vai pro céu. Fiz o chapéu feito
Da paia do mio, Serra da Beira
Do rio, Serra de Montevidéu

“Um Pão de Açúcar sem farelo”

Este ano não tivemos o Censo do IBGE, mas o leitor da Ju não fica sem. Ainda que tenhamos juntos de regressar a 1940, por ocasião da realização do censo geral determinado por sua excelência Getúlio Vargas, em sua vilegiatura como ditador do Braziiilll. O grande Assis Valente (1911-1958), a quem este jornal não cansa de homenagear (e admirar), tomou o mote em um de seus sambas mais ilustres, Recenseamento. Valente brincava com a história com uma ironia cortante sob o anestésico da lira, mas não deixava de fotografar as eternas diferenças sociais no país e os apertos sofridos pelo pobre que pula miúdo para subsistir. Ao recenseador daquela época cabia, como hoje, esquadrinhar a vida da pessoa ou da família pesquisada, mas hoje é impensável que um representante do IBGE vá notar a “mão sem aliança” de uma dona e “encarar para a criança que no chão dormia” para então lhe sapecar a pergunta: se seu “moreno era decente/ Se era do batente ou se era da folia”? Mas a dona, na letra, na verve de Valente, se sai muito bem do enrosco. Gosto demais da sequência em que, no lugar de descrever os bens da família, sei lá um rádio, um fogão, uma aparelho de chá, cita, por não ter mais nada, as riquezas do país, das quais se vê obrigada a se ufanar (era uma praxe entre os compositores da Era do Rádio durante a ditadura Getúlio): coisa de valor que o Brasil lhe deu, e a seu moreno: “Um céu azul, um Pão de Açúcar sem farelo/ Um pano verde e amarelo/ Tudo isso é meu!”; e mais: “Tem feriado que pra mim vale fortuna/ A Retirada da Laguna vale um cabedal!/ Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia / Um conjunto de harmonia que não tem rival”. Valente compunha para Carmen Miranda (sua musa maior, por quem teria tido uma paixão frustrada) gravar, o que ela fez nesse caso, depois de recusar, olha só, Brasil pandeiro, para grande dissabor do artista. Desde a gravação de Carmen vieram ótimas interpretações, pouquíssimas, incrivelmente. Aí vão três de que gosto muitíssimo.

Recenseamento — Assis Valente  

Em 1940
Lá no morro começaram o recenseamento
E o agente recenseador
Esmiuçou a minha vida
Que foi um horror
E quando viu a minha mão sem aliança
Encarou para a criança
Que no chão dormia
E perguntou se meu moreno era decente
E se era do batente ou se era da folia
Obediente, eu sou a tudo que é da lei
Fiquei logo sossegada e falei então:
O meu moreno é brasileiro e é fuzileiro
É quem sai com a bandeira do seu batalhão!
A nossa casa não tem nada de grandeza
Nós vivemos na pobreza sem dever tostão
Tem um pandeiro, tem cuíca, um tamborim
Um reco-reco, um cavaquinho e um violão!
Fiquei pensando e comecei a descrever
Tudo, tudo de valor
Que meu Brasil me deu
Um céu azul, um Pão de Açúcar sem farelo
Um pano verde e amarelo
Tudo isso é meu!
Tem feriado que pra mim vale fortuna
A Retirada da Laguna vale um cabedal!
Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia
Um conjunto de harmonia que não tem rival
Tem Pernambuco, tem São Paulo, tem Bahia
Um conjunto de harmonia que não tem rival

Carmen Miranda, em gravação lançada em dezembro 1940

Joyce Moreno, 2002, no CD 4º ComPasso – Samba & choro

Ná Ozzetti, 2008, no CD Balangandãs


Ruy Guerra, 90

Na rádio Itatiaia, um especial de mão cheia, por Rafael Vidigal, celebra os 90 anos de Ruy Guerra, coligindo notáveis parcerias do cineastas no primeiro time da MPB, inclusive Edu Lobo, Francis Hime, Milton Nascimento e Chico Buarque. (Dica do leitor-contribuinte P.J.)


Coltrane e Esperanza

O New York Times mantém a seção The playlist, às sextas-feiras. Críticos de música do jornal selecionam e comentam as novidades. Desta, tomei emprestado duas dicas para tocar nesta Estação. A primeira (assinada por Giovanni Russonello) traz o gênio John Coltrane na única performance ao vivo conhecida de sua obra-prima A love supreme (que virou música sacra em igrejas evangélicas). Da apresentação em Seattle, há 56 anos, desenterrada por uma gravadora, adianta-se agora o hino final de louvor da composição, Psalm. O lançamento do álbum está previsto para 8 de outubro. Coltrane toca sozinho no número, sem os dois saxofonistas que o acompanhavam na ocasião. A outra dica (do craque veterano Jon Pareles) é o single da baixista, cantora e compositora Esperanza Spalding (bem chegada à música brasileira), lançado na última sexta-feira. Formwela 10 trata de um “pedido de desculpas por maltratar um amante”. Pareles elogia a “virtuosidade lúdica” da música de Esperanza nesta “melodia sincopada, saltante e retorcida, uma divagação cromática em arranjo com mudança rítmica que se dissolve e realinha na medida que ela [na letra] faz as pazes com seu arrependimento.”

John Coltrane, A love supreme, pt. IV — Psalm (Live in Seattle)


Esperanza Spalding: Formwela 10

That’s all folks. Inté e obrigado por ler a Jurupoca!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin assim de nada da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —

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