JU_88 | Bizarrias: ler, escrever, doar

Jurupoca_88

Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


10 a 16 de setembro 2021


A mudança climática que segue a sepultar carcaças de pterodátilos da imprensa tem mais ou menos a idade do Google. Este brontossauro vai se enterrando por aqui


(Foto do alto):  Giovanni Battista Bracelli: Figuras bizarras (1624). Domínio público.


APERITIVO: Manzanilla

Há muito não saía um poemeto. Quando é assim, matuto: nunca mais. Nunca mais o espanto, dizia Ferreira Gullar. Aí o lance desta palavra (a vi lendo um trecho de Letters to Comondo, novo livro de  Edmund de Waal, autor de A lebre dos olhos de âmbar): Petrichor, o cheiro que emana da terra sedenta ao chover. Conforme artigo da BBC, a palavra é atribuída a dois pesquisadores australianos, que a compuseram, lá 1960!, do grego petros (pedra) e inchor (fluído que corre nas veias dos deuses) o sangue dos deuses, como Gaia (Mãe-Terra).

Petrichor

O futuro (presa na
malha do tempo),
o presente pesante.

Desgosta o gosto
exilado (corda
no peito roída).

Arfar no vácuo
(desacorçoado)
à beira do alento.

Tímpanos! (ancestral
percussão aeróbica)
Livre fragrância:

Hálito úmido de Mãe.

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Muito obrigado!


“O verdadeiro fim do mundo é o aniquilamento do espírito”
Karl Kraus

Opa, vamos apear. Ora, vamos!

Melancolia, bizarrice: substratos do escrever e ler na contracorrente do tempo, na semiclandestinidade da nova contracultura.

Como a cultura, o jornalismo está em marcha de extinção no meio digital.

Na prática, já desapareceu em cidades pequenas e médias.

Parafraseando (e acochambrando) Karl Kraus: “Os jornais [digitais] têm mais ou menos a mesma relação com a vida que as cartomantes com a metafísica.”

A mudança climática que continua a sepultar carcaças de pterodátilos da imprensa tem mais ou menos a idade do Google.

Invertendo Karl Kraus: Há falta de jornalistas. Todos correm para se empregar como caixeiros-viajantes virtuais bilíngues ou “analistas de comunicação” (a velha, com uma plástica de tecnologia, “assessoria de imprensa”, essa distinção equívoca e pretensiosa das relações públicas), com uma mão na roda da inteligência artificial.

Coleguinhas foram pegos no contrapé do tempo. Viram-se obrigados, como cobaias, a abandonar a “zona de conforto” (urgh!), e aprender a se “reinventar” (argh!), abençoados pelo coaching (ai!), devotos do politeísmo do Silicon Valley.

Este brontossauro (bicho comprido pacas) veio se enterrar aqui (trocando em miúdos) quando os frilas escassearam. Diligentemente cava suas cova e junta óbolos para o oblívio. 

De excesso de modéstia ele não morre.

Na lata da primeira pessoa: ser impopular não me inculpa por mendigar uma grana do leitor em troca do ofício exercido (e despendido!) — por mais extravagante isso seja.

Bizarro? Claro!

E também há bizarrice no gesto raro de um leitor doar — transferir um valor qualquer para quem escreve.

E mais bizarrice ainda em remunerar uma publicação marginal, aberta, gratuita (e perfeitamente inútil!).

Sim, inútil, mas (sob a virtuosa influência de Gargântua e seu filho, Pantagruel), lanço uma enquete: valerá um peido? Cartas para a redação!).

Devo dizer que já não tenho encontrado o mesmo prazer em atender, bizarramente, ao compromisso autoimposto de publicar esta carta toda santa quinta-feira por volta das quatro da tarde (deadline), com a mesma diligência de quem fecha e publica um jornal (como quem fechou e publicou jornais).

Mas, com pouco ou muito prazer, sem ler e escrever não prestaria nem para tentar, em minha própria modalidade, uma rabeira nas paraolimpíadas.

Além do mais, passei da fase de começar a queimar livros (premido pela sensação de que não me valeram de nada), a plagiar o detetive Pepe Carvalho, criatura do grande galego Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003).

“Vejamos no que vai dar”, dizemos por cortesia a nós mesmos (tolo ardil duma evasiva). Aí vai outra:

No início de um de seus Ensaios, Montaigne relata que foi levado a escrever depois de amargar anos de “solidão e tristeza”, período que lhe infundiu um “humor melancólico”, muito “oposto” à sua “compleição natural”. E sobre a própria obra, ele diz:

É o único livro do mundo dessa espécie, tendo um objetivo bizarro e extravagante. Também não há nesta tarefa algo digno de ser notado além dessa bizarria, pois em matéria tão vã e tão sem valor o melhor operário do mundo não saberia dar uma forma que merecesse ser levada em conta.

Os ensaios – Uma seleção, tradução Rosa Freire d’Aguiar, Penguin-Companhia das Letras, página 188, edição digital.

Anoto isso enquanto ouço o pianista islandês Vikingur Ólafsson tocar algo de Bach. 

A leitura e a música me “entregam” ( Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô) uma pequena, breve e serena consolação.

Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


— clave | NOTAS PARA MARTELADAS EM ESPUMA DE MAR NA RESSACA | clave —

Humilhações

“A valorosa Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) dissociou-se das manifestações de empresários e banqueiros em defesa da democracia com um ‘Manifesto pela Liberdade’, condenando a ‘exacerbação’ do Supremo Tribunal Federal. Dias depois, ela foi humilhada pela divulgação de outro manifesto, de empresários reconhecidamente estabelecidos”, anotou Elio Gaspari na sua coluna de O Globo.

*

Gaspari (ele próprio) humilhou a Fi(m)emg. Lembrou que a brava guilda das Alterosas, sustentada por contribuições compulsórias do Sistema S, também representa o patrimônio histórico do compadrio plutocrata. Uma de suas missões é atender a oligarquia desassistida. Com igual prodigalidade, ressegura membros da tradicional família mineira e esquerdistas no poder, quando encalacrados. O colunista recordou dois casos exemplares: a mesada de R$25 mil paga a Eduardo Azeredo, às vésperas de o ex-governador estagiar na cadeia, e as consultorias telepáticas prestadas por Fernando Pimentel, que valeram um troco de R$1,5 milhão.

*

A cumplicidade do oligarca com a canalha (quase sempre abastecida com dinheiro e favores públicos) é um traço indelével do nosso atraso mental — num retrato, seria a nariganga, a esplêndida bicanca a deformar um rosto cordial.

*

Sobre o manifesto da Fi(m)eng, teleguiado nos preparativos do Sebo de Setembro, Demétrio Magnoli desenhou no Globo: “Os arautos brasileiros da liberdade são os saudosistas da ditadura militar que hoje acalentam o sonho de um golpe contra as liberdades democráticas”.

*

O uso canceroso da ideia de liberdade é uma pedra de toque do cerco à democracia: cresceu no fascismo e se ramificou no nazismo e no stalinismo para atender ao  populismo de direita de nossos dias.


Populistas de direita e progressistas

“Na realidade, a fórmula deles [progressistas iliberais] oprime os indivíduos – e, nesse sentido, não é tão diferente dos planos da direita populista”, entoa um artigo impecável do The Economist traduzido pelo Estadão. “De maneiras peculiares e diferentes, ambos os extremos colocam o poder acima do processo, os fins acima dos meios e os interesses de grupos acima da liberdade de indivíduos”. O texto é uma súmula do estado dos desequilíbrios que estão em voga na política, prosperam e ameaçam a liberdade no mundo: “[…] populistas e progressistas se retroalimentam patologicamente. O ódio que cada campo tem pelo outro inflama seus apoiadores — o que beneficia ambos os campos.” Quem é jovem, no Brasil e no mundo (graças ao usufruto da democracia, aliado à própria força vital) tente a se sentir imunizado contra desvios da ordem que evoluem no subterrâneo, antes que redundem em catástrofe (e a História aconteça): “Há um excesso de liberais de direita inclinados a escolher o indecente casamento de conveniência com os populistas. Há um excesso de liberais de esquerda concentrados na ideia de que eles mesmos também desejam justiça social. Confortam a si mesmos com o pensamento de que o liberalismo mais intolerante é marginal.”.  

*

O liberalismo clássico, diz ainda The Economist, “passa por um teste severo, da mesma maneira que cem anos atrás, quando os cânceres do bolchevismo e do fascismo começaram a consumir as entranhas da Europa liberal.”

*

O tom do artigo bate com o de Mario Vargas Llosa (A ascensão do populismo e a ‘retórica do desespero’), ao analisar o livro de Anne Applebaum (O crepúsculo da democracia  — veja aí o comentário da Ju sobre essa obra). Llosa é um admirador da jornalista e historiadora, mas lamenta seu pessimismo sobre o alcance atual do liberalismo — e a isso chama “retórica do desespero”. Para o The Economist, a falta de convicção dos liberais clássicos está fortalecendo o autoritarismo de esquerda e direita. Pois sim: “dá muito trabalho ser um liberal genuíno”. Mas a grande vantagem civilizatória desse pensamento é que um liberal genuíno sempre admitirá os próprios erros e adotará as correções sugeridas na busca da verdade. Tudo extremistas, travados pelo dogma, jamais vão conceber.


1) Casa de férias

Passou agosto e o pior do verão europeu. Folgo com o retorno das férias dos grandes colunistas do El País, como Antonio Muñoz Molina e sua deliciosa prosa intimista. Molina regressou com gume da prosa nos trinques. Na sexta, ou ainda na quinta, tivemos sua excelente resenha de uma nova biografia de Fernando Pessoa (lançada em inglês, com mais de mil páginas): Pessoa. An Experimental Life, de Richard Zenith, autoridade no poeta português (é um dos organizadores editoriais do Livro do desassossego); e no sábado, uma deliciosa crônica de viagem intitulada A casa de agosto. Molina relaciona as habitações que o acolheram nas tradicionais férias de verão menos às casas e aos lugares onde esteve que às leituras proporcionadas pelo sossego que marcaram cada período de descanso. São um primor seus comentários sobre Ao farol, de Virginia Woolf (“Na primeira e na terceira parte do romance a maestria de Woolf se recria na multiplicação das presenças e vozes. Nessa parte central, que para mim é uma das grandes façanhas na arte universal da ficção, o que se narra com igual eficácia é a pura ausência, o passo do tempo […] em um lugar onde não há ninguém, mas onde seguem atuando os cupins, onde a chuva se filtra nas goteiras e o vento abre alguma janela mal fechada…”) ou dos diários da contista neozelandesa Katherine Mansfield, do qual Molina destaca uma anotação da autora ao se mudar mais uma vez cada, entre tantas (“Cada vez que alguém se vai de algum lugar, algo valioso, que não deveria ser destruído, se deixa morrer”.).   


2) Imbecis morais famosos

Passou agosto e o pior do verão europeu. Folgo com o retorno das férias dos grandes colunistas do El País, como Javier Marías, que define o “imbecil moral” como uma pessoa incapaz de “compreender os princípios morais e se comportar [ou atuar] de acordo com eles”, e de saída alinha como casos de primeira grandezas, entre os mais famosos: Trump, Boris J, López Obrador, Maduro, Bolsonaro, Erdogan, Lukashenko, Orbán, Duterte, Daniel Ortega.


3) Uma solução para a Catalunha

Passou agosto e o pior do verão europeu. Folgo com o retorno das férias dos grandes colunistas do El País, como Javier Cercas. Não deixe de ler sua coluna com o título (em espanhol) desta nota, caso você se relacione afetiva e intelectualmente com a Espanha, como este redator. Claro como água de bica, Cercas defende a construção de um novo pacto que permita a Catalunha separatista voltar a conviver com seu lado antípoda (um meio a meio paralisante). Diz ele: se o pacto da Transição de 1979, do franquismo para a democracia, depois de 40 anos de ditadura, foi possível, reconciliar democraticamente a Catalunha interna e externamente (com a Espanha), também pode ser. Ele adota como definição do bom pacto (a citar Iñigo Urkullu, o presidente, ou Lehendakari basco, via Pablo Iglesias!) aquele em que “nenhuma das partes consegue tudo que desejava, nem fica, portanto, de todo satisfeita”.


4) Boletins do Babelia

Ainda leituras do jornal espanhol: O leitor atento já deve ter notado que sou chegado às newsletter do Babelia, o bom caderno cultural do El País (em espanhol). Os boletins semanais são escritos com grande verve e bom humor. O mais recente (assinado por Javier Rodríguez Marcos) trata da reportagem de capa sobre a literatura colombiana atual (a Colômbia é o país convidado da feira do livro de Madrid, inaugurada nesta quinta-feira, 9/9). Do  texto de Marcos adoto sem restrição esta paráfrase de Goya que vale para a Colômbia como nosotros:

“O ORGULHO NACIONAL PRODUZ MONSTROS.”

E invoco outra (“Colômbia é maior que Macondo”) para parodiar:

O BRASIL É MENOR QUE O PLANALTO CENTRÃO.

ESTAÇÃO SIUTÔNIO

CLIQUE AQUI PARA VER NO SPOTIFY A PLAYLIST: A RÁDIO SIUTÔNIO APRESENTA: 1001 CANÇÕES BRASILEIRAS

A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta/ Afinal, toca exclusivamente o que gosta/ E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos/ A ouvir um acorde dos novos sertanejos/ Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque/ A aturar um segundo de pancadão pornofunk/ Mas se ainda assim foi bom pra você, ouvinte irmão,/Seja muito bem-vindo à nossa programação

Destinos Chico Buarque

Embarquem, vamos, todos, sejam bem-vindos, acomodem-se bem, isso, boa viagem! Como romancista, ele nos fez gastar sola de sapato em Budapeste, a zanzar com um escritor fantasma, e com ele aprendemos uma palavra ou outra de húngaro, por interposta namorada. E nos levou a percorrer uma (já imaginária) Berlin Oriental nos rastros de um irmão alemão avulso. Mas, fazia muito, o compositor já nos conduzia pelo Rio. Nosso guia de viagem insuspeitável, de extenso currículo, domina como poucos as dimensões sociais, geográficas e líricas dessa cidade. Também proporcionou à clientela um giro inesquecível pelo Brasil profundo, além de tours de grande sucesso no exterior. Esta nova playlist da Estação Siutônio embarca em Bye bye Brasil (foto de um país em mutação) na cola e na trilha da Caravana Rolidei, então já nos embalos do filme de Cacá Diegues, lá num distante 1979! Deu pra dar um pulo em Manaus, bater pernas na Rua do Sol, no centro de Maceió, pegar a Costeira em Belém, e uma doença em Ilhéus. Ainda mais longe, nosso guia (nada a ver com o epíteto de Lula cunhado pelo ex-chanceler Celso Amorim, de quem Elio Gaspari, por isso, não largava do pé) nos levou a beber daiquiris na Bodeguita, reduto turístico cubano; no fim dessa excursão desembarcamos em Manágua, só para conhecer o Chico (chico), filho do eu lírico (como se diz na academia) do cantor com sua amada, cuja paloma do mirar vira miúra! (quando suas pernas o enroscam num balé esquisito). O fervor ideológico do filho de seu Sérgio e dona Memélia insistiu, anos antes, que nos metêssemos numa África conflagrada, apenas para bailar (em plena chama da batalha) com uma revolucionária angolana do MPLA. A morena, como esquecer?, tinha um chocalho atado na canela (e ainda a espero guisar o peixe que eu trouxe de Benguela). Anos mais tarde, derrubado o Muro e sangrado os subsídios soviéticos a Cuba, entramos num avião capitalista (“pálidas economistas pedem calma”), qual boeing do fim da história, e decolamos para um extenso giro planetário; passageiros meio gaiatos naquela aeronave, lá fomos nós. Quase faltou folha no passaporte para tanto carimbo: Lima, Cairo, Calcutá, Macau, Maputo, Meca, Bogotá e Lisboa (onde a malta fez algazarra no meu castelo). Já a emigrante cearense Iracema, linda moça anagramática, como muita gente eu a espiei, voyeur embuçado de proparoxítonas (lépida, mímico, lírico), a lavar chão numa casa de chá da América. Com Jorge Helder como copiloto (parceiro, então, já recorrente, do dono da Destinos Chico Buarque), há pouco regressamos a Cuba, dessa vez com letra em espanhol, a campear uma canción sentimental en las calles de la La Havana. De La Havana a Moscou é um pulinho, como se sabe, ao menos era. Se bem que, neste caso, o passeio pela capital russa seria apenas virtual, ainda que guiado, embarquei assim mesmo. Entre os amores que as melodias costuram nos neurônios lá está, definitivamente, esta Nina. A jovem tem a pele cor de neve e os  olhos negros feito breu. Mora na noite de Moscou, a bela, e anseia em conhecer em breve o romantismo (último que morre) do compositor enquanto guia de viagens. Mas no topo da nota se falava do Rio de Janeiro, cidade-umbigo de Chico, agente de viagem. Toquei cinco canções (podia ter tocado outras tantas, desde Dois irmãos, que ocupa um mirante na MPB tão alto quanto o topo dessa montanha gemelar, a Estação derradeira, um revoltado retrato romântico-realista de Rio de Janeiro, essa cidade mais ferida que São Sebastião crivado, santo que aparentemente prevaricou na missão de protegê-la). Mas, digressões à parte, dobrei na contramão a Carioca e desci tantas vezes a Frei Caneca rumo à Tijuca, para subir o Borel e já pisando fundo como um Emersão num carango puxado, que não podia esquecer essa aventura de jeito nenhum. Na companhia (inaugural na sociedade da agência) de Helder já havíamos caído, como dum túnel do tempo defeituoso, em certo ponto de Ipanema, para percorrer, debalde, Barão da Torre e Vinicius de Moraes, e não encontrar uma mulher quando ela devia ter aparecido, não a que agora aparentemente se figurava. Meu deus! Quanto choro em vão, bolero blues… Deixa para lá. Baldeemos por Copacabana para ver de camarote a perifa render a Zona Sul: baixam bondes de Irajá, Caxangá, Chatuba e de outras quebradas suburbanos, nas asas dum funk sofisticadão, um tanto, como não dizer, talvez oportuno demais. Desejoso de conhecer melhor o subúrbio, mergulhei em seguida, como um sociólogo em missão, por brenhas e becos de Madureira, Penha, Irajá, Olaria, Vigário Geral, Piedade, Realengo, Acari… Vi de perto os deserdados do Rio para quem Jesus no monte dá as costas. Anotei no meu caderninho que por lá dançam funk, rock, forró, pagode, reggae e hip-hop, mas falam na língua do rap. Para tudo terminar, última Tule de tantos viagens, de mil excursões, em Copacabana, de novo (não podia ser diferente, pois tenho ali, Tonelero com Mascarenhas de Moraes, um pouso mais que generoso). Comi uma gostosa tapioca ao esticar um samba no Flamengo, alumbrado com a neblina da ganja (efeito duns tapinhas numa muamba que ambulava no mar; era uma daquelas, ainda, creia-me o leitor, da lata! Bon Voyage! (Não sei por que, a Destinos Chico Buarque ainda não me levou a Paris, onde essa agência tem até sucursal, ali pelo Marais!)

Emmet Cohen e as cantoras

O jovem pianista e compositor norte-americano Emmet Cohen tem uma presença marcante em festivais de jazz e num canal do Youtube. Durante a pandemia, realiza uma série de shows caseiros batizados Live from Emmet’s place, que se aproximam da 70ª sessão, sempre em trio com Russell Hall no contrabaixo e Kyle Poole na bateria, e uma série de cobras como convidados. O que mais me impressionou recentemente é sua cancha para revelar novas e boníssimas cantoras de jazz, ao menos para mim, impressionantes. 

— Caso da armênia de nascimento (estabelecida nos Estados Unidos com a idade de 12 anos) Lucy Yeghiazaryan, aí no vídeo (provável chamada para uma das referidas Lives) em Don’t Blame Me (Jimmy McHugh e Dorothy Fields)

— Caso de Samara Joy, vencedora em  2019 do concurso Sarah Vaughan International Jazz Vocal, neste take avulso em ‘Round Midnight (Thelonious Monk,  Charlie “Cottie” Williams e Bernie Hanighen)

*

That’s all folks. Inté e obrigado por ler a Jurupoca!


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— A JU, seu amado hebdô, foi tomar emprestado do Dr. Brás Cubas um bocadin assim de nada da pena da galhofa e da tinta da melancolia. “Se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa, se não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” —

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