JU_89 | O golpe da Batatada e o estado de sítio


Jurupoca_89 – 17 a 23 de 2021
 Hebdomadário de cultura, ideias e
 alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Os golpistas da Batatada, sitiados na sua chácara mental, têm como herói ideal um Pancho Villa de extrema direita. Tudo é tosco, atrapalhado, incivilizado, quando não pornográfico na realidade alternativa dos delirantes.  A suspeitíssima “pacificação temerista” não encerrará a quermesse dos sitiantes


(Foto do alto) Frans Hogenberg: O cerco ao castelo de Horst (1590). Wikimedia Commons


Opa, vamos apear. Ora, vamos!

Nós participemo da história do Brasil!”, brada o caminhoneiro exaltado no vídeo. “Conseguimo tirar os 11 vagabundo de lá! Estado de sítio! Levantemo o cu da cadeira e viemo pra Brasília fazê a nossa parte!”, festeja o iludido.

Narrar emoções dessa natureza envolve a humanidade do páthos (representação artística da piedade ou tristeza, na mesma raiz grega de patológico, doentio.)

Não vale para a plutocracia (sempre predisposta a se pôr de quatro para Asmodeu) ou doutores regredidos à medicina medieval. Para esses, a faca só lâmina da crítica, ácido e corrosão.

O médico marrom não tem o álibi da ignorância ou das neuropatologias (até onde entendo).

Mas o caminhoneiro que festejou, ludibriado, o “estado de sítio” no 7-S é o mais genuíno representante de todos: militares, curandeiros, plutocratas e bestializados do movimento golpista da Batatada (movimento ora em férias graças à “pax temerista”, barganhada, como sugere a repórter Malu Gaspar, num misterioso toma-lá-dá-cá entre quem tem o rabo preso, e rabos nada republicanos, diga-se. Já o professor Conrado Hübner Mendes chama a velhacada do arrego/arreglo de “Constitucionalismo new age”, e Temer de coach do arranjo).

Levantei aqui uma bola, bulindo com o título da célebre gravura de Goya, “O sono da razão produz monstros”.

Era só matar no peito e chutar na meta (História) de um país qualquer latino-americano: “O orgulho nacional produz monstros”.

O monstro patriótico que ora deixa insone o Bananão chama-se golpe da Batatada.

Por que Batatada? Porque, desde o português e a dicção, está tudo errado nas motivações dos golpistas do 7-S (desiludidos, por um instante, com o recuo de seu Führer de quermesse).

O que se podia chamar de ideologia ou ideário é uma mixórdia de vontades antidemocráticas; de discurso político, comandos de artilharia de bafo; de programa, chavões autoritários de para-lama; de marketing político, fraude e desinformação.

Tudo que medra da Batatada é tóxico, venenoso e contaminante.

Na Itália e na França, a extrema direita e o fascismo tiveram entre seus formuladores artistas e intelectuais de relevo. Mesmo nossas ditaduras do século XX contaram com um Francisco Campos ou um Carlos Lacerda, homens cultos.

Hoje, nos EUA da “direita alternativa” e do trumpismo, e entre seus imitadores daqui (golpistas da Batatada), impressiona a precariedade de ideias e a total ausência de civilização. Todo, mas todo o alicerce de seu oportunismo é fundado na mentira.

Efusões de desejo primário parecem aprisionadas na fase anal, num mix de sensações vazias e ininteligíveis.

É tosco, incivilizado, amiúde pornográfico.

Por que diabos, afinal de contas, quer manter o poder quem parece não ter autonomia para amarrar os próprios sapatos?

É preciso lembrar o ministro da Educação que não sabia escrever, o general fanfarrão da banda à frente de uma pandemia (Saúde), o janota passa-boiadas (Meio Ambiente) ou o chanceler biruta?

Ideias rudimentares, semianalfabetismo (inclusive político), superstição, negacionismo, nostalgia da ditadura, quando não o puro amoralismo corrupto se misturam no sopão indefinível — prato principal servido na realidade paralela e ágrafa da Batatada.

Bolhas de fúria fervem na superfície do sopão, um caldo de cultura delirante e nauseabundo.

Reagi com ceticismo ao saber que no 7-S, Dia da Batatada ou Sebo de Setembro, infelizes aos berros e aos prantos pularam de contentamento com a decretação do estado de sítio — e logo se viram desenganados.

Estado de sítio? Daria na mesma se viesse um “estado de chácara” da carochinha, ou “estado de chacrinha” (também no sentido de baderna ruidosa; bulício, bagunça — cf. Houaiss) ou, quem sabe, até um “estado de quermesse”.

No autoengano que expôs as aspirações (e convolações mentais dos golpistas), revelou-se uma nova patologia política: a miopia cognitiva.

O que se entendeu por estado de sítio podia bem passar por um país finalmente livre para o desfrute de eternas churrascadas por convidados patriotas, tudo abençoado por evangélicos com maquinetas “passa-cartão” em punho.

O sítio (chácara ou chacrinha verde-amarela) haveria de estar cercado de concertina dupla, assim resguardado de bandidos, comunistas, “grande imprensa” e ministros “canalhas” e “filhos da puta” do STF.

A segurança do pedaço iria por conta de PMs e milicianos, com as Forças Armadas na retaguarda. Também não faltariam os velhos censores. 

Na churrascada e no sonho da Independência, os campeões embandeirados do golpe da Batatada estariam à vontade como pintos no lixo.

Se veriam livres para orar, plantar couve, criar galinha, quem sabe até engordar um capado, tudo na santa paz, como rezasse o manual de fé da magnânima Damares (Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos).

(O horror, desde a raiz, também é estético.)

No estado de sítio do golpe da Batatada, a liberdade reinaria no céu da pátria para a indústria da rachadinha e dos funcionários fantasmas.

Para que diabos, afinal, quer preservar o poder quem parece incapaz de administrar uma birosca no acaba-mundo?

O universo mental dos golpistas é pré-revolução Francesa. Lembram um bando alucinado de milenaristas guiados por cangaceiros.

“Alguns acham que o voto eletrônico não é auditável. O universo digital é etéreo e misterioso para eles”, comentou elegantemente Gabeira.

“O Brasil vive a síndrome de borracheiro, não conserta a estrada para não deixar de ter pneu furado”, refletiu um professor da Fundação Dom Cabral, em outro contexto, é verdade, mas a frase é boa e quadra aqui.  

“[O governo atual] tornou-se um fenômeno inédito na política da República brasileira. Nela, já apareceram conservadores, até reacionários, mas nunca surgiu um governante com os dois pés [e a duas mãos, acrescento por conta própria] no atraso”, ponderou Elio Gaspari.  

O país sonhado pelos golpistas da Batatada não tem livros nem incentivo à cultura (coisa de veado).

Mas tem voto impresso, população armadas, florestas tornadas pasto e roça, garimpo em terra indígena, tratamento precoce, comunista preso, jornalista amordaçado, gay perseguido…

Eis o programa dos batateiros — ou de quem vive no cerco mental da chacrinha e da quermesse.

Diz tudo nesta história que o maior ícone do golpe da Batatada (até aqui) seja um caminhoneiro caído no Youtube de um remoto épico de cordel sobre fuás entre jagunços.

Quem mais senão Zé Trovão, el youtubeiro justicero!

El justicero esconde-se no México, é um prófugo, um Pancho Villa da extrema direita e do golpe da Batatada.

Para cercar a narrativa no quadrado do sitiante mental, ele pede asilo político no país do populista López Obrador, dizendo-se perseguido pela Justiça!

Então, justiça seja feita: o Pancho Villa youtubeiro fascistoide, animador da tomada do STF (a Queda da Bastilha para nossos messiânicos), lenda vida da chacrinha revolucionária bananeira, é o herói perfeito dos golpistas da Batatada.

Ai de nós.

*

Queridos leitores

A JU não é mais aquela. Cortou a gordura de seções, quem sabe, demasiado extemporâneas e, dir-se-ia, supérfluas (poesia, MPB) para fortalecer a massa magra do conteúdo possível, seja lá o que isso signifique (o redator não se vê no mesmo espelho onde a carta se olha). A reforma continua nos próximos números, até a última nota-sílaba.

Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


|SEMIBREVES |

Reveses do nacionalismo

O combo Brexi-covid-19 fecha redes de comida rápida no Reino Unido. Um milhão de trabalhadores, com destaque para caminhoneiros do Leste europeu, se mandaram do pedaço, informa um bom cozido do Washington Post e New York Times servido pelo Estadão. Há 400 mil vagas não preenchidas em fazendas, fábricas, indústria de alimentos, bares e restaurantes. Lá, o agro não anda muito pop. “Frutas foram deixadas apodrecendo nas fazendas, matadouros têm dificuldade para processar a carne de porcos e galinhas, e as entregas de leite estão atrasadas”, diz o relato. Franquias como a KFC (frango frito) fecham portas ou, no caso do McDonald’s, se veem forçadas a se adaptar à escassez. Boris Johnson, bonecão do Brexit, se recusa a dar o braço a torcer e rever a política de concessão de vistos para trabalhadores estrangeiros. A negação do primeiro-ministro era esperada, como tudo mais.


Clint definitivo

Cry Macho, novo filme de Clint Eastwood que entra em cartaz nesta quinta (16), é uma notícia tão boa quanto o sol da manhã (ainda não vi a fita, mas, com Clint, agora aos 91 anos, minhas expectativas serão sempre elevadas). O mundo lhe deve, como ator e diretor, a gratidão que merecem os grandes criadores, os verdadeiros artistas. “Cry Macho é, definitivamente – e sem preconceito –, um grande filme de velho. Os valores, o classicismo, tudo tem a marca de Clint. Ele não tenta enganar seu público, nem conquistar o público mais jovem, com fricotes de modernidade”, recomenda o veterano e rodado como celuloide Luiz Carlos Merten, no Estadão.


A força de um grande ator

Michael K. Williams no papel de Omar Lille, cena da série The wire. Foto: HBO/Divulgação

David Simon, criador de The wire (A escuta), a série da HBO que fez história e segue insuperável como obra de arte televisiva, escreve reveladoramente no NYT sobre Michael K. Williams, ator que representou (para sempre) Omar Little nesse drama-mosaico sobre o submundo de Baltimore. Williams morreu semana passada, aos 54 anos.


A grana é curta e ler, um luxo

Saiu antes do previsto Guignard – Anjo Mutilado, biografia do pintor Alberto da Veiga Guignard escrita por Marcelo Bortoloti. O trecho publicado há alguns meses pela Piauí apresentava algo revelador e eletrizante. O preço do livro impresso (uma obra como essa, com reproduções das telas do artista, não é para o bico do Kindle) vai de R$82,43 a R$109,00. Bortoloti furou a fila na minha lista de leituras desejadas; está no segundo posto. À frente, apenas Paris – A festa continuou – A vida cultural durante a ocupação nazista – 1940-4, do jornalista Alan Riding. Devorei a amostra gratuita da Amazon. Se a grana é curta, ler é luxo.


Márquez x Llosa

No Clarín, Rafael Toriz, a propósito de uma reedição em espanhol de García Márquez: Historia de un deicidio (tese de doutoramento de Mario Vargas Llosa na Universidad Complutense de Madrid, publicada em 1971), dá pinceladas expressionistas sobre as obras Márquez e Llosa, repassa o anedotário da rivalidade entre os dois (a história do famoso murro desferido pelo autor de Conversa na catedral no olho esquerdo do autor de Cem anos de solidão dentro de um cinema em 1976, não se sabe se na Cidade do México ou em Paris), mede a vitalidade do “boom” da literatura latino-americana dos anos 1960 e 1970, e até tenta, ele próprio, Toriz, se mostrar por cima da carne seca, como um crítico ferido pela luz do presente. 


A queima de livros continua (I)

A hipocrisia e o orwelliano “duplipensar” (“a capacidade de abrigar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e acreditar em ambas”) revelam-se na censura aos livros infantis, diz Bruno Molinero em artigo na Folha.


A queima de livros continua (II)

Mais incisivo sobre o mesmo tema, Rafael Narbona, no El Cultural, atribui à “onda de estupidez que varre o planeta sob a bandeira da correção política” a queima, no Canadá, de milhares de exemplares de Tintim, Astérix, Lucky Luke e títulos da Disney. Conforme um conselho de escolas católicas da província de Ontário, a incineração representou “um gesto de reconciliação com as Primeiras Nações, e um gesto de abertura a outras comunidades presente na escola e em nossa comunidade.”


Começa bem o ano que vem

Edward Hopper na programação da Pinacoteca de São Paulo em 2022! Começa bem o ano que vem. Em agosto (27), a exposição Pelas ruas: Vida moderna e diversidade na arte dos Estados Unidos reunirá obras de Georgia O’Keefe, Edward Hopper e Andy Warhol.


Disco perfeito

Na Rádio Batuta, Reinaldo Figueiredo escala Tempo feliz, LP de Baden Powell lançado em 1966, como exemplo de disco perfeito de jazz brasileiro, uma obra-prima que merece ser ouvida da primeira à última faixa sem interrupção. A JU não discrepa.  


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