JU_92 | Viajar, facebookar, ventar: c’est la vie

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Deparo uma segunda vez em obras do italiano Claudio Magris esta citação de Jorge Luís Borges:

“Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Com o decorrer dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, reinos, montanhas, baías, navios, ilhas, peixes, moradas, instrumentos, astros, cavalos e pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que aquele paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto”.

Nos dois casos, Magris tem como tema a viagem e suas conjunções, literais ou metafóricas, com a escrita e a vida. Os livros são Microcosmos (1987), traduzido no Brasil pela Companhia das Letras e L’infinito viaggiare, que leio em edição espanhola (El infinito viajar, 2005) da editora Anagrama.

Como a poética de Haroldo de Campos em Galáxias ao anunciar que “o ser do livro é a viagem”, a prosa de Magris igualmente percebe na viagem uma possibilidade de “persuasão”: a vida “autossuficiente, livre e plena” que se pode alcançar, por outro modo, até de maneira “autodestrutiva e vã”. “Persuasão, a posse presente de uma vida, a habilidade de viver o momento”, define o triestino, cicerone, como celebridade literária, de seu delicioso Caffè San Marco.

Outra conexão Campos-Magris surge logo na abertura do Galáxias: “[…] onde o fim é o começo onde escrever sobre o escrever é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço […] e me teço um livro onde tudo seja fortuito e forçoso um livro onde tudo seja não esteja seja um umbigodomundolivro um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro”.

Da escrita de Magris digo o mesmo que disse aqui semana passada de Murilo Mendes: é encantatória. Se a prosa de viés poético do juiz-forano em A idade do serrote corteja o lirismo, ainda que um lirismo seco, a de Magris se afina com a autorreflexão em andamento filosófico; sua narrativa à meia-voz é um mergulho cultuado, uma prospecção introspectiva e elusiva de nossa frágil consciência da passagem do tempo, uma fragilidade que apenas a escrita e a literatura podem contornar, ainda que de modo vão.

Meu Turismo cultural e literário na Europa teve como uma de suas referências-magnas a leitura de Danúbio, livro em que Magris, um prolífico intelectual germanista, segue o curso (e uma história cultural) do mitológico rio europeu desde a nascente, na Alemanha, à foz, entre a Romênia e a Ucrânia. O narrador nunca viaja em linha reta, senão num trajeto digressivo, como ele diz, e a boa viagem requer. Busca estações e sinais reveladores daquela vasta e múltipla humanidade — saga de comércio, arte, sonho, sangue e fé. Os registros dos cadernos de viagem serão mais tarde ruminados e reelaborados literariamente.

Ao preparar meu livro desconhecia este “O infinito viajar”. Ao lê-lo agora me sinto (não sem a incontornável nostalgia de uma natureza demasiadamente crua) retomar a ideia de cessação do tempo que a viagem proporciona, ou daquela soberania sobre o presente mencionada antes. É quando o real (a verdadeira vida, dirá Proust sobre a literatura) parece-nos congelar diante dos olhos e assim descortinar outras existências.

Esta passagem do livro me alegra (inclusive por citar Nooteboom, de quem também retive algo ao escrever o Turismo cultural e literário):

“A realidade, tantas vezes impenetrável, de repente cede, se quebra; o viajante, diz Cees Nooteboom, ‘sente as correntes de ar que se filtram pelas fissuras do edifício causal’; O real se revela probabilístico, indeterminístico, sujeito a repentinos colapsos quânticos que fazem desaparecer alguns de seus elementos, engolfados, absorvidos em vórtices do espaço-tempo, redemoinhos da mortalidade de todas as coisas, mas também do surgimento imprevisível de uma nova vida”.

No tópico anterior a esse, Magris pinta o viajante como “um anarquista conservador”. É conservador quem descobre “o caos do mundo porque para o mensurar usa uma métrica que revela sua fragilidade, sua provisoriedade, a sua ambiguidade e a sua miséria”. Recorre então a Kafka, para quem “sem o profundo senso da lei, sua ausência vertiginosa da vida não pode ser descoberta”, e para fechar esse parágrafo como estilistas que é, um touché: “Ao sair da gruta de Montesinos, Dom Quixote conta todas as maravilhas e encantos que viu, mas quando Sancho objeta e lhe diz que em sua opinião não passam de desatinos, o fidalgo responde: ‘Tudo podia ser.’”

O mar. O mar “multitudinoso” e sua figurações, outra chancela da viagem tomada por Magris que também remete ao livro de Haroldo; o mar e o inescapável rugido do tempo na crista das ondas, essa radiação de fundo de uma eternidade contingente para tão curta vida. “E à margem do mar ‘inexplicável’, como o chama Camões, é onde se encontra o dilatado alento da vida que nos abre as grandes perguntas sobre o destino e o sentido do bem e do mal”, apõe o italiano; “o mar induz a confrontar a ambiguidade, convida a desafiá-la — no mar imortal, escreve Conrad, se conquista o perdão de nossas almas pecadoras. No mar nos desnudamos, nos despojamos de nossas asfixiantes defesas, e abrimo-nos a quanto temos pela frente. E nisso pode estar a salvação do viajante, que, ainda que no calçamento das cidades ou nas montanhas, se sente na popa de um barco fustigado por altas ondas, arca precária ou salvadora”.

*

Para viajar é preciso atravessar fronteiras “políticas, linguísticas, sociais, psicológicas”, escreve Magris, sem esquecer de citar as fronteiras invisíveis entre um bairro e outro de uma mesma cidade, e as que “existem entre as pessoas, as tortuosas [fronteiras] que em nossos infernos nos bloqueiam o passo”.

*

Me parece um comentário supremo a lembrança de que a viagem nos ensina a desarraigar, a “sentir sempre estrangeiro na vida, mesmo em casa, mas sentir estrangeiro entre os estrangeiros pode ser a única forma de ser verdadeiramente irmão”, reflete Magris, para arrematar: “É por isso que a meta da viagem são os homens; não se estará na Espanha nem na Alemanha, mas entre espanhóis ou alemães. O filósofo Immanuel Kant, que parece nunca ter precisado de deixar sua cidade, Königsberg, disse a um teólogo, diz Magris: “Leia a literatura de viagens.”

*

Meu livro de viagem aponta uma “síndrome da viagem frustrada”, o mal-estar do viajante que chega ao estrangeiro despreparado. No dizer de Magris, tal síndrome ocorre quando “outros lugares se fecham num opaco silêncio” e nosso encontro “fracassa”. “[…] também a viagem, como toda aventura, está exposta à derrota e à esterilidade. Isso sucede porque o viajante — por ignorância, soberba ou acídia — não encontra a chave para entrar naquele mundo, o vocabulário e a gramática para compreender aquela língua e decifrar aquela cultura”.

Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Jurupoca_92 – 8 a 14/10 de 2021
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo

 (Foto do alto): O escritor italiano Claudio Magris ao receber, em Lübeck, na Alemanha, o Prêmio Thomas Mann, em 12/12/2019. Foto Wikimedia Commons


| SEMIBREVES & SEMÍNIMAS |

Potência hostil

Para a The Atlantic, o Facebook é “A maior autocracia da Terra”. “A população do regime supranacional de Zuckerberg”, a “Facebooklândia”, escreve Adrienne LaFrance, editora executiva da tradicional publicação norte-americana, recentemente “atingiu 2,9 bilhões de usuários ativos mensais, mais humanos do que vivem nas duas nações mais populosas do mundo — China e Índia — juntas”. Apenas nos primeiro semestre de 2021, os “nacos carnosos” dos dados providos pelos usuários da rede valeram uma receita de 54 bilhões de dólares à “nação” de Zuckerberg, dinheirama superior ao PIB da maioria das nações da Terra. Empresa, site, rede social, plataforma. Além de ser tudo isso, o Facebook é “efetivamente uma potência estrangeira hostil”, afirma LaFrance. Além de povo, a companhia tem sua própria “constituição” (“Facebook Bill of Rights and Responsibilities”), moeda (Diem, ex-Libra) e uma “filosofia de governo”, ou seja, o oligopólio se aproxima de uma nação a um tempo colonial e imperialista. Terra, outro componente da nacionalidade, não é um ativo essencial para uma empresa de tecnologia; a despeito disso, Mr. Zucker é dono de 500 hectares em Kauai, a mais desabitada das ilhas havaianas. LaFrance sustenta: só não vê quem não quer: “foco obstinado em sua própria expansão; sua imunidade a qualquer senso de obrigação cívica; seu histórico de prejudicar eleições; sua antipatia pela imprensa livre; a insensibilidade e arrogância de seus executivos; e sua indiferença para o desgaste da democracia norte-americana”.

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“Godzilla [monstruosa criatura japonesa] acabou morrendo, e como os Facebook Files deixam claro, o Facebook também morrerá”, conclui Kevin Rose, colunista de tecnologia do New York Times, ao referir-se aos documentos vazados e investigados em uma série de reportagens do Wall Street Journal.

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Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook, revelada delatora dos Facebook Files, em audiência no Senado dos Estados Unidos, na terça-feira (5/10): “Os produtos do Facebook prejudicam as crianças e enfraquecem nossa democracia”.

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Além de alimentar massacres étnicos, conspirações de antivacinistas e germinar o solo no qual brotaram os “palhaços líderes macabros”, como ouvimos em Anjos tronchos, a Facebooklândia está sendo denunciada, em seu braço Instagram, por prejudicar a saúde mental de adolescentes e crianças. Segundo Haugen os prejuízos aos usuários são reconhecidos internamente no oligopólio, mas olimpicamente contornados.

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Por que os jovens mais bem informados e conscientes, tal como os progressistas identitários, não se rebelam contra a Facebooklândia?

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Não convidem “palhaços macabros” e patrulhas identitárias para tomar parte em qualquer movimento destinado a cancelar as redes sociais. Será perda de tempo.

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Como a imprensa livre, por natureza, jamais será uma instância canceladora, entende-se a centralidade das redes sociais no empobrecimento do debate público, e o apego dos extremistas de direita e esquerda, negacionistas e conspiradores de toda laia às ditas “plataformas”.

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No Bananão, redes bolsonaristas sacaram todo tipo de história conspirativa para explicar o apagão da Facebooklândia e seus estados agregados, Insta e Zap, na segunda-feira. Teve até um tal de “ensaio para Grande Reset”, quando a internet será derrubada, senha para a “reinicialização” do mundo por uma autocracia comunista.

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O engajamento gerado pelos bandos extremistas e delinquentes é a verdadeira mina de outro de Mr. Zucker.

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Algoritmos são formulados para polarizar e potencializar o tráfego nas redes da Facebooklândia, ou seja, ampliar a visibilidade das emoções negativas (medo, raiva, ódio).

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Segunda-feira (4/10) sem Face, Zap, Insta. Ó senhor, o que seu povo aprontou para merecer tal castigo?

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Pequenos empreendedores (sete em cada dez no Brasil) dependem principalmente do WhatsApp no seu ganha-pão. Se o império de Mr. Zucker, lhes restará reclamar com o bispo?


Os ares

A 15 de dezembro do ano passado Mario Vargas Llosa deu o ponto final no conto Los vientos (os ventos), que a revista Letras Libres publica com exclusividade. Se posso dizer assim, trata-se de um “conto de ideias” que pode ser lido como apêndice ficcional do ensaio A Civilização do espetáculo (2012). Os ventos do título em primeiro plano denotam o escape dos gases intestinais do narrador de primeira pessoa, mas também podem significar “novos ventos”, enquanto novos tempos, ou a vinda do futuro. E o futuro em que se acha o narrador, um jornalista aposentado, e frágil dono de um quartinho com banheiro no bairro madrilenho de los Austrias, é (em certa perspectiva, mas não necessariamente) uma distopia que se projeta daquele ensaio — diatribe de Llosa contra um mundo que substituiu a formação e a fruição cultural e artística arte pelo entretenimento chulo e a publicidade. O velhinho peidorreiro é tratado pelo único amigo e contraponto, Osório, também velhinho mas melhor afeito à modernidade, ora de “fóssil, ludita e irredento conservador”, ora de “pterodáctilo, dinossauro, antediluviano”. Mas, desmemoriado e humilhado pela incontinência intestinal, o narrador, no final de uma longa existência, se debate contra um mundo em que imprensa, cinemas, bibliotecas, livrarias e museus desapareceram, engolfados pelo digitalização e a dimensão virtual da vida. O último romancista do planeta é um computador. Programas de inteligência artificial “customizam” histórias conforme o gosto do freguês, com mais ou menos aventura, mais ou menos sexo, digamos. Vigora uma Paper Free Society, o flagrante de consumo de carne dá cadeia e uma criança que atire uma pedra numa andorinha será tal-qualmente apenada. A medicina curou o câncer e as classes médias dominaram o planeta, que é governado por uma autocracia tecno-burocrática. A cultura se converteu de uma vez por todas em diversão e a arte, em circo. Desmilinguidas, as religiões agora não passam de clubes filatélicos. E a premissa da tecnologia limpa e da higiene afastam os jovens do sexo como o diabo da cruz, com a ajuda de pílulas inibidoras da libido. “Não basta que tenhamos que expulsar a cada dia nossos excrementos”, disse um jovem do crescente movimento dos “desequilibrados” ao narrador, “temos de nos dedicar também a expulsar diariamente nosso sêmen?”.

2 trechinhos

“O extraordinário é que haja críticos e professores que sustentem semelhante barbárie: que [contemplar obras de arte digitalizadas] é preferível, não apenas por comodidade do espectador, senão porque a imagem digital é mais precisa e exata que a original. Segundo eles, o objeto artístico pode ser visto na tela com a minúcia, lentidão e totalidade que a simples vista não permite.”

Tradução livre de Los vientos, desde o original aberto na revista Letras Libres.

“O único espectador sério que se admite hoje é o que produz o próprio bípede em seu artefato portátil, esse incinerador de tudo que é genuíno e autêntico, algo que há desaparecido praticamente neste mundo onde só reina e brilha o postiço e artificial.”

Tradução livre de Los vientos, desde o original aberto na revista Letras Libres.

Jornalismo intoxicado

O Globo me sai, na seção “Bem-estar”, com uma história sobre a “positividade tóxica”, falha cerebral que seria causada pelo “excesso de otimismo”. A reportagem passa longe de tocar no busílis: a predisposição para o entretenimento fútil e a decorrente submissão pragmática ao mandamento do otimismo, que estão no núcleo duro, no core driver do sistema e definem o espírito (de porco) do tempo.


“Trigger warnings”

João Pereira Coutinho mostra o ridículo dos trigger warnings, “alertas de gatilho” ou avisos aos inocentes de que esta ou aquela obra documental ou de ficção conterá cenas fortes, potencialmente prejudiciais. (Até a Escolinha do Professor Raimundo agora traz algo parecido, um lembrete de que as piadas do humorístico, machistas, homofóbicas etc., devam ser postas em contexto e entendidas como fruto de outra era etc.). JPP nota a “natureza absurda e infantil com a qual o público é tratado”, e se refere a estudos indicativos de que os trigger warnings não aliviam, senão agravam os traumas dos mais frágeis, citando reportagem da revista New Yorker. Os alertas levariam as vítimas a viver ainda mais intensamente os danos mentais sofridos. E acrescenta o colunista da Folha: “Rapidamente, essa cultura preventiva saltou para o mundo real e se espalhou pelas universidades. Os alunos também exigiam trigger warnings quando estivessem em causa textos ou palestras sobre temas sensíveis —racismo, violência doméstica, homofobia etc.”

*

Para a Jurupoca fenômenos como os trigger warnings nada mais são que sintomas da Daim, o Déficit de Atenção pela Infantilização do mundo, diagnóstico proposto por este jornal.


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Shame on you, Mr. Shatner!

O capital da nave estelar Enterprise, James Tiberius Kirk. Foto registrada como creative commons

Aos 90 anos, William Shatner, vai ao espaço, no próximo dia 12, na trozoba voadora do bilionário Jeff Bezos, taquarão bilionário de sua empresa aeronáutica, a Blue Origin. Depois de explorar novos mundos, novas civilizações, audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve (e levar de carona na Enterprise multidões de adolescentes nascidos nos anos 1960), como o capitão e mais tarde almirante James T. Kirk, será uma humilhação para o ator esse passeio suborbital mixuruca bate-volta.


Amestrador do tempo

Não há jeito de eu não me surpreender com João Bosco. E o ouço há cinco décadas! Sua apresentação jamais é rotineira ou burocrática. João é um amestrador do ritmo; com ele, voz e violão submetem o tempo ao bel-prazer da música.

“Pedra que lasca seu brilho/ E que queima no lábio um quilate de mel/ E que deixa na boca, melante, um gosto/ De língua no céu”. Versos de Jade (letra e música de João) que valem uma madalena mergulhada no chá, ou no café com leite.

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