JU_93 | Um sabiá chamado Byung-Chul Han

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

1 — Os portugueses chamam de “cinza” à chuva miúda, que para Dorival Caymmi também pode ser “redinha”, como ele diz em Maricotinha.

Caymmi canta Paratodos (Chico Buarque) em Anos Dourados, DVD dirigido por Roberto de Oliveira, disponível nas plataformas de streaming

2 — Pois chovia cinza, chuvinha redinha, Cotinha, quando estas notas de viagem foram tomadas em Bonsucesso, um recanto amoroso de Petrópolis, num dia aquoso dessa semana, desses em que a umidade de tão alta pode até se infiltrar nos recessos mais recônditos de uma alma cansada.

3 — Pa-ciência, pa-ciência, pa-ciência — minha irmã traduz assim o refrão do sabiá-laranjeira, cujo canto domina amplamente a primavera também ali, tomando o protagonismo das grandes araras, cujo tagarelar, no seu devido tempo, lembra a eterna hora de recreio de uma escola primária.

O laranjeira (Turdus rufiventris) é uma das 25 espécies de sabiás avistados no limite de nossas fronteiras (não que as levem muito a sério). Aprende-se algo no canal do ornitólogo Willian Menq.

Sabiá vem do tupi sawi’a, registra o Houaiss. E Menq afirma que esses turdídeos têm “sotaques” e “dialetos” distintos onde voem. Especialistas em bioacústica, ele diz, asseguram que não há um canto igual a outro. Ocorre que nossos ouvidos rudes não captam variações mais miúdas de suas emissões.

O macho canta, apresenta seu número, para defender seu pedaço e flertar com a fêmea. Esta julgará criteriosamente a performance para, à sua maneira, dizer que sim ou que não. Fêmeas carecem de paz e silêncio na hora de eleger a proposta mais canora e sedutora. Daí (novidade!) serem as mais prejudicadas pela barulheira das grandes cidades, perturbação que fez dos sabiás aves insones no cio, obrigadas a iniciar seu ritual de acasalamento bem antes do amanhecer, por isso me referi a eles outro dia, nesta JU, como operários do amor.

4 — Batizei o sabiá de Petrópolis que me acordava às seis da madrugada de Byung-Chul Han, influenciado pela leitura noturna que embalava meu sono — e já me explico. Rogo ao leitor, como meu laranjeira, pa-ciência, pa-ciência, pa-ciência.  

Não nos servimos mais de coisas que dão suporte à vida, uma cadeira, uma caneta, um chapéu, um LP, mas nos sujeitamos, satisfeitos, a não-coisas que dominam e vigiam nossa existência. Dados e informações são não-coisas.

“Já não habitamos a terra e o céu, mas o Google Earth e a nuvem. O mundo se torna cada vez mais intangível, nublado e espectral. Nada é sólido e tangível”, constata Byung-Chul Han, o filósofo alemão de origem coreana, não meu sabiá, em seu ensaio mais recente que poderá se chamar em português Não coisas. Quebras no mundo de hoje.

Surfamos a era do Phono sapiens, o smartphone (“telefone inteligente”) provedor de informações e regulador de nossa atenção e necessidade cotidiana.

Com o celular aderimos aos jogos, à “gameficação” do mundo. Na nova forma de vida moldada pela digitalização, no tatear e deslizar da ponta do indicador na tela, tudo se faz a um tempo lúdico e consumível, convertido em mercadoria (troca), inclusive o corpo e o sexo (em aplicativos tipo Tinder).

Em tempos de infodemia nos tornamos infômanos, dominados pelo celular, o mais essencial dos dispositivos infómatas, segundo o novo livro de Byung-Chul Han, do qual vou pegando aqui ideias centrais.

O celular é uma “não-coisa”, já que produz e processa informações; é um “instrumento de subjugação” , “artigo de culto da dominação digital” que “atua como um rosário e suas contas”, compara. Em cada like/curtida dizemos “amém”.

“O móvel” (em espanhol móvil) nos imobiliza” como objeto, no sentido etimológico dessa palavra latina, que tem a ver com “objetar”, opor resistência.

“As informações vivem do estímulo da surpresa, nos submergindo em um torvelinho de atualidade”, explana Han ao responder um questionário.

O Phono sapiens vive de estímulos repetitivos, respostas imediatas e comunicação instantânea. O que aparentemente provê todas as necessidades e controla nossas ansiedades requer uma atenção quase absoluta.

Mas (sigo na batida do professor de Filosofia e Estudos Culturais da Universidade das Artes de Berlim) a reconfiguração da vida ditada pelo aparelhinho ícone da digitalização cobra seu preço.

Na conta, o interpreto à solta, vem a desatenção, a incapacidade adquirida de ler qualquer coisa com mais de cinco linhas. Também estamos cada dia mais avessos ao silêncio, à contemplação e ao não fazer nada dos tempos mortos.

Na infosfera, o mundo controlado por algoritmos, o ser humano perde autonomia ao se ver diante de um universo que escapa à sua compreensão. Nos ajustamos, cada qual como pode, a decisões algorítmicas que não conseguimos compreender.

Enquanto a infosfera estende e aprofunda a digitalização (eu acrescentaria a uberização), por meio de não-coisas, vamos perdendo a viga mestra de nossa existência no mundo — e esse talvez seja o ponto-chave do palavreado que Han entretece.

Qual é o estatuto da verdade? A verdade é o que opõe “resistência a toda mudança e manipulação. É o que cimenta a existência humana”, diz Han. Aqui ele convoca Hannah Arendt: “Em termos conceituais, podemos chamar verdade ao que não conseguimos mudar; em termos metafóricos, é o espaço em que estamos e o céu que se estende sobre nossas cabeças”.

A verdade está entre o chão e o céu e dá sustentação à vida humana. “A ordem digital põe fim à era da verdade e dá lugar à sociedade da informação pós-factual”. No novo regime, a informação é colocada acima da verdade dos fatos, e predomina a volatilidade.

Para Han, as práticas que requerem um tempo mais largo, como velhos e caducos rituais, a exemplo da leitura extensiva, ou a própria verdade, não estão longe de desaparecer.

“Onde uma informação afugenta a outra, não temos tempo para a verdade. Em nossa cultura pós-factual da excitação, os afetos e as emoções dominam a comunicação”, se expressa o filósofo, ou ainda: “A informação cria uma forma de vida sem permanência e duração”, aponta o autor.

Estamos nos entupindo de informações sem nada aprender, viajando sem experimentar a viagem, guardando dados de mais e memórias e recordações de menos, acumulando “amigos” e seguidores sem defrontar o outro cara a cara, e preferindo teclar a conversar.

A informação por si só não ilumina o mundo. Inclusive pode obscurecê-lo. A partir de certo ponto, a informação não é informativa, senão deformativa”, nas palavras do autor de A sociedade do cansaço.

E aprendemos que fake news (mais propriamente notícias fraudulentas) são informações que podem ser mais efetivas que os fatos (bastaria recordar, como exemplos, o efeito do “kit gay”, na campanha eleitoral de 2018, ou do “tratamento precoce” na pandemia).  Na infosfera vale o efeito a curto prazo, ou, como diz Han, “a eficácia substitui a verdade”.

Desenrolei acima uma linha do fascinante novelo que é o ensaio de Byung-Chul Han. O homem filosofa para as massas, digamos assim, sobre o telefone inteligente, as selfies e a inteligência artificial. A edição espanhola intitula-se No-cosas. Quiebras en el mundo de hoy,

A leitura de Han ajuda a clarear um mundo fragmentado e impalpável, em que o alicerce da verdade é constantemente solapado por oportunistas, vigaristas e delinquentes. 

Ajuda também a aliviar o mal-estar do enjoo provocados pelas oscilações do dia a dia, sensações comuns numa dieta omnívora de informação.

Navegamos, como gostávamos de dizer num tempo de encantamento com a internet, na nave-mãe Google, sendo conduzidos a milhares de sites como o Youtube por matriz algorítmica.

Os mais frágeis ou menos acostumados podem se sentir mareados no infomar, expressão de Pela internet, a canção maravilhada de Gilberto Gil, “em louvor à techné”, como ele mesmo diz em seu site, que tem como um de seus refrões em eco significativamente “jogar, jogar, jogar”.

Ao zapear na rede atrás de informações mais e mais excitantes, enfrentamos um caos permeado pelo massacre publicitário.

“O mundo está contaminado não apenas por excrementos e resíduos materiais, mas também por resíduos da comunicação e da informação”, diz Han, ao convocar o filósofo francês Michel Serres.

O mundo “está coberto de anúncios. Tudo grita para chamar atenção”. O monturo da publicidade acumula dejetos gráficos, visuais e sonoros.

O caos publicitário lembra a fantasmagoria de um inferno digitalizado, me ocorre, com sua profusão picareta de coaches, soluções mirabolantes, remédios milagrosos e “revelações” nutricionais revolucionárias.

Nem é o caso de repetir as barbaridades da política, o desgaste da democracia e a ampla e crescente adesão à estupidez, tudo que nos vemos obrigados a tentar naturalizar como mais uma fato da vida — pautados por uma positividade condenatória de qualquer traço de negatividade que possa oferecer resistência ao curso do “progresso”.

“Diante da digitalização”, conclui Byung-Chul Han —  hoje o “filósofo mais lido no mundo” segundo a casa editorial que o publica — “Kafka teria admitido com resignação que os fantasmas alcançaram sua vitória final contra a humanidade após terem inventado a internet, o e-mail e o smartphone”, esceve. “Fantasmas brincam na rede. As infosferas são realmente fantasmagóricas. Nelas, nada pode se materializar. Não-coisas são comida para fantasmas.”

Na entrevista citada atrás, concedida ao El País, o filósofo diz que é preciso “silenciar a informação”, de outra forma acabaremos com os cérebros detonados. “Vamos perdendo o mundo. O mundo é algo mais que informação”, diagnostica. “A tela é uma pobre representação do mundo. Giramos em círculo em volta de nós mesmos. O smartphone contribui decisivamente para esta pobre percepção de mundo. Um sintoma fundamental da depressão é a ausência de mundo”.

5 — A Piauí passa a ser controlada pelo Instituto Artigo 220 e, doravante, mantida por um fundo patrimonial doado por João Moreira Salles, em moldes semelhantes ao arranjo que assegura a continuidade e a independência do jornal britânico The Guardian. Salles se afasta da direção da revista, que agora tem um conselho editorial para orientar a direção de redação. O novo instituto remete ao dispositivo da Constituição de 1988 que institui a liberdade de imprensa.

Este é o raro gesto de um mecenas brasileiro em defesa do jornalismo e da “grande imprensa”, hoje havida como inimiga por extremistas de direita e obstáculo no caminho de populistas de esquerda, polos que se equiparam no apego à pós-verdade e adesão à lucrativa irresponsabilidade das redes sociais.

6 — Anuncia-se um segundo álbum (Reconvexo) de Anat Cohen e Marcello Gonçalves, o segundo depois de Coisas, em que interpretaram a obra de Moacir Santos. O que vai abaixo é um single do novo trabalho, El diablo suelto, composição do venezuelano Heraclio Hernandez.

Atualização na sexta-feira (15)

O álbum chegou hoje às plataformas de streaming! O violão sete cordas de Marcello e a clarineta de Anat alcançam nada menos que a perfeição da quinta à nona faixa, ao interpretarem um repertório que inclui Caetano Veloso, Milton Nascimento e Tom Jobim. Mas as primeiras estão ótimas! A perfeição é alcançada quando o diálogo entre os instrumentos, dentro da linha que escolheram, encontra “respostas” que apontam para o novo, para a genuína redescoberta capaz de reiluminar uma obra popular.

Carimbado como Fato Cultural Relevante.

7 — Yamandu Costa, o baixista Guto Wirtti e o luthier canadense Will Hamm lançaram este single, Baby Blues. O acompanhamento tem um colorido que remete à música cigana, e a envolvente e melodiosa tessitura das cordas preenche com exatidão a emissão meio roufenha de Hamm.

8 —  A Jurupoca tem 93 edições. E agora José, vale dizer, Antônio?

Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Jurupoca_93 – 15 a 21/10 de 2021
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


 (Foto do alto): Viuvinha, cujo lilás traz aos olhos uma clara iluminação, mesmo num dia nublado em que a umidade se infiltra nos recessos mais recônditos de nossas almas


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