JU_94| Matemáticas impuras

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Leio que, ano passado, o ministro da Educação do Canadá baixara como norma uma abordagem “descolonialista” da matemática. Daí foi um pulo para o programa do 9º ano fundamental de Ontário determinar o uso de lentes pedagógicas corretivas, por assim dizer, no ensino da matéria. Os meninx da província aprenderão que a matemática é uma construção social, “subjetiva”, portanto, como norteiam os irracionalistas, e pode ser usada para “normalizar o racismo” e “marginalizar o conhecimento não-eurocêntrico da disciplina”.

Um perigo afinal de contas esse negócio de teoria dos conjuntos, álgebra, funções lineares, geometria e tal, devemos admitir.

Os óculos ideológicos vão permitir que os escolares de Ontário enxerguem o mundo com a nitidez que os novos profetas da elevação moral querem que o mundo tenha — um mundo cristalino, livre do patriarcalismo, do neoliberalismo e de toda herança colonial, em suma, livre de privilégios e poderes.

Para tanto, a história precisa ser recontada com narrativas guiadas pela clareza moral, e a ciência, expurgada de vícios como a cumplicidade com o colonialismo, o escravismo e o machismo. Está bom para começar?

Minha curiosidade no caso vai longe. Não consigo imaginar como a máxima “torture os números que eles confessam”, aplicada ao mau uso das estáticas, possa ser estendida aos  programas de correção política e ao revisionismo histórico.

Afinal, qual será o futuro da matemática aplicada, digamos, ao cálculo construtivo, à química ou à astrofísica?

A matemática pura perderá a pureza?

Se a matemática pode mesmo atender a uma ciência subjetiva e pós-moderna, pautada pela reeducação moral e cívica, as Leis de Newton serão expurgadas do elitismo do gênio inglês? Quanta entropia, Deus meu!

Na trigonometria, seno e cosseno vão tangenciar o passado colonial da humanidade, dado o viés escravista da sociedade grega, onde essa ciência se desenvolveu?

O teorema de Pitágoras será reformulado, e, conforme o lugar de fala, isto é, de cálculo, num triângulo retângulo a soma dos quadrados dos catetos será diversa do quadrado da hipotenusa?

Pobre Euclides!

E o que farão com a Teoria da Relatividade Geral e Restrita, concebida por um macho branco, nascido no berço esplêndido de uma família endinheirada? Não quero nem pensar.

Talvez a relativizem ainda mais. E espremendo toda aquela matemática cabeluda, pá daqui, pá de lá, logrem enquadrar o espaço-tempo numa geometria do cosmos inspirada, quem sabe, na cosmogonia dos aborígenes canadenses, a dos inuítes, por exemplo.

*

Leio que Barcelona, governada pela alcaidessa Ada Colau — a quem o escritor Javier Marías acusa de transformar a estonteante cidade numa “Disneylândia ou na Neverland de Michael Jackson” — acaba de inaugurar uma nova frente de combate à LGTBIfobia e ao machismo.

O novíssimo Centro de Novas Masculinidades (Centro de Nuevas Masculinidades) vai ensinar, por meio de seminários, palestras e cursos de seis semanas, que a “masculinidade não é incompatível com a sensibilidade”, entre outras lições reformadoras (e inspiradoras). O instituto promoverá modelos de masculinidade “positivos, abertos, plurais e heterogêneos”.  

“Que grande mudança, onde vamos parar!”, comentou no El País Fernando Savater. “E isso [o empenho pedagógico] se consegue na base de pequenos cursos, algo de yoga, choro frequente (?) e repartindo abraços para romper nossa couraça viril?”, indagou o filósofo basco, um bissexual declarado, diga-se de passagem.

De minha parte, pergunto se os principais interessados, primeirões a correrem ao Centro, serão propriamente homens rudes, tronchos, abusadores, quem sabe entre eles alguns desprevenidos e insensíveis fãs de James Bond ou Clint Eastwood, ou, inversamente, se a alguma lei no futuro, que a iniciativa de Colau anuncia, exigirá a “cura” de tais cascas-grossas, que nesse caso serão matriculados e se submeterão compulsoriamente à reeducação de gênero.

Mas pode que não seja nada disso.

Pode que os mais ávidos alunos do Centro sejam seres humanos de sexo masculino mais ou menos sensíveis como os seres humanos do sexo feminino, ou como seres humanos, seus semelhantes, de que gênero tenham, com a mesma variação humana de educação e caráter, o que é comum à nossa espécie. Mas, ainda assim, precisam arranjar namoradas, certo? E para isso necessitam se capacitar para as expectativas das novas feminilidades, forjadas pelos novos feminismos de cunho progressista. E vai que também pelo ajuntament d’alcaldessa de Barcelona, que tal-qualmente é nacionalista e separatista.

*

Leio que o reputadíssimo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) — “joia da coroa da academia mundial”, diz Percy Deift na Quillettedesconvidou, no início deste mês de outubro, o geofísico da Universidade de Chicago Dorian Abbot a palestrar sobre mudanças climática na sua prestigiosa Conferência John Carlson.

A veneranda instituição de Cambridge cedeu covardemente à intimidação de estudantes e professores mancomunados numa campanha de cancelamento aviada pelo Twitter (onde mais?).

Qual foi o pecado de Abbot? Defender seu ponto de vista sobre a política de seleção de alunos e professores nas universidades norte-americanas.

Abbot criticou a ação afirmativa e outros meios que favorecem candidatos a  empregos com base em sua identidade étnica ou racial. Entres “outros meios” constam laços familiares e desempenho esportivo, condições que garantem consideráveis vantagens a pretendentes brancos, comenta Yascha Mounk, professor de Estudos Internacionais Avançados na Universidade Johns Hopkins, em Washington, autor de O povo contra a democracia.  

Leio na Quillette que Abbot participara de um debate online sobre o movimento, crescente nos campi dos EUA, em torno da sigla DEI (diversidade, equidade e inclusão). Na ocasião, Abbot destacou a “importância de que cada pessoa seja tratada como um indivíduo digno, merecedor de respeito. Em um contexto acadêmico”, prosseguiu, “isso significa dar a todos uma oportunidade justa e igual quando se candidatarem a uma posição, bem como permitir que expressem suas opiniões abertamente, mesmo que você discorde deles ”.

O geofísico também assinara, em agosto, um artigo em coautoria na Newsweek em que afirma que o DEI, como praticado hoje em dia no seu país, “viola o princípio ético e legal da igualdade de tratamento” e “trata as pessoas como meros meios para um fim, dando primazia a uma estatística sobre a individualidade de um ser humano.”

No lugar do DEI, Abbot propôs como alternativa um programa baseado no Mérito, Imparcialidade e Igualdade (MFE, na sigla em inglês), “no qual os candidatos sejam ‘tratados como indivíduos e avaliados por meio de um processo rigoroso e não enviesado, baseado unicamente em seu mérito e suas qualificações’, no relato de Yascha Mounk.  

Mounk diz que o clima pesado de autocensura e veto tácito ao livre debate contaminou o ambiente acadêmico dos EUA. O estado atual das coisas, observa, nada lembra o ambiente que encontrara ao vir da Alemanha, quando o discurso político era notavelmente “livre e amplo”. E essa transformação teria ocorrido no curto espaço de cinco anos para cá.

Ferir sensibilidades e dogmas “progressistas” desperta fúrias e campanhas de cancelamento para “suprimir, marginalizar e punir” adversários da causa, nas palavras de Deift.

Há incontáveis exemplos de professores e pesquisadores desempregados, palestrantes desconvidados, títulos cancelados e profissionais desonrados sem terem tido oportunidade de debater com quem se viu ofendido. Uma frase típica do momento  (“é claro que eu não diria isso em público”) assinala as barreiras da liberdade de expressão no país, acrescenta Mounk.

“Ao mesmo tempo que a ascensão de Donald Trump tornou possível um presidente incitar ódio e semear desinformação, o espaço para o que pode ser tolerado nos ambientes ditos ‘respeitáveis’ em que eu me movimento e escrevo — incluindo os campi das universidades e as páginas dos jornais americanos — encolheu com rapidez estarrecedora”, constata Mounk.

Mas no caso do MIT houve um inesperado e saudável desdobramento.

Cancelado no MIT, Abbot se viu, por sorte, ainda mais prestigiado, ao ser convidado a apresentar a mesma conferência em Princeton. Com a repercussão do caso no The New York Times e em outros veículos de comunicação, milhares de estudantes, reporta a Quillette, se inscreveram para o evento. Além disso, seu cancelamento pelo MIT rendeu-lhe uma distinção concedida pelo Conselho Americano de Curadores e Ex-Alunos, que o nomeou Herói da Liberdade Intelectual”.

*

Leio que há 25 anos o cérebre e farsesco artigo do físico Alan Sokal era aceito e publicado no periódico pós-moderno de estudos culturais Social Text, mantido pela Universidade de Duke, nos Estados Unidos.

Transgredindo as fronteiras: Rumo a uma hermenêutica transformativa da gravidade quântica seria o título do paper em português. Todo o conteúdo não passava de uma piada intelectual sem pé nem cabeça mas muitíssimo bem disfarçada de conversa irracionalista “séria”.

A “brincadeira” de Sokal, feita em nome da razão, da ilustração e da sanidade, rebentou num escândalo planetário, mas o golpe foi logo absorvido pelos atingidos.

Era uma paródia cirúrgica, muito bem urdida, repleta do jargão impenetrável dos papas do movimento (Jacques Derrida, Michel Foucault e companhia) de inspiração marxista. Uma gente que batia o pé ao defender a “ideia de que a ciência é apenas uma das muitas ‘maneiras de saber’ igualmente válidas, que o racionalismo ocidental é ideologicamente corrupto, que ‘sua verdade’ é amplamente determinada por seu gênero ou cor de sua pele […]”, como descreve James B. Meigs na revista Commentary.  

Quando editores da Social Text bateram os olhos no negócio, desde o título sedutor, Transgredindo as fronteiras etc., upa!, foi sopa no mel. Não demoraram para agasalhar, revisar e publicar o trabalho com grande entusiasmo.

Sokal se convertera num aplicado aprendiz do trato liberal, nonsense e embusteiro que os desconstrucionistas davam a conceitos da física quântica, ao interpretar o “princípio da incerteza”, digamos, como uma espécie transcendental e exótica de literatura.

Ele também caprichou nas citações de Heisenberg (autor da dita indeterminação quântica) e do historiador crítico da ciência Thomas Kuhn, outro queridinho da turma — e igualmente usado e abusado por ela.

Como notara Sokal ao se sentir estimulado a dedicar tempo e energia à “fabricação” de sua farsa-bomba, autores da corrente pós-modernista eram capazes de jurar que “o conteúdo e a metodologia de toda a ciência moderna — o que significa astronomia, física e química, não menos que psicologia, biologia e medicina — tudo isso estava de alguma maneira irremediavelmente contaminado pela ideologia patriarcal, capitalista e colonialista.”

Mas o articulista da Commentary constata que, passado um quarto de século, os “absurdos acadêmicos” denunciados por Sokal já não parecem nada extravagantes”; na verdade, se tornaram batidos lugares-comuns.

“Essas noções sustentam programas de capacitação ‘anti-racistas’ em empresas da Fortune 500 e em agências governamentais dos EUA”, relata Meigs. “Moldam currículos nas escolas norte-americanas nas primeiras séries. E influenciam as opiniões [no país] comuns sobre tudo, desde nossa própria história até a segurança das vacinas”, escreve.

“Quando olhamos o colapso da racionalidade à nossa volta, parece que, embora Alan Sokal possa ter vencido sua batalha contra a loucura pós-moderna, ele finalmente perdeu a guerra”, lamenta Meigs.

A tendência de jornais como o The New York Times se comprometerem menos com a apuração criteriosa da verdade dos fatos que com a tal de “clareza moral” — no exemplo de sua colunista Michelle Goldberg, que definiu como “histeria” os alertas contra o desgaste da liberdade de expressão na academia norte-americana — a “cultura do cancelamento” e, acrescento por conta própria, o trumpismo, o antivacinismo, todo o lamaçal negacionista drenado nas redes sociais e aquilo que por aqui há três anos nos horroriza e que vou chamar de vibrionismo colérico, tudo isso ecoa o lamento de Meigs.

*

Não leio mas sim vejo no Eurochannel, numa reprise da ótima série documental Canto dos Exilados, algo sobre uma grande tirada de Herbert Caro (1906-1991), intelectual alemão naturalizado brasileiro (com quem os leitores de Thomas Mann temos uma baita dívida de gratidão). Pois o verdadeiro aforisma, como diz um professor que o revela no episódio em questão (o segundo, dedicado a escritores, críticos e tradutores) me acudiu a respeito de tudo que vai acima e de toda asneira a empestear nosso tempo.

Depois de, constrangido, haver testemunhado no centro de Porto Alegre um tumultuado e ruidoso trote de calouros universitários, Caro anotara:

— Todas as faculdades estavam presentes. Exceto as mentais.

Diga-se o mesmo do irracionalismo, do patrulhamento intelectual, do desprezo “progressista” pela liberdade de expressão e da nova espécie de macartismo que se espalha pelo mundo, ainda, democrático.  


Sandro Chia: O portador de água, 1981. Tate Gallery. Um comentário do artista sobre a obra: “O peixe é um símbolo da morte… É a maior coisa que sempre carregamos” (Eleanor Heartney em Movimentos da arte moderna –  Pós-modernismo, Cosac y Naify, 2002, p. 20)

Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Jurupoca _ 94 – 22 a 28/10 de 2021
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


 (Foto do alto):  Um círculo unitário, por Krishnavedala. Domínio público Wikimedia Commons


| MÍNIMAS & SEMÍNIMAS |

Rovelli e os quanta

“Minha esperança era que a efetividade extraordinária que estamos vendo com as vacinas iria aumentar a confiança das pessoas no pensamento científico. Infelizmente, isso não aconteceu: muita gente ingênua se ilude com as bobeiras que inundam a internet.  Mas não acho que isso tenha a ver com ciência. Tem a ver com política, com a infelicidade das pessoas, desconfiança na sociedade, sentimentos de que essa sociedade não nos representa. A ciência acaba sendo encurralada nesse fogo cruzado”, disse ao Estadão o físico italiano Carlo Rovelli, que tem um novo livro editado no Brasil intitulado O Abismo vertiginoso. Nele, o autor do ótimo Sete breves lições de física (2015) procura explicar para o leitor comum interessado em ciência o funcionamento do fenômeno quântico — ainda um enigma para praticamente toda a humanidade, entre outros requisitos, incapaz de lidar com a física e a matemática mais avançadas. Pude ler algumas páginas da obra, e do pouco que li posso dizer que, pela primeira vez na vida, compreendi com certa clareza ao menos como se deu a introdução dos “quanta” na física teórica, nas primeiras décadas do século passado, e a revolução que isso representava. A nova e revolucionária teoria sobre o “salto” de um elétron entre uma e outra órbita do átomo logo estaria plenamente assentada, desenvolvida e empregada na expansão de vários campos do saber, como narra o autor:  

“A teoria dos quanta esclareceu as bases da química, o funcionamento dos átomos, dos sólidos, dos plasmas, a cor do céu, os neurônios de nosso cérebro, a dinâmica das estrelas, a origem das galáxias… uma infinidade de aspectos do mundo. É o fundamento das tecnologias mais recentes: dos computadores às centrais nucleares. Faz parte do cotidiano de engenheiros, astrofísicos, cosmólogos, químicos e biólogos. Rudimentos da teoria estão no currículo do ensino médio. Ela nunca falhou. É o coração pulsante da ciência atual. Apesar disso, continua a ser um mistério. Um pouco perturbador”.


O futuro da música: Fato cultural relevante©

Descubro na rede um sítio do balacobaco dedicado à música, aos livros e às artes: Ted Gioia – The Honest Broker (algo como o mediador honesto). A maioria dos artigos do site exigem subscrição. Gioia é um músico norte-americano, escritor, crítico e historiador do jazz. No post aberto (em inglês) 12 previsões para o futuro da música, ele se arrisca diante de uma “bola de cristal” — ou nem tanto assim, pois, como é fácil constatar, ele se baseia num sólido conhecimento do ramo. Estão lá muitas respostas para quem se pergunta como a música, especialmente a música contemporânea de qualidade, pode ser ouvida, ou como um artista consegue sobreviver de sua criação na infosfera. Gioia começa por afirmar que os velhos selos das grandes gravadoras vão sobreviver, mas quase exclusivamente de catálogos e acervos adquiridos, ou seja, relançamentos e relíquias “esquecidas” em baús. Mais e mais, a chance de sucesso de um artista não estará nas mãos das gravadoras mas nas plataformas online — ele cita como exemplos TikTok, YouTube, Peloton, Bandcamp. Também prevê o surgimento de uma plataforma voltada somente para fãs do que é jovem e novo. Muito do que lemos no post dispensaria uma bola de cristal, é verdade, como a previsão de que a penúria dos músicos para pagar as contas vai aumentar ainda mais nos próximos anos. Em outra profecia, vemos surgir, amanhã, o boom do holograma, verdadeira indústria da ressuscitação de cantores mortos, além de softwares capazes de falsear o registro vocal de estrelas e astros defuntos. As novas tendências virão cada vez mais de fora do mundo anglo-norte-americano, com fenômenos como o coreano K-Pop. Esquisitices do tipo “lo-fi”, música empacotada e destinada a isso ou aquilo — arrumar a casa, malhar, transar — onde o menos importante é a audição atenta, e muito menos saber o nome de quem compôs o que estamos consumindo, parece ser uma frente entre as mais promissoras. Traduzo a 10ª profecia de Gioia, que, não sem ironia, parece sintetizar o conjunto da obra premonitória:

“Todas as inovações em tecnologia musical virão de fora da indústria de música tradicional. Assim, importantes decisões sobre distribuição, curadoria, apresentação etc. serão determinadas pelo Vale do Silício e suas ramificações. É pouco provável que essas enormes corporações globais — literalmente as maiores empresas da história do mundo — sejam motivadas por aspirações artísticas ou filantrópicas em suas iniciativas. Não obstante, elas poderiam ter um grande impacto positivo na cultura se quisessem, dados os enormes recursos de que dispõem. Ou seja, os gostos musicais dos executivos da Apple, Google etc. podem acabar por ter um impacto surpreendentemente grande em como as coisas vão se desenrolar.”


Um concerto privado: Fato cultural relevante©

Pode-se ver no canal Film & Arts (também disponível no péssimo, terrível mesmo, Now da Net/Claro) esta atração fina e elegante. Daniel Barenboim toca com o filho, Michael, ao violino, e Kian Sottani, no violoncelo, o Trio fantasma de Beethoven, peça que há 60 anos integra o repertório do maestro e pianista de origem argentina. Somos levados à casa berlinense de Barenboim, onde ele vive há três décadas com a família. Entre um movimento e outro do concerto, o maestro proseia amigavelmente com Annie Dutoit, ilustrada jornalista, filha da célebre pianista argentina Martha Argerich. Alternando francês e alemão com grande naturalidade, Barenboim comenta a importância do Geistertrio na vida e obra de Beethoven, fala de sua infância em Buenos Aires, repõe circunstâncias de sua trajetória, como seu apadrinhamento em Paris pelo grande Arthur Rubinstein, reitera a importância do silêncio na música, aponta a decadência da imprensa cultural no advento das mídias sociais, e faz piada com os críticos de música. Mas a delícia do programa, claro, está na música, na chance de ouvirmos o bendito trio (em Ré maior, Op. 70, nº 1) interpretado em casa, em família, descontraidamente. Música de câmara da mais alta estirpe, na mais alta expressão desse gênero. Ai vai o trailer.


Você gostaria contribuir com a Jurupoca? Veja como fazer uma doação clicando aqui.


Maçãs do rosto

Num poema sobre Cesário Verde, João Cabral diz em versos: “Assim chegou aos tons opostos/ das maçãs que contou:/ rubras dentro da cesta/ de quem no rosto as tem sem cor”, a remeter ao português morto tão jovem: “E enquanto sigo para o lado oposto,/ E ao longe rodam as carruagens,/ A pobre afasta-se, ao calor de Agosto,/ Descolorida nas maçãs do rosto,/ E sem quadris na saia de ramagens.”


Flor no xibiu

“Me chamo Siá Tereza/ Perfumada de alecrim/ Ponha açúcar na boca/ Se quiser falar de mim// Flor no cabelo/ Flor no xibiu…/ Mar e rio”, assim se canta a doce Modinha para Teresa Batista, parceria de Dorival Caymmi e Jorge Amado, tema da minissérie da Rede Globo de 1992 baseada no romance Amado. Vou atrás desta Siá alembrado por outra, aliás outro, que João Cabral nos apresenta assim: “Quando Antônio de Siá Teresa/ vinha embaixo, na bagaceira,/ se viu uma coisa rara: a pé, mas de gravata…” Aí vai a Modinha na voz de Joyce, em faixa de seu songbook de Caymmi.


O mar, quem é o mar?

E a este Borges me entreguei, encantado, em meio à névoa gelada da chuva redinha de Bonsucesso, em Petrópolis, como relatei na JU anterior.

El mar 

Antes que el sueño (o el terror) tejiera
mitologías y cosmogonías,
antes que el tiempo se acuñara en días,
el mar, el siempre mar, ya estaba y era. 
¿Quién es el mar? ¿Quién es aquel violento
y antiguo ser que roe los pilares
de la tierra y es uno y muchos mares
y abismo y resplandor y azar y viento?
Quien lo mira lo ve por vez primera,
siempre. Con el asombro que las cosas
elementales dejan, las hermosas 
tardes, la luna, el fuego de una hoguera.
¿Quién es el mar, quién soy? Lo sabré el día
ulterior que sucede a la agonía.
Agora ouço o próprio Borges a dizê-lo, 

Zuza, João e João 

Júlio Maria adianta no Estadão algo da aguardada biografia de João Gilberto (1931-2019) escrita por Zuza Homem de Mello, falecido no ano passado enquanto dormia — apenas algumas horas depois de terminar a revisão do texto e anotar no final palavras de amor e gratidão à mulher companheira, Ercília. O livro já está em pré-venda na rede. Me tocou saber que Zuza presta uma reverência “a outro João”, como diz Júlio, reverenciado há pouco também aqui. Maria transcreve a seguinte dedicatória, nas primeiras páginas da obra: “Para João Bosco, meu amigo tão querido, superlativo integrante de honra da galeria da nobreza da música brasileira. Ouvindo você e ouvindo João Gilberto vivo momentos inesquecíveis, os mais sublimes da música.” Ninguém melhor que Zuza sabia identificar a “galeria da nobreza da música brasileira”.


Nana

Nana Caymmi, 80 anos desde o último dia 29 de abril, é dona de um timbre belo, penetrante e inequívoco, sendo uma das divas mais dadivosas da MPB. A Rádio Batuta a homenageou no aniversário com uma playlist de rara felicidade, intitulada “Nana não é para os fracos”. “Nana só fala o que pensa, desagradando (e até ofendendo) muita gente, como interpreta apenas o que deseja”, diz o texto de abertura. Mas o que importa é que nós, musicófilos, a temos a cantar faz 60 anos. Salve, Nana; parabéns atrasadíssimos da JU. Nana canta o que quer, é certo. Além do mais, é uma reinventora de canções como Clube da Esquina 2 e Cais, e interpreta como poucas artistas composições tristes e ácidas, por saber o tempo e a divisão exatos de cada letra e melodia. Sem isso, um canto triste pode resvalar na mera dor de cotovelo, ou pior, no no brega. Confira aí:

https://radiobatuta.com.br/selecao/nana-nao-e-para-os-fracos


Clique aqui para receber a newsletter semanal da JU.


Encontre nesta página os  links de todas as edições da carta.


Ouça no Spotify a playlist (sempre atualizada) Estação Siutônio: 1001 canções brasileiras.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s