JU_95 | Chico & Caetano não se entregam não

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

“Eu não me entrego não!”, grita Corisco ao seu perseguidor, Antônio das Mortes, no filme de Glauber Rocha.

“Eu não me entrego não!”, grita um democrata resistente, grita um não-demente, grita um lúcido em meio às trevas da desrazão.

“Eu não me entrego não!”, grita Caetano Veloso.

O artista disse assim numa entrevista à Julio Maria, no Estadão, ao comentar sua, sem querer sê-lo, canção-manifesto Anjos tronchos, uma crítica ao reordenamento da economia e da cultura pela ordem algorítmica forjada por vendilhões mi, bi ou trilionários:

“Eu sou muito velho para estar tomado pelo mundo das redes sociais. Não vejo muito Spotify, quando pego no computador dá tudo errado. Vivendo fora disso, a pessoa fica meio cética a respeito da possibilidade totalizante e dominante desse mundo se desenvolvendo assim. A experiência humana pode enfrentar muita coisa que parece inelutável e na hora H continua a ser apenas a experiência humana. Temos de ir vendo e vivendo. Eu não me entrego não”.

Atravessei a madrugada de sexta para sábado lendo Anos de chumbo e outros contos, de Chico Buarque. E o último fim de semana a ouvir Meu coco, o novo disco (vou sempre chamar assim, apesar de a música nova aparecer primeiro como bits, nãocoisa da infosfera, e só depois, quando dá, no suporte físico e propício ao trato humano do CD e do LP).

Ambos, livro e disco, são obras de quem não se entrega não, de quem pratica sua arte com denodo e (não é de hoje) presta uma inestimável contribuição para que o país, por meio da elevação espiritual, não se degrade ainda mais e se perca na desesperança, senão na insânia.

Caetano, aos 79 anos, e Chico, dois anos mais jovem, são uma espécie de ancoradouro da inteligência e sensibilidade de uma geração muito apegada à cultura popular e sua florescência (do que pude desfrutar ao passo que virava gente). A cultura popular mais rica, como é a MPB áurea, extrapola seu campo ao gerar interesses difusos e intersecções artísticas.

Caetano, aos 79 anos, e Chico, dois anos mais jovem, são uma espécie de ancoradouro da inteligência e sensibilidade de uma geração muito apegada à cultura popular e sua florescência (do que pude desfrutar ao passo que virava gente). A cultura popular mais rica, como ocorre na MPB áurea, extrapola seu campo ao gerar interesses difusos e intersecções artísticas.

O ouvinte de Chico e Caetano foi levado ao teatro e ao balé (Gota d’água, Calabar, Ópera do malandro, O grande Circo Místico…), ao cinema (a filmes de Antonioni, Fellini, Almodóvar e nacionais para e sobre os quais compuseram canções e trilhas, quando não entraram em cena), a ouvir algo da música erudita contemporânea (“Shönberg, Webern, Cage”), e a tantos romances, ensaios, dicionários!

Excitava-mos intelecto e sensações a cada novo LP, a cada canção instigante, a cada palavra ou gesto, que rebentava nos jornais, nas TVs e já em rodas de cerveja e violão, conversas de namorados, papos de ônibus, pátios. Letra e música corriam nas veias e eram bombeadas no coração do tempo.

Chego aos 60 e devo admitir que a despeito dos esforços de uma jornalista interessado em cultura, portanto dedicado a descobrir e revelar o novo de qualidade, que meus ídolos basicamente ainda são os mesmos, e que as aparências não enganam não — me perdoe o Belchior por tomar seus versos a contrapelo. Mas o novo nem sempre vem.

Anjos tronchos, a canção (single do disco) foi Fato cultural relevante© desta Jurupoca — e preciso dizer, com certa primazia em nosso jornalismo cultural e a adjacências (me perdoe, leitora,  leitor, por não resistir a um afago, vão, em mim próprio).

E Anjos tronchos (alvíssaras!) deu em Meu coco, mais que um cancioneiro inédito de Caetano em nove anos — urdido no tenso retiro epidêmico tensionado pelo Vibrião, aliás, Antônio das Mortes, vulgo Kaveirão.155mm — é sua criação autoral mais importante desde Circuladô, de 1991, embora de sua produção neste ínterim eu goste ainda mais de seus discos como intérprete ou mistos, como o Fina estampa (1994) e o Omaggio a Federico e Giulietta (1999)

Em Meu coco, a melopeia, a parte propriamente musical, fica a dois passos da poética do letrista. Mas não me perco nisso; grandes melodistas são raros como um Tom. E a poética desse álbum é de novo, na vasta discografia deste cantautor, encantatória, rica em invenção, ensolarada, sentida e, por sinal, carregada de palavras raras e bonitas: guenzo, ciclâmen, grei, bailarico…

Afinal, Caetano é o criador de Língua, um artista determinado a decantar (e anunciar) o idioma brasileiro e a brasilidade como potências genuínas, senão utopia redentora da civilização, como se estivéssemos fadados a alcançar a plenitude daquela Roma Negra sonhada por Darcy Ribeiro. “Faremos mundo feliz”, ouvimos numa faixa.

Enquanto cantautor, Caetano é um tipo de antropólogo cultural ou sociólogo. O artista labuta para reafirmar a maravilha da indistinção e das pororocas culturais geradas na miscigenação das “três raças tristes”, uma realidade compensatória projetada no devir, (muito) além das misérias do passado e do presente. Meu coco se olha no espelho de A bossa nova é foda. Não que falte tensão e ironia em seu canto; Caetano é Caetano.

Penso na faixa Enzo Gabriel, nome campeão de batizados no Brasil em anos recentes. O compositor pergunta a quem acaba de nascer sobre o papel que ele haverá de ter “na salvação do mundo”. E  como um pai que reza aos anjos, canta: “olha para o céu, não faças só como eu/ E o meu coração vagabundo”.

Enzo pode ser “um menino guenzo ou um gigante negro de olho azul/ Ianomâmi,/ luso, banto, sul/ Eu, teu pai, te benzo e espero ver teu gesto pontual/ Vira mundo desde a cuia austral”. E então: “Enzo Gabriel, sei que a luz é sutil/ Mas já verás o que é nasceres no Brasil/No Brasil….”. (É rica a assonância de Enzo/guenzo/benzo, não?).

As sonoridades de Meu coco, mescladas em estúdio caseiro, como era dado na isolação da pandemia, buscam sublinhar, mais uma vez na trajetória do tropicalista, os hibridismos todos que as letras cantam.

Aparecem samba, células rítmicas do Olodum, levadas de funk, sanfona, ponto de macumba, um “bandolim sábio” (de Hamilton de Holanda) a soar como guitarra portuguesa, e até um “fraseado do médio-oriente salpicado de [o compositor dodecafônico vienense, Anton] Webern”, arranjado por Jaques Morelenbaum, como Caetano elucida num texto próprio para divulgação do disco.

Se Anjos tronchos é a faixa mais contundente e original de Meu coco, há ao menos outras três canções superiormente belas no álbum.

Aqui também Caetano exerce o apostolado de louvar tudo que é ruído musical de sucesso popular, que agora seja uma “Mar(av)ília Mendonça, afinação”, como diz na  gostosa Sem samba não dá. Mas quando fala (e ouve) sério, para valer, esquece isso volta a João Gilberto e sua estirpe.

Volta na mesma Meu coco, a canção-tema. Por mais essa vez sua obra exalta a estrela-guia de João e da Bossa Nova, e convoca Caymmi e Ary Barroso. Sabemos, com m neologismo de brinde, que “tudo embuarcará na arca de Zumbi/ Zabé” —  em autocitação de Feitiço, alusão ao metabolismo antropofágico de “guitarra de rock’n’roll, batuque de candomblé”, canção de seu belíssimo CD com Jorge Mautner, de 2002).

Meu coco abre-se com o interesse de Caetano pela beleza dos “nomes de nomes” (como já ouvimos em Língua. E como esquecer o proclame “gosto de ver sentir minha língua roçar a língua de Luís de Camões”?), já presente em Enzo Gabriel. Também aqui se anuncia que a potência da música popular nos livrará de qualquer moléstia que pretenda parasitar o caráter reto da nacionalidade:

“Simone e Raimunda, disparou as Luanas
A palavra ‘bunda’ é o português dos Brasis
As Janaínas todas foi Leila Diniz
Os nomes dizem mais do que cada uma diz
Somos mulatos híbridos e mamelucos
E muito mais cafuzos do que tudo mais
O português é o negro dentre as eurolínguas
Superaremos cãibras, furúnculos, ínguas
Com Naras, Bethânias e Elis
Faremos mundo feliz [...]”
Fernando Young/Divulgação

Caetano insiste no ponto. Volta a louvar quem (realmente) merece ser louvado, o que aliás nunca foi tão necessário, a começar (não sendo por isso injusto) do umbigo no mundo baiano, desde o nome, Gilgal (justaposição que já aparece na letra de Este amor, canção de de Estrangeiro, 1989), até chegar à consagração do “imenso Milton Nascimento”, verso-tributo que soa como um eco de fundo, fundador, pura nobreza. Gilgal também lembra uma concorrência amorosa com Paratodos, de Chico Buarque, sem as redondilhas:

“Vem de Pixinguinha a Jorge Ben
Pousa em Djavans
Wilson Batista, Jorge Veiga, Carlos Lyra
E o imenso Milton Nascimento”

É preciso que se tenha a couraça de um peito de aço para não se deixar arranhar por alguma emoção em Você-você. Caetano canta no acento luso em duo com a portuguesa Carminho (esta “jovem fadista”, como se refere a ela na dita apresentação). A canção exalta as conjunções e conjugações de Portugal com esta “Ameráfrica”. É bonito ouvir a linda voz de Carminho empregar o “você”, ela que nas suas gravações de música brasileira trocar o você, forma cerimoniosa em seu país, pelo mais íntimo tu.  

“Vivo entre miséria a mágica 
Não sei dizer o que valho 
Tu que és você não em chamas 
Tambor, tambor sob as camas 
Langor rebaixa-me o galho.”
E Carminho na segunda parte:
[Verso] “O orvalho vem caindo”
Não podes negar que é lindo
Requer de nós grande arte
Criar novo mundo louco
É muito e inda é muito pouco
Que aprendas a conjugar-te
Tu és você, sou você
Eu e tu, você e ela
Ary, Noel Tom e Chico
Amália, blues, tango e rumba
Atabaque e bailarico
Peri, Ceci, Ganga Zumba

Nessa faixa, além de uma segunda referência a Chicom ouvimos outra música de Caetano dar no mesmo couro do tambor cuja batida pode nos redimir, pode resistir (à devastação), uma batida à glória do que não se entrega, “tambor de todos os ritmos” (“compositor de destinos”) que agora ouvimos bater à beira da costa, o percussionista tem os olhos voltados ao outro lado do mar oceano.

E ai de quem não rezou a novena de Dona Canô!

*

Ah, a propósito do início: antes de cair morto, alvejado pela espingarda “papo-amarelo” de Antônio das Mortes, Corisco grita: “Mais fortes são os poderes do povo!”. Aí é que está o busílis!

Constava no neoliberalismo, nos signos, nos dogmas, nas bruxas de Macbeth que Meu coco viria a público na mesma hora que o primeiro livro de contos de Chico Buarque.

E os oito contos de Anos de chumbo são a obra refinada de um escritor com grande autonomia narrativa, alguém que ultrapassou a veleidade de experimentar, ou simplesmente conseguiu atingir um ideal de se desfazer para moldar a voz do narrador, ou de diferentes narradores no caso.

Primorosos na técnica, os contos são uma delícia na expressão do idioma, como é corrente na literatura e na música buarqueanas. Assim, soa significativo o que diz o narrador de O sítio, relato sobre o retiro de um casal assombrado pela peste que os rodeia:

“Fui me deixando ficar no sítio mais uns dias, primeiro porque um táxi não subiria ali, segundo porque estava com um certo medo de voltar para a cidade, mas principalmente porque a minha escrita agora fluía sem percalços, como a água do ribeirão em leito de areia.”

Se lêssemos o livro como pintura, estes contos exibiriam o notável efeito chiaroscuro: o negro da base contrastado pela luz do sol carioca, numa composição clássica delineada por pinceladas suaves e precisas.

A percepção da violência social, da injustiça, da desigualdade e da brutalidade policial se resolve (e se revela) melhor quando a literatura se aprofunda. Por isso acho esses oito contos mais significativos que Essa gente, uma novela que traça um panorama mais chapado da realidade do país, e a narrativa sofre uma impertinente interferência do autor.

Agora não. Ainda que Chico pretenda jogar com a imaginação de quem o lê (como vemos, em um registro muito diverso, nos romance de Sebald) um jogo de memória e invenção, realidade e aparência, prevalece aqui uma autonomia literária. Isso é patente em O passaporte. No conto, o personagem central, chamado “grande artista”, inevitavelmente se confundirá, na cabeça do leitor, com o “grande artista” Chico Buarque.

E pá! É por isso, senhores, que aquele ex-caderno de ex-cultura revelou-se mais uma vez profundamente infeliz ao derrapar feio num título assim: “Chico Buarque se vinga de haters e fustiga o Exército em primeiro livro de contos”! Eis, em neon, uma rematada pedagogia do caça-clique.

O autor não se vinga de ninguém, ainda que O passaporte remeta a episódios da vida pessoal de Chico, e menos ainda parece querer “fustigar” algum Exército.

Se a história do conto, que transcorre entre o embarque ao desembarque de uma viagem aérea Rio-Paris, fustiga alguma coisa é a perversidade moral de um país polarizado. “A raiva em seu pior estágio, a raiva fermentada”, como a descreve o narrador, leva à semeadura do ódio por toda parte; não é privilégio do “grande artista” ou do “hater” ideado da história. Já Anos de chumbo, último relato do livro, trabalha com a matéria de memória e a crueldade como nódoa permanente da vida nacional. Os editores do ex-caderno parecem ter perdido a noção da diferença entre jornalismo e fofoca, literatura e “vida real”.

O país ficcional, é bom enfatizar, literariamente tratado nos contos, podia muito bem chamar-se Labosta numa trama com toques de realismo mágico. Mas em Cida, moradora de rua cujo abandono é descrito por um apiedado vizinho do Leblon, julga ter sido engravidada por um ET prateado vindo do planeta Labosta. Pois sim. Labosta é aqui.

Meu tio, que abre o volume, revela uma violência inaudita na obra de Chico. E a grandeza desse conto, em que o personagem do tio, sem que isso seja revelado, parece ter saído dos miasmas da ordem miliciana conquistadora da zona oeste do Rio de Janeiro, também está na sua verossimilhança ao retratar o sol, o mar, os sinais de trânsito, uma farmácia, SUVs, um motel e até a presença nauseante daquele pastiche de estátua da liberdade que assusta quem percorre a Barra da Tijuca. O Rio atual ainda não havia sido retratado tão fielmente numa obra artística.

O fantasma da milícia ressurge como pano de fundo em Os primos de Campos. Um menino sem nome, caçula de uma família desfeita, à medida que cresce e pode ir à escola anota num caderno, com ajuda da namorada, suas memórias fragmentadas, estilhaços das perdas do pai, do qual se lembra como uma sobra na sala, do melhor amigo, da mãe indiferente, da namorada… da própria infância. As temporalidades, marcadas pela violência e a privação, sucedem aos trancos, sem os rituais de passagem de uma vida qualquer. A habilidade do irmão no futebol, a lembrança do hino nacional, da festa comunitária na rua pela Seleção, uma bandeira brasileira pintada no asfalto cujos contornos remanescem são lugares de memória do já rapaz, aos quais ele se apega para tentar, por meio da escrita, inventar a si mesmo.

A história mais curta, Copacabana, traz um devaneio diretamente do “pântano da nostalgia”, como diz o narrador ao retratar um hotel Copacabana Palace e de um Rio de Janeiro idílicos, onde Ava Gardner podia cruzar com Pablo Neruda ou Alain Delon. Mas esse pântano onírico desanda no pesadelo da tortura. Uma porta giratória do hotel parece se abrir para a realidade, quando o leitor depara a figura de um “general de nome basco”, de sobrenome possivelmente Etchegoyen, como o do general ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo Temer.

Mesmo a cereja mais lírica do bolo de várias camadas e sem açúcar, outra possível visão panorâmica do livro, o conto Clarice Lispector, com candura, sobre as desventuras de um ardoroso fã da autora de A maçã no escuro, não foge completamente dos mandamentos do realismo. As fantasias do rapaz com a idolatrada romancista vão longe demais, como o fanatismo costuma ir.

Ouça Chico Buarque ler o conto Copacabana. A leitura começa por volta dos 43 minutos deste podcast da editora.

Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


 Jurupoca_95 – 29/10 a 4/11 de 2021
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


 (Foto do alto): Caetano Veloso e Chico Buarque | Recorde de tela do YouTube


| MÍNIMAS & SEMÍNIMAS |

Literatura e felicidade

“Devemos pensar na literatura como uma forma de felicidade, como uma forma de alegria, e creio que a literatura obrigatória é algo errôneo — disse Jorge Luis Borges, já entrado nos 80 anos, em uma conferência nos EUA. “Daria no mesmo falar de amor obrigatório ou felicidade obrigatória. Deve-se ler pelo prazer do livro. Fui professor de literatura inglesa durante uns 20 anos e sempre disse a meus alunos: se um livro lhes aborrece, deixem-no. Esse livro não foi escrito para o senhor. Mas se o leem e o livro lhes apaixona, então sigam com a leitura. A leitura obrigatória e uma superstição”. A Revista Ñ, do Clarín, apresenta fragmentos desta e de outras palestras de Borges em universidades norte-americanas.


Poesia e dinheiro

“Quando as coisas e as pessoas têm um preço, quando tudo se calcula em dinheiro ou em poder, a poesia é a única coisa que se subtrai do circuito do dinheiro, do circuito do poder e de qualquer vínculo com a feiura e a mentira humanas. disse ao El Cultural o escritor romeno Mircea Cărtărescu“Mas precisamente pela sua total falta de utilidade em um mundo utilitarista e mercantil, é o único valor incorrupto e incorruptível que conhecemos”. Mircea, mais de uma vez lembrado para o Nobel de Literatura, é quase desconhecido no Brasil, onde teve editado o volume de contos Nostalgia (Mundaréu), lançado em 2018.


Facebook, Facefuck, Facetoxic

“Facebook é para os velhos”, disse um menino de 11 anos a um pesquisador, segundo levantamento interno da gigante. As investigações jornalísticas dos chamados “Papéis do Facebook”, documentos corporativos vazados por uma funcionária, em curso nos maiores jornais dos EUA, revelam que a empresa encara a decadência e tenta desesperadamente encontrar soluções para manter sua posição como oligopólio. Os mais jovens correm em chusmas para Snapchat e TikTok, e a perda de usuários nos EUA é brutal. Apela para seduzir crianças no Instagram, passa por cima de evidências sobre o sofrimento de usuárias adolescentes com a imagem corporal, recalibra constantemente seus algoritmos para incentivar emoções primárias e aumentar as clicadas nos botões “Gostei” e “Compartilhar”. E documentos mostram que a “plataforma” tem um papel decisivo na organização do ataque ao Capitólio em 6 de janeiro último.

*

Sabe-se que a  empresa mentiu ao afirmar que remove até 94% do discurso de ódio em sua rede; o conteúdo barrado não passa de 5%.

*

Zuckerberg aceitou censurar dissidentes antigovernistas no Vietnã, como exigência do Partido Comunista para manter a operação do Facebook no país, onde fatura US$ 1 bilhão por ano.


Síndrome de abstinência

Adictos ideológicos de direita e esquerda não vivem sem purgar diariamente sua gota de ódio nas mídias sociais. Sem isso sofreriam como alcoólatras em privação. Passada a febre e depois do delirium tremens talvez vencessem o vício. Para isso teriam que voltar a conviver, a conversar cara a cara com quem aprenderam a detestar e degredaram em seus afetos.


Selfies mortais

O El País conta que mais e mais pessoas estão se arriscando a morrer para bater selfie arrojadas e exibi-las em mídias sociais. O fenômeno se tornou um problema de saúde pública, dizem epidemiologistas. Entre janeiro de 2008 e junho passado, 379 pessoas morreram disso no mundo. Nos primeiros sete meses de 2021, com o arrefecimento da pandemia, registaram-se 31 casos. A praia da Penha, no litoral de Santa Catarina, é considerada um dos lugares mais sinistros do planeta para essa prática.


Cem séries no milênio

A BBC pediu a 206 críticos, jornalistas, acadêmicos e pessoas da indústria da televisão de 43 países, da Albânia ao Uruguai, para eleger suas séries de TV preferidas exibidas no século 21. Os seriados “foram a forma de arte mais marcante dos últimos 21 anos”, diz um texto.

*

Sinal dos tempos: não se fala mais em valores artísticos inerentes ao cinema e à TV, digamos roteirização, atuação, cinematografia, cenário, produção e direção. Essencial para a BBC, no fio da navalha da correção política, é mencionar que o tal júri foi composto por “100 mulheres, 104 homens e 2 não-binários”. E quantas pessoas?

*

Também somos informados que 79 dos cem programas listados na avaliação final foram criados por homens e apenas 11 por mulheres, sendo que dez são um esforço criativo combinado de homens e mulheres”.

*

Essa conversa vai longe. Não espere encontrar uma reflexão sobre as temáticas e o imaginário do ser humano nos dias atuais, a importância da arte na vida e o que mais poderia influenciar a criação. Em vez disso, a BBC pondera que “essas estatísticas [dos balanços de gênero, raça etc.] tratam de desigualdades sistêmicas na indústria da TV: embora séries que não sejam inglês [apenas 8] estejam atraindo cada vez mais espectadores mundo afora, e haja uma amplitude de vozes mais diversificada, em termos de raça, gênero e orientação sexual, no controle criativo, o cenário da TV ainda pode ter mudanças de formas crucial e inspiradora no futuro.”

*

Superado os prolegômenos, chega-se à lista. Indiferentemente às inferências e ao posicionamento da BBC quanto à luta de sexos, raça etc., os votantes cometeram menos erros que acertos. Numa medida razoável resguardaram o talento e a criação.

*

Se você concorda com isso e não se importar que sua série apareça em 8ª ou 35º lugar, ok. The Wire (A escuta no título brasileiro da HBO) em 1º lugar é uma homenagem à lucidez dos críticos num mundo sem rumo. Mad men em segundo, outra.

*

(É preciso lembrar que Família Soprano, série lançada em 1999, fugiu ao critério da enquete, presumo, embora a 6ª e última temporada seja de 2007.)

*

Estão na lista, como deveriam estar: Breaking Bad (2008-2013), The Leftovers (2014-2017), The Americans (2013-2018), Game of Thrones (2011-2019), Succession (2018-), Chernobyl (2019), Better Call Saul (2015-2022), True Detective (2014-2019 — suponho que pela primeira temporada), The Bridge (2011-2018), Fargo (2014-), Downton Abbey (2010-2015) e Borgen (2010-2022), entre o mais relevante.

*

Faltam outras mas essa nota já está longa demais.

*

Estendo um rabicho para registrar, como me recordou o doutor P.J., leitor-contribuinte da JU, que a ausência de Boardwalk Empire (2010 a 2014) é pecaminosamente comprometedora, o que é agravado por duas ou três dezenas de puro besteirol encaixadas na lista.

*

Tremenda injustiça com os produtores, Martin Scorsese e Mark Wahlberg entre eles; com os diretores Martin Scorsese e Tim Van Patten; com a trilha sonora supimpa, e, claro, com elenco magnífico encabeçado pelo genial Steve Buscemi e seu inesquecível prefeito Nucky Thompson.

Confira em: https://www.bbc.com/portuguese/vert-cul-59038520?utm_source=pocket_mylist


Fato cultural relevante©: Succession

Está para chegar a 3ª e última temporada de Succession, série norte-americana 10ª colocada na lista da BBC. Adiada pela pandemia, a sessão parte da ameaça de implosão do império midiático familiar, quando o torturado Kendall Roy (Jeremy Strong)  resolve chutar o balde e denunciar podres trabalhistas das empresas. Succession não tem concorrentes, hoje, como produção corajosamente destinada a adultos e na riqueza de diálogos inteligentes, cínicos e faiscantes.  


Fato cultural relevante© : Drew Zingg

Parte do acervo de David Drew Zingg (1923-2000), fotógrafo norte-americano que baixou no Rio de Janeiro em 1959 e foi ficando no Brasil, do Instituto Moreira Salles, pode ser visto neste soberbo arranjo do Google Artes e Cultura. A influência cultural de Zingg é óbvia quando notamos sua assinatura em retratos icônicos que se tornaram capas de LPs de Chico, Caetano e Gil. Mestre da cor, Drew Zingg tinha um faro milagroso para se aproximar de quem fosse realmente importante. Sua composição intimista para uma reunião entre Vinicius de Moraes, Pixinguinha, Dorival Caymmi e Baden Powell, por volta de 1965, tem o valor de um totem. Vemos outros instantâneos de Pixinguinha com o sorriso e a expressão benevolente que marcaram a persona do mestre inventor, inclusive ao lado de dois pilares do samba, Donga e João da Baiana. Outro destaque é um João Guimarães Rosa de pernas cruzadas com um exemplar de Sagarana no colo. O escritor aparece no exterior do Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, por volta de 1964. Enverga um traje diplomático e se apresenta muito bem escanhoado. Drew Zingg o clicou emoldurado por aléias de palmeiras imperiais.

*

Segundo a famosa teoria de Roland Barthes em A câmara cara, a fotografia se divide entre um elemento objetivo, o studium — o aspecto cultural e técnico da imagem, e o punctum, que tem a ver com o interesse de quem olha, capta e revive o que está congelado no passado. É uma impressão, portanto subjetiva e criativa. Isso me vem (ou volta) diante da série de imagens de Pixinguinha, ou de uma cena de palco em que, diz a legenda, Gal Costa e Maria Bethânia cantam Sol negro de Caetano Veloso. A câmara de Zingg se detém em Bethânia, à direita, e além da artista registra a mais pura alegria (cênica) do canto.

Recorte de tela

Fato cultural relevante©: Concerto privado com Marta Argerich

A JU recomendou na semana passada o Concerto privado com Daniel Barenboim, que o maestro e pianista toca com amigos o Trio Fantasma de Beethoven, mas não se deu conta de que parece haver uma série chamada Concerto privado com… produzida pela TV francesa.Foi boa surpresa encontrar um programa com Martha Argerich. A pianista argentina recebe o amigo violoncelista Mischa Maisky em sua casa em Genebra e tocam peças de Beethoven, Schumann, Chopin e Brahms. É a filha da apresentadora, Annie Dutoit, que entrevista Argerich numa conversa marcada por elipses e silêncios. A conversa de mãe e filha me fez ver que Argerich é uma personalidade gêmea de seu amigo Nelson Freire. Ambos são retraídos, correm de homenagens, não ligam muito para o estrelato e preferem mil vezes tocar a falar de música. Ela menciona sua admiração pelo pianista de jazz norte-americano Erroll Garner e a improvisação. Exatamente como Nelson Freire! Legal que este Concerto tenha caído no Youtube e você possa vê-lo agora, se quiser.


Lygia Clark

Está no ar desde sábado (23) um portal dedicado à artista belo-horizontina Lygia Clark (1920-1988) reunindo mais de 7 mil documentos, entre obras, catálogos e um acervo inédito.


Descanse em paz, Gilberto Braga

Dancin Days (1978), Anos dourados (1986)e  Vale tudo (1998) foram, sim, suas novelas mais marcantes, entre as mais lembradas nos obituários. Braga conseguiu elevar a importância cultural da novela, o que é revolucionário diante da popularidade do gênero num país de vasto analfabetismo funcional. Recordo Brilhante (1981/1982), especialmente as cenas em que Fernanda Montenegro contracena com Cláudio Marzo, seu motorista na trama, creio, e os dois trocam ideias sobre o melhor autor de romance policial.  


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