JU_96| E Montanha Doce pariu o metaverso

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Mr. Mark Zuckerberg, 37 anos de vida e 116 bilhões de dólares de patrimônio líquido, progride na primeira infância. Sua expectativa de vida ronda um piso assegurado de 350 primaveras, mas a meta virtual da Meta, novo nome do conglomerado Facebook, é o milênio.

Ainda, bem dizer, a engatinhar, Zuckerberg atua como um crupiê do mundo. Dá cartas na vida mental, afetiva e ideológica dos usuários, via robôs algorítmicos, e recolhe a dinheirama que os anunciantes lhe entregam em troca de sua preciosa mercadoria: dados de uma audiência planetária, maior que as populações de China e Índia juntas.

Com a tecnologia e o faturamento publicitário das redes sociais, Meta tem a força de uma potência nuclear. Já quem critica o oligopólio por usurpação da privacidade e danos mentais causados à freguesia, sem falar na cumplicidade com governos autocráticos, incluindo alguns massacres, vai de bodoque e arco e flecha.

É como as flechadas dos liliputianos no gigante Gulliver. A comichão das picadinhas deve até dar algum prazer naquela cara larga e comprida.

Com alfinetes cruzando o ar, Mr. Zuckerberg (Montanha Doce, em tradução libérrima do alemão) antecipa a remodelação do futuro com o melhoramento virtual do mundo.

E o futuro se chama metaverso. Modesto, ele renomeou seu império com o singelo referente Meta.

Como a palavra meta equivale a “morta” em hebraico, não lhe entenderam bem em Israel. Mas o que morre é a claudicante realidade paralela à infosfera, a realidade diminuída, que mal se percebe em 2021. Hoje, a existência de quem se vê fora do mundo virtual é bastante questionável. Para pescar da física uma metáfora (meta-fora), claramente já vivemos no próprio multiverso, em universos paralelos. Mas o que conta é o virtual.

Como proclamam sites de tecnologiametaverso é a realidade do futuro.

Que raios é isso?

Conforme relato do repórter especializado Kevin Rose, do New York Times,

“O Sr. Zuckerberg pintou uma imagem do metaverso como um mundo virtual limpo e bem iluminado, ao qual se terá acesso, primeiro, com dispositivos de realidade virtual aumentada, depois vão se incorporar sensores corporais mais avançados para que as pessoas possam jogar videogames, assistir a shows virtuais, ir às compras de artigos virtuais, colecionar arte virtual, topar com outros avatares virtuais e participar de reuniões de trabalho virtuais.”

O Times informa que Meta já emprega 10.000 pessoas nos projetos da divisão Reality Labs, que cuida do metaverso, e planeja contratar mais 10.000 na Europa.

Note que a noção de realidade, ou a relativização do real, digamos, é uma obsessão de Montanha Doce. O cara acaba de parir a realidade do futuro, o mundo passado a limpo e juvenilizado para todo o sempre, amém.

Operando desde o pico mais alto do Vale do Silício, a máquina do mundo do metaverso está prestes a descer a alavanca (perdão, jovem leitora, pela caduca imagem chapliniana) para promover a virtualização final da vida na Terra.

Toda a precária antiguidade dos comandos atuais da internet, das redes sociais e dos algoritmos será ultrapassada no metaverso.

Chegou Meta. Venha para Meta e para a realidade aumentada.

Esqueça que um dia existiu na Terra o bicho-de-pé, a chatice política e a vida analógica.

A maior parte dos terráqueos já se sente mais segura, feliz da vida, com o anúncio de Montanha Doce. Reforçam-se nos cobres.

Ninguém quer ficar à margem ou não estar à altura da única realidade que doravante importará para o vivente.

Ir às compras, trabalhar, frequentar shoppings temáticos, viajar, jogar, tudo virtualmente. Basta inserir uns trem no corpo, diríamos em Minas, vestir uma máscara sinistra e em qualquer lugar se pôr feito um ET a mover braços e mãos no vazio. Cirurgiões já utilizam o negócio, eu sei, e nos salvarão a todos.

É a glória do game, o paraíso digital.

Posso imaginar todos os gêneros e tipos humanos que hoje se contam, desde as fraldas ao estado estabelecido da vida virtualmente eterna, gozando a vida nos dispositivos de realidade aumentada.

Pensamentos, palavras, memes, afagos de Face, coraçõezinhos do Insta e zoadas do Zap durarão para sempre nos gadgets do metaverso.

Subsidiárias de Meta, já se sabe (quem sabe), vão implantar esses dispositivos nas cabecinhas dos bebês ainda no útero materno, por meio de intervenções baratas, indolores e seguras. Já pensou?

O novo ser-digital nascerá pleno para a realidade aumentada do futuro.

Nascerá pleno para o plenamente virtual, o mundo mais azul que os azuis todos, asséptico e tão bem iluminado quanto um shopping center de Miami ou da Barra da Tijuca (essa Miami com o “diferencial” ou o estribilho do esgoto a céu aberto e a camaradagem miliciana, diga-se de passagem).

Pode que haja um estágio, pós-futuro, já esboçado na cabeçorra de Montanha Doce, no qual a humanidade se livrará definitivamente da carne e dos defeitos evolutivos da vida, tais como a necessidade de sexo reprodutivo, ou mesmo de sexo, da alimentação e da excreção, das dores, dos resfriados, do câncer e da própria morte.

O amor será preservado virtualmente em realities shows e deles, dos realities-games, virão as crias digitais, Pokémons, por assim dizer, da realidade plana, na realidade virtual aumentada, na realidade do futuro. Como? Imagine.

Um casal namora virtualmente na realidade aumentada e, quando a coisa fica “séria” (entre aspas pois tudo é tão divertido num videogame), pode virtualmente ir ao shopping virtual explorar uma panóplia de lojas onde escolher e guetar (neologismo derivado do inglês to get) filhos-pets dos mais variados gêneros, raças e fenótipos desenhados à imagem e semelhança de programadores, isto é, designs mi, bi ou trilionários de Meta.

Vem aí, sob os auspícios de Meta — sítio sagrado para os amantes do ódio — o ser-digital.

Cabe, ainda, à imaginação, ainda dá?, sei lá, vislumbrar que mesmo em meio a fantasmagoria dos seres-digitais pintarão uns eus retorcidos como os do poeta Drummond, anjos gauches na vida virtual da realidade aumentada.

A futucar recônditas entranhas da infosfera, tais seres tortos virtuais sentirão nostalgia da existência em carne e osso e de todas as misérias do mundo. Mas será tarde demais para acessar a extinta vida da realidade imperfeita e diminuída. 

Meta reinará absoluta.


Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Afrescos de Giotto di Bondone, Capeladegli Scrovegni, Pádua, Itália. Imagem Wikimedia Commons

Jurupoca_96 – 5 a 11/11 de 2021
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


 (Foto do alto): Nelson Freire/Divulgação


| MÍNIMAS & SEMÍNIMAS |

Muito obrigado, Nelson Freire. Descanse em paz

Nelson Freire por © Eric Dahan — Decca | Fundação Calouste Gulbenkian | Imagem registrada como Creative Commons

Coincidência. Seu nome esteve aqui semana passada, lembrado como personalidade gêmea de Martha Argerich. A reverenciada pianista argentina, hoje aos 80 anos e que há tempos vive em Genebra, esteve com o amigo dias antes de sua morte, deu n’O Globo. O jornal se refere aos dois como “almas gêmeas”. E Nelson Freire (2003), o primoroso documentário de João Moreira Salles, não deixa dúvida quanto a isso (aberto a não-assinantes na Globoplay por duas semanas).

*

Neste trecho do filme de JMS, Nelson Freire fala o que pensa do estrelato, e eu me referia justamente a isso na JU#95 ao dizer, com outras palavras, que tanto para ele quanto para Martha Argerich a música, de ambos razão de viver, nada devia à celebridade.

O repórter Julio Wiziack também comentou na Folha a  intimidade entre os dois e sua relação de décadas como amigos e confidentes. Não foram amantes, como se especulava, diz Wiziack, que conta ter conhecido o marido de Freire. Mas achei notável ler que

“A sintonia fez com que a sonoridade de um ao piano se assemelhasse demais à do outro a ponto de, durante uma sessão de gravação de Argerich para a Deutsche Grammophon, os técnicos pensarem que a pianista estava tocando uma rapsódia de Brahms quando, na verdade, quem dedilhava era Freire, que a acompanhou na viagem e aconselhou como a amiga deveria interpretar aquela peça.”

*

(Parafraseando Vinícius) Sua morte me chegou na página online do Estadão por volta das 9h na manhã chuvosa desta segunda-feira, no Belo.

*

Devo-lhe, mais que tudo, ter aprendido a gostar ainda mais de música depois de vê-lo em ação, contando uma apresentação no teatro do Sesiminas, nos anos 1990, em companhia de meu filho.

*

O retraimento e a timidez de um mineiro de Boa Esperança caíam bem em quem, muito cedo, fez do piano, mais que a extensão do corpo, lastro de uma existência. Devemos ao documentário de JMS a delicada destreza de ter captado, com técnica e paciência, como cabia ao personagem, algo de seu mundo reservado a ensaios, encontros com amigos e bastidores de apresentações mundo afora.

*

Mundo mais vazio sem Nelson Freire.

*

Seu disco Encores (Decca, 2019), com gravações de alguns dos temas mais caros e permanentes em sua carreira, guardados para o bis, cujo romantismo melhor revela seu trato com a beleza, é aberto pela Melodia da ópera Orfeu e Eurídice, de Christoph W. Gluck arranjada para piano solo por Giovanni Sgambatti. Irineu Franco Perpetuo lembra na Folha que essa peça era o “bis oficial” do artista, além de ser uma homenagem  a Guiomar Novaes (1894-1979), pianista que inspirou sua trajetória.

Destaques dos obituários

Em uma edição especial de Prelúdios, seu programa na Rádio Batuta, Arthur Dapieve faz uma bonita apresentação de Nelson Freire, especialmente para quem é despertado agora para sua música. A seleção não se limita ao repertório romântico, mais íntimo do pianista. Dapieve destaca o rubato — a liberdade rítmica do instrumentista, guiado pelas sensações, de encurtar ou estender o tempo das notas — como uma notável característica do piano de Freire. 

Ouça em https://radiobatuta.ims.com.br/programas/preludios/adeus-nelson-freire

*

O site da Piauí  traz duas sequências do documentário de JMS. Na primeira, ouvimos a leitura de uma carta do pai de Nelson dirigida ao filho, num relato comovente sobre a criança frágil que ele foi, o prodígio do menino e a difícil e amorosa decisão familiar de trocar o interior de Minas pelo Rio, para que Nelson pudesse seguir seu aprendizado musical. A carta me pareceu ainda mais crucial quando li o pianista João Carlos Martins, seu amigo, se referir ao desastre que matou os  pais de Nelson, José e Augusta Freire. O acidente não ocorreu em 1966, como diz Martins de memória, mas em 1967, a 14 de setembro. O ônibus da viação Cometa em que viajavam desgovernou-se e caiu no fatídico Viaduto das Almas, já chegando ao Belo. À época, Martins, ele conta, acreditou que seu amigo também havia morrido naquela tragédia. Na outra sequência, vemos Nelson tocar a Melodie de Orfeu e Eurídice.

*

“Os documentários que eu vinha fazendo até então tratavam de desordem, de violência e de desagregação. Tive vontade de filmar o contrário daquilo e Nelson foi o caminho. Ele encarnava valores de um humanismo essencial a todo projeto de civilização decente – a transmissão da beleza, o imperativo moral do trabalho bem-feito, a recusa a toda vulgaridade e espalhafato.  Um presidente que tira a máscara de um  bebê e força uma criança a fazer uma arma com as mãos é uma imagem verdadeira e poderosa do País. Mas não é a única. Nelson Freire (o pianista, não o filme) representava e representa – nos discos, nos registros dos concertos, na vida discreta que levou – uma outra face do Brasil, o lado capaz de nos salvar. Seu talento não está ao alcance de maioria de nós, mas a honradez, sim”. JMS, no Estadão.

*

JMS ao colunista Ancelmo Goes, de O Globo, sobre as filmagens de Nelson Freire, filme que resultou de 70 horas de gravações tomadas ao longo de dois anos com estágios no Rio de Janeiro, São Paulo, França, Bélgica e Rússia:

 “Meu 1º dia de filmagem com Nelson começou na casa dele no Rio e terminou com um concerto noturno no Municipal. A filmagem pela manhã correu bem, na medida em que pode correr bem um 1º encontro com uma pessoa bastante tímida e introspectiva. Mas ele gostou da equipe, falou um pouco da sua infância em Minas, dos seus pais e professores, da vida longe do Brasil e das saudades que sentia de cá. Almoçamos juntos e tomamos um carro para ir da casa dele no Joá até o Municipal. Foi quando uma coisa começou a me chamar atenção. Nelson estava mais conversador na avenida Niemeyer do que na Delfim Moreira, mais na Delfim Moreira do que na Vieira Souto […]. Ao desembarcarmos no Municipal, por volta das cinco da tarde, Nelson estava fechado em copas. Nós nos afastamos e passamos a filmá-lo à distância (isso está no filme). À medida que a hora do concerto se aproximava, mais ele parecia, não digo nervoso, mas grave, ensimesmado. Ia de lá para cá no camarim, subia e descia os corredores da coxia, parecia uma fera na jaula. Aquilo me impressionou demais. Fazia mais de 50 anos que o Nelson se apresentava no Municipal. Ali era a sua casa, a sua plateia cativa. Sabia que seria sempre ovacionado independentemente de como tocasse. Isso deveria tranquilizá-lo, mas não. […] Ele era o mesmo em qualquer palco. […]. O respeito pela plateia, a serena responsabilidade dele com a música, isso eram valores inegociáveis. Percebi que o que estava em jogo ali era o imperativo moral do trabalho bem-feito. Achei aquilo comovente.

*

“Até os anos 1980, foi um segredo bem guardado dos franceses, dizia o crítico Alain Lompech. E nosso também, acrescento. Mas, nas últimas duas décadas, o mundo o reverenciou.” […] “Nosso melhor tributo a ele é ouvi-lo. Fico com Brahms, uma de suas paixões menos badaladas. Nelson montou o repertório do álbum solo, de 2017, com suas peças preferidas. Revisitou, 50 anos depois, a imponente, majestosa Sonata nº. 3, op. 5, primeira peça que gravou em 1967. Uma leitura à altura desta sonata, chamada de ‘sinfonia disfarçada’ por Robert Schumann. […] Vou terminar meu primeiro dia sem Nelson voltando a 2017, ano em que ele gravou Brasileiro, álbum inteirinho com Villa-Lobos, Mignone, Santoro e Guarnieri. João Marcelo Coelho, no Estadão.

*

“O mundo das plataformas de streaming permite navegar pelo rico catálogo de Nelson Freire e explorar sua sedutora mistura de engajamento emocional, vigor físico, virtuosismo avassalador e sensibilidade refinada. Meus favoritos: a dupla de concertos de Brahms com Riccardo Chailly, a visionária “Fantasia” de Schumann, os registros com Argerich e cada nota de Chopin que ele teve a generosidade de capturar em disco.” Irineu Franco Perpétuo, na Folha.

Neste vídeo uma apresentação de 2019, entre as últimas de sua carreira, ano em que também apresentou três recitais no no teatro do Minas Tênis Clube, e pôde festejar na cidade, em almoço com amigos e familiares, seu 75º aniversário, recordou a pianista Celina Szrvinsk.


Música, ah, qualquer

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música — guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...
Qualquer coisa que não vida!

Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!

Fernando Pessoa: Poesias. Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). Acervo Fernando Pessoa.

Este Pessoa foi musicado por Fagner no começo dos anos 1980. Creio, hoje, que faltou refinamento ao arranjo da música e à própria interpretação agitanada do cearense, que de resto teve o bom tino de trazer o poema à baila para seu público e, literalmente, também à música.


Você poderia contribuir com a Jurupoca? Veja como clicando aqui.

Ah, Dindi

Na última faixa do disco Meus quintais (Biscoito Fino, 2014), Maria Bethânia canta Dindi (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), em uma das melhores versões desse clássico no cancioneiro jobiniano. O arranjo de Wagner Tiso, com o próprio ao piano, traz o discreto fraseado de um flugelhorn (ou fliscorne), instrumento de timbre suave irmanado ao trompete, entregue ao sopro de Jessé Sadoc do Nascimento Filho. E este é o segredo que se abre a quem ouve a música sem pensar em mais nada. A entrada do flugelhorn tem o feito de pacificar o mundo: nada mais, nada menos o que a melodia captara por meio da invenção.

Rascunho da letra de Dindi no Acervo Tom Jobim.

Drummond e o filho incriado

Ser

O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te

como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

O filho que não fiz
faz-se por si mesmo.

Carlos Drummond de Andrade: Antologia poética, Record, 2001, p. 116. 


Drummond e a eternidade

Drummond teria profetizado o metaverso neste poema do livro A vida passada a limpo (1959)?

Materiais da vida


“Drls?     Faço meu amor em vidrotil 
               nossos coitos serão de modernfold 
               até que a lança de interflex 
               vipax nos separe 
                                                 em clavilux 

                 camabel camabel o vale ecoa 
                 sobre o vazio de ondalit 
                 a noite asfáltica 

                 plkx

Carlos Drummond de Andrade: A Vida Passada a Limpo, Companhia das Letras, 2013, pag. 26):  

Tolice. No metaverso, poesia é pum, Valença é app e o Papagaio do futuro já passou e nem pia. Tontice, tonterias. Segundo o crítico de arquitetura Fernando Sarapião, em excelente artigo na Piauí sobre origem e destino do Palácio Capanema, no Rio, Drummond escreveu o poema como uma ironia à febre da arquitetura modernista à época, da qual já andava meio enfarado, e se baseou em anúncios da revista de arquitetura Módulo, dirigida por Oscar Niemeyer. Pelas tantas, aduzo, Drummond já havia publicado Eterno, de Fazendeiro do ar, livro de 1954, que é aberto com os célebres versos: “E como ficou chato ser moderno./ Agora serei eterno.”)


Algo do Pondé

Não sou seu leitor freguês, pois freguês é o leitor fiel de cada nova linha que teça seu escritor, ensaísta ou cronista de caderneta. Acho antipático suas tiradas marqueteiras, sua derrisão com “inteligentinhos” etc. e tal-qualmente sua presença em redes sociais. Mas o leio vez em quando. E o respeito como intelectual. Não se pode acusar Luiz Felipe Pondé de incoerência. Sua atuação como ávido leitor-divulgador de ideias arrojadas sobre nosso tempo é inseminadora, não duvido. O nariz de cera para recomendar com empenho seu texto desta semana (FSP: A coragem do intelecto é ser contra tudo pelo qual sua época é apaixonada). Pondé descasca o otimismo banal de quem vive como papanatas (delicioso espanholismo a que recorro; rogo paciência a meu leitor de ir ao dicionário da Real Academia Española, aí no enlace: aliás, outro espanholismo; enlace me soa melhor que link) a “virtude cívica máxima de nossa época”, na qual “todos amam a todos e todos desejam um mundo melhor”. Descontada a hipérbole, Pondé está coberto de razão. Tem muita graça o paralelo que ele faz entre o “progressista” dos nossos dias e a estrela da função corporativa do “CHO”, chief happiness officer — “chefe do departamento de felicidade” — da empresa. Ele vai propor, convocando um ensaio de Elias Canetti, que o antípoda da virtude cívica contemporânea do otimismo é o “gozo da profundidade”, em vez do “gozo da desgraça, como pensam os incautos do intelecto”.  



Clique aqui para receber a newsletter semanal da JU.


Encontre nesta página os  links de todas as edições da carta.


Ouça no Spotify a playlist (sempre atualizada) Estação Siutônio: 1001 canções brasileiras.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s