Ju_97 | A obscenidade geral da nação

“Não creio que a música seja capaz de mentir”, diz George Steiner (1929-2020), ao propor uma outra questão que lhe parecia decisiva sobre a natureza humana: “Por que as matemáticas não podem mentir?”. Já a palavra…

“A linguagem permite tudo. É algo horrível que não costumamos notar: pode-se dizer tudo, nada nos sufoca, nada nos tira o fôlego quando dizemos algo monstruoso. A linguagem é infinitamente servil e não tem — por isso o mistério é devido — limites éticos”, argumenta em uma de suas conversas com a jornalista Laure Adler reunidas no livro Un largo sábado (um longo sábado), edição espanhola do original francês Un long samedi. Entretiens (2014).

Steiner se preocupava com os questionamentos da verdade por meio da palavra, desde a crítica literária “desconstrucionista” às ideologias políticas. Dá o exemplo de intelectuais franceses contemporâneos de Sartre que se diziam marxistas sem ter pisado na União Soviética, e quando pisavam, como o próprio ícone-mor do existencialismo, mesmo assim defendiam Stálin, “sabendo que mentiam”.

Se dermos um salto de 80 anos para despencar no fatídico, malogrado e específico caso brasileiro, em 2021, aqueles cuidados de Steiner sobre a falsificação da realidade por meio do discurso (livre de freios éticos) iluminam nossas desgraças como um poderoso refletor. Por onde andamos?

Pela pantanosa (e patética) via da ordem negacionista, que inclui médicos (matricidas, pois são crias da ciência e do método científico desenvolvido nos últimos séculos); pela escabrosa via da delinquência oficial (assegurada pelo voto popular); pela desprezível via da imposição (de potencial totalitário) da opinião de maiorias formadas em mídias sociais e originada mais no sentir que no pensar, antes no coração que na razão.

O uso da linguagem para se aproximar da verdade pressupõe, como mínimo, defende Steiner, uma “relação entre a frase e a vida, e a ação”. Mas manter uma relação entre a palavra e a vida não é mole. “A sinceridade é sumamente difícil”, afirma. “Mas dizer o oposto do que se vive sempre me pareceu demasiado fácil”.

Claro que na frase a “linguagem é infinitamente servil”, entendemos essa expressão no sentido figurado. Servil no dicionário é o que possui “caráter vil, baixo; torpe, ignóbil”, além de “condescendente em demasia; adulador, bajulador, subserviente”.

Vemos neste instante, como num drama histórico, um desfile mui patriótico evoluir na aridez do Planalto Centrão. À frente do cortejo (qual cáfila no coração do deserto) surgem o presidente emético, o procurador-geral da República, o tzar da Câmara dos Deputados, um ministro do STF, bajuladores fardados e outros tantos primitivos caçadores-coletores do fruto espúrio.

Mas a linguagem que serve à insinceridade e ao descompromisso ético (gap entre a palavra e a vida) é uma rubrica geral instalada no cotidiano do país, não circunscrita à esfera do poder.

Se na política o caráter vil da linguagem atende à vulgaridade do comércio parlamentar e se manifesta na tragicomédia eleitoral, no jornalismo o que está em jogo é a luta pela sobrevivência de empresas de comunicação abaladas pela internet, e muitas vezes sem rumo.

Essa luta é a fonte do oportunismo populista da adesão aos ditames das maiorias salientes no meio online (ou das massas, se quisermos), com sua indigência cultural, seu irracionalismo e seus baixos instintos autoritários como lastro.

O imperativo do caça-clique (do neologismo inglês clickbait), naturalizado na economia da internet no negócio publicitário, destruiu barreiras éticas que conferiam caráter e respeitabilidade a certos meios tradicionais.

Em vez de procurar se acercar da verdade dos fatos a todo custo, sem censura ou autocensura, e de perseguir padrões éticos e morais, parte importante da dita imprensa almeja, acima de tudo, estar o mais fielmente possível em sintonia com o laxismo linguístico e as construções ideológicas, submissa ao poder que emana das maiorias salientes.

A métrica da visualização e do engajamento (curtir, comentar, compartilhar) nas mídias sociais são determinantes para a tomada de posição do articulista e do comentarista, e até, me ocorre vez ou outra, para o que ele vai sentir ao noticiar e analisar os acontecimentos (com perfeita naturalidade).

O massacre das maiorias salientes é um fenômeno escandaloso (uma enormidade na acepção do grego skandalon, pego de carona com Steiner).

Que tais determinantes sejam grandemente influenciadas pela manipulação (indução algorítmica) hoje importa muito pouco. Parece que não há mais saída à total adesão, não só à economia tecnológica, mas, digamos, ao regime mental das Big Tech normalizado em toda parte.

Parece já irreversível o movimento que despeja no lixão da história o que sobrou dos ideais de elevação espiritual forjados pela humanidade, ainda que esses ideais, é verdade, estivessem terrivelmente gastos.

Ao se pronunciar sobre o envelhecimento da civilização europeia, para a qual o “peso do passado é enorme”, enquanto o “peso do futuro é muito leve, levíssimo”, Steiner recorre a esta interessante expressão alemã: “estar cansado da história” (Geschichte müde sein).

A civilização brasileira, muito mais recente, padece incrivelmente de um cansaço semelhante, ainda que de outra natureza. Antônio Callado dizia que já não éramos tão jovens (outras nações com a mesma idade ou até mais jovens, Austrália, Estados Unidos… fizeram coisa muito melhor de si mesmas), mas nossas melhores gerações (capazes de pensar e propor quem somos, e de projetar nossa futura grandeza fundada numa suposta originalidade cultural, por meio da universalidade da educação etc.) fracassaram.

Outra reflexão de Steiner — ao se referir à uma civilização universal (aquela dada aos livros, ao teatro, aos quadros, à música) progressivamente marginalizada em “um mundo cada vez mais sádico, provinciano, nacionalista e chauvinista” — vale mais claramente para o Brasil atual:

“Parece que o número de astrólogos é três vezes maior que o de cientistas. A superstição e o irracional ganharam muito terreno. Vivemos numa sociedade em que o kitsch, a vulgaridade e a brutalidade não deixam de aumentar”.

Porque o Brasil agora só pode ser retratado sem condescendência como país obsceno.

A obscenidade está na normalização do rebaixamento da política, na mentira e na fratura exposta da indecência; está na desavergonhada exploração da tragédia humana – não importa se é preciso empanturrar a audiência com alta tonelagem de tolices e dramas reciclados; está no desprezo pelo que é grandioso e relevante na cultura e na história do paísou no despreparo para revelar essa grandiosidade e relevância ao público; está na miséria do discurso público; está no acovardamento para se encarar uma opinião pública polarizada e bestializada; está na degradante pauperização da arte popular, como na perda educacional; e está, por certo, na ampliação da carestia, da miséria e do desemprego.

Mas que a dura exposição à obscenidade não nos torne cegos para a manifestação da decência que finca pé e insiste em pensar com autonomia — e corresponder à relação “entre a frase e a vida, e à ação”. Salve a resistência à obscenidade geral da nação.

Bravos! aos técnicos do Inep que pularam fora.

Bravos! aos cientistas que recusam uma comenda conspurcada pela brutalidade da ignorância.

Bravos! aos secretários do Ministério da Economia que pediram o boné para preservar a razão.

Bravos!, ministra Rosa Weber e colegas do STF, por barrarem (vá que apenas temporariamente) o lenocínio legislativo.

Bravos! ao jornalismo que soube transmitir ao público com precisão a medida do valor de Nelson Freire.

Bravos! ao jornalismo fiel ao pressuposto ético, ao jornalismo, ainda e incrivelmente, disposto a produzir informação e crítica qualificadas para uma minoria minguante à margem da margem, que hoje daria traço no velho Ibope.  

Bravos! ao jornalismo com a coragem de ferir o consenso instantâneo do tribalismo ideológico e identitário e de se manifestar contra a cultura do cancelamento e contra o justiçamento online.

Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Otto Dix: Três mulheres, 1926
George Grosz: Pilares da comunidade, 1926. © Estate of George Grosz, Princeton, N.J. Staatliche Museen zu Berlin, Nationalgalerie / Jörg P. Anders


           Jurupoca_97 – 12 a 18/11 de 2021
Hebdomadário de cultura, ideias
e alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


(Foto do alto) Eric Fischl: Mau menino (1981) Coleção privada. Zurique. Copyright © The Artist.


| MÍNIMAS & SEMÍNIMAS |

Entre abelhas e piranhas

Bora para o Brasil agora” — convida a newsletter Fresh Hell (inferno fresquinho?) da The Baffler, — “onde um homem, ao fugir de um enxame de abelhas, saltou numa lagoa só para ser devorado por piranhas. Ainda que seja covarde e de mau gosto utilizar a trágica morte desse homem como caça-clique, como fizeram centenas de meios de comunicação de diversos graus de respeitabilidade, parece uma metáfora de nossa existência coletiva, passando de um ridículo desastre a outro, para morrer no final.”


Música e educação

“O que fazemos se comunica com uma porcentagem muito pequena da sociedade”, lamenta Daniel Barenboim em entrevista a Alberto Ojeda no El Cultural. À beira dos 80 anos, o judeu argentino vive e trabalha em Berlim há três décadas. Maestro, pianista, um humanista erudito, ele foi responsável, ao lado do intelectual palestino Edward Saidm (1935-2003), pela formação, no final do século passado, da West-Eastern Divan, orquestra composta por jovens músicos judeus e palestinos. E qual a razão do minguante interesse pela música clássica (com a surpreende exceção da China e outros países asiáticos, onde ele diz ter constatado uma grande presença de público abaixo dos 40 anos nos concertos): Vai sua resposta:

O problema é que desde muitos anos a cultura perdeu muita importância na sociedade. A música, em particular, enormemente. Não existe educação musical. Quando se pensa que existem orquestras magníficas em tantas cidades do mundo, tantos teatros de ópera e nenhuma educação musical nas escolas, como você espera um público faminto por música? E não é um problema econômico, é muito mais sério. É humano porque a educação musical não custa uma fortuna, mas os políticos, em sua maioria, não estão interessados ​​na cultura em geral e na música em particular. Eles as deixam de lado. Não se oferece essa formação porque não lhe é da importância.

É bom darmos uma sacudidela na cuca para não perder o foco. Barenboim se refere à Europa! Diante da obscenidade brasileira, o que dizer? Basta pensar em quem, 60 anos depois, simbolicamente pode tomar o lugar de Chico Buarque como “unanimidade nacional”, e no que foi feito do nosso “bom gosto musical”.


Freire em Washington

O Instituto Brasileiro de Piano (IBP) acaba de botar em seu canal no YouTube uma apresentação de Nelson Freire na National Gallery of Art, em Washington, realizada em 26 de abril de 1998, um domingo. Se você anda atribulado, encontre um tempo para ouvir ao menos a primeira parte, uma soberba execução da Sonata No.3, Op.5, de Brahms. Mas nesse caso você perderá a segunda parte, que é imperdível.


Ditames da junk-music

A música que toca na internet em redes como o TikTok deve ser “curta e objetiva”. Essa é hoje a celebrada fórmula da junk-music, como defino a onda. Dois minutos e meio é a tolerância máxima da “audiência ansiosa” e, portanto, dos produtores e DJs fabricantes de hits instantâneos. Nada de introduções instrumentais, nada de elaboração musical. Liberdade criativa? Vai longe. É o pragmatismo ripa na chulipa, digo de cá, depois de ler o que conta Júlio Maria no Estadão. “As plataformas mais ágeis identificaram as demandas de seus fregueses”, relata Maria. A matéria nos apresenta como típica personagem dos novos hábitos a esteticista Mileny Ferreira, de 33 anos, que diz: “Eu não ouço nada com mais de três minutos de duração. E só busco playlists por estado de espírito, como ‘música calma’, ‘música para dormir’, essas coisas…”


No Tabuleiro da Bethânia

Cantora que enriqueceu sua presença no palco já nos anos 70, desde que foi dirigida pelo dramaturgo Fauzi Arap no show Rosa dos Ventos, há meio século, Maria Bethânia, hoje aos 75 anos, tem um passado como divulgadora cultural interessada em conectar música, romance e poesia. Depois de apresentar uma série recente na televisão, ela estreia agora o podcast Tabuleiro, na Rádio Batuta do IMS, com inserções semanais às sextas-feiras. O primeiro programa é promissor sobre o que virá. A leitura de uma seleção de textos de Clarice Lispector é pontuada por gravações de Nina Simone, Alberta Hunter, Billie Holiday, Janis Joplin… As escolhas são o fino, e nada óbvias. Em entrevista a Joana Oliveira, no El País Brasil, Maria Bethânia disse algo sobre a ideia de juntar Clarice com temas radicais de blues e jazz norte-americanos: Vejo a mesma liberdade e força de Clarice nessa música negra, queria ler Clarice com esse som. A música negra norte-americana é a melhor do mundo, só emparelha com a nossa”.


Edu Lobo, tremendo elitista!

Pedro Bial desperdiçou meia hora de entrevista com Edu Lobo num tatibitate ao redor de episódios já muito manjados da trajetória do artista. Mas nunca é demais ouvir o que um construtor da MPB (Edu reprova a sigla e a compreensão mais usual nela contida) tem a dizer sobre a música popular criada a partir de altos padrões estéticos. Ainda que uma canção, digamos, como Beatriz, dele e Chico Buarque, deva ser hoje considerada politicamente incorreta, de tão impopular, de tão requintada na composição melódica e na elaboração harmônica, de tão exigente no repertório verbal, de tão, vá lá, elitista.


Vinicius sem moderação

Confesso que bebi, mais uma vez (uisquinhos), ao rever Vinicius (2005), o documentário de Miguel Faria Jr. Deve ter sido a oitava ou nona vez. Sempre o uisquinho, a saudade, certo derramamento…  Cumplicidade anímica é isso. Atribui-se ao crítico de arte George Jean Nathan a frase “bebo para tornar as outras pessoas interessantes” (“only drink to make other people seem interesting”). Posso estar sendo cruel mas, desta vez, acho que pelo terceiro uisquinho, considerei satisfatório o desempenho da atriz Camila Morgado, apresentadora, com o ator Ricardo Blat, do pocket show que intercala a narrativa, e quem diz dois ou três poemas; logo ela, doce Camilinha, como a trataria Vinicius, a quem outrora malhei tanto. O filme de Faria Jr., a despeito de seus defeitos (como não destacar devidamente o casamento de Vinicius com Toquinho e seu final de vida cobrado pelo alcoolismo) ronda a perfeição. A produção é fruto de uma iniciativa amigável, familiar, mas consegue pintar um retrato de Vinicius tão bom quanto o de Portinari. Ademais, como disse o poeta e escritor polonês Czesław Miłosz, biografias são “obviamente falsas”: “São falsas porque seus capítulos individuais estão vinculados de acordo com um esquema predeterminado, ao passo que na realidade eram conectados diferentemente, só que ninguém sabe como”. Mas Vinicius tem méritos tão sedutores para o espectador que importa pouco seu grau de fidelidade à “verdadeira” vida do personagem. A dinâmica do roteiro nasce de um texto preciso e luminoso, escrito pelo diretor em parceria com Rubem Braga e Eucanaã Ferraz; os depoimentos, retirados de acervos ou tomados de um elenco estelar com grande intimidade, proporcionaram o esplêndido trabalho da montagem, e mais propriamente seu ótimo timing. Não resisto a ouvir de Vinicius frases como esta, sobre Pixinguinha: “O ser mais lindo que eu encontrei na escala humana”. Esta Ju recomenda, portanto, que se veja e reveja mil vezes o doc. Mas, leitora, leitor, por favor, modere-se no uisquinho!

Candido Portinari: Retrato de Vinicius de Moraes (1938) Google Arts & Culture

Bravíssima!

Um dos seres mais lindos que encontro na escala humana, como brasileiro ligado ao jornalismo e às artes, chama-se Fernanda Montenegro. Malu Gaspar fez a melhor entrevista que pude ver com a nova imortal da ABL, cuja lucidez, aos 92 anos, contrasta ricamente com o obscurantismo nacional. O podcast A Malu tá ON é renovado às sextas-feiras.

*

Fernanda sobre o Vibrião Colérico: “Este homem é uma forca, um vômito, uma facada no ventre”. Bravíssima!


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Pais do romance moderno

Samuel Titan Jr, professor de literatura comparada da USP, fez para a Folha um bom artigo panorâmico, com o potencial de enriquecer a leitura de dois autores fundamentais na formação da literatura moderna, nascidos há 200 anos: Fiódor Dostoiévski e Gustave Flaubert. A força ficcional e irradiadora da obra de ambos, diga-se de passagem, mantém-se em pleno vigor, a despeito das enchentes de vulgaridade e idiotia que abalam os pilares da civilização ocidental.


A vacina que mais faz falta

O neurocientista António Damásio, diretor do Instituto do Cérebro e da Criatividade da Universidade do Sul da Califórnia, com um novo livro na praça (Sentir & saber – A caminho da consciência, no título da edição portuguesa), afirma em entrevista a Luis Pablo Beauregard, no El País, que a humanidade não se tornou menos inteligente, ao contrário, nossa habilidade de compreensão até melhorou. O que tem falhado é a racionalidade. “Se você sabe que existe a possibilidade de morrer [de covid] e ainda prefere não se vacinar, você é irracional ou completamente estúpido. Não há vacina para a estupidez”.


E por falar em estupidez…

É, mais uma vez, estarrecedora a celebração do PT à reeleição fajuta do criminoso ditador da Nicarágua, no costumeiro alinhamento do partido com ditaduras de esquerda. E por aqui defendem, com grande sinceridade, a democracia. Mas aí voltamos ao começo, à conversa de abertura desta 97ª edição da Jurupoca, não é? 


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