JU_98 | Bons dias, Michelle

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Primeira-dama, bons dias!

Como dizíamos em tempos mais solidários, antes das mídias sociais e do sucedâneo da amizade que é o WhatsApp, estamos aí.

Nós, povo cordial, tal qual retratados pelo pai do Chico Buarque, ainda estamos aí.

E esse povo é capaz de cada coisa…

Com o coração se apaixona e se ama, com o coração se esgana, com o coração reza-se o nome do padre (em nome da pátria) para vomitar bílis verde-amarela, e com o coração se elege um presidente que emula o espírito miliciano.

Para quem não pode se orgulhar do saldo de três anos de governo e nove crimes reiterados (apud CPI do Senado), sempre haverá o último refúgio (canalha) do macho cordial: “Ainda dou no couro!”.

Brutal, vulgar — e cordial — o machismo se assentou na sociedade brasileira como camadas geológicas. Se as perfurarmos e recolhemos fragmentos para análise num laboratório etnográfico, as amostras revelarão altos teores de

·         Coisificação da mulher (percebida como planta carnívora ou mineral carnoso, “portador de vagina”, na definição ilustrada de seu enteado parlamentar, senhora primeira-dama);

·         Discriminação; assédio; abuso de poder; imposição autoritária no espaço doméstico;

·         Violência verbal; tortura física e psicológica;

·         Estupro e feminicídio tipificado.

São riquezas do Brasil, roxos em nossa linda aquarela.

O “bom dia mais que especial” com o qual a senhora fora agraciada, anunciado aos quatro ventos, não deixa de ser uma espécie de pregão de nossas virtudes no mercado das commodities simbólicas.

Quem pode com uma nação cujo primeiro mandatário, aos 66 anos, ainda é capaz de dar um “bom-dia mais que especial” à mulher?

É ou não de se repetir a fórmula “cada povo tem o governo que merece”? Ou a senhora consegue imaginar o Joe Biden ou o Macron… Não creio.

O fato deve ter importância comparável ao controle da epidemia, ou de onde teria vindo aquele relaxamento galhofeiro?

Como não decantar para o mundo todo um feito dessa magnitude, ou, noutra hipótese, a consumação de um evento raro?

Por outro lado, para quem consegue cumprir sua função no tálamo, como dizia meu inesquecível Manoel Lobato, que se dane a emergência climática, a inflação e o escambau.

O nosso soft power (poder suave, ou a influência que um país pode exercer por meio do esporte, da língua, da cultura etc.) inclui uma libido presidencial que “dispensa aditivo”, como já ouvimos! Que consolo atroz.

Mas a senhora pode argumentar:

— Mas como um macho cordial perderia uma chance de fazer esse tipo de graça com o riso garantido por uma claque de puxa-sacos e colaboracionistas? O que você quer?

Pois é.

O “bom dia” da senhora é o auge da empatia botequeira de quem consegue rir da dificuldade respiratória de pacientes de covid.

Seu marido seria um humorista desperdiçado do stand-up brasileiro? Se poucos de nós, cordialmente, ainda não conseguimos entender a persistente piada da cloroquina, ou a imposição do orçamento secreto, o chiste sexual é fácil, fácil. Qualquer asno pega o punch line de uma frase de duplo sentido.

O riso com pirocas e perseguidas faz a vida de pátios escolares, bancos, borracharias, copos-sujos, quartéis, meretrícios, estádios de futebol, churrascos  dominicais, garden parties na cadeia (Vinicius) e mídias sociais. É uma graça espalhada democraticamente pelas camadas geológicas de povo cordial.

Sabemos, primeira-dama, como o macho cordial pode ser constrangedor. Para funcionar, a broma machista deve ecoar entre outros machos cordiais, como numa bronha grupal.

Nesse ambiente reconfortante o macho vai preferir mil vezes o prazer da cumplicidade onanista (ególatra) ao respeito humano, à sensibilidade de corresponder ao afeto feminino (que aparentemente no caso da senhora nunca se encerra), à compostura e à dignidade que se espera de um homem adulto educado, para não termos que galgar a um presidente da República.

Nem a longa história da luta feminina nem o berço materno ensinaram patavina a quem é incapaz de conviver com a mulher sem rebaixá-la como subespécie na condição humana.

A planta carnívora Vênus apanha-moscas (Dionaea muscipula). Wikimedia Commons

O macho cordial brasileiro partilha, em grau significativo, o universo espiritual reinante em lugares como Arábia Saudita e Afeganistão — infernos onde a mulher ainda é tratada como animal doméstico útil, e tem a vida aparada à maneira de um bonsai, sem direito a se educar, sair sozinha na rua, vestir-se como bem quer e trabalhar no ofício que pretenda, — lugares onde a Declaração dos Direitos Humanos jamais colou.

Estamos aí, primeira-dama do meu constrangimento, como homem e brasileiro, diante da publicidade da vida sexual de um mandatário.

Porque um homem (acredita nisso?) pode, sim, se constranger diante da alheia intimidade ferida, diante da exposição à privacidade entre dois corpos corrompida (numa espécie de suruba nacional ou transmissão ao vivo de um aconchego no sanitário), e até, digo eu, para não perder a viagem, diante de uma cena do BBB, quando a expressão mais interior e única do humano se banaliza na praça pública ampliada dos meios eletrônicos de comunicação.

Portanto, por tudo que está dito acima (e, por sinal, também na Ju passada, titulada A obscenidade geral da nação) espero ter clarificado que sou solidário com a senhora. Sinceramente, um jurupoco.

Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Francisco Goya y Lucientes: El aquelarre o El gran cabrón, 1820-1823 (O sabá das bruxas ou o grande bode) Copyright da imagem ©Museo Nacional del Prado

           Jurupoca_98 – 19 a 25/11 de 2021
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


[Foto do alto] Larva da farinha dentro de uma Vênus apanha-moscas (Dionaea muscipula). Wikimedia Commons


| MÍNIMAS & SEMÍNIMAS |

Rei Lear

Viemos para cá chorando, tu sabes/ A primeira vez que cheiramos o ar/ Vagimos e choramos… | … we came crying hither: Thou know’st, the first time that we smell the air, We wawl and cry…

“Ao nascer choramos porque chegamos

Até este grande palco de loucos…” |When we are born, we cry that we are come/ To this great stage of fools…

Tradução de Aíla de Oliveira Gomes, UFRJ, 2000.


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Eclesiastes

1. Palavras § de Qohélet filho de Davi §§

 rei  § em Jerusalém

2. “Névoa de nadas § disse O-que-sabe §§

 névoa de nadas § tudo névoa-nada” […]

8. “Tudo tédio palavras §§ como dizê-lo § em palavras

 §§§ O olho não se sacia § de ver §§ e o ouvido não se

satura § de ouvir”

9. Aquilo que já foi § é aquilo que será §§ e aquilo que foi feito §§ aquilo § se fará §§§ E não há nada novo § sob  sol”.

Da tradução do Eclesiastes — Qohélet (O-que-sabe) — por Haroldo de Campos


Senso de ironia

Detentores do poder (de Estado, extremistas ideológicos, teocráticos e dogmáticos em gênero) não entendem uma ironia, diz o nigeriano Wole Soyinka, Nobel de Literatura de 1986. “Há que ser muito direto, muito brutal com eles”, recomenda a Andrés Seoane, no El Cultural. Com um novo livro na praça, ainda inédito no Brasil, Chronicles from the Land of the Happiest People on Earth (Crônicas do país da gente mais feliz da Terra), tem um conselho mais que oportuno ao jovem leitorado:

“Espero que os jovens de hoje percebam que nem toda a realidade é baseada nas redes sociais, que existe uma alternativa lá fora, essa cultura eterna, que são as artes e a literatura. E, acima de tudo, os encorajo a desenvolver algo que é chave para o futuro sombrio: capacidade crítica e senso de ironia.”

*

“O sorriso é algo muito mais interessante e complexo que o riso”, diz George Steiner.

*

Na literatura, a ironia é o que diz muito com pouco, que parece ser menos do que é; é dizer o mínimo para significar o máximo possível.

*

Machado é nosso grande ironista.

*

A Bíblia está recheada de ironia, Harold Bloom e Steiner discutem isso com maestria, desde o incomensurável contraste entre o poder divino e a fragilidade humana.

*

Só pode ser ironia divina o diálogo entre o “encrenqueiro” (Bloom) Javé e Satanás, intrigando o pobre Jó: Então disse o Senhor a Satanás: “Observaste meu servo Jó?, porque ninguém há na Terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal.” E vai por aí a implicância do Senhor com seu servo ideal, que é entregue de bandeja aos sortilégios do cão, sem qualquer misericórdia.


Paris ocupada

Um deleite a leitura de Paris – A festa continuou. A vida cultural durante a ocupação nazista, 1940-44 (Companhia das Letras, 2012), de Alan Riding. Enquanto a plebe parisiense amargava para se manter de pé com seus cartões de racionamento, ricaços franceses e a elite alemã desfrutavam do bem bom “Em estabelecimentos como o Maxim’s, a Tour d’Argent, o Prunier, o Drouant, o Laurent, o Pavillon de l’Élysée e o Fouquet’s, tudo estava disponível pelo preço justo, do melhor champanhe aos mais refinados conhaques”, relata. “O Maxim’s, a poucos passos da Place de la Concorde, era o restaurante com a clientela alemã mais fiel, o que incluía Göring em suas visitas frequentes a Paris para surrupiar obras de arte. Era também nesse endereço que os oficiais alemães eram vistos recebendo como convidados os colaboracionistas mais ilustres, como o editor de jornal Jean Luchaire e celebridades como Sacha Guitry.”

*

Contam para um felizardo cliente do Tour d’Argent que durante a ocupação os donos do restaurante emparedarem a parte mais nobre da épica adega do restaurante, e assim conseguiram proteger as joias da coroa da pilhagem nazista. Lorota boa, concluo, ao ler Riding.

*

Riding, hoje aos 77 anos, nasceu no Brasil, deixou o país ainda criança, estudou na Inglaterra e foi correspondente do New York Times por três décadas, baseado primeiro na América Latina e depois em Paris.


Mr. Jones e a sombra de Stalin entre nós

Se Mr. Jones, o título original, não é lá essas coisas, convenhamos que A sombra de Stalin, disponível no Netflix, é de lascar. Mas o filme dirigido pela conceituada polonesa Agnieszka Holland

merece ser visto, revisto e refletido. A principal licença poética tomada no roteiro de Andrea Chalupa é um biscoito fino: o encontro do jornalista galés Gareth Jones com George Orwell, cujo romance A revolução dos bichos inspira e norteia a narrativa. De resto o filme é vero sobre a história de Jones, brilhante aluno de russo em Cambridge que se torna assessor do ex-primeiro-ministro britânico Lloyd George e jornalista independente, na primeira metade dos anos 1930. Jones conseguira entrevistar Hitler e queria ter com Stálin para conseguir reportar como funcionava o “milagre econômico” soviético. Também é veraz a história de Walter Duranty, correspondente do New York Times em Moscou que omitiu dos leitores do jornal o que o filme mostra com maestria, a epidemia de fome e o morticínio na Ucrânia, “efeito colateral” calculado no planejamento econômico soviético. O filme, para quem quiser ver, cutuca o relativismo revisionista que ainda hoje tenta adoçar o totalitarismo stalinista. Cai bem entre nós, depois da tagarelice negacionista patrocinada por Caetano Veloso, não faz muito tempo, deslumbrado com o blablablá do blogueiro marxista Jones Manuel, professor da Universidade Federal de Pernambuco, e com a obra do filósofo italiano Domenico Losurdo.


Gil imortal

Gilberto Gil na Academia Brasileira de Letras faz mais sentido que o Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan. Se alguém duvida disso, vão aí dois recuerdos da poética de sua obra, um dos alicerces da MPB. 


A RÁDIO SIUTÔNIO APRESENTA: 1001 CANÇÕES BRASILEIRAS

 A Rádio Siutônio, você sabe, é aquela bosta/ Afinal, toca exclusivamente o que gosta/ E prefere mil vezes o olor de velhos percevejos/ A ouvir um acorde de novos sertanejos/ Tal como ganhar na fuça o balaço dum tanque/ A aturar um segundo de pancadão pornofunk/ Mas se ainda assim foi bom pra você, ouvinte irmão, /Seja muito bem-vindo à nossa programação


— Uma cubana de La Habana e uma baiana de Santo Amaro da Purificação deram uma nova vida a este rubi do nosso cancioneiro que é Só vendo que beleza (Marambaia), de Rubens Campos e Henricão, sucesso de 1942 na voz de Carmem Costa e com Elis Regina, em 1980, faixa do álbum Saudades do Brasil. A Biscoito Fino registrou o encontro em show de Maria Bethânia e Omara Portuondo, em CD de 2008. O samba é puro deleite e elevação d’alma. 


— Caminho pelo Belo ouvindo esta rádio, numa longo passeio pela hora do almoço, e deparo várias vezes trabalhadores com marmitas nas calçadas. Uma cena comum da cidade, de longa tradição. Incomum era minha rádio tocar, enquanto pensava nisso, Torresmo à milanesa (Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiros), com Adoniram, Vergueiros e Clementina de Jesus. A gravação originalmente é do LP Clementina (EMI-Odeon, 1979) produzido por Fernando Faro, e faixa da coletânea em CD Clementina e convidados, de 1999.


— Saiu nesta quinta-feira (18) a versão em vídeo de Você-você (Caetano Veloso), o encontro de Caetano Veloso e Carminho no álbum Meu coco.   


— O sambista e compositor João Nogueira (1941-2000) festejaria 80 anos, no último dia 12. Na Rádio Batuta, Luiz Fernando Vianna o homenageia com uma playlist de seus dez primeiros discos (1972-1983).

Em: https://radiobatuta.ims.com.br/playlists/joao-nogueira-passo-a-passo

Pude vê-lo de perto, não muito antes de sua morte, no Lapa Multishow, no Belo. Um craque do samba e da simpatia. Saudade.


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