Tecnicamente morto

“Detesto tudo. Vomito a gente que me cerca.
Uma fria loucura roça minha fronte.
O gelado interesse me fita. 
Sorver hora a hora o fel venenoso da vida.”
Do diário pessoal de Oswald de Andrade

“Eu tô montado no futuro indicativo
 Já num corro mais perigo 
Nada tenho a declarar 
Terno de vidro costurado a parafuso
Papagaio do futuro
 Num para-raios ao luar”
Do Papagaio do futuro de Alceu Valença

“Nunc et in hora mortis nostrae. Amen”

I

Aqui jazz o Siúves, vítima dum algoritmo abelhudo.
Morreu. Já era então um soturno ser meditabundo,
Encostado pela providência da seleção natural
Como um australopiteco, uma criatura obsoleta
Que se vê deserdada pela herança pós-moderna.
O Zeitgeist — assombração! — seu sangue gelara;
O relativismo untuoso o pusera em coma profundo;
A pós-verdade danara-lhe o fígado e o lugar-comum, 
O coração: coração inadaptado, de saco cheio, s’á?
Aí o coup de grâce: aniquilação da matéria cinzenta.

II

Vidro fosco, dizia a imagem, qual chapa dum pulmão
Conquistado pelas hordas bárbaras do Sars-Cov2.
— Para esse mal não há remédio — disse a doc Lollobrigida.
— Quadro raríssimo! — disse Lollô, médica particular do Siu.
— Fascinante! — ela disse, a doutora Lô. 
— O cérebro do senhor está emplastrado, veja só —
Como que pela gravidade dum buraco negro! — ela disse.
— Buraco negro, doutora, gravidade? Tenha dó. Che cazzo? — ele disse.
— Pense — ela disse, depois de dedicada anamnese —
Pense, aprofunde-se, contriste, considere causações.
 
III

— Quer mesmo saber? Meu coração vagabundo quis guardar o mundo... — ele disse.
—  Não seja pernóstico. Que mais pesou-lhe na mioleira? — ela disse.
— Ora, muito, doutora, muitíssimo. Não posso deixar de creditar:
Realities + telejornais + comentaristas + cronistas sem talento + games
e gamers + emergência climática + franquia Marvel + agrotóxicos...
— O quê? O quê! — interveio a Lollobrigida, muquirana — Que isso? 
— ela disse — sua voz fina a matraquear nos orelhões do Siuves.
— Posso prosseguir, doutíssima amiga? — ele pediu, paciente.
— Se não há outro jeito... — ela disse.
— Pois tenha ainda mais em conta, veia de guerra, teores letais de tudo isso:
(1) Espetáculo Total + fanatismo + deselegância + vulgaridade +
Pornografia no poder + Face + Insta + Youtube + Tik-Tok + 
Telegram + WhatsApp + Tinder e tais + streaming + publicidade +
(2) Propaganda + public relations + MMA + poluição sonora + poluição +
Infantilização do mundo + gourmetização do mundo + petização do mundo + 
Damien Hirst + Beatriz Milhazes + Sertanejos Integrados dos Últimos Dias + 
(3) BBB + Celebridade BBB + Fantástico + Faustão + aceleração do mundo +
Cancel culture + neotribalismo + neopuritanismo + auto-tune + autoajuda +
NFT Bitcoins e tais + clickbait + neodogmatismo identitário + racialismo + 
(4) Burrice ativa + streaming + morte do Scruton + perda do Steiner +
Falta do Belchior + mundo sem Nara + crítica sem Eco + CEC na série B +
Onipresença da Fofoca + onipresença do mau gosto + onipresença do brega + 
(5) Vitória dos caretas + Zuckerberg + séries mexicanas + nacionalismo russo +  
Nacionalismo catalão + Brexit + Vox + Steve Bannon + Orban + Salvini +
Maduro + Ortega e que tais + Agente Laranja + GOP e Democratas +
(6) Vibrião Colérico + Prole do Vibrião + Ministério do Vibrião + 
Fãs do Vibrião + Milícias do Vibrião + Milicos do Vibrião + Fascismo eterno +
 Covid-19 + Superbactérias + PGR + Gleisi H. + sérgio-morismo + 
(7) Curandeirismo médico + lavajatismo + lulismo + esquerdismo infantil +
Supremacismo analfabetista [apud Paraguaçu & Gomes] +
Ignorância desejante + Bananão [apud o Lessa] + o Carvalho... — ele dizia.

IV

— Santo cristo! Chega, Siúves, basta! — exclamou a médica — Pare, eu
 ordeno! — ordenou Lollobrigida.
—  Sua mucca! Não me calo não. — ele disse, já na fuga hospitalar.  
— Não veem que eu sou um esmagado do Tempo?
Que não há dúvida, não há culpa de rabo a cabo?
Tabaco álcool violência arbovirose mal genético?
Ninguém é vítima, nula, não há culpa, neca, tamanca,
Além do diabólico Tempo tóxico e seus ardis, claro,
Além do mundo tóxico e do cu do mundo, por certo,
Além da dupla sertaneja balindo em terça, por óbvio,
Fracassei, que dúvida! Mas o mundo fracassou. — soprou ao vento.

V

— Byron disse no Childe Harold, conforme o Campos:
O mundo eu não o amei, nem ele a mim;
Não bajulei o seu ar vicioso, nem dobrei
Aos seus idólatras o joelho do sim. —
Meu rosto não abriu risos ao rei
Nem repartiu ecos; a turba, eu sei,
Não me incluiu entre os seus. Vivi ao lado
Deles, porém sem ser da sua grei;
E à mortalha da sua mente atado
Estaria se não me houvesse precatado. — recitou em vão.

VI

— A missão do filósofo é ferir a estupidez, disse Nietzsche — ele disse.
— Mas a filosofia fracassou + a arte fracassou + a lírica fracassou +
O romance fracassou + a religião fracassou + o jornalismo fracassou —
Não, não tive a morte acidental, a morte ocidental
Dos que miram obsessivamente o verdugo mundo
Nem a morte romântica, ainda menos a heroica.
Deixei de ser em meu ser noturno. Dessegurado, 
Morri cedo, empastelado por Cronos-Compressor,
Como o atingido pela catástrofe sucumbe, capota,
Como de cujus do paredão de Capitólio — ele disse.

VII

— Ei, cê aí: troque a canoa pelo cotidiano,
A mineira represa pelo Bananão do Lessa
E o paredão de Capitólio pelo mundo.
Sloterdijk disse: Somos criaturas necessitadas de consolo. 
O ao menos de anestesia — ele citou.
— Meu corpo jaz em minha sala de TV
Onde crescem lírios e capim meloso. 
E meus dentes estão perfeitamente limpos
E meus músculos simetricamente flácidos
E minha dieta segue a bula higiênica — ele disse.
 
VIII

Impaciente, ansioso, Siúves não quis esperar, 
O neurótico, o fim nem a redenção do mundo.
— Putrescina (C4H12N2), mimosinha, 
& cadaverina (C5H14N2), jeitosinha,
Tal dupla redentora à espreita do finado,
Está prestes a iniciar seu fúnebre bailado — ele disse.
Tão logo seu cadáver pare de se debater
Como neste poema adocicado adoecido.
O poema do Siúves é fruto dum adoecimento.
Ele começou do semelhante a enjoar, e logo

IX

Da impotência, da repetição eterna, da moda,
Da decadência, da fancaria e do vatapá.
— Ah, a hipocrisia, essa velha bruxa malvada
   Ah, o esgotamento da língua, pobre Pessoa,
    Nosso português, tadinho, tão corrompido;
    Sim, a miséria vocabular nos aniquilava.
Certo, a feiura física e verbal nos fulminava,
Que dúvida? A burrice exultante nos castrava.
Eta ferro, pra que tanto aço! Tutto nel mondo è burla.
Credo em cruz. Não há tatu que aguente. — ele disse. 

X

— E pensar que tantos têm estômagos tão aptos. 
Nunca aceitei essa falha evolutiva num pato
Como eu; tripas fracas para o ordinário as tive.
Ordinary human unhappiness is life in its true color, disse Wilde.
Um país inteiro vê o BBB ajoelhado e vidrado
Um país inteiro goza com o fedor da celebridade
Um mundo inteiro a cozinhar, dançar, peidar,
A empestear salões onde prosperava a arte
Onde se sacavam metáforas e se articulavam
Palavras frases poemas ideias. — ele disse.
 
XI

— Onde antes se cultivavam ironias e prosas,
Onde se semeavam aquelas hortas e roseirais 
Por Jerusalém, Alexandria, Roma e Atenas.
   Bocomocos degredaram anjos tortos com
   Sermões para as chamas frias do paraíso.
   A dramaturgia não alcançou a farsa, 
Fracassou, ferida pelo infantil. Santinhos 
Santarrões se lançaram — mágicas lacraias —
A tuitar no penico o advento da glória 
Terrenal de suas convicções baratas. — ele disse.

XII
 
Com o Siu já no final, um xamã — facínora
E mito — ao lhe ver em estertores, anêmico, 
Escandalizado com o ar malsão dum sifilítico,
   As costelas finas a lhe sobressair à carne,
Deu-lhe o viático: Cloroquina + Ivermectina.  
Terco, nosso herói abjurou a tisana metafísica.
Era tarde para salvar a pátria esfolada, estofada
Com as sagacidades dum Lula Mutema Vargas.
Já não havia terapia ou emplasto Sabiá-Cubas, 
Não havia Biotônico Fontoura ou dieta da Lua

XIII

Não havia salvação pro Siúves, minha senhora, s’á?
Que autoajuda que Organizações Globo que nada.
Que Globo NewsBombril que coaching  que nada.
Que pet-terapia que pastor que influencer que nada.
Que Anitta que Sangalo que Felipe Neto que nada.
Que macumba que brother que Buarque que nada.
Que ESG/startups/Piauí/FSP/OESP que nada.
Que santa Marília Mendonça Milagrosa que nada.
Que Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que nada. 
Não havia nada que pudesse o homem de si lavar.
 
XIV

Filmes, romances, quadros, museus, poemas,
A arte pré-velhas velhacarias contemporâneas, 
Tudo há muito sucumbira e estercara a terra
   À nova florescência — ele sabia — a nova 
Juventude, a novíssima e jovem vida eterna,
   A nova era espacial do Vale do Silício 
E do Silicone. O espaço interestelar uma campa
Loteada a Musk Netflix Google Apple e Amazon.
A Via-Láctea, vaca de vidrilhos tamanha — media —
Dera trilhões de tetas para a turma toda mamar.

XV 

Qual Saturno a mastigar criancinhas do Goya,
Lestrigões homéricos o perseguiam nas ruas.
Em vão ele esperneava, enjoava, escarrava,
O intestino bem solto. Tratava surtos de febre
    E dores agudas com Lexapro e Mozart;
Recorria aos azuis do crepúsculo de Veneza, a
Vagar entre a Calle de las Huertas e Los Austrias
Ou entre o Caffè San Marco e o Jardim Público.
     Pegava com santo Jobim e entoava até:
— My life is such a mess let's have a Brahma.

XVI

— Qual nada. Era nada. Não o Nada, já
Que o Nada abriga vida, mora na filosofia,
Há prazer e sedução no nenhures do Nada.
Não há nada de absurdo no Nada, exceto
A surda desgraça dum degredado do Nada
E de seus mistérios gozosos no ego raiados.
— Que nada, morri, ufa!, tecnicamente morri
Como o Francis morrera bem nos anos 1980,
Tecnicamente também bati as botas e rebati.
Credo, tutto nel mondo è burla. — ele dizia.
 
XVII

— Não há tatu que aguente. Credo em cruz. — ele dizia.
— Cá me encontro vago avexado leso tapera
Nesta sala onde brotam flores e ervas daninhas.
O telefone, Sir, não trina, tintina nem tarantina.
O Zap não zarelha. A TV não acende. Woody Allen
Não me manda um e-mail. O streaming estaciona
E a radiola andava mesmo há muito estragada.
Acho que meus amigos estão iguais, tal e qual,
Macerados, uns bostas, tecnicamente mortos,
Inapetentes para um trago, anoréticos até. — dizia o Siu.

XVIII

Não sabia por onde andava quem tanto amara,
Não sabia se viviam, a memória lhe faltava
A ponto de não adivinhar a mulher duma vida
E trocar o porteiro pela besta do Barrão Colérico.
— Chega-se a tanto no fim, antes ou não da hora.
A sanha não dá: Inglória! Diferentemente do samba,
      O devaneio não interveio a meu favor.
— Sigo aqui, cresce o meloso, um calor da porra,
A água é poluída, o ar gasto, seco, nauseabundo,
E mal posso me erguer para tomar uma ducha. — ele dizia.

XIX

Seguia adiando o oblívio não liberado,
Não franqueado oblívio pelo livre arbítrio
Que sempre açulara o que nele medrava,
Procrastinando pelo tédio que melava:
— É pena, a ação enzimática redentora 
Da dupla putrescina (C4H12N2), mimosinha,
& cadaverina (C5H14N2), jeitosinha. 
Ao me desavir de mim e de ti me despeço.
Desgraçadamente era bom quando durava
Como havia de ser à criança na varanda. — dizia.

XX

— Da página fresca do jornal e do poema;
Dos filhos a saltitar pela praia dourada;
Dos 4 Impromptus de Franz Schubert.
A beleza remanesce nos axônios — ele dizia.
— Disse o Borges sobre o menino Keats:
Desde el principio hasta la joven muerte
La terrible belleza te acechaba
Como a los otros la propicia suerte
O la adversa. En las albas te esperaba... — E Rimbaud
Menino: Inútil beleza/ A tudo rendida... — citava.

XXI

— A inviolada noiva de quietude paz do
Keats foi dar na Paquequer por tostões.
Por sinal sua lição floral e a filha do tempo,
A tal da filha lenta da muda harmonia,
Era vitimada por pedófilos filisteus peidorreiros.
Não há tatu que aguente. Tutto nel mondo è burla.
Me despeço, me apago, me calo e me cego,
Me recolho encolhido no escolho da escuridão
Na escrotidão do oblívio sob o encerado estelar.
Divirtam-se! Adeus, cambada! — disse o Siúves no fim.







Foto do alto: “Entardecer em Laguardia” – Antônio Siúves

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