Epístola aos mineiros minerados

“[...]
Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou”
De “Paisagem na Janela”, de Lô Borges e Fernando Brant, 
faixa 12 do cinquentenário álbum Clube da Esquina,
 gloriosa gema gestada nas Gerais por Milton Nascimento e cia.

“Dentro do tempo há mais tempo,
e, na roca a ambição,
vai-se preparando a teia
dos castigos que virão:
há mais forcas, mais suplícios
para os netos da traição.”
Do Romance V ou Da Destruição de Ouro Podre,
 do “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles

“Eu sou um pobre homem 
do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”
Pedro Nava em “Baú de Ossos”

O 1º compromisso de Minas é com a liberdade (minerária).

O 2º compromisso de Minas é com a morbidade: lembra-te de que és pó e ao pó (minerário) voltarás.

Triste Minas dos Matos Gerais, ó quão dessemelhante, ó quão encardida, ó quão medíocre, ó quão escatológica (doutrina dos causos finais), o quão mal servida pelos barões, ó quão abandonada.

Que tanto rezaram teus coronéis e teus clérigos todos esses séculos, Sá?

Como o Bananão [ver o Lessa], também não deste certo, mas és o cacho que mais gorou, o fruto mais acre, o pior aborto da bananeira.

— ¡Em verdade, deste em tão pouca coisa! —

Hienas de aço comem tuas cangas e cagam merdalama em fossas abissais a montante.

Tuas colinas-commodities pagam dividendos à finança e distribuem ao enxurro a desolação de paisagens marcianas.

O que em ti prestava — matas, rios, cidades, civilizações — resta roído e arruinado. Crestaram quase tudo.

A poeira do ferro entope alvéolos e oxida almas, nossas almas ocres todas, ó Minas iaiá, caboca da nariganga.

Ao pé de tuas montanhas violadas jazemos nós, mineirinhos-refugo — portentosa escória humana deserdada, ó Minas.

A feiura te enseja, o manto da miséria te adorna,
o infortúnio te assombra.

¿Donde a fortuna da mineração, da cariação e da extração geral, ó Geraes?

— ¿Porventura estará no prodígio de tuas escolas, de tuas estradas, de tuas casas de saúde, de teu saneamento universal, de teus teatros e filarmônicas, de teus parques tecnológicos, de tua modernidade, estará? —

— ¡Por aí é que não está!  —

¿Quem sabe o espólio do teu ouro e de teu cascalho — desde a Derrama — nos espere — siderados mineiros minerados — na City, em Wall Street, nas Virgin Islands, no Credit Suisse, na Faria Lima e ainda até em Lisboa, quem sabe?

Pois é.

Abrigo-latrina de Oligarcas Geraes — ó Minas — és o eterno pastofeudo da Patota que te sonha ébria em hotéis caros de Miami, Paris ou Brasília (e inté no Mangabeiras, sô!).

As despesas sempre correram por tua conta: eis o esplendor da mineiridade em botão.

És, ó Minas, o hímen complacente de baronetes e arrivistas de variegada plumagem e inútil pantomima legiferante.

Nasceste corrompida nas Capitanias, foste escravista e logo aliada da hora de ditadores.

Os fantasmas de teus mandatários galgam calmamente as escadarias art-noveau do Liberdade, forjadas nas oficinas Acières Bruges, mimo de uma colônia genocida.

— ¡Teus 3 Poderes fazem jus à tua feia prosódia
e às tuas estórias, uai! —

Como insuspeita mineradora dos média, a Globo Minas logrou te reduzir — a ti e a tua gloriosa civilização barroco-colonial — à quintessência do kitsch.

— ¡Não passas na Globo Minas dum chaveirinho do Museu dos Ofícios ou do Museu dos Tropeiros, dum ímã de geladeira do Cipó, dum postal do Inhotim (fantasiosa ilha), dum queijo canastra, dum fogão de lenha, dum litro da branquinha, dum bambá e dum angu com taioba num prato com torresmo e um doce, dum burro de carga e dum palheiro! —

A incultura te apequenou.

A esterilidade te ceifou a descendência.

A decadência te minerou e minou a inteligência.
Pois eis o teu rejeito:

— Nem flor nem canção nem Bituca: coisa nenhuma. —

Nunca mais, ó Minas, disse o corvo em meus umbrais no Caraça, psicografado pelo Rubião, psicografado pelo Afonso Borges. —

— Abjuraste a raça do Aleijadinho, do Cláudio Manoel, do Rosa, do CDA, do Nava, do Murilo, do Guignard, do Darcy, do Ciro, do Drummond, da Cecília (d’Inconfidência), do Pederneiras, do Tavinho, do Eduardo e da Teuda e tal, subjugada que foste pela escumalha brega. —

Viste teus rubis profanados e logo jurados de morte: Ouro Preto, Mariana, Diamantina e tantos Serros e Itabiras a padecer à sombra do vulcão.

Na tua bela Tiradentes, tipicamente,
 a gentrificação veio antes do saneamento básico, hahaha.

Hoje, tua ¡arquitetura! e teu ¡urbanismo! cumprem o jeito Manhuaçu de ser — nos perdoem os manhuaçuenses — e outras cidades-carcaças desfiguradas entre margens de morgues rodoviários.

Tuas gemas te acovardaram; teus veios viciosos te embaçaram a visão; a lama tóxica te tapou a coragem e a cara.

Em teus sacrários figuram zombaria,
 mansidão e esquecimento, uai.

Parodiando um irlandês — ó amada Minas dos Matos Gerais — és o pesadelo do qual um montanhês minerado, um mineiro siderado quase itamarista tenta acordar.

(¡m’nádesênad’não, sô! Manhã vão tudo na ven’ tomá pingão, pitá, cumé, dispoi deitá, puxá paia boa, drumi dereito, drumi, isquecê, inté morrê, linlás ¿tubiornotubi Min’Gerai? Vâmu isquecê tudin tá, ¿cê sá, né não? ¿¡Intão!? Entónce inté.)


Foto do alto: terreno marciano [mas bem podia ser mineiro]. Cortesia NASA/JPL-Caltech/ASU/MSSS. 

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