A Ju voltou, por favor não entenda



Jurupoca_100 – 13 a 19/5/2022
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Não sou eu quem repete essa história, é a história que adora uma repetição.


Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô 


O que tiver de expelir, pedra, poema, pereba, cairá neste diário terrível. Blog aberto, domínio renovado. Saravá!


E entoava o jornalista e cover de Caetano, Marcelo Rios, “sobre toda estrada, sobre toda sala paira, monstruosa, a sombra do Siúves”.


Por certo e por óbvio que eu quero que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês.


“Não sei se me explico bem, nem é preciso dizer melhor para o fogo a que lançarei um dia estas folhas de solitário”, anota o conselheiro Aires, velho e fiel camarada.  


Páginas de blogs nascem chamuscadas no fogo eletrônico. Tenho mil e umas queimadas aqui, ou seja, nas nuvens. Cinza pura.


Um amigo me envia de Bilbao a edição com os três Diários de Iñaki Uriarte e um Epílogo. Mato saudades do estilo que esse autor maturou longamente para destilar vida caseira, leituras e viagens na forma de entradas de um diário.


Uriarte, 76 anos, é um rentista. Vive dos rendimentos de uma herança imobiliária. Jamais sentiu falta de trabalhar, as dores do ócio preso ao ócio.


Ele se refere neste trecho aí a um livro de divulgação científica estupendo, lançado no Brasil há séculos pela Nova Fronteira com o título Maravilhosa obra do acaso, e à conversa entre dois dos figurões da ciência entrevistados na obra.

[Daniel] Dennett: “Me admira e impressiona também o universo. É maravilhoso, estou tão feliz de estar aqui. Creio que é um grande lugar, apesar de seus defeitos.

[Richard] Dawkins: “Não sinto nenhum vazio. Creio que o mundo é um lugar encantador e amistoso, e desfruto por estar nele”.

Estes cientistas tão darwinistas e tão ateus exageram. Parece que necessitam de se justificar, ou ainda temem algo. Contam que Beckett passeava por um parque com um amigo e celebrava o esplêndido tempo que fazia. “Sim”, disse o amigo, “é o tipo de dia que te faz se sentir feliz por estar vivo”. “Bem”, Beckett replicou, “eu não iria tão longe”.


Ninguém conseguiria viver como um determinista radical, mas, como Uriarte, o que vivi e li e observei me converte em absoluto materialista, determinista, fatalista, reducionista.


Sim, isso talvez não passe de uma crença como qualquer outra. Mas eis o diarista: “Pode ser, finalmente, ‘que sais-je ?’, mas minha tendência é pensar que não somos mais que um conjunto de moléculas em movimento submetidas às leis da física. Às vezes me convenço disso de tal maneira que me ponho completamente quieto, como me olhando desde fora e me perguntando: a ver o que este faz agora.”


A Jurupoca volta da guerra, cansada como Tereza Batista, e a verdadeira guerra normalizada.


Por cá normalizam o golpe tramado ao sol quente do Planalto Centrão.


Um míssil russo destrói uma escola e mata dezenas de civis.


Numa universidade brasileira, um Vladiminion tenta ponderar a culpa de Volodymyr Olexandrovytch Zelensky em cada corpo estraçalhado em sua tortuosa ideologia.  


No Belo, a manchete do MGTV é o resgate de um gatinho achado dentro de saco de lixo.


Uma onda de indignação banha a humanidade, e aquece os corações mineirinhos aderentes à petização (Planeta Pet) do mundo.


Musk, o da trozoba voadora que levará um mineirinho ao espaço, compra o Twitter.


Este herói do nosso tempo, Musk, me recorda o Descida na lua, um poema de Auden: “É natural que os Rapazes gritassem oba-oba a/ tão enorme triunfo fálico, aventura/ que a mulheres jamais teria acontecido/ achar valesse a pena…”.


Anitta bloqueia Bolsonaro. DiCaprio, a pedido dela, tuíta em português para convocar nossos adolescentes a salvar a lavoura intoxicada pela cólera do Vibrião.


Generais e ministros supremos apequenam ainda mais nosso vácuo existencial como nação.


A arma de um ministro Cristo dispara no balcão do aeroporto de Brasília.


Madame Le Pen alimenta a hidrofobia de direita, doença mental de raiz esquerdofrênica.


Por aí trota mal a humanidade, nossa espécie, desgraçadamente ainda uma só.


Homo sapiens somos todos, por mais que forcejem por repartir-nos.


O poema citado de Auden também diz, referindo-se aos astronautas pioneiros da Apolo 11: “Os heróis de Homero não eram certamente mais audazes/ que o nosso Trio, mas tiveram melhor sorte: Heitor / foi poupado ao vexame de a sua bravura/ ser coberta pelas câmeras de televisão.”


Me pergunto o que Auden acharia do BBB.


Hilda Hilst, em uma de seus textos pornô-cults, me apresenta a Logaritmo, jumento de lindos pelos negros e macios.


Penso em comprar um jegue só para chamá-lo assim, “vamos Logaritmo nunutht, nunuht, nunuth”.


Paulinho da Viola se diz um homem do século XIX, e que não sabe o que ainda faz aqui. Sua alteza real faz 80 em 2022.


A música se torna mais e mais a última consolação de almas tecnicamente mortas.


Música, qualquer, exceto a gororoba servida aos milhões via streaming, a que toca nas emissoras Globo.


Como o bardo judeu de Minnesota, não me lembro quando nasci e esqueci quando morri.


“Vocês salvaram minha vida”, comentou Franquilim da Silva depois de ver no Youtube o show de Monica Salmaso e André Mehmari no festival de Campos de Jordão.


A obra de Milton foi reinventada e refrescada pelos arranjos de piano e marimba de Mehmari e a voz de Mônica, a quem devemos um tanto por seu Ô de Casas, um alento na pandemia, sempre gratuito.  


Agora o primo vai vê-los no Palácio das Artes, dia 28. Ele recomenda que você também vá, e até pague ao cambista o que ele pedir, se preciso.


No Palácio das Artes, aliás, na Grande Galeria, estão as aquarelas recentes de José Alberto Nemer. Tenho passado por lá sempre que volto das caminhadas no parque municipal. São deliciosas, para usar esse adjetivo tão caro a Proust. A ideia geral, suponho, é um intercâmbio de formas naturais e geométricas no espaço iluminado por cores ensejadas pelo desejo.


Não perca tempo lendo viagens de curadores de arte que ganham a vida com a obscuridade.


Para efeitos práticos, o grande romance parece tão extinto quanto os sauros, ou milhares de espécies de plantas, répteis e pássaros que somem todo dia.


Cães negros (Cia das Letras) novela de Ian McEwan relançada por sua editora no Brasil depois de 30 anos, é de cortar os pulsos.


McEwan se contorce como literato para pintar uma de suas desditas amorosas com inspiração trágica sobre o fundo da terrorizante história europeia do século XX. O resultado é aguado, disforme e tedioso. Falta densidade ao fundo e verossimilhança ao enredo. O livro carece de substância, do tutano e osso que as obras de Sebald nos servem à perfeição.


O condenado (Biblioteca Azul) de 1938, primeiro dos grandes romances de Graham Greene, é um primor de flagrante da aparição de um autor clássico.


Green depois refinaria sua obsessão com a culpa católica. Mas o Garoto, adolescente homicida atormentado pela miséria da infância e o sexo, é um de seus personagens mais redondamente humanos.


Você ainda vai ao cinema?

Qual o último filme ou série adulta conseguiu ver?


Haverá vida mental nas universidades, nas redações dos grandes jornais, por aí?


Isolamo-nos, afogados na lama tóxica da mediocridade, a maior das barragens do espírito minerado de um mineiro.


Eu mesmo já não consigo ler dois parágrafos de um texto denso. Há dois ou três dias levo ao banheiro O mal-estar da civilização e não passo de um único parágrafo marcado numa antiga leitura interrompida.


A guerra da Ucrânia, que vai para o terceiro mês, é rebaixada no noticiário.


A carnificina ganha a conhecida distensão da apreensão humana para além da banalidade e da fofoca.


Essa distensão dilatou-se ainda mais em nossa era, regida pela tecnologia, com o egocentrismo recalibrado pela ciência e a técnica.


Estou e não estou. 
Estando não sou, sendo não estou. 
Me sento para escrever. 
Assento os dedos no teclado e não encontro as notas.
Silêncio. 
Ah cuá. 

“O maior perigo, já advertia Dostoievski em Os irmãos Karamazov, é o formigueiro universal”, diz Saul Bellow num dos textos da coletânea It all adds up (Tudo faz sentido) ouTodo Cuenta, na edição espanhola.


Outra de Bellow desse livro que nos acerta na testa: “[…] Não se pode deixar de desejar que aqueles que dominam a sociedade com seu dinheiro e seu poder tenham certo gosto pela arte, ao menos certa ideia do que podia ser um mundo sem arte. Porque, simples e claramente, seria um mundo degenerado: situação muito mais desesperada que a prevista pelos ecologistas mais pessimistas”.


Bem, mr. Bellow, não é caso de o senhor se rebolar na campa, mas se o apocalipse do aquecimento global segue no horizonte, já “vivemos” plenamente o “inferno pamonha” (na sua grata expressão) de um mundo sem arte. O Vibrião Colérico, aliás, é fruto disso daí.


E no ensaio sobre a distração, então provocada, segundo o autor, principalmente pela TV (a internet ainda não entrara em campo para definir o jogo), ou pela onipresença da violência e pelo fascínio com a sexualidade alheia: “É a fonte principal do ruído característico de nossa época: um ruído iluminado que reclama nossa atenção não para que nos concentremos mas sim para que nos dispersemos”.


Tudo que Bellow escreveu sobre a TV soa premonitório e preciso se o atualizamos. A falsa consciência gerada nas redes sociais de que ali se integra esta ou aquela comunidade dilui a ilusão de que a consciência atomizada regressará a esta ou aquela totalidade.


Também não escapou à percepção do autor de Ravelstein, descarada biografia ficcional do filósofo Allan Bloom (O declínio da cultura ocidental), de quem foi chegado, eTodo cuenta traz seu discurso no funeral de Bloom em 1992, que a sociedade humana, desde os EUA, caminhava para a construção do ser “sintético, melhorado e revisado”.


Bellow apontava a tirania por trás do desejo de elevar nossa consciência e melhorar nossa sensibilidade. “Esses esforços”, escreveu, ainda quando os anjos tronchos do Vale do Silício engatinhavam, “tendem a obrigar-nos a nascer outra vez sem cor, sem raça, sexualmente neutros, politicamente purificados e com o cérebro configurado e programado para rechaçar ‘o mal’ e afirmar ‘o bem’.


Enquanto isso, naquele ex-caderno de ex-cultura, mais um sinal de que a velha arte contemporânea se tornou o campo santo da… arte contemporânea.


Mas como apocalipse? Cadê? Não dão as cartas em um mundo que forjam à tuitadas à própria imagem e semelhança? Não se consideram o sal da terra? 


Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


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A rádio Siutônio apresenta: Mora na Filosofia

Acho que é a melhor playlist do Spotify em 2022.


Vale por 50 Anittas, digo modestamente.


A carantonha de Arthur Schopenhauer vende meu peixe.


Nem sei porque compartilho listas de música. Não interessam a ninguém, bem sei. Mas um pequeno demônio que vive em mim como um parasita insiste em me humilhar no deserto.


Noblesse oblige?


Pérolas para muito poucos e perdidos na multidão peidorreira. Ah cuá.


A canção brasileira é de uma riqueza tremenda. Em geral as pessoas não se dão conta disso, e o mau gosto reinante nas últimas décadas tem a última palavra.


Para além de tanta variedade, caberá sempre ressaltar o caráter especial da canção no cenário da cultura brasileira moderna, ‘uma das nossas raras originalidades’, como já dizia Manuel Antônio de Almeida em meados do século XIX, anunciando muito mais do que imaginava”, escreve Arthur Nestrovski em um dos ensaios reunidos em Tudo tem a ver (Todavia) . “A começar pela distinção da poesia. O acervo literário do nosso cancioneiro é uma glória nem sempre reconhecida, até porque se tornou tão natural para todos nós”, prossegue o diretor artístico da Osesp. “Especialmente desde a década de 1950, quando Vinicius de Moraes começa a escrever suas letras, a poesia da canção vem constituir uma categoria própria, dialogando, em seus termos, com a tradição de Drummond, Cabral, Murilo Mendes. O mínimo que se pode dizer é que a canção representa uma vocação brasileira, proporcionando iluminações insólitas, virtualmente sem similar em outras culturas, nas quais tal nível de invenção em geral não tem lugar na arte de mercado, exceto em casos muito excepcionais (como o são, em momentos diversos, Gershwin, Cole Porter ou Bob Dylan nos Estados Unidos, Charles Trenet na França, e a parceria Brecht-Weill na Alemanha — são dessa ordem os paralelos possíveis).


Dito isso, a playlist Mora na Filosofia não se limita ao nosso cancioneiro.


Remete a problemas permanentes da poética e, por sinal, da filosofia, a textos e autores que nos dão a pensar e cristalizam em sambas, xotes e baladas as “tentativas de exploração e de interpretação do estar-no-mundo”, como está posto na antologia mais conhecida de Drummond.  


Letras fazem cafuné na poesia, são poesia da canção como diz o Nestrovski, e a poesia é uma forma filosófica, por excelência e por óbvio.


As canções recolhidas na lista se espantam e se encantam sobre a vida e morte, o ser, o proveito da vida, a liberdade, o prazer, a condição humana.


E uma melodia reveladora, quando é rica em beleza e profundidade, encerra uma filosofia, e mora na filosofia. Morô, Maria?


Foto do alto: Henri Matisse: O estúdio vermelho | Issy-les-Moulineaux, outono de 1911. Cortesia do MoMA, Nova York


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