JU_101 |  Encontrado o ponto G do golpista


 


Jurupoca 101, 20 a 27/5/2022
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


A grande literatura tem o dom de recompor nossa humanidade, e de nos realinhar com a vida e o mundo. —


Não é de hoje recorro a Machado quando me sinto sem rumo, isolado na alma, como no verso do Álvaro de Campos, quando o tempo parece ter se fechado de vez e resplandece a glória do filisteu. —


Machado me reconcilia com a clareza e a elegância, para mim uma razão de viver. —


O Memorial de Aires, creio, é o mais belo e profundo remanso de sabedoria e louvor ao nosso idioma na obra machadiana. Em muitas linhas desse romance é desconcertante a fineza do ironista, como a delicadeza penetrante do humor, ainda que um humor regido pela melancolia de quem envelhece e não foge à contradança oferecida pela morte, ou pela sombra da Indesejada. —


“Vou ficar em casa uns quatro ou cinco dias, não para descansar, porque eu não faço nada, mas para não ver nem ouvir ninguém, a não ser o meu criado José” anota o conselheiro no papel amigo. “Este mesmo, se cumprir, mandá-lo-ei à Tijuca, a ver se eu lá estou. Já acho mais quem me aborreça do que quem me agrade, e creio que esta proporção não é obra dos outros, e só minha exclusivamente. Velhice esfalfa.” —


O vexame da guerra na Ucrânia, e o vexame do relativismo moral de intelectuais que sustentam os massacres de Vladimir Putin à luz de velhas patacoadas sobre a ação do impÉrialismo dos Estados Unidos, e mesmo a exaustão de sobreviver já há quase quatro anos sob a cólera jumental do Vibrião, até nisso a releitura do Memorial me permite recobrar algum ânimo quando vou me deitar. —


Não devemos levar muito a sério, me sugere o diário do Aires, o que não podemos combater ou não está ao alcance de ninguém evitar. Passaremos, como tudo, a vida, me reforço com o Macbeth, é um conto tonto dito por um idiota, cheio de som e fúria etc. e o universo é indiferente aos nossos ais, ai de nós. —


Anota Aires: “E a Terra continuará a girar em volta do Sol com a mesma fidelidade às leis que os regem, e a batalha de Tuiuti, como a das Termópilas, como a de Iena, bradará do fundo do abismo aquela palavra da prece de Renan: “Ó abismo! tu és o deus único!’’—


Mais à frente, Aires, que sintoniza sua solidão no memorial, recorda que tudo é fugaz neste mundo, e que, desde o Eclesiastes, nada deve haver de moderno, pois já dizia esse livro “que nada era novo debaixo do sol, e se o não era então, não o foi nem será nunca mais. Tudo é assim contraditório e vago também”. —


Minhas leituras anteriores do Memorial, o que aponta a necessidade de reler sempre o que verdadeiramente presta, não me detiveram muito no apego do Aires à música. Agora sim, e ouço ecos disso em mim próprio. Ele se enternece depois de ouvir seguidamente Tristão e Fidélia ao piano em uma tertúlia na casa dos Aguiares. O conselheiro demora a conciliar o sono, por repetir na memória os trechos que ouvira antes e àquela noite outra vez. E se arrepende por “não ter se dado à música”, entrado na carreira diplomática, o que considera um erro, ao apontar: “A diplomacia que exerci em minha vida era antes função decorativa que outra coisa; não fiz tratados de comércio nem de limites, não celebrei alianças de guerra; podia acomodar-me às melodias de sala ou de gabinete. Agora vivo do que ouço aos outros.” —

Uma grande inteligência movida pela força do caráter nos salva a vida no meio do tiroteio inculto e do bananal. No caso de Javier Cercas junta-se a verve, prenda do estilo, e o poder de síntese de um grande escritor. —


Ao venerar o cinema de John Ford, Cercas se detém, neste artigo do El País do último domino, a Nos tempos das diligências, ao dizer que o mestre fundador do faroeste (e dessa linguagem artística) “sente uma infinita simpatia pelos pecadores. —


Cercas ataca o puritanismo, que, se sempre esteve mancomunado com os credos de direita, em nossa era alcançou também os de esquerda. —


“O combate pela igualdade de sexos e raças é indispensável, mas é uma calamidade que pessoas imbuídas de sua própria virtude o convertam por vezes em uma caça às bruxas”, anota. —


O espanhol idolatra um clássico como O homem que matou Liberty Valance, de Ford, mas recorre aqui ao substrato moral de uma das primeiras cenas de No tempo das diligências. —


No filme, uma “patrulha” de senhoras virtuosas expulsa da cidade o médico bebum Doc Boone e a puta Dallas. Como consolo à colega de penas, que indignada lhe pergunta se ela não terá o simples “direito de existir”, Boone lhe diz, lembra Cercas: “Somos as vítimas de uma doença infecciosa chamada preconceito social. As dignas senhoras da Liga da Lei e da Ordem estão limpando a escória social da cidade. Vamos, você deve se ufanar por ser escória, como eu”. —


Médico e puta se encaminham então elegantemente para a diligência, e Boone ainda diz: “Tome meu braço madame condessa. O coche espera. À guilhotina!”. —


Cercas, ademais, manda literalmente à merda à gente “imbuída de sua própria virtude: primeiro, porque a ênfase na virtude delata o canalha; e, segundo, porque se há de odiar o pecado não o pecador”. —

No centro da Via-Láctea reina Sagitário A*, “nosso buraco negro”, uma estrutura espacial prevista por Einstein, confirmada por matemáticos e astrofísicos e agora fotografada indiretamente por radiotelescópios. —


A fascinante lida da ciência e suas descobertas, e ainda a fronteira do desconhecido diante do engenho humano que o defronta, tudo isso é pouco ou nada para os fabuladores e a fé negacionista. —

Como previsto por Paulo Coelho, nosso mago de Genebra, a volta da Ju é um bruto sucesso no eixo Matozinhos-Quixeramobim. —


Mas não sou eu quem repete essa história, é a história que adora uma repetição. —


Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô


Somos um país tão avançado que pequenas multidões saem democraticamente às ruas para pedir o golpe militar. —


O sertanejo é a trilha sonora do golpe. Alguma surpresa? —


O único livro na casa de um golpista é de colorir. —


O ponto G do golpista fica na vesícula biliar, mas o prazer lhe requisita aditivos e acessórios. Máscaras, algemas, chicotes, revólveres, fuzis, granadas, além de dildos, são os implementos mais disputados pelos praticantes dessa corrente erótica e histórica. —


Por favor, não entenda. —


Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? —


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[Foto do alto:] Imagem de Sagitário A* compartilhada pelo Event Horizon Telescope (EHT)

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