JU_102 |  Por uma fenomenologia do torresmo

Jurupoca 102, 27/5 a 2/6/2022
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Dá-me senhor, coragem e alegria/ Para escalar o cume deste dia, diz o terceto final do soneto James Joyce, de Borges, lavrado em Cambridge, corria o ano de 1968. —


Ao aludir (e recriar) à epopeia moderna do Ulisses, o gênio argentino concebe na unicidade de um dia todos os dias do tempo, e o inferno, a glória e a história universal, entre o amanhecer e o ocaso. —


Em cada dia, me ocorre, ficam empenhado nossos restos à suprema igualdade do Universo. —


E (tornando ao Borges) é assim todos os dias, qualquer dia, desde o dia inicial do tempo, em que um Deus terrível prefigurou dias e agonias…

(Hasta aquel otro en que el ubicuo río
Del tiempo terrenal torne a su fuente,
Que es lo Eterno, y se apague en el presente,
El futuro, el ayer, lo que ahora es mío.}

Até aquele outro em que o ubíquo rio
Do tempo terrenal torne a sua nascente,
Que é o Eterno, e se apague no presente,
O futuro, o ontem, o que agora é comigo. 

João Saracura, que é fiscal da prefeitura, arranjou tudo pra mim. —

“O otimismo é superficial e aparece nos períodos de decadência (…), embriagados de razão e convencidos de que tudo pode ser compreendido e esclarecido”. —


Leio esse negritado, a propósito de Nietzsche e companhia, de Rafael Narbona, professor de filosofia em Madri, que escreve o fino do ensaio no suplemento El Cultural. —


 Aqui, Narbona atualiza noções filosóficas sobre o otimismo (“um ideal de emancipação”), a esperança (que não é uma “tendência exclusivamente humana, senão uma pulsão cósmica, um impulso ontológico que amplia o horizonte do ser em vez de o restringir”) e o mais conhecido e nietzschiano “pessimismo dos fortes”. —


Por brenhas tantas e várias, Nietzsche (e o impulso ascendente da Lei da Vontade), Espinoza (e o, para mim, tão sedutor deus da Natureza), ou Ernst Bloch (ou a esperança aos fodidos) advogam o pessimismo dos fortes. —


Traduzo o Narbona sobre o cafundó do Bloch: “O que está diante nunca é uma terra devastada mas o campo fértil que trará novos frutos. Não há porque se acovardar se as pazadas do coveiro são as últimas notas de nossa existência.” —


O “deus de Espinoza” me diz algo que outros tantos pensares e quereres nada dizem. —


Narbona fala da compreensão da alegria pelo judeu holandês, que fez católicos trincar os dentes. É, a alegria, “tudo que nos move a agir, a satisfação de cumprir uma tarefa, a realização de nossos projetos (…)”. —


(A poesia de Borges, aliás, também se dedicou a Espinoza, que nomeia um de seus sonetos. O final, os dois tercetos, na tradução de Augusto de Campos, ficam assim:

Nem o perturba a glória, este reflexo
Dos reflexos do sonho de outro espelho,
Nem o amor temoroso das donzelas.

Liberto da metáfora e do mito
Lavra um árduo cristal: o infinito
Mapa do Ser que é todas as estrelas.)

Burragem ficar triste porque vamos bater a caçoleta, diz Narbona lendo Espinoza. Então, vem o que para mim brilha como pepita: “(…) pois a finitude é uma lei da Natureza e esta não faz nada em vão. Só devemos nos entristecer por cair na impotência, não sermos capazes de desenvolver nossas ideias e desejos, não participar ativamente do desdobramento da vida”. —


A natureza não faz deveras nada em vão, ou ao acaso (no batidão da alta ciência)? Oxente. Pra mim, apois, vanidade ou acaso prestam tanto quanto a ideia da validade de um propósito divino. Ambos me são inalcançáveis pela razão e, por certo, ainda menos pela fé. —


A alta ciência vai bem com a redução da nossa humanidade à animalidade, na pregação de certos filósofos anti-humanistas. E pensar o quanto uns e outros também dão por transcendentes. —


O problema colocado no ensaio de Rafael Narbona desce de um ou de outro jeito no compasso do temperamento de cada um de nós, e do que somos e fizemos de nós próprios, uma percepção que é mutante ao longo da vida. —


Seja como for, simpatizo muito com o ceticismo do velho Schopenhauer, ou com seu pessimismo temperado. Narbona o cita antes de o modular: “(…) o mundo não podia ser obra de um Ser que a tudo ama senão mais bem de um demônio que tivesse trazido à existência as criaturas para gozar de seu sofrimento”. —


E a modulação: Narbona vai dizer que é errado imputar a Schopenhauer um “pessimismo dos fracos”. Pois nele, filósofo, o desalento não se converte em indiferença à dor alheia, como mais tarde em Nietzsche, para resumir muito o mote. “Pelo contrário”, diz Narbona, Schopenhauer “advoga a compaixão e o respeito à vida. Em um cosmos transido de sofrimento, a piedade é a única alternativa ética e racional”. —


Na batata, não? —


Narbona vai apontar, com carradas de carrão, que a suprema Vontade em Nietzsche não viu duas guerras mundiais ou a ameaça do holocausto nuclear. —


Narbona só não me canta bem, e até me parece ingênuo quando, ecoando tais filosofias, ainda recomenda a redenção via percepção estética, ou a conversão em arte de toda a “dureza da vida, a velhice, a doença, a morte e as calamidades”. —


“O mundo só se justifica como fenômeno estético”, propõe o prof. “A redenção da dor se alcança mediante uma síntese entre o noturno e o solar, o informe e o delimitado, o caos e a harmonia”. —


Sei. Sei? O que sei?, quando a percepção estética do mundo é engolida pelo filistinismo e pela adoração à tecnologia? O que sobrou? Só sei que não sei. —


Sei da música. —


Mas sei, sim, que vivemos a ribombância otimista de uma época decadente, ouso dizer, como jamais vista na História (com H). Os tempos de Sócrates ou Eurípedes, lembrados por Nietzsche, lembrado por Narbona, não nos chegam aos artelhos. —


Nosso tempo pode mesmo não ser para os fracos. Mas que parece ser o império de tolos empoderados, ah, isso me parece muito. —


Basta de filosofias, Siúves, me diz o primo Siutônio, que me lê antes d’ocê. —


Distraindo a insônia com mais uma série feita inevitavelmente para adolescentes, ainda que adolescentes mais imaginosos e inteligentes, esta da Amazon, Anos-luz (Night Sky), com os ótimos J.K. Simmons e Sissy Spacek, ela no papel de Irene, uma professora de inglês aposentada, aprendo um novo poema de Auden. Como exclamaria o Wilson das Neves, ô sorte! —


É The More Loving One. Não encontro uma tradução que  preste em português e meto neste diário terrível uma tentativa em espanhol que colho na rede, bastante livre, mas que pega o essencial. —

The More Loving One - W. H. Auden (1907-1973)

Looking up at the stars, I know quite well
That, for all they care, I can go to hell,
But on earth indifference is the least
We have to dread from man or beast.

How should we like it were stars to burn
With a passion for us we could not return?
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me.

Admirer as I think I am
Of stars that do not give a damn,
I cannot, now I see them, say
I missed one terribly all day.

Were all stars to disappear or die,
I should learn to look at an empty sky
And feel its total dark sublime,
Though this might take me a little time.

[Referências em https://poets.org/poem/more-loving-one] —
El que más ama 

Mirando las estrellas, sé bien
que si fuera por ellas me puedo ir al infierno,
pero en la tierra la indiferencia es lo que menos
tenemos que temer de los hombres o las bestias.

¿Cómo nos sentiríamos si las estrellas ardieran
con una pasión que no pudiéramos corresponder?
Si el afecto no puede ser igual,
entonces que sea yo quien más ame.

Por más admirador que crea ser
de las estrellas a las que les importa un comino esto,
no puedo decir, ahora que las veo,
que haya extrañado terriblemente una en todo el día.

Si todas las estrellas desaparecieran o murieran
yo debería aprender a mirar un cielo vacío
y a sentir sublime su oscuridad total
por más que me lleve un tiempito.

[versão de Tom Maver, disponível no blog de traduções do autor.] — 

A imprensa brasileira comeu muita mosca ao noticiar a feijoada de Musk com o Vibrião Colérico. Em geral essa imprensa é servil e basbaque com os ícones de ouro da tecnologia. —


“Titãs”, “sultões”, “magnatas”, “plutocratas” do Vale do Silício. Paul Krugman, colunista do New York Times, apoda assim os anjos tronchos (apud Caetano Veloso) Elon Musk, Jeff Bezos, Larry Ellison e outros. Essa gente bi ou trilionária, nos diz o Nobel de Economia, está irritada com os democratas, faz beicinho por já não ser tão adorada, e se alinha à “direita linha dura” republicana de Donald Trump. —


Mas quando, seu Krugman, essa gente foi realmente liberal (no sentido inglês) ou democrata puro sangue? Bezos e Zuckerberg gastam rios para driblar a sindicalização de seus funcionários. —

E torram milhões em lobby para tentar negar o inegável, que o Vale do Silício transformou a internet num crime contra a humanidade, uma milagrosa semeadura de massas fanáticas, incultas e abobadas.


O jornalismo no Brasil está em franca extinção. —


Há semanas não se assiste no sistema Globo (JN, Globonews) reportagens investigativas que incomodem o governo federal. Sequer ecoam na Globo as séries de reportagens do Estadão e da Folha sobre a farra do Orçamento Secreto e do Planalto Centrão na Codevasf e além. ¿Qué coño pasa?  —


Por Demétrio Magnoli soube que a Folha instituiu o embargo de artigos de opinião sobre certos temas. Magnoli apoda a comissão de 17 jornalistas anônimos, que passam a deliberar com a Secretaria de Redação do jornal, de PIP (Polícia Identitária do Pensamento), mangando com a sigla da polícia política de Salazar. O nome oficial do PIP é Comitê de Inclusão e Equidade. —


Que vá aqui o primeiro parágrafo do texto de DM, com destaque nosso: “Investigando o ‘declínio’ da língua inglesa, George Orwell escreveu: “ela torna-se feia e imprecisa porque nossos pensamentos são tolos, mas o desmazelo de nossa linguagem facilita-nos desenvolver pensamentos estúpidos”. O raciocínio aplica-se ao português e especificamente à Folha, que escolheu a palavra ‘embargo’ para noticiar o advento da censura interna de opinião”. —


Alguém ainda há de compor uma ode ao torresmo, com estro e chama. Ou uma fenomenologia do porco. Não me ocorre pensamentos menos altos, líricos ou transcendentes ao penetrar um bar qualquer, em Salamanca ou no Bação (Itabirito, Minas dos Matos Gerais) e ver vir da cozinha uma tigela fresca do mais puro ideal de fritura, crocância, maciez e calor materializado em carne, gordura e pele. —


E quando a consciência vive longos e regulares intervalos de pura ojeriza? E não há antideprê que remedeie essa sensação. —


E quando é como se uma verdade estivesse disponível no ar, ao alcance da mão? —


Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô

A Jurupoca, a sua maneira, é um diário público compartilhado com alguns leitores de classe. Também é um rito de aposentadoria e despedida. —


Mas não sou eu quem repete esta história, é a história que adora uma repetição. —


O que tiver de expelir, pedra, poema, pereba, cairá neste diário terrível. Blog aberto, domínio renovado. —


A Rádio Siutônio não saiu do ar. Dilui-se e endireitou-se apenas ao longo da página. O formato antigo dava muito trabalho e nenhum sucesso, nem molhadura (no dizer do Machado). A rádio, tenta explicar o primo, toca os estados d’alma do autor, flutuações de querências, e buscares e achares da beleza.


Por favor, não entenda. —



Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? —


| Reclame |

Dê ao autor uma piscadela por pix, se este diário público lhe apraz. Ele, o autor, se explica melhor nesta página. Grazie mille. —


Foto do alto: Homem com bolsa de moedas e aduladores | Pieter Bruegel, o Jovem, c. 1592. Cortesia The Leiden Collection

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