JU_103 | Lugar de fala, dever de cala


Jurupoca_103, 3 a 9/6/2022
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


Vivo desde pequeno na freguesia, na vereda, no grande sertão do Pai dos Burros. Senão vejamos. —


Do Houaiss:

[CITAÇÃO] cala (sXVI cf. JM3)

substantivo feminino

1 o fato de estar calado; calada, caluda —


E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem. —


Li esta madrugada que, além de Swift, o das Viagens de Gulliver, que releu vida a fora, Orwell apreciava muito um conto que lhe sugeria a metáfora perfeita da Inglaterra à época, anos 1920, um império decadente e bárbaro, terrivelmente esnobe e preconceituoso, atributos, com a xenofobia, que ainda traz no coração. Mas o negócio se encaixa, desliza, em nossos dias, nos EUA de Trump, na Inglaterra do Brexit ou no Bananão do Vibrião Colérico. —


Da biografia Orwell: um homem do nosso tempo, de Richard Bradford, ed. Tordesilhas:

[Cyril] Connolly [colega de Orwell em Eton] conta […] como seu amigo o apresentou ao conto “O país dos cegos”, de h.g. Wells, a história de um explorador que descobre nos Andes um reino em que todos os cidadãos são cegos e, por consequência, acreditam que a cegueira é superior à visão, especialmente para aqueles que os governam. —


O que tiver de expelir, pedra, poema, pereba, é, sim, não, ohs, ahs, ais e ainhs, cairá neste diário terrível. —


Bem-vindo a bordo. —


Como encontrar a chave deste teu riso sério? —


Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô —



O show de Mônica Salmaso e André Mehmari no Palácio das Artes, sábado à noite, me fez um bem enorme à saúde. —


Durmo melhor, não duvido que alinhei ao padrão ouro minhas taxas de gordura no sangue e, como na canção de Walter Franco, sigo nestes dias com a espinha ereta (noves fora a cifose), a mente quieta e o coração tranquilo. —


Enfim, me sinto são como como um pero, no dito de sabor machadiano. —


Subestima-se o efeito infeccioso e inflamatório das invasões bárbaras, do discurso torpe, mentiroso ou truculento e da devastadora hegemonia da feiura no mundo. —


A busca da beleza é a contraface da busca da verdade. É o que mais distingue nossa humanidade, confusa que segue entre a alimária. —


Mesmo porque as notas eram surdas, quando um deus sonso e ladrão, fez das tripas a primeira lira que animou todos os sons. —

Já havia melhorado de saúde, sarado quase, ao terminar uma nova releitura do Memorial de Aires. Só agora, desta vez, me ocorreu, pude enxergar melhor larguras da ironia, da solidão e dor dispostas no plano (horizonte) narrativo — dimensões reveladas, concentradas na criação, que uma alta inteligência artística cristaliza em sabedoria. Esse legado (o livro foi publicado em 1908, há 114 anos) faz um grande bem ao leitor dedicado, a despeito da melancolia que perpassa o romance. —


Divido com o leitor o último trecho do Memorial que marquei:

“Campos não me entendeu, nem logo, nem completamente. Tive então de lhe dizer que aludia ao marido defunto, e aos dous velhos deixados pelos dous moços, e concluí que a mocidade tem o direito de viver e amar, e separar-se alegremente do extinto e do caduco. Não concordou — o que mostra que ainda então não me entendeu completamente.” —


A acuidade de um jovem para ler atentamente, juntar e relacionar peças — fatos e ideias — diminuiu deveras sob o signo do Vale do Silício. —


Bons jornais faziam isso na primeira página e nas editorias — da política ao esporte, da opinião à cultura, — ordenavam e categorizavam o mundo, do mais ao menos importante, do real ao reles. —


O mundo se fragmentou, tribalizou-se ainda mais no ambiente online guiado por algoritmos, sistema onde os oligopólios publicitários garimpam seu ouro eletromagnético. E o lucro brota grandemente da mentira, da fofoca, do conflito, do ódio ideológico, do que é feio e chão — tudo que mais dá clique e granjeia e arrebanha audiência. —


Assuntos relevantes se dispersam entre a banalidade da fofoca e do culto à saúde, — revelações sobre a mais nova solucionática para a problemática (sonhática) de viver cem anos, entre o tremelicar e reluzir assediador de “conteúdo” caça-clique e anúncio. —


Quando ouço ou leio que tal “meme bombou” ou tal merdice “viralizou”, tenho vontade de sacar minha pistola d’água. —


É bom que jornais de papel caminhem para a extinção. A humanidade poupa toneladas em emissões de carbono na fabricação de tinta, papel e no transporte. —


Quantas bobinas de papel-jornal deixaram de ser gastas na cobertura da rinha judicial aberta para o teatro escandaloso do casal Johnny Depp e Amber Heard — a mais recente fofoca entre celebridades hollywoodianas? —


O caso supera o interesse pelos massacres russos na Ucrânia e superaria em importância a aproximação de um asteroide fatal que chegasse a nossa pobre Terra. —


Nossa mídia, para variar, dá mais destaque a derramamentos de chorume que tais que os próprios jornais dos EUA. —


Imagino o leitorado médio babando, convulso e já em êxtase ao lamber, como delicioso sorvete paquistanês, cada detalhe do litígio entre marido e mulher; primeiro a paixão estrelar, o amor milionário, o sexo milionário como só celebridades milionárias sabem fazer, e já o ódio e a vingança milionários nas barras dos tribunais e advogados bilionários. Um pornô não poderia ser mais explícito, ou concentrar tantos ingredientes excitantes. —


A febre viral nas redes sociais em torno do assunto e o tráfico de cliques registrado no Google garantem mais um turno à moderna cornucópia dos anjos tronchos bi ou trilionários do Vale do Silício, na melopeia do Veloso.


Quando, na manhã desta quinta (2/6), li na home da Folha: “Saiba se Amber Heard pode ir à falência após Johnny Depp vencer processo”, não hesitei: puxei minha pistola d’água e atirei na própria cara. —


Cada indivíduo se acha capaz de buscar e ordenar o que lhe interessa. É dono, apurador e editor do próprio jornal — o único que o diverte, o único que conta. Chegamos a esse ponto. —


A decadência da criação literária ganhou um empurrão das patrulhas do idioma e sequestradores da semântica. —


Deveríamos diariamente pegar com as almas de Cervantes, Joyce, Rosa, Machado, Borges, Shakespeare e de quem mais sejamos devotos. —


Eu pego, relendo-os. —


Aproveitou a minha ausência e botou mulher sambando no meu barracão. —


Quando eu penso que outra mulher, requebrou pra meu moreno ver, nem dá jeito de cantar, dá vontade de chorar, e de morrer. —


Meu moreno é Assis Valente. —


Vamos subir na vida mon amour, vamos até as estrelas! (Aviso aos navegantes do infomar: a frase é original). —


A origem do verbo denegrir é latina, romana. Nada tem de alusão racista.  —


Do Dicionário Etimológico online:

A palavra denegrir vem do latim denigrare que significa “tornar escuro” ou “manchar”.
Em latim, denigrare vem da junção de duas palavras: de e niger. Assim […] denigrare significa literalmente “tornar mais escuro”. Por exemplo, quando alguém pinta o cabelo de mais escuro, em latim estaria a denigrare seu cabelo.
Normalmente, quando alguma coisa fica suja ou manchada escurece. Por isso, denigrare ganhou também o significado de manchar. A palavra ficou com conotação negativa, porque uma mancha não é uma coisa bonita e implica sujidade. Além disso, a ideia de escurecer implica a noite e coisas sombrias, erradas e até perigosas.
No sentido mais metafórico, denigrare significa manchar a reputação de alguém ou alguma coisa, ou tornar ruim. Esse se tornou o significado principal da palavra denegrir, em português. Por exemplo, se um político fala mal de outro político, inventando acusações de corrupção, está denegrindo seu oponente, estragando sua reputação, que antes era limpa. —


Do Dicionário de Sinônimos Antenor Nascentes (Lexikon Editora Digital. Edição do Kindle):

[Caluniar, denegrir, difamar, infamar – Caluniar é levantar calúnia (v. calúnia). Denegrir ou denigrir é manchar, conspurcar a pureza, a honra. Difamar é tentar destruir a fama, imputando fato ofensivo à reputação (art. 139 do Cód. Penal). Infamar é privar da fama, marcando de infâmia, lançando um labéu desonroso.

Denegrecer, denegrir, enegrecer – Denegrecer é tornar negro, tendo perdido o valor de incoativo [inicial]. Denegrir é tornar negro. Enegrecer é o mais comum.

Detrair, dizer mal – Detrair é dizer mal, para diminuir o crédito, para denegrir. Dizer mal é falar contra as qualidades, contra o procedimento de alguém. Ao passo que o maldizente é quase sempre um falador, um ocioso, o detrator é sempre um malvado, um perverso, um invejoso.

Entenebrecer, escurecer, obscurecer – Entenebrecer é cobrir de trevas, privar de toda luz. Escurecer é ficar escuro. Obscurecer é tornar escuro.

Enoitar, enoitecer – Significam converter em noite. O segundo tem força incoativa: difere de anoitecer em significar fenômeno anormal, um escurecimento do tempo por uma causa qualquer. —


Do Livro (Gênesis 1:1-5):

No princípio, Deus criou os céus e a terra.
A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
Deus disse: “Faça-se a luz!” E a luz foi feita.
Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas.
Deus chamou à luz dia, e às trevas, noite. Sobreveio a tarde e depois a manhã: foi o primeiro dia. —



O dicionário — etimologia (origem) e acepções (significados, acolhimentos) — não autoriza, ou melhor, não sugere, pois o terreno da língua deve ser livre, que a expressão conote ou denote racismo. —


Ora, mesmo assim aceitou-se à larga o sequestro e o engessamento, em acepção enviesada e unívoca, do vocábulo denegrir pelo esquerdismo racialista — racialismo é concepção acientífica de que nossa espécie se divide em raças. —


Renunciar ao dicionário, ao entendimento comum, não ter o léxico como baliza, equivale a abrir mão da ciência, a trocar, digamos, a medicina pelo curandeirismo. —


A banimento de um vocábulo há muito disseminado no idioma, além de uma modalidade de caça às bruxas, é  traição, menosprezo, repito, ao entendimento comum, e à rica herança de Machado e Eça. —


Quem se deixa censurar e proibir renuncia à razão, renuncia à liberdade e autonomia. —


Abusei dos prolegômenos para bater pé, estupefazer-me contra este vídeo aí, que expõe, senão documenta, a quintessência do patético num mundo abobado. —

O tiro da autocensura, do cerceamento basbaque da linguagem, do servilismo ao politicamente correto, sai pela culatra. Revela, é de se ver, tantas vezes, a crença racialista do santarrão virtuoso, apavorado com o acosso das patrulhas virtuais, que, é verdade, podem lhe tirar o emprego. —


O direito ao lugar de fala de uns está para o dever de cala dos outros? Caluda! Caluda?  —


Psiu. —


Se sou alfabetizado, lúcido, são, e a despeito da clareza e pertinência do que diga e assuma, se alguém pretende que não estou a dizer o que digo e assumo, mas o que se quer que eu diga e assuma, devo ceder à distorção, me desdizer, me desculpar, me por de joelhos em praça pública e deixar-me açoitar (em sentido translato)? Nanã, ‘sá. Tal covardia é um menoscabo à dádiva de viver e ser, se viver é mesmo dádiva. —



Jornalistas não são mais capazes de pensar por conta própria; muitos sequer de pensar. Patrulhados pelo Grande Irmão das mídias sociais, desvalorizam-se ao opinar. Viram matracas, papagaios do que impõe a correção política. —


A Globonews investe alto na autopromoção para disfarçar o mau jornalismo que pratica. —


Com a internet, a publicidade se tornou histérica, agressiva e abjeta como nunca; a TV e tudo mais seguem seus passos. A dose de um intervalo comercial na TV, uma página online sem filtros ou do Youtube é letal para muitos de minha geração. —


Da era da inocência publicitária nos assentaram, aos de minha geração, reclames como os do guaraná Antarctica e o Bocomoco, dos cobertores Paranaíba ou do soutien Du Loren. —



Dia desses me surpreendeu, ao abrir o El País, anúncio que trazia uma privada com um cagalhão a boiar no fundo. Vendia-se alguma panaceia para a saúde intestinal, presumi; jamais clico em anúncios. Tal imundície nunca ocorreria num jornal de papel. —


Escrevo isso e ouço um carro de rua apregoar o jingle da desentupidora Roto-Rooter, o mesmo reclame dos anos 1970. Algo há de perdurar neste país. —


Roto-Rooter no Lira e seu império de anões do Orçamento Secreto do Planalto Centrão. —


| Reclame |
Dê ao autor uma piscadela por pix. Vide bula nesta página. Grazie mille. —


Então:

Parafins gatins alphaluz sexonhei la guerrapaz
Ouraxé palávoras driz okê cris expacial
Projeitinho imanso ciumortevida vidavid
Lambetelho frúturu orgasmaravilha-me Logun
Homenina  nel parais de felicidadania:
Outras palavras

Do Jornal do Brasil, quarta feira, 30 de julho de 1981:


Quando?, hoje, um disco com uma canção do mesmo naipe de Outras palavras teria tal lume na mídia? 135 mil cópias é merreca numa época em que as tribos massificadas louvam o viral e o que bate em zilhões de acessos no streaming. —


Ainda que gênio, um cantautor que hoje vendesse 135 mil cópias (raro: gravadoras pensam dez vezes antes de investir em CDs e vinis) ou alcançasse esse número de visualizações nos Spotifys da vida, despontaria para o anonimato; dificilmente conseguiria pagar seu aluguel. —


A espiar o show antes da final da Liga dos Campeões da Europa, sábado à tarde, pensei assistir ao mesmo show de Anitta apresentado na final da última Libertadores, ano passado, em Montevideo — a artista e suas bailarinas. Mas não. Quem se rebolava no campo do Stade de France, li nas legendas, era certa Camila Cabello, com as bailarinas dela. Mas que era o mesmo espetáculo, isso era. —



Musica | Uma sequência de dez fotografias de nuvens, de Alfred Stieglitz, 1922. © The Metropolitan Museum of Art, doação de David A. Schulte, 1928.

Este diário traz um quê de místico, um sem não quê, um sem propósito além da alma. —



Que João fugisse, que João partisse, que João sumisse do  mundo — de nem Deus achar… —



A Jurupoca, a seu modo, é um diário público com alguns leitores de classe. Talqualmente é rito de aposentadoria e despedida. —


Mas não sou eu quem repete esta história, é a história que adora uma repetição. (Rebichada – L. Enriquez Bacalov, Sergio Bardotti e Chico Buarque)—


A Rádio Siutônio segue no ar. Dilui-se ao longo do diário, em pílulas da felicidade. O formato antigo dava muito trabalho, nenhum sucesso e neca de molhadura de mão. —


Minha emissora pericárdica emitia aulinhas de MPB. É pena que não tenha me rendido alguma banha de porco nem farinha de Suruí, Pinga de Parati ou fumo de Baependi. —


Não me lembro para onde mesmo que vou, mas vou até o fim. —


Mas a rádio inda toca estados d’alma, como diz o primo, “flutuações de querências, buscares e achares da beleza”, em palavras dele, primo. —


Esta Jurupoca está mais livre. Mas, por favor, não entenda. —


Isso é tudo que sabemos até aqui. —



Jesus Cristo inda me paga, um dia inda me explica como é que pôs no mundo esta pouca titica. —


Ah, sim, vou correr o mundo afora, dar uma canjica, que é pra ver se alguém se embala ao ronco da cuíca [Ô: é o caso de meu amigo basco J. Fontán, que se deixou embalar e até aulas do instrumento tomou no Belo, com o percursionista Rogério San. Hoje, Fontán é o maior cuiqueiro de Vizcaya, Alava e Guipúzcoa]. —


E aquele abraço pra quem fica. —


Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? —




Foto do alto: André Mehmari e Mônica Salmaso. Foto de Dani Gurgel/Divulgação.

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