JU_105 | Óbolos para o oblívio no matulão

Jurupoca_105, 16 a 22/6/2022
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


“O ceticismo é o primeiro passo em direção à verdade.”
Denis Diderot

“Se a liberdade significa alguma coisa, é o direito de
dizer às pessoas o que elas não querem ouvir.”

George Orwell


Foto do alto (crédito): ESA/Hubble & NASA, E. Noyola


 

Pau de Arara (Luiz Gonzaga e Guido de Moraes). Canta Clara Nunes em gravação de 1974

Dizzy Gillespie vai de Gonzagão no Festival de Monterey, México. Corria o ano da graça de 1961

Outro registro, este em estúdio, de Dizzy e seu quinteto.

Não sou eu quem repete esta história, é a história que adora uma repetição. (Rebichada – L. Enriquez Bacalov, Sergio Bardotti e Chico Buarque)


O conteúdo, deus me perdoe, deste diário estrambótico de que servirá, que valia terá? —


Tuta e meia, tutameia, sei.  —


Levamos no matulão óbolos para o oblívio. —


“O tempo, meu lorde, carrega uma sacola nas costas onde põe óbolos para o oblívio.”

Fala de Ulysses em “Tróilo e Créssida”, de William Shakespeare — citado por Adão, o androide de Máquinas como eu – E gente como você, de Ian McEwan

Não tomo o oblívio, o esquecimento, como o monstro da ingratidão de que trata o drama. Não o vi encenado, sequer li mais que esse trecho. Mas há versos nos pegam pelo colarinho. Em inglês: “Time hath, my lord, a wallet at his back,/ Wherein he puts alms for oblivion,/ A great-sized monster of ingratitudes […]. Por quê? —


É leitura simples a que tenho, faço e extraio, a fórceps que seja, desses versos. Ora, o tempo nos ilude (morremos a diário, ainda que a vida siga) com esmolas-memórias ao passo que se apaga, na extensão de cada existência, como um dia mais ou menos largo mergulha na noite. A obsessão em escrever terá algo a ver e a ter com isso? Assim o tempo nos prega a todos uma peça, seu magnífico Teatro, e cada qual também carrega seu matulão… Sim, peço licença poética, amaro diário, e, por suposto, a seu Shakespeare. —


Entraram os ipês! (Para fruímos o “banquete dos sentidos” de que fala Caetano sobre Desonra, o romance do sul-africano J.M. Coetzee, em entrevista a Gil no primeiro programa Amigos, sons, palavras). —


Primeiro os de floração rosa, altivos, quase arrogantes. —


Os ipês redimem do Belo sua feiura crônica. —


Do Evangelho de JC por JMB, ouvido em pregarias nos montes secretos do Planalto Centrão: “Bem-aventurados os donos de fuzis”. —


A pergunta de Caetano segue a valer: Será que apenas os hermetismos pascoais, e os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais, não salvam, nos salvarão dessas trevas? e nada mais…


É preciso vez em quando acender uma vela no altar da Elis

A Via Láctea, entre 100 bilhões de galáxias, é faixa vertiginosamente extensa e pouco espessa — 170.000 x 1.000 anos-luz. Um ano-luz é coisa de 10 bilhões de quilômetros. O sistema solar, Terra à coté, gira a 720 mil quilômetros por hora em torno do centro galáctico, onde reina o buraco negro batizado Sagitário A*. A tal velocidade nossa galáxia ainda levará 230 milhões de anos para completar um volta (acho que não vou esperar o evento). Na folha corrida da Via Láctea constam canibalização de galáxias vizinhas, terremotos estelares e outros fenômenos abrumadores. Hoje, sabemos mais sobre estrelas frias e quentes e da composição química de milhões de astros. —


É segunda-feira, acabado de tomar café e leio no El País matéria sobre os novos achados da missão Gaia, empreitada de uma década da Agência Espacial Europeia. —


Me intriga desde criancinha, como ao eventual leitor dessas linhas, o contraste entre as dimensões impensáveis do espaço estelar e a pequenez e brevidade da vida humana. Aparecemos na foto indistintos dos vermes, ou do pó e das partículas.


Daí sonharmos com deuses, daí criarmos, daí nos apegarmos à ideia da beleza, daí o ziriguidum e o balacobaco. Fugas contra o assombro. Consolações. —


Não me intriga menos, ai de mim, que tantos de nós, bestas quadradas, bestas-feras alheias aos astros, incontrastáveis com as estrelas, mancas de transcendência, ajam, gozem e ponham banca de sua condição vermicular, tantas vezes homicida, tantas vezes genocida, inexoravelmente reles. De tal condição se contentam, se ufanam e impiedosamente nos cobram, seus pretensos semelhantes, resignação perante seu eterno guinchar. —


Já me ocorreu em velhos escritos que sejamos apenas fruto, imagens encarnadas, do pesadelo de um deus adormecido e cansado da graça. —


Como diz Dauriat, o analfabeto mercador de resenhas literárias em Ilusões perdidas vivido por Gerard Depardieu no bom filme e boa adaptação do romance de Balzac, dirigido por Xavier Giannoli: o abacaxi vai me salvar da poesia. —


Na corrupta França da Restauração Bourbon, fundo das desventuras do herói Lucien de Rubempré, um espetáculo teatral, um ator ou uma atriz com sorte podiam até ganhar aplausos sinceros e gratuitos! —


A putaria na pré-história do jornalismo panfletário, amplificada pela pena de Balzac, será superada pela profissionalização da imprensa e do mercado publicitário, e sua crescente relevância na regulação das democracias liberais. Mas que restam ecos do velho trottoir no jornalismo exercido em certas províncias tantas, ainda hoje, não se debate. Com mais classe, higiene, camisinha, é verdade, mas putaria. —


O Liebestod de Tristão e Isolda, pináculo inalcançável da estetização do amor, do gozo e da morte por Wagner, sábado cedo me deu um tom para cantarolar Sentinela, de Milton, gravado com Nana Caymmi. Vá entender. —

Vive-se, viu. Ouvir Waltraud Meier — a meio-soprano desse vídeo da DW — no Scala, numa tépida noite milanesa. —

Isolda canta “[…] wie den Lippen/ wonnig mild/ süsser Athem/ sanft entweht:/ Freunde, seth — fühlt und seht ihr’s nicht…”. Haroldo de Campos verteu: “[…] Quando de brando/ Topázio-mel/ Lábios de aroma/ Respiram céu:/ Amigos, ele os/ Tateia, vê e não vê? […]” —

Quem há de negar que “topázio-mel” por “süsser Athem” (doce hálito) é lida de um transcriador. —


A voz de Nana Caymmi na faixa do álbum de 1980 vale por uma missa inteira —

Mal voltou, cinco edições, e a Jurupoca encontra uma careta no espelho. —


Nem santo Onofre nem João Batista sou! —


Mas quanta cachaça [sim, da boa] na minha dor.


Elizeth Cardoso, em registro de 1957, canta o sucesso de Orestes Barbosa e Silvio Caldas, lançado 20 anos antes por Caldas

…A porta do barraco era sem trinco mas a lua furando o nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão. E tu pisavas nos astros distraída… Que tal? —


A MPB não é uma glória? —


Caetano, melhor discípulo de João Gilberto também nisto, no tributar-resgatar-reinventar o tesouro da música brasileira — a ambos devemos tanto, glosou Chão de estrelas em Livros: ….Tropeçavas nos astros desastrada sem saber que a ventura e a desventura dessa estrada que vai do nada ao nada são livros e o luar contra a cultura…

Videoclipe gravado no encantatório Gabinete Real de Leitura, patrimônio nosso bem ali, no Rio

Chico: …Na galeria, cada clarão é como um dia depois de outro dia, abrindo um salão, passas em exposição; passas sem ver teu vigia, catando a poesia que entornas no chão…


E a pergunta, portanto, que não pode se calar: Tu pisavas nos astros distraída ou neles tropeçavas, desastrada? —


— É Bloomsday nesta quinta, 16, no ano do centenário do Ulisses. Brindemos.

“Solene, o roliço Buck Mulligan surgiu no alto da escada portando uma vasilha de espuma em que cruzados repousavam espelho e navalha. Um roupão amarelo, com cíngulo solto, era delicadamente sustentado atrás dele pelo doce ar da manhã. Ele elevou a vasilha e entoou: Introibo ad altare Dei.

Comecinho do Ulysses de James Joyce, na tradução Caetano Galindo. Penguin Books.

Subirei ao altar de Deus. —


A vasilha de barbear imita o cálice da missa cristã. O cálice (cibório ou pyx) contém o vinho que se transformará no sangue de Cristo. —


No romance, Buck Mulligan graceja, irreverente, a missa católica, com Stephen Dedalus, com quem divide a Torre Martello, nos arredores de Dublin.  —


Da missa latina vem In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. —

E o responso Introibo ad altare Dei, ad Deum qui lætificat juventutem meam (subirei ao altar de Deus, o Deus que alegra minha juventude). —


Subirei no altar do Deus sem passar cartão. —


Mas o dia é do senhor Bloom, de celebração do Ulisses e do Joyce Terra afora. —


Retomo minha releitura do romance, desta vez na tradução de Caetano W. Galindo, agora apetrechado de dois guias, o do próprio Galindo, Sim, eu disse sim – Uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce (Companhia das Letras) e o mais recente do espanhol Eduardo Lago, Todos somos Leopold Bloom, Razones para (no) leer el Ulises (Galaxia de Gutemberg). —


Muito já deitei neste diário medonho acerca do meu gosto por este livro, o Ulisses, ou Ulysses como prefere Galindo, da minha viagem devocional a Trieste e de outros Dias de Bloom. Mas, cabotino, me permito, neste 16 de junho, aos cem anos do Ulisses, repetir punheteiro este recuerdo triestino clicado por R.

Joyce e Nora Barnacle viveram uns dez anos em Trieste. A cidade adriática não esqueceu deles. Depois de Dublin, Trieste é a mais joyceana das cidades europeias, inda mais que Paris ou Zurique, onde restam seus restos

Belchior: E tenho comigo pensado: “Deus é brasileiro e anda do meu lado”, e assim já não posso sofrer no ano passado.


 Transa, o disco de Caetano, cumpriu 50 anos em janeiro. E nem quermesse tivemos, ainda que na Bahia, especial do Jornal Nacional, quadro no Fantástico, feriado, documentário, show, nada. —

Trieste Bananão. —

Vídeo publicado por amadores. Não há informações sobre como, quando e porque aconteceu a gravação. Caetano canta uma das faixas épicas de Transa, testemunho de seu exílio e banzo londrino, nos anos mais cruéis da ditadura

Ao terminar a leitura do livro de Richard Bradford, Orwell: um homem do nosso tempo (editora Tordesilhas), muito comentado aqui, anotei um último ponto. A hegemonia cultural do Vale do Silício gerou uma histeria sobre a defesa da “privacidade e da liberdade.” Slogans de Orwell em 1984 são invertidos como celebração do consumismo e iminência do paraíso egocêntrico: “Segredos são mentiras”, “Compartilhar é cuidar”; “Privacidade é roubo”, cita Bradford. A pergunta: não estamos a fundar uma “forma voluntária de totalitarismo-via-narcisismo: uma cultura absorvida pela tecnologia da informação [que] leva as pessoas a se preocuparem apenas consigo mesmas”?


Cafundós banhados por esgoto a céu aberto. Oh, quantos teremos? Aqui mesmo nas redondezas do Belo há muito. E pensar na gente vestida de verde-amarelo a se exibir, nua, nas ruas, a clamar pelo golpe. De onde terão saído tais criaturas? —


Breve explicação para você, leitor de primeira viagem deste diário tremebundo: JMB, autor de um evangelho todo próprio de Jesus Cristo, autenticado por pastores que vivem de passar a sacolinha e oferecer a maquininha, abençoado por ministros supremos, é tratado aqui de Vibrião Colérico, por impunemente propagar a cólera — não o cólera — a multitudes, mormente via mídias sociais. —


Canção de Luiz Tatit de seu disco homônimo de 1997 (Sesc) e destaque do repertório do Grupo Rumo
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito
Não sei porque eu tô tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato
Ser feliz assim é meio chato
E as coisas nem vão muito bem
Perdi o dinheiro que eu tinha guardado
E pra completar depois disso
Eu fui despedido e estou desempregado
Amor que sempre foi meu forte — 

— Senhoras e senhores, aplausos para os reis do balido, divulgadores consagrados do evangelho de JC por JMB. De O Globo, domingo, Dia dos Namorados:


A alegada singularidade artística na dispensa de licitação de artistas sertanejos por prefeituras, muitas de cidades banhadas por ribeiros de esgoto a céu aberto, é estrepitosamente falaciosa. —


Enquanto isso, naquele caderno de ex-cultura, que da velha Ilustrada mal guarda o logo, no último sábado, 11:


Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô —


Este diário traz um quê de místico, um sem-não-quê, um sem-propósito banal além da alma. —


A Jurupoca, a seu modo, é um diário público com alguns leitores de classe. Ainda é rito de aposentadoria e despedida. —


Aquele abraço pra quem fica. —


Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? —


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