JU_106 | Um samba da sinestesia, que tal?

Jurupoca_106, 24 a 30/6/2022
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo


“O ceticismo é o primeiro passo em direção à verdade.”
Denis Diderot

“Se a liberdade significa alguma coisa, é o direito de
dizer às pessoas o que elas não querem ouvir.”

George Orwell


Foto do alto (crédito): Cortesia de  https://agro20.com.br/capim-gordura/ (sem crédito mencionado)


Venho de viagem amiga à irmã em Itaipava. Volto tingido do verde e do gris reluzente dos gigantes pétreos da serra do mar, do violáceo e branco dum manacá resiliente e do rosado estradeiro do capim-meloso. Ouço ao chegar um samba elegante e furta-cor do Chico terçado ton sur ton com o bandolim do Hamilton de Holanda. No laranja-fogo da tarde de terça baixo à estação de mim, enfim. Penso que quase somos — tem hora e cor — seres-estrelas. Não? Seres-pirilampos? Não? Buracos negros a guardar tudo que é onda e luz? Se pá? —


Do Houaiss:
[citação] sinestesia
substantivo feminino

1 psic relação que se verifica espontaneamente (e que varia de acordo com os indivíduos) entre sensações de caráter diverso, mas intimamente ligadas na aparência (p.ex., determinado ruído ou som pode evocar uma imagem particular, um cheiro pode evocar certa cor etc.) ‹E os olhos cor da noite, os olhos desleais, / Doces como cetim (Cruz e Sousa, “Inês”)›

2 estl cruzamento de sensações; associação de palavras ou expressões em que ocorre combinação de sensações diferentes numa só impressão


Na cadência das horas, na síncope da sapiência de quem acaba de cumprir, recém-recasado, 78 junhos, com a pena da serenidade e a tinta da galhardia, o Buarque dá o tom de novo em clave esperançosa num samba contra a demência e o estupro das mentes livres e da razão. —

O artista brasileiro é devoto do candidato opositor, sei, sei, ó, ó. Não sou e não serei devoto de ninguém. Não importa. Vamos juntos ao samba. —


Se não me deixam entrar (à gente devota, amiúde canceladora, inté de amigos, é mister cobrar carteirinha e carnê) sambo do lado de fora, sozinho se for. —


O que vale: Vai passar? Tomara. —


Que tal um samba? 

Um samba
Que tal um samba?
Puxar um samba, que tal?
Para espantar o tempo feio
Para remediar o estrago
Que tal um trago?
Um desafogo, um devaneio
 
Um samba pra alegrar o dia 
Pra zerar o jogo
Coração pegando fogo  
E cabeça fria
Um samba com categoria, com calma

Cair no mar, lavar a alma
Tomar um banho de sal grosso, que tal?
Sair do fundo do poço
Andar de boa
Ver um batuque lá no cais do Valongo 
Dançar o jongo lá na Pedra do Sal
Entrar na roda da Gamboa

Fazer um gol de bicicleta
Dar de goleada
Deitar na cama da amada
Despertar poeta
Achar a rima que completa o estribilho

Fazer um filho, que tal?
Pra ver crescer, criar um filho
Num bom lugar, numa cidade legal
Um filho com a pele escura 
Com formosura
Bem brasileiro, que tal?
Não com dinheiro
Mas a cultura

Que tal uma beleza pura
No fim da borrasca?
Já depois de criar casca  
E perder a ternura
Depois de muita bola fora da meta

De novo com a coluna ereta, que tal?
Juntar os cacos, ir à luta
Manter o rumo e a cadência
Esconjurar a ignorância, que tal?
Desmantelar a força bruta
Então que tal puxar um samba
Puxar um samba legal
Puxar um samba porreta
Depois de tanta mutreta
Depois de tanta cascata
Depois de tanta derrota
Depois de tanta demência
E de uma dor filha da puta, que tal?
Puxar um samba
Que tal um samba?
Um samba —

Que tal um samba? sucede sambas lenitivos do Buarque para a “dor filha da puta” que já sofríamos do regime milico à transição das Diretas. No Carnaval de 1979 cantamos, sambamos, sambei (ao som do The Fisher no Social de PL) com Apesar de você, dum compacto simples de 1970 logo censurado e regravado em 78 no Disco da samambaia, elepê que trazia Cálice, feita com Gil em 73. —

E quem não caiu na avenida com o estandarte do sanatório geral do Vai passar, vero sambão-enredo escrito com Francis Hime, do elepê de 84?, também de Pelas tabelas e Brejo da Cruz. —


Qual enxaqueca a cometer em pulsos nossa cidadania, o coco da pátria mãe mais uma vez distraída voltou a latejar e quer explodir. —


Já depois de criar casca/ e perder a ternura precisávamos mesmo da analgesia dum samba elegante, depois de tanta mutreta/ depois de tanta cascata/ depois de tanta derrota/ depois de tanta demência. —


Urgia e urge lavar a alma. —


Não sou eu quem repete esta história, é a história que adora uma repetição. (Rebichada – L. Enriquez Bacalov, Sergio Bardotti e Chico Buarque)  


Raiooooou, Uberaaaaba! — exclamava do nada o irmão mais velho. —

Tinha a variação: Raiooooou, Montes Claros!

Na Cachoeira guiamos, guiei, junta de boi de carro a puxar toras de madeira da capoeira ao curral. Afasta Roxim, vem cá Veludo!

Eta ferro! —


A Ju é um porta-joias, se pá? —


Tuta e meia, eis o que vales, minha amalucada. —


Abacaxizal, frangas poedeiras, redações, bicos, mil jobs, nada te salvou da poesia, diabos. —


Não sei se bem voltávamos de Petrópolis de carro ou de trem. Se um carro nos trazia, um trem há tempos nos trilhos nos animava, e dirigia. —


O cantautor-poeta de Santo Amaro da Purificação deu nome capim rosa-chá à emanação do Melinis minutiflora, popular capim-gordura, gramínea rica em antocianinas (pigmentos vermelhos, azuis ou violetas de folhas, frutos ou flores.) —


As encostas tingiam-se de rosa desde as serranias da Mantiqueira às do Espinhaço. —


Voyelles

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes :
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d’ombre; E, candeurs des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d’ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire des lèvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d’animaux, paix des rides
Que l’alchimie imprime aux grands fronts studieux ;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges :
— O l’Oméga, rayon violet de Ses Yeux!

Arthur Rimbaud, Poésies

Vogais 

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais:
Ainda desvendarei seus mistérios latentes:
A, velado voar de moscas reluzentes
Que zumbem ao redor dos acres lodaçais;

E, nívea candidez de tendas e areais,
Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes;
I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes
Da ira ou da ilusão em tristes bacanais;

U, curvas, vibrações verdes dos oceanos,
Paz de verduras, paz dos pastos, paz dos anos
Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos;

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,
Silêncios assombrados de anjos e universos:
— Ó ! Ômega, o sol violeta dos Seus olhos!

Arthur Rimbaud, Poemas 

Tradução de Augusto de Campos em Rimbaud livre, Perspectiva, 1993 [meu exemplar traz o selo da Vandamme Livraria – R. Guajajaras, 505, F 226-6492 – B. Horizonte – Brasil]



O cortejo durou a viagem. —

A estrada sorriu rosa. —


Transporte, enlevo relevante. —


A paisagem da janela do carro era uma tela descontínua contra o ocre da terra ferida e o verde das hortas e pastagens — um rosado à mercê da luz. —


Há quem veja no capim-meloso tonalidades violáceas, roxo-avermelhadas, prateadas, até verdoengas, bem longe da poética precisão do rosa-chá. —

“…Os átomos todos dançam, madruga/ reluz neblina/ crianças cor de romã entram no vagão…” são meus versos favoritos nessa canção, uns dos mais elevados da MPB. —“…Os átomos todos dançam, madruga/ reluz neblina/ crianças cor de romã entram no vagão…” são meus versos favoritos nessa canção, uns dos mais elevados da MPB. —

Além da cor, o odor do capim rosa-chá sempre me foi dádiva dos caminhos — estradas, trilhas, picadas. Não compactuo com o olfato de quem apodou esse capim-catingueiro que o Houaiss acolhe. —


O capim rosa-chá parece ser medicinal. Para os olhos, senão pra alma, por certo é. —


Caetano põe na paleta de seu Trem das Cores: aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há/ azul que é pura memória de algum lugar, e a seda azul do papel que envolve a maçã. Tal seda se desdobra e desvenda, verdade, certa lembrança menina de andar por ruas do Belo, mão na mão da minha mãe, recessos de bancas de frutas a colorir calçadas — os amarelos das bananas, os vermelhos das maçãs, os verdes-rosas das goiabas e abacates — e exalações doce-úmidas das vitaminas à venda. —


Nos trilhos do trem das cores cruzam tempos liquidificados. Cabe tudo num copão de vitamina. —


L’étoile a pleuré rose …

L’étoile a pleuré rose au cœur de tes oreilles,
L’infini roulé blanc de ta nuque à tes reins
La mer a perlé rousse à tes mammes vermeilles
Et l’Homme saigné noir à ton flanc souverain.

Arthur Rimbaud, 1871

A estrela chorou rosa

A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha. 
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.

Arthur Rimbaud, 1871

Tradução de Augusto de Campos em Rimbaud livre, Perspectiva, 1993 [meu exemplar traz o selo da Vandamme Livraria – R. Guajajaras, 505, F 226-6492 – B. Horizonte – Brasil]

Fecho os olhos e vejo. Inelutável modalidade do visível, diz o jovem Dedalus na praia de Sandymount (Dublin), diz o Joyce. —


Mark Rothko (sem título)

Fagner e Abel Silva, com Amelinha, faixa A5 do elepê Flor da paisagem, CBS, 1977: Conheço a cor dos teus cabelos/ Conheço a cor dos olhos teus/ É verde, azul, é negro// Como uma noite sem lua, é claro/ Como uma frase não dita/ É dessa cor, é dessa cor/ É dessa cor// Depende do dia, da tarde/ morena/ Depende do amor de minha pequena. —


E quando a consciência vive entreatos de ojeriza, e não há que remedeie a náusea dessa aspereza insone? —


O sublime, senhores, em si, aí-aí. A lua girou [domínio público, adaptação de Bituca, décima faixa do elepê Geraes, 1976] foi que abriu o show da Salmaso e do Mehmari no Palácio das Artes, no Belo era noite de 28/5/2022, com acordes do Claire de Lune. Puta de casamento feliz pra sempre. —

Levamos óbolos para o oblívio no matulão e pronto. —


Minha Microcomédia dantesca começa assim. Se a ti, improvável leitor dado a tal, interessar possa ir adiante, siga por aqui.

I – Inferno

Vinho ou viático
Que se avie na surdina
Ao se abrir a cortina
Do amanhecer
Acolherá a flor exótica
Que tentares
Aterrado
Dar à luz
No solo petrificado
De ontens no pus
Da lambança
Da aragem onde brotara
O brejo da esperança — 

A cultura woke, dominante nos EUA, e já quase inteiramente no Brasil, foi absorvida na maciota pelo capitalismo financeiro ou neoliberal, como se queira. A publicidade embalou à perfeição a indiferença do woke ao que não é egolatria e “zona de segurança” onde vozes destoantes não têm tar do lugar de fala, só dever de cala. A revolução cultural woke é indiferente à falta de liberdade em ditaduras totalitárias como China ou Arábia Saudita, como não está nem aí para as velhas bandeiras da extinta “classe trabalhadora”.  —


Tracei arriba resumo raso do artigo Solo la izquierda económica podrá vencer a lo woke, de David Rieff, aberto na revista Letras Libres. É estupendo. Há muito não lia nada tão bem escrito, equilibrado, culto, agudo e a um tempo panorâmico e focado. —


A visão de mundo acrítica que caracteriza o woke, diz Rieff, há muito converteu Hollywood, onde a maioria dos filmes são destinados a “atrair a adolescente e, para sermos sinceros, a adolescentes não muito inteligentes”, pondera. “Mas à medida que os filmes em questão contem com equipes e elencos apropriadamente diversos e representativos, podem seguir sendo tão idiota quanto queiram, sem que ninguém questione nada.” —


Leia, leiam, vale muito a pena. —


JMB, autor de um evangelho todo próprio de JC, autenticado por pastores de maquininha em punho, abençoado por ministros supremos e anunciado pelo profeta alagoano, é tratado aqui de Vibrião Colérico. Por quê? Uai, sô, por impunemente propagar a cólera — provavelmente não o cólera — a multitudes, mormente em mídias sociais. —


Do Evangelho de JC (vulgo VC) por JMB, ouvido em pregarias nos altos secretos montes do Planalto Centrão: “Bem-aventurados aqueles que curram princípios, meios e fins”.

“Bem-aventurados os bombeiros que lutam para apagar a luz.”. —


Bezerra: Malandragem dá um tempo. Deixa essa pá de safado ir embora.


Depois vem outra pá, eu sei, você sabe. Mas fazer o quê?, indaga um democrata imperativamente categórico. —


Taí — só procê — o novo single de Rosemary Standley com a Dom La Nena — a dupla Birds On a Wire, de voz e violino. Algo inédito desde Ramages, álbum de 2020. Esse Isis und Osiris é linda releitura da ária de Sarastro de A Flauta Mágica, ópera de Wolfgang Amadeus Mozart. —


Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô —


Este diário carrega um sem-não-quê, um sem-propósito banal além do real. —


A Jurupoca a seu modo é um diário público com alguns leitores de classe. Ainda é rito de aposentadoria e despedida. —


Aquele abraço pra quem fica. —

Poema de Cecília Meireles musicado por Fagner, sexta faixa do elepê da CBS de 1978. Raimundo também arranjou com maestria a canção e juntou o cavaquinho de Manassés, o 7 cordas de Dino (Horondino José da Silva), ele próprio ficou no Ovation e Amelinha no contracanto. —
Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles, Viagem, 1939.

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? —


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