JU_108 | O filisteu no paraíso com IPhone


Jurupoca_108, 8 a 14/7/2022
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo

“O ceticismo é o primeiro passo em direção à verdade.”
Denis Diderot

“Se a liberdade significa alguma coisa, é o direito de
dizer às pessoas o que elas não querem ouvir.”

George Orwell


Foto do alto (crédito): Jatobá no chão. Da série Le cose piccole, Coisinhas.  A. Siúves


Desafinado

Minha alma desentoa, vejo o Belo esta manhã.

Ah, cidade placebo, deserto de anseios,
Diáspora do gênio (tanto talento degredado).

No meu peito de aço doem tua vaidosa mediania
E tua jovialidade enrugada, minerada como as serras.

Ah, parques decotados e praças desenxabidas
Ah, podre Pampulha a empestar a igrejinha mais linda.

Solidário, bebo o viático em teus bares oceânicos 
Pra esquecer tua carência de rio e mar, teus naufrágios.

Belo, julho de 2022

Le cose piccole (passeio no parque), da série Coisinhas. Belo, parque municipal – 05/07/2022.

Me esfalfo depois de publicar este diário. Mais e mais. Me quedo borrachito tem vez até. Vício, anátema ou o quê? —


Autoengano, isso sim, sim. Se bem que não sou eu quem repete… —


Não compactuamos com fantasias sobre o livre arbítrio nem ignoramos a força nuclear fraca da vontade. —


Até quando a música me salvará? —


Caminhar? Mercado Central? Queijinho, alegrar os olhos nas cores, nos cheiros, com o cavaquear picado, com a saborosa atenção dos balconistas. Sim, sim. —


Fui. Longa volta antes. Onde o Belo é bom. Manhã de quinta (Boris Johnson caiu; logo mais brindo a isso. Bufão de menos). Um canastra de São Roque, azeitonas recheadas com anchovas do Império das Azeitonas, granola sem açúcar e castanhas no matulão, não sem um café coado no leite com a queijadinha do Frau Bondan. —


Ideias me tomam no caminho. Aluado saco o caderninho a um canto. Apontador de Bicho jurupoco sem comissão. —


Sentir-se livre é preciso, assim, ter um pequeníssimo número de leitores. Não mais. —


Com pouco é mentira; compô que minto um pouco. —


POLÍTICA: A PEC DA BACANAL

POPULISMO NATURALIZA BOLSONARO.
FESTA NO PLANALTO CENTRÃO.
TODO MUNDO NU.

Estupenda noche kirchnerista no Congresso Nacional. —


Hermanos se besan en la boca. —


E um gambá cheira o outro. —


Concluo que Vibrião Colérico também naturaliza o homem, se você me entende. Não mais. É preciso dar nome aos bois, como às bactérias. —


EX-CULTURA: APPS ATUALIZAM O FAROESTE

Nossa decadência cultural alcança o abismo. —


A tecnologia deu o céu ao filisteu. O Iphone e o Vale do Silício abriram-lhe as portas do paraíso, donde divisa a eternidade.  —


Há uma fascinante similaridade entre o sucesso das franquias hollywoodianas de super-heróis e a literatura-que-mais-vende, a única que ainda conta. —


Um fiel deseducado tem a ilusão de que a dita múuusica oferecida pela indústria da diversão — bilhões de terabyte do chorume planetário a fluir no streaming e entupir o éter — é tudo que resta à humanidade, tudo que cabe a ouvidinhos cegos enlatados. Não vislumbra o fiel que essa panóplia tóxica, esse lixo amazônico não vale um samba do Noel, um acorde do Jobim ou um dó do Dominguinhos. Platão sabia das coisas. O mito da caverna renovado pela tecnologia, sé pá. A caverna nas nuvens. —


É preciso ouvir Villa-Lobos uma vez por mês quando menos. —


Todos somos geniais nas redes por cinco segundos. Os eleitos das mídias-redentoras-dos-pecados-do-mundo são geniais o tempo todo. —


A vida se tornou tão vazia que não se consegue mais para de rir. —

Nu, sô. Lembrou-me o poemeto do Moral das Horas.

Pequeno manifesto contra o infesto

(…) Mas esse era um dos problemas em que eu estava trabalhando, veja,
as pessoas podem ser livres agora, mas a liberdade não tem conteúdo algum.
É como um vazio uivante. (…)”
Fala de Herzog, do livro homônimo de Saul Bellow (pág. 68), Companhia das Letras (2011)

🙂 Risus cacosus 🙂 ou acerca do kkkk na www [dádádá (bliu)] 🙂

kkkk → cácácácá (ad infinitum et ad vomitus)
CóCóCóCó → ovo post (ovum positis)
KêKêKêKê → ipso facto
KiKiKi → faniquito de fã (fidelis)
KôKôKô → stercore virtual (virtualis)
KáKéKiKóKu → Quod erat demonstradum (Q.E.D.)

Riso sonrisa sonsa sonrisal
Ridendo nihil castigat mores porcaria nenhuma
Adoptare consuetudines risum sim senhora

Submundi sobremundo sobramundos
Mundiário global maravilha est
Supermerdário totalis melecasum

Humani nihil a me alienum puto(a) que pariu (P.Q.P.)


O sucedâneo do jornalismo cultural verte caudaloso chorume. E ninguém aproveita essa rica fonte de energia. Peccato. —


Caça-cliques se tingem de relevância-e-respeitabilidade para vender antídotos contra o envelhecimento e a extensão da vida sexual aos cento e tantos gloriosos anos. Deus está morto mas a higiene nos redime, ou tu não ouves o Sermão das montanhas do Vale do Silício? Apps e dispositivos inteligentes atualizaram o óleo de cascavel do Velho Oeste. Tiro e queda contra as neuroses. —


Online, os jornalões perderam o alcance nacional e a influência que tinham. Feito quase milagroso. Seguem como lambaris a beliscar sobras da Guerra das Piranhas. —


É impossível desfrutar da grande herança criativa ocidental sem isolar-se na alma como um monge agnóstico. —


É preciso ouvir isso uma vez ao mês quando menos. —

Sílvia Pérez Cruz canta, profundamente, a canção clássica de Leonard Cohen. Gravado ao vivo com o que quinteto de cordas do Teatro Tívoli, em Barcelona, a 17 de novembro de 2017. —

Ouvidos cansados de música popular. De volta ao retiro bachiano. —


Bandeira: Depois de dez anos de pátio/ Volto a tomar conhecimento da aurora,/ Volto a banhar meus olhos no mênstruo incruento das madrugadas. Versos de Lua nova. —


Bandeira: Mas para quê/ tanto sofrimento/ se agora, ao relento/ cheira a dama da noite? Versos de Temas e voltas. —


Haverá amizade-em-latência-quatro-estações, amizade-ursa-a-hibernar-de-inverno, amizade-bicho-preguiça-de-verão? Ou amizade existirá apenas com a devoção renovada do encontro e o compadrio da procura mútua de viventes que se sabem mortais? Quando uma amizade dá sinais de anemia para definhar na figuração da palavra vã? —


A Ju é um porta-joias que só porta biju.  —


Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô —


A Jurupoca a seu modo é um diário público com alguns leitores de classe. —


Não sou eu quem repete esta história, é a história que adora uma repetição. (Rebichada – L. Enriquez Bacalov, Sergio Bardotti e Chico Buarque)  


Peças para clarinete me fazem um bem danado à saúde. Me automedico e despudorado repasso remédios a quem quer me ouvir. Há um repertório infinitamente belo nessa farmacopeia, como o que reuniu o prolífico Andreas Ottensamer neste disco da Deutsch Grammophon. —

Aquele abraço pra quem fica. —


Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? —

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