JU_109 | Queimão da Amazônia na Amazon

Jurupoca_109, 15 a 21/7/2022
Hebdomadário de cultura, ideias e
alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo

“O ceticismo é o primeiro passo em direção à verdade.”
Denis Diderot

“Se a liberdade significa alguma coisa, é o direito de
dizer às pessoas o que elas não querem ouvir.”

George Orwell

Potências ocidentais cobiçam our Amazon, notre y unsere Amazone? Que aproveitem o maior queimão da Terra, só neste Prime Day. Não têm que pagar nada, ô potências ocidentais, e ainda levam um toco, leia-se troco de um Bol$onaro, dobrão de ouro forjado no mais autêntico garimpo ilegal. É arrematar e arremeter. Frete grátis na Amazon. Afinal de que serve o foguete do Musk Amigão? Bolsonaro pro espaço! for good e já!

O jazz cigano, também gypsy, manouche ou manuche celebra mundo afora a arte de Django Reinhardt (1910-1953), fundador do gênero nos anos 1930. O quinteto curitibano Jazz Cigano lança-se com Yamandu Costa, no que parece ser inda um aperitivo, em álacre celebração de Noel e Palpite infeliz. Ergueram uma ponte de bela arquitetura a cruzar o Sena desde o Barigüi.

[PRELIMINARES]

Escrever algo, ainda que uma Ju. Resistir às investidas do silêncio.—

Manter-me no agora, no aqui.

Larguei mão da Tinyletter e meti a pata ao tentar convidar os destinatários da carta a seguir este blog. —

Erro induzido pela plataforma WordPress — lenta, cara e inepta. —

Me desculpo com quem tenha sido convidado por e-mail para ser “editor” ou “administrador” da Ju. Tudo errado. —

Ô leitor, ô leitora desgarrada da turbamulta dos social media (ou não estaria aqui a ler-me): a Ju depende de ti para mediar, propagandear sua existência por aí — esquinas, bares, aviões, clubes, baladas, nuvens cibernéticas onde transitamos e para onde transmitimos tão larga quanto provincianamente. —

O blog é minha única mídia, único meio, onde medeio meu ser, inda que não remedeie meu com quê. —

Se nunca tive jeito pra verter o nunca antes tão bem-sucedido e lucrativo chorume cultural nem para influenciar ninguém, ainda por cima me desavim com as mídias sociais. —

Cambota, torto total! Olha que provei longamente do fel do face e do mel do Insta até enfarar e manjar que aquilo não era pra mim. Saltei de banda. —

Logo, renegado (ufa! ponto para a força nuclear fraca da vontade) desertor, prófugo, aboletei-me aqui, neste instante a ver a impossível Lua que doura o aglomerado da Serra. E agora e assim o Belo é bom. —

Um querido e generoso sobrinho chegado ao solucionismo do Vale do Silício cogitou um dia me revolucionar na mídia, granjear-me clique e calique — mesmo que cascalho, e para ficar no ‘c’ chapa, chavo, chelpa, cheta, china, chinfre e cobre. —

Não sei se é meu leitor tal sobrinho. Mas como pode quem não lê a Ju, com carradas elétricas de razão, fabular seu sucesso nas catracas virtuais? Aí que está o busílis. —

No velho francês, cul-de-sac, beco sem saída. —

“Eu vim tarde demais para um mundo muito velho”, na conhecida frase de Alfred De Musset. Violinos, maestro Nísio, vizinho de esquina! —

“Mas por que me interrogo senão porque estou doente?”, pergunta-se o Caeiro num poema do Pessoa.  


[POLÍTICA DA GROSSEZA]

Nossas Armas insistem em fiscalizar as eleições. Temos montes de razão para farejar que erram desde o verbo. —

Aí essa terra ainda vai cumprir o ideal de tornar-se um imenso reino da Dinamarca. Podre é que não falta. —

Das Mil e uma noites: o Orçamento Secreto oficializou a caverna do grande herói das Arábias (علي بابا) e fez caber em seus recessos muito mais de 40 maganões. Ninguém sabe exatamente quantos são. A cifra é um abracadabra.


[EX-JORNAL DE EX-CULTURA]

Pode-se até pensar que se formou outro consórcio nacional de imprensa. Agora para a premente missão de cobrir cada pum de Anitta. —

Quanto Netflix e HBO pagam pelos roteiros das séries que produzem? Não sei mas é pouco. São artistas geniais. Não é fácil regredir ao embrião a idade mental da audiência. —

Roteiristas ainda lerão? Ainda verão os mestres do cinema? Tudo indica que não saem do Face do e do seu tubo. —

Inda não vi mas vale a recomendação de Maurício Stycer de Endangered, na HBO Max. É para quem se interessa pela ameaça, grandemente já cumprida, creio, de extinção do jornalismo no mundo. Um dos casos relatados no documentário é o da jornalista brasileira Patrícia Campos Mello, vilmente atacada por Bolsonaro e seguidores. —

Nossos colunistas, comentaristas e apresentadores de TV cada vez mais lembram coroinhas da santa missa celebrada pelo que nos States chamam cultura Woke e espalha o evangelho do politicamente santo, pudibundo e inconspurcável. A fé Woke, querem crer, não sem razão, os livra de toda indecência e maledicência do mundo. —

“Mantenha-se no agora, no aqui, pelo qual todo futuro mergulha para o passado”, reflete Stephen Dedalus na sala da Biblioteca Nacional de Dublin (capítulo 9 do Ulysses, tradução de Caetano Galindo) onde palestra para um grupinho atento e interveniente. O interessante é que Kinch (algo como cortante, apelido que Buck Mulligan prega em Stephen no início do livro) está bem mamado quando desdobra, com grande erudição e alguma clareza, sua “prova algébrica” de que o fantasma de Shakespeare é o avó de Hamlet. —

“Viver somente de amor, Leonor/ É tão lindo quanto precário/ Tem que morar de favor, Leonor/ Lá no bairro do Calvário…”, canta “clementinamente” Itamar Assumpção em Leonor, meio samba meio cantofalado penetrantemente melancólico — faixa A de seu disco com Itamar Assumpção de 2004. —

“Pra se viver do amor/ Há que esquecer o amor/ Há que se amar/ Sem amar/ Sem prazer/ E com despertador — como um funcionário”, entoa Marlene, Victória Bonaiuti (1922-2014), em Viver de amor, faixa do álbum duplo Ópera do Malandro, 1979.  —

Ora, se é duro viver de amor, pode-se bem viver de brisa, mas só na bula do Bandeira,

Brisa

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.

Manuel Bandeira. Meus poemas preferidos. Ediouro, 2002, pág. 133
Show do grande cantautor Silvio Rodriguez levado em Cuba a 28 de setembro de 2018. Canção dedicada “al colectivo de trabajadores del teatro Martí”. —

[MISCELÂNEA]

Temos o nacionalismo baboso bolsonarista a babar pelo nacionalismo gosmento trumpista, um primo do nacionalismo britânico do Brexit, que é contraparente do “procés” separatista catalão, que é unha e carne do nacionalismo basco, que traz a perene a cicatriz do ETA, e chegadão por DNA ao nacionalismo  putinesco e este por vez ao União Cívica Húngara de Viktor Orban, primo ideológico de Bibi Netanyahu… —

Resta provada acima minha tese sobre o pendor intrínseco do nacionalismo — perversão que promove no mesmo leito ideológico sujo o fuqui-fuqui de extremistas a la destra e la sinistra. —

O filósofo basco Fernando Savater andou anos escoltado por guarda federal, por jurado de morte pelos cangaceiros marxistas do ETA. Sua inteligência, disposição e caráter permitem que ainda viva onde nasceu, na linda San Sebastian, alternadamente com temporadas na casa esponsal de Madri, e se mantenha, aos 75 anos, capaz de olhar de cima seus detratores. Copio e traduzo um trecho da entrevista que deu a Nuria Azancot, do suplemento El Cultural,

P. E como o senhor vê hoje sua cidade natal, quando se passaram mais de dez anos do fim do ETA mas ainda existe um movimento separatista importante?
R. Hombre, o vejo com resignação porque lutamos contra o nacionalismo o quanto podemos, enfrentamos nada menos que o nacionalismo terrorista, que também existiu, e agora por desgraça seguimos padecendo uma hegemonia nacionalista. Mas, por outro lado, eu vivo na cidade, em suas paisagens, em seu mar e procuro olhar o menos possível para as pessoas.

Extraído do El Cultural: Fernando Savater: “Que sigan considerándome un rebelde es el mejor homenaje que puedo tener”. —

A Ju é um porta-biju.  —


Hela-hô-hôôô… helahô-Hôôôô —


A Jurupoca a seu modo é um diário público com alguns leitores de classe. —


Não sou eu quem repete esta história, é a história que adora uma repetição. (Rebichada – L. Enriquez Bacalov, Sergio Bardotti e Chico Buarque)  


Aquele abraço pra quem fica. —


Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? —

|Reclame|
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Não mais pirata. Oficialíssimo Viva a Vevo por nos permitir assistir ao show filmado em alta definição e grande virtuosidade. Observamos em detalhes cada acorde, batida e gesto do gênio. Os créditos estão errados. Trata-se da íntegra do concerto de Tóquio, 2006.

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