“(…) um livro onde tudo seja não esteja seja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o começo
e volto e revolto (…)”  (Haroldo de Campos, “As Galáxias”)

O autor entre Milão e Veneza, pensando em lançar ou não lançar ao Adriático o “Quem Escreve nunca Alcança”

Cidades quase nunca devem ser amadas.

Para amar uma cidade deve-se
esperar 200 anos, esperar
que a cidade sobreviva a
dez gerações a venerar a cidade
que morreu na cidade que viverá.

Cidades precisam ser
sinceramente
detestadas por seus exilados e
quem nelas viva o desgosto
de vê-las amadas sem razão;

Dor de rua sem flor,
praça sem degredo,
canto sem torvelinho.

Cidades carecem do medo
de quem não têm onde se perder
onde
se esquecer,
onde
explodir como pedra.

Cidades supõem o veneno dos viventes
que caçam fantasmas massacrados,
sombras destroçadas, sussurros calcinados.

Coda

Cidades amáveis
podem ser imensas,
ou miúdas,
à margem dum rio:

ter perfume,
como Paris;
pátina,
como Ouro Preto;
suor,
como o Rio de Janeiro;
siso,
como Firenze;
doçura,
como Pinhão Sabrosa;
luz rosanil,
como Coimbra;

serem abertas ao Tempo,
como Washington, D.C.,
ou à mente,
como NYC;

serem tácteis,
como Diamantina;
alucinantes,
como Cambará do Sul;
carnosas,
como Florianópolis;
rameiras,
que nem São Paulo.