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Humanos estão podendo

Como “diz” o cachorro da NET, “meus” humanos estão podendo. A publicidade da operadora, digo de passagem, não me parece obra humana. Mas o tema da coluna não é o mundo cão da propaganda.

É a ciência, ou o ideal que alguns homens de ciência superdotados fazem da vida.

Ali por volta de 2030, anuncia-se, a humanidade terá vencido a morte e alcançado a vida eterna.

A ciência da computação é a origem comum desses novos Einsteins, claro. Os reis do Vale do Silício se veem predestinados a melhorar o mundo com seus fantásticos algoritmos e aplicativos. Alguns podem tanto que não aceitam menos que viver para sempre.

Prescindir de sua grandeza seria trágico para o Universo.

O inglês Aubrey de Grey, da ONG Fundação Sens, era do metiê, antes de tornar-se biogerontologista. Promete nos livrar do envelhecimento com um “detox” de terapias genéticas.

Viveremos mil anos ou mais sem azias, dores lombares ou de cotovelo, assegura. Seremos férteis e produtivos, com a memória e a libido para sempre em dia.

Um jovem mancebo de 870 anos encontrará uma nova parceira, um brotinho de 530.

O novo casal vai compartir terabytes de selfies e álbuns acumulados em centenas de uniões passadas, pencas de filhos e parentalha a perder de vista, se ainda houver geração. Pois o que será da posteridade num planeta de seres perpétuos?

Já o bilionário russo Dmitry Itskov e o diretor de engenharia da Google Raymond Kurzweil exploram soluções de inteligência artificial para garantir a eternidade de nossos netos ou bisnetos.

Interfaces biológicas, com os cérebros escaneados e hospedadas nas nuvens, tornarão perene a existência individual.

Colagem sem título

Não se sabe se o planeta ainda será sacudido por tragédias. Kurzweil, Itskov e de Grey não se aborrecem com efeitos colaterais. Conflitos éticos, demográficos ou desigualdade não tiram o sono dos adventistas do humano 2.0.

Há gente séria e sabida que respeita a ciência deste amanhã no qual tecnologias vão bulir com o DNA como blocos de Lego.

Mas não são essas tecnologias que me fascinam. Se tiverem que vir, virão; então, (não) seja o que deus quiser! O que me encanta é pensar como a própria ideia do que é a vida pode ser tão distinta.

Entendo Kurzweil, Itskov, de Grey e seguidores como entendo o matraquear de incas venusianos. Não há buraco de verme que possa aproximar meu mundo do mundo onde operam.

A vida eterna que concebem é, em essência, como a vejo, a definitiva iluminação da morte. A vida como avatar, sem velhice, higiênica, controlável, alheia à sorte e ao azar, é o enterro definitivo do humano.

Vá lá que estejamos fadados a nos recriar, pela tecnociência, livres de todos os males. Mas só um ciborgue é capaz de defender o poder e a glória do humano 2.0. Por isso desconfio de que nossos super-heróis já não têm a humanidade preservada. Evoluíram. Receberam seu upgrade.

A imortalidade vai derreter o que presta na espécie. Laços de afeto perderão o sentido.

Amamos também ou essencialmente porque somos seres cariados e finitos. Que papel teria o amor em um mundo de perfeição em que tudo é para sempre?

Acaba-se com a dor e leva-se junto a arte; livram-nos do sofrimento e também de Michelangelo, Shakespeare e Bach.

O admirável mundo novo de Kurzweil, Itskov e de Grey me devolve a Cioran e Fernando Pessoa. Talvez para lhes dar razão.

No último texto para esta revista lembrei um dos aforismos do filósofo romeno, “a vida, esse mau gosto da matéria”. Depois, ao folhear Pessoa no Livro do Desassossego, acho esta passagem: “Viver parece-me um erro metafísico da matéria, um descuido da inação”.

Ou, no mesmo livro: “Considero a vida um estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo”.

Se Pessoa ainda vivesse, saberia que, em vez daquela diligência, está por vir o expresso da eternidade.

E que a própria poesia sumirá como lágrimas na chuva, no dizer do androide de Blade Runner.

— “Time to die?” Never more, dear.

Logo, se a vida é mesmo essa porcaria, melhor recriá-la.

Salve a Humanidade 2.0!, a qual, não duvido, pode estar por trás dos comerciais da NET.


[Coluna originalmente publicada na revista Inclusive.com que chega às bancas.]

 

 

Réquiem para um mundo moribundo

[Texto originalmente publicado na revista cultural Inclusive.com nº1.]


Ninguém assistiu ao formidável enterro da minha última quimera. Minha última quimera foi tentar honrar um mundo que se partiu — e dá os suspiros finais. Com tal mundo morrem os livros e a literatura, o cinema e a música de certa extração. Morrem a arte como razão de viver e a ideia transcendente da beleza, herdeira da religião. Morre a imprensa e com a imprensa morre o papel de certo jornalismo na Democracia. Nasce a pós-verdade.

Nasce o mundo dos dispositivos digitais e das redes sociais. Eis o mundo da razão tecnológica, da hiper-higienização da vida e da expectativa de vida eterna por meio da inteligência artificial, como prega o profeta Raymond Kurzweil, engenheiro da Google. Se a um mundo correspondem uma cultura e uma moral — certas formas de viver —, entramos no milênio da satisfação individual e da cultura do narcisismo.

Imagino uma festa de finados à mexicana. Há música, bebida e foguetório. Desfilam na multidão as caveiras de Machado, de Thomas Mann, de Marcel Proust e todo um cânone ocidental. Ao lado delas dançam caveiras de Fellini, de Bergman, de Hitchcock e companhia. Esqueletos levam estandartes com reproduções de Bosch, Rafael, Velázques, a sumir de vista. Na tela celestial passam ao mesmo tempo Dançando na Chuva, La Dolce Vita e Terra em Transe. A trilha sonora tem Schubert, jazz e MPB defunta. Toda uma fantasmagoria pululante. Ainda que mortos, todos esses criadores viviam em suas obras, que ora também revertem todas ao pó.

Existe a sensação de que o romance do século 19 é hoje domínio da TV, diz Mario Vargas Llosa.  A nova literatura explora a própria literatura ou busca o modelo kafkiano e a autoficção, como o grande W. G. Sebald. O romance como gênero balzaquiano definitivamente foi para o brejo. Seja como for, o livro deixou de ser parte decisiva na conformação do eu. Perdeu a centralidade na educação dos sentidos. O Facebook e o Instagram definem melhor nossos elos espirituais nesta alvorada do mundo novo.

O que chamávamos cinema de autor finou-se. As séries e minisséries de TV, algumas de excelência como The Wire, Boardwalk Empire ou Wallander, são sucedâneas do grande cinema hollywoodiano e europeu.

A arte extrapolou a matriz do urinol de Duchamp para franquear um jardim de infância perene em feiura, obscurantismo e demagogia. A caveira cravejada de diamantes e o tubarão no formol do bilionário Damien Hirst são ícones supremos dessa nova ordem.  No legado já dilatado no tempo do “contemporâneo”, a linguagem cifrada dos curadores impõe às plateias de cinco a 90 anos a construção de narrativas próprias sobre o espaço povoado por jogos pueris e sandices imaginativas.

A nova música é utilitária e funcional, como disposta nos cardápios do Spotify. O negócio não é mais ouvir com reverência e compartir com amigos um disco de Coltrane. É acumular terabytes de música nas nuvens. Nas pilhas digitais, pouco importa quem canta, toca ou compõe. O negócio é o benefício, a “entrega”, por assim dizer, dos aplicativos de streaming. Entre nós, a MPB e seus antecessores foram destronados pelo chorume das ideologias do politicamente correto, onde qualquer “punqui” ou “funqui” (a bênção, Ariano Suassuna) vale tanto quanto o legado de Pixinguinha, Caymmi ou Chico Buarque.

Enquanto puder, vou reler Machado, ouvir Jobim e rever as salas de Goya no Prado, ainda que a vida siga e voe. Pois mesmo a experiência de alguém sentar-se num café e ler um jornal impresso torna-se essencialmente nostálgica, uma espécie literal de natureza-morta na forma de happening solitário. Hoje se compartem memes e vídeos como se compartiam leituras e discos numa roda de bar.  Fazer o quê?

Não queria chorar o leite derramado, apenas honrar um mundo moribundo. O mundo que nasce faz e anda para o mundo decrépito. E o réquiem já era.

Que o mundo novo possa dar à luz uma nova arte verdadeira, forjada na aridez do silício e acima ou abaixo da cacofonia tribal das redes sociais, para tornar a vida mais suportável aos que vão nascer.

Futuros historiadores da cultura, com as lentes distorcidas e frias do tempo, vão se encarregar dos funerais do mundo arruinado. Nada dirão na academia sobre minha última quimera. Pois meu réquiem que se dane. Ainda me resta ouvir João Gilberto, a esperar baixar o pano — ou descer um índio duma estrela brilhante.