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Máximas (mínimas, sintomáticas) sobre o jornalismo cultural ou: Ai que preguiça!

Tardígrado
Um tardígrado: única espécie sobrevivente ao jornalismo cultural contemporâneo

[1] Acossado pela velha internet, vergado pela ignorância, esbofeteado pelo infantilismo, patrulhado pela correção política, o jornalismo cultural perdeu o norte no país de Macunaíma. A geleia geral sem osso nem tutano um dia combatida por Décio Pignatari atomizou-se em farofa cibernética — e vende-se como Baconzitos.

[1.1] Literatura, música, cinema, pintura, teatro, qualquer gênero, doravante, só pode ser encarado verdadeiramente como cultural pelo telescópio da solidão mais dura, mesmo assim e só assim por seu brilho de estrela morta.

[2] Os donos dos jornais na era de ouro do e-Tudo não se deram conta, ainda, que cortarão outras despesas com a sinergia do pessoal que cuida do noticiário da cidade com o da bancada cultural, denominada assim em 2015 apenas por conveniência. Haverá perda zero de conteúdo e ganho de leitores.

[3] Um velho herói do jornalismo cultural brasileiro, antes de ser desmascarado por plágio, tascava o “juveniilismo” que, à época, uma faixa entre os anos 1980 e 1990, predominava nas redações de cultura. E pensar que yuppies de academia, pipoqueiros de TV, famintos leitores de livros de colorir, sedentos cozinheiros e críticos de vinhos supercults tomariam todas as posições.

[4] O jornalismo cultural pode funcionar perfeitamente como aplicativo. O usuário terá o serviço completo de entretenimento e um menu de críticas cheio de viés em cada, como dizem em São Paulo, atração: gostei (sic), não gostei (sic), “ri”, “rachei os bicos”, “mijei”, “caguei” etc. O mais decisivo é que o usuário poderá assistir a vídeos, interagir com o editor, responder enquetes, dar opiniões, definir as melhores pautas e avaliar os jornalistas. Afinal, toda a pluralidade e toda a diversidade cultural do nosso tempo serão contempladas.

[4.1] A memória da água na diluição homeopática do espírito pelo jornalismo cultural desenvolveu seu próprio mal de Alzheimer. E ainda persiste o “vamos todos ligar o foda-se”, em massa, como blague, dos que ainda imaginam a possibilidade de ser livres!

[5] Não tarda para o jornalismo cultural incorporar também a jardinagem e outro tipo de petismo, a editoria de pets. Uma centena de colunistas afiados e brilhantes despontará para o anonimato (Francis), afinal.

[6] Embora não sejam lidos, os poetas vivos sobrevivem no Brasil como entertainers. Suas chances crescem à proporção de sua adesão ao e-Tudo, da docilidade de seus poemas e da própria simpatia, correção política e do talento para fazer rir. Há quem literalmente se vista de palhaço. O mais constrangedor são os adolescentes semicalvos à beira das sete décadas a declamar seu batatinha-quando-nasce para audiências que não param um instante de fotografá-los com smartphones. Quanto aos poetas mortos, morrem para sempre. Nem a iniciativa de alguma editora multinacional ao reeditar esta ou aquela obra nas efemérides é capaz de renovar o interesse por seu legado.

[7] Como não existe mais passado, apenas um presente fixo a deslizar para o futuro certo, a despeito do fim do mundo que os climatologistas categoricamente anteveem, no Brasil o jornalismo cultural espelha o espírito da época espetacularmente. Tudo que não seja leve, indolor, engraçado e previsível é fadado a não ser, à obscuridade, ao fedor.

[8] O provincianismo de metrópole só tem feito expor-se ainda mais no jornalismo cultural carioca e paulista, o que seria impensável até outro dia.

[9] O leitor médio do jornalismo impresso só lia títulos e bigodes. No jornalismo para telefone inteligente enxerga apenas as listas da maior quantidade de cliques inúteis registrados por robôs algorítmicos.

[10] O tipo de texto que antes podia se chamar jornalismo cultural, estabelecido em editoria de cultura, mal aparece nos portais da velha imprensa. É preciso um bocado de boa vontade para encontrar uma crítica decente sobre livro decente ou filme adulto não pornográfico. Ainda é menos trabalhoso buscar certos assuntos pesados indo a um sebo do que cavar nos desvãos do ciberespaço nativo.

 JU_94| Matemáticas impuras

Meninos canadenses aprendem que a matemática tem viés “eurocêntrico” e “colonial”; a prefeita de Barcelona enfrenta a LGBTIfobia com um Centro de Novas Masculinidades; nos EUA, um conferencista chamado a palestrar no MIT é desconvidado por ter dito o que pensava sobre a seleção universitária ideal. Como o negacionismo da extrema direita, o irracionalismo “progressista” de cunho identitário e racialista vai longe no mundo — 25 anos depois de o artigo-bomba do físico Alan Sokal ter sido aceito de bom grado pela revista pós-moderna Social Text. Sokal denunciava em seu paper-paródia a deturpação da ciência e a relativização da verdade dos fatos, um pensamento tortuoso que saiu da academia para ganhar as massas na era das mídias sociais.

As bundas mais sublimes

Ontem saiu uma nova edição da carta, a Ju#46. Mas, ali pelo meio do ano, as bundas mais sublimes dos museus mobilizaram o Twitter, e a Jurupoca não se furtou em discretamente eleger suas preferidas. A Ju#33, a propósito, abriu com os “Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena”, de Jorge de Sena. O missivista voltou, afetivamente, à Fazenda Cachoeira, onde aprendeu a apear. A carta recomendou o livro de Patrícia Campos Mello, “Maquinações do ódio”, tascou o “editor geral da nação”, ou seja, o ministro do STF que sabia javanês, enalteceu Renata Lo Prete, lembrou a entrevista de William Faulkner em que o escritor americano diz que o melhor emprego do mundo é o de “zelador de zona”, e acendeu uma vela para o escritor Manoel Lobato, levado pelo Corona aos 94 anos. No Intervalo, a Ju trouxe “Pavor dos Paraísos”, canção febril de Fagner e Capinam, e ainda “revelou” duas cantoras: Ala.ni e Maria Marcella. Isso para começo de conversa. Ora, vamos apear!

Jurupoca #32, a Ju e a Tigresa

O coração da Ju se viu marcado pelas garras da felina, como (para um adolescente) pela homérica cena do Telhado” de “Gabriela” (a novela de 1975, por favor). A edição #32 da carta revela por que os pelos daquela deusa (deusas?) ainda tremem ao vento ateu. “Não quero entrar com meu plangente violão do saudosismo, mas o nosso jornalismo piorou. Muito mesmo’’, dizia Ivan Lessa em 1999. Em 2020, os jornais estão se matando quando se deixam editar pelo Twitter. A imprensa se vê entre a cruz do império do caça-clique e a caldeirinha das patrulhas do pensamento. ADEMG INFORMA: sai a clássica objetividade jornalística entra a “clareza moral”. E o jornalismo cultural brasileiro ou nossos cadernos de ex-cultura estariam evoluindo para o óbito? Melhor ouvir Segóvia tocar Villa-Lobos ou a Orquestra Mundana Refugi recapitular na tela partida da pandemia sua já “clássica” interpretação de Chico Buarque. Não perca! A Ju#32 está no Livro de Viagem.

Ju Extra — Carta de Quarentena #06

Uma imagem contendo relógio, placar

Descrição gerada automaticamenteEdição de Quarentena N° 6 — Belo Horizonte, Minas dos Matos Gerais, 22/05/2020


Deu no New York Times (versão em português): Licença para matar’: por trás do ano recorde de homicídios cometidos pela política no Rio /  Uma análise do Times constata que policiais disparam sem restrições, sob proteção de superiores e políticos, certos de que não haverá consequências para homicídios legais. A reportagem do jornal norte-americano saiu na segunda-feira (19). Como para ilustrá-la ou reiterá-la, no dia seguinte mataram o menino João Pedro Matos Pinto, de 14 anos. João foi baleado e morto em uma operação das polícias Civil e Federal em São Gonçalo, região Metropolitana do Rio. O governador Witzel é da mesma cepa homicida de onde brotou o chefe do Executivo. “Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente”, já pregava este nos anos 1990; “a polícia vai mirar na cabecinha e… fogo, anunciava aquele na campanha eleitoral. Tiveram milhões de votos por defenderem o bafo do “excludente de ilicitude”, essa permissão aos crimes policiais contra pobres moradores de favelas. Então, veja-se quem pode e quem não pode chorar por Joãozinho, ou, por um segundo, sentir-se na pele de seus familiares.


Opa! Vamos apear?

Quem lê a Jurupoca desde seu número inaugural, de quase um ano atrás, sabe que esta carta é um work in progress em busca de clareza, direção e utilidade, sem corromper seus propósitos.

Aceito e aprendo com as críticas que recebo, ao perseguir um caminho novo e próprio.

Ganho leitores e isso me anima. E me alegram os primeiros apoios que recebo de quem pode contribuir para a continuidade do trabalho.

Agradeço cada doação enviada e lastreio essa ajuda no compromisso de tornar este trabalho mais e mais relevante. O missivista não tem outra atividade como jornalista. Desde março, é jurupoco em tempo integral.

A ideia da carta surgiu durante uma caminhada no Parque Municipal, cá no Belo, numa manhã de junho passado.

Entendo que me preparei para escrevê-la em mais de três décadas de exercício profissional. Seu projeto, portanto, se confunde com um ideal de vida.

A pedra de toque da Jurupoca é criar uma microfissura num mundo marcado pela banalização e a superficialidade, no qual a imprensa cultural não mais se distingue na era do jornalismo online.

A atenção do leitor interessado em informação e crítica qualificadas sobre grandes livros, filmes, séries, gravações ou no debate de ideias é disputada por fofoca e pornografia caça-cliques — de que vive a quase totalidade das publicações na internet.

É o espólio do apresentador Gugu, é o reality show, é a rusga entre celebridades, é a receita de abobrinha, é não sei mais quê.

Valorizar a criação artística é uma pedagogia civilizatória. Representa uma ética, por certo. Não se destina a salvar o mundo, claro, mas, pode tornar a vida mais plena.

O projeto é tornar o envio da carta semanal, como  já é na prática, com as edições extras de quarentena, e lançar novos produtos.

Helahoho! helahoho!

Uma imagem contendo desenho

Descrição gerada automaticamente
Tenho acompanhado com interesse as profecias, como prefiro chamar certas previsões sobre o mundo pós-pandemia.

Consultores, empresários, especialistas de vários naipes anteveem à vontade o mundo novo, a “nova normalidade”.

Uma matéria de O Globo dá como certo que teremos mais “austeridade e senso de prioridade”; que o turismo vai se danar; que garçons vão nos servir vestidos como enfermeiros; que a globalização vai mesmo pro saco etc.  

O mundo que conhecemos, antecipa-se, vai acabar.

O que me parece certo e fácil de antever é que o fosso da desigualdade realmente vai se aprofundar. (Quanto ao Brasil, com seu combo de vírus e fanatismo que nos é servido, melhor calar.)

Sabemos que novas tecnologias transformam nossos hábitos, e a nós próprios, assim como a facilidade econômica de comer e consumir produtos e serviço nos engorda e afeta nosso caráter.

E que nos adaptamos às circunstâncias, venha a barra que  vier, ao conseguir sobreviver.

Mas em termos evolutivos nossa capacidade cognitiva é a mesma há milênios, e bota milênios nisso; seguiremos os mesmos até que os laboratórios do Vale do Silício concluam seu projeto do Humano 2.0.

Por enquanto, é seguro afirmar que a força de gravitação da desigualdade permanecerá constante. Continuará a atrair injustiça, indiferença, hipocrisia e perversidade.

Creio que a sociedade que não conquistar a igualdade de oportunidades para os que vão nascer será sempre o inferno na terra regido pela clave da miséria e pelo disfarce esperançoso dos mais privilegiados.

Ademais, estou com o detetivesco e filósofo Dr. House sobre a humanidade: People don’t change. Numa tradução bastante livre, gente é gente.

Helahoho! helahoho!

Além disso, tuta e meia. Nonada.


Guerra às fake news
Um estudante, que por segurança não revela sua identidade, abriu no Twitter no último domingo (17) uma conta brasileira do movimento Sleeping Giants. A iniciativa nasceu nos EUA pra combater o financiamento dos sites da extrema direita que propagam notícias fraudulentas e mensagens de ódio. O objetivo é impedir que recebam dinheiro com publicidade. Sleeping Giants aponta empresas com anúncios no sistema Google veiculados em sites porcaria, a exemplo do bolsonarista Jornal da Cidade Online. Em poucos dias, a conta brasileira alcançou 20 mil seguidores. Grandes empresas que indiretamente contribuem com a desinformação se comprometem a bloquear seus anúncios nas cloacas da internet. Banco do Brasil, Dell, O Boticário, Submarino e Telecine estão entre elas.  

Leituras ilustríssimas
A centenária livraria de língua inglesa Shakespeare and Company é uma das dádivas de Paris. Nos anos 1920/30 o lugar se tornou um porto seguro de escritores e intelectuais de várias nacionalidades. Alguns pertenciam à chamada Geração Perdida, na expressão da escritora norte-americana Gertrude Stein. Eram jovens que tiveram a má sorte de amadurecer durante a I Guerra Mundial. A casa lendária, fundada pela norte-americana Sylvia Beach, responsável pela primeira edição do Ulisses, de James Joyce, além de vender, emprestava livros mediante inscrição e cobrança de taxa. Entre os fregueses ilustres desse serviço estiveram Stein, Joyce, Hemingway,  Aimé Césaire,  Simone de Beauvoir, Jacques Lacan, e Walter Benjamin. Com o fascinante Shakespeare and Company Project, organizado pela Universidade de Princeton, nos EUA, podemos saber agora o que esses e outros clientes da livraria liam e por quais autores mais se interessavam. O acervo do projeto, excelentemente bem organizado e documentado, pode ser consultado em buscas por autor, obras ou fichas de empréstimo.

Livro e música
Sinta o clima que reina hoje na Shakespeare and Company neste charmoso vídeo da banda Moriarty, gravado na livraria no lançamento de seu álbum The Missing Room (2011).

“Lives fabulosas”
O pensamento mágico, o otimismo iluminado e, óbvio, genial, do publicitário Nizan Guanaes pode te tirar do mais fundo desespero, e quem sabe, melhor até do que a cloroquina, de livrar do próprio Corona. Mas, cuidado, experimente com moderação. O alumbramento açucarado e brega pode fazer do remédio um veneno. Nesta coluna da Folha ele nos ensina, citando a filósofa Regina Casé, que “ser pop é gostar das coisas”. Já a antevisão de outro sábio, o financista Ray Dalio, nos consola ao garantir que “a saída desta crise é a criatividade humana”. Nizan explica que está “estagiando nas lives aos domingos” e que tem “visto lives fabulosas”, onde “transborda a inteligência” de padres, influenciadores digitais, duplas sertanejas e políticos. Maravilha pura. O Nizan certa vez paparicou seus conterrâneos Caetano Veloso e Gilberto Gil com o epíteto “patrimônios intombáveis” da humanidade. Isso em 2015. Fiquei tão comovido que compus um pequeno suelto (como Delfim Neto ainda chama o comentário breve) a respeito. Agora o Midas publicitário e bilionário genial compartilha com seu leitorado outro achado. “Não tem só coisas horrorosas nessa pandemia. Tem dignidade, tem altruísmo, tem solidariedade, tem gente que vai morrer no front para que as pessoas sobrevivam”, recita, destacando de passagem a maravilha que é o eterno reality show BBB, que, ele informa, agregou 1 milhão de votos! na sua última versão, ao trazer pra “famosa casa” alguns influenciadores digitais, se entendi bem a coisa.

Desacertos cerebrais
A doutora Suzana Herculano-Houzel explica neste artigo da Folha como a tal da hipóxia silenciosa — o comprometimento da oxigenação do sangue pela Covid-19 sem que a vítima se aperceba — passa batida no cérebro.

Impeachment já!
Hélio Schwartsman está com a Jurupoca na defesa do impeachment como questão de honra ou, em suas palavras mais exatas, “obrigação moral”. Diz o colunista da Folha:

“Os crimes de responsabilidade cometidos pelo atual mandatário são tantos, tão ostensivos e tão graves que deixar de acusá-lo equivaleria a coonestar suas atitudes”.

Brasil x Suécia
O papo sobre a pandemia entre nós segue torto e retorcido. Além da tentativa de impor a cloroquina goela abaixo dos brasileiros mais pobres, persiste a comparação maluca entre a estratégia adotada pelos suecos e as iniciativas em curso no Brasil, sempre aos trancos e barrancos. E não podia ser diferente num país tão desigual. Mesmo um colunista de primeira ordem como o sociólogo Demétrio Magnoli, entre os melhores da nossa imprensa no emprego da inteligência aplicada à análise da informação, comete suas putadas, como se diz na Espanha. Num bom artigo em O Globo em que faz críticas mais ou menos justas aos secretários estaduais de Saúde, Magnoli conseguiu ver um polo simétrico à extrema direita bolsonarista (de viés psicopata), que batizou “fundamentalismo epidemiológico”. Deveras, Magnoli? Será justo contrastar esses dois “fundamentalismos”, sugerindo que ambos padecem da doença do fanatismo? Magnoli é um bom e bravo escudeiro das “liberdades civis” ameaçadas em governos ditatoriais, como o chinês, ou semiditatoriais, caso do húngaro. Leitor fiel de seus textos, sinto que sobre a pandemia ele tem hesitado ao escrever exatamente o que pensa. E me arrisco a dizer que tem lhe faltado alguma clareza e coragem ao opinar, como nunca antes. Nas entrelinhas, elogia o modelo sueco de controle da propagação do vírus, mas nem imagina ou não nos revela como tal modelo poderia ser aplicado no Bananão. Mirar democracias europeias, como a italiana, ou mesmo a cacofonia brasileira regida por Sua Excrescência, responsável por muitas das dificuldades enfrentadas nos Estados, é equilibrismo retórico em corda bamba. Fora uma ou outro exorbitância, logo contestada pela Justiça, as medidas de isolamento social em curso são rigorosamente legais, a despeito da oposição cerrada e hedionda do governo federal. Também é preciso não confundir o sentido dicionarizado de “confinamento”, a pena aplicada por governos autoritários a dissidentes políticos, com “confinamento” como palavra de ordem surgida nesta crise. É o que o Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa discute nesta coluna do El País Brasil.

A Suécia é aqui?
“Vamos falar da Suécia? Pronto! A Suécia não fechou!”. A frase escrota, típica da ventosidade verbal de Sua Excrescência, cheia mal e intoxica incautos e fanáticos. O sucesso do modelo sueco de controle da Covid-19 será mais bem avaliado no final desta triste história. Mas a Suécia está longe de ter dado as costas à ciência, e muito mais longe de ser governada por lunáticos. Aliás, os hospitais do país suspenderam o uso da cloroquina, diante dos efeitos colaterais verificados. Nesta ótima reportagem da Folha, Ana Estela de Sousa Pinto traça um panorama realista e pormenorizado da realidade no país escandinavo, cuja população, pra citar apenas um dado referido na matéria, equivale à de São Paulo, com uma densidade demográfica oito vezes menor.

Cenas brasileiras
Miguel Scrougi
, professor titular de Urologia da Faculdade de Medicina da USP, diz de maneira direta o essencial. Agorinha, o que é mais importante? Scrougi lembra de saída que os melhores resultados no combate à doença estão sendo obtidos em países governados por líderes eficientes, nos exemplos de Alemanha, Japão e Austrália, entre outros. “Revendo essas estratégias, confesso que fui tomado por um certo incômodo”, diz o médico. “Seria possível mitigar a catástrofe emergente no Brasil, país esfrangalhado pela desigualdade, com uma rede sanitária arruinada e, pior, dirigido por um presidente mais preocupado em salvar a família do que proteger os filhos da nação?”, ele se pergunta neste artigo da Folha. “Nem tentei responder”, continua o doutor, “logo me lembrei das imagens impiedosas que hoje desfilam nas nossas telinhas, expondo o sofrimento do povo brasileiro na sua forma mais cruel, a mistura do pavor pelo ataque temido, a dor pelas perdas extemporâneas e a impossibilidade de poder expressar indignação.”



Guia para o Netflix
O The New York Times selecionou os 50 melhores filmes do catálogo da Netflix, num trabalho bacana de seu time de críticos.

The Americans
Por falar no Vargas Llosa, o autor de Conversa na catedral também é fã de The Americans, a série criada por Joe Weisberg. Em sua última coluna no El País Brasil ele louva a história do casal de espiões da KGB infiltrado como americanos típicos no subúrbio de Washington, já nos anos finais da Guerra Fria. Llosa diz que se “atreve efusivamente a recomendar” o seriado por seu nível intelectual. As seis temporadas (2013-2018) seguem coerentemente o fio da narrativa e se aprofundam aos poucos nos dilemas morais que afligem o casal Philip (Matthew Rhys) e Elizabeth (Keri Russell) Jennings. Eles têm de se rebolar pra manter as aparências. Além da fachada de empresários donos de uma agência de turismo, precisam criar os dois filhos americanos, que acompanhamos até entrarem na adolescência, e atender prontamente às demandas do serviço secreto soviético. Sem falar dos dribles na vigilância do FBI! Por acaso, um agente da contraespionagem do Bureau vai morar em frente aos Jennings! Roteiristas, diretores e atores precisam ser muito bons pra enfrentar as cambalhotas e surpresas do cotidiano em uma trama dessas sem escorregar no lugar-comum ou no simples besteirol. Philip e Elizabeth, agentes inteligentes e bem treinados, não são espiões soviéticos caricatos. The Americans esteve entre minhas séries favoritas mencionadas neste artigo. Os episódios podem ser alugados na Amazon Prime.


Visita ao D’Orsay
Tenho tremenda simpatia pelo lugar e aproveitei este programa do Google Arts and Culture para revisitar a história e o acervo do delicioso museu parisiense — Da estação ferroviária ao Museu de Orsay renovado.

Aeon + Psyche
O já excelente site em língua inglesa Aeon, dedicado à publicação de ensaios e vídeos no campo das ciências, ideias, filosofia e cultura, acaba de lançar a revista online Psyche, espécie de filhote cujo propósito é explorar as conexões entre a investigação filosófica, os conhecimentos práticos e as artes. Por ali cheguei ao curta de animação franco-dinamarquesa Nothing Happens (nada acontece), uma instigante história sobre nossa capacidade de gerar expectativas e observar a natureza.

Pra sair do tempo
O álbum Debussy – Rameau do jovem pianista islandês Vikingur Ólafsson é encantador, e o que mais tenho ouvido nestes dias. Lançada há pouco pelo selo Deutsche Grammophon, a gravação tem uma beleza inequívoca. A música nos abre um intervalo de irrealidade e gratidão à beleza. As peças de Claude Debussy (1862-1918) e Jean-Philippe Rameau (1683-1764), compositores franceses que viveram períodos de transição na história da música, soam com inacreditável atualidade. Para uma análise técnica, veja-se Alex Ross, crítico titular da revista The New Yorker. Ele escreve que a técnica de Ólafsson é “assombrosamente exata e clara, quase translúcida”. Você não precisa ler partitura pra perceber isso.


Duas listas
Pra variar, vou recomendar mais uma lista do cineasta e produtor musical Fernando Trueba no Spotify, na série Música para estes dias. Ele reuniu aí no enlace coisas lindas de João Donato. Para Trueba, Donato é um “gênio do piano brasileiro”, um louco amável, douce folie.  Na apresentação do El País, ele comenta brevemente a biografia do músico acreano octogenário. Lembra que, quando viveu nos EUA, Donato foi pianista de Bud Shank, Mongo Santamaría, Cal Tjader e Tito Puente, entre outros bambas do jazz. A outra lista é de Gilberto Gil. Tem um recadinho do artista no início. Ele juntou canções que evocam sentimentos alusivos à pandemia, amor, devoção e divertimento entre eles. De quebra Gil me reconduziu a um belo álbum da Biscoito Fino de 1999 com versões brasileiras, adaptadas quase todas com maestria por Carlos Rennó, de clássicos de Cole Porter e George Gershwin. Tem Tom Zé com Você é mel (You’re The Top, de Porter, em tradução do poeta Augusto de Campos) e o delicioso registro de Monica Salmaso, incluído na lista de Gil, de Lorerai (Gershwin). A versão disponível do álbum no streaming é uma compilação do disco original.

 

Vírus de visão
“Deveríamos ter uma visão global sobre este tema [pandemia], mas não temos. O vírus é que tem. Os vírus são mais espertos e mais antigos que nós… e mais democratas”, comenta o artista espanhol Miquel Barceló nesta ótima entrevista a Borja Hermoso, editor de cultura do El País.

Greene x sono
Varei uma madrugada esta semana por não conseguir largar O fator humano, romance de espionagem de Graham Greene (1904-1991), meu autor preferido no gênero, de quem falei na Ju#05. Quando tenho dificuldade de me concentrar em outras leituras, Greene é tiro certo. O autor é um contador de história magistral, e sua narrativa é arguta, cortante, de uma profunda e arraigada humanidade, marcada por irresistível senso de humor. Como diz o escritor irlandês Colm Tóibín no prefácio da obra, Greene é “um mestre da frase única que obriga o leitor a parar, [e] que funciona como uma carga de profundidade”. Ao ler seus livro sublinho trechos de pura revelação, ou epifanias se você quiser, como “os táxis começaram a despejar convidados como embrulhos vistosos”, ao descrever as cenas de um casamento, ou “ficou sentado durante um momento com o motor ligado, a observar as gotas de chuva a perseguirem-se umas às outras no para-brisas”. Maurice Castle, o herói desse relato, é uma agente duplo movido pela gratidão e pelo amor à mulher negra que conheceu na África do Sul do Apartheid e ao filho dela. Tóibín diz, na batata, que Castle é o espião menos glamoroso já criado, e por isso é de grande interesse. Temos no Brasil uma tradução da L&PM, mas li a edição eletrônica de uma editora portuguesa, o que é sempre divertido. Em Portugal, moça é sempre rapariga, a criança é sempre um miúdo, uma isca de anzol é um isco…  

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

“Grande Sertão: Veredas, 60 anos e mais

Reportagem lembra Criolo, o último remanescente
da expedição de Guimarães Rosa que compõe as origens de sua obra

Grande Sertão
Captura de imagem da TV Folha. Reprodução

 

A imprensa cultural no país, este jornal tem insistido, anda mal e não é de hoje. Mas nem tudo se equivale no fosso da decadência.

A Folha ao menos mantém algo da velha inquietação que marca a trajetória da Ilustrada nos últimos 30 anos ou mais um pouco.

Este jornal tem esculhambado o caderno muitas vezes, mas também elogiado quanto vê motivos para isso, como boas sugestões para notas.

Nesta quarta, a Ilustrada se junta às escassas celebrações dos 60 anos de “Grande Sertão: Veredas”, o genial romance de Guimarães Rosa.

José Marques assina a matéria sobre o empresário Francisco Guimarães Moreira Filho, que está com 81 anos é mais conhecido como Criolo.

No ano passado, Mariana Peixoto, do “Estado de Minas”, já havia rememorado sua história.

O homem é o último remanescente da famosa tropa que Rosa integrou em 1952, com sua cadernetinha atada ao pescoço para registrar o que via, ouvia e traduzia.

Esse material lhe ajudaria a escrever sua obra, em que o Sertão é convertido à perspectiva de quem se via plenamente capaz de retratá-lo com as ferramentas da alta literatura; de quem se sentia seguro de que sua criação iria figurar entre as referências da língua portuguesa e da literatura mundial.

Eis um pequeno trecho da reportagem, em laranja, seguido por uma passagem aleatória da obra:

“Criolo tinha 17 anos quando participou da travessia de dez dias do escritor pelo interior de Minas Gerais. A comitiva foi organizada pelo pai de Criolo, Chico Moreira, e saiu da fazenda Sirga, onde hoje é o município de Três Marias, para levar 180 cabeças de gado até a fazenda São Francisco, em Araçaí, a 240 km de distância.

Guimarães Rosa (1908-1967) era primo de Chico e foi junto para conhecer o dia a dia do sertanejo. Aprendeu a andar de cavalo, a tocar boiada e, quando voltou para casa, no Rio de Janeiro, levou um papagaio”.

Espero me animar a reler a obra este ano, na linda edição da Nova Fronteira, com a capa de tecido branco e título bordado com linha vermelha.

Rosa Nova FronteiraO “Grande Sertão” me lembra um livro sagrado,como um oráculo, você o abre ao acaso e se depara com uma passagem como esta, que vai à página 475:

“Bestiaga que ele me respondeu, e respondeu bem; e digo ao senhor:

— “Sertão não é maligno nem caridoso, mano oh mano!: —…ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.”

 

 

 

A Belchior o que é dele nos 40 anos de “Alucinação”

Belchior tem pelo menos 20 canções em sua obra cuja força poética
e vitalidade superam muito do que seus contemporâneos fizeram no mesmo período

alucinação 1

Só há pouco tempo Belchior deixou de ser tratado como figura pitoresca e decadente.

O caso do seu desaparecimento, ainda mal explicado, é outra história, que deixo para os “Fantásticos” da vida.

Mas os 40 anos do LP “Alucinação” — lançado a 10 de maio de 1976 — ainda não receberam o memorial e a análise crítica que mereciam.

O “Estadão”, decadente como toda a imprensa cultural brasileira, deu ontem duas páginas sobre o disco e a vida do cantor.

Páginas de uma mediocridade lancinante, perto do que o jornal já fez e foi.

No texto principal, assinado por Renato Vieira, não se diz nada do valor artístico da obra.

“Alucinação” se tornou um “clássico instantâneo que atravessou gerações”, lemos na matéria, entre outras leguminosas.

Executivos da gravadora Phonogram recearam que “o público poderia não entender aquele som misturando Bob Dylan e elementos regionais” — o que não diz nada sobre o disco.

Belchior tem pelo menos 20 canções em sua obra cuja força poética e vitalidade superam muito do que seus contemporâneos fizeram no mesmo período.

alucinação 2Sinto mais frescor em “Alucinação” — apenas para situar o que digo no primeiro time da MPB — do que em “Meus Caros Amigos”, de Chico Buarque, ou no álbum duplo “Doces Bárbaros”, também lançados em 1976.

Poucos artistas tinham o preparo intelectual e o talento de Belchior — estudante de filosofia e humanidades e de quatro anos de medicina, em Fortaleza — para dar forma de canção popular ao fundo cultural da época e, ainda, emitir luz própria na era constelar da MPB.

Em “Velha Roupa Colorida” — para pegar apenas a segunda faixa de “Alucinação”, depois da linda obra-prima que é “Apenas um Rapaz Latino-Americano” —, Belchior tece com delicadeza citações dos Beatles, de Bob Dylan e do “Corvo” (“The Raven”) de Edgar Allan Poe na letra grave sobre o envelhecimento precoce da geração hippie.

Havia uma carga incomum de sinceridade e verdade em suas músicas que captavam os desejos do jovem classe média das metrópoles — da perspectiva de quem vivia no interior do país e na periferia de Rio e São Paulo — ou a desilusão com ideais da contracultura.

Renato Vieira diz que se Belchior estivesse hoje na praça poderia entrar na onda de Patti Smith e Titãs, nos exemplos dele, e regravar “Alucinação” 40 anos depois, com novos arranjos.

Seria excelente ideia. O LP de 1976 foi feito às pressas, sem empenho da gravadora. Alguns arranjos são indignos das canções.

A melhor maneira que conheço de voltar sempre à música Belchior é tocar um disco fabuloso, que até hoje me parece subestimado e desconhecido.

“Um Concerto a Palo Seco”, CD de Belchior acompanhado por Gilvan de Oliveira, de 1999, lançado pela Camerati — e relançado em 2006 como “Acústico”, com duas faixas extras — nem sequer consta da discografia do artista no “Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira“.

Na capa, revejo com prazer o retrato do compositor a carvão feito por Fernando Fiúza.

Gilvan, violonista refinado, de toque clássico, imprimiu a mesma linhagem harmônica às 12 canções do CD, gravado no estúdio Bemol, em Belo Horizonte.

O resultado é um som cristalino e potente, ao mesmo tempo de uma cadência sensual e melancólica. Equiparo seu páthos a um lied de Schumann.