De volta a Dunas com Tom, Zé Miguel e Ezra

Jurupoca_53. 8 a 14/1/2021. Ano 2.

Maracujás (passion fruit em inglês) pendem na cerca da Posada do Nono, em Venda Nova do Imigrante (ES), meio do caminho entre BH e Dunas de Itaúnas. A luz é da manhã de 20/12/2020

NOTAS PARA CXVII

 M’amour, m’amour

      que é que eu amo e

                onde estás?

Que perdi meu centro

             lutando contra o mundo

Os sonhos colidem

                 e estão despedaçados —

e eu que tentei fazer um paradiso

                         terrestre
[…]

CXX

Tentei escrever o Paraíso

Não se mova
          Deixe falar o vento
                esse é o paraíso.
Deixe os Deuses perdoarem
                    o que eu fiz
Deixe aqueles que eu amo tentarem perdoar
                       o que eu fiz.

Ezra Pound: Os cantos. Tradução José Lino Grünewald, Nova Fronteira, 2006.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Zé Miguel Wisnik, além de tudo, é pianista e um dos maiores compositores brasileiros em atividade. Tudo pode se referir ao professor de literatura e ensaísta de mão cheia que ele também é.

Claro, não é alcançável pelos rebanhos. No título de seu álbum de 2003, Pérolas aos poucos, poucos tem valor pronominal. Na letra da canção que ouviremos (dele com Paulo Neves), atualíssima, a palavra tem função adverbial, mas não só: “Eu jogo pérolas aos poucos ao mar…”, uma troça poética com “pérolas aos porcos”, referência ao evangelista Mateus 7,6: “Não deis aos cães o que é santo, nem atireis as vossas pérolas aos porcos, para que não pisem e, voltando-se contra vós estraçalhem.”

As pérolas de Zé Miguel vão para poucos. E por sinal passam longe do radar do jornalismo cultural, que hoje, nas trincheiras da “guerra cultural”, despreza a música (e a arte) de qualidade, interessado demagogicamente em dar lugar à diversidade — e, óbvio, na própria sobrevivência na era do caça-clique.

O jornalismo perde a função crítica quando o valor artístico é o de menos.

A criação sem balizas desaparece como bolhas de sabão, e todo o ambiente cultural se banaliza e degrada. Culturalmente, somos uma espécie de Roma destruída pelos bárbaros.

Eu jogo pérolas ao fogo todo meu sonhar/ E o cego amor entrego ao deus dará…

Eu jogo pérolas aos poucos ao mar
Eu quero ver as ondas se quebrar
Eu jogo pérolas pro céu
Pra quem pra você pra ninguém
Que vão cair na lama de onde vêm

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
E o cego amor entrego ao deus dará
Solto nas notas da canção
Aberta a qualquer coração
Eu jogo pérolas ao céu e ao chão

Grão de areia
O sol se desfaz na concha escura
Lua cheia
O tempo se apura
Maré cheia
A doença traz a dor e a cura
E semeia
Grãos de resplendor
Na loucura

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
Eu quero ver o fogo se queimar
E até no breu reconhecer
A flor que o acaso nos dá
Eu jogo pérolas ao deus dará

Viajei de carro no Natal, comi muito asfalto, de novo rumo a Itaúnas, Dunas de Itaúnas, passando, oh vida, oh dor, por Manhuaçu etc. com pernoite a meio caminho na deliciosa Pousada do Nono, em Venda Nova do Imigrante, já no Espírito Santo, onde cliquei os maracujás que embelezam este número da Ju.

Já a imagem no alto da página capta os lindos urubus que frequentam a área de coleta dos pescadores da vila. Observar o voo magistral dessas aves é um espetáculo sempre renovado. São mesmo os mestres do vento, como canta Jobim n’O boto.

Ouvi muita música brasileira na estrada, sobretudo Tom, que é com quem melhor viajo, à parte os quartetos de Beethoven. Consigo a um tempo me distrair e melhorar a concentração para guiar com calma e cuidado. É minha “estratégia” para me meter na selvageria, entre tarados do volante.

Pois nessa viagem a Dunas outra canção de Zé Miguel me subiu à cabeça, além de Pérolas aos poucos.

Subiu como revelação, revelação artística, a única que às vezes ainda experimento. Além da arte apenas aos santos algum mistério se revela. Se bem que publicitários deram para falar em “epifania”.

Essa música é Mais simples:

É sobre-humano viver/ E como não seria…

É sobre-humano amar
‘cê sabe muito bem
É sobre-humano amar, sentir
Doer, gozar
Ser feliz

Vê quem sou eu quem te diz
Não fique triste assim
É soberano e está em ti querer até
Muito mais

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

Mas deixa tudo e me chama
Eu gosto de te ter
Como se já não fosse a coisa mais humana
Esquecer

É sobre-humano viver
E como não seria
Sinto que fiz esta canção em parceria
Com você

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

“É sobre-humano viver/ E como não seria…” são versos de uma precisão cristalina. E o que seria a “expressão mais simples” da vida e do viver?

O super-homem nietzschiano e todas as noções assemelhadas estão mofadas.

Sim, parte da ciência persegue o humano 2.0, via transumanismo, inclusive a cura da morte com a engenharia genômica. Mas aí não vale.

Ser humano, humano pra valer, é sobre-humano, por certo.

Presumo que é mais simples ser gafanhoto, golfinho ou andorinha.

E que o verdadeiro ser humano era o caçador-coletor nômade de dez mil anos atrás.

Ser humano era não se deixar almoçar pelo tigre, e dormir alimentado e exausto sob as estrelas, aos bandos, nada menos.

A civilização — 1% da história do Homo sapiens sapiens — da agricultura ao Vale do Silício, o corrompeu e tornou a vida sobre-humana —para a maravilha e a desgraça.

O mal-estar tão bem descrito por Freud só faz crescer, ou inchar, e chega à náusea.

É o mal que se tenta remediar com drogas de toda espécie, inclusive as das farmacêuticas, da cosmética, do consumo, da tecnologia.

Para Bifo Berardi somos neo-humanos “cercados e subjugados pela onipresença dos automatismos da máquina digital conectada às redes”, que ele compara a um organismo sem ar.

Esse filósofo italiano de esquerda diz que vivemos uma crise da imaginação, asfixiados pelo capitalismo financeiro, e que é preciso “reativar o corpo erótico da sociedade” por meio da revitalização da linguagem e da poesia (como metáfora).

Sei não.

Nossa espécie é do balacobaco. Poetas como Pessoa ou Shakespeare conceberam tudo que é humanamente inconcebível. Eram gênios.

Mas ainda tocarão o mundo que sai das forjas frias do tempo e põe para dormir o espírito?

A alienação da cultura, as massas atomizadas pela tecnologia e as ideologias pamonhas das “guerras culturais” converteram a humanidade num formigueiro desgracioso.

“Dão à luz do útero para o túmulo, o dia brilha por um instante, volta a escurecer”.  Me pergunto se essa conhecida citação de Beckett em Esperando Godot ainda inspirará algo em alguém, além do gesto autômato de decalcá-la no Facebook e esquecer o assunto. Ah, se ao menos o inspirasse a tomar um Chicabon na esquina.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Deixa o mato crescer em paz

Boca de siri. Não me vá dar com a língua nos dentes. A notícia pode chegar aos ouvidos do ministro do Meio Ambiente de sua excrescência jumentíssima. No Parque Estadual de Itaúnas trabalham para recuperar matas de restinga e conter o avanço das dunas, das areias sopradas pelo vento que já sepultaram a antiga vila local. Como se sabe, o ministro Ricardo de Aquino Salles é um janota filisteu por princípio contrário ao meio ambiente, por isso está no cargo. Saleraço e Caveirão.105mm tem poluções ao sonhar com fogo, trator, expansão agropecuária e imobiliária e a mineração geral do país. Caveirão.105mm projeta construir em Angra dos Reis uma espécie de Disney marinha. Tem horror ao mato, ao bicho, ao índio. Quero dedicar a Saleraço, nesta carta, uma curta serenata, de uma música só:

Canção dedicada ao ministro Salles: Não quero fogo/ quero água…

Brexit is Brexit

Brexit means Brexit. Brexit is Brexit. Dona Theresa May tinha razão. Não somos ruminantes, por mais fracos que alguém seja, para digerir sem parar um medo ou ideia “fixa”. Nem roedores para roer até o osso uma promessa ou decisão jamais realizada. Sim, saída é saída e não é não.  Mas tenho cá minhas dúvidas… Cada luz do dia nos traz uma nova cor, e a confusão de hoje pode pacificar amanhã, como o suflê de enxofre da aflição que a insônia infla em geral murcha de manhã.

Somos todos Dilma

Sua excrescência jumentíssima voltou a zurrar sobre a tortura sofrida pela ex-presidente Dilma Vana Rousseff. Todo apoiador do presidente é seu cúmplice nisso. Caveirão.105mm repete os relinchos que ouvimos, e me fizeram vomitar, em seu voto no impeachment de Dilma. Nossa humanidade foi rebaixada ainda mais. Que tanta gente seja incapaz (de pai e mãe) de perceber a brutalidade desse fato deve dizer algo sobre nossa pretensão de ser um país que preste.

Dilma presa. Foto do Arquivo Público de São Paul

“Do you like it, macacada?”

Na véspera do Réveillon Demétrio Magnoli publicou uma de suas melhores colunas do ano. É um dos raros comentaristas brasileiros com estofo e destemor ao opinar. Ele não se deixa patrulhar nem tenta agradar no Instagram. Sua presença no GloboNews em Pauta, sou capaz de apostar, tem os dias contados. Ele não se afoga na poça demagógica dos colegas e costuma respaldar análises com firmeza e reflexões bem apuradas. O texto em questão é “Que vontade de nascer americano”, e saiu em O Globo. Magnoli desenha como extrema direita e esquerda no Brasil macaqueiam ridiculamente a “guerra cultural” que divide os EUA. Para você com preguiça de sair dessa página, copio os dois parágrafos finais:

“A esquerda brasileira já foi anarquista, modernista, cosmopolita, comunista, tropicalista e sindicalista — mas, em cada uma de suas encarnações, conservou-se fiel à convicção de que existe uma nação única, cozida no forno do passado. Não mais. #MeToo, #BlackLivesMatter: nossa esquerda vive a história dos outros e já nem sabe mais falar português.

“É um duplo divórcio da realidade brasileira. A extrema-direita enxerga, em meio a brumas, uma nação sem leis ou instituições, habitada por colonos armados e pregadores puritanos agarrados a cruzes: os EUA imaginários do faroeste. A esquerda, por sua vez, confunde seu país com um outro: os EUA das Leis Jim Crow, da segregação legalizada, do censo que classifica as pessoas em categorias raciais estanques.”

O viés do NYT

No New York Times — do alto de seu jornalismo de torre de marfim, como o chama um articulista na revista Quillette —pode parecer que a facção delirante da direita republicana faz “guerra cultural” sozinha, contra quem está inocentemente quieto no seu canto, senão contra fantasmas. Um crítico do jornal como James Poniewozik, em artigo traduzido pela Folha, não consegue apontar o outro lado em guerra com os conservadores. A esquerda é nomeada apenas como de “viés liberal”. É uma gente justa que não comete excessos ou tortura a história; não se ferra a ideologias anacrônicas; não alimenta o ressentimento do eleitorado republicano; não patrulha nem cancela ninguém que dê um passo fora do riscado do credo politicamente correto. Imagina-se que estão do lado do bem e da verdade e sob ataque de bárbaros ensandecidos como o espantalho laranja que tentou tocar fogo em Washington. Isso mostra que a jornalista Bari Weiss estava coberta de razão quando se demitiu do Times e, em carta aberta, acusou o jornal de se deixar editar pelo Twitter. Vai uma passagem da entrevista que ela deu à Folha quando esteve no Brasil, mês passado:

Em sua carta de demissão, a sra. fala que o Twitter tornou-se o editor do NYT. A mídia capitulou às novas formas de comunicação? Antes da internet, o chefe era o anunciante. Esse modelo se desintegrou. Agora é o assinante, o leitor, e os que são estridentes em lugares como o Twitter têm influência desproporcional. O público do NYT é formado por liberais ou democratas, mais de 90%. O incentivo passa a ser dar aos leitores o que eles querem. Toda pressão empurra para publicar mais um artigo sobre como Trump é um monstro ou um palhaço. Há um desincentivo para contar verdades inconvenientes contra noções pré-concebidas. Cada vez mais, o NYT e outros veículos mostram uma pequena faixa do país, um mundo como os editores ou os leitores gostariam que fosse. É mais realismo socialista do que relatar as notícias.

“Quando o NYT a contratou, a razão foi tornar o jornal mais diverso. Acha que era um desejo genuíno? As pessoas que dirigem o NYT sentiram, após a eleição de Trump, que haviam errado numa grande história. Você pode me chamar de ingênua, mas acho que eram genuínas no desejo de expor seus leitores a um espectro mais amplo. O problema é que muitas das pessoas mais jovens que contrataram têm uma visão diferente. Entraram no jornalismo para advogar coisas, estar do lado certo da história. Era inevitável que isso fosse resultar em algum tipo de conflito.

“É algo geracional? Em grande medida, sim. Essas pessoas jovens, inteligentes, estudaram nas faculdades mais respeitadas do país. Mas essas faculdades são o ponto de origem desta nova ideologia. E as pessoas levam suas ideias para empregos em editoras, museus, jornais. Em vez de essas instituições transformarem os jovens, são os jovens que as transformam. Esse pequeno grupo fanático e moralmente justo maneja as mídias sociais e faz acusações de intolerância com total descaso. Aterroriza os que acreditam nos métodos tradicionais.

“Universidades de esquerda sempre existiram. O que mudou agora? É a internet? Se eu quero ir à mídia social e ganhar pontos com meus amigos, é muito fácil, não leva dois segundos e não custa nada. Funciona quase como um movimento religioso. É capaz de, como muitas religiões em seus estágios iniciais, queimar muita coisa para conseguir o que quer. Essas ideias, tenham o nome que tiverem —política identitária, teoria racial crítica, justiça social— estavam contidas em departamentos periféricos de universidades. Mas como disse Andrew Sullivan [escritor britânico], todos nós vivemos num campus agora. Estamos vivendo no mundo dos departamentos de estudos de gênero.”

Ela não faz bundalelê

Leila Pinheiro é uma grande artista e uma senhora elegantíssima. Claro, não faz bundalelê nem posa de pijama para atrair engajamento nas redes sociais. Sua conta no Youtube nos deu mais este presente às vésperas do Natal. Sua carreira é o caminho iluminado de quem conhece a dimensão da música popular e não se permite pular a cerca da concessão à vulgaridade.

Quase levo uma rabanada do bicho acima, postado à beira-rio e defronte à sede do Parque Estadual de Itaúnas. Parei ali várias vezes pra admirá-lo, como volto sempre aos restos do pequi vinagreiro que na praça da igreja representa a destruição da mata atlântica

O ano do VAZIO

EDIÇÃO DE FIM DE ANO

Jurupoca_52. 18/12/2020 a 7/1/2021. Ano 2

Uma galeria vazia, foto via Widewalls

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Eu sei sobre o Natal. Bimbalham os sinos etc. Mas balanços são um saco. Deixo pra revista Time, que elegeu Biden e Kamala personalidades do ano.

Em 20 de janeiro, puta merda, nos livramos (talvez provisoriamente) do balofo espantalho alaranjado que assombrou o mundo nos últimos 4 anos.

2020 é o ano da peste.

2020 é o ano do pemba.

2020 é no ano do Jumento, ou seja, mais um ano de Sua Excrescência jumentíssima, Caveirão.105mm, e toda a récua, a tropa de animais de carga (mesmo que cavalgaduras, corja, súcia, quadrilha, carcaria e malta).

Mas, sobretudo, 2020 é o ano do VAZIO!

***

Essa derradeira carta de 2020 saiu meio excêntrica, fora do padrão, se a Jurupoca possui algum.

A leitora sabe como um influenciador analógico segue à risca os mandamentos do marketing digital.

A gente tem de se dar por realizado quando 2 ou 3 abnegados clicam aqui. É um marco, uma festa na redação, tem champanhe George Albert e tudo.

E convenhamos, é triste fechar 2020 num registro meditabundo, você me perdoe. Mas não há o que fazer.

Fomos parar num cul-de-sac, o fundo do saco, beco sem saída.

É que a Ju está pra lá de pra frente e está me passando pra traz.

Decidida a se supermodernizar, ela só entra escondida no Face e no Insta, que é pra ninguém reparar. Mas acabo notando. E relevo que meus concertos de flauta já não lhe despertem emoção, e menos ainda, ó, pavor, lhe acendem o fogo.

Ih, que coisa mais esquizoide! Parece que bebe!

Que balda é essa de falar da Ju, da Jurupoca, desse jeito — você, com juízo e razão, haverá de se perguntar —, como se quem escrevesse não fosse a própria escritura?

E quem disse que é?

Assim como não era autor do Jornal do Siúves, e esclareci isso bem lá atrás, acho, não sou autor da Jurupoca.

Quem é então? Sei lá. Pierre Menard, autor do Quixote segundo o Borges? Vai ver.

Coisas da vida. Mas não bebo para escrever. Nunca dá certo.

Mas a Ju me deixa triste e cabisbaixo e umas tantas vezes me parte o coração. Bom rapaz, faço que não a vejo pular a cerca digital.

Não que eu seja santo. A Ju talvez, coitada, apenas reaja a certas inconstâncias autorais, como quem navega entre a ilha de Lia e o leito de Rosa, ou oscila entre Nize e Estela e ela (você entenderá essas referências no Intervalo).

Assim se passou mais este tal de 2020, cujos zeros são sumidouros de dois pobres patinhos na lagoa diante dos nossos olhos.

Como encarar um áporo, um problema sem solução, o drama que o leitor e a leitora da carta, verdadeiros mártires, têm acompanhado aqui como um seriado de terror?

Já foi mais fácil.

Antes, bem antes, alguém fumava um maço de Minister por dia e na hora do arrocho fumava dois, se ferrava no grosope, como dizia adoravelmente seu Joviano, saía por aí, lia um romance, cometia um poema, rodava até furar um LP de Leonardo Cohen ou Nelson Ned, e, dado a esportes mais radicais, recorria a um mercado generoso, eternamente rico em subterfúgios estupefacientes, da marijuana ao cheirinho da Loló ou Lança, do ácido à psilocibina, do chá de lírio às papoulas da terra do fogo, no cantar de cátedra do philosophy doctor Zé Ramalho da Paraíba.

Pelo menos esse era o padrão da juventude, e a juventude, como disse celebre e sabiamente Bernard Shaw, é a coisa mais preciosa na vida. Pena que é desperdiçada com os jovens.

Mas e hoje? O samba é diferente, cadenciado, e a batida é escatológica (no sentido filosófico, ao menos). Ensaboa, mulata, ensaboa.

Um alienista vai logo te ordenar um upgrade no antideprê e repor seu armarinho de reguladores mórficos e aplainadores de picos ansiosos. Assim se enquadra um cristão à ordem do dia e ao espírito do tempo.

Ah, naturalmente, vem os adendos adverbiais: se alimentar bem e ricamente, praticar sexo, exemplarmente, fazer terapia, ginástica, comer abacate, tudo regularmente, fazer meditação, profundamente, fazer coaching, necessariamente, e perseverar, positivamente, numa vida social plena e higiênica, certamente. Isso só pra começar. Seguramente, esse é o caminho da resiliência e da santidade aos 115 anos. Esse é, meramente, seu investimento, como se diz agora.

Num caso ou outro, no vai da valsa ou rock’n’roll primaveril de trasanteontem e o atual samba quadrado de agora, texto e subtexto se confundem numa algaravia pós-dodecafônica.

E é o maior barato!

Se esse caso não tem solução, se a equação não tem saída, resta o texto como variante da vida vivida. É o que chamo escrevidas.

Uma das maiores lorotas do vulgo é que só se vive uma vez.  Poucas e boas. Conta outra, bro.

Vivemos uma sucessão de vidas,  uma depois da outra, e uma sucessão de eus, um depois do outro, donde o autoengano da uniformidade, de que somos seres únicos.

Vai ver daí pintou o aforismo de Cioran: “Sem a ideia do suicídio há temos eu tinha me matado.”

O segredo é não ter pressa. Para ir ao outro bairro, como diz um autor espanhol, não é o caso de pegar o atalho do suicida. “Não reza a máxima que a única coisa segura na vida são a morte e os impostos?”, lembra o Carlos Castro.  Pois é. “Pra que precipitar os acontecimentos?”

E por que não ouvir os 4 Impromptus de Schubert, aqui com Alfred Brendel?

E por que não rever Tom Jobim e Leila Pinheiro ensaiarem a Valsa brasileira (Edu Lobo e Chico Buarque) para a gravação do Songbook de Edu Lobo?

E por que não ouvir o professor Davi Arrigucci Jr dizer o Áporo na exata batida drummondiana?

E por que não se segurar no galho da Ju?

E por que não ser o autor da Ju?

Boas festas!

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Vertigem: do Financial Times a O Tempo

Leio no El País um elogio à publicação dos diários de Lionel Barber, celebrado e respeitado editor do Financial Times (2005-2020). A independência jornalística para a saúde financeira, permanência e vitalidade de um veículo de imprensa é um truísmo. Os mitológicos anos de Ben Bradlee à frente do Washington Post foram parar no cinema em um filme como Todos os Homens do Presidente. O editor Alan Rusbridger, é bem sabido, deu grandeza, respeitabilidade e admiração mundiais ao bicentenário The Guardian enquanto se manteve no cargo (1995-2015). Embora no Brasil tenhamos veículos respeitáveis e esforçados, estamos longe do padrão anglo-saxônico. Falo como observador e jornalista cuja experiência concreta nunca ultrapassou a imprensa regional, que é o inferno de toda e qualquer pretensão ao Jornalismo digno do nome. O lançamento em Minas de O Tempo, do empresário Vittorio Medioli, em 1996, onde durei dez anos, trouxe empregos, bons salários e abriu o mercado das ilusões. Nunca me esqueço, apenas alguns anos depois, de uma reunião no gélido e mofado auditório do jornal em Contagem, na avenida Babita Camargos. Enfrentávamos mais uma de tantas crises, com passaralhos, choro e ranger de dentes. Medioli, agora prefeito reeleito de Betim, subiu ao palco como mandachuva imperial para reagir às nossas reivindicações. Ainda o ouço profetizar na sua fala mansa, com forte sotaque de italiano nortenho (a imprensa italiana, a propósito, nunca foi grande coisa): “Vocês vão acabarrr na sarrrjeta”. Na batata! O vaticínio valeu para nós, jornalistas desempregados ou ganhando bem a vida em assessorias de imprensa e relações públicas que parasitam o jornalismo, quando ainda não capengando no trabalho precário em jornais que morreram e ainda respiram, no dizer de Caetano Veloso (com outras palavras) sobre o Jornal do Brasil. Valeu para o jornalismo regional mineiro. Valeu para montes de jornalecos que o Google não salvará.

Um país apedrejado

Os editorialistas do Estadão seguem afiados: “Desde sua posse, mas especialmente em meio à pandemia de covid-19, o presidente Jair Bolsonaro não se comportou em nenhum momento como se soubesse o que fazer com o poder que os eleitores lamentavelmente lhe conferiram em 2018. Bolsonaro não preside a República; depreda-a – e nisso é coadjuvado não somente pelos fanáticos camisas pardas bolsonaristas, mas por muitos brasileiros comuns que, por ignorância do que vem a ser uma República, respaldam a vandalização da Presidência e, por extensão, da própria democracia.” Primeiro parágrafo de O demolidor da República e seus cúmplices, publicado nesta quinta-feira (17). Ouro puro.

O suspense do ano

Não vi em 2020 outra série de ação melhor que a britânica Gangues de Londres, Gangs of London em português corrente, no Starzplay/Prime Video, já no quinto episódio. Seus criadores, Gareth Evans e Matt Flannery, parecem ter feito a escolinha do professor Martin Scorsese e tomado lições com Francis Ford Coppola e Quentin Tarantino. Ainda há toques da saga Bourne e, surpreendentemente, a inspiração de Jogos de Tronos em um entretenimento adulto. Cada capítulo transcorre com a tensão e urgência do grande suspense. A violência abusiva é posta a serviço da estética, é coreografada. O quarto episódio termina como um épico, uma sequência de alta voltagem de fato digna do Scorsese de Os Bons Companheiros ou Casino. Prendemos o fôlego diante da precisão, do desempenho de cada ator na expressão atônita dos personagens ao ver o sacro ambiente familiar, literalmente a sala de jantar da família Wallace durante uma confraternização, se converter em zona de guerra. No capítulo seguinte entendemos melhor aquele inferno doméstico. A série traz novo alento a um gênero precocemente decante, hoje dominado por produções medíocres, pueris e novelescas.

Le Carré

A morte de David Cornwell, o escritor John Le Carré, mereceu obituários pífios na imprensa brasileira. Mais um atestado da falência do nosso jornalismo cultural. A obra de Le Carré realmente nada tem a ver com  o “glamour” de James Bond, como repetiram feito matracas. O que não se disse é que o romance propriamente de espionagem ganhou, com o autor, um caráter literário filiado à grande tradição da ficção inglesa. Paulo Francis era seu fã, e não é que fizesse por menos. Punha nas alturas o livro Tinker, Taylor, Soldier, Spy (1974), no Brasil O espião que sabia demais, em Portugal A toupeira, muito bem transposto para o cinema em 2011 por Tomas Alfredson. O livro é considerado o mais perfeito de Le Carré também por Rafael Narbona. Mas Francis dizia que Le Carré era “influenciadíssimo pelo Graham Green jovem, dos ‘entretenimentos’, mas sem a destreza literária”, o que é mais ou menos válido. E reclamava que o britânico começara a “ficar balofo como escritor” a partir de Um espião perfeito (1986). Francis desgraçadamente não viveu para ler O alfaiate do Panamá ou Nosso fiel traidor. Talvez mudasse de ideia.

De Alvarenga para Chico

O tema do coração dividido por dois amores é vasto e velho. Mas se renova numa tabelinha que me ocorre, num verdadeiro overlapping (alguém aí tem idade para se lembrar dos esquemas do técnico Cláudio Coutinho?). O lance de um soneto de Alvarenga Peixoto, um poeta do século 18, me traz uma canção redonda de Chico Buarque e Edu Lobo.

Bilhete de Edu Lobo para Chico Buarque. ARQUIVO TOM JOBIM.

Na ilha de lia, no barco de rosa foi composta para Dança da meia-lua, balé do Teatro Guaíra roteirizado por Ferreira Gullar. Essa mesma trilha rendeu a maravilha que é Valsa brasileira, um clássico moderno.

A “toada mineira”, como diz Edu Lodo no bilhete acima, está originalmente no LP Dança da meia-lua (Som Livre), de 1988. No ano seguinte, “Na ilha de Lia” foi incluída no disco Chico Buarque (RCA/BMG/Sony).

Minha gravação preferida é mais recente, faixa de Dos Navegantes, álbum delicioso de Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise lançado pela Biscoito Fino em 2017.

Edu Lobo canta acompanhado por Bruno Aguilar no contrabaixo e os dois mestres que são Mauro Senise (sax alto) e Romero Lubambo (violão).

O arranjo de Cristóvão Bastos dá um colorido propriamente lírico e etéreo à partitura de Edu que ilustra esta edição. O tema me pareceu meio negligenciado pelo grande Luiz Claudio Ramos, maestro da banda de Chico Buarque, que já era seu arranjador no álbum 1989.

ESTELA E NIZEAlvarenga Peixoto

Eu vi a linda Estela, e namorado
Fiz logo eterno voto de querê-la;
Mas vi depois a Nize, e a achei tão bela
Que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se neste estado
Não posso distinguir Nize de Estela?
Se Nize vir aqui, morro por ela;
Se Estela agora vir, fico abrasado.

Mas, ah! que aquela me despreza amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E esta não me quer por inconstante.

Vem Cupido, soltar-me desses laços;
Ou faz de dois semblantes um semblante,
Ou divide o meu peito em dois pedaços.

Peixoto, Alvarenga. Obras Poéticas

NA ILHA DE LIA, NO BARCO DE ROSA (MEIO-DIA, MEIA-LUA)Edu Lobo e Chico Buarque

Quando adormecia na ilha de Lia, meu Deus
Eu só vivia a sonhar
Que passava ao largo no barco de Rosa e
Queria aquela ilha abordar

Pra dormir com Lia que via que eu ia sonhar
Dentro do barco de Rosa
Rosa que se ria e dizia nem coisa com coisa

Era uma armadilha de Lia com Rosa com Lia
Eu não podia escapar
Girava num barco num lago no centro da ilha
Num moinho de mar

Era estar com Rosa nos braços de Lia, era Lia
Com balanço de Rosa
Era tão real, era devaneio
Era meio a meio, meio Rosa, meio Lia, meio
Rosa, meio-dia, meia-lua, meio Lia, meio

Era uma partilha de Rosa com Lia, com Rosa
Eu não podia esperar
Na feira do porto, meu corpo, minh’alma, meus
Sonhos vinham negociar

Era poesia nos pratos de Rosa, era prosa na
Balança de Lia

Era tão real, era devaneio
Era meio a meio, meio Lia, meio Rosa, meio
Lia, meia lua, meio-dia, meio Rosa, meio
Na ilha de Lia, de Lia, de Lia
No barco de Rosa, de Rosa, de Rosa

Dezembro, mês ou menstruação?

Jurupoca_51. 11 a 17/12/2020. Ano 2

Marte em foto da Nasa.
LISBON REVISITED (1923) – Fernando Pessoa em fase Álvaro de Campos

 Não: não quero nada 
 Já disse que não quero nada.

 Não me venham com conclusões!
 A única conclusão é morrer.

 Não me tragam estéticas!
 Não me falem em moral!
 Tirem-me daqui a metafísica!
 Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
 Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
 Das ciências, das artes, da civilização moderna!

 Que mal fiz eu aos deuses todos?

 Se têm a verdade, guardem-na!

 Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
 Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
 Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

 Não me macem, por amor de Deus!

 Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
 Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
 Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
 Assim, como sou, tenham paciência!
 Vão para o diabo sem mim,
 Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
 Para que havemos de ir juntos?

 Não me peguem no braço!
 Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
 Já disse que sou sozinho!
 Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

 Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
 Eterna verdade vazia e perfeita!
 Ó macio Tejo ancestral e mudo,
 Pequena verdade onde o céu se reflete!
 Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
 Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

 Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
 E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! 

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). / ARQUIVO PESSOA

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Eta dezembro brabo. Tá craude bro. É menos mês que menstruação. O comercial do Chester Sadia pede um Sal de Fruta Eno Tutti Frutti para descer.  E ninguém bebeu nada, ainda. A coisa não alui, só isso. Não é mais novembro e ainda não é janeiro, e o intermezzo é uma caçoada dos infernos.

A mensagem de fim de ano da Globo é outro porre de tubaína. Quanta celebridade criança esperança! no Projac e no Jardim Botânico a brincar de costas pra ela, a roda-dança da morte carioca.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

A morte de Michael Corleone

Coppola aplainou a compreensão de seu grande filme, ao remontá-lo como desejavam ele o roteirista Mario Puzzo, a quem o título em inglês homenageia. O final da saga O poderoso chefão ressurge fresco e inteiro, capaz de recompor a alma desconsolada de um amante do cinema. Os urros da dor de Michael na escadaria do teatro, diante do corpo morto de Mary, a filha preferida que lhe dava sentido ao viver, nos provoca compaixão por um ser humano monstruoso, assassino do próprio irmão, do filho de seu pai e de sua mãe, como ele diz ao confessar, numa explosão de choro, ao cardeal que logo se tornaria o trágico João Paulo I. Como escreve Javier Cercas, “é esse (…) o lugar eticamente equívoco a que a grande arte nos conduz, e com a qual, precisamente por isso, nos enriquece, permitindo-nos vislumbrar, de nosso posto de leitor ou espectador, áreas de experiência às quais muito provavelmente, felizmente, nunca teremos acesso, e de outra forma nem ousaríamos espreitar”.

Ópera mafiosa

Coppola e Puzzo, neste final, durante e depois da encenação de Cavalleria Rusticana no teatro de Palermo, realizam o epílogo de sua própria ópera sobre a máfia, paralelamente à de Pietro Mascagni, e ao mesmo tempo revelaram no cinema a grande beleza do gênero que já foi a mais popular das formas de representação e hoje perdura praticamente como memento, lembrança, para o deleite de poucos aficionados. Mas talvez a própria arte hoje sobreviva como lembrança em um mundo que afinal conseguiu destruir todas as idealizações do espírito.

A pedofilia com RP

As relações públicas, braço da comunicação social engajado com quem pode pagar pelo serviço, também atendem a um gigante como o Pornhub: 3,5 milhões de visitas por mês, entre as dez maiores potências da internet e à frente de Netflix, Yahoo e Amazon. O portal ajuda cidades a limpar a neve das ruas e investe em instituições antirracistas. Durante a pandemia liberou conteúdo grátis para favorecer o isolamento social. O conglomerado de vários canais de pornografia, com quartel general no Canadá e sede fiscal em Luxemburgo, está infestado de vídeos de estupro e violência contra adolescentes. Essa história é contada em reportagem de Nicholas Kristof, colunista do New York Times. Como no Youtube, os usuários podem postar seus vídeos pessoais na plataforma. Meninas apaixonadas gravam vídeos para namoradinhos pilantras que vão parar nas teias do Pornhub, como estoques de cenas de mulheres no banho ou no vestiário tomadas por câmeras espiãs. No Pornhub é fácil baixar esses vídeos e compartilhar com colegas de ginásio. Depois disso se tornam eternos na internet. Kristof relata tragédias pessoais de crianças terminadas em abandono, dependência química e suicídio. O feminista prafrentex Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, acusa Kristof, não move uma palha para expulsar o antro bilionário de seu higiênico país.

Espelho

A excitação pornográfica é o reflexo necessário de um mundo deserotizado.

Um sonho!

A sonhada democratização da informação com o advento da internet se realiza plenamente na pornografia.

Retratos da pandemia

Sem a distração das viagens internacionais e o turismo de shopping, a pandemia expõe a insignificância de quem não sabe o que fazer da vida.

E passa a récua!

O Corona Kung Flu continua matando, e a récua —coletivo de bestas, o mesmo que canzoada, farândola, cáfila ou parranda — não se dá por vencida. O general da banda e da Saúde vai à frente da comitiva, logo atrás do guia, Sua Excrescência presidente Jumentíssimo, o Franco, e do colega do Meio Ambiente, um adventista dos Santos do Aquecimento Global. Em seguida no tropel avistam-se o bonecão inflável que governa São Paulo, os líderes do Senado e da Câmara, os garantistas e os manobristas da Constituição e todas as autoridades civis e militares do Rio de Janeiro. O governador das Minas do Matos Gerais, Zema-Zen, trota firme no cortejo, mas fica na moita. É difícil saber onde ele está e o que anda aprontando, cê besta!

Abaixo o espanhol!

Uma récua nacionalista e extremista luta na Espanha para abolir o espanhol! Esses supremacistas — se acham mais puros e melhores que os outros — querem impor o euskera e o catalão sobre a língua de Cervantes. A depender da lei, vão conseguir. Só faltam queimar literatura espanhola em praça pública. Mario Vargas Llosa comenta e lamenta cada ato dessa opereta macabra.

A Vale em Marte

Marte é bem feiosinho. O planeta parece ter infinitas jazidas de minério de ferro. Deviam mandar a Vale pra lá. Faria muito bem a Minas, à paisagem que resta e a quem vive perto de suas barragens.

Imagem de Marte tomada pelo veículo espacial da Nasa.

Lobo mau, uma fábula pandêmica

Em seu passeio bem contente pela estrada afora até Tiradentes, ainda no meio do ano, o correspondente desta Jurupoca descreveu uma cena futura: quem enchia bares e daí, baladas, era o lobo mau em pessoa. O malvado acabaria por levar o Corona para a vovozinha, adocicado por carinhos e beijinhos.

Data vênia (1)

Como todo analista político sabe, a suprema corte tem ministros garantistas e manobristas da carta magna. O maior dos garantistas é o novato “Nosso Kassio”, cujo lema reza: “Mateus, primeiro os teus”. Um garantista, claro, pode se tornar de repente manobrista e vice-versa.

Data vênia (2)

Para o ministro Gilmar Mendes, o comentarista político e pop star Reinado Azevedo é “Nosso Reinaldo”. E Reinaldo, ao mesmo tempo, é um garantista quanto a Gilmar e um manobrista no que tange ao garantista “Nosso Kassio”, e vice-versa.

Tudo um saco

Não se vende mais disco, streaming é uma roubada, direitos autorais raramente bancam luxos, e o Corona barra a realização de shows. Alguns artistas entraram na pinda pra valer. Os mais sensíveis se irritam ao fazer lives, de onde ainda tiram algum, como as promovidas pelos canais do Sesc e Blue Note. Há quem tenha que alimentar famílias numerosas, já na terceira geração, de candidatos ao estrelato. Sem falar de quem descobriu, graças ao Corona, as delícias do engajamento e as maravilhas das redes sociais. Como Raul, acho tudo isso é um saco: engajamento, fã-clube e o colunismo de rede social, que nos atualiza sobre quem posou de pijama ou fez bundalelê no sítio.

Ah, cuá.

É preciso tocar o barco. Para 2021, prometo que me reinvento e me reciclo. E saio da zona, da zona de conforto!

Vale a pena ver de novo

Jornalista cultural abandona a zona de conforto e se agarra como pode à primeira oportunidade que aparece. Foto: Shamus Culhane/FP_PRESSE

«O triunfal regresso de Sonny Rollins. Yahvé M. de la Cavada escreve no El País sobre o lançamento de Rollins In Holland, gravações de 1967 em excelente estado, recuperadas com a supervisão do saxofonista de 90 anos, o maior do músicos do jazz ainda vivo, e lançadas em LP triplo e CD duplo.»

Último Noel

Nana Caymmi canta — e como canta — Último desejo, de Noel Rosa (originalmente faixa A2 do LP Chora brasileira, de 1985).

E Paulinho da Viola interpreta — e como interpreta — Pra que Mentir, de Noel e Vadico (faixa B1 do LP Memórias cantando, de 1976).

O acompanhamento de Hélio Delmiro (violão) e Rafael Rabello (7 cordas) envolve a voz de Nana Caymmi como um presente luxuoso,  e Nana é capaz de transitar de um grave sensualíssimo a um quase sussurro. O efeito é segurar a música no espaço, enquanto a ouvimos, como num chiaroscuro de Rembrandt.

Último desejo  é a segunda das 10 canções de Noel mais buscadas na rede. Foi muito e esplendidamente gravada por Aracy de Almeida, Isaurinha Garcia, Bethânia, Gal, Ney Matogrosso, o português António Zambujo, como fado, (inclusive juntos, Zambujo e Ney, num encontro memorável)… muita gente bamba.

O samba foi composto em 1937, mesmo ano, ou começo de ano, de Pra que mentir, veja você, com a Indesejada das gentes batendo à porta de Noel, debilitado pela tísica, para finalmente entrar em 4 de maio.  No mesmo ano foi gravado por Aracy de Almeida, em julho, e lançada pela Victor em maço de 1938, conforme o site Discografia Brasileira (IMS).

Pra que mentir, registrado por Silvio Caldas em 1938, também pela Victor, veio a público em fevereiro do ano seguinte.

Há inúmeras boas versões, como a magnífica de Caetano Veloso, mas Paulinho da Viola, acompanhado apenas pelo violão do pai, César Faria (Benedicto Cesar Ramos de Faria), adentra o território do sublime.

Dizem os biógrafos de Noel que essas duas canções se inspiraram, como outras em sua obra, na mocinha Ceci, dançarina de 16 anos do Apollo, um cabaré da Lapa carioca, que ele conhecera em 1934.

As letras não por acaso se tornaram clássicas, patrimoniais.

A aguda dramaticidade de Último desejo só é superada por estes versos de Pra que mentir: “…Se tu sabes que eu te quero/ Apesar de ser traído/ Pelo teu ódio sincero/ Ou por teu amor fingido…”.

 ÚLTIMO DESEJONoel Rosa

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre, hoje, sem foguete
Sem retrato, sem bilhete
Sem luar e sem violão

Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero seus beijos
Mas meu último desejo
Você não pode negar

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

E às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim

PARA QUE MENTIR – Noel Rosa e Vadico

Pra que mentir
Se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?

Pra quê? Pra que mentir?
Se não há necessidade de me trair?

Pra que mentir, se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?

Pra que mentir
Se eu sei que gostas de outro
Que te diz que não te quer?

Pra que mentir
Tanto assim
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim?

Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero
Ou por teu amor fingido. 

Chavões para abrir o Brasil

Jurupoca_50. 4 a 10/12/2020. Ano 2

Na última sexta-feira (27/11) me surpreendi com esse efeito de luz , fundo e flor.
Cascatinha do Parque Municipal Renné Gianetti, no Belo.
 
LA VIDA NUEVA – A VIDA NOVA

 MI DIOS ES HAMBRE — MEU DEUS É FOME

 MI DIOS ES NIEVE — MEU DEUS É NEVE

 MI DIOS ES NO — MEU DEUS É NÃO

 MI DIOS ES DESENGAÑO — MEU DEUS É DESENGANO

 MI DIOS ES CARROÑA — MEU DEUS É CARNIÇA

 MI DIOS ES PARAÍSO — MEU DEUS É PARAÍSO

 MI DIOS ES PAMPA — MEU DEUS É PLANÍCIE

 MI DIOS ES CHICANO — MEU DEUS É AFRO    
     
 MI DIOS ES CÁNCER — MEU DEUS É CÂNCER

 MI DIOS ES VACÍO — MEU DEUS É VAZIO

 MI DIOS ES HERIDA – MEU DEUS É FERIDA 
          
 MI DIOS ES GHETTO — MEU DEUS É GUETO

 MI DIOS ES DOLOR — MEU DEUS É DOR

 MI DIOS ES — MEU DEUS É

 MI AMOR DE DIOS — MEU AMOR DE DEUS 

Poema do Chileno Raúl Zurita que teve seus versos formados no rastro de pequenos aviões no céu de Nova York. Extraído do livro Tu vida rompiéndose, Penguin Randon House. Livre tradução de quem vos escreve. Zurita também é autor de poemas escritos (e inscritos) no deserto de Atacama. Um fragmento da performance, ocorrida em 2 de junho de 1982, pode ser visto neste vídeo:

Cascatinha, Parque Municipal Renné Gianetti, BH
Nesse mundo imundo só se escuta a teia da
Teq, teq, tequiri, brode, brode, brode, chá
Nesse mundo imundo só se escuta a teia da
Teq, teq, tequiri, brode, brode, brode, chá

Frufru manera, Frufru manera, Frufru
Frufru manera, Frufru manera, Frufru

 

Trecho de Manera Frufru, manera (Raimundo Fagner e Ricardo Bezerra), canção-título do álbum de Fagner lançado em 15 de maio de 1973, com produção de Roberto Menescal e arranjo de Luiz Cláudio Ramos.

“Versão gravada em 1972. Sobras de estúdio do álbum Manera Frufru Manera”, conforme o canal do YouTube Mucurype 49.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

É só catimbó e o Chicó tá no icó tralalá…

Sou reservista. 5ª Categoria, mas honrado reservista (incluído no “excesso de contingente” de 1980, Certificado da 4ª Região Militar do Ministério do Exército Nº 153652).

De 5ª Categoria são os reservistas que tocavam e cantavam Para não dizer que não falei das flores com a patota inebriada de Brahma e bongo (o mesmo que bagulho). Primeira classe tinha quem cantava Sabiá.

Neste instante estou disposto como uma gaivota a servir a pátria. Vosmecê sabe, a gaivota é uma ave marinha típica das Minas dos Matos Gerais.

E aqui — o Itamar Franco se ufanava disso — temos pólvora, chumbo e bala (apud op. cit. Milton Nascimento & Tavinho Moura).

Nós queremos é guerrear Xi Jinping.

Se a guerra contra China for declarada, aux armes, citoyens! Formez vos bataillons! Marchons, marchons. Qu’un sang impur abreuve nos sillons!

Brasília vai lançar foguete contra os amarelos e dedetizar o Super Corona Kung Flu que eles criaram. Xi Jinping e Kim Jong-un vão contra-atacar.

E até dizem que dessa vez é pra valer: Cuba lança!

E quero ver Cuba lançar!

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

A arte de não abandonar a zona

Confessei, numa furtiva lágrima, numa das primeiras Jurupocas, que o mais gabaritado coaching seria um rematado picareta aqui na redação. Um padre faria um trabalho melhor. Como jornalista inativo, não me reciclei, não me reinventei, não saí da zona, da zona de conforto, não aprendi a fazer biscoito, cookie nem pamonha para fora; criar galinhas poedeiras, então, que utopia! Para não lembrar que quando ouço falar em marketing, mormente “marketing digital”, me segura!, ou pulo do Viaduto das Almas.

O que serei quando crescer

Acho que tenho talento para influenciador analógico! É o que quero ser quando crescer. Como não havia pensado nisso? Precisou de um gênio, Sir Gordon Jô Soares, se definir como tal, influenciador analógico, numa cartinha ao nosso, quer dizer, vosso “ExcelentíSSimo!” (sic) presidente, para que a Ju acordasse e vislumbrasse seu target e seu benchmarking (com o perdão da pornografia) neste mercadão de meu Deus.

Influenciador digital x influenciador analógico

O influenciador digital é quem tudo sabe e tudo ensina sobre cada retalho de uma colcha de retalhos. É capaz de isolar e dividir para “monetizar” um retalhinho assim de nada em pixels, bits e bytes, tudo em inglês, claro. Já a tarefa do influenciador analógico é dura e altruísta. A este profissional cabe referenciar um retalho com outro retalho e outro conjunto de retalhos de uma colcha de retalhos, o antigo contexto. E ninguém entende nada! Perde a paciência. O digital não precisa ter esses cuidados, afinal digitalizou-se também a história. E o tempo (antes, agora, depois) liquefez-se. O digital influencer tem mais é que ir em cima do clic e do stream, e bater bola no Insta, no Face e por aí, tá sabendo; já o analogic… coitado dele.

Uma rara foto do autor da Jurupoca

Jornalista cultural e futuro influenciador analógico, o titular da Ju, um leitor de poesia e ouvinte de música antiga (MPB) agarra-se, para sobreviver, à primeira oportunidade que aparece.  Mas ninguém o tira da zona, de conforto, isso não! Foto: Shamus Culhane/FP_PRESSE 

Poetar é preciso, viver…

“O dia que se deixe de escrever poesia, acabará a Humanidade”, diz o poeta chileno Raúl Zurita, galardoado na Espanha com o prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana. Na mesma entrevista ao El País ele compara o ofício do poeta ao do engenheiro. “Se cai uma ponte pode morrer muita gente, se um poema cai não acontece nada. Mas é muito mais difícil erguer um poema que uma ponte”. Outra do Zurita, agora em conversa com o catalão El Cultural: “A poesia está mais perto do sofrimento real que qualquer outra literatura, por isso é importante escrever poesia agora, ainda que não se leia”, reflete, sugerindo que os poetas devam olhar para as angústias e incertezas da pandemia. Acho que já disse nesta Ju do gosto que tenho por descobrir um grande poeta, seja onde for. Zurita, até onde sei, não é traduzido no Brasil, o que é notável, isto é, notável desinteresse dos editores. O Chile é um país de grandes escritores e tem dois poetas nobelados.

“Irracionalmente relevante”

Andrés Seoane, no El Cultural, lembra no papo com Zurita outro proeminente ficcionista chileno: Alejandro Zambra, para quem o Chile é “um país literário, onde a poesia, curiosamente, é irracionalmente relevante”.

Pornô com “diversidade”

Helahoho! helahoho! Houve um tempo no Brasil em que alguém ainda citava num boteco dois versos de Bandeira, um poemeto de Drummond ou um soneto do Álvares de Azevedo. Agora nem letra de música — gênero vizinho da poesia e que ensinou muita gente o português — mais importa. Toca-se, canta-se e reporta-se qualquer coisa, inclusive o pornô, desde que um pornô com correção política e selo de “diversidade”.

Enquanto isso, no ex-caderno de ex-cultura
mais vanguardeiro da América do Sul…

Os meninos da Barão de Limeira são uns danados, sô. Agora nos revelam, leitores ávidos que somos, a geopolítica da modernidade dos jogos eletrônicos. A Ilustrada, tal ex-caderno, nos próximos capítulos vai nos trazer o que a Hungria de Viktor Orbán e a Bielorrússia de Lukashenko têm de culturalmente mais diverso, embora nesses países, a democracia pene. E a Eslovênia vem aí. A Polônia, berço de literatas como Wisława Szymborska e Olga Tokarczuk, cada qual com seu nobelzinho, foram bem esquecidas. Claro, na música erudita ou no cinema, o país também teria muito a declarar, ontem e hoje, mas isso não tem nada a ver, e onde já se viu um gamer se interessar por outra coisa além games? A Polônia, pobre Polônia, violada por nazistas, soviéticos e autoviolada, agora é potência e vanguarda desse novo gênero de lazer elevado a 9ª ou 11ª arte pela Ilustrada: os jogos eletrônicos, e nada mais vem ao caso. Mas a “democracia pena” por lá. Como pode? Nem uma pista histórica? E a Iara Rennó?, artista genial que “expande os limites da música”. Um Bach, se vivo estivesse, invejaria tal expansão de limites. Disco erótico? Matutamos na redação se o menino ou menina que escreveu a matéria terá ouvido a trilha de Emanuelle, ou o mela-cueca-e-calcinha de primeira que foi Je t’aime moi non plus, com Jane Birkin et Serge Gainsbourg.

Cuba e o negacionismo da esquerda garnisé

A vida do artista inconformado não é fácil lá na Ilha do Fernando Moraes, do Chico Buarque, do Boulos, da Gleisi Helena Hoffmann. Como se sabe, Cuba é um país livre, y cual solamente puede ser libre, e ai de quem não é! A quienes no son solamente libre, os rigores da cana brava e da prensa oficial (digital e analógica). “A primeira coisa que a polícia política faz ao prender um artista é confiscar e desfigurar seu telefone celular”, fofoca o imperalista Rafael Rojas na revista mexicana Letras Libres, num despacho de La Habana. A greve de fome de integrantes do Movimiento San Isidro, coletivo de jovens artistas e intelectuais desse bairro paupérrimo, terminou com a  borracha comendo. A turma protestava contra a sorte do rapper Denis Sólis, que vai curtir oito meses com vista para o sol enquadrada. O coletivo está cheio de “marginais”, “delinquentes”,  “agentes do imperialismo”, como se soube pelas revelações do regime em seus jornais e perfis nas redes sociais. Na Ilha amiga do PSOL e do PT, o regime decide no decreto quem é ou não é artista ou pode ou não pode fazer cinema independente. A reportagem da Ju tentou ouvir o outro lado, a franja cubófila da nossa esquerda garnisé, hoje de muito boas relações com o “mainstream” do jornalismo nacional, mas até o fechamento desta edição, nada.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (1)

Muita saúva, pouca saúde, os males do Brasil são. Mário de Andrade bem que tentou diagnosticar nossa problemática essencial no Macunaíma. Bola fora! Muita saúva, pouco Siúves, os males do Brasil são. A emendava do saudoso colunista Marcelo Rios saiu-se ainda pior. Os índices depravados da má qualidade da educação fundamental e o cocô de metade do país a escorrer por ruas e valas (olha a perpetuação da pobreza aí, gente!), os males do país são. Na, na, ni, na não. A obscenidade da administração pública, o roubo, o sistema de casta do funcionalismo estatal e da Justiça, os planos econômicos delirantes, os males do Brasil são. Ih, tá frio, frio, tá gelado. Nada disso ajuda ninguém mais a pensar direito. Triste Brasil! ó quão dessemelhante. Não sei se ainda se se pode, impunemente, parafrasear o Gregório de Matos sem “direito de fala”. Pode? Cartas para a redação.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (2)

A imprensa virou uma câmara de eco das redes sociais. Ecos são modas, e todo mundo sabe de tudo desde os cueiros, até que venham novas ondas e modas, novos escândalos, novas gravações quentinhas. Obras seminais sobre escravidão, formação da República, analfabetismo, política oligárquica, patrimonialismo etc., que escarafuncham nossa história com ou sem imaginação, caíram do galho. Anuncia-se para qualquer momento a tradução do país segundo o “lugar de fala”. Vêm aí o Gilberto Freire, o Sérgio Buarque de Holanda, o Raimundo (ou Raymundo) Faoro, o Darcy Ribeiro capaz de revisar tudo sem a miopia da branquitude, como se sugeriu no último Foro de Teresina. Espera-se o advento de um diplomado em Harvard capaz de encaixar a “cultura do estupro” e o “racismo estrutural” na equação.  Asseiam por novas chaves gerais, boas para abrir as portas da esperança no Brasil, e para iluminar nossa natureza e nossa miséria.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (3)

Chaves ideológicas dão hashtags e desaguam no mar teorético, quando sabem a chavões. Chaves gerais abrem cabeças, como o serrote daquela revista. Talvez nos façam menos burros, mais humanos, outra gente que, enfim, vai brincar na nova ordem moral o Carnaval da Democracia.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (4)

Chaves gerais abrem os portais do Brasil, da nacionalidade, da “cultura” disso e daquilo, dos vícios e perversões totalizantes. Afinal, mostram que nada pode ser feito contra realidades “estruturais” e estruturantes, até que caiam as estruturas. Gestores públicos e a velha (ou a nova) política tricotada no Parlamento vão dormir em paz, sossegados para cuidar de seus afazeres, lobbies e pecúlios. Até que caiam as estruturas.

Nossos comerciais, por favor!

Peroba que é madeira. Paca/tatu que é caça. Correinha que é primeira. Correinha que é cachaça. Bote mais uma!

Coppola e o Poderoso chefão 3, coda

O elenco de O poderoso chefão — Desfecho…
Francis Ford Coppola fala sobre O poderoso chefão — Desfecho: A morte de Michael Corleone e explica o sentido do termo “coda” (no título em inglês) emprestado da linguagem musical para rebatizar o filme

«Como Francis Ford Coppola regressou para fazer O poderoso chefão — Desfecho: A morte de Michael Corleone. No New York Times. A nova versão estreia nesta quinta (3) e na terça-feira (8) estará disponível em várias plataformas de streaming: Claro, Sky, Apple TV, Google Play, Vivo, Oi, Xbox Video e PlayStation Store. O longa-metragem foi remasterizado com resolução 4K. O título, em inglês Mario Puzo’s The Godfather, Coda: The Death of Michael Corleone  (O Poderoso Chefão  de Mario Puzzo, coda: A morte de Michael Corleone) valoriza o trabalho de Puzzo (1920-1999), roteirista da saga e autor do romance no qual a trilogia é baseada. A remontagem retoma ideias de Puzzo e Coppola, hoje com 84 anos, recusadas pelo estúdio há 30 anos. O filme, com um novo começo, um novo desfecho e cenas reposicionadas, volta ligeiramente encurtado. »

«A amarga verdade de La dolce vita. No El País.»

«Brasil viveu ‘utopia’ de que internet seria democratizante, diz pesquisador. Entrevista com Francisco Brito Cruz, autor do livro Novo jogo, velhas regras. Na Folha de S.Paulo

«Emmet Cohen Trio feat. Cyrille Aimée: “La Vie en rose”. A live gravada na casa da jazzista francesa está há menos de um mês na youtubaria e já foi vista, quando enlaçada aqui, 234.613 vezes. E quem ainda não viu é mulher do padre!»

«Eu moro dentro da casca do meu violão, com João Bosco. 4º e último episódio. É do balacobaco. Ouçam João em Corsário , canção que parte do Adágio do Concierto de Aranjuez, do espanhol Joaquín Rodrigo, e Amigos novos e antigos, inspirada em uma música do disco Abbey Road dos Beatles, Sun King, em que John Lennon diz a palavra “obrigado”. Ambas são dele e Blanc.»

Ê, Minas, oh Minas

Paulo César Pinheiro é letrista de mão cheia, fabuloso, ninguém pode negar. É autor da épica Matita Perê (com Tom Jobim, do disco homônimo de 1972) e de Desenredo (encomenda de Dori Caymmi), uma canção singela sobre vida, morte e a consolação do amor.

Ambas se inspiram em Minas Gerais e na obra de João Guimarães Rosa, evocadas no imaginário dos artistas em foco neste Intervalo.

Em uma entrevista a Ana Clara Brant para Estado de Minas sobre a história dessa composição, em que lembra seus dias no estaleiro, depois de romper o tendão do calcanhar numa fatídica pelada, Dori se apresenta como “33,3% baiano, 33,3% carioca e 33,3% mineiro”.

Nasceu no Rio, fruto da união do baiano Dorival com dona Stella Maris, mineira de Pequeri, vizinha a Juiz de Fora, onde os Caymmi têm casa e onde Nana cumpre esta quarentena.

Sobre a influência de Rosa, César Pinheiro disse ao jornal:

“De tanta paixão, acabei assimilando aquela maneira de escrever. Rosa me ensinou a amar o sertão mineiro; foi a partir da literatura dele que procurei saber tudo. Conheci Minas em seus livros e só depois fui conhecê-la in loco. Quando me casei com a Clara [a cantora Clara Nunes], ela desbravou muitos lugares comigo”.

Desenredo foi composta e lançada por Nana Caymmi em 1976, no LP Renascer. Ela canta a faixa acompanhada pelo violão do mano e um fundo de cordas. Mas vale a pena dar uma olhadela na estelar ficha técnica desse álbum:

João Donato: Piano
Dori Caymmi: Violão, piano
Nelson Ângelo e Milton Nascimento: Violão
Danilo Caymmi: Violão, flauta
Fernando Leporace e Novelli: Baixo elétrico
Luiz Alves: Baixo acústico
Hélio Delmiro: Guitarra
Robertinho Silva: Bateria
Rubinho: Bateria e percussão
Direção de produção e arranjos: Dori Caymmi

Gosto tiquinho mais da gravação de  Edu Lobo no álbum Tempo presente (1980), com participação de Dori no canto. O arranjo, mais uma vez de Dori, é ensolarado como uma manhã de Cordisburgo. Nas duas gravações, seu violão autoral é a alma do negócio. Eis a ficha técnica:

Café: Chaves e coco
Chico Batera: Sino e triângulo
Edu Lobo: Pau de chuva
Chiquinho do Acordeom (Romeu Seibel): Acordeom
Dori Caymmi: Violões
Luiz Alves: Contrabaixo

DESENREDO – Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Por toda terra que passo
Me espanta tudo o que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso

Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tramas/tranças do teu desejo

O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo
O olhar que assusta anda solto/morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tramas do teu segredo

Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe

A cera da vela queimando
O homem fazendo o seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo 

O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte indefeso
Mas quando eu chego eu me perco/enrosco
Nas cordas do teu cabelo

Delícias da pindaíba

Num gesto largo, liberal e moscovita do autor da Ju, os diários de viagem de 2019 estão de volta ao blog

Jurupoca_49. Belo. 27/11 a 3/12/2020. Ano 2

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Altruísta como só ele, o autor da Ju reabriu aqui seus diários de viagem de 2019, num gesto largo, liberal e moscovita, para citar o Álvaro de Campos.

Os diários integram o livro divulgado ao pé dá carta, Turismo cultural e literário na Europa. Reaparece também por aqui o Inferno em Florença, outra crônica de viagem, anterior, depois reescrita e incluída no livro. Debalde, esse texto foi oferecido à Piauí, na honesta tentativa de um jornalista desocupado cavar uns caraminguás, alguém que poderia estar por aí, afanando, trucidando, currando etc.

A revista do Moreira Salles por sinal anda embirrada com a The New Yorker, na qual se decalca na origem, e de onde tirava o suprimento de suas melhores páginas, sempre muito bem traduzidas.

Vai ver que é isso. O Alcino Leite Neto e o José Roberto de Toledo, editores executivos da publicação criada e servida por João Moreira Salles, não dão bola para a marginália fora do “Eixo Rio-Sumpa”, logo um mineiro, residente a menos de 600 quilômetros de Poços de Caldas!, onde os Moreira Salles se estabeleceram.

Mas deixemos de prosa. Aos enlaces, a quem interessar possam:

Diário embriagado de Berlim

Diário congelado de Copenhague e Milão

Diário apaixonado de Trieste

Inferno em Florença

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Das delícias da pindaíba

Um alma poética consegue achar uma ou outra vantagem na dureza, acredite. Duro é quem vive de brisa, sem um puto para beliscar uns profiteroles na padaria da esquina. Se você não pode viajar, viaje ao redor de seu quarto. Não pode se dar ao luxo de novas aquisições de livros? Não morra por isso. Um leitor na pinda sempre tem a redescobrir delícias empoeiradas em suas estantes. Quem sabe ele não terá à mão (e nos braços fortes), e nem se lembra disso, as 1274 páginas (fonte Haarlemmer, corpo 9.5, 1,2 kg) de O homem sem qualidades, o romance inacabado! de Robert Musil, genial romancista austríaco do século 20 comparado a Joyce, Kafka e Proust, hoje desconhecido até dos corretores ortográficos. É leitura para mais de mês. Ou o humor fino e diabólico de Evelyn Waugh no breve (154 págs.) O ente querido. A maior graça de Waugh é fazer seu leitor se sentir mais vivo e inteligente do que é e está.

Abanando o rabo no céu

Em O ente querido, Dennis Barlow é um poeta inglês pilantra, desempregado como roteirista de Hollywood. Ele insiste em ficar nos EUA, e para pagar as contas e o uísque com soda no Clube de Críquete, trabalha numa funerária de pets. Aqui, ainda no início da novela, Barlow atende à chamada de uma senhora milionária, devastada pela perda de seu cachorro, Arthurzinho, atropelado por um caminhão de entregas. Barlow dirige a van preta da empresa rumo à mansão da Via Dolorosa, 270, onde é recebido pelo marido da grã-fina, o sr. Heinkel. Logo desfia o rosário de um papa-defunto de escol para empurrar na freguesia o que a Campo de Caça Mais Feliz tem do bom e do melhor, e mais caro, a oferecer. Nesse caso, os cuidados póstumos de Arthurzinho, um membro da família:

— Com disse?

— Enterrar ou queimar?

— Queimar, eu acho.(…)

— E os ritos religiosos? Temos um pastor que está sempre disponível para ajudar.

— Bem, senhor…?

— Barlow.

— .Senhor  Barlow, nenhum de nós é o que o senhor poderia chamar de pessoas muito devotas, mas acho que numa ocasião como esta a senhora Heinkel desejaria todo o conforto que vocês puderem oferecer.

— Nosso serviço classe A inclui vários itens exclusivos. No momento da cremação, uma pomba branca, simbolizando a alma do falecido, é solta acima do crematório.

— Sim, disse o sr. Heinkel —, calculo que a senhora Heinkel gostaria da pomba.

— E todo aniversário é enviado um cartão de cumprimento sem taxas adicionais. O cartão diz: Seu Arthurzinho está pensando em você no céu hoje e abanando o rabo.

— É um pensamento muito bonito, senhor Barlow.

— Então, basta o senhor assinar o pedido…

Bodes não abanam o rabo

Mais à frente em O ente querido, um Barlow assoberbado pelo trato crematório de canários, cães e gatos, vítimas de uma onda de envenenamento no sul da Califórnia, delibera com o sr. Schultz, seu empregador, sobre o caso excepcional de um bode despachado para o além aos cuidados da Campo de Caça Mais Feliz.

— Agora estou indo embora — disse o sr. Schultz. — Você poderia, por favor, esperar até que [as cinzas] estejam frias o bastante para embalar? São todas para entrega domiciliar, menos a gata. Ela vai para o columbário.

— Certo, senhor Schultz. E quanto ao cartão do bode? Não podemos propriamente dizer que ele está abanando o rabo no céu. Bodes não abanam o rabo.

— Eles abanam quando vão ao banheiro.

— Sim, mas isto não ficaria bem no cartão de cumprimentos. Eles não ronronam como gato. Não cantam uma oração como os pássaros.

— Imagino que eles apenas se lembrem.

    Dennis escreveu: Seu Billy está se lembrando de você esta noite no céu.

Entes Queridos e Entes à Espera

O venenoso Waugh compara o Campo de Caça Mais Feliz aos serviços funerários do verdadeiro Éden higiênico e poético das Clareiras Sussurrantes, luxurioso campo santo hollywoodiano onde não se fala absolutamente em defunto ou cadáver, nem se pronuncia o nome do de cujus. São aos “Entes Queridos”, em vez disso, a quem se destinam os serviços classe AAA daquela MGM das necrópoles. Já para os vivos, isto é, “Entes à Espera”,  existe a previdente Reserva Antes da Necessidade.

Negar o negacionismo (1)

Um crime filmado comove e move mundos e fundos compensatórios. Pois é. Os Entes Queridos brasileiros levados pelo Corona que podiam ainda estar por aí, como Entes à Espera, houvesse governo em Brasília, desgraçadamente não puderam ser filmados ao expirar. Sequer podem ser computados entre as mais de 170 mil almas da contagem oficial do consórcio de imprensa. Mas que existem, existem, ou existiam, tais almas. Ocorre que, como o sangue de Cristo, a negação do negacionismo tem poder. No pau de arara, as estatísticas da pandemia vão mostrar que nunca uma praga fez tão poucas vítimas na história deste mundo. E nada como um dia após o outro até o próximo Carnaval da Democracia.

Negar o negacionismo (2)

O negacionismo de Sua Excrescência Caveirão Jumentíssimo, o Franco, eleito no Carnaval da Democracia de 2018, é negado impunemente no Planalto-Centrão. Negar à “nação”, como se diz no New York Times, o impeachment é nosso modo institucional de negar o negacionismo. Ou estamos aqui nesta Ju a menoscabar nossas operantes instituições?

A tecnologia da indignação

O mundo do espetáculo vai ao paraíso com os telefones inteligentes. No mundo do espetáculo, a indignação é seletiva e intempestiva. Uma boa tragédia, injustiça ou covardia não existe sem um vídeo quente como uma hemorragia. Espancamentos, assassinatos, operações policiais, atropelamentos, avalanches, enchentes. Eis o menu do jornal da noite; eis o tempero amaro na boca e no semblante indignados de um Reinaldo Azevedo (note suas pausas dramáticas) ou de um comentaristas da “família Globonews”.

Equivalências trágico-midiáticas

Segue válida a “lei de McLurg” , formulada há mais de 50 anos por um eminente jornalista para estabelecer o valor relativo da notícia: um europeu equivalia a 28 chineses, e 2 mineiros galeses a 100 paquistaneses. Considerada a inflação do período, pode-se verificar no câmbio das agências noticiosas que um europeu sai hoje por 180 iraquianos, e 2 americanos por uns 350 afegãos.

McLurg por aí

Na mesma segunda-feira, 2 de novembro, quando se foram 4 almas em Viena, incluindo a de um terrorista, supostos atiradores talibãs fizeram 32 vítimas fatalíssimas na universidade de Cabul, no Afeganistão. Numa homenagem velada a McLurg, essa última notícia não coube no Jornal Nacional e em outros telejornais.

À sombra da indignação

O antirracismo é uma unanimidade no país, ao menos na mídia e sempre que um crime é filmado. A violência policial é coisa nossa, ou talvez o racismo possa mesmo explicar por si só por que se mata tanta gente todo santo ano. Além do racismo policial, haverá o racismo do tráfico, o racismo da milícia e o racismo puro. Uma certeza sucede outra e a indignação de ontem será amanhã uma sombra fugidia.

A viúva de Marielle

Já estamos na eleição da viúva de Marielle no noticiário, e ninguém sabe quem mandou matar a vereadora e seu motorista. Hoje, a morte do menino João Pedro, de 14 anos, uma entre tantas crianças pretas mortas por “bala perdida”, prova que essa forma de morrer incorporou-se à natureza majestosa do Rio; como o raio, o trovão e a roda de samba, não pode ser evitada. O caso de João Freitas segue a toada. Servirá para acordar o Carrefour para os benefícios da renovação publicitário-corporativa. Nas hostes de Sua Excrescência Caveirão Jumentíssimo, o Franco, disfarçaram mal sua excitação com as cenas do estacionamento do macabro supermercado francês; para essa turma, melhor pornô não há, a não ser, claro, as sessões oferecidas pelas milícias que regem a Zona Oeste do Rio.

Um país jovem

O Brasil é um país em permanente renovação. Como um idiota, nunca envelhece.

Dominguinhos & Chico

Chico Buarque é parceiro de Dominguinhos em duas canções: Tantas palavras, 3ª faixa de Chico Buarque (1984) e Xote de navegação, 5ª faixa de As cidades (1998). Ambas estão no núcleo das obras primas do nosso artista maior.

A letra da primeira tem duas versões, uma que é indigna da melodia de Dominguinhos e do próprio Chico, cantada por ele, Chico, na trilha da novela Sabor de mel (Ariola, 1983) e a versão definitiva, gravada no LP autoral do ano seguinte. Aí sim Chico se houve com a própria arte e com a música do grande parceiro.

A segunda letra é a que tem versos como “Trocamos confissões, sons/ No cinema,/ dublando as paixões/ Movendo as bocas/ Com palavras ocas/ Ou fora de si/ Minha boca/ Sem que eu compreendesse Falou c’est fini/ C’est fini”.

Tantas palavras foi arranjada por Cristóvão Bastos, e bastou (me permita, leitora amiga) para o resultado, mais que justo, agregar o acordeom de Dominguinhos aos teclados de Hugo Fattoruso, músico que há décadas acompanha Chico em shows e gravações.

Quinze anos mais tarde — contou Chico em entrevista recomenda na Ju#48 — ele teve a ideia de uma canção, um mote poético, e se lembrou de um dos temas que recebera do amigo e guardava numa fitinha K-7 durante todo esse tempo.

Era o Xote de Navegação, um rubi luminoso incrustado na tiara mais preciosa da canção brasileira.

Na mesma entrevista, Chico lembra que ao ouvir a letra cantada, já no estúdio, Dominguinhos não conseguia parar de chorar. Nos ensaios da gravação, tirava uma introdução atrás da outra na sanfona, cada uma mais bela que a outra, para não se lembrar depois do que havia criado, quando lhe pediam para tocar de novo, agora para valer.

O resultado é desses que revelam ou traduzem o poder da música. O acordeom dá o tom da melodia, arranjada por Dominguinhos e Luiz Claudio Ramos, que faz o violão. Entram Jorge Helder (contrabaixo), Ricardo Amado (violino) e Zé Menezes (José Menezes França), bandolim.

Se Tantas palavras é o romantismo levado à quintessência literária de uma letra de música, esse Xote de navegação é de salvar uma alma sem eira nem beira, ao fazê-la reencontrar o curso franco da existência ao navegar na barcaça onde ‘tudo, tudo passa/ só o tempo não”.

O tempo passa mas agora o vemos, ou flagramos, pois “passam paisagens furta-cor/ Passa e repassa o mesmo cais/ Num mesmo instante eu vejo a flor/ Que desabrocha e se desfaz”. É o tempo da “tua música”, da “tua respiração”.

Dominguinhos (José Domingos de Morais) tinha mesmo que, como se dizia antanho, prorromper em pranto ao ver sua criação ganhar uma nova espécie de vida, por meio da palavra.

TANTAS PALAVRAS – Dominguinhos e Chico Buarque (2ª versão da letra)

Tantas palavras
Que eu conhecia
Só por ouvir falar, falar
Tantas palavras
Que ela gostava
E repetia
Só por gostar

Não tinham tradução
Mas combinavam bem
Toda sessão ela virava uma atriz
"Give me a kiss, darling"
"Play it again"

Trocamos confissões, sons
No cinema, dublando as paixões
Movendo as bocas
Com palavras ocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou c'est fini
C'est fini

Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Quantas palavras
Que ela adorava
Saíram de cartaz

Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui

XOTE DE NAVEGAÇÃO – Dominguinhos e Chico Buarque

Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo
O afazer
Me pego em sonho
A navegar

Com o nome Paciência
Vai a minha embarcação
Pendulando como o tempo
E tendo igual destinação
Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa
Só o tempo não

Passam paisagens furta-cor
Passa e repassa o mesmo cais
Num mesmo instante eu vejo a flor
Que desabrocha e se desfaz

Essa é a tua música
É tua respiração
Mas eu tenho só teu lenço
Em minha mão

Olhando meu navio
O impaciente capataz
Grita da ribanceira
Que navega pra trás
No convés, eu vou sombrio
Cabeleira de rapaz
Pela água do rio
Que é sem fim
E é nunca mais




Liberadas para adultos

Adultos podem se entreter sem susto e sem surtos de acne com estas novas séries: Speakerine (Film & Arts) ambienta nos estúdios da TV francesa uma trama de crime e luxúria durante o mandarinato do general De Gaulle e a perigosa diplomacia na Guerra Fria. A britânica Gangs of London (Starzplay) reúne um elenco de primeira, tem excelente roteiristas e, para os chegados, a Ju está fora, esbanja violência. Já No man’s Land  (Starzplay) é um thriller sobre a Guerra Civil na Síria, na qual se mete um engenheiro francês, Antoine, em busca da irmã supostamente desaparecida. Esta classificação se baseia em um ou dois capítulos e poderá ser alterada sem aviso prévio, na próxima Ju.

Das delícias da pindaíba

Ver séries à vontade, para uma alma serena, é outro benefício da desocupação, enquanto se pode pagar a TV a cabo e a conta de luz.

Glórias que não dão cliques

Toninho Horta faturou o Grammy Latino de melhor álbum de MPB. Belo Horizonte foi lançado em maio do ano passado. Aqui e ali deram notas sobre o prêmio. Prêmio e glória, por festivos, dão cliques. Você não encontrará muito além disso. Nada de velharias como entrevista, crítica ou reportagem sobre o disco. Um artista da envergadura de Horta, cuja arte é celebrada há mais de 50 anos da Savassi, no Belo, a Asakusa, em Tóquio, com parada certa em Manhattan, já não passa no crivo dos ex-cadernos de ex-cultura de certos ex-jornais brasileiros. Os ex-cadernos favorecem antes games, influencers e, se você me permite, funkers com causa. Escute ao menos Aqui Ó!  Ficou um primor com a participação de João Bosco, ou Pedra da Lua, com Joyce Moreno.

E o que é diverso à diversidade?

Um tardígrado: única espécie sobrevivente ao jornalismo cultural contemporâneo

Atualizo e resumo um post de cinco anos trás, hoje ainda mais válido:

[1] Acossado pelo infantilismo,  patrulhado pelas milícias do pensamento, tangido pelo advento das redes sociais e das recompensas do caça-clique, o jornalismo cultural perdeu o norte, além do caráter. A geleia geral sem osso ou tutano um dia apontada por Décio Pignatari atomizou-se em farofa cibernética — e vende-se como Baconzitos empacotado com design exclusivo para cada tribo consumidora.

[2] Literatura, teatro e outras artes moribundas doravante só têm o que comunicar com seres errantes, como ursos brancos pendentes em blocos de gelos nos mares glaciais.

[3] Pepe Escobar, velho herói do jornalismo cultural brasileiro, tascava o “juvenilíssimo” que, à época, uma faixa entre os anos 1980 e 1990, predominava nas redações de cultura. E pensar que hipsters de academia, fofoqueiros multimídia, fãs de livros para colorir, Mondrians da cozinha e Rosas do vinho tomariam todas as posições.

[4] O próximo passo do jornalismo cultural será operar em modo algoritmo. O usuário terá o serviço completo em apps de entretenimento com menu de engajamento enviesado ao máximo: “gostei”, “não gostei”, “é demais”, “ri”, “rachei os bicos”, “fiz pipi”, “fiz cocô” etc. Vai assistir a vídeos, interagir com o editor, pautar a redação, contratar e demitir jornalistas. Toda a diversidade será contemplada, exceto o que for diverso à diversidade.

[5] A memória na diluição homeopática do espírito pelo jornalismo cultural desenvolveu seu próprio mal de Alzheimer. E ainda persiste o “vamos todos ligar o foda-se”, em massa, como blague, dos que ainda imaginam a possibilidade de ser livres!

[6] O jornalismo cultural logo vai incorporar como subgêneros, além dos games e do colunismo de rede social, a jardinagem e os cuidados com pets. Mas já incorporaram, não?

[7] Embora não sejam lidos, os poetas vivos sobrevivem no Brasil como entertainers ou, pior ainda, influencers. Suas chances crescem à proporção de sua adesão ao e-Tudo, e da capacidade de seus poemas emocionar no Instagram, além da correção política. Há quem literalmente se vista de palhaço. O mais constrangedor são os adolescentes semicalvos à beira das sete décadas a declamar seu batatinha-quando-nasce por aí, isto é, nas redes sociais.

[8] O provincianismo de metrópole só tem feito expor-se ainda mais no jornalismo cultural carioca e paulista, o que seria impensável há 40 anos.

[9] O leitor médio do jornalismo impresso só lia títulos e bigodes. No jornalismo para telefone inteligente, enxerga apenas as listas de mais clicados ؙ— e, satisfeito, se dá por informado.

[10] Está tudo dominado pelo Homo facebookensis.

El pibe de oro

Até a bola se entristece com o destino de Maradona

O fim de Diego Maradona me lembrou a velha frase atribuída a Eurípedes: Os deuses primeiro enlouquecem a quem querem destruir. Podem, os deuses, terem sido uns invejosos, e feito dele “o mais humano dos imortais”, no título lapidar do New York Times. Para quem ama o futebol e o viu em campo, fica o bailarino e coreógrafo e o compositor de trilhas silenciosas que ainda ouvimos quando ele parte com a bola e acende o fogo perpétuo do lance.

«Até dia 30 você pode ver o especial de Monica Salmaso e André Mehmari no Youtube, e quem sabe contribuir pagando um “ingresso consciente”. É o melhor produto cultural de 2020, uma produção impecável em arte e técnica. No piano de Mehmari, a música popular brasileira se faz intemporal, altiva e universal, e Salmaso, vem cá, canta como pouquíssimas estão cantando. A Mônica amou o comentário do primo Franquilim da Silva entre os youtubeiros: “Aplauso, aplauso, aplauso, aplauso, aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso… de pé… continua…”.

«Leila Pinheiro e GuingaCanibaile (Guinga e Aldir Blanc)»

«Se você ainda não ouviu o pianista islandês Vikingur Ólafsson, pode ser que ainda não tenha ouvido esse instrumento em tão boas mãos.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas.

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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

E o lugar da fala dos pipoqueiros?

Jurupoca_48. Belo. 20 a 26/11/2020. Ano 2

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Sei lá, meu bem, entende, eu te pedi para não dar ouvidos à maldade alheia, mas creia: sua incompreensão já é demais! Sim, amizade virtual: quantos idiotas vivem só sem ter ninguém nas redes sociais, essa gente tão incapaz de ser feliz. No fim das contas, sua estupidez não lhe deixa ver meus mi piaces, likes, j’aimes, gefält mir, nada de nada.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Reabilitação provisória

A chuva que cai à noite, a luz no ar limpo da manhã, o grito festivo do porteiro com o colega na troca de turno, a buzinada no sinal aberto, o sabiá que vocaliza, o bem-te-vi que se anuncia, tudo isso, depois do café e do Biotônico Fontoura, dá à alma aaaqueeela reabilitação provisória.

Nossos comerciais, por favor!

Se o Biotônico lhe desarranjar, tome Elixir Paregórico para segurar, se não, pode apostar: Regulador Xavier 1 e 2 é pá-ti-pum! Agora, não desaparecendo os sintomas, consulte o doutor Acir Antão. No ar desde os tempos de Guglielmo Marconi, ele prescreve o fino da farmacopeia natural nas ondas da Rádio Itatiaia. (*Patrocinado: ajude a Ju a conjuminar*.)

O que é isso, companheiro Estadão?

Minas dos Matos Gerais se renova. Está mais verde, próspera e segura contra desastres ambientais. Nunca mais enterros coletivos de vivos. Minas está pronta para encarar os desafios do futuro com uma mineração, mais que sustentável, embelezadora. A mãe natureza gargalha de felicidade. É mais ou menos o que se lê nas entrelinhas da notícia arriba, recortada da primeira página do sesquicentenário diário paulistano, colocada pela melhor assessoria de imprensa.

Minas ressurreta

Para quem não sabia, de não ver os intervalos do JN, além da revolução verde, a retomada renovadora das Gerais vai redimir o estado de seu passado cheio de pecados, a arder nas chamas de satã. Aguarda-se para qualquer momento a revivência de Fernão Dias, Tiradentes, Ângela Diniz, dona Olímpia de Ouro Preto, dona Tiburtina de Montes Claros e da Loira do Bonfim. Uma profecia de Fernando Gabeira, feita há 40 ou 50 anos, logo depois do crepúsculo do macho, está prestes a pipocar.

O lugar da fala

Você conhece um escritor que tenha algo a dizer? Claro que não. Agora todos os entrevistados, todas as fontes, são infectologistas, professores de relações internacionais, cientistas políticos, analistas de mercado, consultores de imóveis, desenvolvedores, designers, influenciadores, youtubers, todos Anitta, Obama & Bial, Caetano & Jones Manoel, Gil and Sons, Caetano and Sons e militantes campeões do Insta e do Face. Nenhum pipoqueiro, poeta, dramaturgo ou arquiteto nem a Carla Camurati têm mais o que dizer na televisão ou nos jornais. Perdemos, os pipoqueiros, o lugar da fala.

Como há 500 anos

Como há 500 anos, quando o trovador Sá de Miranda consigo se desaveio, e posto todo em perigo não podia viver consigo nem de si fugir, a Ju, agora mesmo, tem ponteado para quem meia palavra bas que de si se extraiu, extraviou, e perigosamente pôs-se a perguntar: “Que cabo espero ou que fim/ Deste cuidado que sigo,/ Pois trago a mim comigo/ Tamanho imigo de mim?”.

Dissolvido

O bruxo sem qualidades se dissolveu no próprio ácido. Ah, cuá, ela me disse. Dê descarga, hombre.

Ironia

A ironia per si terá se tornado tóxica, por ininteligível aos menores de 50 anos iletrados?

Nosso “generalíssimo” honorário

A Espanha viveu quase 40 anos sob a bunda beata e nacionalista do “Generalíssimo” Franco. O garrote era aplicado a torto e a direito pela pátria e família em nome de Deus, Nossa Senhora e toda Santa Igreja. A virgem, a de Loreto, aliás, é a eterna padroeira da força aérea espanhola. Ainda não chegamos lá. Não temos um caudilho “generalíssimo”, ai de nós. Mas tá bom, não reclame. Contamos — é pau para toda obra — com um Jumentíssimo, que não é ditador. Elegeu-se pelo povo no Carnaval da Democracia de 2018. Não é um Franco, mas, sim, um virtuose da franqueza. Trata-se de vantagem adaptativa e competitiva que evoluiu num período que vai do Homo neanderthalensis ao Homo facebookensis.

A luta do Jumentíssimo franco contra Zé Gotinha

Jumentíssimo franco juntou cangaceiros hackers da Nova Zelândia, olavistas desmatadores do Pará e milicianos da Zona Oeste armados com AR-15 para acabar com a raça do Zé Gotinha, símbolo de um país de baitolas. As batalhas são transmitidas diariamente pelo Face. Você também pode acompanhar as pelejas pelo Twitter e pelo Insta, além da rádio ITA-TI-AI-A.

 Té’rrupiei, nu

É preciso que os pauteiros descubram o tipo “miserável que achou uma maleta cheia de euros na rua e devolveu ao dono” para amolecer nossos corações e fecalomas. Telejornais, Insta, Face e a Itatiaia, um rio só de lágrimas. Não temos políticos e corruptos e matas esturricadas apenas. Devemos nos ufanar da nossa raça de desvalidos que encontram dinheiro no chão e devolvem tudo, para se salvar com 15 minutos de fama, para nos salvar, para viralizar, para ibopar.

Caveirão e a filosofia analítica

Compadre Quinquim planeja ir ao cercadinho do Planalto encontrar Caveirão Jumentíssimo. Vai de terno bananeiro cortado em Londres, como os do dono da Havan, saldar o presidente, megafone em riste: “Bom dia, presidente salve, salve excelentíssimo Messias”, Quinquim vai falar e depois  vai perguntar ao capitão: “Conhece o Wittgenstein, o Glauber, o Darcy Ribeiro, o Milton Hatoum, o Kierkegaard, a Hannah Arendt, presidente?”. “O que foi que você disse, seu veado?”, ouvirá em resposta. Mas Quinquim não se deixará intimidar. “Escuta aqui, ó, prest’enção presidente: 1) O mundo é tudo que é o caso; 2) O que é o caso, o fato, é a existência de estados de coisas; 3) A figuração lógica dos fatos é o pensamento; 4) O pensamento é a proposição com sentido; 5) A proposição é uma função de verdade das proposições elementares. (A proposição elementar é uma função de verdade de si mesma.); 6) A forma geral da função de verdade é

Isso é a forma geral da proposição; 7) Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.

E isso daí, tá ligado, presidente?”.

O forno pela hora da morte

Tô terminando a prestação do meu buraco,
do meu lugar no cemitério pra não me preocupar
de não mais ter onde morrer.
Ainda bem que no mês que vem posso morrer,
já tenho o meu tumbão, o meu tumbão!

Nem sonhe em ser cremado, o forno está pela hora da morte. Mas que bom que já tenho um gavetão, já tenho um gavetão, já tenho um gavetão.

Robert Frost: Fogo e gelo

De um programa da Cultura FM (RadioMetrópolis), apresentado pelo jornalista Fabio Malavoglia:

“Entre os mais conhecidos versos do poeta americano Robert Frost estão aqueles que compõem o poema Fire and Ice, isto é, Fogo e Gelo. Nesta obra Frost retrata aqueles que têm o hábito de predizer como acontecerá o fim do mundo. O poeta observa e comenta duas posturas opostas na aparência mas semelhantes no fundo pois, de uma forma ou outra, são pessoas que oscilam entre as labaredas da violência e as geleiras da indiferença. Tanto faz: umas e outras são fatais para o mundo, palavra que pode ser entendida como sinônimo para ‘o homem’.”

FIRE AND ICE – Robert Frost

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if I had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

FOGO E GELO – Tradução de Fabio Malavoglia

Acham alguns, o mundo acaba em fogo,
acham alguns, será no gelo.
Por quanto saboreio nos meus rogos
Apoio os que são a favor do fogo.
Mas se ser morto em dobro for meu selo
Creio do ódio já saber bastante
Para dizer aos que preferem gelo
Que ele também garante
O suficiente flagelo.

Pesquei na rede esta outra versão.

FOGO E GELO – Tradução Guilherme Gontijo Flores

Para alguns o mundo acaba em fogo,
Para alguns em gelo.
O desejo que provei, não pouco,
Me faz fechar com os que dizem fogo.
Mas se o fim em dobro hei de sofrê-lo,
Sei o bastante da raiva humana
Pra dizer que destruir com gelo
Tem lá seu apelo
E também funciona.

Como ambas são meio mancas, arrisco outra, e seja o que deus quiser:

FOGO E GELO

Há quem diga que tudo acaba em fogo,
E há quem fale em gelo.
Do que experimentei do desejo
Apoio quem advogue pelo fogo.
Mas se eu tiver de morrer de novo
Alguma coisa sei sobre o ódio
Para afirmar que o gelo faz sentido:
No fim dá bem para o gasto,
Repetido.

Raimundo Fagner e os herdeiros de Cecília Meireles se desavieram sobre os direitos de Canteiros, poema musicado por Magrinho, como Belchior chamava seu parceiro em Mucuripe (ver entrevista com Marcelo Tas no P.S.).

Canteiros é faixa B2 de Manera Frufru manera (LP de 1973), depois substituída pela gravadora Philips por Cavalo ferro.

Pelo bem geral de todos que não seríamos os mesmos sem a MPB, Fagner e a família de Cecília devem ter feito pazes advocatícias, pois no final da mesma década nosso cantautor de Orós voltou à obra da poeta com Motivo, faixa B2 do LP Quem viver chorará (Eu canto), de 1978, que tem esta dedicatória:

“Ao seu Fares e dona Francisca, com todo amor que tenho, e terei, quem viver chorará, Raimundo Fagner, Rio 29.08.78”.

A melodia do poema é transcriada numa sonoridade que ecoa o canto gitano, o fado, a seresta e o choro. Uma união feliz e duradoura em música e poesia.

Raimundão convidou Amelinha para uns vocalises que encarnam o penetrante colorido das cordas no arranjo: violão Ovation (Fagner), violão 7 cordas (Horondino José da Silva, o Dino 7 Cordas) e cavaquinho (Manassés), mais nada.

A contracapa do LP de 1978
MOTIVO – Cecília Meireles, poema de Viagem, 1939

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

O dicionário atrofiado

Manjou como o português está resumido nos corretores algorítmicos de texto? Podaram na boa uns dois terços do Houaiss. Tudo a ver com o patoá digital e o inglês do marketing, aliás, tudo a ver com o espírito, isto é, o fantasma da época.

«O caso Stálin e o espantalho Arendt no Brasil de Bolsonaro. Por Yara Frateschi, no El País Brasil.»

«Ficou bom pacas este Provoca, na TV Cultura, com Marcelo Tas entrevistando Fagner.»

«Eu moro dentro da casca do meu violão, com João Bosco. É do balacobaco. Somos introduzidos na fantástica coleção de violões do cantautor, que nos explica como e quando usa cada instrumento, seus timbres, madeiras e sonorizações de palcos. No segundo episódio, fala das afinações que utiliza, como chegou a elas e de sua importância nas composições.

João também toca e canta, para nossa sorte.»

«Joyce Morenoao vivo no Blue Note Tokyo (2008). Imperdível. Todo o suingue, charme e categoria desta artista está neste show, refrescando a bossa nova para os japoneses no aniversário do movimento.»

«Muito Prazer, Meu Primeiro Disco – Chico Buarque de Hollanda. O projeto do Sesc Pinheiros é idealizado pelo jornalista e escritor Lucas Nobile, com curadoria dele e de Zuza Homem de Mello. Vem à baila depois da morte de Zuza, no último dia 4, aos 87 anos. O entrevistado do episódio de estreia é Gilberto Gil. Mas essa conversa com Chico sobre seu primeiro LP, de1966, é rara e preciosa, como a própria participação de Zuza. É deliciosa a passagem em que Chico conta como aprendeu a compor com Tom Jobim

«Zuza Homem de Mello, curta-metragem de Jorge Bodanzky lançado em 2015 está na plataforma deste o início do mês. É ótimo. Zuza exibe em casa sua coleção de discos e fala de sua formação como jornalista musical quando estudava nos EUA.»

JURUPOCA, O AUTOR
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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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