Sobre Livro de Viagem

O jornal dedica-se à crônica de viagem e à poesia.

Jurupoca #26

BH. 12 a 18 de Junho, 2020 — Carta 26



Encantação pelo riso

Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos – risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!

1910 

Vielimir Khlébnikov (1885-1922), um dos poetas que descobri em minha, há décadas companheira, Nova antologia poesia russa moderna (Brasiliense, 5ª edição, 1987, pág. 81), com traduções dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. Essa aí é do Haroldo. Encantação pelo riso me salva sempre que me desavenho com o riso sem propósito e a sem-gracice de “KKKs” automáticos disparados por aí.



Artemisia Gentileschi (Roma, Itália, 1593 – Nápoles, Itália, 1656) pintou este Suzana e os anciãos aos 17 anos (Coleção Schönborn, Pommersfelden, Alemanha), em 1610. É o primeiro trabalho da artista barroca. Seu o nome deve ser o mais citado quando se fala no anonimato ou esquecimento de grandes mulheres na história da arte. O caso Artemisia tem muito a contar sobre a violência masculina e as disputas em torno de seu legado como mulher e esteta. O pai desejava interná-la num convento, a mantinha longe do ensino artístico e só permitia que ela saísse de casa com um acompanhante. Violentada continuamente pelo homem com quem é obrigada a casar, mais tarde se revela a bigamia do velhaco. No julgamento que  decorrente disso, ela é humilhada e torturada. Sua obra permaneceria nas sombras até o início do século passado. Se o enorme sofrimento que experimentou parece claramente expresso em seus quadros, também é verdade que Artemisia merece ser, antes, admirada pela alta qualidade do trabalho artístico que contemplamos. Mas essa conversa vai longe, como Eliza Apperly discorre com brilho e riqueza de detalhes neste artigo (em inglês) do Aeon. Transformaram Artemisia em ícone barroco do movimento #MeToo, e sua biografia de heroína tardia da causa pode ser mais valorizada pelo feminismo que a própria pintura, o que de fato não deixa de ser mais uma usurpação. Uma obra como Suzana e os anciãos deveria tornar esse debate ocioso. Cada espectador ganhará muito em admirar o quadro com espírito livre e simpatia por uma mulher que segue a nos olhar nos olhos 410 anos depois de ter aplicado a última pincelada na tela. Foto: Wikimedia Commons.

Opa. Vamos apear?

Emanações de enxofre amarelo-palha e de cloro gasoso, amarelo ovo, escapam de cloacas invisíveis. À tarde cinza-esverdeada cobre com seu manto o formigueiro humano aparentemente desnorteado. E a lua?

A lua cheia mais assombra que encanta os olhares atentos. E não há hidroxicloroquina, crucifixo ou bala de prata que possam nos livrar da mandraca.

Certos personagens de O mestre e Margarida, romance do russo Mikhail Bulgákov (1891-1940) estarão a vagar entre nós? Temo que sim.

Na Moscou dos anos 1930, marcada pelas maiores atrocidades de Joseph Stálin, alguém falava no diabo e ele aparecia! Esse livro foi escrito durante 12 anos e só publicado em 1967, já longe da morte de Bulgákov.

Woland, figurão das trevas, se disfarça com requintes, poser que é. Seu staff é formado por Korôviev (01), um sujeito cumprido que enverga fraque e usa um pincenê rachado; um ruivo-ardente de baixa estatura, paletó xadrez e canino à mostra, o faz-tudo Azazello (02), e ainda o enorme gato preto Behemoth (03), bobo da corte satânica, capaz de andar erguido nas duas patas traseiras, falar com desenvoltura e apreciar conhaque.

Quando querem, Woland, 01, 02 e 03 mostram-se distintos e gentis. Mas pessoas começam a desaparecer, sofrem “acidentes” e vão parar em hospitais psiquiátricos.

Moscou vive dias de magia negra, pânico e fúria.

Durante uma amena conversa de praça, Woland prediz a morte por decapitação de um conhecido editor de revista de arte que renegava a existência de Jesus Cristo. Uma hora depois, num acaso providencial, o cidadão cai nos trilhos do bonde e perde a cabeça.

01 testemunhará mais tarde o sinistro. Entre lágrimas e soluços, o pincenê rachado descreverá:

— “Acredite. Um, a cabeça para um lado, dois, a perna direita cortada ao meio, três, a perna esquerda ao meio também! A que ponto os bondes chegaram!

Woland esteve presente aos acontecimentos de Jerusalém na época de Pôncio Pilatos, durante o julgamento de Yeshua.

E a história do procurador romano é a mesma que inspira o romance que arruína o mestre do título, pobre dele, que só podia contar com a devota amante Margarida.

Mesmo inédita, a obra do mestre sem nome começa a ser duramente atacada em jornais e revistas.

O mestre é acusado de “militar pelo velho credo”, e tem a reputação arrasada. Terminará seus dias no hospício, mas no fim, na verdade, depois do fim, contará com os favores de belzebu.

Pilatos, na história do mestre, é atormentado pelas palavras de Yeshua à beira da expiação, “a covardia é a pior das fraquezas humanas”.

Ê, diabo!

Theodor Adorno (1903-1969), a leitora há de se lembrar, é aquele filósofo alemão que, certamente num arranjo mefistofélico, teria se disfarçado de quinto Beatle, conforme revelou ao mundo o nigromante Olavo Carvalho.

Com Lennon e McCartney, Herr Professor, segundo especulações, compusera sucessos como She Loves You, e inclusive sacara o refrão do iê-iê-iê, Sie liebt dich (yeah, yeah, yeah).

Bem, em conferência pronunciada na capital austríaca em 1967, intitulada Aspectos do novo radicalismo de direita, Adorno afirmou que “convicções e ideologias [assumem] seu caráter demoníaco, seu aspecto autenticamente destruidor, no momento exato em que a situação o priva de uma parte de sua substância”, numa referência ao nacionalismo que duvida de si mesmo.

(Vou ao texto do filósofo alemão por meio de um comentário do estudante da USP Daniel Pavan, no blog A Terra É Redonda. A edição em português da conferência sairá em breve pela Unesp.)

Mas, por falar no diabo, creio ter ouvido, e visto!, o grã-rabão Woland entre nós, sem rabo por sinal.

Tinha a cara comprida, os olhos fundos e negros, a cabeleira lilás como a da Baby Consuelo e um sorriso largo e doce.

Intrometeu-se numa live da onipresente e bem-amada Anitta. Quando tomou a palavra, em português encharcado de um sotaque germânico, satanás declarou:

— Pois é, senhorrres… Não ver substância nenhuma porraqui. Como a diabo gostar. Em Brasília eles repetir muito palavras de Evangelista apocalíptico, velho camarrada nosso, “E conhecerreis verdade e verdade vos libertarrá”. Como a diabo gostar. Está parra nós! eu falar pra zerro um e zerro dois. Zerro três não larga da meu pé! Aliás, não parra de dar cabriolas. O verdade vos libertarrá, claro, pra nós, meus querridooos! Pois sim, nós aceitar hospitalidade de país tão marravilhoso, e ficar por muito tempo!

O maligno disse isso e desapareceu em banda larga 5G, depois de testar negativo para o novo coronavírus.

É hora e vez da trupe de Woland? Deus nos livre!

Adorno, na tal palestra, alude a uma franja lunática que sobrevive nas democracias, “um resíduo de incorrigíveis ou malucos, um lunatic fringe, como se diz na América”.

Uma democracia nunca se realiza plenamente, quanto mais, penso, democracias como as latino-americanas, pausadas pelas armas como na ciclotimia da doença maníaco-depressiva.  

Como nos quadros da Cipas que se pregam nas paredes de fábricas, neste ano poderíamos anunciar ao mundo, em nossas embaixadas: “Estamos há 35 anos sem golpe militar!”

Dou a palavra novamente a Adorno:

“Poderíamos, neste sentido, qualificar os movimentos fascistas de feridas, de cicatrizes de uma democracia, que não está ainda, neste momento, totalmente a altura da ideia que ela faz de si mesma”.

Sabe-se que Behemoth aprecia muito as carícias dos que não dormem assombrados pela conspiração comuna do Foro de São Paulo, e tem sonhos de urinar na cama com o complô do vírus chinês.

Já a predição de Korôviev é pelos que odeiam com fervor a imprensa e todos os políticos e juízes. Quanto a Azazello, o cramulhano esteve em passeatas pedindo o golpe. Achou o maior barato. E Woland?

Bem, esse aí foi descansar um pouco. Cedo se sentiu entediado e incumbiu sua turma de tomar providências.

Helahoho! helahoho!

Behemoth, Woland e Korôviev em cena da minissérie russa baseada no livro de Mikhail Bulgákov O mestre e Margarida, e dirigida por Vladimir Bortko. Foto: IMDb

Cana engajado
A violência policial no Brasil é justificada quando se considera que a vítima assassinada, em geral pobres e pretos, merecia morrer. E as famílias das vítimas se desesperam pra tentar provar que seus filhos eram inocentes. Esse atestado da vida nacional é passado por um cana engajado em uma maravilha de causa. Orlando Zaccone é delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro e um do dos fundadores do Movimento Policiais Antifascismo. Sim, existe tal coisa no Brasil! O manifesto nacional do grupo, assinado por 500 agentes de segurança pública, foi lançado dia 5. O fascismo verde-catarrento quer transformar as execuções de inocentes em política de estado. Quem fala outra vez é Zaccone, com outras palavras. Além de orbitar organizações milicianas, a extrema direita seduz as polícias Brasil afora — favorecida pelo estereótipo de esquerda que despreza todo e qualquer força policial (no chavão all cops are bastards dos grupos antifascistas norte-americano). Zaccone foi o delegado responsável pela investigação que resultou na condenação de servidores públicos pelo assassinato do servente de pedreiro Amarildo Dias de Souza, em 2013, na favela da Rocinha.

Longa tradição
A tradição de humilhar, espancar e matar pobres e pretos (“a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade…”), foi reforçada durante a longa ditadura militar, sempre adoçada pela cordialidade dos senhores de engenho e barões da indústria. Um pio separa o sargento boa praça que prende e espanca desfavorecidos em nome da gente fina, e ganha uma cervejinha do empresário bom de papo, do policial que sobe o morro armado de fuzil e manda bala em meninos como João Pedro.

Ecos do Eco
Provocado pelo Fernando Gabeira, fui reler O fascismo eterno, de Umberto Eco (1932-2016). Taí uma leitura (40 minutos) básica nestes dias empesteados e de muito blá-blá-blá. Pode iluminar uma alma sufocada. Antes de entrar no assunto, Eco nos diz que aprendeu cedo que liberdade de opinião (libertà di parola; a tradução emprega “liberdade de palavra”, expressão inusual em português) significa “libertar-se da retórica”. O professor também ensina que não é razoável esperar que governos fascistas, em circunstâncias históricas diversas, retornem com a mesma cara. O fascismo italiano de Mussolini é um totalitarismo fuzzy, caracteriza, ou seja, “esfumado”, “impreciso”, “confuso”, “desfocado”, nas traduções oferecidas pela tradutora (Record, 2018). E inimitável. O texto passa então a caracterizar os elementos do Ur-Fascismo ou fascismo eterno. A presença de apenas um desses elementos, nas palavras de Eco, é suficiente pra que se “forme uma nebulosa fascista”. Mas pra falar desses elementos preciso de outra nota.

Invidia penis
Na nebulosa fascista não deve existir “avanço do saber”; a verdade já está dada e ponto, só nos cabe interpretar suas mensagens obscuras. Esse tradicionalismo recusa a modernidade, é anti-iluminista e irracionalista, ainda que pé-de-chinelo. Deve-se agir duas vezes antes de pensar, como no Bom Conselho invertido de Chico Buarque — esse é outro elemento da nebulosa: o culto à ação. Por essas e outras, a cultura será sempre suspeita por alimentar o pensamento crítico, donde a célebre tirada de Goebbels: “Quando ouço falar em cultura, saco meu revólver”.  No Ur-Fascismo, desacordo é traição, não tem conversa. Classes médias frustradas, humilhadas pela política e a economia são presas dóceis do fascismo eterno. A riqueza ostensiva, a preocupação com o ganho dos outros e a força do inimigo perturbam essas facções. A obsessão pela conspiração, contra inimigos internos e externos, nasce do nacionalismo, a única identificação daqueles que se veem desprovidos de qualquer identidade social. No Ur-fascismo não há “luta pela vida”, mas “vida pela luta”. A vida é uma guerra permanente. Chega-se a cultuar a Indesejada das gentes (como no mote dos falangistas espanhóis: ¡Viva la muerte!”), frequentemente a morte dos outros, e desprezam-se os fracos. O fascismo eterno transfere suas fraquezas, sua incapacidade de jogar, pois não é fácil impor seu programa, pra questões sexuais. Na nebulosa fascista todos são muito machos. Desdenham-se as mulheres, e hábitos sexuais “não conformistas” como o homossexualismo são repudiados. As armas são seu “Ersatz [substituto] fálico: seus jogos de guerra se devem a uma invidia penis permanente.” Por fim, o Ur-Fascismo se alimenta de um “populismo qualitativo” quando se opõe aos “pútridos parlamentares”. Direitos individuais não são reconhecidos, mas o “povo é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”.

Fala, Felipe 
Eco viveu o suficiente pra ver que em nossa era o “populismo qualitativo” iria se espraiar via internet, em busca da necessária resposta emocional de que necessita. As eleições de 2018 no Brasil confirmaram em cheio a antevisão do autor de O nome da rosa. O pleito foi terrivelmente animado por emoções negativas, que muitas vezes são as que mais contam numa campanha eleitoral, como ensina a ciência política. Além da justa aversão ao PT, a franja lunática de que fala Adorno, tal marginália, aproveitou a janela de oportunidades escancarada pela novas tecnologias de comunicação. O guru youtubeiro e empresário Felipe Neto deu à Folha uma ótima entrevista a respeito. Felipe, que parece ter se recueprado de uma temporada no inferno nas milícias digitais de ¡.38!, mostra como o ódio é o combustível premium dos conteúdos virais. O redator da Folha tirou o título da entrevista de uma boa frase do guru, “o gabinete do ódio tem a inteligência de uma geladeira frost free”. Mas essa inteligência precária realiza prodígios. Eis o melhor trecho da conversa:

Como você analisa as estratégias digitais do bolsonarismo?
A estratégia é simples, mas extremamente eficaz. Foi ensinada a eles pelo Steve Bannon e seus assistentes, o que faz muita gente imaginar uma gigantesca teia de hackers e especialistas trabalhando 24 horas por dia em salas mal iluminadas no subterrâneo de um solo russo.

A realidade é que a estratégia é simplesmente esta: milhares de grupos de Whatsapp e Telegram comandados por funcionários que trabalham para comandar os grupos.

Esses grupos são compostos por centenas de apoiadores, cooptados “soldados digitais”, e cada um deve ter uma ou múltiplas contas de Twitter e Facebook. É a partir desses grupos que eles criam todas as notícias falsas, normalmente em sites que se denominam “imprensa de verdade”, e espalham os links compulsivamente. É também lá que eles criam as hashtags e ensinam os “soldados” a tuitar. É também lá que sincronizam os ataques para tentar destruir a reputação de opositores, espalhando vídeos falsos, montagens ou hashtags de silenciamento. Isso é o que chamamos de gabinete do ódio. Tudo que nasce ali se espalha rapidamente em todas as redes sociais.

Contudo, além disso, há também a estratégia de comunicação do presidente e seus ministros de fomentar o caos o tempo inteiro. Por meio da polarização constante e da ideia de estarmos numa guerra contra o comunismo, eles conseguem deixar seu séquito de admiradores sempre com medo e motivados para a batalha.

Por que essas táticas são tão efetivas?
Porque são trabalhadas em cima de conteúdo viral que motiva o ódio. Em vez de o gabinete do ódio tentar mostrar medidas positivas e efetivas do bolsonarismo, eles operam pra tentar destruir tudo o que se opõe a eles. […]

Fascismo tabajara
Bandeiras da Ucrânia tremulam em manifestações dominicais pró-¡.38!. O presidente-Taurus quer “privatizar o golpe” armando a população, nas palavras de Celso Rocha de Barros. A trupe macabra investe na guerra civil, já que as Forças Armadas dificilmente entrariam na canoa furada de outra “revolução”, na opinião do colunista da Folha. Uma dúzia de doidos marcha de tocha acesa e máscara de bandido contra o STF, a brincar de KKK (Ku Klux Klan). São a mais alta laia do fascismo tabajara, expressão atribuída ao cientista político Luiz Werneck Viana pelo Gabeira. Entram no mesmo pote, no país governado por um Trump Tropical, na alcunha do jornal Financial Times, as abstrusas pedaladas sanitárias, como Thomás de Barros, professor brasileiro de teoria política em Paris, definiu a manobra de ¡.38! pra tentar torturar os números de mortos da Covid-19 até que eles confessassem o que governo desejava. É que ¡.38! “vive em negação e parece acreditar ser possível, na era da informação, praticar censura canhestra ao estilo da ditadura militar que tanto incensa”, no desenho exato de editorial da Folha.

Matemos o luar!
O futurismo amava os automóveis, as usinas de aço e a guerra. Marinetti, lembra Eco, declarava que um carro era mais belo que a Vitória de Samotrácia e queria até matar o luar! Fernando Pessoa, por acaso, foi um admirador de Marinetti. Mas o fato é que o luar, coitado, voltou a ser acossado pela nova corrida espacial e pelos futuristas de hoje, esses escravos da uniformidade tecnológica, encantados com a beleza da engenharia genética que, cedo ou tarde, forjará uma humanidade mais sã, inteligente, bonita e, quem sabe, no gozo da vida eterna!


Com João Gilberto (Juazeiro, BA, 1931-Rio de Janeiro, RJ, 2019) em Louco (Ela é seu mundo) de Wilson Batista (Campos dos Goytacazes, RJ, 1913-Rio de Janeiro, RJ, 1968) e Henrique de Almeida (Rio de Janeiro, RJ, 1917-São  Paulo, SP, 1985).

Há várias gravações desse samba, como a Zezé Motta ou a de João Nogueira, mas nada se compara a sua reinvenção por João Gilberto.

Digo que João descobriu a verdadeira música que antes e depois deles outros intérpretes não viram. Ouça, por comparação, como Aracy de Almeida o registrava em 1946, ou Elza Soares, em 1967.

O violão de João, ao cadenciar e enfatizar a levada triste da melodia, dá uma dimensão nova e trágica a uma letra singela sobre um homem que perde a mulher amada e o chão. Isso não cabe num samba rasgado ou num samba tradicional.

A lírica entre voz e instrumento torna a composição uma obra prima, digna do mais belo lieder de Schumann.

Escolhi a faixa que aparece no CD Live in Tokyo, álbum da Universal lançado em 2004, que pede para ser ouvido na íntegra quantas vezes pudermos.

Louco

Louco, pelas ruas ele andava
O coitado chorava
Transformou-se até num vagabundo
Louco, para ele a vida não valia nada
Para ele a mulher amada
Era seu mundo

Conselhos eu lhe dei
Para ele se aquecer
Aquele falso amor
Ele se convenceu
Que ela nunca mereceu
Nem reparou
Sua grande dor
Que louco!

Indústria da fofoca
A Ilustrada, caderno ex-cultura da Folha, já velha caroneira da “indústria da fofoca” na era da internet, deu com destaque a história do barraco entre a cantora Anitta e o biógrafo dela, o blogueiro Leo Dias. “É um filão da imprensa que atinge grande audiência e que não pode ser desprezado na contabilidade”, a matéria confessa. “Quase todos os portais e redes de TV têm suas colunas e programas que tratam, bem ou mal, desse assunto”, informa. Deveras. Tanto Folha quanto sua nave-mãe, o portal UOL, mantêm vários desses espaços, não é? Filão da imprensa é uma expressão débil. A indústria da fofoca é o veio mais rico da mina de ouro da informação caça-clique, monitorada pelo Google e agências de publicidade.

Uma manchete de ex-cultura na Folha vale quantos cliques? Cartas para a redação da Jurupoca


Vocês querem bacalhau?
Claro, posso te ouvir me contestar, mas não é isso o que os leitores querem, fazer quê? Sim, è vero. Mas tempos houve em que os melhores jornais e editorias de cultura no Brasil não se pautavam tão despudorada e acriticamente pelo gosto uniforme, popular dominante, ontem das massas, hoje do ditame politicamente correto e do campeonato permanente de fúria e banalidade jogado nas redes sociais. É o equivalente atual ao pregão do Velho Guerreiro, “vocês querem bacalhau?”, ele berrava, antes de despachar o pescado na plateia. Muito mais gente que na época de Chacrinha segue a tomar bacalhoadas na cara. A melhor imprensa do mundo pelo menos ainda tenta se dar ao respeito, mirar o longo prazo e valorizar a inteligência do leitor, em vez de ceder a apelos por mais fofoca, culinária e pornografia. Formar e educar pra além do entretenimento ralo, ainda é ou deveria ser papel da imprensa e do jornalismo cultural. Mas, helahoho! helahoho!

Adorno e as estátuas derrubadas
De certa forma, nossa era realiza as críticas de Adorno, por falar nele, à indústria cultural. Ele previu que o entretenimento efêmero e vazio acabaria por anestesiar o pensamento crítico, e isso representaria uma ameaça à democracia. Os jovens, ligados em jogos, humor e na internet, se desinteressaram por política e eleições. O espectro do fanatismo, que vai de Trump ao radicalismo de esquerda contra a liberdade de expressão, surgiu daí. Agora começam a derrubar estátuas politicamente incorretas. Tenho cá pra mim que todo esse revisionismo histórico é um sintoma da incultura e da descrença geral na política.

Patafísica
Mas de que falo? Tonterias, como ele me diria. Aos 83 anos, o dramaturgo, cineasta, ensaísta e não sei mais o que Fernando Arrabal, criador da Patafísica, espécie de braço do surrealismo, segue muito mais lúcido que o rezingueiro que vos escreve. Arrabal vive há décadas em Paris, mas deu em Madri uma entrevista deliciosa ao site espanhol Jot Down. Reclama de falta de dinheiro, por isso não volta a viver na Espanha, como ainda sonha. Lembra que nenhum escritor, dramaturgo ou poeta entra na lista das pessoas mais influentes da revista Time. Oprah, que ele diz que não sabia quem era, tem seu lugar garantido entra ano sai ano. Sobre o mau estado da cultura, num mundo dominado por TV, internet e jogos eletrônicos, pontua que desde a época dos gregos ou, na Espanha, de Quevedo, se reclama da incultura geral e do desinteresse das pessoas pelas artes. Parafraseia Quevedo: “Miré los muros de la patria mía… y no vio nada más que mierda”. Isso na época de Góngora, Cervantes e Tirso de Molina, caçoa. E seguimos assim. “Ando na rua e pergunto às pessoas, você conhece algo de Shakespeares? Na Espanha, todo mundo a quem pergunto me responde: Sim, vi Romeu e Julieta, de Cantinflas.”

Sonho pós-humano
Escrevendo de Veneza pra revista mexicana Letras Libres, o poeta e ensaísta Massimo Rizzante é um desses cronistas enfezados que se fazem cada vez mais raros. Diz que burocratas, escritores e cientistas não foram capazes de tirar da peste nenhuma lição. A oportunidade história de frear o ritmo global e a destruição da natureza, com a mudança da economia, vai por água abaixo, lamenta. “Não creio que ninguém com um mínimo sensibilidade necessite de nenhuma pandemia para entender que a única religião que nos ficou é a do progresso técnico-científico”, descasca Rizzante. Um incomodado esse moço nem tão moço. Vai pelos 56 anos. O sentimento humanitário convertido em propaganda é puro kitsch, ele tasca, a rir das lágrimas que a solidariedade derrama na pandemia nos comerciais de bancos. Seu texto começa por situar que Hiroshima destruiu de vez o sonho humanitário e deu lugar ao sonho pós-humano. “De fato, depois de Hiroshima o homem pôde comprovar o poder de sua conspiração contra toda forma humana e contra toda forma de vida.”




Universitas?
O Estado da Arte (Estadão) traduziu uma conferência de George Steiner (1929-2020) proferida em 2013 no Nexus Instituut, com esse título aí. Já velhinho, o grande mestre explora o moderno status da universidade, a ascendência da ciência e o ocaso das chamadas humanidades. O vídeo com a apresentação de Steiner, em inglês, está ao pé da página. |
Mrs. Dalloway. Saiu nova tradução da obra prima de Virginia Woolf, por Thais Paiva e Stephanie Fernandes, pela Editora Autofágica. |
Arrasta-pé. Arraiá de Geraldo Azevedo é o novo e bom disco do artista, álbum com o registro do show apresentado no Circo Voador, no Rio, em julho de 2019. Leia aqui a crítica de Mauro Ferreira em seu blog no G1 |


Não esqueça do que você quer. A mensagem está em uma linda e terna canção, de puro amor materno que Fernanda Takai destila em Não esqueça, do compositor gaúcho Nico Nicolaiewsky (1957–2014). É a segunda amostra do quarto álbum solo da artista, previsto para julho pela gravadora Deck. |


Celebrations 5. Está no YouTube mais um miniconcerto da Komische Opera de Berlin. Barrie Kosky, pianista e diretor da instituição, recebe a soprano Nicole Chevalier. |


JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


Jurupoca #25

Uma imagem contendo desenho

Descrição gerada automaticamente
BH, 5 a 11 de Junho de 2020 — Carta 25


Congresso Internacional do Medo


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, MG, 1902 - Rio de Janeiro, RJ, 1987), poema do Sentimento do mundo. Está à página 35 de meu exemplar editado pela Record,1988.

Captura de tela do Google Arts & Culture com a seleção Vibrant oranges (laranjas vibrantes). Um algoritmo filtra por tonalidades o gigantesco acervo catalogado do site. Nenhum museu do mundo poderia te oferecer este passeio diversificado pela arte planetária explorada segundo as cores do arco-íris. Cada pintura clicada traz informações técnicas, autorais, procedência e um breve panorama histórico.


“Adélio Bispo estaria também exercendo seu direito à liberdade de expressão?” — Rosângela Bittar, em O Estado de S. Paulo.

Opa! Vamos apear?

Por volta das seis e meia de uma madrugada dessas, um patriota na vizinhança botou pra tocar o hino nacional, no máximo. É o golpe já nas ruas, pensei, ao tentar despertar. Os tanques estariam na Getúlio Vargas, na minha esquina. Amarelei.

Na terça-feira (2) fomos escoiceados de novo. “Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo.” Você conseguiu respirar depois de ouvir o comentário do suposto líder máximo de seu país?

Seguíamos sem ministro da Saúde, com ressaca de cloroquina, estados  municípios desajustados e epidemiologistas em polvorosa — “a população foi liberada para ir ao abatedouro”, opinava um especialista do portal Covid-19.

Nesta cacofonia biruta chamada Brasil, a fantasia dos governistas transformou a liberdade de expressão numa modalidade de luta. No seu vale-tudo podem entrar ameaças de mortes, clamor pela ditadura e tratamento de saúde sem respaldo médico.

Deita-se no balaio do Art. 5º da Constituição a pútrida divulgação de vídeos e montagens caluniosos contra autoridades e jornalistas.

Os apoiadores de Sua Excrescência interpretam a Carta de 1988 no salão do bordel de seu inferno familiar.

“O governo criou sua própria teoria da liberdade de expressão para justificar o modelo de operação e os crimes identificados na ação de grupos leais a Bolsonaro”, diz a insuperável Rosângela Bittar. “Adélio Bispo estaria também exercendo seu direito à liberdade de expressão?”, ela pergunta. Helahoho! helahoho!

Quem vai morrer?
O nazismo gaseou milhares de deficientes, considerados “inúteis” à sociedade, bem antes da Solução Final. “Tempos de guerra são os melhores momentos para se eliminar doentes incuráveis” (Adolf Hitler). Há quem goste de comparar a pandemia atual à guerra. Mas, o que dizer da marcação dos que estão morrendo, entre idosos e vulneráveis (não-atletas), com a naturalidade de um contador funerário? (¡.³8)BolsonArgh(!.³8), doravante  (¡.38!)   — leia-se a exclamação “ponto trinta e oito”, — havia chamado às falas o diretor-geral da PRF, Adriano Furtado. Implicou com a nota de pesar pela morte, de Covid-19, do agente Marcos Roberto Tokumori, de 53 anos. O texto da PRF não falava em fatores de risco da vítima, e isso indignou (¡.38!). Furtado perderia seu cargo. Morrer com pré-condição, é ok isso daí. Infelizmente algumas mortes terão. Paciência”, diria também (¡.38!), num português de invejar o de Weintraub. E ainda contestam o ministro Celso de Mello, do STF, pelo alerta sobre o ovo da serpente.

Mortes fora, soldados!
Os informes diários do quartel que virou o Ministério da Saúde (sem ministro) sobre a Covid-19 são um contencioso insano contra a lógica básica e a própria cidadania. Na ordem unida estabelecida na pasta, devem-se evitar destaques sobre o número de mortes diárias. Não é patriótico. Há de se proclamar nos títulos, em vez disso, o número de curados! Os óbitos ficam no final do texto, onde a maioria dos leitores nem chega. Com esse novíssimo, altaneiro e verde-oliva manual de relações públicas, o MS tenta comprovar o trabalho magnífico que o governo vem realizando na pandemia.

Mudando de assunto
O professor de filosofia Marcos Nobre, da Unicamp, acaba de lançar o livro Ponto final – A guerra de Bolsonaro contra a democracia (Todavia). Nobre tem feito uma análise interessante da toada macabra que dá o tom no Planalto. Nesta entrevista, ele chama de “diversionismo tétrico” os ataques de (¡.38!) e suas milícias digitais ao STF e ao Congresso Nacional. (¡.38!), ele diz, “conscientemente quer mudar o assunto das mortes para que ele não seja responsabilizado. É a coisa mais pusilânime”, comenta. “Não é que não temos que discutir esses ataques, porque ele de fato quer destruir a democracia, mas o que ele está fazendo agora é confundir as pessoas”, acrescenta. O professor olha para os elementos em jogo e vê um método, uma nefasta racionalidade política.

É de coração
Em Autopsicografia (belamente musicado por Tom Jobim), Fernando Pessoa compara  o coração a um comboio de cordas, que gira nas calhas de roda (canal que leva água ao moinho) a entreter a razão. Pois tal comboio também põe a rodar, não é de hoje!, o patrimonialismo (a indistinção entre esfera pública e privada) brasileiro, a entreter o trato da coisa pública. A cordialidade, virtude familiar, rege os “laços de sangue e de coração”, na matriz do homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda, no luminoso ensaio Raízes do Brasil. Pois o homem cordial — característica que herdamos da colonização lusitana (a par do sangue, da boa dose de lirismo… além da sífilis, é claro; me desculpe a divagação, não ia perder a chance…) — pede passagem!, mais um vez, pra nos explicar como gente brasileira em tempos de peste, recessão e (¡.38!). O pesquisador André Jobim Martins comenta a inédita dissertação de mestrado que Sérgio defendeu na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, em 1958, na qual o historiador desenvolve certos argumentos econômicos esboçados no Raízes. “Na condução dos negócios do Estado, segundo nossas leis, deveria imperar o princípio da impessoalidade”, lembra Martins. “O homem cordial, porém, não tem uma constituição mental compatível com tais princípios”. Logo, resplandece na nova política, entre um impropério e outro, a metida de patas de (¡.38!) na Polícia Federal, no Ibama, no Iphan e no escambau pra atender descaradamente amigos e familiares.

Haters de 3º grau
Brasileiros que cursaram uma universidade e ganham bem a vida são os mais lastimáveis partidários do Gabinete do Ódio, esta verdadeira Casa Civil do governo de (¡.38!). Tais cidadãos privilegiados, por bem educados, ajudam a espalhar notícias fraudulentas e documentos forjados. Desprezam o jornalismo profissional, o consenso científico e a própria formação cultural — por recalques que só Freud explica. Curtem e repassam vídeos conspiratórios, difamadores e golpistas. Guiam-se por trolls, se acham mais espertos e sábios que todo mundo, e até a verdade factual da morte relativizam, como lhes é devido. São imperdoáveis.

Ministério da Ingnorança
Haters e golpistas bem que merecem um ministro como Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub. Verdadeiro combatente da causa, bastião de (¡.38!) no ministério, guardião da ortografia! Não se sabe como um economista da USP pós-graduado na FGV, como reza o Wikipedia, consegue escrever tão mal e, como um bandalho, negar continuamente os fatos e a História. O condecorado Weintraub, GOMN (Grande Ordem do Mérito Naval), por todos os méritos é o ministro da Deseducação que nem a mais reles das repúblicas bananeiras sustentaria.

Origens do mal
“Eu poderia estar em plena Quinta Avenida e atirar em alguém, e eu não perderia eleitores”, disse Donald Trump, o Topete Atômico, durante comício em Iowa, na campanha presidencial de 2016. E não vemos isso aqui, agorinha? A adesão acrítica e fanática e inquebrantável aos demagogos de ocasião? O fenômeno atualiza os ensinamentos de Hannah Arendt, aponta a cientista política espanhola Máriam Martínez-Bascuñán, ao revalorizar As origens do totalitarismo, uma das obras mestras da pensadora alemã. A pós-verdade na cultura política foi apontada por Arendt já em sua época, presente nos movimentos de massa que cevaram as atrocidades de Hitler e Stalin. Coletivos unidos pelo visgo da ideologia, agora também nas novas guerras culturais, hipotecam suas vidas ao fascio, palavra italiana pra feixe, na origem do termo fascismo. Além de cada feixe, pro crente, só há inimigos.

Verdade factual
Esta Ju recomendou em novembro o livro de Eugenio Bucci sobre as engrenagens da pós-verdade, embasado nas lições de Hannah Arendt sobre a “verdade factual” como fundamento da liberdade na democracia. É do que trata Martínez-Bascuñán no cintilante artigo citado. Nesta altura, seu texto pede não apenas citação, grifo e sublinhado, senão pra que seja emoldurado e pendurado em salas de aula e repartições deste insalubre Bananão (a tradução do espanhol pro português feita pelo El País Brasil é bem fraca. Tentei melhorá-la um pouquinho, recorrendo aos colchetes):

“A autora de Verdade e política [uma das obras de Arendt] também nos ajudou a diferenciar entre verdades factuais e opiniões, nos alertando que ‘a liberdade de opinião é uma farsa se não se garantir a informação objetiva e os próprios fatos não forem aceitos’. Dessas observações se destila a imensa importância que Arendt concedeu à esfera pública, esse espaço que permite a existência de um ‘mundo comum’ e sua inevitável conexão com a pluralidade de opiniões e a liberdade humana. Porque somente com a discussão ‘humanizamos aquilo que está acontecendo no mundo e em nós mesmos, pelo mero fato de falar sobre isso; e à medida que o fazemos, aprendemos a ser humanos’.” Arendt nos alertava do risco de preencher esse espaço [com] uma única verdade, pois qualquer verdade ‘[interrompe] necessariamente o movimento do pensamento’. Assim, pluralidade e liberdade estão sempre [de mão dadas], conectadas à esfera pública a partir de seu republicanismo, nesse espaço […] que possibilita a autonomia pessoal e política exatamente ali onde convivem vozes dissidentes, levando adiante uma discussão autêntica, capaz de gerar um ‘mundo comum’. Mas é a informação objetiva que garante que possamos nos pronunciar sobre algo com uma ancoragem no real, fugindo de realidades paralelas e da tentação de levar ao público meras inquietudes privadas. As opiniões só podem se formar com a condição de que existam essa informação objetiva e uma discussão autenticamente plural e aberta; do contrário, ocorrerão ‘estados de ânimo, mas não de opiniões’. É inevitável pensar na atual quebra do espaço público derivada do absurdo poder das redes, de sua potestade para expulsar as vozes dissidentes e preencher o debate de mera emocionalidade.”


Assombração verde-oliva
Apostas de que nossa encrenca atual acabará pagam cem por um. O estrago pode mal ter começado. E não precisamos falar em quarteladas. O grande historiador José Murilo de Carvalho disse a Miriam Leitão que nossa democracia balzaquiana está, sim, sob risco. Mas golpe, golpe, como em 1964, nisso ele não crê. Marinha e Aeronáutica não se rebaixariam, e não estamos mais na Guerra Fria, argumenta. Mas a desestabilização do sistema parece garantida, enquanto o Exército bancar os arreganhos antissistema de (¡.38!).

Política da morte e da força
E há observadores surpreendentemente menos otimistas. Pode não haver quartelada, mas é preciso enxergar os estragos concretizados nas ruas, nas matas e nos cemitérios do país. “As Forças Armadas não só encamparam a política da morte de Bolsonaro”, escreve Fernando Gabeira com a proverbial serenidade. “Elas tiraram do centro da cena o Ibama e outros organismos que fazem cumprir nossa legislação ambiental, conquistada ao longo de anos de democracia.” O autor de O que é isso, companheiro? prossegue:

“O governo brasileiro vai se tornar uma grande ameaça ambiental e biológica simultaneamente. Lutar contra ele em todos os cantos do planeta é uma luta pela vida, pela própria sobrevivência. Esse será nosso argumento.

“Internamente, será preciso uma frente pela democracia. Já temos uma frente informal pela vida, expressa no trabalho de milhares de médicos e profissionais de saúde, nos grupos de solidariedade que se formaram ao longo do Brasil.

“O que a frente pela democracia tem a aprender com eles? Em primeiro lugar, ninguém perde tempo culpando o outro pela chegada do coronavírus. Em segundo lugar, a gravidade da morte onipresente não dá espaço para confronto de egos.

“Uma frente pela democracia não é uma luta pelo poder, mas sim pelas regras do jogo. Quem estiver interessado no poder que espere as eleições. Foi assim no movimento pelas Diretas.

“Hoje uma frente pela democracia transcende as possibilidades do movimento pelas Diretas. As redes sociais colocam na arena milhares de novos atores, alguns deles capazes de falar com mais gente do que todos os partidos juntos. O espaço para criatividade se ampliou. O papel de cada indivíduo é muito mais importante do que foi no passado.”


Uma imagem contendo pare, placar

Descrição gerada automaticamente

Com Lô Borges (Salomão Borges Filho, Belo Horizonte, MG, 1952 -) em Ela, música de A Via-Láctea, faixa A2 do vinil da EMI de 1979. Uma canção típica da bem-sucedida parceria de Lô e Marcio Borges (Márcio Hilton Fragoso Borges, Belo Horizonte, MG, 1946 – ). É solar, romântica, mineira e universal. O colorido da instrumentação convida a um passeio matinal com a namorada na adolescência. Esse efeito etéreo é dado nos refrões sonoros marcados por guitarras, teclados e coro. Tudo soa muito bem ainda hoje.  Os músicos Telo Borges, Wagner Tiso, Fernando Oly e Paulinho Carvalho participaram das gravações. A Via-Láctea saiu sete anos depois do “Disco do Tênis” (1972) e tem como maiores sucessos Vento de Maio, Equatorial e Clube da Esquina Nº 2 (já com a letra de Solange Borges). Ela traz uma letra simples e leve, como tantas do Clube da Esquina, mas elegante e perfeitamente encaixada na arestas da melodia, como na última estrofe (marcadas em itálico): “Mas prepara um belo jantar/ Tira a blusa, me faz um sinal/ O vestido azul do noivado está/ Enterrado no baú/ E o vento da paixão/ Já vem soprar um novo coração…”.


Nem ajoelha nem reza
Mr. Topete Atômico, por recomendação de um assessor, saiu da Casa Branca na noite de segunda-feira (01), caminhou na Lafayette Square até a porta da St. John ( uma igreja episcopal frequentada em Washington pelos primeiros presidentes dos EUA) e sojigou uma Bíblica como um campeão peso-pesado ostentaria seu cinturão. A bispa responsável pelo templo, Marian E. Budde, ficou tiririca com a armação. “Ele não rezou”, ela disse, sobre as revoltas no país por mais uma vítima da violência policial branca. “Ele não mencionou George Floyd, não mencionou a agonia de um povo que vem sendo submetido a este tipo de expressão de racismo e supremacia branca por centenas de anos. Precisamos de um presidente que posa unificar e curar. Ele fez o oposto disso, e nos resta juntar os cacos.”

E seu Zema-Zen?

Ouvo muito bem”, assegurou Romeu Zema, governador meio zen das Minas dos Matos Gerais, ao tentar dizer à entrevistadora da CNN Brasil que a ouvia com clareza. Mas, lá pelo fim da pandemia, é incerto se ele poderá dizer que se houve bem como homem público. “Há indicações de que o aparente sucesso de Minas no enfrentamento da pandemia é bem menos robusto do que sugerem os números oficiais”, comentou José Reis Lopes, um jornalista especializado em biologia. Lopes explica porque não passa de asneira dizer que testar a população “serve apenas para satisfazer curiosidade de pesquisador”, como Zema-Zen afirmou. O colunista da Folha não perdeu a chance de caçoar de nosso esportivo governador:

“Dizem as más línguas que o partido Novo nada mais é que o bolsonarismo que calça sapatênis e aprendeu a substituir as mãos sujas por garfo e faca à mesa.”

Caixa alta com o Corona ou quem está saqueando quem
Os bilionários da elite americana viram suas fortunas inflarem 434 bilhões de dólares (lucro líquido) durante a pandemia e o lockdown nos EUA. Jeff Bezos, da Amazon, e Mark Zuckerberg, do Facebook, são os campeões em faturamento. Zach Webb, editor da The Baffle, lembra em uma newsletter dessa revista que a bela performance da elite econômica ocorre em uma “gloriosa época” de morticínio em massa e desemprego na casa dos 20%. “A empresas de private equity (investidoras ) palpitam de alegria por tomar o lugar das grandes lojas de departamento [fechadas na pandemia] e enriquecem à luz que se apaga nos olhos da vovozinha, sem se importar”, diz Webb. Karl Marx explodiria em lágrimas ao ler isso. Ao comentar a ira dos protestos pelo assassinato de George Floyd e as onda saques, Webb condena a “paixão egotista” que brinda o índice Down Jones, o Ibovespa de lá, e por fim ainda lembra o escritor e educador negro norte-americano James Baldwin: “Eu me oponho à palavra ‘saqueadores’ (looters) porque me pergunto quem estará saqueando quem, baby.”

Caridade por mim
I see trees of green, red roses too/ I see them bloom, for me and you/ And I think to myself… Cantarolo essa canção essencial ao batucar estas linhas. “Sapo não pula por boniteza, mas porém por percisão” (citado por Guimarães Rosa como “provérbio capiau” na epígrafe de A hora e vez de Augusto Matraga). Por percisão, ouvi de manhã várias versões de What Wonderful Word (George Weiss & Bob Thiele), a começar, claro, da insuperável gravação de Louis Armstrong, de 1968. Israel Ka’ano’i Kamakawiwo’ole também nos fere a alma com sua versão (1990) acoplada  a Somewhere Over the Rainbow (Harold Arlen & E.Y. Harburg), acompanhando-se com um uquelele. Nem o uso da música como contraponto irônico à carnificina da guerra no filme Bom Dia, Vietnã, de 1987, retirou o frescor e encanto eternos dessa música. Logo, coitado do Siúves, penso e digo de mim pra mi, pro meu euzinho mesmo, convocando o Álvaro de Campos em meu apoio: “Sim, coitado dele mais que de muitos…” É que sim, “Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, / E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.”


Uma imagem contendo objeto

Descrição gerada automaticamente
A fronteira final. Que tal esta estonteante compilação de imagens do espaço capitadas pelo telescópio orbital Hubble? | Ao mestre, com carinho. Humberto Werneck repõe o valor de Murilo Rubião na literatura brasileira e sua importância no ambiente cultural do Belo. || Saudades de Carrie. O filósofo espanhol Fernando Savater lamenta o final de Homeland, depois de ver, em quarentena, a oitava e última temporada da série. “Carrie, Saul, sentirei falta de vocês. E agora, o quê?”. | Wild World. Vivendo em Dubai, com 71 anos, Yusuf, ou Cat Stevens, retorna com uma “versão reimaginada” de Tea for the Tillerman, seu álbum clássico de 1970 cujo som corre como sangue nas veias de gerações. A O Globo, Cat diz: “[…] não vejo o mundo ficando menos selvagem do que era. À medida que progredimos, as coisas vão ficando piores, mais distorcidas. A Humanidade está sendo posta à prova, a tecnologia não está nos ajudando.” O novo álbum é pra 18 de setembro, pela Universal. Por hora tempos o single de Where do the children play?. | Como amar a música. Depois de piano, ópera e música clássica, o The New York Times perguntou desta vez a intérpretes, compositores e críticos qual foi a música que os levou a se apaixonar pelo violoncelo. Yo-Yo Ma, John Williams, Andrew Lloyd Webber participam dessa enquete, e podemos ouvir suas escolhas nos “plays”. |

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #24

Uma imagem contendo comida, desenho

Descrição gerada automaticamente Belo Horizonte, 29 de Maio a 4 de Junho, 2020 — Carta 24


Laranja/fruta/luz e sombra; folhas/molusco-ponte e cores; natureza morta. A imagem é um nocaute estético. A memória envolve um ideal de beleza que a forma e a cor suportam (me acode um poema de Manuel Bandeira (ver nesta edição Alguma Poesia) sobre uma maçã: “Dentro de ti em pequenas pevides/ Palpita a vida prodigiosa/ Infinitamente”). Nocauteado, tomei emprestado a fotografia da norte-americana Caroline Tompkins, ao ver seu trabalho como ilustração de um poema de Lindsay Turner na revista The Atlantic.

Opa! Vamos apear?

Como anunciei, Jurupoca, na bica do primeiro aniversário, passa com este número a sair semanalmente. A carta incorpora as edições de quarentena, agora que o país começa a abrir.

Foram seis edições extras, em seis semanas. Delas mantenho as notas, pra facilitar a leitura, e as seções Intervalo Musical, Alguma Poesia e Na Galeria, além das últimas recomendações, agora mais abreviadas, no P.S. Espero que você aprove o formato.


Nossa liberdade! Anauê!
“Que os caras querem é a nossa hemorroida! É a nossa liberdade!” A ideia de liberdade que Sua Excrescência traduz com desembaraço na tremebunda reunião de 22 de abril me remeteu à sequência mais escatológica de Saló ou 120 Dias de Sodoma (1975), o insuportável filme de Pier Paolo Pasolini. Me refiro ao Círculo das Fezes, retratado em uma das fases do longa-metragem, uma fase que se revela no vocabulário (ao campo semântico, por falar nisso) e no pensamento vivo de (¡¡¹³)BolsonArgh(!!¹³), como na malta que cultua o “mito” e seu fascismo de segunda. Imagino que uma sessão de Saló no cinema do Palácio do Alvorada teria o sabor de uma comédia de costumes, com muita pipoca e bala, além de muitos e obrigatórios “Glória ao Pai”.

Milícias contra a imprensa
Arrp-lai- ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-rihrrrrrr… Ghi! Os ataques contra William Bonner são um sinal de que chegamos mesmo às redondezas espirituais da República de Salò — o governo fascista instalado nesta cidade do norte da Itália, em 1943, que inspirou o filme de Pasolini. No mesmo dia (26) em que a Globo repudiou a campanha de intimidações contra o âncora do JN, O Globo e a Folha de S.Paulo, os dois maiores jornais do país, anunciavam que deixariam a cobertura do Palácio do Alvorada. A decisão, incrível em um país que se queria democrático, foi tomada depois de continuados insultos e agressões cotidianos aos jornalistas que trabalham no local, perpetrados pelos fãs (fanáticos) do bolsonArgh!smo. Essa assombrosa trupe bate ponto diariamente em frente à residência oficial pra festejar seu Duce de quinta. Não muito longe dali segue acampada e armada a milícia “300 do Brasil”, um espécie de plantão do golpismo.

Resistência
O Estadão se manifestou em mais um de seus editorais de escol, Resistir é preciso, que já diz na largada:

“O presidente Jair Bolsonaro sente-se cada vez mais à vontade para revelar à Nação suas intenções autoritárias. A bem da verdade, decoro e respeito à ordem constitucional jamais foram traços do caráter do mau militar e do deputado medíocre. Por que haveriam de ser do presidente da República? O elevado cargo que ora ocupa não mudou a personalidade de Bolsonaro; foi ele quem rebaixou a Presidência para acomodá-la à sua estreiteza moral, cívica e intelectual.”

Ah, há, há! Nem a Hardy sou
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? Liberdade. Pois é. Repare não, mas acho que peguei o corona blues, e digo o que é isso na nota seguinte. E nem a hiena Hardy sou, a pobrezinha, coitada, que vive a rezingar: Oh dia!, oh  vida!, oh azar! A charmosa Hardy, aliás, me lembra o lindo samba do Nelson Cavaquinho: “Tire o seu sorriso do caminho/ que eu quero passar com minha dor…”. Helahoho! helahoho!

Liberdade e amizade
Mas a conversa era liberdade, ora bolas, num sentido que não chega às veias anais de (¡¡¹³)BolsonArgh(!!¹³). O coreano Byung-Chul Han, hoje o mais pop dos filósofos alemães, diz que a palavra germânica pra liberdade, Freiheit, significa “estar com amigos”. A etimologia de “liberdade” e “amigo” é a mesma. Han é autor de obras como A sociedade do cansaço (2010) e do recém-lançado e inédito no Brasil La desaparición de los rituales (O desaparecimento dos rituais), na tradução espanhola. Ele conta nesta entrevista que os coreanos chamam corona blues à depressão causada pela pandemia. Crítico afiado do neoliberalismo, ele diz que o distanciamento social agrava um dos males da matriz econômica mais ou menos dominante de nossa era: O fim dos rituais.

Senso comunitário
Ritos como celebrações, jogos coletivos e cultos ajudavam a nos distanciar de nossos próprios egos, mas estão sumindo da face da terra, lamenta o filósofo. Até a guerra, antes equivalente em perda e sofrimento humano, agora é travada virtualmente, por meio de drones operados em consoles de jogos eletrônicos. Han se diz ateu, mas gosta de assistir à missa católica. “Quando me deixo embriagar pelos cânticos, a música do órgão e o aroma do incenso me esqueço de mim mesmo, do meu ego, e experimento uma bonita sensação de comunidade”, confessa. Com os rituais, desaparecem as comunidades e o senso comunitário. Vivemos à mercê das novas máquinas da inteligência artificial, que ordenam e guiam compras e desejos.

Conexão, vínculo e egolatria
Para Han, o dataísmo — termo derivado de Big Data, a infraestrutura informática de controle e organização do mundo atual — é um “conhecimento pornográfico que anula o pensamento”, ou seja, o caráter erótico do pensamento (na acepção de heideggeriana). “Não existe um pensamento baseado em dados”, ele diz, exceto cálculo.  A digitalização deu na atual era da hipercomunicação, que nos permitir estar cada vez mais conectados. “Mas essa interconexão não traz consigo mais vinculação nem mais proximidade”, diagnostica Han. “E a redes sociais também acabam com a dimensão social ao fixar a centralidade do ego.” 

Arte da associação
A desritualização, vendo o problema por outro ângulo, afeta a própria democracia. O professor de ciência política João Pereira Coutinho, ao reler o filósofo francês Alexis de Tocqueville e sua obra A democracia na América (1835-40), lembra na Folha que “os maiores inimigos da liberdade são a centralização do poder e o individualismo excessivo”. E que a “arte da associação tempera esses dois demônios”.

Leite derramado
Acho elegante a diatribe de Byung-Chul Han, que não é qualquer lenga-lenga, contra o estado da vida e das ideias no mundo contemporâneo. Mas, em boa medida, essa alta expressão filosófica empacota o mais prosaico leite derramado. O mundo está embicado no futuro de maneira irreversível. Mas o pior é que o pensamento crítico já não diz nada a ninguém. Algoritmos é que dizem. Não há missa, messe ou quermesse que possam nos restituir os antigos sentidos de comunidade reclamado por Han.

A última selfie
Quando um enorme meteoro se agigantar ao se aproximar da terra, teremos no Instagram um festival de selfies tiradas contra as chamas do astro ao fundo, até um segundo antes do choque fatal. Helahoho! helahoho!

Viés da unhaca
“Cada um tem seus seis meses”, diz o ditado citado por João Guimarães Rosa em A hora e vez de Augusto Matraga.  O capiau do conto ignora a chegada do azar, da unhaca. Matraga não quer saber de passar umas “rodadas sem jogar, fazendo umas férias na vida: viagem, mudança, ou qualquer coisa ensossa, para esperar o cumprimento do ditado.” Ele parte decidido e a galope pra achar seu destino, e então ser arrebentado pelos capangas do seu inimigo (“— Frecha, povo! Desmancha!” — ordena o Major). Seremos todos uns capiaus planetários?, a seguir garbosamente o viés da unhaca (palavra que Rosa parece ter como sinônimo de inhaca).

Vírus
“E se o ser humano é o vírus do Planeta Terra”, imagina o cineasta japonês Hirokazu Kore-eda, vencedor do Festival de Cannes com Assunto de família (2018), disponível no Netflix. Nesse caso, pobre Terra, e oh vida! Oh dor!


Cereja do bolo
Byung-Chul Han também se mostra cético sobre o sucesso da “vigilância biopolítica” contra o vírus por meio do distanciamento social e do monitoramento eletrônico dos corpos, como faz o estado policial chinês. Pra enfatizar nossa fragilidade como espécie, o coreano germanófilo recorre ao paleontólogo norte-americano Andrew Knoll, para quem o ser humano é “apenas a cereja do bolo da evolução”:

“A verdadeira torta se compõe de bactérias e vírus que ameaçam atravessar qualquer superfície frágil, e inclusive reconquistá-la a qualquer momento”.

Apocalipse de novo
O catedrático emérito da London School of Economics John Gray compara [no artigo O apocalipse agora — versões em português aqui e em inglês, aberto, do UnHerd, acolá] o mundo que surgirá da pandemia à ordem despertada pela Guerra Civil Russa (1917-1920). O apocalipse também pode ser visto, diz ele, como a passagem abruta pra uma situação que era inimaginável. Desde o impacto do terrorismo, continua Gray, a lembrar as memórias de Stefan Zweig [sobre a civilização destroçada pela Primeira Guerra Mundial], perdemos “o mundo da segurança”. Quem há de negar? Meio piadista, ele recorre ao Houellebecq:

“Hoje nos encontramos em um momento semelhante. Depois do confinamento, nós não vamos acordar no mesmo mundo de antes e achá-lo só um pouco pior, como afirmou o provocador escritor francês Michel Houellebecq (para quem o vírus é ‘banal’ porque ‘nem sequer se transmite sexualmente’; na verdade, alguns estudos recentes indicam que talvez se transmita através do sêmen).”

Novo apocalipse
As previsões de Gray são deveras apocalípticas. Mas não há nada de novo sob o sol. “À medida que a vida de antes da covid-19 se apagar na história, grandes segmentos das classes profissionais se encontrarão com uma experiência similar à dos que passaram a ser ex-pessoas [aludindo aos aristocratas e cúlaques na Revolução Russa e aos judeus no Holocausto] nas bruscas mudanças históricas do século passado. A burguesia remanescente não tem por que temer a fome nem os campos de concentração, mas o mundo onde viveram está se desvanecendo perante seus olhos. O que estão experimentando não é nada de novo. A história é uma sucessão de apocalipses deste tipo e, por enquanto, este é mais suave que a maioria.”

Apocalipse now
Violência e a história da desigualdade – Da Idade da Pedra ao século XX (editora Zahar) do austríaco Walter Scheidel trata do abismo entre ricos e pobres ao longo da história humana. Diz o autor que apenas rupturas violentas conseguem aproximar o andar de baixo do andar de cima, nos termos do jornalista Elio Gaspari. Scheidel chama as guerras com mobilização em massa, as revoluções transformadoras, as falências do Estado e as pandemias letais de Os Quatro Cavaleiros do Nivelamento. O El País Brasil publicou um trecho inicial do livro. A Covid-19 não será uma niveladora como foi a Peste Negra, Scheidel vaticina nesta entrevista ao Estadão. Vai um trecho:  

“Há alguma perspectiva de que a atual pandemia provocada pelo novo coronavírus traga efeitos similares de redução de desigualdades ao das grandes epidemias do passado?
Estou muito cético quanto a isso por várias razões. O maior motivo é que a atual pandemia será muito menos severa em termos de mortalidade do que as grandes pestes do passado. Mesmo no pior cenário, a mortalidade será muito menor, em termos de porcentagem da população, e deve afetar ainda menos a força de trabalho, porque a maioria das vítimas são pessoas mais velhas. Salários não devem subir como resultado dessa pandemia, porque a mão-de-obra não se tornará escassa. Então esse efeito não deve aparecer desta vez. Há uma grande quantidade de motivos para crer que a pandemia deve aumentar em vez de reduzir a desigualdade, pelo menos a curto prazo, o que já estamos testemunhando. Há certos grupos de pessoas que estão relativamente protegidas, seus empregos estão seguros, eles podem continuar a trabalhar, e outras pessoas que estão muito mais expostas em determinados setores ou perdendo seus empregos. Então o desemprego está mal distribuído pela população, como resultado disso a disparidade deve aumentar. Você a vê entre crianças e estudantes, alguns capazes de estudar online e outros sem acesso a esses recursos, e isso deve aumentar as injustiças educacionais também. Na crise de 2008, os ricos perderam inicialmente porque o valor de seus investimentos decaiu, mas eles os recuperaram em um período razoavelmente curto de tempo. Já se vê tendências semelhantes nas bolsas de valores, que não estão indo tão mal, então há uma boa chance [de] que, mais uma vez, os ricos se recuperem mais rapidamente que a maioria da população. Isso deve aumentar a desigualdade. Então ainda que haja algum potencial de nivelamento, isso depende de como políticos, legisladores e eleitores responderão a essa crise e seus efeitos. […].”

Com Paulinho da Vila (Rio de Janeiro, RJ, 1942 -) em Prisma luminoso, dele e José Carlos Capinan (Esplanada, BA, 1941 – ), última faixa (lado A) do disco de 1983 que leva o mesmo nome.

Paulinho é dado ao que chamo samba filosófico ou samba sábio, na tradição de Noel Rosa. Na letra, prisma luminoso é o pranto, e a “lágrima é água, é puro sal/ E foi desse cristal/ Que a vida começou no mar/ Viver é tempestade e calmaria/ Sofrendo a gente aprende a navegar,/ um dia.” A modulação em “um dia” é um brinco de pérola na orelha da moça de Vermeer.

Joga o suposto aprendizado com o sofrimento pro futuro, um quem sabe, a ver… Da mesma categoria é Solução de vida (molejo dialético), parceria dele com o poeta Ferreira Gullar (São Luís, MA, 1930 -Rio de Janeiro – RJ, 2016), faixa de Bebadosamba (1996), um dos melhores discos da MPB de todos os tempos.

A dialética (que mora na filosofia) da letra brinca com a oposição entre as ideias de paixão e razão pra chegar a uma (im)possível síntese, ao concluir que: “[…] Ambas têm seu lugar/ E por isso eu lhe digo/ Que não é preciso/ Buscar solução para a vida/ Ela não é uma equação/ Não tem que ser resolvida/ A vida, portanto, meu caro/ Não tem solução”. Helahoho! helahoho!


Berlim revisitada no meu sofá
Vejo Counterpart, na Claro Vídeo, série que mistura suspense, ficção científica e espionagem. Não deve fazer história entre as melhores do gênero, mas é boa diversão. No fim dos anos 1980 a Terra é dividida em dois mundos paralelos, onde os seres humanos são duplicados. Em um prédio em Berlim surge uma misteriosa passagem secreta entre um mundo e outro. Tenho revisitado com muito gosto ruas e cafés da capital alemã, deitado em meu sofá sob cobertores; faz frio pra valer no Belo estes dias. O elenco da produção tem vários e bons atores britânicos, a começar da irresistível Olivia Williams, que faz uma ótima dupla, ou quádrupla, já que cada um tem seu doppelgänger, com o versátil J.K. Simmons, de Law & Order e do longa Whiplash. Espia só o trailer. Ah, um dos lados do mundo duplicado perdeu um quarto da população por uma pandemia de gripe, aparentemente suína. As ruas e o comércio ficaram desertos, e ninguém pode andar na rua sem máscara. A culpa pela disseminação do vírus é atribuído aos inimigos do outro lado, daí a confusão. Te parece familiar? A série estreou originalmente em 2017.


Arte do lieder
Lieder, palavra alemã pra canção, também é um gênero musical clássico em que geralmente um cantor solo é acompanhado ao piano. Em mais um vídeo da magnífica série Celebrations, já sugerida nesta Ju, Barrie Kosky, o diretor da Komische Oper Berlin, ele próprio pianista, recebe o tenor Günter Papendell. Interpretam canções de Mendelssohn, Wolf and Mahler. Aproveite. Esses vídeos não devem permanecer muito tempo no YouTube.

Malkovich
No elenco de Space Force ao lado de Steve Carell, comédia seriada que a Netflix estreia nesta sexta-feira (29), o simpático John Malkovich conta nesta entrevista ao inglês The Guardian das perdas que sofreu nos últimos anos. Perdeu três irmãos na faixa dos 50 anos, perdeu peso, perdeu o cabelo e perdeu a fortuna (foi uma das vítimas do fraudador Bernie Madoff no escândalo revelado em 2008). Mas, ainda assim, se acha o mais sortudo dos homens.

Conversa com Bial
Agradeci a Santa Clara, padroeira da televisão, quando Pedro Bial largou a apresentação do execrável BBB. A TV brasileira teria de volta um grande jornalista, culto, agudo, grande texto e de ótimo humor. E teve. O Conversa com Bial, em nova temporada, é nosso melhor programa de entrevistas. Não se compara ao Programa do Jô, por certo, mas Bial é melhor entrevistador que nosso Gordo (efetivamente) genial.

Noite Morta

Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite . . .

(Não desta noite, mas de outra maior.)


Petrópolis, 1921

O rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

Petrópolis, 1948
Manuel Bandeira (Recife, PE, 1886 - Rio de Janeiro, RJ, 1968), em Estrela da vida inteira (Nova Fronteira, 2008). Sobre o poeta, recomendo este podcast da revista Quatro Cinco Um, uma conversa do editor Paulo Werneck com o crítico literário Davi Arrigucci Jr., autor do ensaio Humildade, paixão e morte: a poesiade Manuel Bandeira (Companhia das Letras, 1990). Arrigucci, nessa conversa, oferece uma deliciosa aula pra não-iniciados.


Yamandu & Salmaso. Uma beleza esta Entidade, canção de Yamandu Costa e Paulo César Pinheiro, com o violonista sete cordas e a cantora Mônica Salmaso. | Escarafunchando Roth. O pesquisador Jesse Tisch mergulhou no baú de correspondências e apontamentos de Philip Roth (1933-2018) e relacionou os achados à vida e obra do autor de O teatro de Sabbath. Na revista judaica Tablet (em inglês). | 12 séries. O The New York Times listou uma dúzia de grandes séries dirigidas por diretores de cinema consagrados na grande tela. David Lynch, Rainer Werner Fassbinder, Krzysztof Kieslowski, Lars von Trier, Jane Campion e Steven Soderbergh estão entre eles. | Blues do brabo. Eric Clapton and B.B. King – Rollin’ and Tumblin’. Da pesada essa prévia de um lançamento do selo Reprise. | Som e pintura. Esta animação de Bastien Dupriez interpreta em sinais, em pintura, Liza, música de George Gershwin (via Aeon). | Jazz cubano. O pianista e compositor Chucho Valdés numa canja enviada pela Blue Note Rio. Chucho manda Son XXI, peça de E. Ubieta. |



JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Ju Extra — Carta de Quarentena #06

Uma imagem contendo relógio, placar

Descrição gerada automaticamenteEdição de Quarentena N° 6 — Belo Horizonte, Minas dos Matos Gerais, 22/05/2020


Deu no New York Times (versão em português): Licença para matar’: por trás do ano recorde de homicídios cometidos pela política no Rio /  Uma análise do Times constata que policiais disparam sem restrições, sob proteção de superiores e políticos, certos de que não haverá consequências para homicídios legais. A reportagem do jornal norte-americano saiu na segunda-feira (19). Como para ilustrá-la ou reiterá-la, no dia seguinte mataram o menino João Pedro Matos Pinto, de 14 anos. João foi baleado e morto em uma operação das polícias Civil e Federal em São Gonçalo, região Metropolitana do Rio. O governador Witzel é da mesma cepa homicida de onde brotou o chefe do Executivo. “Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente”, já pregava este nos anos 1990; “a polícia vai mirar na cabecinha e… fogo, anunciava aquele na campanha eleitoral. Tiveram milhões de votos por defenderem o bafo do “excludente de ilicitude”, essa permissão aos crimes policiais contra pobres moradores de favelas. Então, veja-se quem pode e quem não pode chorar por Joãozinho, ou, por um segundo, sentir-se na pele de seus familiares.


Opa! Vamos apear?

Quem lê a Jurupoca desde seu número inaugural, de quase um ano atrás, sabe que esta carta é um work in progress em busca de clareza, direção e utilidade, sem corromper seus propósitos.

Aceito e aprendo com as críticas que recebo, ao perseguir um caminho novo e próprio.

Ganho leitores e isso me anima. E me alegram os primeiros apoios que recebo de quem pode contribuir para a continuidade do trabalho.

Agradeço cada doação enviada e lastreio essa ajuda no compromisso de tornar este trabalho mais e mais relevante. O missivista não tem outra atividade como jornalista. Desde março, é jurupoco em tempo integral.

A ideia da carta surgiu durante uma caminhada no Parque Municipal, cá no Belo, numa manhã de junho passado.

Entendo que me preparei para escrevê-la em mais de três décadas de exercício profissional. Seu projeto, portanto, se confunde com um ideal de vida.

A pedra de toque da Jurupoca é criar uma microfissura num mundo marcado pela banalização e a superficialidade, no qual a imprensa cultural não mais se distingue na era do jornalismo online.

A atenção do leitor interessado em informação e crítica qualificadas sobre grandes livros, filmes, séries, gravações ou no debate de ideias é disputada por fofoca e pornografia caça-cliques — de que vive a quase totalidade das publicações na internet.

É o espólio do apresentador Gugu, é o reality show, é a rusga entre celebridades, é a receita de abobrinha, é não sei mais quê.

Valorizar a criação artística é uma pedagogia civilizatória. Representa uma ética, por certo. Não se destina a salvar o mundo, claro, mas, pode tornar a vida mais plena.

O projeto é tornar o envio da carta semanal, como  já é na prática, com as edições extras de quarentena, e lançar novos produtos.

Helahoho! helahoho!

Uma imagem contendo desenho

Descrição gerada automaticamente
Tenho acompanhado com interesse as profecias, como prefiro chamar certas previsões sobre o mundo pós-pandemia.

Consultores, empresários, especialistas de vários naipes anteveem à vontade o mundo novo, a “nova normalidade”.

Uma matéria de O Globo dá como certo que teremos mais “austeridade e senso de prioridade”; que o turismo vai se danar; que garçons vão nos servir vestidos como enfermeiros; que a globalização vai mesmo pro saco etc.  

O mundo que conhecemos, antecipa-se, vai acabar.

O que me parece certo e fácil de antever é que o fosso da desigualdade realmente vai se aprofundar. (Quanto ao Brasil, com seu combo de vírus e fanatismo que nos é servido, melhor calar.)

Sabemos que novas tecnologias transformam nossos hábitos, e a nós próprios, assim como a facilidade econômica de comer e consumir produtos e serviço nos engorda e afeta nosso caráter.

E que nos adaptamos às circunstâncias, venha a barra que  vier, ao conseguir sobreviver.

Mas em termos evolutivos nossa capacidade cognitiva é a mesma há milênios, e bota milênios nisso; seguiremos os mesmos até que os laboratórios do Vale do Silício concluam seu projeto do Humano 2.0.

Por enquanto, é seguro afirmar que a força de gravitação da desigualdade permanecerá constante. Continuará a atrair injustiça, indiferença, hipocrisia e perversidade.

Creio que a sociedade que não conquistar a igualdade de oportunidades para os que vão nascer será sempre o inferno na terra regido pela clave da miséria e pelo disfarce esperançoso dos mais privilegiados.

Ademais, estou com o detetivesco e filósofo Dr. House sobre a humanidade: People don’t change. Numa tradução bastante livre, gente é gente.

Helahoho! helahoho!

Além disso, tuta e meia. Nonada.


Guerra às fake news
Um estudante, que por segurança não revela sua identidade, abriu no Twitter no último domingo (17) uma conta brasileira do movimento Sleeping Giants. A iniciativa nasceu nos EUA pra combater o financiamento dos sites da extrema direita que propagam notícias fraudulentas e mensagens de ódio. O objetivo é impedir que recebam dinheiro com publicidade. Sleeping Giants aponta empresas com anúncios no sistema Google veiculados em sites porcaria, a exemplo do bolsonarista Jornal da Cidade Online. Em poucos dias, a conta brasileira alcançou 20 mil seguidores. Grandes empresas que indiretamente contribuem com a desinformação se comprometem a bloquear seus anúncios nas cloacas da internet. Banco do Brasil, Dell, O Boticário, Submarino e Telecine estão entre elas.  

Leituras ilustríssimas
A centenária livraria de língua inglesa Shakespeare and Company é uma das dádivas de Paris. Nos anos 1920/30 o lugar se tornou um porto seguro de escritores e intelectuais de várias nacionalidades. Alguns pertenciam à chamada Geração Perdida, na expressão da escritora norte-americana Gertrude Stein. Eram jovens que tiveram a má sorte de amadurecer durante a I Guerra Mundial. A casa lendária, fundada pela norte-americana Sylvia Beach, responsável pela primeira edição do Ulisses, de James Joyce, além de vender, emprestava livros mediante inscrição e cobrança de taxa. Entre os fregueses ilustres desse serviço estiveram Stein, Joyce, Hemingway,  Aimé Césaire,  Simone de Beauvoir, Jacques Lacan, e Walter Benjamin. Com o fascinante Shakespeare and Company Project, organizado pela Universidade de Princeton, nos EUA, podemos saber agora o que esses e outros clientes da livraria liam e por quais autores mais se interessavam. O acervo do projeto, excelentemente bem organizado e documentado, pode ser consultado em buscas por autor, obras ou fichas de empréstimo.

Livro e música
Sinta o clima que reina hoje na Shakespeare and Company neste charmoso vídeo da banda Moriarty, gravado na livraria no lançamento de seu álbum The Missing Room (2011).

“Lives fabulosas”
O pensamento mágico, o otimismo iluminado e, óbvio, genial, do publicitário Nizan Guanaes pode te tirar do mais fundo desespero, e quem sabe, melhor até do que a cloroquina, de livrar do próprio Corona. Mas, cuidado, experimente com moderação. O alumbramento açucarado e brega pode fazer do remédio um veneno. Nesta coluna da Folha ele nos ensina, citando a filósofa Regina Casé, que “ser pop é gostar das coisas”. Já a antevisão de outro sábio, o financista Ray Dalio, nos consola ao garantir que “a saída desta crise é a criatividade humana”. Nizan explica que está “estagiando nas lives aos domingos” e que tem “visto lives fabulosas”, onde “transborda a inteligência” de padres, influenciadores digitais, duplas sertanejas e políticos. Maravilha pura. O Nizan certa vez paparicou seus conterrâneos Caetano Veloso e Gilberto Gil com o epíteto “patrimônios intombáveis” da humanidade. Isso em 2015. Fiquei tão comovido que compus um pequeno suelto (como Delfim Neto ainda chama o comentário breve) a respeito. Agora o Midas publicitário e bilionário genial compartilha com seu leitorado outro achado. “Não tem só coisas horrorosas nessa pandemia. Tem dignidade, tem altruísmo, tem solidariedade, tem gente que vai morrer no front para que as pessoas sobrevivam”, recita, destacando de passagem a maravilha que é o eterno reality show BBB, que, ele informa, agregou 1 milhão de votos! na sua última versão, ao trazer pra “famosa casa” alguns influenciadores digitais, se entendi bem a coisa.

Desacertos cerebrais
A doutora Suzana Herculano-Houzel explica neste artigo da Folha como a tal da hipóxia silenciosa — o comprometimento da oxigenação do sangue pela Covid-19 sem que a vítima se aperceba — passa batida no cérebro.

Impeachment já!
Hélio Schwartsman está com a Jurupoca na defesa do impeachment como questão de honra ou, em suas palavras mais exatas, “obrigação moral”. Diz o colunista da Folha:

“Os crimes de responsabilidade cometidos pelo atual mandatário são tantos, tão ostensivos e tão graves que deixar de acusá-lo equivaleria a coonestar suas atitudes”.

Brasil x Suécia
O papo sobre a pandemia entre nós segue torto e retorcido. Além da tentativa de impor a cloroquina goela abaixo dos brasileiros mais pobres, persiste a comparação maluca entre a estratégia adotada pelos suecos e as iniciativas em curso no Brasil, sempre aos trancos e barrancos. E não podia ser diferente num país tão desigual. Mesmo um colunista de primeira ordem como o sociólogo Demétrio Magnoli, entre os melhores da nossa imprensa no emprego da inteligência aplicada à análise da informação, comete suas putadas, como se diz na Espanha. Num bom artigo em O Globo em que faz críticas mais ou menos justas aos secretários estaduais de Saúde, Magnoli conseguiu ver um polo simétrico à extrema direita bolsonarista (de viés psicopata), que batizou “fundamentalismo epidemiológico”. Deveras, Magnoli? Será justo contrastar esses dois “fundamentalismos”, sugerindo que ambos padecem da doença do fanatismo? Magnoli é um bom e bravo escudeiro das “liberdades civis” ameaçadas em governos ditatoriais, como o chinês, ou semiditatoriais, caso do húngaro. Leitor fiel de seus textos, sinto que sobre a pandemia ele tem hesitado ao escrever exatamente o que pensa. E me arrisco a dizer que tem lhe faltado alguma clareza e coragem ao opinar, como nunca antes. Nas entrelinhas, elogia o modelo sueco de controle da propagação do vírus, mas nem imagina ou não nos revela como tal modelo poderia ser aplicado no Bananão. Mirar democracias europeias, como a italiana, ou mesmo a cacofonia brasileira regida por Sua Excrescência, responsável por muitas das dificuldades enfrentadas nos Estados, é equilibrismo retórico em corda bamba. Fora uma ou outro exorbitância, logo contestada pela Justiça, as medidas de isolamento social em curso são rigorosamente legais, a despeito da oposição cerrada e hedionda do governo federal. Também é preciso não confundir o sentido dicionarizado de “confinamento”, a pena aplicada por governos autoritários a dissidentes políticos, com “confinamento” como palavra de ordem surgida nesta crise. É o que o Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa discute nesta coluna do El País Brasil.

A Suécia é aqui?
“Vamos falar da Suécia? Pronto! A Suécia não fechou!”. A frase escrota, típica da ventosidade verbal de Sua Excrescência, cheia mal e intoxica incautos e fanáticos. O sucesso do modelo sueco de controle da Covid-19 será mais bem avaliado no final desta triste história. Mas a Suécia está longe de ter dado as costas à ciência, e muito mais longe de ser governada por lunáticos. Aliás, os hospitais do país suspenderam o uso da cloroquina, diante dos efeitos colaterais verificados. Nesta ótima reportagem da Folha, Ana Estela de Sousa Pinto traça um panorama realista e pormenorizado da realidade no país escandinavo, cuja população, pra citar apenas um dado referido na matéria, equivale à de São Paulo, com uma densidade demográfica oito vezes menor.

Cenas brasileiras
Miguel Scrougi
, professor titular de Urologia da Faculdade de Medicina da USP, diz de maneira direta o essencial. Agorinha, o que é mais importante? Scrougi lembra de saída que os melhores resultados no combate à doença estão sendo obtidos em países governados por líderes eficientes, nos exemplos de Alemanha, Japão e Austrália, entre outros. “Revendo essas estratégias, confesso que fui tomado por um certo incômodo”, diz o médico. “Seria possível mitigar a catástrofe emergente no Brasil, país esfrangalhado pela desigualdade, com uma rede sanitária arruinada e, pior, dirigido por um presidente mais preocupado em salvar a família do que proteger os filhos da nação?”, ele se pergunta neste artigo da Folha. “Nem tentei responder”, continua o doutor, “logo me lembrei das imagens impiedosas que hoje desfilam nas nossas telinhas, expondo o sofrimento do povo brasileiro na sua forma mais cruel, a mistura do pavor pelo ataque temido, a dor pelas perdas extemporâneas e a impossibilidade de poder expressar indignação.”



Guia para o Netflix
O The New York Times selecionou os 50 melhores filmes do catálogo da Netflix, num trabalho bacana de seu time de críticos.

The Americans
Por falar no Vargas Llosa, o autor de Conversa na catedral também é fã de The Americans, a série criada por Joe Weisberg. Em sua última coluna no El País Brasil ele louva a história do casal de espiões da KGB infiltrado como americanos típicos no subúrbio de Washington, já nos anos finais da Guerra Fria. Llosa diz que se “atreve efusivamente a recomendar” o seriado por seu nível intelectual. As seis temporadas (2013-2018) seguem coerentemente o fio da narrativa e se aprofundam aos poucos nos dilemas morais que afligem o casal Philip (Matthew Rhys) e Elizabeth (Keri Russell) Jennings. Eles têm de se rebolar pra manter as aparências. Além da fachada de empresários donos de uma agência de turismo, precisam criar os dois filhos americanos, que acompanhamos até entrarem na adolescência, e atender prontamente às demandas do serviço secreto soviético. Sem falar dos dribles na vigilância do FBI! Por acaso, um agente da contraespionagem do Bureau vai morar em frente aos Jennings! Roteiristas, diretores e atores precisam ser muito bons pra enfrentar as cambalhotas e surpresas do cotidiano em uma trama dessas sem escorregar no lugar-comum ou no simples besteirol. Philip e Elizabeth, agentes inteligentes e bem treinados, não são espiões soviéticos caricatos. The Americans esteve entre minhas séries favoritas mencionadas neste artigo. Os episódios podem ser alugados na Amazon Prime.


Visita ao D’Orsay
Tenho tremenda simpatia pelo lugar e aproveitei este programa do Google Arts and Culture para revisitar a história e o acervo do delicioso museu parisiense — Da estação ferroviária ao Museu de Orsay renovado.

Aeon + Psyche
O já excelente site em língua inglesa Aeon, dedicado à publicação de ensaios e vídeos no campo das ciências, ideias, filosofia e cultura, acaba de lançar a revista online Psyche, espécie de filhote cujo propósito é explorar as conexões entre a investigação filosófica, os conhecimentos práticos e as artes. Por ali cheguei ao curta de animação franco-dinamarquesa Nothing Happens (nada acontece), uma instigante história sobre nossa capacidade de gerar expectativas e observar a natureza.

Pra sair do tempo
O álbum Debussy – Rameau do jovem pianista islandês Vikingur Ólafsson é encantador, e o que mais tenho ouvido nestes dias. Lançada há pouco pelo selo Deutsche Grammophon, a gravação tem uma beleza inequívoca. A música nos abre um intervalo de irrealidade e gratidão à beleza. As peças de Claude Debussy (1862-1918) e Jean-Philippe Rameau (1683-1764), compositores franceses que viveram períodos de transição na história da música, soam com inacreditável atualidade. Para uma análise técnica, veja-se Alex Ross, crítico titular da revista The New Yorker. Ele escreve que a técnica de Ólafsson é “assombrosamente exata e clara, quase translúcida”. Você não precisa ler partitura pra perceber isso.


Duas listas
Pra variar, vou recomendar mais uma lista do cineasta e produtor musical Fernando Trueba no Spotify, na série Música para estes dias. Ele reuniu aí no enlace coisas lindas de João Donato. Para Trueba, Donato é um “gênio do piano brasileiro”, um louco amável, douce folie.  Na apresentação do El País, ele comenta brevemente a biografia do músico acreano octogenário. Lembra que, quando viveu nos EUA, Donato foi pianista de Bud Shank, Mongo Santamaría, Cal Tjader e Tito Puente, entre outros bambas do jazz. A outra lista é de Gilberto Gil. Tem um recadinho do artista no início. Ele juntou canções que evocam sentimentos alusivos à pandemia, amor, devoção e divertimento entre eles. De quebra Gil me reconduziu a um belo álbum da Biscoito Fino de 1999 com versões brasileiras, adaptadas quase todas com maestria por Carlos Rennó, de clássicos de Cole Porter e George Gershwin. Tem Tom Zé com Você é mel (You’re The Top, de Porter, em tradução do poeta Augusto de Campos) e o delicioso registro de Monica Salmaso, incluído na lista de Gil, de Lorerai (Gershwin). A versão disponível do álbum no streaming é uma compilação do disco original.

 

Vírus de visão
“Deveríamos ter uma visão global sobre este tema [pandemia], mas não temos. O vírus é que tem. Os vírus são mais espertos e mais antigos que nós… e mais democratas”, comenta o artista espanhol Miquel Barceló nesta ótima entrevista a Borja Hermoso, editor de cultura do El País.

Greene x sono
Varei uma madrugada esta semana por não conseguir largar O fator humano, romance de espionagem de Graham Greene (1904-1991), meu autor preferido no gênero, de quem falei na Ju#05. Quando tenho dificuldade de me concentrar em outras leituras, Greene é tiro certo. O autor é um contador de história magistral, e sua narrativa é arguta, cortante, de uma profunda e arraigada humanidade, marcada por irresistível senso de humor. Como diz o escritor irlandês Colm Tóibín no prefácio da obra, Greene é “um mestre da frase única que obriga o leitor a parar, [e] que funciona como uma carga de profundidade”. Ao ler seus livro sublinho trechos de pura revelação, ou epifanias se você quiser, como “os táxis começaram a despejar convidados como embrulhos vistosos”, ao descrever as cenas de um casamento, ou “ficou sentado durante um momento com o motor ligado, a observar as gotas de chuva a perseguirem-se umas às outras no para-brisas”. Maurice Castle, o herói desse relato, é uma agente duplo movido pela gratidão e pelo amor à mulher negra que conheceu na África do Sul do Apartheid e ao filho dela. Tóibín diz, na batata, que Castle é o espião menos glamoroso já criado, e por isso é de grande interesse. Temos no Brasil uma tradução da L&PM, mas li a edição eletrônica de uma editora portuguesa, o que é sempre divertido. Em Portugal, moça é sempre rapariga, a criança é sempre um miúdo, uma isca de anzol é um isco…  

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #23

Uma imagem contendo comida, placar

Descrição gerada automaticamente Belo Horizonte, 15 a 28 de Maio, 2020 — Carta 23




Paul Cézanne: Natureza-morta com maçãs, garrafa e jarro de leite. Museu de Arte de Dallas, Texas (EUA). Foto: domínio público (wikiart.org)
FRUTAS — FERREIRA GULLAR

Sobre a mesa no domingo
(o mar atrás)
duas maçãs e oito bananas num prato de louça
São duas manchas vermelhas e uma faixa amarela
com pintas de verde selvagem:
uma fogueira sólida
acesa no centro do dia.
O fogo é escuro e não cabe hoje nas frutas:
chamas,
as chamas do que está pronto e alimenta
 
Dentro da noite Veloz, Ferreira Gullar (São Luís, MA, 1930 - Rio de Janeiro, 2016), Civilização Brasileira, 1979, pág. 90.

Interior da Capela Rothko, em Houston, Texas, nos EUA. Foto: Cortesia Rothko Chapel.org
 
MADRUGADA — FERREIRA GULLAR

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes

(abril 1971)

Dentro da noite Veloz, Ferreira Gullar, Civilização Brasileira, 1979, pág. 67.  

Opa! Vamos apear?

É seis da matina. Faz um frio incomum no Belo. Tenho acordado cedo e dormido mal. Cada pesadelo do tamanho da ameaça que reina no coração dos espíritos livres…

Estamos vivendo fora (ou além) do tempo, na imagem de Ian McEwan neste artigo (em inglês). Vai ver a eternidade seja esta chatice.

Às nove, saiu saio com minha mulher. Vamos comprar uma cadeira pra labuta em casa e depois ao supermercado.

Na entrada do Carrefour, me abaixo pra que a mocinha possa alcançar minha testa e apontar o dispositivo que mede nossa temperatura corporal. Deu 35,2 ºC, ela diz; posso entrar. Até aqui tudo bem.

Em casa, entre descarregar compras e desinfectar a tralha vão-se duas horas.

Cai a tarde de maio. Minha janela descortina o aglomerado da Serra. O azul do céu na primavera vira-se ao carbono nessa hora.

Já dei o almoço por perdido. Mandei meio abacate e um copo de leite. Passei um café novo pra ajustar o espírito.

Banho tomado, barbeado, perfumado, me ponho finalmente a escrever esta carta, com a alma em pandarecos.

Helahoho! helahoho!

No Dia das Mães falamos com o filho por vídeo, na batida da legião planetária acuada pela pandemia. A telinha vai remediando a saudade, a curiosidade e o desejo.

A telinha captura, prende, acossa, aflige e media.

E pensar que nosso Bar Telemático, de que falei na última Ju, é a variação de um mote universal, pauta de pensadores e tema de reportagens. Estamos todos na tela dividida, e divididos pela tela.

Este é tempo de partido, / tempo de homens partidos. Me ocorrem os primeiros versos de Nosso tempo, de Carlos Drummond de Andrade, poema do livro Rosa do povo (1945). O fundo do poema, seu eco, é a Segunda Guerra Mundial que terminava.

“Mas é um poema que há muito deixou de ser moderno e virou eterno”, argumenta o textinho que abre a recitação de Eucanaã Ferraz na Rádio Batuta. “Traduz qualquer tempo de homens partidos”. Concordo com o Ferraz. Senão, vejamos:

[...]
“Este é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.
[...]
“E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.

[...] Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
 

Este é o tempo da videoconferência — videochat, videopapo, videoplá, videopádaquipádelá.

Pais e filhos, amigos, amantes, funcionários, músicos, temos as imagens captadas pela luz e convertidas em bits, pixels. Somos teletransportados, refeitos nas figuras humanas costumeiras e agrupadas.  

A tela dividida, split screen em inglês, reúne gente separada no espaço e no tempo.

O Zoom, o Zap e outros aplicativos são no momento nossa principal plataforma de sociabilidade.

A pantalla partida, como se fala em espanhol, é o tempo e o espaço da pandemia, diz o filósofo Peter Szendy, um teórico da multiplicação de imagens na vida contemporânea.

O recurso se converteu na nossa porta de acesso ao mundo, na estrutura principal da experiência, comenta o Szendy nesta matéria (em espanhol) do Babelia, escritas por Alex Vicente, com entrevistas, claro, feitas por videochamada.

A tela dividida é de uso antigo no cinema, desde o filme mudo. Depois foi incorporada ao próprio estilo narrativo de diretores como Brian de Palma, em filmes como Carrie – a Estranha (1976).


Antes, atendeu ao conservadorismo sexual de Hollywood.

Na comédia Confidências à Meia-noite (Pillow Talk, 1959), o recato de Doris Day é preservado por hígidas telas separadas nos encontros íntimos com Rock Hudson.

Doris Day e Rock Hudson guardam a tradição e os costumes virtuosos

“Hoje a tela dividida continua a ser utilizada como uma maneira profilática de nos separarmos, ainda que seu uso também reflita uma sede dionisíaca pelo contato com outras pessoas”, acrescenta Szendy.

Sede dionisíaca? Sem dúvida. Dia desses o Telemático esteve aberto até três da madruga. Evoé Baco!  

Então a tela dividida é a versão visual da justaposição de espaço e tempo e da diversidade de perspectiva.

O expediente está nas narrativas do romance em múltiplas vozes ou nos planos repartidos da arte, como vemos nos trípticos flamencos dos séculos XV e XVI, a exemplo deste Hieronymus Bosch no Museu do Prado.

Tríptico del Jardín de las delicias – cortesia Museo Nacional del Prado


A ideia inspirou o cubismo, vive na história em quadrinho e nos videojogos.
Multidão de pessoas

Descrição gerada automaticamente Captura de tela com integrantes da Orquestra Nacional da França durante execução recente do Bolero de Ravel. Reprodução de foto da agência France-Presse.


Com Alceu Valença (São Bento do Uma, PE, 1946 -) em Vou danado pra Catende, dele e Maria Luiza M. G. Ferreira. A música é faixa A1 do disco solo do artista, Molhado de suor (1974), mais exatamente da segunda edição do vinil.

“Pouco depois [do lançamento do LP], classifiquei [a música] no Festival Abertura, da TV Globo”, ele contava em seu site, que vive fora do ar. “Montamos uma banda de pífanos elétrica, com Lula Côrtes (tricórdio), Zé Ramalho (viola), Paulo Rafael e Ivinho (guitarras), Zé da Flauta, entre outros. Por não conseguir enquadrar o som que fazíamos, o júri criou uma categoria de última hora — o prêmio Pesquisa — para nos contemplar.

O disco alcançou uma segunda tiragem com a inclusão desta faixa”. Naquela época de psicodelismos, o Alceu e outros músicos perseguiam um som com ruído universal que partisse do Nordeste, bons alunos que foram da Tropicália.

A letra se refere a uma carta sonora, não escrita, pra certa Delminha, e o canto agalopado se repete no estribilho:

“Eu quero um trem/ Eu preciso de um trem/ Eu vou danado pra Catende/ Vou danado pra Catende/ Vou danado pra Catende/ Com vontade de chegar.”


Sem título (depois de Élisabeth Vigée Le Brun, 2019). O gênero do trabalho da polonesa Ewa Juszkiewicz, nascida em 1984, é tido como surrealismo contemporâneo. A artista toma retratos clássicos femininos, principalmente da pintura flamenga, e altera os rostos com vários tipos de distorção, buquês de flores, insetos, máscaras tribais ou, neste caso, o estranho nó de um lenço branco. O quadro, que esteve na versão novaiorquina da mostra de arte contemporânea Frieze, aberta online por um período, tem por base o Retrato de Madame de la Châtre (1789), de Vigée Le Brun. A figura onírica da Juszkiewicz evoca “feminismo e violência implícita”, no comentário de um crítico de arte do The New York Times. Percebo as alusões a uma atmosfera rarefeita kafkiana, ao feminismo e à violência. Mas este tipo de obra, quanto mais em série, me parece mais artesanato político que arte, como num Banksy ou mesmo Ai Weiwei. A iniciativa desses artistas nasce antes de uma agenda ideológica, no último caso, ou marqueteira e publicitária, no primeiro.


Sou inimigo da vida vivida sem sentido....
Não sou um falso profeta. Só sei o que sei.
Vou apenas onde os solitários podem ir....
Escalei descalço montanhas de espadas....
 

Pesco imagens do caleidoscópio ou assemblage poética que é False Prophet, a nova música de Bob Dylan (78 anos dia 24).


A voz arranhada, defumada e curtida em bourbon fino parece anunciar um balanço, quem sabe um tchau! O registro é lento e elegíaco, quase um canto-falado.

Nosso Nobel de Literatura (2016) segue um cavaleiro solitário, avesso a modas, a paparicar fãs ou a imprensa. Sua arte nunca foi de concessões.

Então manda ver: 

“Não sou um falso profeta/ Não, não sou a noiva de ninguém/  Não recordo quando nasci/ E esqueço quando morri”.
 

A nova canção é um blues no capricho, um tributo à raiz desse gênero eletrificado. 

False Prophet saiu dia 8, com o anúncio, para 19/06, do primeiro álbum de inéditas do bardo judeu romântico de Minnesota desde 2012: Rough and Rowdy Ways.

O CD e vinil duplos terão dez faixas, incluindo as também as já adiantadas Murder Most Foul e I Contain Multitudes, cuja lírica, na opinião do crítico musical Fernando Navarro, é fortemente influenciadas pelo poeta norte-americano Walt Whitman e sua obra Folhas de relva:

“Se, como Harold Bloom escreveu em O cânone ocidental, a originalidade de Walt Whitman ‘tem menos a ver com seu verso supostamente livre do que com sua inventividade mitológica e domínio das figuras retóricas’, no caso de Dylan suas figuras retóricas nestas duas canções estão associadas ao século XX, e sua inventividade mitológica, como seu vocabulário, gira em torno da música popular e de seus heróis pessoais, muitos, mais de 70, citados em Murder Most Foul, mas também […] em I Contain Multitudes.


Com o novo disco de João Bosco, Abricó-de-Macaco! O lançamento, antes previsto para 17 de abril, fora adiado em respeito à doença, seguida pela morte de Aldir Blanc, seu parceiro de vida e obra.

O álbum surge nesta sexta (15) em tocadores como Spotify. O DVD, gravado ano passado, foi apresentado quarta-feira (13) no Canal Brasil. Ouça com atenção, com tempo, com uma bebida ao lado.

Aos 73 anos, João aparenta ter mais um tanque cheio pra viver. É um trabalho aguçado e requintado. Se Abricó-de-Macaco (nome de uma árvore da região amazônica) e Horda são as únicas inéditas (parcerias com o filho Francisco Bosco), João garimpa no próprio repertório músicas que podem ter passado despercebidas pelo grande público, como em Gagabirô e Senhora do Amazonas (dele com Belchior), do mesmo disco de 1994.

O artista traz essas canções  para o presente e se reinventa nas harmonias e na batida, e se aprimora o canto. Seu violão é cada vez mais sincopado e jazzístico, com um trabalho rítmico impressionante nos baixos (cordas graves dos bordões).

Cole os ouvidos por favor nas participações da clarinetista Anat Cohen (pra mim hoje uma das melhores instrumentista do mundo) e do sete cordas fabuloso que é Marcello Gonçalves.

Confira as citações, a riqueza dos medleys em faixas como Forró de Limoeiro (Edgar Ferreira, Recife, PE, 1922 – Recife, 1995).

Curta Pagodespell (João, Chico, Caetano, Oswald de Andrade) e a versão instrumental e afro-abrasileirada de My Favorite Things (Oscar Hammerstein / Richard Rodgers), sucesso do filme A noviça rebelde.

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …? Arrp-lai- ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-rihrrrrrr… Ghi

Esta carta defende o impeachment sem lenga-lenga.

Como cidadão, me sinto uma barata prestes a ser esmagada por um coturno quando ouço Sua Excrescência mandar a imprensa calar a boca ou nos trata como imbecis.

Me sinto um prisioneiro político em plena democracia, em prisão domiciliar, sensação ampliada pela quarentena.

Sua expressão hidrófoba é puro xexéu de mangue.

Suas atitudes e omissões políticas matam!

E daí?, é o caso de quem queira se perguntar.

A oposição se cala, ministros do STF pisam em ovos, militares fora do governo respondem com meias-verdades.

Lobista dos empresariado mal disfarçam sua gana de mandar precauções e escrúpulos às favas. Querem a volta da velha normalidade com a Terra em polvorosa, como se isso fosse possível.

Um editorial da Folha inclui o amarelo-golpistas e o verde-ódio na paleta de cores cívicas do Bananão.

Então, leio esta passagem dos diários do colombiano Hector Abad Faciolince, Lo que fue presente, e a grifo. Vai no original:

Estos supuestos patriotas nos han hecho sentir náuseas por la patria. Estos patriotas de mierda nos siguen gobernando.”

Da Arte de Falar Mal Muito Bem:

—  Do escritor, jornalista e crítico de cinema Sérgio Augusto, no Estadão:

“De que trevas afinal vieram essas criaturas que se enrolam no pavilhão nacional e, destilando ódio e ostentando uma ferocidade homicida, agridem jornalistas e até enfermeiras, reverberando desejos trogloditas que ressentimentos incubaram, a ignorância exacerbou e o insano, narcisista e messiânico capitão-presidente não se cansa de insuflar?
 
“Meu palpite é que saíram de lugar nada recomendável, onde, no mínimo, reina a escuridão. Como os Morlocks.
 
“Taí um nome que lhes cai bem. Tem mais pedigree que os black blocs. Inventou-o o britânico H.G. Wells, no romance A máquina do tempo, a mais lida aventura sobre engenhocas que nos levam ao passado e ao futuro. Zumbis antropoides, que se homiziaram debaixo da Terra após uma guerra nuclear que quase destruiu o planeta, os morlocks viviam aterrorizando os Elois, os habitantes da superfície terrestre. As duas adaptações do livro ao cinema respeitaram sua configuração original: medonhas criaturas de aspecto simiesco (Darwin explica), inteiramente cegas (Platão explica) e canibalescas – os vilões da história.
 

Uma imagem contendo pessoa, ao ar livre, homem, placa

Descrição gerada automaticamente Captura de tela de página do jornal Washington Post, que diz: “Multiplicam-se os desafios no Brasil e fãs de Bolsonaro conclamam à tomada militar”, via Toda Mídia, Folha de S.Paulo  
Do jornalista, escritor Mário Sérgio Conti, na Folha:

“Os números sobre a peste são subestimados e suspeitos —exceto o dos mortos, que cresce de modo apavorante. É cada um por si e Messias contra todos. Está certo que ele não é mais lambido por Mouro e Maneta; por Joice Hellmann’s e Janaína del Fuego; por Frotão e Lobinho.
 
“Mas os afagos testiculares da turma são largamente compensados pelo largo —bota largo nisso — derrière de Maia, que [se]  sentou numa pilha de pedidos de impeachment. E a debandada dos palacianos é reequilibrada pela subserviência de Toffoli, estafeta do PT transmutado em rábula de Bozo.
[…]
“Não é verdade que a pandemia tenha feito Bolsonaro alucinar. O lado poltrão e pirado do Cavalão* já era bem conhecido. Mas a Covid-19 fez com que acelerasse o galope rumo ao golpe e escoiceasse adoidado. Sua louca cavalgada tem duas constantes.

“Haverá quem indague onde esteve a oposição a Jair Bolsonaro este tempo todo” — nota a Harazim em O Globo — “como ela evaporou, por que não conseguiu apresentar um mísero plano de contraponto a um governante tão desarticulado, se foi verdade que existiu um ministro da Saúde invisível de nome Nelson Teich”.

Pois, digo eu, Sua Excrescência vem sendo tratado como uma criança deficiente mental supostamente tutelável, e não, como deveria, como psicopata potencialmente homicida.

E tal fato aprofunda nossa característica cíclica de país sem caráter.

A verdade é que ninguém sem formação superior e trato íntimo com contabilidade pública entendeu bem as pedaladas que derrubaram Dilma.

Consegui entender, não sem me esforçar, e apoiei a derrubada. Gosto de crer que cultivo o pensamento “sem corrimão”, na expressão de Hannah Arendt [ver nota do P.S.]. Creio que era o certo naquele contexto.

Mas sua Excrescência não pedala, quê isso! Sua irresponsabilidade anda de moto e jet sky, atropela vivos e passa por cima de milhares de cadáveres. Sem problema isso daí.

Os analistas mais conservadores listam pelo menos uma dúzia de crimes de responsabilidades cometidos por S. Excr., marcados na Constituição como batom na cueca.

Esperar o quê? Uma quartelada?

Impeachment já! Como questão de honra!

 Helahoho! helahoho!


Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é novointervalomusicalign-e1603705691433.jpg

Com Gilberto Gil em Lamento sertanejo, penúltima música do lado B de Refazenda (LP de 1975, da Philips). A canção é dele e Dominguinhos, ou José Domingos de Morais (Garanhuns, PE, 1942 — São Paulo, SP,2013).

Cada dia gosto mais de Gil. Sua humanidade o põe num plano acima de seus iguais. E gosto tanto deste Lamento sertanejo que fiz uma lista com oito de seus muitos registros. Procurei uma variedade de estilos e instrumentação.


Dizer mais o quê?

Termino esta carta com protetores de ouvido, forma que encontramos em casa pra conviver com a interminável obra no laboratório vizinho.

Me resigno ao lembrar do Tom Jobim se queixar de uma obra no apartamento superior ao seu em Nova York. Ele, coitado, ao piano tentando compor e o martelo comendo solto em cima.

Talvez, como o velho José Arcadio Buendía, personagem de Gabriel Garcia Márquez em Cem anos de solidão, devesse me amarrar a um castanheiro. E quando alguém quiser saber porque fiz isso, responder, como o patriarca:

“— Hoc est simplicisimun  […] — Porque estou louco.”

Helahoho! helahoho!

Além disso, tuta e meia. Nonada.  


(*) Cavalão era o apelido de Sua Excrescência na escola militar. Está no livro do jornalista Luiz Maklouf Carvalho, O cadete e o capitão (Todavia, 2019). Narra, com riqueza de detalhes e documentação, o passado inglório de um mau militar, indisciplinado e medíocre. O milico atlético, formado em educação física, amargou duas semanas de cana por ter escrito um artigo na Veja com críticas à política remuneratória das Forças Amadas. Saiu da cadeia como herói da categoria, premiado pela desobediência e noivando com sua daninha carreira política. Em seguida, acusado de planejar a explosão de bombas em quartéis, como forma de protesto contra o general Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército do governo de José Sarney, foi investigado e processado. Considerado culpado por um conselho de justificação do Exército (3 x 0), acabou absolvido no Superior Tribunal Militar (9 x 4).   



SOY LOCO POR TI.  Dentro de seu quarto, em quarentena, Gilberto Gil, 77 anos, pega o violão e canta Soy Loco por Ti America, música dele e José Carlos Capinan (Esplanada, BA, 1941 – ). Dever ser, pensei, uma oportuna provocação contra o verde-ódio e o amarelo-golpismo. Caetano Veloso gravou a música pela primeira vez em 1968, no LP da Philips que incluía Alegria, Alegria, Tropicália e Superbacana. A frase correta seria Estoy loco por ti America, reconheceu Caê, que “pautou” e “palpitou na letra”. Homenagear Che Guevara seria hoje imperdoável. Mas vivia-se o Ano do AI-5, e os homi estavam à espreita pra prender e arrebentar. A canção, em portunhol, portanto, é muito maior (e memorável) que o homicida Che. É o que penso e me importa. É o que me faz seguir gostando (e muito) de Pequeña Serenata Diurna, do cubano Silvio Rodríguez, gravada por Chico Buarque (o sax soprano de Netinho embala meus sonhos desde 1978, quando saiu o disco da samambaia). A verdadeira obra de arte pode ser relida e incorporar novos tempos e sensações, novas compreensões. Creio que ocorre isso agora. A letra de Capinan é inteligente e evocativa. Mas o que disse Caetano? 

“Pautei a canção, pedindo que Gil e Capinam fizessem uma homenagem a Guevara e que tivesse essa frase, Soy loco por ti America, que, aliás, vim a saber que é errada em espanhol. Quando Célia Cruz [cantora cubana] foi gravar essa música, na verdade, inicialmente ela se recusou ao saber que era uma homenagem a Che Guevara. Mas, finalmente, quando veio ao Brasil, Célia resolveu gravá-la e mudou para Estoy loco por ti America. Então, acabamos fazendo uma canção em portunhol já na primeira frase, mas, na época, não sabíamos disso. Dei essa frase a Gil e Capinam, pedi que fosse uma homenagem a Guevara e também dei outros palpites na letra. Como na época não podíamos botar o nome dele, já que a Censura iria vetar, usamos a frase el nombre del hombre muerto’. Capinam fez uma coisa maravilhosa a partir de um desejo meu.”

NOIR NÓRDICO. As séries de crime e investigação escandinavas (num sentido amplo) estão entres as melhores do gênero. Pois a Netflix estreou segunda feira (11) a terceira temporada de Bordertown, drama policial finlandês criado por Miikko Oikkonen. A atuação de Ville Virtanen como o cerebral, escrupuloso, engraçado e, principalmente, sistemático detetive Kari Sorjonen vale cada episódio. O contraponto de Kari com a colega russa emigrada Lena Jaakkola, interpretada pela finlandesa Anu Sinisalo, que não é de fazer prisioneiros, funciona muito bem. A direção e atuação do elenco no noir nórdico está em sintonia com o elemento natural, a neve, o frio, a vegetação e atmosfera social. A arquitetura e o design de interiores são um bônus. O ritmo é mais lento e reconfortante, e as falas são pausadas, com silêncios que modulam a ação. Bordertown se passa em uma cidade na fronteira da Finlândia com São Petersburgo, na Rússia. Para um espectador nos trópicos, é uma viagem garantida.



REALIDADE VIRTUAL. A galeria suíça Hauser & Wirth antecipa na rede, em sua nova sede na ilha espanhola de Menorca (a ser inaugurada em 2021), a exposição Beside Itself, com obras de Louise Bourgeois, Jenny Holzer, Roni Horn e Bruce Nauman.

CELEBRAÇÃO. Os episódios, coisa finíssima!, da Komische Oper Berlin, estão programados para ficar no YouTube apenas por um breve período. Aproveite, não perca! Eis o espírito da música (e da cultura) berlinense na sua mais alta expressão. O diretor artístico Barrie Kosky recebe Katharine Mehrling no primeiro programa com três canções de Kurt Weill; no segundo, Alma Sadé canta uma seleção de cinco peças de operetas ídiches. Na Celebrations 3, Kosky traz a cantora e atriz Dagmar Manzel e uma amostra palpitante de canções berlinenses de Oscar Straus, Paul Abraham e Friedrich Hollaender.

UM CAFÉ LÁ EM CASA. Não sei se o programa de Nelson Faria ainda é exibido na TV, mas está no seu canal do YouTube. Faria, violão, guitarrista, arranjados,  um dos maiores instrumentistas brasileiros em atividade, recebe convidados cobras criadas em duos que, esteja você certo, são o que de melhor existe hoje na nossa música. Uma pitada é este encontro com o guitarrista Mateus Asato em Matinê, uma música dos dois. [Sugerido pelo sobrinho Diogo Siúves.]


BERLIM, 1945 E DEPOIS. A cidade alemã preparou uma exposição online interativa (textos em inglês e alemão) pra celebrar os 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial (08/05). Imagens em alta definição e animações situam Berlim, coração da Alemanha nazista, destruída e rendida pelas forças aliadas. Repor esse passado, reconsiderá-lo, é uma oportunidade incomum pra quem conhece e ama esta cidade. A Deutsche Welle Brasil preparou uma página especial sobre a data.

SEM CORRIMÃO. No pensamento de Hannah Arendt “pode-se encontrar repetidamente […] tanto componentes liberais como conservadores e de esquerda, de forma que ela é bem difícil de situar numa ala política”, diz Monika Boll, curadora da exposição sobre a filósofa teuto-americana em cartaz no Museu Histórico Alemão (HDM). A própria Arendt definia sua forma livre de pensar, fundada na verdade factual, como “pensamento sem corrimão”, aduz Boll.  Leia mais nesta reportagem da DW em português.



JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca Extra — Carta de Quarentena #05

Edição de Quarentena N° 5 — Belo Horizonte,
Minas dos Matos Gerais, 07/05/2020


Interior com duas meninas (1904), do dinamarquês Peter Vilhelm Ilsted (1861-1933). A ilustração de um artigo do Aeon — sobre a beleza e a necessidade de uma vida simples — me apresentou a esta pintura esplêndida. A luz ao fundo ilumina o sorriso da mocinha, a jogar com sua irmã ou amiga num ambiente despojado e frugal. A vida é pura e plena sob todos os efeitos. Que cena deliciosa! Basta olhá-la um instante e abrirmos o coração, livres do fel que amarga o mundo. Foto: Wikimedia Commons.

Opa! Vamos apear?

Não muito longe de cumprir 60 setembros, concedo de boa que nesta idade nos sobra, se muito, um quarto de tanque por viver — na imagem do colombiano Hector Abad Faciolince, em cujos diários recém-publicados dou uma bispada.

Um quarto de tanque, se houver. Apois. O que vivemos não está exatamente jogado fora, penso eu. E o que temos por viver é mais um esforço de concentração, cumplicidade e sinceridade.

Mas o Faciolince também diz, sobre o atrativo dos diários, gênero que curto pra caramba, que a vida tem muito de telenovela. E é ridícula e óbvia.

Pode ser, mas nem tanto e nem sempre.

Agora, concordo com o filósofo alemão Peter Sloterdijk em que vida atual não nos convida a pensar.

Quem consegue escapar da roda-viva, ao tocar o barco na correnteza tendo o Vale do Silício como timoneiro?

Quem pode dar um passo atrás pra olhar o mundo como observador, em silêncio e solidão, mediado por boas leituras e obras de arte?

Escuto o Sloterdijk: O mundo concebido como esfera planetária do consumismo se baseia numa atmosfera frívola. “Sem frivolidade, não há público ou população que mostre uma inclinação para o consumo”, formula.

A pandemia não vai mudar isso. Aliás, não aprendemos nada de novo na pandemia (e um brasileiro, desgraçadamente, ainda menos). Retomaremos nossos hábitos ordinários, por certo.

Mas a retomada da frivolidade talvez seja mais difícil agora.

Temos a questão da coimunidade, um conceito caro às ideias do homem, do Sloterdijk (diz respeito à proteção mútua, à “solidariedade biológica”, nos termos dele), ao qual se refere nesta entrevista à Ana Carbajosa, do El País.

“O que é novo agora é que vemos que, devido à globalização, a interconectividade das vidas humanas na Terra agora é mais forte e precisamos de uma consciência compartilhada da imunidade. A imunidade será o grande tema filosófico e político após a pandemia.”

Quem viver, verá. Além da frivolidade infernal, a realidade brasileira escancara uma chanchada macabra e nauseante.

A malta se tinge de verde-amarelo e nos assombra, como num pesadelo; ruge pelo atraso, agride jornalistas, escarnece dos mortos na peste.



(Digo, por enquanto entre parênteses, que começo a ler fascinado Massa e poder, ensaio do Nobel de Literatura Elias Canetti publicado em 1960. Canetti descreve cada mínimo movimento, cada mínima atitude da malta, o pânico, a paranoia e a violência que são um denominador comum de certas massas humanas.)

Os domingueiros e violentos piqueniques golpistas da Praça dos Três Poderes são o cartão-postal que oferecemos ao mundo, quando o mundo civilizado se mobilizada contra a Covid-19.

O triunfo da morte, obra do artista holandês do século XVI Peter Bruegel, o Velho, no Museu do Prado. A pintura é uma figuração moral: a morte se impõe sobre as coisas terrenas. Pois a Morte a cavalgar o pangaré castanho no centro da tela me lembra a triste figura de Sua Excrescência durante a pandemia do Brasil; aliás, o próprio pangaré também a lembra, uma dupla associação, portanto, meu Velho Bruegel, com a devida vênia. Foto: Wikemedia Commons.  

Vela acesa pro Aldir
Escolho uma letra.  Uma única música dentro de uma obra extensa e magnífica, e não incluída entre as “essenciais” e “inesquecíveis” do autor listadas aqui ou ali, todas de fato dignas desses adjetivos. É a obra de um artista que refunda e expande o que nossa cultura e idioma têm de mais nobre e belo. Suas letras partem de um bloco informe de temas — costumes e personagens suburbanos, história, poesia pura — para esculpir imagens que dizem quem somos como gente e sociedade. Escolho Falso brilhante, dele e João Bosco (última faixa, lado B de Tiro de Misericórdia, LP de 1977; aqui linda e de longe na melhor versão, por Nana Caymmi, volume 3 do Songbook João Bosco, de 2003). Uma canção abolerada que, inacreditavelmente, tem pouquíssimos intérpretes. Negrito alguns de seus versos magistrais.

Falso Brilhante - João Bosco e Aldir Blanc

O amor
É o falso brilhante
No dedo da debutante
O amor
É um disparate
Na mala do mascate
Macacos tocam tambor
O amor
É um mascarado:
A patada da fera
Na cara do domador
 
O amor
Sempre foi causador
Da queda da trapezista
Pelo motociclista
Do globo da morte
O amor é de morte
 
Faz a odalisca atear fogo às vestes
E o dominó beber aguarrás
O amor é demais
Me fez pintar os cabelos
Me fez dobrar os joelhos
Me faz tirar coelhos
Da cartola surrada da esperança
O amor é uma criança
 
E o mesmo diante da hora fatal
O amor
Me dará forças
Pro grito de carnaval
Pro canto do cisne
Pra gargalhada final

Do que li do obituário de Aldir Blanc (Rio de Janeiro, RJ, 1946 – Rio, 2020) destaco textos de Ruy Castro (Folha), Mauro Ferreira (Blog Pop & Art, no G1 ; e neste outro post) Sergio Luz (O Globo), Julio Maria (Estadão), Luiz Antonio Simas (Folha), Diogo Magri (El País Brasil). E esta entrevista de 1976, desencavada pelo Blog do Acervo de O Globo, em que o Aldir conta como e por que abandonou a psiquiatria pra viver da música. Mas não resisto a sugerir outra gema de sua lavra, agora em parceria com Guinga, a exuberante Catavento e girassol (1996), gravada canonicamente por Leila Pinheiro. Ainda tem esta crônica do Veríssimo, Aldir e a sombrinha. Ah, o cartunista Jaguar, amigo de peito e de copo de Aldir, lembra aqui rapidamente como o Pasquim patrocinou o Disco de Bolso com Águas de março, “musiquinha” de Tom Jobim, dum lado, e Agnus sei, da dupla estreante Aldir e João Bosco, do outro.


Vela acesa pro Xerife
O Xerife de Flavio Migliaccio (São Paulo, SP, 1934 – Rio Bonito, RJ, 2020), da novela O primeiro amor (1972) e do seriado Shazan, Xerife e Cia (1972-1974), em que atuava com Paulo José, ajudou a preencher minha pré-adolescência. Me deu algo de imaginar e sonhar. Sou grato por sua figura chapliniana, pelos tipos que o pude ver interpretar em novelas e seriados, infelizmente nunca no teatro. Suas variações de humor e drama revelavam sua filiação à mais frutífera escola de teatro nacional, o chamado teatro popular engajado. O enorme ator que é Lima Duarte, aos 90 anos, saúda o colega neste vídeo aí, forte e comovente. Um Lima indignado com o rebrote autoritário no país termina sua fala com um recado “pros que ficam”. Cita Pedro Raqueiras, personagem da peça Os Fuzis da Senhora Carrar, do Bertolt Brecht: “Os que lavam as mãos, o fazem numa bacia de sangue!” Muito apropriada para esta hora cinzenta.


Gil listado
A lista nº 51 (Música para estes dias) do diretor de cinema e produtor musical espanhol Fernando Trueba dedicada a Gilberto Gil é surpreende. A obra de Gil é tão vasta e prodigiosa que sempre podemos redescobri-la.

Vista pro Rio
Quatro podcasts produzidos pela Companhia das Letras, narrados pelo autor, são uma entrada de chef  ao prato principal: o livro Metrópole à Beira-Mar: O Rio moderno dos anos 20, Ruy Castro lançado há pouco. [Dica do doutor P.J.]

Bom de Ibope
Tony Goes
, um veterano colunista de TV da Folha, escreveu,

William Bonner é o primeiro apresentador do Jornal Nacional a também ser o editor-chefe do noticiário. Está no cargo desde 1996, e vem crescendo desde então. Seu traquejo na bancada, sua experiência no trato com políticos de todas as estirpes, sua vivência através de crises de todos os tamanhos, só lhe aumentaram o cacife e a credibilidade. ​

Aos poucos, Bonner vem adotando a postura do âncora clássico, tradicional no telejornalismo americano. Nomes como Walter Cronkite, Peter Jennings, Tom Brokaw e Dan Rather, que jamais se furtaram a emitir opiniões enquanto davam notícias da Guerra do Vietnã ou do caso Watergate.”

Aos poucos, e na emergência sanitária, quando todo profissional é posto à prova, a crítica que conta rende-se à importância de um jornalista de rara estatura no Brasil contemporâneo que, não por acaso, é odiado por ambos os polo ideológicos.

Willian Bonner apresenta o JN de 29/04/2020. Reprodução da Folha de S.Paulo


E daí?
Fernando Gabeira
tem a prosa simples, sincera e, às vezes, sábia. Em uma de suas colunas desta semana ele fala da pulsão da morte que os maus modos de Sua Excrescência não encobrem. O melhor do texto é a paráfrase a uma canção de Milton Nascimento e Ruy Guerra, E daí? (A Queda)  — última do lado 2 do disco 1 de Clube da Esquina (1978): “Entre mortos e doentes/ No meio dessas bananas/ Os meus ódios e os meus medos? E daí?”, diz a paráfrase da  bela canção. “Os meus músculos são poucos/ Pra essa rede de intrigas”, diz a letra de Ruy Guerra na primeira estrofe. Acho que os meus também.


O anticrítico reencarnado
A Companhia das Letras repõe, 34 anos depois da primeira edição, uma das mais importantes coletâneas de traduções e crítica literária surgidas no Brasil. O Anticrítico, de Augusto de Campos, reúne uma série de poetas, da tradição clássica milenar às vanguardas do século 20. Campos traduz e atualiza, ou recoloca no panorama poético-literário do modernismo, Dante Alighieri, John Donne, Shakespeare, Mario de Sá Carneiro, Gregório de Matos, Lewis Carroll, Gertrude Stein e outros. Gosto especialmente da transcriação, como prefere o tradutor, de fragmentos do Rubaiyat de Omar Khayyam (abaixo transcritos), um clássico persa, a partir da versão livre em inglês de Edward Fitzgerald, poeta inglês do século XIX. Tenho meu exemplar da 1ª edição do Anticrítico autografado por Augusto, cá no Belo, numa manhã de sábado de 1993! no Centro Cultural da UFMG, na Praça da Estação. Quatro anos depois, achei em Nova York uma pequena e linda edição das traduções de Fitzgerald.

Do Rubaiyat de Omar Khayyam

IX

Em Naishapur ou Babilônia, alguma
Taça, ou amarga ou doce, sempre espuma,
Verte o Vinho da Vida, gota a gota,
Vão-se as Folhas da Vida, uma a uma.

XXV

Ah, vem, vivamos mais que a Vida, vem,
Antes que em Pó nos deponham também,
Pó sobre Pó, e sob o Pó, pousados,
Sem Cor, sem Sol, sem Som, sem Sonho – sem.
 
LXV

Inferno ou Céu, do beco sem saída
Uma só coisa é certa: voa a Vida,
E, sem a Vida, tudo o mais é Nada.
A Flor que for logo se vai, flor ida.

Edward Fitzgerald / Augusto de Campos

A morte do romance
Quem vai aquém de cinco décadas vividas não crê. Mas a grande arte do romance já foi um assunto prazeroso em mesa de bar, obrigatório até. A espera por um volume de contos de José Rubem Fonseca, digamos, ou a leitura comum de um romancista russo, proporcionavam uma ansiedade calorosa e vital. Isso valia para os grandes filmes de Bergman, Visconti e tal. Mesmo a expectativa pelo próximo LP de Gil ou Chico ou Caetano ou Egberto Gismonti era um mote social capaz de produzir certo frenesi. Tudo ajustava o mundo a certa ordem e transmitia um temperamento, uma estética e um espírito. Tudo isso, claro, acabou. Não é de hoje. Mas o romance, que de certa forma substituiu a religião, teve sua primazia, e merece um obituário digno (digo isso como um leitor marginal e solitário, que ainda mantém a fé na ficção, mas não é cego). “A cultura  [com o romance] fez algumas de suas mais sérias tentativas de autocompreensão”, no dizer de Joseph Epstein nesta crítica a The Decline of the Novel (O declínio do romance), de Joseph Bottum, publicado por Commentary (em inglês). A era gloriosa do romance vai dos 1800 ao pós-modernismo, diz Bottum. A ficção perdeu seu posto. Perdeu a centralidade na autoconsciência cultural do ocidente. O diabo é que não há nada em seu lugar, na frívola esfera planetária do consumismo…

Museus no mouse
O Estadão resumiu aqui os caminhos pra quem gosta de visitar grandes museus pela internet.



Lygia Clark, 100
O site do Guggenheim de Bilbao, um museu de minha predileção, tem algo sobre a exposição Lygia Clark – A pintura como campo experimental, aberta no começo de março e logo fechada pela emergência sanitária. A obra da artista brasileira nascida no Belo há quase cem anos (em outubro próximo) tem uma permanência e jovialidade que sempre me excitam as ideias.

Lições de Lord Russell
Cativante, contundente, claro, bem-humorado. O filósofo e matemático Bertrand Russell (1872-1970) é um dos maiores cérebros intérpretes do mundo que você pode achar no Youtube, como recomenda The Economist  (texto em português no Estadão). As gravações mencionadas podem ser vistas com legendas em português.

Perguntas do após-peste
O filósofo e professor de Harvard Michael J. Sandel olha pro mundo que surgirá da pandemia e, de forma clara e aguda, faz uma série de perguntas. A economia conseguirá retomar o ritmo insano e vicioso das últimas décadas? A desigualdade mundial se aprofundará? O serviço essencial de trabalhadores mal remunerados, do transporte e da saúde, por exemplo, voltará a ser invisível? A injusta ordem meritocrática encontrará seus limites? Os afortunados da tecnologia manterão sua soberba, indiferentes à destruição que a uberização deixa no caminho do progresso? Aqui, o original em inglês do The New York Times; e ali, a tradução em espanhol do El País.

Vida e morte nos EUA
A escritora inglesa Zadie Smith comenta o sentido da morte e a “culpa dos mortos” pela peste nos EUA. “Talvez não haja outro lugar no mundo onde o dito empenho [em viver mais], e seu êxito relativo, estejam tão claramente vinculado ao dinheiro como nos Estados Unidos”, escreve na revista The New Yorker (em inglês) a autora de Dentes Brancos. Chega-se por este enlace à tradução em espanhol do El País.

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.