Ladainhas

Ladainha I

Que (tímida certeza) a morte
Ou (lotérica chama) a sorte
Não me aprontem o disparate,
Assim, de parte a parte,
De me pegarem degredado,
—adúltero, bêbado, renegado—
Fora do leito da arte.


 

Ladainha II

A ideia de ir contra
a parede é pior
(q) pular do precipício
pior (q)
ir contra a parede

A ideia de congelar
o instante é pior
(q) ir contra a parede
pior (q)
congelar o instante

A ideia de pular
do precipício é pior
(q) congelar o instante
pior (q)
pular do precipício

[16 e 17/ "21 Poemas" - antonio siuves - 2015/2016]
blue-and-gray

Mark Rothko, Azul e cinza

Anamnese

Um Mark Rothko sem título

Mark Rothko (s/ título)

 

Entre um dado e mil dados,
No correr do sucesso
De fatos e fotos,
Enredado em destroços
Do mundo encapelado
Pós-tsunami do tédio,
Já não me cabia
Entre a dieta e o remédio,
E me desavinha, náufrago,
Na estranha paisagem estilhaçada;

Ousar eu não podia
Interromper a viagem
Na jornada estendida
Que cumprir devia:
Minha nave errou
De rota na galáxia?

Quando a onda entrou,
A padecer de hipóxia,
Sei que desde então
Vago zambo,
Que quando me canso
Paro de supetão
Para um trago,
Ou num breve remanso
De farmácia, entre tantas
Estações que não alcanço;

Que, penso, não importa,
Mas a verdade mais lisa,
É que a vertigem me bate
No limiar da saída,
Ao sucumbir à gravidade
Que antecede a subida.

[15/ "21 Poemas" - antônio siúves - 2016]

 

Exposição em PL [14/ “21 Poemas”]

Como um raio de sol
No cerne seco do dia,
O som de um vinil
Penetra e tonifica almas
Que cambalhotam ao vento,
Qual pétalas no tempo.

Girarão entre destroços
País afora, por galáxias,
Enquanto a ruína se queima
Com a chama da alegria,
Travessia pela ponte dourada
Entre o ontem viçoso
E a palhada do dia:

Eis o mundo que se presta,
Eis o mundo prestante,
O esplendor do viver.

Lá estavam agora
Horacinho e Belga,
Canário frágil, docinho,
Olhos negros gravados
No vidro verde do vinho,
A nos acalentar o LP de Ednardo,
À tardinha,
Antes da exposição em PL.

A vida aqui tem razão?,
Me indago, enquanto
Belga entorna pepitas,
Contas de âmbar ardem
No côncavo da mão lívida,
Alçam o medo na hora,
No cômodo da covardia.

Logo comparsas
Compartem o botim,
O bote no papo,
Parêntesis;
Entram no tubo da onda
De puro licor rubi;
Afundam na crista
Até o fim, batem
No osso —ascese
No baque—,
Odisseia,
Passagem, entretanto,
Ínterim.

[14/ "21 Poemas" - antônio siúves - 2016]
Rothko-Mural-1024x945 Seagram Murals

Mark Rothko (da série Seagram Murals)

Os 13/21 poemas já publicados

“21 Poemas”, minha segunda coletânea do gênero, a primeira é o “Moral das Horas” (Manduruvá, 2013), vem sendo publicada apenas neste blog ou, como tenho dito, gavetário aberto ao tico-tico no fubá de leitores interessados. Abaixo, estão os links para os 13 poemas que já saíram aqui, entre 23 de novembro e 18 último. Com três exceções, nas quais reproduzi fotografias do amigo basco José Fontán, mesmo (ainda) sem o consentimento dele, as páginas são ilustradas com telas de Mark Rothko, o pintor da segunda metade do século 20 que tenho mais alinhado ao espírito, ao menos espírito enquanto devoção à arte.

Footing no Face [1/21]

Olive Kitteridge [2/21]

Trivial idade [3/21]

Galícia [4/21]

Faíscas [5/21]

Meios (Das análises) [6/21]

Saberes [7/21]

Soneto anticlimático [8/21]

Acará deus [9/21]

Fisterra (a menina dos olhos cega) [10/21]

Canto amarelo [11/21]

Andar [12/21]

Arrudário [13/21]

À parte o 21, este livro, vamos dizer, “blogário”, “interné(au)tico” ou simplesmente online, neste final de 2015 deixei aqui o Egon Jumenteu, poema que pode ser lido como síntese do que acho justo e necessário dizer da vida ou espécie de vida que se vive na era das redes sociais, tema destacado em ambas as coletâneas deste blogueiro.

A publicação do 21 se concluirá em começos do ano entrante.

Aos leitores, feliz Ano Novo.

O link para o livro completo pode ser visto aqui.

Atualizado em 31/01/2015.

Arrudário

O ribeiro em si
(águas do dito cujo)
Banha tripas da assembleia.

Desodorizada ricamente,
A casa legiferante propõe
Ao populi, deliberada
E majoritariamente,
Nova fragrância fecal.

[13/ "21 Poemas", antônio siúves — 2015]
Green And Tangerine On Red Mark Rothko

Rothko: Green and tangerine on red

Andar

Não há clarim
Não há pirueta
Não há esgar
Não há caverna-catedral
Não há casa-cascão
Não há manhã de domingo
Nesta manhã de domingo.

 

O sol habitual
Debulha-se
Em duros grãos
Agora o ar
Rubro no sangue
A vertigem da pedra
O passo uma chaga.

[12/ "21 Poemas", antônio siúves — 2015/

mark rothko preto e marrom 1959

Um Mark Rothko Black on Maroom, 1958