Uma missa para a imprensa

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[Coluna da Inclusive.com número 9, novembro_2017]

A imprensa morreu e não descansa em paz.

Nasceu o jornal online sem caráter e dispensável. O antigo leitor acordou metamorfoseado em cascudo clicador, condenado às galés do ciberespaço.

É quase um ET semeador de tráfego na internet, presa do Google e do Facebook. Pois o clique é o critério absoluto da notícia na era digital, a teia sem escape.

O apelo dos jornais em luta pela sobrevivência — pautado em concessões à política de bandos, à banalidade, à fofoca, à controvérsia oca, ao culto da celebridade — soa cada dia mais tonto. Alguns contorcem-se como enguias sacadas do mar para tentar se sobrepor à segregação ideológica animada pelo Google e pelas redes sociais.

Cliques dão dinheiro. A aposta barata no populismo midiático (como as “fake news”) dá dinheiro.

Isso talvez explique a falta de sintonia dos editores e o confuso alinhamento das matérias (conteúdos) nos portais.

Quando mais vulgar, mais cliques no papo. Quanto mais reles o humor, mais suja a fofoca, mais pornô a controvérsia e mais enviesada a manchete, maior a chance de um troço viralizar.

E aonde a vaca da internet vai, os jornais digitais vão atrás.

Entre o atentado terrorista e as malas do Geddel, você pode se informar sobre as aulas de furadeira da Lolita para atuar na novela das sete, desfrutar a sabedoria humanística do “artista de gênero” em voga, se iluminar com o pensamento mágico engagé de Wagner Moura e Cássia Kiss.

Um jornal deve se adaptar aos tempos. Não há nada de novo nisso. Novas editorias sempre foram criadas por imposição do público, da caça à raposa ao salve as baleias, do xadrez ao Pokémon, da crítica literária à culinária.

O negócio é o meio, seu McLuhan, que agora ultrapassou a mensagem.

O que exigia perícia dos editores para hierarquizar os fatos com senso e sensibilidade, no portal online virou uma terra de leiloeiros na bolsa de cliques.

A ordenação dos “conteúdos”, isto é, qualquer merreca, é um desafio que editores, desenhistas de web e programadores em geral estão perdendo.

O leitor em papel conferia uma espécie de procuração aos editores para filtrar e ordenar o que valia a pena se saber do turbilhão do mundo.

Toda manhã, confiante nesse contrato tácito, repassava as manchetes, os editoriais, as seções e separava o caderno ou a página a que mais se habituara. O resto ia para o serviço do gato. Assim se começava a ganhar o dia.

O jornal, dizia Hegel, era a “oração matinal do homem moderno”, pois havia algo de ritualístico na prática cidadã de se ler um periódico.

Agora é esse deus nos acuda. Se o jornal analógico era um veículo aristotélico, o digital está essa choldra mefistofélica.

Os anúncios viabilizavam o impresso de qualidade, mas não concorriam com a informação. Hoje travam com a matéria uma luta pixel a pixel na tela em transe.

Os donos de jornal podiam distinguir seu negócio: para o público letrado, com certa sofisticação intelectual, iam as folhas de primeira linha, e para as massas indistintas os tabloides com a pletora de sangue, suor e bundalelê. Agora, eis o busílis, os dois apelos convivem promiscuamente na mesma telinha.

O online precisa garantir milhões de cliques por milissegundo. Não tem procuração alguma de leitorados específicos, mas a imposição de publicar tudo que possa fisgar a atenção do internauta cigano.

O clicador — conforme o tipo que os digitais mais parecem perseguir — é iletrado tendente a babar na gravata, com menos de 30 anos e algum poder de compra, politicamente coxinha ou mortadela e incapaz de se deter por dois minutos numa leitura, que abandonará se não tiver carne fresca, isto é, algo que o faça estacionar e clicar mais num mesmo sítio.

As velhas gazetas, em geral, não estão conseguindo reafirmar suas identidades e põem a perder marcas e reputações, esmagadas pelo império do Facebook e do YouTube.

Jornalões e jornaizinhos estão numa cilada. Creem, falo do Brasil, que vai se safar quem mais despudoradamente representar um mundo infantilizado e hostil à inteligência e ao compromisso moderno do bom jornal de se aproximar o mais possível da verdade.

A imprensa morreu e vaga como alma penada.

É preciso que alguém mande celebrar uma missa para que pare de nos assombrar e descanse no silêncio eterno. Amém.

 

O espírito (de porco) da época

Arate conceitual

[Coluna da Inclusive.com número 7, agosto_2017]

Tenho buscado me incorporar ao espírito da época, ou incorporá-lo, para ver se penetro no Bailão do Agora; em vão. A que templo, me indago, terreiro, clínica ou app de smartphone recorrerei para não me ver barrado no melhor do presente?

Acaso, como um Fausto reles, como um Riobaldo reles do Arrudas, devo apelar ao pacto com o demo para me sentir mais confortável com a moda mais recente? Nonada.

Se não posso receber o espírito da época, posso esboçar seu perfil. Antes, uma palavrinha sobre esta intangível entidade filosófica.

Todo mundo conhece a palavra alemã Zeitgeist. Ainda me embatuco com o significado, e recorro ao filósofo inglês Roger Scruton. Ele mostra como Hegel, sem querer, é culpado pela praga do progressismo, pela aceitação tola do novo enquanto novo.

“Cada período sucessivo da história, de acordo com os hegelianos, exibe um estágio no desenvolvimento espiritual da humanidade — um ‘espírito da época’ particular ou Zeitgeist, que é propriedade comum de todos os produtos culturais contemporâneos, e que é inerentemente dinâmico, transformando aquilo que herda e sendo descartado quando chega a sua hora”, ensina Scruton em “As Vantagens do Pessimismo”. Conforme essa lei, a história flui continuamente rumo ao progresso espiritual.

Identificar o espírito da época em retrospecto, em dado período histórico, vá lá. O problema começa quando se pretende definir como inelutável esta ação entre os vivos.

Seu efeito que me interessa aqui é a confusão geral que se faz quando a noção de progresso científico é levada para o terreno social, cultural e político.

É como se estivéssemos destinados a evoluir espiritualmente da mesma maneira que — graças à ciência e à técnica — saltamos do uísque como anestésico à maravilha do Propofol.

“O Zeitgeist que nos governa é o que está agindo agora. A arte verdadeira tem que ser fiel ao Zeitgeist (…). Os artistas verdadeiramente modernos pertencem a sua época, e essa época que dita o que eles devem fazer”, critica Scruton no capítulo “A falácia do espírito móvel”.

Alguém tem que ser fiel ao espírito da época para acatar certas novidades artísticas como avanços inevitáveis e alguns valores em voga como expressão de um contínuo progresso moral.

Alguém precisa ser um crente para chamar de “reacionário” o rebelde à crença de que estamos do lado da história rumo à revelação, conforme uma lei inelutável.

Tal é a visão geral dos acontecimentos por trás das sensações que levam multidões a aderir de modo irrefletido a ideias, ações e produtos vendidos como “geniais” e “revolucionários”. Prometi esboçar o perfil do “Zeitgeist que nos governa e está agindo agora” entre nós. Eis um rafe.

Muito do que vemos da denominada arte contemporânea se impõe graças à falácia a que Scruton se refere. A Arte, como a conhecíamos há séculos, está morta, e tudo é permitido nos “espaços expositivos” quando um curador estabelece “poéticas” para encaixar prosopopeias nos ricos pavilhões das bienais.  Eis a ação do Zeitgeist no presente.

Mas a expressão que nasce sem uma gramática artística comum, morre solitária. “Sem sintaxe não há emoção duradoura. A imortalidade é uma função dos gramáticos”, diz Pessoa no “Livro do Desassossego”.

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Temos sido levados a torturar o conceito do que é música — como a entendíamos se construir e reconstruir com beleza, afluência e respeito pela criação através do tempo — para incluir células rítmicas em looping e guinchadas letais.

Ai de quem não aceita acriticamente bossas da arte e o padrão musical reinante.

Ai de quem não queira ver demolidas a riqueza do legado técnico e as formas de linguagem da alta criação.

Ai de quem crê que sempre haverá uma hierarquia a medir os artefatos culturais. As patrulhas relativistas do espírito da época saem à caça de toda voz destoante que ouse contradizer suas certezas inspiradas.

O progressismo também se manifesta na sexualidade e em valores sociais afirmativos, construções ideológicas e até, de maneira mais prosaica, nas modas que estabelecem uma “correção nutricional” para quem está a fim de viver mil anos.

Já se propalou a hóstia sem glúten. Não cairei de costas quando se passar a exigir o sangue de Cristo com baixo teor de colesterol e a transubstanciação da seiva vegetal do criador na hóstia vegana. Até lá, quem sabe, já tenha me tornado mais dócil ao Zeitgeist, misinfi!

 

 

 

Silêncio, por favor

[Coluna da Inclusive.com número 6, julho_2017.]

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco.

bacon the sea

Francis Bacon, Untitled (Sea), 1953.

O título é verso de um samba de Paulinho da Viola (Para Ver as Meninas), com o qual abro e vou fechar esta coluna.

Pois “hoje eu quero apenas / uma pausa de mil compassos”.

Há muito barulho por todo lado. Um falatório diabólico obscurece o que é vital. A cacofonia de um coaxar transoceânico marca a política, a cidadania e as relações pessoais.

Palavras e metáforas desaparecem na algaravia como dejetos, de link em link, de nó em nó na teia virtual.

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco. Ao menos numa parte considerável da existência, a leitura e a palavra foram corrompidas.

A telinha colorida do celular praticamente aboliu o céu e o movimento das ruas como inspiradores do pensamento.

Quem estudava os efeitos dos mass media no século passado não podia sonhar com a nova ordenação do mundo. Algoritmos (linguagem não verbal) e Big Data são minas de ouro do século 21. Por meio de aplicativos e inteligência artificial, tangem multidões de usuários — consumidores, não cidadãos — cuja participação precisa ser renovada num ciclo infinito de clicks e egotismo para que se sintam vivas no ciberespaço.

A palavra — o sopro, a luz que iluminava as consciências — se apaga. O idioma se torna impotente. Os sentimentos e as sensações se esvaziam. Os músculos da face se hipertrofiam com o exercício permanente do riso autônomo. O pensamento se encolhe.

No Brasil e no mundo, as referências vocabulares das ideias foram evisceradas. “Direita” e “esquerda” irmanam-se na idiotia.

Como demonstra George Orwell em O que É Fascismo (Cia das Letras), o xingo “fascista” é pau para toda obra; atende a todo o arco-íris ideológico.

Também as categorias da beleza perderam seu território com a invasão bárbara do relativismo e do discurso “politicamente correto”.

O desgaste da linguagem é fenômeno universal que acompanha as mudanças sociais e tecnológicas.

O esgotamento da palavra e das narrativas foi detectado ainda na segunda metade do século 19, com a reação dos pintores, poetas e romancistas do Modernismo que reinventaram sua arte.

Mais tarde é a “expulsão da literatura como influência séria sobre a percepção da vida”, no dizer de um personagem de Philip Roth, processo que termina em nossos dias, era de ouro dos millennials.

Mas agora não há qualquer sinal de reação criativa, além de prazerosa resignação.

Uma tagarelice sem fim distingue nosso tempo. A preferência assombrosa pela frivolidade ulula em todas as plataformas.

Ai, se Eu te Pego e Despacito são a trilha ideal do espírito da época.

“Talvez nossa cultura tenha se tornado esbanjadora de palavras. Talvez tenha vulgarizado ou gasto o que de garantia de percepção e valor luminoso um dia contiveram”, ponderava o filósofo e crítico literário George Steiner num ensaio dos anos 1960, uns 50 anos antes que o WhatsApp e do Facebook começassem a reger a imaginação.

Steiner se refere no mesmo livro ao “atormentado escrúpulo” de Kafka ao retornar várias vezes (nas Cartas a Milena) “à impossibilidade da manifestação adequada, ao esforço infrutífero da tarefa do escritor que é encontrar a linguagem ainda não enxovalhada, desgastada até tornar-se lugar-comum, esvaziada pelo desperdício irresponsável”. Kafka, puxa vida. Então sou o Gregor Samsa.

Cada hora de rola-páginas nas redes sociais incrementa a hiperinflação de palavras que fragiliza a linguagem. Se uma carroça de bolívares venezuelanos não compra um rolo de papel higiênico, um Amazonas diário de palavras no Facebook não produz uma ideia original.

Nem apelos à pornografia e à violência surtem mais efeito, que o diga a publicidade de rapina (“Para você curtir gigante.”)

Pois hoje eu quero apenas o bem precioso do silêncio. Mil compassos de pausa. Contra o veneno do ruído infernal, o antídoto do silêncio, anterior ao verbo. “Deve-se calar sobre aquilo de que não se pode falar”, diz a célebre frase do filósofo.

E por silêncio clama Paulinho da viola em seu lindo samba: “Quem sabe de tudo não fale / quem não sabe nada se cale / se for preciso eu repito / porque hoje eu vou fazer / ao meu jeito eu vou fazer / um samba sobre o infinito”. Que o silêncio nos resgate.

Confissões de um comedor de séries

[Coluna da revista Inclusive.com número 5, junho_2017.]

 

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Não vou relatar uma saga alucinógena. Menos para o bem que para o mal, não tenho nada de singular a revelar nesse terreno. Era apenas uma criança mineira do interior quando a turma se enlameava em Woodstock como quem surfava num mar laranja ao som de Hendrix.

Mas me inspiro em relatos de uma gente muito doida para confessar que em anos recentes me evadi do “real”, ao me ver perdido numa selva escura.

Levado na contramaré que pôs à deriva a canoa do jornalismo, adernei como um náufrago diante da TV. Ilhado, passei a me servir de séries e minisséries para alargar os sentidos, como Baudelaire do haxixe ou Aldous Huxley da mescalina.

Histórias de grandes dopados filiam-se ao clássico Confissões de um Comedor de Ópio, de Thomas De Quincey (1785-1859). Uma linhagem que vai do poeta Baudelaire ao neurologista Oliver Sacks bebeu na obra do escritor inglês.

Paul Bowles, Carlos Castañeda, William Burroughs figuram no cânone lisérgico. Em 2001, a revista inglesa de literatura Granta publicou o texto apologético Confissões de um Comedor de Ecstasy de Meia-Idade, assinado por Anônimo.

Perto do escrete de chapadões, do peiote e do LSD, sou um perna de pau careta. E só podem ser caretas confissões de um comedor de séries. Mas, veja o leitor, o seriado se transformou num gênero de excelência.

As séries oferecem ao terráqueo adulto educado de agora muito do que o romance e o conto serviram ao viventes dos dois últimos séculos: narrativas, fabulação, contação de histórias que nos enredam como presa dócil em vidas e mundos vicários. Oferecem também os melhores recursos do melhor cinema já realizado.

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Essa alta qualidade literária e fílmica das séries alarga a percepção e, no meu caso, representou uma droga bem-vinda para me tirar da vida ordinária, das mazelas da insônia e me livrar do tédio com a simples passagem das horas.

Refestelado em meu sofá de náufrago preto e macio, devo ter seguido ou tentado seguir (mal provei muita porcariada em canais a cabo e na Netflix), não menos que cem produções, entre séries e minisséries, mil episódios e milhares de cenas incríveis.

Vi algumas vezes The Wire (A Escuta), criada por David Simon. Até a academia se rendeu ao alcance social e artístico desta série referencial. Segundo uma extensa reportagem de O Globo, um dos mais respeitados sociólogos americanos, William Julius Wilson, “definiu a obra como a maior etnografia jamais produzida sobre os Estados Unidos” de hoje. O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa é fã do seriado.

Revi Mad Men inteira e inúmeras vezes episódios isolados da série criada por Matthew Weiner. Os roteiros das sete temporadas fizeram cair o queixo de grandes autores.

“Comecei a ver cenas de episódios de Mad Men como quem entra na sala de aula de uma escola todos os dias para recordar o que é narrar”, contou no El País o espanhol Enrique Vila-Matas, ao explicar por que voltou a escrever contos. “Quando vejo séries, penso em romances e teatro”, ecoou no mesmo periódico o autor e crítico teatral Marcos Ordóñez.

Os grandes autores que abraçaram o formato destilam nos roteiros uma desconcertante bagagem literária e cinematográfica. Passagens de Guerra dos Tronos me recordam Macbeth e outros dramas de Shakespeare.

O criador de Mad Men trouxe para a série o universo dos contos magistrais de John Cheever, ele próprio admitiu a influência. Os Sopranos pede bênçãos a Coppola e O Poderoso Chefão; The Leftovers, a toda uma cinemateca”.

Encantei-me com a beleza e a fatura esmerada de Os Sopranos, Boardwalk Empire, Downton Abbey (a mais sofisticada das novelas jamais feitas) ou de minisséries adaptadas de livros a exemplo das antológicas Olive Kitteridge, Wallander ou Big Little Lies.

Listei 30 séries dadivosas. Sinto-me obrigado a citar ao menos as americanas Better Call Saul (spin-off da épica Breaking Bad), a primeira temporada de True Detective, Ray Donovan, The Americans e The Good Wife; as britânicas Broadchurch e Hinterland e a sueco-dinamarquesa The Bridge.

Então confesso meu vício de comedor de séries. Não ofendi a saúde e não creio ter perdido tempo em minhas maratonas. Se devo apontar um efeito colateral, concedo: as séries me tornaram ainda mais refratário a livros e filmes ruins, à ficção da Rede Globo e ao cinema nacional.

 

Humanos estão podendo

Como “diz” o cachorro da NET, “meus” humanos estão podendo. A publicidade da operadora, digo de passagem, não me parece obra humana. Mas o tema da coluna não é o mundo cão da propaganda.

É a ciência, ou o ideal que alguns homens de ciência superdotados fazem da vida.

Ali por volta de 2030, anuncia-se, a humanidade terá vencido a morte e alcançado a vida eterna.

A ciência da computação é a origem comum desses novos Einsteins, claro. Os reis do Vale do Silício se veem predestinados a melhorar o mundo com seus fantásticos algoritmos e aplicativos. Alguns podem tanto que não aceitam menos que viver para sempre.

Prescindir de sua grandeza seria trágico para o Universo.

O inglês Aubrey de Grey, da ONG Fundação Sens, era do metiê, antes de tornar-se biogerontologista. Promete nos livrar do envelhecimento com um “detox” de terapias genéticas.

Viveremos mil anos ou mais sem azias, dores lombares ou de cotovelo, assegura. Seremos férteis e produtivos, com a memória e a libido para sempre em dia.

Um jovem mancebo de 870 anos encontrará uma nova parceira, um brotinho de 530.

O novo casal vai compartir terabytes de selfies e álbuns acumulados em centenas de uniões passadas, pencas de filhos e parentalha a perder de vista, se ainda houver geração. Pois o que será da posteridade num planeta de seres perpétuos?

Já o bilionário russo Dmitry Itskov e o diretor de engenharia da Google Raymond Kurzweil exploram soluções de inteligência artificial para garantir a eternidade de nossos netos ou bisnetos.

Interfaces biológicas, com os cérebros escaneados e hospedadas nas nuvens, tornarão perene a existência individual.

Colagem sem título

Não se sabe se o planeta ainda será sacudido por tragédias. Kurzweil, Itskov e de Grey não se aborrecem com efeitos colaterais. Conflitos éticos, demográficos ou desigualdade não tiram o sono dos adventistas do humano 2.0.

Há gente séria e sabida que respeita a ciência deste amanhã no qual tecnologias vão bulir com o DNA como blocos de Lego.

Mas não são essas tecnologias que me fascinam. Se tiverem que vir, virão; então, (não) seja o que deus quiser! O que me encanta é pensar como a própria ideia do que é a vida pode ser tão distinta.

Entendo Kurzweil, Itskov, de Grey e seguidores como entendo o matraquear de incas venusianos. Não há buraco de verme que possa aproximar meu mundo do mundo onde operam.

A vida eterna que concebem é, em essência, como a vejo, a definitiva iluminação da morte. A vida como avatar, sem velhice, higiênica, controlável, alheia à sorte e ao azar, é o enterro definitivo do humano.

Vá lá que estejamos fadados a nos recriar, pela tecnociência, livres de todos os males. Mas só um ciborgue é capaz de defender o poder e a glória do humano 2.0. Por isso desconfio de que nossos super-heróis já não têm a humanidade preservada. Evoluíram. Receberam seu upgrade.

A imortalidade vai derreter o que presta na espécie. Laços de afeto perderão o sentido.

Amamos também ou essencialmente porque somos seres cariados e finitos. Que papel teria o amor em um mundo de perfeição em que tudo é para sempre?

Acaba-se com a dor e leva-se junto a arte; livram-nos do sofrimento e também de Michelangelo, Shakespeare e Bach.

O admirável mundo novo de Kurzweil, Itskov e de Grey me devolve a Cioran e Fernando Pessoa. Talvez para lhes dar razão.

No último texto para esta revista lembrei um dos aforismos do filósofo romeno, “a vida, esse mau gosto da matéria”. Depois, ao folhear Pessoa no Livro do Desassossego, acho esta passagem: “Viver parece-me um erro metafísico da matéria, um descuido da inação”.

Ou, no mesmo livro: “Considero a vida um estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo”.

Se Pessoa ainda vivesse, saberia que, em vez daquela diligência, está por vir o expresso da eternidade.

E que a própria poesia sumirá como lágrimas na chuva, no dizer do androide de Blade Runner.

— “Time to die?” Never more, dear.

Logo, se a vida é mesmo essa porcaria, melhor recriá-la.

Salve a Humanidade 2.0!, a qual, não duvido, pode estar por trás dos comerciais da NET.


[Coluna originalmente publicada na revista Inclusive.com que chega às bancas.]

 

 

Rir para viver

Acho graça de quem vive a conclamar seus semelhantes à vida “leve”, essa pregação Peri-Ceci de psicologia pueril, tão ao gosto dos anúncios de bancos e jipes. Seus cometedores, carentes de qualquer sentido de humor ou ironia, lembram crianças tentando ensinar adultos a usar o peniquinho.

A vida não precisa ser Mito de Sísifo ou tragédia grega, como a pintam certos filósofos. Em um de seus aforismos, Emil Cioran chega a dizer que a vida é “esse mau gosto da matéria”. Isso não, né? Mas viver não é abobrinha.

E rir, claro, é decisivo. Mas rir para valer, com espírito, conforme o conselho de Tomás de Aquino em “ludus est necessarius ad conversationem humanae vitae”, que traduzo pobre e livremente como o humor é imprescindível para se levar (e suportar) a vida.

Distingui-se, como todo mundo sabe, o humor da ironia mas, Senhor, livrai-nos do humor rasteiro que move a vida ordinária nas redes sociais, da mixórdia de futebol, sexismo, escatologia e tatibitate pseudoafetuoso. Amém.

A onda hilária que se espraia no WhatsApp parece refletir, por caminhos tortos, o sentido original do humor na medicina na Grécia antiga. A palavra era associada aos quatro fluidos corporais (humores) e à saúde física e mental: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. Isso não deixa de ser irônico.

A ironia demanda compreensão, depende da inteligência e da cultura. É um riso estético, como alguém disse. Talvez por isso nada que seja irônico faça sentido a tanta gente em nossa era de consumismo vulgar e filistinismo arrogante.

O crítico literário Harold Bloom, grande estudioso do assunto, põe Machado de Assis na turma dos “ironistas trágicos”, entre Flaubert, Borges e Calvino. O Brás Cubas machadiano, por sinal, é uma das mais altas e belas lições de ironia que conheço.

Já o humor pode ser um guia existencial. Invejo amigos que possuem o dom do humor, a ponto de pautar suas vidas pelo riso. São, como os vejo, capazes de imitar o “Olimpo no coração”, como na ode de Ricardo Reis, de olhar obliquamente para a desdita, e de saber aproveitar cada momento livre perto de quem amam. Deixam “a dor nas aras como ex-votos aos deuses”; “veem de longe a vida” e “nunca a interrogam”, como nos versos de “Segue o Teu Destino”.

Acontece que essa inclinação, para o bem e para o mal, tem o efeito adverso de passar longe do siso do sublime. O Dicionário Oxford de Literatura Clássica diz que a sublimidade representa a elevação das ideias: “é o eco da grandeza do espírito”. Mas haverá lugar para o sublime neste mundo careta?

Trouxe de minha viagem mais recente à Espanha os três volumes dos Diários de Iñaki Uriarte. O cara é um tipo bon vivant, que se orgulha de jamais ter trabalhado na vida e de se manter com a renda de uma herança imobiliária. Li e releio seus livros sem parar. Em um apontamento reluzente, Uriarte registra a rejeição a um amigo que lhe diz incapaz de “admirar-se” com o que o quer que seja. Traduzo como ele conclui a nota:

(…) Tampouco suporto aquela outra quando me diz que tal romance, conto ou filme “é sublime”. Já não podemos empregar essa palavra, a não ser para dizermos “esta purrusalda [receita basca de bacalhau] está sublime”. É verdade que ela é uma pessoa com pouco sentido de humor e, como disse já não lembro quem, “o humor é o contrário do sublime”.

 Uma das coisas que mais me fizeram rir na vida foi ler o comentário muito solene de M. Prudhomme, o personagem de [Henry] Monnier, quando viu o mar pela primeira vez: “— Tal quantidade de água beira o ridículo”.

Então, ao reler o trecho uma dúzia de vezes, às gargalhadas, me ocorreu dizer no embalo, e diante de certos enunciados, digamos, da astrofísica, como seja o de que há mais estrelas no Universo que grãos de areia na Terra: — Tal quantidade de sóis beira o ridículo!

Mas, não, ainda não atingi tais píncaros da ironia (ou do cinismo). Ainda sou capaz de me deleitar com as “Canções Praieiras” de Caymmi e seu canto que parece se alinhar às altas esferas; “O mar/ quando quebra na praia/ é bonito/ é bonito…”. Aí está toda sublimidade de que preciso nesta quadra da vida.


Este texto foi publicado originalmente na revista cultural Inclusive.com.