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Adauto Novaes insiste em pensar o mundo. Que démodé!

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O filósofo Adauto Novaes. Foto: YouTube/Reprodução.

Quando entrar setembro, vou acompanhar mais uma vez um ciclo de conferências concebido por Adauto Novaes, em Belo Horizonte: Entre Dois Mundos — 30 Anos de Experiências do Pensamento. É, por assim dizer, meu jeito estúpido de caçar pokémons.

Creio que BH recebeu a maior parte dessas séries de palestras, desde 1986, oportunamente, quando eu me iniciava no jornalismo, tendente ao cultural. Rio e São Paulo foram palcos mais frequentes.

A Os Sentidos da Paixão, o primeiro ciclo, seguiram-se O Olhar, O Desejo e outros tantos (ver lista abaixo), convertidos em livros pela Companhia das Letras e, hoje, da editora do Sesc de São Paulo.

As rodadas de conferências nos últimos dez foram dedicadas ao tema das mutações, conforme o conceito que Novaes, mineiro de Caetanópolis (antes Credo), define em reportagem da Folha de S.Paulo:

Quando fiz A Crise do Estado-nação [em 2003], ainda acreditava na ideia de crise. Mas percebi que o que estamos vivendo é uma revolução em todas as áreas. Mutações anteriores, como nas épocas do Renascimento e do Iluminismo, vieram acompanhadas de grandes projetos filosóficos e políticos. O problema de hoje é que a mutação se dá no vazio do pensamento e da política.

Não se sabe de ninguém ter usado “mutações” nesse sentido antes do insight de Novaes. Nem mesmo na França, principal matriz de suas ideias. Ele estava em Paris em maio de 1968 estudando jornalismo e filosofia.

Segui com grande proveito, na Casa Fiat, a dois anos da série “mutações”: A Condição Humana e A Experiência do Pensamento, em 2007 e 2008.

Francis Wolff, José Miguel Wisnikc, Luiz Alberto Oliveira, Franklin Leopoldo e Silva, Pedro Duarte, Newton Bignotto, Jorge Coli, Renato Lessa e Antonio Cícero estão entre os palestrantes que vão se apresentar no BDMG Cultural, na Rua da Bahia. Os interessados podem se inscrever por aqui.

 
Todos os ciclos de Adauto Novaes

1. Cultura brasileira – Tradição/contradição
2. Os sentidos da paixão
3. O olhar
4. O desejo
5. Rede imaginária – Televisão e democracia Ética
6. Tempo e história
7. Artepensamento
8. Libertinos libertários
9. A crise da razão
10. A descoberta do homem e do mundo
11. A outra margem do Ocidente
12. O avesso da liberdade
13. A crise do Estado-nação
14. O homem-máquina
15. Civilização e barbárie
16. Muito além do espetáculo
17. Poetas que pensaram o mundo
18. Oito visões da América Latina
19. O silêncio dos intelectuais
20. Congresso internacional do medo
21. O esquecimento da política
22. Mutações – Novas configurações do mundo
23. Vida vício virtude
24. Mutações – A condição humana
25. Mutações – A experiência do pensamento
26. Mutações – A invenção das crenças
27. Mutações – Elogio à preguiça
28. Mutações – O futuro não é mais o que era
29. Mutações – O silêncio e a prosa do mundo
30. Mutações – Fontes passionais da violência
31. Mutações – O novo espírito utópico

O português da “Folha” sustenta o Brexit mais ou menos bem

Português da Folha

O JS recomenda a leitura do português da Folha de S.Paulo, João Pereira Coutinho, um homem cultivado cuja inteligência aberta e ousadia provocam urticária em esquerdofrênicos, para quem argumentos contrários a seus dogmas sempre serão, por óbvio, blasfemos.

Coutinho é pelo Brexit, e na coluna de hoje procura sustentar, contra a maré montante do que considera  catastrofismo da imprensa internacional, a coerência da saída britânica da União Europeia.

Suas alegações são excelentes e me pareceram insatisfatórias. Não por acreditar, como já disse um tanto dramaticamente, que o Brexit é um sintoma assombroso de um possível (toc-toc-toc) regresso ao extremismo ideológico na Europa e suas consequências, mas porque as justificativas alinhadas por Coutinho (devemos ter algo a aprender com a Inglaterra etc.) são frágeis para explicar que o Reino Unido e a Europa viverão melhor separados.

Ao final do texto, tive a impressão oposta, melhor seria, por tudo que está dito, que permanecessem unidos. Neste sentido, as mesmas razões ganhariam força, com um pequeno rearranjo nas ideias expostas.

Reproduzo alguns trechos apenas para chamar atenção do leitor para o artigo, que merece ser lido integralmente. Aí vão, em azul.

Reflexões sobre o ‘Brexit’

(…) Eu aprendo com os anglo-saxônicos. Existe uma diferença. “Aprender”, no contexto, é repetir a célebre observação da historiadora Gertrude Himmelfarb de que o Reino Unido passou por todas as revoluções da modernidade –industrial, econômica, social, cultural etc.– sem nunca ter recorrido à Revolução (com maiúscula).

Modestamente, eu creio que existe algo a aprender com uma cultura política que não tem a vergonhosa e sanguinária folha de serviço da Europa continental no século 20. O Gulag, Auschwitz e até o pequeno Salazar nunca foram a minha praia.

(…) Sou europeu até ao tutano. Considero a União Europeia uma das mais preciosas criações políticas do pós-guerra. Sempre fui crítico do excessivo (e, como se vê, autodestrutivo) centralismo de Bruxelas.

(…) E, para voltar à anglofilia, aqui vai: sempre me senti bem na “pérfida Albion”; mas só me sinto verdadeiramente em casa em Lisboa, Florença ou Budapeste.

Não troco os cafés de Paris por nenhum pub inglês. Rio alto com Evelyn Waugh, mas sei que Proust é outra história. Turner é um impressionista “avant la lettre”; mas o Impressionismo francês não tem termo de comparação. Benjamin Britten ou Vaughan Williams são compositores estimáveis; mas o que é isso quando comparado com Bach, Mozart ou Wagner?

E, filosoficamente falando, admito que a filosofia ocidental seja uma nota de pé de página de Platão. Como dizia um filósofo (britânico).

(…) A mídia reagiu ao “Brexit” com estupefacção, horror, desmaios. Isso mostra duas coisas. Em primeiro lugar, a impressionante preparação intelectual que reina em muitas redações.

Mas mostra, sobretudo, como a única ideologia dominante do século 21 é mesmo o “globalismo”.

Por “globalismo”, entenda-se: a crença de que, para problemas globais, é preciso um governo global. O que implica, naturalmente, que os anacrônicos Estados-nação, com as suas limitadas “democracias liberais”, não fazem mais sentido. (…)

O diário de sexta

Poesia portuguesa de concreto, Farnese e o orgasmo santo de Teresa de Ávila,
ainda o Brexit, Gonzaguinha e a roca deste jornal

diário da sextacolagem

POETA DAS PEDRAS
O português Eduardo Souto de Moura, vencedor do Prêmio Pritzker em 2011, igual para a arquitetura ao Nobel, chamado “poeta das pedras” pelo escritor seu conterrâneo Heberto Helder, diz ao Valor que a poesia de seu país é a maior referência em suas obras. Antes de tudo vem Fernando Pessoa, autor do Livro do Desassossego, título que ele acha ainda mais bonito em italiano, Il libro dell’inquietudine.  Também diz encontrar vida e pulsação no concreto e considera que a arquitetura, como a literatura e a filosofia, trata sempre das mesmas questões, mas, se existem três mil histórias sobre o tema da adúltera, das quais ninguém se lembra, há apenas um Madame Bovary, que segue a iluminar nossa cultura literária.

FARNESE EM MINAS
Farnese de Andrade
mete em sacrários, oratórios e gamelas de madeira suas confissões que seriam impublicáveis em outro meio. Há nos objetos e assemblages do artista lições do Dadaísmo, Surrealismo e de Marcel Duchamp, como registra o curador Marcus Lontra. Arqueologia Existencial, em cartaz no Palácio das Artes, revela antes a genealogia familiar e moral de uma alma profundamente impregnada pela educação e pelo rico imaginário do interior de Minas.

ORGASMO SANTO
Há entre as obras de Farnese referências explicitas e mediadas ao sexo —incluindo A Grande Boceta, uma portentosa cunha em madeira pintada de vermelho e, como dizer, invaginada no interior de um armário antigo—, ao prazer torturado, ao amor filial e ao coração santificado, lacerado e exposto, como, literalmente, o da santa espanhola Santa Teresa de Ávila em uma igreja da pequena Alba de Tormes, também citado pelo curador.  Lontra se refere ao “conflito entre o prazer carnal e espiritual de Santa Teresa em suas visões divinas” e, por óbvio, à escultura de Bernini instalada em Santa Maria della Vittoria, em Roma, um pilar do Barroco.

Em um dos episódios de O Poder da Arte (disponível no canal Philos e também em livro), dedicado a Bernini, o historiador da arte britânico Simon Schama nos convence de que o prazer retratado em O Êxtase de Santa Teresa é genuinamente carnal, um santo orgasmo que o artista perenizou. Quando apreciarmos a obra com afinco, é difícil discordar.

MERCADORIA XENÓFOBA, TÓXICA E PROVINCIANA
Ainda sobre o Brexit, de Ignacio Molina, do Elcano Royal Institute for International Studies, no El País: “Portanto, neste grave momento, a prioridade não pode ser carregar ainda mais contra os defeitos que sem dúvida tem este artifício milagroso e frágil que chamamos Bruxelas. Não, a prioridade é conjurarmos os que querem importar para os outros 26 [membros da UE], a mesma mercadoria tóxica, xenófoba e provinciana que acaba de se soltar sobre o Reino Unido e que ameaça agora desconstruir 60 anos de união cada vez mais estreita”. Sim, é isso. Mas haverá força para tal conjuro? De onde virá? Com a palavra, dona Angela Merkel.

GONZAGUINHA
Passaram-se, em 29 de abril, 25 anos da morte de Gonzaguinha, em um acidente de carro no Paraná. O artista foi homenageado esta semana no Prêmio da Música Brasileira.

O melhor de sua música não esteve esquecido por um instante, graças ao impacto que produziu em que pôde ouvi-lo e também vê-lo atuar desde os anos 1970. Com a Perna no Mundo tem o vigor de um samba clássico, com sua pujante conjunção de pureza, melancolia e redenção. É como mais gosto de revivê-lo.

A ROCA DO JORNAL
“Ademais, começo também a me sentir um pouco confuso, pois desde a partida de Veneza a roca deste minha viagem já não fia livre e desembaraçada como antes”, registra Goethe em Viagem à Itália — 1786-1788. Este jornal vai como a roca do escritor alemão, embora tenha partido de BH e de BH não tenha saído. Diante do que não sabe do amanhã, é provável que suas atualizações se escasseiem.

A experiência do jornal, de puro diletantismo, iniciada em meados de abril, tem muito de improviso, de um improviso vital e necessário, ainda que, ai de mim, não seja música, qualquer música, ainda menos um Impromptu que nos faz comerciar com o tempo, como um dos de Schubert que aí vão, por Maria João Pires.

 

 

 

 

 

 

 

 

Contra o Brexit, pela Europa

No BrexitA Europa precisa superar todos os limites do projeto de unificação e corresponder aos múltiplos anseios de seus críticos.

Limites e críticas, contudo, vindas da esquerda e da direita, estão aquém da grandeza do feito civilizatório herdado por seus contemporâneos, no qual podem se incluir viajantes e observadores do mundo inteiro.

Por isso, estarei de olho no resultado do referendum desta quinta-feira no Reino Unido, o chamado Brexit (Britain exit, saída britânica), torcendo contra a pretensão separatista.

“Apesar de seus graves e óbvios defeitos, continuo a acreditar que uma Europa mais forte é indispensável não só para os cidadãos do Velho Continente, mas para todos os habitantes do planeta. E para a Europa ser forte é necessário que esteja mais integrada e cada vez mais agir de comum acordo”, diz o colunista do Estadão Moisés Aím, ex-diretor do Banco Mundial e membro da Carnegie Endowment for International Peace.

“Meu europeísmo”, prossegue Aím, “tem como base a convicção de que o mundo seria melhor se os valores europeus fossem mais predominantes do que os que prevalecem na Rússia de Vladimir Putin, na China de Xi Jinping e em muitas outras partes do mundo onde a democracia e a liberdade não são valores fundamentais”.

Eis o ponto fundamental.

Creio que ainda por muito tempo, talvez para sempre, enquanto perdurar, a União Europeia vai traduzir as ideias de concerto e concertação, de obra em progresso, não à toa um estado de arte.

Assim, a Europa pode ser entendida como o enorme, complexo e grato processo de valorização de identidades e convergências e harmonização de diferença e discrepâncias entre povos que, antes do seu advento, não haviam desfrutado os benefícios da paz duradoura e da ajuda mútua institucionalizada.

EUROPA E ESPANHA

Uma pesquisa da Fundação alemã Bertelsmann mostrou que, entre os europeus, os espanhóis estão à frente no repúdio ao Brexit, com vistosos 64%.

É ótimo que assim seja, e torço para que esta opinião majoritária também reflita um rechaço aos próprios projetos separatistas que perduram dentro da Espanha, sendo o mais ardoroso neste momento o catalão.

O fervor nacionalista que o turista atento sente no ar em Barcelona tem algo de nauseabundo, por exemplo, na onipresença da bandeira catalã ou, nos restaurantes, na imposição de cardápios em catalão ou inglês e a frequente descortesia com o cliente que ainda prefira a carta no idioma espanhol.

Esta é uma questão difícil de tratar com amigos espanhóis, e não me vejo no direito de forçar a conversa.Vote stay

Simpatizo com o a ideia de nacionalismo defendida por um filósofo conservador como Roger Scruton, grande apologista do Brexit e célebre devoto da caça à raposa.

Scruton (o historiador Tony Judt, à esquerda, em seus ensaios criticou duramente os fundamentos da UE) enaltece a solidariedade comunitária, no caso britânico, cultivada em torno da “common law”, da ideia de pertença (“aquilo que faz parte de alguma coisa”), de um “nós” contra a razão individual econômica levada às últimas consequências, até o ponto de desfigurar a humanidade e os laços entre famílias e povos preservados virtuosamente no tempo.

O separatismo de Scruton, óbvio, não é da mesma natureza do separatismo de quem alimenta a nostalgia do retorno à tribo, dos movimentos ultranacionalistas que propagam o ódio ao imigrante. A consequência dessa regressão civilizatória está em toda parte, como um perigo perpétuo.

Quando estou na linda e deliciosa Bilbao, convivo com amigos que levam a sério seu distanciamento da Espanha, e opõem suas características, desde o idioma local, trabalho e riqueza à existência das províncias menos afortunadas, com quem se veem obrigados a compartir uma parte dos impostos que pagam.

Mas tomamos um carro e em pouco mais de meia hora cruzamos as fronteiras da França, sem qualquer espécie de barreira, e lá encontramos comunidades que, como qualquer pueblo do País Basco, não se tornaram menos genuínas, onde as pessoas ainda experimentam sua própria noção de pertença. A Europa não lhes impôs o sacrifício irrealizável de se tornarem menos ricos em sua autenticidade.

Mas, quem sabe, a Europa tenha lhes proporcionado segurança e facilidades, abertas à vontade de cada um, de descortinar um mundo avançado, cosmopolita e único na Terra, constituído amplamente sob os princípios da democracia e capaz de inspirar toda a humanidade.

 

No cabaré do Machadão, só tabela

Segundo o ex-presidente da Transpetro, nos governos do PT
os costumes foram degenerados.
Romperam-se as cotas tradicionais do “custo político”

No cabaré do Machadão

As confissões da delação premiada de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, doravante Sergio Machadão, iluminaram com refletores o que só se enxergava através da baça luz vermelha.

Segue uma prosaica análise das confissões de Machadão.

Machadão ele próprio operava uma casa de tolerância dentro da mansão deste ofício encoberta na Petrobras.

Como se sabe, Paulo Roberto Costa, Jorge Zelada, Nestor Cerveró e outros graúdos representantes do PT e do PMDB na mansão tocavam suas próprias filiais. A matriz, por assim dizer, era administrada no Palácio do Planalto.

Grosz - os pilares da sociedade

George Grosz: “Os Pilares da Sociedade” (1926)

A Petrobras, declarou Machadão, é “a madame mais honesta dos cabarés” do Brasil. Pode-se entender que cobravam na mansão a tabela padrão e tradicional do chamado “custo político”.

Eis a tabela de desvios praticada na zona da República, conforme Machadão:

Governo federal – 3%
Governos estaduais – 5 a 10%
Municípios – 10 a 30%

Na era do PT, diz Machadão, houve uma revolução nos costumes. A clientela começou a exigir luxúrias nunca antes praticadas neste país, e deu exemplos de covis onde são permitidas tais exorbitâncias:

  • DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte)
  • Companhias Docas
  • Banco do Nordeste e outros bancos oficiais
  • FUNASA (Fundação Nacional de Saúde)
  • FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação)
  • DNOCS (Departamento Nacional de Obras contra a Seca)

Uma conclusão que se pode tirar da delação de Machadão, e da zona em que converteram o Brasil, é que a velha ordem da política não será desinfetada tão cedo, e vamos precisar de muitas Operação Lava-Jato.

Outra é que talvez reste ao cidadão propor ao atual presidente do Congresso Nacional regime de urgência para se aprovar uma lei que institua a CTR (Cobrança da Tabela Republicana).

Quem infringir as antigas cotas do “custo político” sujeitar-se-á aos rigores da lei.