Dilma terá tomado café da manhã?

Um jornal como a Folha de S.Paulo não pode descambar para o sensacionalismo vergonhoso e vulgar de um tabloide inglês.

Para informar seus leitores, não deveria nunca tomar emprestadas as lentes de aumento distorcidas com as quais os “blogs sujos”, tipicamente, leem dados e fatos sempre pelo mesmo e único viés.

Abri meu navegador a dois minutos atrás e me deparei com a manchete que vai abaixo no alto da capa online do jornal.

A notícia —a suspensão de um cartão de gastos com o qual se abastece o Palácio do Planalto e, portanto, garante as provisões da presidente afastada e de sua equipe— aponta para mais uma trapalhada do governo interino e deve ser destacada e criticada.

Mas um editor consciente não deveria ter disparado a manchete abusiva “Temer corta comida de Dilma no Palácio da Alvorada”, que, no campo simbólico, atribuiu ao presidente o ato arbitrário que se esperaria de um Maduro, o ainda mandatário da Venezuela, ou de um ditador africano.

O fato, em si, é insignificante.

O tropeço do governo Temer já havia sido corrigido na noite de ontem, como informa o texto do Painel, na própria Folha, que aqui também se reproduz.

Faltou à Folha equilíbrio e senso de proporção, virtudes indispensáveis a um grande jornal.

Corta comida

Corta comida2

 

 

O Ministério da Cultura e a “cultura do estupro”

É fácil prever que em breve haverá manifestações pelo fim da “cultura da morte”,
como pode pintar uma onda por um basta à “cultura do esgoto”

O massacre dos inocentes Rubens Museu de belas Artes da Bélgica

Corte de O massacre dos inocentes (1610), obra de Peter Paul Rubens

O Ministério da Cultura e a “cultura do estupro” foram apropriados pela esquerda, aqui e ali engatados num #foraTemer, além de outros movimentos sociais vitimistas.

Assim como, duas semanas atrás, muita gente descobriu que o MinC é patrimônio inestimável da nossa humanidade, “revelou-se” que a violência contra a mulher é uma pandemia brasileira. Entre paradas e marchas, foram atirar flores no prédio do STF.

O episódio da adolescente carioca de 16 anos violentada não foi o primeiro a tomar conta do noticiário. Em 2007, uma menina de 15 anos foi estuprada por 20 homens em uma cadeia do Pará, de maneira incontroversa. Naquela região, no interior amazônico, uma adolescente com apelo sexual vale menos que um quilo do bofe que se dá de comer aos cachorros.

Onde batiam, nessas e outras circunstâncias, as ondas feministas que embalaram os acontecimentos da última semana, com seus chavões sobre cantadas, fórmulas do século passado sobre vestuário e propostas de leis para censurar a baixaria do funk?

“Depois das denúncias” — diz esta reportagem do Valor de hoje —, “deram início a um debate feminista cuja repercussão tem escala rara na história recente do país. Em poucos dias, mais de 700 mil pessoas — muitas mulheres— cobriram suas fotos no Facebook com a máscara da campanha ‘Eu luto pelo fim da cultura do estupro’. O assunto chegou ao primeiro lugar entre os mais comentados do Twitter do Brasil e ao terceiro lugar no ranking mundial”.

O MinC já foi deixado de lado, relegado à sua insignificância. O fervor sobre a “cultura do estupro”, da mesma forma, em breve será escanteado.

A selvageria, desgraçadamente, seguirá seu curso.

Convivemos com o fato de mais da metade da população não ter acesso aos serviços de saneamento básico, sendo uma pena que não tenham abraçado causa do fim da “cultura do esgoto a céu aberto”, e seguiremos a conviver com as estatísticas de violência.

É impossível não se estarrecer com a violência contra a mulher. A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no país, lembra o texto do Valor. Em 2015, os registros dessa cresceram 44,74% em comparação com o ano anterior.

Mas é fácil prever que a ocorrência de uma chacina de grandes proporções destacada pelo “Fantástico” há de chamar atenção para os dados do Atlas de Violência (Ipea/FBSP), divulgado no início deste ano — que compilou 59.627 vítimas de homicídios no país em 2014 — o maior número já registrado — e causar outras ondas de comoção.

A esquerda vai reunir seus indignados para novas paradas, nas quais se pedirá a cabeça do presidente e se clamará pelo fim da “cultura da morte”.

É perverso esse oportunismo em tratar a miséria social apenas com palavras de ordem militantes que permanecerão no ar até a próxima hashtag que retrate nossa desgraça como civilização.

A abjeta coluna do deputado Marcelo Freixo esta semana teve um registro neste jornal. Reinaldo Azevedo trata exatamente disso, também na Folha. “A esta altura” — ele comenta, depois de se referir à manifestação realizada anteontem em São Paulo— “a garota cuja história motivou o protesto já era menos do que um meme da internet. Tinha se tornado apenas o pretexto para um feixe de causas”.

A expressão “tempos bárbaros” antecede o ponto final do texto de Azevedo.

Sim, bárbaros, tolos e tediosos.

Decisão contra blog crítico à Lava-Jato é censura mesmo

Censura

A notícia é do dia 30: a Justiça do Paraná ordenou que o jornalista carioca Marcelo Auler retirasse do seu blog artigos com críticas a ações da Polícia Federal na Operação Lava-Jato.

Conforme as sentenças do juiz Nei Roberto Guimarães, do 8º Juizado, e da juíza Vanessa Bassini, do 12º Juizado Especial Cívil de Curitiba, emitidas desde março, Auler foi obrigado a retirar dez textos de seu blog.

As ações contra o jornalista foram movidas pelos delegados da Polícia Federal Erika Marena e Mauricio Moscardi Grillo, integrantes da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba.

O editorial da Folha (Operação censuradesta quinta-feira, chama de censura o que efetivamente é censura, ou seja, a determinação judicial para que os posts fossem suprimidos do blog.

Vira e mexe, alguns juízes brasileiros ainda se arvoram poderes autocráticos, em desrespeito a garantias constitucionais reafirmadas reiteradamente pelo STF.

A decisão dos juízes de Curitiba logo serão derrubadas. Quanto aos delegados da PF que promoveram os processos, terão conseguido, com grande eficácia, que as críticas de Auler à sua conduta na Lava-Jato e o próprio blog do jornalista se tornassem ainda mais conhecidos do público.

Seguem-se alguns trechos, em azul, do editorial:

(…)

É direito de qualquer cidadão recorrer aos tribunais caso se sinta injuriado, caluniado ou difamado. Reparações, acordos e erratas são negociáveis; há, em último caso, as medidas previstas em lei.

A Justiça, porém, jamais deveria ordenar a retirada de circulação de textos opinativos, ainda mais quando versam sobre o comportamento de autoridades públicas.

Perverte-se a ideia de que o cidadão deva ser protegido dos abusos do poder (incluindo-se aqui o poder da imprensa) para fazer de um órgão judicial um mecanismo de auxílio aos poderes que porventura abusem do cidadão.

Tudo se torna mais escandaloso, no caso Auler, quando o Judiciário determina, ademais, que o jornalista se abstenha de publicar textos “com conteúdo capaz de ser interpretado como ofensivo” a um dos delegados da Lava Jato.

Não apenas censura, portanto, mas também censura prévia.

É espantoso que, depois de quase 30 anos de vigência de um regime constitucional democrático, magistrados ainda lidem mal com um princípio tão claro e inegociável nas sociedades civilizadas.

Nesse episódio específico, a disposição autoritária sem dúvida se camufla em meio ao ânimo messiânico e justiceiro que se cria em torno das necessárias —e sempre louvadas— ações contra a corrupção.

Nada seria melhor para as autoridades da Lava Jato, todavia, do que se mostrar imune a críticas —e não procurar silenciá-las, como se delas tivessem efetivo receio.