Ju #43

Desde o Belo. 16 a 22/10/2020. Nº 43. Ano 2

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo? Não? Faz muito calor? Que tal uma tubaína geladinha? Nem pensar? Quem sabe então uma limonada cor de rosa?

Para entrar no clima, toco a abertura de Twin Peaks, logo me explico. Troco todos os métodos de meditação profunda pela música de Angelo Badalamenti.

As modulações de acordes ferem a alma (ou as células cinzentas do sistema límbico, se a leitora insiste) feito o esmeril que afia os dentes da serra na sequência de imagens.

O cenário é o interior de uma serraria industrial à margem de um rio, núcleo de tramas e tragédias de Twin Peaks. As locações da cidade ficcional foram tomadas no belo Snoqualmie Valley, estado de Washington, no úmido noroeste dos EUA.

A névoa da cascata refresca a imaginação. As águas densas e escuras do rio trazem embrulhado em plástico transparente o corpo seviciado da jovem e linda e loura Laura Palmer. Mas isso já é história das telesséries que deixam saudade.

David Lynch é uma cineasta com Kafka, Buñuel e Hitchcock no genoma, além de uns alelos de Groucho Marx. Suas narrativas perseguem o mistério em uma busca sensual e poética da beleza, e exploram a fronteira eternamente conflagrada entre o inferno e o paraíso, entre a lágrima e o riso.

Suspensão do ordinário — Um dos segredos de Twin Peaks é o contraste entre velocidade e máxima desaceleração, escrevi num artigo sobre a terceira temporada da série, lançada em 2017. Reproduzo um trecho:

O diretor acelera ou retarda o tempo em cenas que nos põem em defasagem com o real. Aqui e ali, quando não causa espanto ou gargalhada, com seu senso de humor para lá de ímpar, logra um desconcertante efeito poético.

Como escreve Enric Ros no site espanhol Jot Dow, nesses momentos vivemos “uma experiência quase orgânica, um prazer imersivo que suspende por um instante o sentido do mundo ordinário”. O escritor e professor da Escola de Cinema de Barcelona cita o filósofo esloveno Slavoj Žižek, sobre o instante em que entramos no “buraco negro” da narrativa e nos “desgarramos sem medo do tecido da realidade”.

Eu e a brisa — Recorri a Lynch e Twin Peaks para desgarrar esta Jurupoca, que nem sempre desliza como a brisa. Nem sempre alui bem, com diria um saudoso primo. Esta, enfim, saiu mais curta, para gáudio do leitor entediado.

A crítica cultural, razão de ser desta carta, como praticada aqui, não raramente tange limites que convidam ao silêncio. Dessa paralisia não se muda de fase, como na catatonia, mas, simplesmente, com a frágil esperança de se poder voltar a carregar a mesma pedra morro acima, do mesmo jeito, mais uma vez, e então vencer, uma vez mais, a sedução do silêncio.


O “PACTO DIABÓLICO”
ENTRE EMBUSTEIROS E ENGANADOS

Ilusões facilitam a vida. A religião, a política, a ética estão entre os campos mais férteis onde os ídolos nascem, se alimentam e prosperam. Esse é o sentido essencial da ideologia. E essa demanda por “ilusões edificantes” não escapa à atenção dos embusteiros.

Em Las epidemias políticas (Ediciones Godot), livro citado na semana passada, Peter Sloterdijk chama de diabólico o pacto “meio consciente, meio inconsciente entre os mentirosos e os enganados”.

As “ilusões edificantes” imperam onde a “vontade de acreditar” (Sloterdijk citando William James) se encontra com a “propaganda”. O doutrinamento, as campanhas de ódio, o negacionismo conhecem bem o endereço de seus fiéis.

Falando do crescimento do antissemitismo na Europa depois de 1914, em As origens do totalitarismo, Hannah Arendt aponta a oportunidade histórica que se abria para os “charlatães e loucos naquela estranha mistura de meias verdades e fantástica superstições que emergiu” no continente. O antissemitismo tornou-se, então, diz Arendt, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos”.

Em nossa quadra, neste século, depois da destruição provocada na economia pelo “capitalismo de vigilância”, ou a progressiva uberização de tudo, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos” transparece na gritaria, nas mentiras por atacado acatadas nas pantanosas “guerras de narrativas” que movem as pessoas sedentas por impor suas crenças e anular, ou cancelar, seus oponentes.

Mas agora são muitas as vertentes, ou oportunidades para celebração do pacto diabólico de que fala Sloterdijk. Os “novos aiatolás” (ver artigo de José Luis Pardo, no P.S.) se disseminaram no caldo cultural e ideológico. Em um mundo pulverizado pelo artifício digital, são muitas as moradoras dos falsificadores.

Entre uma tuitada e outra, um requerimento e outro com centenas ou milhares de assinaturas despachados no meio acadêmico, entre uma instituição democrática corrompida aqui e ali, eles tentam impor suas novas ordens à democracia, à ciência, às questões de gênero e raça e ao próprio ser humano.

Chega a parecer que o humanismo deu tudo que podia dar. Daqui pra frente, só com a reengenharia genética e a inteligência artificial.

ENQUANTO “NOSSO KASSIO”
 NÃO SAI DA MOITA, ANDRÉ DO RAP
 SAI DE CANA E ENTRA EM CENA

Enquanto “Nosso Kassio”, com seu currículo numinoso, não pega a toga nem sai da moita, o país resenha a soltura do chefe do PCC André de Oliveira Macedo, o André do Rap, por nosso ministro maneirista, Marco Aurélio de Mello, a quem apraz assumir ares de seu xará imperador. Como foi dito e redito pelos comentaristas, o habeas corpus de Mello, baseado na nova regulação da prisão preventiva, não sai para qualquer mequetrefe. Não atinge, aos milhares, quem vive espremido em cárceres cujo conforto lembra a hotelaria dos navios negreiros.  

A IDEOLOGIA MILICIANA
ENCONTRA O PLANALTO-CENTRÃO

Segundo a taxonomia de Conrado Hübner Mendes, “na biologia do Planalto, centrão é um animal invertebrado que parasita o interesse público e o desfigura”. Já o Planalto-Centrão se estende muito além do Planalto Central e da Sede, aquela Velha Rameira Niemeyriana, excelentíssima senhora. O Planalto-Centrão é o país da acomodação, do mudar o que for preciso para deixar tudo como está. Orgulhosamente abarca o Rio de Janeiro retratado em A república das milícias – do esquadrões da morte à era Bolsonaro, do jornalista Bruno Paes Manso, que leio para comentar semana que vem. Mas posso adiantar, pelo que já li, que a história da formação das milícias e seu sucesso é um capítulo muito esclarecedor sobre a chegada de !Caveirão.105mm! ao poder, além do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

INTERVALO MUSICAL


Com Dori Caymmi em Coisa do mundo, minha nega, de Paulinho da Viola, no CD Contemporâneos (HoriPro, 2002). Esse samba apareceu na última faixa-lado A do LP da Odeon Paulinho da Viola, de 1968. Entre suas boas versões estão as de Nara Leão e Alaíde Costa.

Chamam o Vate da Viola de príncipe do samba. Para mim, ele é, antes, nosso maior filósofo do samba. Várias de suas letras revelam um olhar sereno e inquiridor respeito a vida, numa busca conduzida pela linguagem da música e do samba, cuja arte domina como mestre.

Já na obra de Dori, que é grande e esplêndida, Contemporâneos é meu álbum mais estelar. Sua audição inspira uma hora de júbilo e sossego, escrevi alhures. Devo rodá-lo ao menos uma vez por mês, lá se vão quase duas décadas. Os arranjos das 12 faixas são de Dori e destacam seu violão autoral. Em timbres e harmonias se reconhece toda uma progênie da fina flor da MPB, como numa fita de DNA. Caetano, Chico, os irmãos Danilo e Nana, Edu Lobo e Renato Braz são convidados. Coisa do mundo, minha nega, a faixa inicial, impõe a ideia geral do disco no nível do sublime. É minha versão favorita do samba, que valoriza, enaltece e honra a composição. Segue-se, em Contemporâneos, uma seleção incrivelmente bela que traz Chico (“Januária”), Caetano (“Sampa”), Milton e Brant (“Ponta de Areia”) e Chico e Edu Lobo (“Choro Bandido”).

Quando perdi minha primeira cópia, enviada pela gravadora para o caderno de cultura no qual lidava, varejei como se podia na época a internet até encontrar uma última unidade disponível em uma loja de Seattle.

Sobre essa faixa, Dori fala, modestamente, no encarte: “Cantar não é meu forte, muito menos samba, mas eu nasci no Andaraí e passei minha infância em São Cristóvão e Madureira. A música de Paulinho tem o sabor divino do subúrbio”. Gravado no Rio de Janeiro e em North Hollywood, Califórnia, em Coisa do mundo, minha nega estão Michael Shapiro na bateria e Jerry Watts no baixo; Dori faz violão e guitarra e Paulinho da Costa, percussão.

A letra narra uma odisseia no subúrbio carioca. O poeta, como um Orfeu tangido pela musa, conta para a amada, como um cronistas, suas aventuras; de violão em punho,  ele se deixou levar no fluxo da tarde, no compasso da vida, vendo as “coisas que estão no mundo”, coisas que ele, poeta, “precisa aprender”, e nós também.

COISAS DO MUNDO,MINHA NEGA
Paulinho da Viola

Hoje eu vim, minha nega,
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso

Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome
Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome

Venho do samba há tempo, nega,
Vim parando por aí
Primeiro achei Zé Fuleiro
Que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se eu não dispunha
De algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou do seu azar

Hoje eu vim, minha nega,
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços
Um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor

Depois encontrei Seu Bento, nega,
Que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada
Sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso
Que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada
E não beber mais cachaça
Ela fez até promessa
Pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele
Que sorriu e adormeceu

Hoje eu vim, minha nega,
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço

Por fim eu achei um corpo, nega,
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro
A causa da discussão
Foi apenas um pandeiro que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, vim m’embora
Ninguém compreenderia
Um samba naquela hora

Hoje eu vim, minha nega,
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo
A forma de se viver
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender

ABIN DESBARATA
“CONSPIRAÇÃO DA HEMORROIDA”
EM MADRI

Capítulo 1: Na reunião ministerial de 22 de Abril, logo depois das majestosas celebrações do Dia do Índio!, na sua  peculiar etiqueta militar e de maneira cifrada, !Caveirão.105mm! aludira a graves ameaças que rondavam a Hemorroida (sic) Presidencial. Ele acusava diretamente o ex-ministro Moro por fazer corpo mole com aquela vozinha de moça (ou de pato, como se queira) e não lhe relatar informações estratégicas sobre a proctológica trama diagnosticada.

Capítulo 2: A “Conspiração da Hemorroida”, como ficou conhecida entre cientistas políticos, viajou do terreno fisiológico para a estratosfera climático-ambiental. É sintomático, por exemplo, que qualquer referência à Amazônia como “patrimônio da humanidade” provoque dores lancinantes nos fundilhos de Sua Excrescência e do generalato que o assessora patrioticamente, ao mesmo tempo.

Capítulo 3: Foi noticiado na imprensa patriota do Itamaraty, neste ínterim, que cientistas comunistas globalistas mentiam e mentem sobre o fim do mundo e, ao mesmo tempo, que ecologistas comunistas se camuflam na densa vegetação amazônica, onde tramam para abiscoitar nossas riquezas, tais como nióbio, petróleo e ouro, muito ouro!

Capítulo 4: Esta semana, como para provar de vez por todas que há método na loucura, o Estadão revelou que o governo enviou quatro espiões da Abin à Conferência do Clima das Nações Unidas, realizada em Madri dezembro passado. As despesas e a boa vida que essas missões facilitam, diga-se de passagem, correram por conta do contribuinte.

Capítulo 5: Mas, o que isso? Não seja leviano, redator, tenha bondade! Os arapongas da Abin, afinal, trabalharam diligentemente na capital espanhola. Nem puderam se divertir nas boates, nos bares de tapas, ou fazer um visitinha ao Prado e admirar seu esplêndido acervo de arte comunista. Obraram bem! Por meio da coleta clandestina de áudios e acesso a documentos secretos e cabeludos, reuniram uma pá de informações estratégicas. A nação e o mundo tomaram ciência de tais informações privilegiadas no recente pronunciamento do Caveirão na Assembleia virtual da ONU. Foi revelado ingentemente ao povo, por exemplo, que são os índios e os caboclos que desmatam e tocam foto na floresta. Grileiros, garimpeiros, agricultores, toda essa gente fina, não tem nada a ver com a jurupoca, ou melhor, com o pirarucu.  

Capítulo final, epílogo ou Zé-fi-ni: Por fim, a nação aflita podia, assim, respirar em paz, ao conhecer, de forma cristalina e cabal, de onde partiam aquelas ameaças contra as veias varicosas do ânus presidencial.

“DESMATADOR DE ALUGUEL”?
 ESSA NÃO MINISTRO!

Ricardinho Salles, o seu ministro preferido da Terra Arrasada, caro leitor, é delirante, inepto e pau mandado, na lapidar adjetivação de Míriam Leitão. Pau mandato vai por minha conta, como paráfrase. “Ele tem parte da responsabilidade na devastação das florestas”, falou e disse a colunista, entre as jornalistas mais admiráveis do país. “Salles é o desmatador de aluguel, o mandante é o presidente Jair Bolsonaro.”

ROSA DOS VENTOS

♪ […] “E na gente deu o hábito/ De caminhar pelas trevas/ De murmurar entre as pregas/ De tirar leite das pedras/ De ver o tempo correr” […]♪

«Carta a um colega de Edimburgo. O escritor espanhol José Luis Pardo, em grande estilo, ataca os “novos aitolás” da universidade escocesa que retiraram uma honraria do filósofo David Hume. Num julgamento anacrônico, típico de uma época de derrubadores de estátuas, Hume foi acusado de ter feito “comentários racistas”, há quase 250 anos!»

«Com médicos e helicóptero de plantão, é fácil Trump posar de John Wayne. Por Drauzio Varella, na Folha

«Quem vai salvar o jornalismo? Flavia Lima, Onbudsman da Folha, comenta o acordo de um bilhão de dólares da Google com os jornais.»

«Bashevis Singer: “Nenhum avanço tecnológico é capaz de mitigar a desilusão do homem moderno”. O El País rememora o discurso do escritor de Singer ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, por ocasião da publicação, em espanhol, de um conto inédito do autor, El huésped (Nórdica Libros), sobre sobreviventes do Holocausto que emigraram e fundaram o bairro nova-iorquino de Williamsburg.»

«Live pela arte — Roberto Menescal — Para Meus Músicos. Na terça-feira (13) de manhã, quatro dias após a exibição ao vivo, havia menos de 2.000 visualizações dessa live no YouTube. Roberto Menescal, um pilar da MPB, seja como violonista e compositor — e suas convidadas, entre elas artistas da dimensão de Joyce Moreno ou Leila Pinheiro — não tem muito engajamento nas redes sociais, sem o que o artista não existe atualmente. Mas Menesca, como é chamado pelos chegados, um octogenário, não precisa mais disso.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

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Ju #41

Belo. 2 a 8/10/2020. Nº 41. Ano 2

Quando ao meio-dia se está um pouco cansado, isso faz parte do curso natural e feliz do dia. “Para estes senhores, aqui é sempre meio-dia”, disse K. para si mesmo.

Essa balbúrdia de vozes nos quartos tinha algo de extremamente alegre. Soava ora como os gritos de júbilo de crianças que se preparam para uma excursão, ora como o alvorecer num galinheiro, como a euforia de estar em plena harmonia com o dia que raiava, em alguma parte um senhor até imitou o canto de um galo.
Franz Kafka, trechos de O castelo, tradução Modesto Carone, Companhia das Letras.

“Alguns livros funcionam como uma chave para as salas desconhecidas do nosso próprio castelo”.
Anotação de Kafka citada no posfácio de Modesto Carone.

Opa! Vamos apear?  

A leitura de Kafka é intrigante de cabo a rabo. Obscuras  dobras do mundo que mal intuímos parecem receber um pouco da luz solar, ainda que as cenas noturnas de seus romances, (mal) iluminadas por velas, lampiões a querosene e débeis luzes elétricas, sejam, tantas vezes, as mais reveladoras, ou mais aparentemente reveladoras. Não é por nada ele é chamado de “o poeta de Praga” por seu tradutor.

Que personagem fascinante é este escritor, morto a um mês de completar 41 anos. Como sua obra é universal. E quantos ensaios, contos, relatos biográficos e comentários de toda sorte esse fascínio produziu?, para não falar dos diagnósticos psiquiátricos e das tentativas filosóficas e psicanalíticas de decifrar seu universo. Modesto Carone aponta a fortuna crítica do ficcionista no longínquo 1980, quando ultrapassava os dez mil títulos, “entre livros e artigos de porte”. O que permanece irredutível é a relação entre o leitor e a obra.

Tenho me valido dela, da obra kafkiana, nesses dias, para me remediar, ou melhor, refugiar da babel, da permanente orgia da frivolidade (sei das implicações e do rechaço que esta minha expressão pode sofrer, e não me sinto nada desconfortável por saber disso) e da destruição da dignidade do pensamento, no dizer de Hannah Arendt, apesar de a primavera ter entrado em inumano modo micro-ondas, o que pode derreter o gelo e a neve dos píncaros kafkianos, além de nossos miolos.

A ficção de Kafka pode nos ajudar a compreender e aceitar a realidade, mas ela nada tem de anestésica. Não nos livra do choque contra a estupidez, a indiferença ou o poder degenerado. Faz bem o contrário disso.

Vivemos a ilusão de que entendemos tudo, e de que tudo está ao alcance do nosso saber, nada mais temos a aprender, inclusive e sobretudo para educar os sentidos e, sim, valorar a beleza.

Atomizados ou tribalizados, deixamos nos encobrir pela névoa do presente e pela capa da superficialidade. O autor de A metamorfose, também por isso, nos vale por uma pedagogia literária e humanística.

Sinto que a maré do Corona, com seu, muito por baixo, um milhão de mortos empilhados, e todo o repertório da distopia em pauta, da emergência climática à derrota da razão, nada disso vai quebrar o verdadeiro isolamento social em que nos metemos.

Contra todas as evidência e apesar dos pesares, nunca fomos tão confiantes, sob as bênçãos da ciência e da “destruição criativa” — expressão do economista Joseph Schumpeter derivada daquele “tudo que é sólido desmancha no ar”, quase-slogan do Manifesto comunista) — do Vale do Silício, que é verdadeiramente destrutiva e criativa apenas segundo suas próprias finalidades.

Mas vai que tenha sido sempre assim, que sejamos os mesmos conforme alguma essência, apenas a história muda, como mudam as condições de sobrevivência. Como indivíduos, de um jeito ou de outro, sempre vai nos assombrar algum processo, a despeito de nossa pretensa inocência, a ambição de acessar algum castelo impenetrável (outro mundo, outra vida, melhor que a que temos?), e algum medo de acordar, depois de sonhos intranquilos, metamorfoseados em terríveis insetos.

Franz Kafka, 1906. Foto: domínio público

Encobrir os engasgos
É preciso “rebuçar [esconder] as rebordosas com um pouco de pândega”, escreveu Manoel Lobato. A frase salta de uma página do livro que reabro, seu Cartas na mesa – memórias (Imprensa Oficial, 2002), com autógrafo gentilíssimo e galhofeiro do autor, em linda caligrafia. Lobato se foi em julho, aos 94 anos, pelas graças do pândego Corona. Mas a frase lobatina me recorda Os Lusíadas, via Pedro Nava, sobre os navegantes exangues, alquebrados, que enfim podiam refocilar [revigorar, restaurar as forças] a lassa [exaurida, esgotada] humanidade nos portos. Os prostíbulos (fuck clubs em português corrente) estavam lá para acolher e oferecer aos nossos descobridores esse antigo e indispensável serviço humanitário.

O autógrafo galhofeiro do Manoel Lobato

Nunca mais
O corrosivo Zachariah Webb, editor da revista norte-americana The Baffler, semanalmente traz deliciosas novidades, que despacha da “linha de frente da aborrecida distopia”. Sobre a revelação que os corvos possuem alta inteligência e até algo assemelhado a uma autoconsciência, ele comenta: “Bem-vindo, corvídeos, ao inferno”. Mas, claro, Edgar Allan Poe precede, e muito, a ornitologia: “Atônito fiquei por um momento/ Ao compreender que o Corvo compreendia […] Se sois humanos, ó triste solitário!/ Dizei-me em vosso atroz vocabulário, / A verdade de tudo que grasnais!//  Mas Ele, altivo e sacudindo as plumas,/ Olha das noite as relegadas brumas/ E responde impassível: nunca mais.” [Tradução de Benedito Lopes em O corvo e suas traduções, organização Ivo Barroso, Lacerda Editores, 1988.]

A ecologia musical
CDs, que são feitos de policarbonatos (polímeros termoplásticos) fazem menos mal ao planeta que os discos de vinil (hidrocarbonetos). Mas ambos levam um banho em toxicidade do streaming e do download, que a muitos podem parecer uma tecnologia moderna e sustentável. ♪ Ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são… ♪ Em 2016, a nova indústria da música produziu 194 mil toneladas de gases de efeito estufa, cerca de 40 milhões a mais que todas as emissões somadas dos meios de difusão existentes em 2000. Os dados estão no livro Decomposed: The Political Ecology of Music (decomposto: a ecologia política da música), de Kyle Devine, resenhado por Alex Ross na revista The New York. E a emissão de gases é apenas o começo da história. A produção de componentes para smartphones e a mineração do cobalto, usado em baterias, são associadas à exploração de trabalho escravo, infantil e à opressão de minorias étnicas. Investidores seguem a injetar dinheiro no Spotify, apesar dos contínuos prejuízos da gigante, interessados no potencial dos dados gerados por seus usuários, que são monitorados a cada toque. A música, hoje, é outra plataforma da chamada por vozes dissonantes de “vigilância em massa”, mais um tentáculo do Big Data.

Dígitos da música digital
A grande cantora brasileira Luciana Souza, que vive nos EUA, revelou recentemente ao jornalista e crítico Carlos Calado que pela média mensal de 50 mil “streams” (ou a audição de uma música por mais de 30 segundos), obtida pelos seus discos no Spotify, ela faturava 38 dólares, ou uma garrafa de vinho. Alex Ross cita Daniel Ed, CEO do Spotify, para quem o músico de hoje, para ganhar a vida, precisa do contínuo e crescente engajamento dos fãs. A atividade criativa no violão ou no piano se mistura à labuta publicitária no Instagram. Qualquer novo Tom Jobim não será nada sem os talentos acessórios de Anittas e Ludmillas para a autopromoção. Não por acaso, os hits da música pop já são bolados por inteligência artificial. Vejo grandes músicos, de longas e respeitadas carreiras, com míseras e constrangedoras audiência no YouTube e Spotify. Como jurupoco autoexilado das redes — Helahoho! helahoho! — sou plenamente solidário com essa turma. Minha expedita lista A rádio Siutônio apresenta: 1.000 canções brasileiras, que por sinal anda por 1.024 músicas e já me toma uns cinco anos de labuta e aprimoramento, tem 16 seguidores! Fiz as contas e conclui que em mais uns 350 anos atingirei o benchmark de um assinante por canção, ou estarei perto disso. Aí, sim, mamãe, farei um bruto sucesso em Quixeramobim.

A estreia de Pátria
O primeiro capítulo de Pátria, seriado em oito episódios lançado no último domingo pela HBO, me fez pensar nos limites da fidelidade de um roteiro adaptado. Comentei o ótimo e extenso romance de Fernando Aramburu na Jurupoca #8, transposto por Aitor Gabilondo para o teledrama. Me senti em casa, demasiadamente em casa, creio. As personagens das mães protagonistas, Bittori (Elena Irureta) e Miren (Ane Gabarain) são bem fidedignas. Fidedigna também é a alternância temporal entre o presente — quando o ETA anunciava um adeus às armas — e os recorrentes recortes do passado, janelas abertas para as sequelas da violência e da desagregação sofridas por duas famílias amigas separadas e marcadas pelo terror, quando se veem em lados opostos. A chuva constante também está lá, como os dias cinzentos, como o pequeno mundo fechado da província vizinha a San Sebastián. E lá está o sangue de Txato, derramado no asfalto por seu assassino e lavado na enxurrada. Mas toda essa fidelidade esbarra no mais difícil, primeiro no ritmo — ao acelerar para encurtar, o que tira profundidade, perspectiva; depois em atuações muito contidas, o que tira brilho e emoção — e tem a ver com uma direção tímida ou pouco ousada; e, para o leitor do livro, por isso mais exigente, esbarra ainda na luz, que não é, sinto muito, suficientemente filtrada nas gradação do cinza-escuro, o que fere a imaginação do espectador, e devemos cobrar isso ao fotógrafo.


Com Chico Buarque em Nina, minha canção favorita de seu álbum de 2011 pela Biscoito Fino, embora Sinhá, em parceria com João Bosco, não me encante menos nesse CD. Nina é uma valsa de lírica essencialmente buarquiana, na delicadeza e na imaginação da figura feminina. Aqui, ele decanta melancolicamente uma jovem de Moscou cuja casa pode bem ser vista em detalhes na tela (pelo Google Street View?).

A letra, que pode não ser poesia, mas é quase-poesia, certamente literatura, quem sabe outro gênero, com sugeriram poetas e letristas espanhóis reunidos pelo Babelia do El País. Só os muito empedernidos fazem questão de não notar que Chico jamais foi abandonado pelas musas, como compositor, o que fica claro, claríssimo, diante de seu verso sempre rigoroso, como em “Nina diz que fez meu mapa/ E no céu o meu destino rapta/ O seu” (vejam que astrologia e alusões mitológicas se misturam aí) ou “Nina anseia por me conhecer em breve/ Me levar para a noite de Moscou/ Sempre que esta valsa toca/ Fecho os olhos, bebo alguma vodca/ E vou”.

O arranjo de Luiz Claudio Ramos é enxuto e exato, na medida para conferir a atmosfera em tom menor que a canção demanda, e que a realiza plenamente. Ramos e o próprio Buarque fazem os violões, Jorge Helder está no baixo, João Rebouças no piano e Hugo Pilger no violoncelo; o acordeão é de Marcos Nimrichter.

Nina — Chico Buarque
 
Nina diz que tem a pele cor de neve
E dois olhos negros como o breu
Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou
Que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
 
Nina adora viajar, mas não se atreve
Num país distante como o meu
Nina diz que fez meu mapa
E no céu o meu destino rapta
O seu
 
Nina diz que se quiser eu posso ver na tela
A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve
 
Nina anseia por me conhecer em breve
Me levar para a noite de Moscou
Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou

O vírus alegre, cartoon da The Spectator

Rir pra não chorar
Fascinante, diria mister Spock. Pensar que cerca de meio Brasil e meio EUA orgulhosamente se deixam embromar pela fabricação mentirosa do discurso político dos presidentes ¡Caveirão.105 mm! [105 mm, caro leitor, é o calibre de uma bala de canhão, ao qual Caveirão — por sinal também aquele carro brindado da polícia com licença para matar nas favelas — acaba de ser promovido pela Ju] e Agente Laranja (apud Spike Lee). Enquanto o primeiro falsifica a ciência e toda a realidade, o segundo se concentra, no momento, em atacar o principal fundamento da democracia, o voto. Rimos, claro, do terraplanismo e das mirabolantes teorias da conspiração, fazer o quê?, chorar é que não vamos, pois nunca choramos pelo mundo, choramos por nós. Tudo isso é mais um ingrediente da distopia que as horas nos reservaram, mas que é dose é. A longo prazo, os historiadores vão escavar as causações e o curso subterrâneo dos acontecimentos, e a longo prazo estaremos todos mortos.

facaumadoacao8-

Neva na Rioja, março de 2015. Foto: Antônio Siúves
Grogotó

Daqui a pouco virão o sol, as uvas e o vinho.
Nem é preciso crer nisso.
Nem é preciso crer na sede e na alegria.
Não é preciso crer.
Exceto se a dúvida te divide.
Aí grogotó: pobre de ti,
Quando precisas crer,
Quando queres crer,
Já não podes,
Não podes descrer.
Poema de Antônio Siúves

JURUPOCA?

Com afinco e aprumo e afeto, Jurupoca dedica-se, como pode, ao jornalismo cultural e às ideias, a selecionar e comentar conteúdos possivelmente relevantes pra você. É mais ou menos o que se entende hoje, veja você, por “curadoria”.

A Ju tem por imperativo a defesa da liberdade de expressão e do jornalismo profissional — contra as notícias fraudulentas, a dependência viciosa das redes sociais e o cárcere do extremismo ideológico.

Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

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Muito obrigado!


O autor?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Ju #40

Belo. 25 a 30/09/2020. Nº 40, Ano 2


Opa! Vamos apear?

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.

Minha Ju foi tomar um banho de mar. Submersa ela respira melhor. Não deu para mandar a carta de lá, de Itaúnas, Dunas de Itaúnas. E assim a escapada virou uma semana sabática, para se repensar, e aliás nada concluir além da inelutável modalidade do visível.

Um filhote de baleia e um tatu deram na praia de areia dourada contra as dunas brancas, acossados por lindos urubus. Buliam com as bainhas jobinianas de meus neurônios. Sim, viajei ao Urubu, fabuloso LP de 1976, e a O boto, a canção que abre esse álbum, “um baião praieiro com referências a pássaros, como papagaio, jandaia, inhambu, além do urubu e do jereba que, porque importante”, dizia Tom, “ganhou muitos nomes: peba, urubutinga, urubu-ministro, urubu-de-cabeça-vermelha, urubu-gameleira”. O tatu deu na praia por desorientação, bebeu água salgada e morreu, coitado, nos explicou Pedrolina, dona do mais longevo e melhor restaurante de Dunas. Eu cantarolava na baixa-mar:

“O corpo de um bicho deu na praia
E a alma perdida quer voltar
Caranguejo conversa com arraia
Marcando a viagem pelo ar

Ainda ontem vim de lá do Pilar
Ainda ontem vim de lá do Pilar
Já tô com vontade de ir por aí”

Para quem não sabe, Ainda ontem vim de lá do Pillar, estribilho de O boto, é uma citação de Jararaca, que fez dupla sertaneja com Ratinho, a quem Jobim deu parceria.

Vertigens, vertigens, vertigens… O brilho de cacos dos ontens, os meninos, filhos, a se queimar na vida plena aos nossos olhos cantantes, lá atrás. Mas tal quimera da memória logo se esfuma, como a brancura da espuma que desmancha na areia… (Cantarolo Risque, o samba-canção de Ary Barroso). Brilhavam cacos de livros, que também dão na praia, durante a caminhada até o Riacho Doce, à Bahia logo ali, quase outro mundo.

Multitudinous seas incarnadine o oceano oco e regougo a proa abrindo um sulco a popa um sulco como uma lavra de lazúli…. Redizia, com um horizonte quase azul-marinho, e os pés cheio de doídas bolhas, a prosa poética de Haroldo de Campos num episódio das Galáxias, uma celebração do mar-livro, ele diz, o Haroldo, sobre a menção a Shakespeare (Macbeth, II, cena II), referência ao mar multitudinoso, que de verde se transmuda em vermelho-sangue [Making the green one red], segue o poeta Campos, em sua eleição desse verso, depois de Ezra Pound e Borges. Minha página intergaláctica favorita termina com a palavra grega polüphloisbos, polissonoro, extraída de de Homero (Ilíada, I, 34), ao bater das ondas na praia.

O marsoando também me traz de volta o Stephen Dedalus a meditar na praia, no episódio inicial do Ulisses (J. Joyce).

Rezo em voz alta, com a privacidade assegurada pelo vento, algo daquele trecho (tradução Caetano W. Galindo)… Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso se não mais, pensada por meus olhos. Assinaturas de todas as coisas que estou aqui para ler, ovamarinha e algamarinha, a maré entrando, aquela bota enferrujada. Verderranho, pratazul, ferrugem: signos coloridos. Limites do diáfano.

Se bem que retenho na reza mais da tradução do Houaiss, por ter vindo antes, pela primazia daquela capa verde-escura do pesado tomo (Victor Civita Editor, licenciado pela Civilização Brasileira) erguido por bíceps magros aos vinte e poucos anos, refestelados na cama de um quarto pobre do Arcangelo Maletta, cá no Belo: Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissémen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verde-muco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano.

Em Dunas, o enorme tronco seco um pequi-vinagreiro exposto na praça é o dúbio monumento da vila. É cercado por uma corda grossa, como um fóssil, diante da igrejinha de São Sebastião, cujas missas ao ar livre (cada fiel com sua cadeira) na pandemia ouvimos de um bar.

Pois o pequi-vinagreiro, ou pequiá, grita contra a devastação da Mata Atlântica, contra o cerco sem-fim dos eucaliptos, contra a demanda inesgotável por polpa de celulose; haja papelão, haja papel higiênico, haja…

Entre um peixe na Dona Pedrolina e outro no Cizinho, passeia-se deliciosamente pela vila de Itaúnas e redondezas. Ouvem-se os sabiás, o vento, ouvem-se as cores, os cajueiros-anões retorcidos na restinga nos fundos da casa fantasmal do Tamandaré, na variante da Trilha do Tamandaré. Seu Tamandaré foi um sitiante da antiga vila, há décadas sepultada pelas gloriosas dunas. Quase nada resta da construção, além das cascas encardidas.

Vozes da vila. Cacos-rebrilhos, matéria e memória do plácido rio quase negro, da pobreza, da gente endinheirada, e não posso me esquecer do delicioso Bar Rio, onde décadas atrás podíamos tomar um nightcap e escutar boa música.

Hoje, a gente bandeirante e a escumalha política forcejam por asfaltar, podar, cimentar, gentrificar. Que tal uma vila boutique? Que tal a gourmetização de Dunas com pousadas assépticas, barracas de praia assépticas de metal, padronizadas, só o sempiterno esgoto a lembrar quem somos? Só o esgoto a correr sob a nacionalidade onde estejamos no Bananão (apud Ivan Lessa).


Depois de se repensar e repensar sua relação com o leitor nas águas sabáticas do mar de Dunas, a Jurupoca embrenha-se em nova picada, a partir deste número. As cartas passam a ser publicadas aqui, no antonio.siuves.com, no blog Livro de Viagem.

A TinyLetter seguirá, por enquanto, como uma newsletter propriamente, um resumo da Ju


Viagem ao redor do meu quarto — Senhor, tende piedade dos que não se dão ao prazer da leitura, dos grandes livros, tende piedade dos meninos novos e velhos cuja atenção foi irremediavelmente perdida para o império das redes sociais… Como pode um livro lançado em 1795 ainda cintilar aos olhos de um leitor, agorinha, à sombra de uma palmeira alvoroçada, e rebrotar uma satisfação quase adolescente com o mundo que só se alcança pelo ato de ler? Como pode um texto de quase 250 anos conservar o “o frescor e a agilidade” (no dizer de Enrique Vila-Matas no posfácio), e muito mais, eu digo, conservar o humor, a ironia, a inteligência e a alegria (e reflexões sobre o problema) de viver? A resposta está disponível no “livrinho” (80 páginas) de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto, na esplêndida nova tradução da editora 34.

BH-Dunas de Itaúnas — Viajar de carro ao litoral do Espírito Santo é um travelling por nossas misérias, uma espécie de versão adaptada de Bye Bye Brasil. Encostas desmatadas, fumaça, matas esturricadas, cidades decadentes, estradas porcaria, as mineiras principalmente, decadência por toda parte, até nas paradas antes limpas e funcionais do café e do pão com linguiça. E isso não é nada. O viandante, ainda por cima, é obrigado a atravessar Manhuaçu! A incultura, o mau gosto, o atraso, a corrupção, a mais completa ausência do mais rudimentar urbanismo e a suprema desigualdade juntaram forças para erguer esta catástrofe, este manifesto terrificante da feiura. Que o leitor orgulhoso de lá viver ou ter nascido não me deseje mal pela sinceridade, tende piedade de um jurupoco. O campo santo, notei desta vez, é a construção mais razoável do burgo. Lá, onde paira alguma harmonia, olhos certamente esgotados e calejados pela paisagem, pela “skyline”, pela barranqueira, pelo indecifrável aglomerado de prédios de tijolos nus pendurados nos taludes, quem sabe, uns olhos assim estropiados possam descansar em paz, quando entregues aos vermes. Mas duvido.

O edital da Vale — Quando o minério esgotar, a mina S11D, a maior do mundo, na Floresta Nacional de Carajás, PA, deixará um buraco de 9,5 km de extensão por 1,5 km de largura e 300m de profundidade. Minas e Pará orgulhosamente se desfiguram pelas commodities. Minas e Pará que são, como se sabe, a prova viva — no sentido terraplanista de !Caveirão.45! — que a mineração traz avanços sociais, o progresso, a maravilha… “Cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê”, diz Drummond no primeiro Verso de Itabira (Alguma poesia). Era o marco da ruína. Bento Rodrigues, em Mariana, e Brumadinho atualizaram a desgraça em cores épicas — todos os tons da lama tóxica. Sob a influência desses ecos, de paisagens e cidades dilapidadas e esqueletos, a companhia lança um edital milionário destinado a ser “um instrumento de transformação social através da democratização da cultura e da arte”, além de uma nova campanha publicitária da Fundação Renova, em horário nobre, que anuncia uma Shangri-La onde havia Bento Rodrigues e Brumadinho. Quase todos os milhões oferecidos virão da renúncia fiscal da União, via Lei Rouanet. A má consciência da empresa, por tal via, decerto será purgada nas centenas de obras patrocinadas, todas elas inclusivas, todas elas em estrita correção política, todas elas emocionantes brados e alertas e sobre a catástrofe climática e a desmemória em relação ao um “patrimônio” fantasmagórico. Ninguém perde por esperar.

Conquista e privilégio — Num país há séculos tão desigual, o privilégio de classe, de acesso à boa educação e saúde, por óbvio distingue as oportunidades já ao nascer. E, entre os miseráveis e pobres, apenas a sorte e o heroísmo farão a diferença, em improváveis chances lotéricas. Isso é uma coisa. Outra coisa é o sentido importado que converte qualquer conquista em sinal de “privilégio”.  Em seu texto mais recente no El País, Javier Marías enfrentar o populismo “oportunista e rasteiro” de nossa época, o das cruzadas contra o “privilégio”, e pior, o sabujismo de quem se reconhece privilegiado e se autoflagela como intelectual e escritor. “Entre os que escrevem — escrevemos — na imprensa, cada vez são menos os que resistem às correntes de moda” — nota Marías, e isso vale para o Brasil — “o que equivale dizer à gritaria, anônima com enorme frequência, das redes sociais. Pessoas a que se pagam para pensar por si mesmas — se supõe — renunciam a isso a toda velocidade para se arrojar a cada nova maré”.

O dilema da rede — O documentário O dilema das redes_ (Netflix) é chocante por dar voz a alguns dos responsáveis pelo desenho e inigualável prosperidade das redes sociais e do Google, todas as Big Tech. Os depoimentos e análises que ouvimos, com riqueza de imagens e metáforas claras para leigos sobre algoritmos e Big Data, são todos de executivos do primeiro time, corroborados por pesquisadores renomados como Anna Lembke, professora de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade Stanford. O leitor desta carta — isso me daria grande alegria — haverá de lembrar que o tema é preferencial nesta Ju. Mas até um gato escaldado dará saltos apavorados na hora e meia de duração de The social dilemma_.  Patrícia Campos Mello fez uma boa crítica na Folha, texto mal titulado, como praxe, por sinal. Mais profunda é a análise de Eugenio Bucci no Estadão. O professor de Comunicação da USP prefere chamar o trabalho do diretor norte-americano Jeff Orlowsk de “semidocumentário”. Desaprova a dramatização catastrofista, a que atribui  uma tentativa de atrair adolescentes, “que não suportam 30 segundos de abstração”. Fora isso, Bucci só falta dizer que é obrigatório, e é, para pais e filhos e para os meninos e meninas que hoje adolescem até os 45. “Quem ainda tinha dúvidas sai da sessão convencido de que temos um problema: uma rede de silício aprisiona aquilo que um dia pensamos em chamar de civilização”, comenta Bucci. “São ex-CEOs, ex-vice-presidentes, ex-diretores de monetização e ex-designers abrindo o jogo. Não se trata de resmungos de quem não ganhou dinheiro. São insiders, e são vários.” Eis o ponto. Bucci também observa que o documentário de Orlowsk escancara outro dilema, além da produção em série de zumbis manipulados pela inteligência artificial. A democracia, por mais que os mais otimistas tentem dourar a pílula, está sendo desafiada em toda parte. A guerra entre a razão e o populismo, para o qual os fatos não importam, apenas “narrativas” pautadas por “parâmetros de algoritmos” (expressão de Bucci), parece estar sendo vencida pelo segundo.

As cordas da introdução e do final, guiadas pelo incansável spalla Giancarlo Pareshi, são como o fundo translúcido do palco onde a sessão vai começar. Bijuterias (João Bosco e Aldir Blanc), faixa B4 do LP Tiro de misericórdia, da RCA Victor, de 1977, e tema de abertura da novela O astro, de Janete Clair, exibida naquele ano, é outro fruto da semeadura Bosco & Blanc. Semeadura porque suas canções brotaram no imaginário e rodam em memórias singulares num país onde a MPB era — desgraçadamente não é mais, mas ainda faz falta — essencial para uma cultura deseducada.

Bijuterias baixou tão bem no espírito da trama, com Francisco Cuoco como o astro picareta Herculano Quintanilha, que certamente contribuiu para o sucesso da novela. A música seduzia e prendia a audiência, criando o clima para a teledramaturgia.

As tretas de Quintanilha são como prenunciadas na letra de Bijuterias, a lembrar os horóscopo que eram leitura garantida nos jornais, no caso o enquadramento celestial de um virginiano. Astrólogos, como o mineiro Professor Sagitário, com quem lidei no Diário de Minas, eram capazes de prever nossa necessidade limpar o fogão, cortar as unhas dos pés e, mais ainda, “ir urgente ao dentista”.

… as manias/ transparentes/ como bijuterias/ na Sloper da alma… Que achado! Sloper é metonímia de loja, via o magazine frequentado nos anos 1950 pela sociedade carioca, com sua sede art déco na rua Uruguaiana. Bijuterias, joias falsas que são, enganam por seu brilho nas vitrines, como se vendem certos trejeitos d’alma que afloram com a idade. E o que dizer de se revelar a quem amamos “um sopro e uma ilusão” no coração?

Arranjada por Darcy de Paula, a música tem entre seus instrumentistas Toninho Horta na guitarra e Pascoal Meirelles na bateria. A contribuição de ambos é facilmente percebida numa escuta mais atenta.

Bijuterias - João Bosco & Aldir Blanc

Em setembro,
se Vênus ajudar,
virá alguém.
Eu sou de Virgem
e só de imaginar
me dá vertigem...

Minha pedra é a ametista,
minha cor, o amarelo,
mas sou sincero:
necessito ir urgente ao dentista.

Tenho alma de artista
e tremores nas mãos.
Ao meu bem mostrarei
no coração
um sopro e uma ilusão.Eu sei:

na idade em que estou
aparecem os tiques, as manias,
transparentes, transparentes feito bijuterias
pelas vitrines
da Sloper da alma

Samba doce — Quem observa Jorge Helder no palco, ou ouve seu baixo emprestado a gravações, às centenas, de estrelas da MPB, ou o vê chorar no DVD-documentário Desconstrução, que acompanha o CD Carioca (Biscoito Fino, 2006), de Chico Buarque, depois de saber que acabara de se tornar parceiro de Chico, em Bolero blues, nem precisa conhecê-lo de perto. Sabe logo que é uma ótima pessoa, a par de grande músico. Chico o trata de são Jorge, Caetano Veloso de doce Jorge. Bom, tudo isso é intuição. Mas eis que ouço o primeiro álbum autoral do baixista, Samba doce (Sesc Digital), e me rendo de vez à simpática figura. Parte instrumental, parte vocal, é mais um grande disco a sair neste pandêmico 2020. “Tom Jobim dizia que usava muito mais a borracha do que o lápis para fazer música”, diz Helder ao Estadão. “Quis juntar meus amigos, mas com o cuidado de escolher quem se encaixava melhor em cada canção, qual formação contribuía melhor para o resultado. Isso que deu a energia, a alegria”. Percebe-se esse cuidado, e o apuro nos convites, já na primeira faixa, que nomeia o álbum. Dori Caymmi, Rosa Passos, Chico Buarque (em outra versão, mais arredondada, de Bolero blues, com um show de João Rebouças no piano) e Renato Braz dão as caras, isto é, as vozes, nas composições letradas, e o time de músico é daqueles que dá vontade de ouvir no estúdio, sentado à mesa de edição. “De toda a cultura musical que se desenvolveu no pós-Beco-das-Garrafas, o samba-jazz virtuoso e inventivo, Jorge Helder é a expressão mais fiel”, escreve Caetano no texto de apresentação — “e, ao mesmo tempo, a mais pessoal e menos redutível ao padrão. Começa que Jorge é uma das melhores pessoas que conheci entre os músicos que há, sendo também um dos melhores músicos que há entre as pessoas”. Veloso também diz sobre o disco: “Encontram-se a doçura e a mordacidade harmônica: aquela nunca é sufocada por esta”. Para entender a imagem caetânica, ouça Bolero blues ou Rubato, outra parceria com Chico.

A conspiração dos imbecis¡Caveirão.45! nos fez passar vergonha na ONU, mais uma vez, com sua algaravia em que a teoria da conspiração não se distingue da cretinice mais fajuta. Uma coisa é certa. Sem as redes sociais, as ideias tortas e o negacionismo terraplanista não teriam o relevo letal que adquiriram em nosso mundo. No El Cultural, o escritor J.J. Armas, citando John Kennedy Toole, se refere à “conspiração dos imbecis, a quem as redes sociais (e esta parece ser uma atribuição concedida a Umberto Eco) deram a oportunidade de ‘valorar’ suas vozes vazias”. Um país e boa parte do mundo se põem à mercê de “legiões medíocres”, capazes de dedicar seu tempo e suas vidas a estupidificar a realidade.


JURUPOCA?

Com afinco e aprumo e afeto, Jurupoca dedica-se, como pode, ao jornalismo cultural e às ideias, a selecionar e comentar conteúdos possivelmente relevantes pra você. É mais ou menos o que se entende hoje, veja você, por “curadoria”.

A Ju tem por imperativo a defesa da liberdade de expressão e do jornalismo profissional — contra as notícias fraudulentas, a dependência viciosa das redes sociais e o cárcere do extremismo ideológico.

Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

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<p class="has-drop-cap" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80"><a rel="noreferrer noopener" href="https://antoniosiuves.com/sobre/&quot; target="_blank"><strong>Antônio Siúves</strong> </a>(maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.estantevirtual.com.br/livros/antonio-siuves/moral-das-horas/570242892?q=moral+das+horas&quot; target="_blank"><strong><em>Moral das horas</em></strong></a><strong><em>, </em></strong><a rel="noreferrer noopener" href="https://antoniosiuves.com/21-poemas/&quot; target="_blank"><strong><em>21 poemas</em></strong></a><strong><em> e </em></strong><a rel="noreferrer noopener" href="https://www.amazon.com.br/TURISMO-CULTURAL-LITER%C3%81RIO-EUROPA-Propostas-ebook/dp/B082RBGXDB/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=turismo+cultural+e+liter%C3%A1rio+na+europa&qid=1586348439&sr=8-1&quot; target="_blank"><strong><em>Turismo cultural e literário na Europa.</em></strong></a>Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Ju Extra — Carta de Quarentena #06

Uma imagem contendo relógio, placar

Descrição gerada automaticamenteEdição de Quarentena N° 6 — Belo Horizonte, Minas dos Matos Gerais, 22/05/2020


Deu no New York Times (versão em português): Licença para matar’: por trás do ano recorde de homicídios cometidos pela política no Rio /  Uma análise do Times constata que policiais disparam sem restrições, sob proteção de superiores e políticos, certos de que não haverá consequências para homicídios legais. A reportagem do jornal norte-americano saiu na segunda-feira (19). Como para ilustrá-la ou reiterá-la, no dia seguinte mataram o menino João Pedro Matos Pinto, de 14 anos. João foi baleado e morto em uma operação das polícias Civil e Federal em São Gonçalo, região Metropolitana do Rio. O governador Witzel é da mesma cepa homicida de onde brotou o chefe do Executivo. “Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente”, já pregava este nos anos 1990; “a polícia vai mirar na cabecinha e… fogo, anunciava aquele na campanha eleitoral. Tiveram milhões de votos por defenderem o bafo do “excludente de ilicitude”, essa permissão aos crimes policiais contra pobres moradores de favelas. Então, veja-se quem pode e quem não pode chorar por Joãozinho, ou, por um segundo, sentir-se na pele de seus familiares.


Opa! Vamos apear?

Quem lê a Jurupoca desde seu número inaugural, de quase um ano atrás, sabe que esta carta é um work in progress em busca de clareza, direção e utilidade, sem corromper seus propósitos.

Aceito e aprendo com as críticas que recebo, ao perseguir um caminho novo e próprio.

Ganho leitores e isso me anima. E me alegram os primeiros apoios que recebo de quem pode contribuir para a continuidade do trabalho.

Agradeço cada doação enviada e lastreio essa ajuda no compromisso de tornar este trabalho mais e mais relevante. O missivista não tem outra atividade como jornalista. Desde março, é jurupoco em tempo integral.

A ideia da carta surgiu durante uma caminhada no Parque Municipal, cá no Belo, numa manhã de junho passado.

Entendo que me preparei para escrevê-la em mais de três décadas de exercício profissional. Seu projeto, portanto, se confunde com um ideal de vida.

A pedra de toque da Jurupoca é criar uma microfissura num mundo marcado pela banalização e a superficialidade, no qual a imprensa cultural não mais se distingue na era do jornalismo online.

A atenção do leitor interessado em informação e crítica qualificadas sobre grandes livros, filmes, séries, gravações ou no debate de ideias é disputada por fofoca e pornografia caça-cliques — de que vive a quase totalidade das publicações na internet.

É o espólio do apresentador Gugu, é o reality show, é a rusga entre celebridades, é a receita de abobrinha, é não sei mais quê.

Valorizar a criação artística é uma pedagogia civilizatória. Representa uma ética, por certo. Não se destina a salvar o mundo, claro, mas, pode tornar a vida mais plena.

O projeto é tornar o envio da carta semanal, como  já é na prática, com as edições extras de quarentena, e lançar novos produtos.

Helahoho! helahoho!

Uma imagem contendo desenho

Descrição gerada automaticamente
Tenho acompanhado com interesse as profecias, como prefiro chamar certas previsões sobre o mundo pós-pandemia.

Consultores, empresários, especialistas de vários naipes anteveem à vontade o mundo novo, a “nova normalidade”.

Uma matéria de O Globo dá como certo que teremos mais “austeridade e senso de prioridade”; que o turismo vai se danar; que garçons vão nos servir vestidos como enfermeiros; que a globalização vai mesmo pro saco etc.  

O mundo que conhecemos, antecipa-se, vai acabar.

O que me parece certo e fácil de antever é que o fosso da desigualdade realmente vai se aprofundar. (Quanto ao Brasil, com seu combo de vírus e fanatismo que nos é servido, melhor calar.)

Sabemos que novas tecnologias transformam nossos hábitos, e a nós próprios, assim como a facilidade econômica de comer e consumir produtos e serviço nos engorda e afeta nosso caráter.

E que nos adaptamos às circunstâncias, venha a barra que  vier, ao conseguir sobreviver.

Mas em termos evolutivos nossa capacidade cognitiva é a mesma há milênios, e bota milênios nisso; seguiremos os mesmos até que os laboratórios do Vale do Silício concluam seu projeto do Humano 2.0.

Por enquanto, é seguro afirmar que a força de gravitação da desigualdade permanecerá constante. Continuará a atrair injustiça, indiferença, hipocrisia e perversidade.

Creio que a sociedade que não conquistar a igualdade de oportunidades para os que vão nascer será sempre o inferno na terra regido pela clave da miséria e pelo disfarce esperançoso dos mais privilegiados.

Ademais, estou com o detetivesco e filósofo Dr. House sobre a humanidade: People don’t change. Numa tradução bastante livre, gente é gente.

Helahoho! helahoho!

Além disso, tuta e meia. Nonada.


Guerra às fake news
Um estudante, que por segurança não revela sua identidade, abriu no Twitter no último domingo (17) uma conta brasileira do movimento Sleeping Giants. A iniciativa nasceu nos EUA pra combater o financiamento dos sites da extrema direita que propagam notícias fraudulentas e mensagens de ódio. O objetivo é impedir que recebam dinheiro com publicidade. Sleeping Giants aponta empresas com anúncios no sistema Google veiculados em sites porcaria, a exemplo do bolsonarista Jornal da Cidade Online. Em poucos dias, a conta brasileira alcançou 20 mil seguidores. Grandes empresas que indiretamente contribuem com a desinformação se comprometem a bloquear seus anúncios nas cloacas da internet. Banco do Brasil, Dell, O Boticário, Submarino e Telecine estão entre elas.  

Leituras ilustríssimas
A centenária livraria de língua inglesa Shakespeare and Company é uma das dádivas de Paris. Nos anos 1920/30 o lugar se tornou um porto seguro de escritores e intelectuais de várias nacionalidades. Alguns pertenciam à chamada Geração Perdida, na expressão da escritora norte-americana Gertrude Stein. Eram jovens que tiveram a má sorte de amadurecer durante a I Guerra Mundial. A casa lendária, fundada pela norte-americana Sylvia Beach, responsável pela primeira edição do Ulisses, de James Joyce, além de vender, emprestava livros mediante inscrição e cobrança de taxa. Entre os fregueses ilustres desse serviço estiveram Stein, Joyce, Hemingway,  Aimé Césaire,  Simone de Beauvoir, Jacques Lacan, e Walter Benjamin. Com o fascinante Shakespeare and Company Project, organizado pela Universidade de Princeton, nos EUA, podemos saber agora o que esses e outros clientes da livraria liam e por quais autores mais se interessavam. O acervo do projeto, excelentemente bem organizado e documentado, pode ser consultado em buscas por autor, obras ou fichas de empréstimo.

Livro e música
Sinta o clima que reina hoje na Shakespeare and Company neste charmoso vídeo da banda Moriarty, gravado na livraria no lançamento de seu álbum The Missing Room (2011).

“Lives fabulosas”
O pensamento mágico, o otimismo iluminado e, óbvio, genial, do publicitário Nizan Guanaes pode te tirar do mais fundo desespero, e quem sabe, melhor até do que a cloroquina, de livrar do próprio Corona. Mas, cuidado, experimente com moderação. O alumbramento açucarado e brega pode fazer do remédio um veneno. Nesta coluna da Folha ele nos ensina, citando a filósofa Regina Casé, que “ser pop é gostar das coisas”. Já a antevisão de outro sábio, o financista Ray Dalio, nos consola ao garantir que “a saída desta crise é a criatividade humana”. Nizan explica que está “estagiando nas lives aos domingos” e que tem “visto lives fabulosas”, onde “transborda a inteligência” de padres, influenciadores digitais, duplas sertanejas e políticos. Maravilha pura. O Nizan certa vez paparicou seus conterrâneos Caetano Veloso e Gilberto Gil com o epíteto “patrimônios intombáveis” da humanidade. Isso em 2015. Fiquei tão comovido que compus um pequeno suelto (como Delfim Neto ainda chama o comentário breve) a respeito. Agora o Midas publicitário e bilionário genial compartilha com seu leitorado outro achado. “Não tem só coisas horrorosas nessa pandemia. Tem dignidade, tem altruísmo, tem solidariedade, tem gente que vai morrer no front para que as pessoas sobrevivam”, recita, destacando de passagem a maravilha que é o eterno reality show BBB, que, ele informa, agregou 1 milhão de votos! na sua última versão, ao trazer pra “famosa casa” alguns influenciadores digitais, se entendi bem a coisa.

Desacertos cerebrais
A doutora Suzana Herculano-Houzel explica neste artigo da Folha como a tal da hipóxia silenciosa — o comprometimento da oxigenação do sangue pela Covid-19 sem que a vítima se aperceba — passa batida no cérebro.

Impeachment já!
Hélio Schwartsman está com a Jurupoca na defesa do impeachment como questão de honra ou, em suas palavras mais exatas, “obrigação moral”. Diz o colunista da Folha:

“Os crimes de responsabilidade cometidos pelo atual mandatário são tantos, tão ostensivos e tão graves que deixar de acusá-lo equivaleria a coonestar suas atitudes”.

Brasil x Suécia
O papo sobre a pandemia entre nós segue torto e retorcido. Além da tentativa de impor a cloroquina goela abaixo dos brasileiros mais pobres, persiste a comparação maluca entre a estratégia adotada pelos suecos e as iniciativas em curso no Brasil, sempre aos trancos e barrancos. E não podia ser diferente num país tão desigual. Mesmo um colunista de primeira ordem como o sociólogo Demétrio Magnoli, entre os melhores da nossa imprensa no emprego da inteligência aplicada à análise da informação, comete suas putadas, como se diz na Espanha. Num bom artigo em O Globo em que faz críticas mais ou menos justas aos secretários estaduais de Saúde, Magnoli conseguiu ver um polo simétrico à extrema direita bolsonarista (de viés psicopata), que batizou “fundamentalismo epidemiológico”. Deveras, Magnoli? Será justo contrastar esses dois “fundamentalismos”, sugerindo que ambos padecem da doença do fanatismo? Magnoli é um bom e bravo escudeiro das “liberdades civis” ameaçadas em governos ditatoriais, como o chinês, ou semiditatoriais, caso do húngaro. Leitor fiel de seus textos, sinto que sobre a pandemia ele tem hesitado ao escrever exatamente o que pensa. E me arrisco a dizer que tem lhe faltado alguma clareza e coragem ao opinar, como nunca antes. Nas entrelinhas, elogia o modelo sueco de controle da propagação do vírus, mas nem imagina ou não nos revela como tal modelo poderia ser aplicado no Bananão. Mirar democracias europeias, como a italiana, ou mesmo a cacofonia brasileira regida por Sua Excrescência, responsável por muitas das dificuldades enfrentadas nos Estados, é equilibrismo retórico em corda bamba. Fora uma ou outro exorbitância, logo contestada pela Justiça, as medidas de isolamento social em curso são rigorosamente legais, a despeito da oposição cerrada e hedionda do governo federal. Também é preciso não confundir o sentido dicionarizado de “confinamento”, a pena aplicada por governos autoritários a dissidentes políticos, com “confinamento” como palavra de ordem surgida nesta crise. É o que o Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa discute nesta coluna do El País Brasil.

A Suécia é aqui?
“Vamos falar da Suécia? Pronto! A Suécia não fechou!”. A frase escrota, típica da ventosidade verbal de Sua Excrescência, cheia mal e intoxica incautos e fanáticos. O sucesso do modelo sueco de controle da Covid-19 será mais bem avaliado no final desta triste história. Mas a Suécia está longe de ter dado as costas à ciência, e muito mais longe de ser governada por lunáticos. Aliás, os hospitais do país suspenderam o uso da cloroquina, diante dos efeitos colaterais verificados. Nesta ótima reportagem da Folha, Ana Estela de Sousa Pinto traça um panorama realista e pormenorizado da realidade no país escandinavo, cuja população, pra citar apenas um dado referido na matéria, equivale à de São Paulo, com uma densidade demográfica oito vezes menor.

Cenas brasileiras
Miguel Scrougi
, professor titular de Urologia da Faculdade de Medicina da USP, diz de maneira direta o essencial. Agorinha, o que é mais importante? Scrougi lembra de saída que os melhores resultados no combate à doença estão sendo obtidos em países governados por líderes eficientes, nos exemplos de Alemanha, Japão e Austrália, entre outros. “Revendo essas estratégias, confesso que fui tomado por um certo incômodo”, diz o médico. “Seria possível mitigar a catástrofe emergente no Brasil, país esfrangalhado pela desigualdade, com uma rede sanitária arruinada e, pior, dirigido por um presidente mais preocupado em salvar a família do que proteger os filhos da nação?”, ele se pergunta neste artigo da Folha. “Nem tentei responder”, continua o doutor, “logo me lembrei das imagens impiedosas que hoje desfilam nas nossas telinhas, expondo o sofrimento do povo brasileiro na sua forma mais cruel, a mistura do pavor pelo ataque temido, a dor pelas perdas extemporâneas e a impossibilidade de poder expressar indignação.”



Guia para o Netflix
O The New York Times selecionou os 50 melhores filmes do catálogo da Netflix, num trabalho bacana de seu time de críticos.

The Americans
Por falar no Vargas Llosa, o autor de Conversa na catedral também é fã de The Americans, a série criada por Joe Weisberg. Em sua última coluna no El País Brasil ele louva a história do casal de espiões da KGB infiltrado como americanos típicos no subúrbio de Washington, já nos anos finais da Guerra Fria. Llosa diz que se “atreve efusivamente a recomendar” o seriado por seu nível intelectual. As seis temporadas (2013-2018) seguem coerentemente o fio da narrativa e se aprofundam aos poucos nos dilemas morais que afligem o casal Philip (Matthew Rhys) e Elizabeth (Keri Russell) Jennings. Eles têm de se rebolar pra manter as aparências. Além da fachada de empresários donos de uma agência de turismo, precisam criar os dois filhos americanos, que acompanhamos até entrarem na adolescência, e atender prontamente às demandas do serviço secreto soviético. Sem falar dos dribles na vigilância do FBI! Por acaso, um agente da contraespionagem do Bureau vai morar em frente aos Jennings! Roteiristas, diretores e atores precisam ser muito bons pra enfrentar as cambalhotas e surpresas do cotidiano em uma trama dessas sem escorregar no lugar-comum ou no simples besteirol. Philip e Elizabeth, agentes inteligentes e bem treinados, não são espiões soviéticos caricatos. The Americans esteve entre minhas séries favoritas mencionadas neste artigo. Os episódios podem ser alugados na Amazon Prime.


Visita ao D’Orsay
Tenho tremenda simpatia pelo lugar e aproveitei este programa do Google Arts and Culture para revisitar a história e o acervo do delicioso museu parisiense — Da estação ferroviária ao Museu de Orsay renovado.

Aeon + Psyche
O já excelente site em língua inglesa Aeon, dedicado à publicação de ensaios e vídeos no campo das ciências, ideias, filosofia e cultura, acaba de lançar a revista online Psyche, espécie de filhote cujo propósito é explorar as conexões entre a investigação filosófica, os conhecimentos práticos e as artes. Por ali cheguei ao curta de animação franco-dinamarquesa Nothing Happens (nada acontece), uma instigante história sobre nossa capacidade de gerar expectativas e observar a natureza.

Pra sair do tempo
O álbum Debussy – Rameau do jovem pianista islandês Vikingur Ólafsson é encantador, e o que mais tenho ouvido nestes dias. Lançada há pouco pelo selo Deutsche Grammophon, a gravação tem uma beleza inequívoca. A música nos abre um intervalo de irrealidade e gratidão à beleza. As peças de Claude Debussy (1862-1918) e Jean-Philippe Rameau (1683-1764), compositores franceses que viveram períodos de transição na história da música, soam com inacreditável atualidade. Para uma análise técnica, veja-se Alex Ross, crítico titular da revista The New Yorker. Ele escreve que a técnica de Ólafsson é “assombrosamente exata e clara, quase translúcida”. Você não precisa ler partitura pra perceber isso.


Duas listas
Pra variar, vou recomendar mais uma lista do cineasta e produtor musical Fernando Trueba no Spotify, na série Música para estes dias. Ele reuniu aí no enlace coisas lindas de João Donato. Para Trueba, Donato é um “gênio do piano brasileiro”, um louco amável, douce folie.  Na apresentação do El País, ele comenta brevemente a biografia do músico acreano octogenário. Lembra que, quando viveu nos EUA, Donato foi pianista de Bud Shank, Mongo Santamaría, Cal Tjader e Tito Puente, entre outros bambas do jazz. A outra lista é de Gilberto Gil. Tem um recadinho do artista no início. Ele juntou canções que evocam sentimentos alusivos à pandemia, amor, devoção e divertimento entre eles. De quebra Gil me reconduziu a um belo álbum da Biscoito Fino de 1999 com versões brasileiras, adaptadas quase todas com maestria por Carlos Rennó, de clássicos de Cole Porter e George Gershwin. Tem Tom Zé com Você é mel (You’re The Top, de Porter, em tradução do poeta Augusto de Campos) e o delicioso registro de Monica Salmaso, incluído na lista de Gil, de Lorerai (Gershwin). A versão disponível do álbum no streaming é uma compilação do disco original.

 

Vírus de visão
“Deveríamos ter uma visão global sobre este tema [pandemia], mas não temos. O vírus é que tem. Os vírus são mais espertos e mais antigos que nós… e mais democratas”, comenta o artista espanhol Miquel Barceló nesta ótima entrevista a Borja Hermoso, editor de cultura do El País.

Greene x sono
Varei uma madrugada esta semana por não conseguir largar O fator humano, romance de espionagem de Graham Greene (1904-1991), meu autor preferido no gênero, de quem falei na Ju#05. Quando tenho dificuldade de me concentrar em outras leituras, Greene é tiro certo. O autor é um contador de história magistral, e sua narrativa é arguta, cortante, de uma profunda e arraigada humanidade, marcada por irresistível senso de humor. Como diz o escritor irlandês Colm Tóibín no prefácio da obra, Greene é “um mestre da frase única que obriga o leitor a parar, [e] que funciona como uma carga de profundidade”. Ao ler seus livro sublinho trechos de pura revelação, ou epifanias se você quiser, como “os táxis começaram a despejar convidados como embrulhos vistosos”, ao descrever as cenas de um casamento, ou “ficou sentado durante um momento com o motor ligado, a observar as gotas de chuva a perseguirem-se umas às outras no para-brisas”. Maurice Castle, o herói desse relato, é uma agente duplo movido pela gratidão e pelo amor à mulher negra que conheceu na África do Sul do Apartheid e ao filho dela. Tóibín diz, na batata, que Castle é o espião menos glamoroso já criado, e por isso é de grande interesse. Temos no Brasil uma tradução da L&PM, mas li a edição eletrônica de uma editora portuguesa, o que é sempre divertido. Em Portugal, moça é sempre rapariga, a criança é sempre um miúdo, uma isca de anzol é um isco…  

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #5

NÚMERO 5 — AGOSTO, 30   2019

La vita è questo scialo
di triti fatti, vano
più che crudele
(…)
Addio! — fischiano pietre tra le fronde,
la rapace fortuna è già lontana,
cala un’ora, i suoi volti riconfonde, —
e la vita è crudele più che vana.

A vida é um esbanjamento
De fatos triviais, vão
mais que cruel.
(…)
Adeus! — sibilam pedras nas folhagens,
a tormenta voraz já vai distante,
a hora cai, de novo se confundem as imagens, —
e a vida é mais cruel do que vã.

“Flussi” (“Fluxos”), de “Ossos de Sépia”, Companhia das Letras, 2002, p. 155, na tradução de Renato Xavier.


“Pela graça de Deus, cheguei cedinho a Machado de Assis. Deste não me separaria nunca, embora vez por outra lhe tenha feito umas malcriações. Justifico-me: amor nenhum dispensa uma gota de ácido.”

Carlos Drummond de Andrade em um dos textos reunidos no livro “Amor Nenhum Dispensa Uma Gota de Ácido”, lançado agora pela Três Estrelas.


“A realidade também é feita dessas esperanças íntimas que a imaginação inventa. Esperanças, os males indispensáveis da caixa de pandora. A confiança num destino pelo qual valha a pena sofrer. Em outras palavras, o desejo de ser moldado na forma da verdadeira humanidade. Mas quem é moldado dessa forma? Ninguém sabe.”

Saul Bellow em “As Aventuras de Augie March”, p. tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras, 2009.


“Você pode extrair da pessoa quantas partes do corpo dela quiser, mas jamais encontrará o lugar onde ela está, o lugar do qual o sujeito se dirige a mim e do qual eu, por minha vez, me dirijo a ele. O que importa para nós não são os sistemas nervosos invisíveis que explicam como as pessoas funcionam, mas as aparência visíveis às quais reagimos quanto reagimos a elas como pessoas”.

Roger Scruton em “A Alma do Mundo”, p. 85, Record, 2017, tradução de Martim Vasques da Cunha. 


“O desespero é o preço que pagamos por nos comprometermos com uma meta impossível. É, dizem, o pecado imperdoável, mas um pecado que nunca é cometido pelos corruptos ou pelos maus. Eles sempre têm esperança. Nunca atingem aquele estado paralisante que é o conhecimento do fracasso absoluto. Só os homens de boa vontade levam sempre no coração essa capacidade para a desgraça.”

Graham Greene em “O Cerne da Questão”, tradução de Otacílio Mendes, Biblioteca Azul, 2ª edição impressa, 2019.


Opa. Vamos apear?

Philip Roth: três romances”, um dos ensaios reunidos em “Tudo Tem a Ver: Literatura e Música” (Todavia, 2019), de Arthur Nestrovski, é crítica literária como não existe mais nos jornais brasileiros, ou em parte alguma. “O depauperamento da crítica fica evidente para quem acompanhou o processo; e não foi compensado pelas mídias digitais, até pelo contrário. Isso tem mais gravidade do que parece: diminuir o espaço da crítica significa diminuir o espaço da cultura, vencida pelo jornalismo instrumental: serviço, polêmica, entretenimento”, avalia. Ele se refere ao papel formador, essencial da literatura, que é o de balizar, ou melhor, deslindar a condição humana, ao que a crítica deve estar apta a enfrentar.

O diretor artístico da Osesp, Nestrovski joga nas onze na cancha cultural, o que esses ensaios e textos curtos evidenciam. No ensaio final, escrito para a edição da coletânea, ele faz um balanço de suas suas “vidas”, todas bem vividas, de tradutor, editor, professor e músico. Conta, por exemplo, como traduziu “Ständchen” (1828), lied de Schubert e Ludwig Rellstab.

Explica as alusões feitas ao “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque, canção que encarnava a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, poema que tem como epígrafe versos de Goethe (“Mignon”) sobre um país imaginário (“onde ardem laranjas de ouro”), sendo Goethe um contemporâneo de Schubert. Tudo pode ter a ver quando se apagam fronteiras. “Gravada por Chico César, à maneira de toada caipira, a ‘Serenata’ entrou na trilha da novela ‘Velho Chico’, dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que foi ao ar em 2016, na Globo!”, relata, para celebrar: “Durante meses, mais de 30 milhões de pessoas escutaram este Schubert brasileiro. Dessas coisas, como se gosta de dizer, que “só acontecem aqui”. Foi provavelmente a maior audiência de Schubert de todos os tempos. Aconteceu no Brasil — e em tradução”.

Mas, comecei a dizer, Nestrovski tem Roth em altíssima conta. A qualidade da sua crítica aos romances “O Teatro de Sabbath”, “Pastoral Americana” e “Casei com um Comunista” expressa sua eleição. Em um trecho da primeira parte, a respeito da saga do devasso Mickey Sabbath, lê-se:


“Se Philip Roth tem traços que o ligam familiarmente a Henry Miller, tem muito mais para situá-lo na linhagem dos profetas judeus Franz Kafka e Sigmund Freud, temperados pela leitura de Céline e Joyce (este último homenageado diversas vezes no livro). Nesse contexto tão elevado, de uma literatura em estado de incandescência, ou indignação quase constante, até Updike, que rivaliza com Roth como mestre supremo da língua americana e cronista das ambições sexuais, começa a soar um pouco como o bom burguês.”


Roth e Updike, ambos mortos, ambos escritores americanos canônicos, candidatos ao Nobel e preteridos pela academia sueca. Como tudo tem a ver, peço licença poética para chegar a meu próprio ofício, de que venho falando a conta-gotas nesta Jurupoca, e à minha pequena teia.

“O leitor da obra de Philip Roth só pode ser um obsessivo. O fato de sistematicamente lhe negarem o Nobel é um mote de obsessão. Outro, não tem jeito, chama-se Nathan Zuckerman. Nathan ‘torna-se’ Philip Roth e vice-versa; um mostra-se tão vivo e verdadeiro — na realidade ficcional — quanto o outro”, escrevi aqui.

Nesse texto de 2017, publicado sete meses antes da morte do escritor, aos 85 anos, comento o ótimo documentário “Encontro com Philip Roth – A Biografia de uma Obra”, de Adrien Soland e François Busnel. Aponto o andamento de réquiem que se depreende nas cenas finais.

Na sala de sua casa de campo, Roth põe para tocar as “Quatro Últimas Canções” de Richard Strauss e suspira, revelando seu encantamento por essa música.

À época dessa gravação ele já havia anunciado a aposentadoria, e diz que começava a aproveitar a vida. Um pouco antes, discorre sobre o “ciclo Nêmesis” (2006-2010), como enfeixa os últimos romances, narrativas em torno do envelhecimento, a decadência física e a ronda da morte: “Homem Comum”, “Fantasma Sai de Cena”, “Indignação”, “A Humilhação”, “O Animal Agonizante” e “Nêmesis”.

Alude a uma história que ouviu sobre um genial ator inglês que um dia, ao subir no palco, percebeu que havia perdido a força, a magia, não sabia mais atuar. O célebre ator Simon Axler de “A Humilhação” repõe essa narrativa. Já o publicitário sessentão de “Homem Comum” sofre com os achaques da velhice e a impotência.

“A velhice não é uma batalha. A velhice é um massacre”, ele se lamenta, na frase mais citada do livro. Todo esse contexto não é revelado no documentário francês assim, mastigado. Mas o leitor de Roth percebe a extensão da melancolia e do drama.

Bem, ia a dizer, a obsessão deste leitor baratinado pelos espelhamentos entre Zuckerman e Roth não vinha dali, do ensaio que escrevi para a revista “Inclusive.com”, com o título “Zuckerman Safadinho & Roth Safadão”, mas de antes, de duas décadas de leitura e releitura de seus livros e de uma viagem forçosamente literária a Paris e Florença no outono europeu de 2005.

Narro o episódio em “Inferno em Florença”, crônica incluída em “A Arte da Viagem”, cuja publicação, que tenho anunciado nesta Jurupoca para este mês, sofrerá algum atraso. Não dá para revelar muito dessa história sem spoiler.

Adianto que cheguei à cidade italiana com um exemplar em inglês do “Complô contra América” debaixo do braço. Esse romance de Roth ainda não tinha saído no Brasil. Dois ou três dias depois, cruzei com um desses dois autores (Roth ou Updike) por duas vezes, de manhã, no museu Bargello e, na tarde do mesmo dia, à beira do Arno, num balcão próximo da Piazza dei Frescobaldi, quando o abordei.

Também me refiro à Roth em um dos poemas de viagem que entram no livro como souvenirs, chamado “Carrinho de mão vermelho”. O nome é uma piscadela para “The Red Wheelbarrow”, de William Carlos Williams, poema no qual tentei me inspirar para registar o fechamento de uma livraria de mesmo nome no Marais, em Paris, onde eu havia comprado em 2005, diretamente das mãos da proprietária, a canadense Penelope Fletcher, meu exemplar de “The Plot Against America”.

Sucedeu que numa daqueles acasos de que falei na carta anterior, de volta a Paris cinco anos mais tarde, escolhi um hotel bem ao lado da Red Wheelbarrow Bookstore, que, então, acabava de dar adeus ao ponto.

Na “libraire anglophone” ainda se viam alguns livros e um computador, além do anúncio imobiliário bem visível.

Nos hospedamos no chinfrim Hôtel du 7e Art, um duas estrelas na rue de Saint-Paul. Naquela semana, eu e minha mulher soubemos pelo “The Herald Tribune” que Roth havia, em comunicado público, para tristeza de seus leitores e, todo o mundo, que não escreveria mais ficção. Procurei gravar no poema essa sucessão de eventos.

Recentemente, a propósito, Penelope Fletcher reabriu sua livraria em outro endereço, agora na Rive Gauche.


A amazônica conspiração maquiavelista

“Isso está me cheirando a conspiração que vem de fora”, sussurra Odorico para seu Dirceu. / Aí tem cérebro de gente traquejada nestes maquiavelismos. / Poooovo de Sucupira…  É com a alma [incompreensível]… que venho fazer ao povo uma denúncia de sumíssima gravidade. Um plano maquiavelista está em marcha visando a roubar Sucupira (…) / Querem impedir que Sucupira trilhe o caminho do progresso. / Todos vós sabeis que tenho dado meu o suor e meu sangue pela grandeza de Sucupira. Mas esses maus sucupiranos recebem ordem de potências estrangeiras interessadas em manter o nosso povo no atraso e na dependência.” (…). Ouça a íntegra na Rádio Sucupira da CBN.

A amazônica conspiração comunista

“Brasileiros: (…) forças do mal e do ódio [o comunismo] campearam sobre a nacionalidade ensombrando o espírito amorável da nossa terra e da nossa gente… A dissimulação, a mentira, a felonia constituem as suas armas”, proclama Getúlio, seu Gegê, na Hora do Brasil, ao anunciar que o governo de salvação nacional debelara a Intentona Comunista, o levante organizado por militantes da Aliança Nacional Libertadora, a 23 de novembro de 1935.


Tânato na avenida

De carona com Joaquim Nabuco e Caetano Veloso, que dedicou um disco ao abolicionista, “Noites do Norte” (2000), digo que a imagem do governador Wilson Witzel descendo de um helicóptero na ponte Rio-Niterói com sua figura balofa e curvada sobre as hélices da aeronave, rindo à larga com os punhos erguidos — como um Tânato no Sambódromo ou um goleador nos campos do demônio — permanecerá por muito tempo como a reafirmação de mais uma característica nacional do Brasil.



CONSERVAÇÃO

Meu coração está na dimensão estética da existência”, diz Roger Scruton nesta longa e bem articulada entrevista ao Estadão/Spotnicks. O conservadorismo, como o liberalismo, é malbaratado em toda parte ao gosto do freguês.

Scruton é o melhor defensor dessa corrente tão vilipendiada e pela qual guardo certa simpatia, mas que deve ser entendida, para que as ideias correspondam aos fatos, como liberal, libertária e britânica — fruto dessa história cultural.

Em um país como o nosso, o princípio da conservação — conservar o que presta e devemos preservar para nossos filhos e os que vão nascer, a exemplo do patrimônio arquitetônico ou da melhor tradição música popular, que uma corrente intelectual vê como elitista à luz dos novos ritmos mais “autênticos” porque georreferenciados — só pode ser visto, creio eu, em abstrato, “ad hoc”, ou seja, em situações sociais ou familiares específicas, aqui ou ali.

Por certo, não há o que conservar da miséria, da iniquidade, da ignorância, de uma sociedade atrasada e disfuncional.Tenho para mim que a civilização começa com a universalização do saneamento básico, do que falo no pé. 


A BELEZA IMPORTA?

“Roger Scruton tem inteira razão quando afirma que o conservadorismo procura conservar a ‘ecologia social’ de um povo”, escreve João Pereira Coutinho, a propósito do livro “Filosofia Verde: Como Pensar Seriamente o Planeta”.

“Nessa ecologia, estão as leis, os costumes, as instituições; as liberdades civis, políticas, econômicas; mas também os recursos naturais e, por que não, a mera possibilidade de existir beleza no mundo”.

A deixa do colunista da “Folha” remete ao livro “Beleza” e ao filme da BBC “Beauty” ou “Why Beauty Matters?”, disponível no YouTube com legendas em português, escrito e apresentado pelo filósofo.

Scruton considera um culto à feiura toda a progênie artística semeada pelo urinol de Duchamp, com raras exceções, como um Rothko; toda a música posterior a certas peças de Schoenberg que não siga as fórmulas clássicas; e toda arquitetura derivada do modernismo. “É mais fácil destruir coisas do que criá-las. Isso é, essencialmente, o que Mefistófeles diz no Fausto”, diz nessa entrevista.


MARTELADAS

Seu romantismo é um tanto irritante, mas ele defende em grande estilo o legado da arte constituído em milênios por meio de diálogo entre os mestres, em termos de reverência e inovação.

Ele diz que a catedral da beleza erguida por séculos e séculos foi posta abaixo a marteladas, e o que restou da demolição terminou reduzido a pó no pós-modernismo. Daí nasceu o culto escatológico à marmota.

Ele critica com afinco e disciplina toda a derivação da utopia hegeliana em torno da “inevitabilidade da história”.

“A natureza contraditória das utopias socialistas é uma explicação para a violência envolvida na tentativa de impô-las: é necessária uma força infinita para obrigar as pessoas fazerem o impossível”, escreve em “Tolos, Fraudes e Militantes: Pensadores da Nova Esquerda”.


O ZEITGEIST E A “MERDE D’ARTISTA”

Em grande medida, a arte contemporânea engaja-se com o novo como uma força destinada a superar e sepultar a beleza do mundo. Scruton vai à nascente dessa crença e tenta estancá-la por um instante para criticá-la.

“Cada período sucessivo da história, de acordo com os hegelianos, exibe um estágio no desenvolvimento espiritual da humanidade — um ‘espírito da época’ particular ou Zeitgeist, que é propriedade comum de todos os produtos culturais contemporâneos, e que é inerentemente dinâmico, transformando aquilo que herda e sendo descartado quando chega a sua hora”, diz em “As Vantagens do Pessimismo”.

Conforme essa lei, a história flui continuamente rumo ao progresso espiritual. Identificar o espírito da época em retrospecto, num dado período histórico, vá lá. O problema é estabelecer como inelutável essa ação entre os vivos, quando a noção de progresso científico é levada para o terreno social, político e cultural.

É como se estivéssemos destinados a evoluir espiritualmente da mesma maneira que — graças à ciência — saltamos do uísque empregado como anestésico nas cirurgias à maravilha do Propofol, sugeri em outro lugar.

Então, o que a política e o desarranjo aleatório derivam como a novíssima arte passa a ser a quintessência da criação, a exemplo das latinhas de bosta “Merde d’Artista”, que fizeram a fortuna de Piero Manzoni, ou o a instalação “My Bed” (1998), da britânica Tracey Emin, uma cama de casal desarrumada com roupas sujas espalhadas que faturou 4,3 milhões de dólares num leilão.

“O Zeitgeist que nos governa é o que está agindo agora. A arte verdadeira tem que ser fiel ao Zeitgeist (…). Os artistas verdadeiramente modernos pertencem a sua época, e essa época que dita o que eles devem fazer”, retrata, no capítulo “A falácia do espírito móvel”.

Precisamos ser fiéis ao espírito da época para acatar certas novidades artísticas como avanços inevitáveis e alguns valores em voga como expressão de um contínuo progresso moral. E precisamos ser crentes para considerar reacionária toda heresia contra a crença de que haja tal “viés” na história.


NARIZ DE CERA

Pensei num nariz de cera para as notas acima, como vênia a alguma leitora ou leitor mais sensível a ideias excêntricas ao eixo ideológico marxista. Mas, uai, para quê? Quem segue esta carta sabe que ela não é ideologicamente exclusiva e se nutre do bom e do melhor contra a cegueira.

Scruton, filósofo conservador e escritor britânico foi tipicamente xingado de fascista nos anos 1980, sendo lacrado “avant la lettre”.

A virulenta reação a seu livro “Pensadores da Nova Esquerda”, recentemente ampliado e reescrito no “Tolos, Fraudes e Militantes”, o expulsou do ensino acadêmico. Sua força intelectual e caráter hoje o colocam acima da manada das patotas do pensamento mágico.

É influente e respeitado. Fez crítica de vinhos, escreve crítica literária e de arte, romances, libretos de óperas, compõe, como o lindo tema de abertura da série televisiva “O Belo e a Consolação”, e ainda é o organista de sua igreja. Scruton se considera um “homem de letras” na velha tradição e mantém uma fazenda autossustentável, onde cultiva a terra e a boa vida.




 
O CERNE DA QUESTÃO

Forçando a barra contra o sono, acabo a leitura de “O Cerne da Questão”, romance de Graham Greene escrito há 71 anos.

Me pergunto se em mundo bobo e infantilizado como o nosso haverá leitores para um grande livro adulto sobre o tema da culpa religiosa e a depressão, o abandono e o “suicídio por compaixão”, como Paulo Francis, um fã de Greene de primeira hora, definiu o destino do herói, Scobie.

Não creio que haja. Li algumas vezes “O Poder e a Glória”, opera magna de Greene. O desespero do padre bebum e incasto, que acaba fuzilado por revolucionários mexicanos me acompanha com uma memória pessoal.

Releio de vez em quando a comédia “Nosso Homem e Havana”, sobre um vendedor de eletrodomésticos feito espião por acaso na Cuba pré-revolucionária (o próprio Greene espionou para o MI6, o serviço secreto de sua majestade), narrativa tão engraçada quanto “Furo” ou “Declínio e Queda”, de Evelyn Waugh.

Já o “Cerne da Questão” não tem graça e não faz graça. “Scobie tinha a impressão de que a vida era interminavelmente longa. A prova do homem não poderia ser realizada em menos anos?

Não poderíamos cometer o primeiro pecado importante aos sete, nos arruinar por amor ou por ódio aos dez, nos agarrar à redenção num leito de morte aos quinze?”, diz uma passagem.

O leitor vai se servindo, em discurso livre indireto, desse destilado agônico produzido na alma do major inglês, mal entrado na meia idade. Ele e a mulher perderam a filha pequena e, sufocados pelo clima e o ambiente social de uma colônia africana na Segunda Guerra, onde Scobie se sente prisioneiro e fascinado por essa condição, tentam escamotear a memória trágica. (Leio a reedição da Biblioteca Azul, com tradução de Otacílio Nunes.)

A prosa de Greene nunca é frouxa ou concessiva, mas enxuta e cortante. Às vezes é quase pintura: “Lançou a garrafa por cima do cais, e a boca faminta da água a recebeu com um único arroto”.

Assim ele engrossa as pinceladas que esboçam o mal-estar existencial de Scobie. Durante uma ronda policial no porto, recolhe uma garrafa de uísque que podia ser uma bomba incendiária, “e quando ele sacou as folhas de palmeira o fedor de petisco desidratado para cachorro e de uma podridão sem nome irrompeu como um vazamento de gás”.

Francis escreveu que Greene se debatia com seu jansenismo, doutrina que não conta com a salvação, como adúltero e simpático oportunista do comunismo.

Católico converso na juventude (praticou roleta russa na adolescência para combater o tédio), o autor de “O Terceiro Homem” e “O Americano Tranquilo”, livros que deram filmes excelentes, ia à missa até o final da vida, vivendo com a amante em Nice, num pequeno apartamento com 12 garrafas de J&B alinhadas na estante

. Pode que Francis estivesse certo, mas o pessimismo de “O Cerne da Questão” nunca é hesitante:


Por que, ele se perguntava, desviar o carro para evitar um cachorro morto? Amo tanto este lugar? Será porque aqui a natureza humana não teve tempo de se disfarçar? Ninguém aqui poderia jamais falar sobre um paraíso na Terra. O paraíso permanecia rigidamente em seu lugar do outro lado da morte, e deste lado floresciam as injustiças, as crueldades, a mesquinhez que em outros lugares as pessoas escondiam com tanta engenhosidade. Aqui era possível amar seres humanos quase como Deus os amava, conhecendo o pior: não se amava uma pose, um vestido bonito, um sentimento assumido superficialmente. Ele sentiu uma afeição repentina por Yusef [o sírio contrabandista e corruptor das autoridades locais]. “Um erro não justifica outro. Um dia, Yusef, você vai encontrar o meu pé debaixo de seu traseiro gordo”, ele disse.


EDUCAR PARA A MÍDIA

O nome é feio pacas em duas línguas, “media literacy” ou “alfabetização para a mídia”. Prefiro educação para a mídia. Mas seu apelo é urgente. Deveria se tornar disciplina em vários níveis no currículo escolar, incluindo a alfabetização de marmanjos.

Ainda pouco difundida no Brasil, vem na onda da checagem de fatos, do combate às notícias falsas e ao vitimismo alucinatório contra a imprensa, de que já falei bastante na Jurupoca # 2 (ver Fanáticos contra o jornalismo).

O colombiano Thomas Durante, pesquisador para União Europeia de estudos midiáticos, deu uma entrevista à “Folha” sobre o tema. “A ideia é promover e aprimorar o senso crítico dos cidadãos, o conhecimento da mídia, do universo de informações, a compreensão crítica de mensagens e notícias etc.”, ele explica.

“A alfabetização para a mídia busca conceder acesso a ferramentas e conhecimentos gerais sobre o alcance e as oportunidades que a tecnologia representa. Isso inclui gerar habilidades técnicas, pensamento crítico, poder de análise, de solucionar problemas, e então desenvolver a capacidade de lidar com todo tipo de informação, com a mídia e com produtos culturais.”



F WORD, JODER, PQP

Álvaro P. Ruiz de Elvira, no “El País” (“The Wire – o melhor uso de um palavrão”), comenta a sequência do quarto capítulo da primeira temporada dessa série, que julga uma das mais bem escritas, dirigidas e filmadas da história da televisão. O que é, sem dúvida, e inesquecível. Durante quase cinco minutos, apenas uma palavra é repetida 33 vezes, a expressão “fuck”, “joder” em espanhol — em português “puta que pariu” me parece uma tradução mais justa.

O que os detetives estão vendo na cena do crime é de gelar os ossos, mas resolvem o caso. Revi algumas vezes “The Wire” (A Escuta, HBO, 2002), criada por David Simon. É minha série número 1. Até a academia rendeu-se ao seu alcance social e artístico.

Suas cinco temporadas conseguem retratar a sociedade de Baltimore, repartida em guetos pela imigração, o duro trabalho policial, a imprensa decadente, o jogo de poder e seu trânsito corrupto no submundo da droga nos miseráveis bairros negros; o elenco, formado quase que só por atores ingleses, impressiona pelo domínio do patoá.

Segundo uma reportagem de O Globo, um dos mais respeitados sociólogos americanos, William Julius Wilson, definiu a obra como a maior etnografia jamais produzida sobre os Estados Unidos. O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa é outro célebre fã do seriado.




OU POR QUE ESTAMOS NA MERDA

A capa (como se dizia) de “O Globo” no domingo, 18/8, trouxe um levantamento oficial sobre as maiores estatais de saneamento no país. Mostra que essas empresas gastam mais com o pagamento dos empregados que com investimentos em infraestrutura. O lobby desses funcionários de altos salários enfrenta duramente a aprovação de um marco regulatório para a privatização do setor, em discussão há séculos no Congresso. Talvez nossos tataranetos vivam em outro país. Hoje, segundo o levantamento o instituto Trata Brasil, quase 100 milhões de pessoas não têm acesso à coleta de esgoto e 35 milhões não recebem água tratada em suas casas. Quem é um pouco informado e não seja um extremista sabe o que isso significa.

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