A vacina obrigatória do impeachment

Foto da exposição Fernando Pessoa no Museu da Língua Portuguesa, São Paulo

 Jurupoca_55. 22 a 28/1/2021. Ano 2.

XX – O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia, 

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus. 

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia. 

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia. 

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

7-3-1914

Arquivo Pessoa: O guardador de rebanhos. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

O rio da minha aldeia, música de Tom Jobim sobre poema de Fernando Pessoa em fase Alberto Caeiro — faixa A1 do LP da Som Livre A música em  Pessoa (1985), e CD da  Biscoito Fino (2002). O arranjo orquestral é de Paulo Jobim, com Tom ao piano.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Ah, que bom seria haver vacina segura e eficaz para sarar o cloroquinista, o terraplanista, o antivacinista, o freguês da conspiração Q (“pedófilos satanistas tramam o domínio total do mundo”).

Talvez uma nova proeza da bioengenharia com o RNA mensageiro ajudasse.

Escancarar fatos, documentos, expor a realidade diante dessa turma é perda de tempo.

Essa franja da humanidade, conspirativa, sempre existiu, e existirá, suponho, até o advento do pós-humano, e aí será tarde demais para a ação do imunizante.

A 55ª Ju (a publicação segue no vermelho, a pedir a contribuição do leitor) põe a bailar umas notinhas sobre o tema, misturadas a goiabais e abacaxizais mas, você vai ver, também traz uma singela sugestão para que comunguemos o pão e o vinho duma canção de Zé Ramalho: Beira-mar, derivada de Apocalypse, folheto de cordel de sua autoria publicado em 1977.

Antes o caldeirão costumeiro, Janeiro trouxe esta semana ao Belo, não mais que de repente, alguma brisa e um céu azul do qual as nuvens pareciam ter sido banidas.

“O meu olhar azul como o céu/ É calmo como a água ao sol./ É assim, azul e calmo,/ Porque não interroga nem se espanta…”

Ah, que bom seria incorporar a serenidade (fingida) por Pessoa na pele do Caeiro, sentir que o rio da minha aldeia não faz pensar em nada, ou que, por pertencer a menos gente, é mais livre.

Minha aldeia é uma metrópole infectada por um vírus solerte, cujo “rio”, o Arrudas, tem emanações que permitem apenas a urubus estar ao pé dele.

Minha aldeia, minha pátria, é o mundo (“… Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa…”), ora transido e em transição.

Mas é preciso salvar (saudar com tiros de salva) e saldar a inauguration, como dizem lá, a posse de Joseph R. Biden.

(Vi a posse. Que alívio notar o decoro, a decência, a educação e a elegância restaurados no discurso público e no convívio humano. Sem esse básico alento, viver é um inferno. A propósito, me encantei com a menina poeta Amanda Gorman.)

Poetizo uma aldeia global com uma vacina segura e eficaz para sarar o cloroquinista, o terraplanista… Tolice.

Melhor tentar em mim mesmo o Emplasto Brás Cubas, criado pelo personagem de Machado para “aliviar nossa melancólica humanidade”.

Sei que é preciso forcejar, cada um como pode, neste distrito da aldeia global chamado Brasil, pela aplicação da vacina do impeachment!

Abaixo o deletério xamã das grotas milicianas!

Pela desjumentização do Brasil!

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


A vacina do impeachment (1)

A democracia precisa ser imunizada contra um governo que coleciona crimes de responsabilidade. “Impeachment é para quem dá as costas para a Constituição”, ensina o ex-ministro Aires Brito.  Em entrevista à Folha ele recitou o artigo 78 da carta: “O presidente assume o compromisso de observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro…”.  Lembrou que a saúde é dever do Estado e direito de todos. “Salta aos olhos: ele promove aglomerações, não tem usado máscara, não faz distanciamento social. Respostas como “e daí?” ou “não sou coveiro” não sinalizam um caminhar na contramão da Constituição?”, indaga Aires Brito, que chancela o impeachment pelo “conjunto da obra”. A resposta é cristalina.

Projeção em prédio no centro de São Paulo. Captura/recorte de foto de Amanda Perobelli – 15.jan.21/Reuters

A vacina do impeachment (2)

Nossa sanidade precisa ser imunizada contra a loucura, a incúria, o negacionismo e a náusea permanente da razão. O governo de Sua Excrescência Jumentíssima, Caveirão.105mm, teve e tem ministros que deveriam estar recolhidos à Casa Verde (que me perdoem os humanistas da luta antimanicomial). Mas não. Os lelés estão soltinhos da Silva, como este das Relações Exteriores. Como o deixaram entrar no Instituto Rio Branco? Eu lhe receitaria, à maneira do Caveirão e seu general da Saúde, doses maciças de Haldol.  

A vacina do impeachment (3)

Ignorar a ciência, zombar da medicina e receitar, receitar, leitora amiga (como um estúpido macho decante orgulhoso de própria estupidez—como militar refugado convertido em deletério xamã das grotas milicianas), tratamentos precoces” não bastam para o impeachment? O lenga-lenga de Rodrigo Maia e da oposição é um menosprezo face a sordidez de uma realidade de desgoverno e desvario.

Sennett na fossa

Abatido com as cenas do putsch contra o Capitólio (ele se desculpa mais de uma vez com o entrevistador pelo desânimo), levando a pandemia com a mulher em Londres, Richard Sennett não se perde em bizantinices. O sociólogo diz ao Clarín que é preciso desnazificar (se refere a uma “versão mais suave do nazismo”) e destrumpificar os Estados Unidos. Sennett foi seguidamente, em longa campanha, chamado de “impatriota” por um senador republicano, apontado como prócer da conspiração da “elite cosmopolita” que teria vendido o país às corporações.

Desjumentizar o Bananão

E se vamos destrumpificar os EUA, é mister desjumentizar o Bananão (tks, Lessa).

Elas e eles góstiam

Como Dona Santinha Pureza (Nádia Carvalho), a personagem da Escolinha do Professor Raimundo abusada pelo marido que, diante da indignação do mestre, diz o bordão “eu góstio!”, os adeptos do QAnon também góstiam, conclui o perfil de uma soldada dessa seita no New York Times. Valerie Gilbert é uma nova-iorquina endinheirada educada em Harvard. Várias vezes por dia ela entra no Facebook para atualizar seu voluntariado contra a cabala mundial de pedófilos adoradores de Satanás que governa o mundo e da qual fazem parte Joe Biden, Lady Gaga e possivelmente até o leitor desta Ju. É difícil trazer essa gente para a realidade, reconhece a matéria. Mike Rothschild, um pesquisador do fenômeno, diz ao jornal que essa gente, que também pulula por aqui (como imitadores), não baba nem é vítima de gurus promotores de lavagem cerebral. A resposta é mais simples. Quem acredita em Q gosta de acreditar e de compartilhar sua crença, não vive sem isso, como um adicto não vive sem seu pico. Esfregar fatos e realidade na cara do crente é perda de tempo. Uma conspiração puxa outra num novelo eterno, por mais que, para quem insista no contrário, o Sol nasça toda manhã com o giro terrestre.

Hatoum e a dor no peito de Manaus

No artigo para O Globo  ‘É na confluência de incompetência, descaso e crueldade que reside a tragédia em Manaus‘, Milton Hatoum vê (e comenta) as cenas que apertaram o peito da humanidade civilizada com tutano e coração. Manauara, autor de uma rica ficção ambientada no Amazonas, o também professor e cronista Hatoum se atém aos problemas do Estado, castigado, não é de hoje, pela pororoca da corrupção. Lembra que mais da metade dos domicílios de Manaus não tem acesso ao saneamento básico. Não tem saneamento, mas ostenta a joia da Arena da Amazônia, dádiva do lulismo na Copa do Mundo. “Há décadas o povo amazonense é vítima de descaso, humilhação, enganação, crueldade”, registra o escritor, para encerrar: “Morrer por falta de oxigênio é ápice desse exercício de crueldade. Não deixa de ser uma tortura, que sempre soube (e sabe) usar sua lógica e sua logística.”

Contra a tirania das big techs (1)

O professor da Universidade do Texas em Austin Michael Lind ironiza o banimento de Trump do Spotify. Coitado, “não pode mais compartilhar suas listas de música!”, lamenta em Tablet. As grandes corporações da tecnologia se tornaram uma tirania fora de controle, acusa o escritor, sem compromisso com a lei e a ordem. O Google se transformou na versão século 21 das páginas amarelas; a Amazon não é submetida à mesma regulação imposta aos varejistas, como o Uber não é taxado como as companhias de táxis.  “Em teoria”, ele segue, “é fácil tirar o ‘e’ protetor das empresas de tecnologia e redefini-las como empresas de transporte e prestadoras de serviços públicos. Os velhos conceitos do direito costumeiro são flexíveis e serviriam de base a uma nova legislação, com uma exceção”.

Contra a tirania das big techs (2)

A exceção, claro, são as redes sociais. Seu modelo de negócio é protegido das regulações contra difamação e obscenidade, a que editores de livros e revistas são submetidos, no caso norte-americano. FB e Twitter estão isentos de responsabilidade editorial. Se essa proteção for retirada, muito provavelmente essas mídias se dissolveriam. Mas e daí? Justiça seria feita! Um jornal sério, aqui ou nos EUA, não publica artigos sob pseudônimo sem saber quem é o autor, mas qualquer tarado extremista se sente à vontade para “postar” o que bem entender a hora que desejar, como a fazer uso da própria latrina. Se uma minoria é massacrada depois de um chamamento de carrascos via Face, como os rohingya em Mianmar, ou se a democracia é minada a tuitadas, essas corporações dizem que o problema não é delas, ou fazem o que pode, ou, para manter as aparências, promovem uma limpeza pontual aqui e ali.

Contra a tirania das big tech (2)

Demétrio Magnoli, na Folha, alerta sobre os festejos (esta Ju também celebrou!) dos “progressistas” contra o cancelamento de Trump na internet, inclusive, como vimos, pelo Spotify. Nos EUA, os magnatas das big techs são quase todos alinhados com os democratas, ou a esquerda “liberal”. Pois deveriam, diz Michael Lind, se adaptar às mesmas regras que seguem publicações de esquerda ou centro esquerda, como as revistas Salon ou Jacobin. Que direita e esquerda tenham seus próprios meios de comunicação regulados, defende Lind. Magnoli vira outra página: “Que ninguém se engane”, anota, “no caso das plataformas globais de mídias sociais, os banimentos seletivos não derivam de padrões éticos mas de cálculos de negócio”, diz, referindo-se aos processos de monopólio que enfrentam nos EUA. O colunista parece ter lido o artigo de Lind, ao concluir sobre a necessidade de o poder público determinar a qualidade da “curadoria” da informação nas redes sociais”: “É hora de derrubar a muralha do privilégio, submetendo-os [os “plutocratas” Jack Dorsey, do Twitter, e Mark Zuckerberg, do Facebook, que Magnoli denomina “Editores Supremos”] ao mesmo universo de regras de responsabilidade que regula a imprensa. Ah, isso implodiria o modelo de negócio dos gigolôs da xenofobia e do extremismo? Que pena…”.

Contracapa, a série

Assisto a Contracapa, série paranaense, ou curitibana?, em cartaz na fajuta plataforma Looke, no fajuto Now da NET/Claro. A série mistura suspense policial com um drama sobre a vida na redação de jornal em crise, em transição terminal do imprenso para o online. Assistimos a esse filme desde o início do século. Mas ninguém antes o havia rodado no Brasil. Em meio a mais um passaralho, o jornalismo dá lugar ao entretenimento fútil caça-clique. Cada recorde de visitação online exibido em telões é aplaudido. Quando mais baixo e vulgar um conteúdo, mais clique; quando mais obscenidade e extremismo, mais clique. A ficcional Gazeta Brasileira, como toda a imprensa regional, depende de verbas públicas para sobreviver, jamais terá o “rabo preso com o leitor”, o que degrada toda redação e o ofício. Para cortar despesas só faltam regrar o consumo de água filtrada. A história é realista e se vê que quem propõe o enredo é do metiê. E quem viveu a realidade de um jornal em crise crônica se reconhece facilmente nos personagens do bom elenco, ainda que haja muito amadorismo em toda a produção. A série se perde ao tentar “humanizar” os jornalistas da Gazeta, revelando os dramas pessoais e familiares. Isso torna 70% dos episódios puro culebrone televisivo, como os hispânicos chamam o novelão. A história seria melhor contada em 5 ou 6 episódio, em vez dos 13 com 52 minutos de duração! Entre outras precariedades, a trama escancara a miséria da roteirização no Brasil. Há uma meia dúzia de escritores creditados em Contracapa. Para que tanta gente?, a gente se pergunta. O resultado são cenas arrastadas e diálogos inacreditáveis, além de atuações precárias. Estranhamente, o seriado exclui sequer insinuações de sexo ou namoro da vida dos jornalistas.

O corpo e o sangue da arte
de Zé Ramalho em Beira-mar

Superprodução (dirigida pelo cineasta Ivan Cardoso) bancada pelo cantautor: Xuxa Lopes, Zé do Caixão, Zé Ramalho, Monica Schmidt, Satã e Hélio Oiticica de parangolé em foto do LP A peleja do diabo com o dono do céu

Pinço uma faixa de um LP, um clássico popular, um ícone do fantástico na MPB, um prodígio de criação artística.

Beira-mar é uma das menos esotéricas (ou lisérgicas) canções de Zé Ramalho (Brejo da Cruz, Paraíba, 1949), fruto de um prévio livreto do autor. E uma de suas letras mais bem trabalhadas na oficina poética.

Beira-mar é um dos rubis de seu segundo disco pela CBS, A peleja do diabo contra o dono do céu, gravado em junho e lançado em setembro de 1979, apenas três anos depois de o artista baixar no Rio com uma mão na frente e outra atrás (Garoto de aluguel – Taxi boy, outra faixa do disco, tem tintas autobiográficas), e tornar-se uma exótica paixão nacional.

A gravadora botou muita grana na obra de sua estrela em ascensão, como ainda era praxe naquele finzinho de uma era de ouro.

Deu-lhe liberdade autoral para definir o repertório e compor os arranjos de base. O produtor Carlos Alberto Sion dividiu a direção de estúdio com Zé, e convocou o regente Paulo Machado para escrever os arranjos de cordas e metais.

Agora, veja você, a CBS foi amarrar na produção da capa idealizada por Zé. Mas ele não quis saber de mesquinharias. Tirou do bolso o que precisava —não era uma merreca — para embalar o álbum com o luxo que sua arte demandava e merecia. O pesquisador Marcelo Froes conta que Zé já cuidava da produção gráfica de seus LPs, inspirando-se nas cultuadas capas do Pink Floyd.  

O cineasta Ivan Cardoso dirigiu a produção que juntou, além do próprio cantautor, Zé do Caixão (José Mojica Martins) e Satã, produtor e guarda-costas do cineasta mestre do nosso Terrir, a atriz Xuxa Lopes, a cantora  Mônica Schmidt e o artista plástico Hélio Oiticica, envergando um de seus parangolés, em sessões de fotos na feira de São Cristóvão, conforme Froes, e num casarão abandonado de Santa Tereza, no Rio, segundo verbete da Enciclopédia Itaú cultural.

Beira-mar cristaliza o espírito de A peleja do diabo contra do dono do céu. O repertório alude à obra de Aldous Huxley, ao cinema de Glauber Rocha, ao folk de Bob Dylan.

Mas o que pulsa pra valer é o sangue da rítmica nordestina, e a inspiração da literatura de cordel. O verbete da Itaú aponta influências do repentista Otacílio Batista (1923) e do cantador surrealista Zé Limeira (1886-1954).

Numa das fotos da capa, o artista é tentado por uma vampira (Xuxa Lopes) e o diabólico Zé do Caixão (José Mojica Martins)

A canção é extraída do cordel Apocalypse, escrito por Zé, que seria retomado em dois discos futuros.

A estrutura da letra deriva do martelo-agalopado, modalidade de repente com versos decassílabos e acentuação na segunda, quinta, oitava e 11ª sílabas.

O resultado do arranjo é o pão que corporifica o corpo e o sangue da fusão de gêneros com o colorido instrumental. Quem o toma, ao ouvir a canção, percebe o milagre da transfiguração da música em júbilo e consolação.

Trompas e cordas emolduram violões de 12 cordas (Geraldo Azevedo) e nylon (Zé), o baixo-condutor de Novelli e a percussão com bongôs (Chacal), ganzá (Borel) e triângulo (Cátia de França).

BEIRA-MAR – Zé Ramalho

I

Eu entendo a noite como um oceano
Que banha de sombras o mundo de sol
Aurora que luta por um arrebol
De cores vibrantes e ar soberano
Um olho que mira nunca o engano
Durante o instante que vou contemplar
Além, muito além onde quero chegar
Caindo a noite me lanço no mundo
Além do limite do vale profundo
Que sempre começa na beira do mar

II
Por dentro das águas há quadros e sonhos
E coisas que sonham o mundo dos vivos
Há peixes milagrosos, insetos nocivos
Paisagens abertas, desertos medonhos
Léguas cansativas, caminhos tristonhos
Que fazem o homem se desenganar
Há peixes que lutam para se salvar
Daqueles que caçam em mar revoltoso
E outros que devoram com gênio assombroso
As vidas que caem na beira do mar

III

E até que a morte eu sinta chegando
Prossigo cantando, beijando o espaço
Além do cabelo que desembaraço
Invoco as águas a vir inundando
Pessoas e coisas que vão arrastando
Do meu pensamento já podem lavar
No peixe de asas eu quero voar
Sair do oceano de tez poluída
Cantar um galope fechando a ferida
Que só cicatriza na beira do mar


Luxuosamente, Bituca

Mônica Salmaso e André Mehmari interpretam o repertório de Milton. Coisa finíssima. Mais uma vez juntos durante o reinado do Corona num show com “ingresso consciente”, fazem um espetáculo marcante, íntegro, rigoroso e galvanizante. A seleção do repertório de Milton e parceiros é diferenciada e impecável. Mais uma vez Mehmari (piano e marimba de vidro) nos encanta a cada compasso com variações harmônicas que jogam com melodias e o pathos das cações. E a Salmaso? Ora bolas, neste momento ela é nossa maior cantora. Teco Cardoso (flauta baixo e sax soprano) é convidado deste concerto luxuoso.

Pérolas aos pouquíssimos

A Blue Note, na série Lives pela arte com “ingresso consciente”, apresenta Ná Ozzetti e Dante Ozzetti. Os irmãos atiram, em uma live pandêmica, suas pérolas aos poucos, ou pouquíssimos. Não deixe de se incluir neste happy few, afinal você é leitora ou leitor desta Ju. O repertório base de Ná me remete à sofisticação do cabaré alemão dos anos 1920, ou da atual Ópera Cômica de Berlim.


Dá licença, ô do #MeToo,
mas vou falar de Woody Allen

Woody Allen: The Origins Podcast (em inglês). A apresentação do programa revela como os EUA estão cultural e politicamente encalacrados; sim, te ouço comentar: qual a novidade?, por aqui sempre estivemos. Pois é. O apresentador tem de justificar a mera escolha de Allen como entrevistado. Será preciso lembrar, sempre, que o cineasta foi desgraçado pela moralidade macarthista de esquerda do país, presente grandemente no #MeToo e outros movimentos lacradores. Mr. Allan Stewart Konigsberg foi inocentado pela Justiça da acusação, levantada pela ex-mulher, de ter abusado da própria filha, num processo limpo e cabal. Mas isso vale um peido para os caçadores de reputação que o destroçaram vivo, e tentaram se alimentar de seu gênio e da sua arte. Que sofram uma épica indigestão!  

Melodia sentimental para um amigo na pior

Jurupoca_54. 15 a 21/1/2021. Ano 2.

Lua: “Tão linda que só espalha sofrimento/ Tão cheia de pudor que anda nua”. Fotos (créditos, acima e no alto da página): Domínio público/Pxhere/Creative Commons

SONETO DO CORIFEU – Vinicius de Moraes

São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

Soneto do Corifeu, Vinicius de Moraes, Nova antologia poética. Org. por Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Sim, sou um sentimental, caranguejeiro, mas sou.

Buscava qualquer espécie de boia, lenitivo, depois de falar com um grande amigo entristecido, na pior.

Se dois bicudos não se beijam, dois deprimidos, ainda que ocasionais, são um risco geológico.

Isolados e distantes, nem tomar um porre juntos mais podemos, para mandar tudo às favas, ainda que haja uma espécie de tristeza refratária ao álcool.

Meu velho amigo anda de farol baixo há vários meses, o que faz dele (alguém naturalmente expansivo, até onde alguém do interior de Minas pode ser, e dado à risada e à amizade), um ser encabulado.

Nunca me falou isso, mas é desses que acham que depressão é para os fracos.

É certo que sempre foi uma rocha. Sofreu perdas horríveis e enfrenta uma condição complicada com bravura. Mas ninguém é uma rocha. Nem areia, rocha degradada, somos. Ou pergunte ao pó.

O vírus, por certo, não ajuda.

Mas e a boia de salvação? Não há.

Como sempre, quem procura pode achar alguma consolação transcendente, já que amizade é luxo contingente.

E não há outra fonte de consolação mais fiel que a música.

Logo reencontrei a Melodia sentimental de Heitor Villa-Lobos, peça da cantata A Floresta do Amazonas, letrada pela poeta e embaixatriz Dora Vasconcellos.

Villa-Lobos trabalhou na suíte depois de ver que sua música para o filme Green Mansions, de 1950 (dirigido por Mel Ferrer e estrelado por Audrey Hepburn), fora malbaratada pelo polonês Bronislaw Kaper.

Ele deu a volta por cima. A Floresta está entre as últimas obras primas que escreveu.

Melodia sentimental tem dezenas de lindas versões: orquestrais, instrumentais, líricas, populares.

A MPB coleciona registros esplêndidos de Elizeth Cardoso, em disco de 1967, Maria Bethânia, Mônica Salmaso, Zizi Possi, Paula Morelenbaum, Ney Matogrosso, Olivia Byington etc. Há 43 fonogramas registrados no site do IMMub.

Aqui, como em tantas outras peças, Villa é o mago das melodias que salvam ou por instantes reparam nossa humanidade cindida.

À música aglutinou-se a poesia de Dora Vasconcellos numa peça esférica, de lancinante profundidade melódica.

A gravação na potente voz de Elizeth — com acompanhamento sinfônico e todos os vibratos a que tínhamos direito — a de Djavan, que ouvimos na belíssima cena final de Deus é brasileiro, o bom filme de Cacá Diegues — e a de João Bosco — faixa do álbum Da licença meu senhor (1995), com um arranjo soberano de sua autoria, apenas com seu violão e os de Marco Pereira, incluindo um de oito cordas — são as minhas favoritas, entre aquelas que pude ouvir.

Mas agrego nessa eleição o álbum A floresta do Amazonas (Kuarup, 1987, remasterizado em 2020), de Jaques Morelenbaum, Wagner Tiso, João Carlos Assis Brasil, Jurim Moreira e Ney Matogrosso (a Melodia está na Suíte I faixa 11).

Aí vão, com a letra de Dora, dedicadas ao meu amigo entristecido e à nossa amizade à beira de completar meio século.

Aliás, meu velho, essa Ju é pra você. Aguente firme.

E vamos juntos!

MELODIA SENTIMENTAL

Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que fulge tão bela e branca
Derramando doçura

Clara chama silente
Ardendo meu sonhar

As asas da noite que surgem
E correm no espaço profundo
Oh, doce amada, desperta
Vem dar teu calor ao luar

Quisera saber-te minha
Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera

Quando dentro da noite
Reclama o teu amor

Acorda, vem olhar a lua
Que brilha na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir seu amor é sonhar

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Lua e luar. Foto (crédito): Domínio Público/Pxhere/Creative Commons

Aberração na sala

A Presidência ocupada por Sua Excrescência Jumentíssima é uma aberração. Enquanto seu amado molde cor de burro fugido toma o segundo processo de impeachment nos EUA, nosso Congresso segue a normalizar sua cópia fajuta — e ainda mais danosa que o original. O país tem uma aberração dentro da sala, mas o pragmatismo parlamentário não a vê. Pois veremos até onde e quando.

A mensagem do meio

Pós-verdade é pré-fascismo, diz o historiador Timothy Snyder no melhor artigo que li sobre o Putsch de Washington (O abismo americano, em inglês no New York Times). Snyder lembra que não pode existir sociedade civil sem concordância sobre fatos básicos, e que a verdade se defende realmente mal sob artilharia pesada. Trump e governantes como Putin surfam numa era de decadência do jornalismo. “As redes sociais não substituem” o jornalismo, diz o acadêmico. As redes “sobrecarregam os hábitos mentais por meio dos quais buscamos estímulo e conforto emocional, o que significa perder a distinção entre o que se sente como verdadeiro e o que é realmente verdadeiro”. Como diria aquele policial de Agosto, o romance de Rubem Fonseca, aí está o busílis. Mesmo numa democracia como a norte-americana, tida e havida como a mais sólida e funcional da Terra, alguém da laia de Donald Trump consegue quase 80 milhões de votos sustentado por ficções grosseiras e pensamento mágico.

Piscadela de Barthes

A linguagem de Trump (e a de Caveirão.105mm é ainda pior) é brutal, inculta e incompreensível fora do botequim. Como seu aplicado discípulo dos trópicos,  é impiedoso ao espancar o idioma e dependente das redes sociais para falar à plebe. O professor da USP Elias Thomé Saliba comentou no Estadão A língua de Trump, livro da linguista e tradutora francesa Bérengère Viennot, uma análise minuciosa de centenas de discursos e tuítes do Espantalho Laranja. Seu vocabulário primário e raso e uma sintaxe truncada, recheada de repetições vomitórias, emojis e expletivos como “wow”, “sad”, “great” são o horror dos tradutores. As falas brucutus soam incompletas ou sem sentido para quem se educou no idioma culto. Como Caveirão.105mm, Trump rebaixou ao lupanar todos os padrões da linguagem pública, tal como, diz Saliba, o universo moral da comunicação política. Saliba imagina Roland Barthes — que comparou o discurso que abole o referente, ou contexto, ao discurso esquizofrênico, num ensaio muito anterior à internet —a nos lançar uma piscadela do túmulo.

Banido do eldorado

 “O Twitter é algo maravilhoso para mim, porque consigo transmitir a mensagem… talvez eu não estivesse aqui conversando com você como presidente se eu não tivesse uma maneira honesta de comunicar a minha mensagem”, disse Trump, em março de 2017, num raro arroubo de sinceridade. Caveirão.105mm poderia assinar embaixo, incluindo as outras redes. Trump deve ter sentido o golpe ao ser banido do Twitter. Bem, veio tarde, como o banimento do Caveirão virá tarde. As redes sociais não são a nova esfera pública da democracia, são oligopólios trilionários a viver de expansão e lucro. Enquanto não forem quebradas ou enquadradas pelo estado, muita patacoada se dirá sobre liberdade de expressão e os desatinos do debate público na democracia.

Elites e ralé

Hannah Arendt, em As origens do totalitarismo, descreve a aliança entre elite e a ralé (o refugo da burguesia), a escória social. Lembra o que vemos hoje, quando o populismo de direita deita e rola na tecnologia para galgar o poder, e a esquerda ultraprogressista atua como árbitra do galinheiro. Arendt é fabulosa. Por sinal, seu livro é obrigatório, hoje, para entendermos o que está em jogo. “O que as massas [o conjunto dos indivíduos atomizados] se recusam a compreender é a fortuidade de que a realidade é feita”, ela escreve (à página 458). “Predispõem-se a todas as ideologias porque estas explicam os fatos como simples exemplos de leis e ignoram as coincidências, inventando uma onipotência que a tudo atinge e que supostamente está na origem de todo acaso.” A realidade paralela do negacionismo e da pós-verdade se dá no mesmo plano. O demagogo sabe perfeitamente com quem fala.

A produtividade de “Nosso Kassio”

O mais novo ministro do STF, Kassio Nunes Marques, para sempre “Nosso Kassio”, impressiona a ralé por seu saber jurídico e relativa independência. Relativa pois, pois. A autonomia do magistrado excetua toda e qualquer interesse bolsonarista. Decoroso, escrupuloso, confiável, irrepreensível, fiel, “Nosso Kassio” tem recebido seguidas congratulações de quem o indicou e realizou seu desejo mais profundo. E mais uma vez, sua excrescência jumentíssima parabenizou seu garantista de algibeira ao ver concedida liminar liberando a pesca predatória no Rio Grande do Sul, como mostrou reportagem da Piauí.  

Fran e Marty

Fran Lebowitz é incrivelmente inteligente e engraçada. E sua nova parceria com Martin Scorsese, a série documental Faz de conta que NY é uma cidade, o que de melhor surgiu no Netflix nos últimos tempos. A arte e amizade de Scorsese servem de escada para o brilho da escritora, comediante e atriz eventual, hoje aos 70 anos. Judia, homossexual, autodidata expulsa do colégio, ex-motorista de táxi, que figura é Lebowitz! Seu tipo de humor e atitudes só podem existir numa cultura livresca como a nova-iorquina, ao menos no legado de sua era gloriosa. Os sete episódios curtos de Faz de conta… lembram muito a íntima relação com a cidade que vemos nos filmes de Woody Allen, de quem, aliás, ninguém dá mais notícia. O melhor são os comentários de Fran sobre livros, arte, cultura. Ela foi chegada de Charles Mingus, e narra passagens deliciosas sobre seu círculo jazzístico. Mingus era de uma arrogância fabulosa, ela diz, e apenas se curvava e se calava diante de Duke Ellington. Fina ironista, Lebowitz caçoa das fantasias atuais sobre bem-estar, leveza, saúde, dinheiro e vida eterna dos rapazes do Vale do Silício. Boa atriz, representa a si mesma, uma senhora elegante a andar anonimamente por ruas de Nova York, com seus movimentos captados num excepcional trabalho de câmara. Sua expressão diante de umas moças em malha puxando grandes pneus no meio do burburinho da cidade, como condenadas de um Gulag, é indescritível.

Construção cinquentona

Deus lhe pague e Construção, com arranjos sinfônicos de Rogério Duprat, são a alma do álbum lançado em novembro de 1971, mas que já se começa a celebrar. Essas duas faixas, potentes respiradouros num país então sob as botas dos generais, não roubam completamente a cena. Construção (lançado pela Philips, dirigida no Brasil por André Midani, responsável pela contratação de Chico Buarque, com Roberto Menescal na direção artística) é um disco de sólida integridade em sua pouco mais de meia hora que parece guardar muito mais tempo, um prodígio do formato LP, quando era bem explorado. Magro, o músico do MPB-4, apelido artístico de Antônio José Waghabi Filho, morto em 2012, zelou pela direção artística e arranjou algumas faixas. Ouvimos Jobim ao piano abrir energicamente Olha, Maria, ele autor da melodia letrada por Chico. Cotidiano, a segunda faixa do lado A, tornou-se algo como um épico urbano antes de Belchior. Valsinha (Chico e Vinícius de Moraes) traz uma pitada sensual às faixas propriamente líricas, com Cordão, Desalento e Acalanto, que cantei muito para ninar meu milho. Samba de Orly (com Vinicius e Toquinho) e Minha história, versão em português feita por Chico do italiano Gesù bambino, canção de Lucio Dalla e Paola Pallottino agregam outros registro ao variado clima emocional de Construção, marco temporal luminoso na história da MPB.

Bangue-bangue

O prazer de reencontrar o western. Nem é preciso rever um clássico como Matar ou morrer ou O homem que matou o facínora. Um faroeste classe c como O vale da vingança (1951), que encontro no péssimo Looke, dirigido por Richard Thorpe, com Burt Lancaster como herói, já nos dá um gosto da grandiosa dimensão desse gênero mitológico. Quem tem menos de 50 anos dificilmente entenderá a força do imaginário de um bangue-bangue. Em essência, são narrativas de excelência que resgatam a conquista destrutiva do oeste e o rastro sanguinário no caminho da civilização. A maravilha inóspita da natureza é o palco de dramas shakespearianos inesquecíveis. E o caráter masculino à prova nesse elemento selvagem, a matéria prima dos conflitos. Sua riqueza criativa é impressionante. De John Ford a Sérgio Leone, passando por Fred Zinnemann ou Sam Peckinpah, quanto deleite para um cinéfilo! O prazer de reencontrar o western é o prazer do grande cinema.

Enquanto isso, no ex-caderno…

O jornalista mais experiente da ilustrada terá 23 anos completos? Para essa geração, o que não é sucesso nas redes sociais não existe. O pensamento social é o que celebridades postam e a obediência cega à correção política e à bula da “diversidade”. A criação artística não tem espaço entre a atualização de aplicativos e horas dedicadas ao corpo e gadgets. Que na Barão de Limeira ainda acreditem que esteja aí o futuro da empresa e do jornalismo na internet, para mim, e para quem lê os melhores jornais do mundo, é um baita mistério.

De volta a Dunas com Tom, Zé Miguel e Ezra

Jurupoca_53. 8 a 14/1/2021. Ano 2.

Maracujás (passion fruit em inglês) pendem na cerca da Posada do Nono, em Venda Nova do Imigrante (ES), meio do caminho entre BH e Dunas de Itaúnas. A luz é da manhã de 20/12/2020

NOTAS PARA CXVII

 M’amour, m’amour

      que é que eu amo e

                onde estás?

Que perdi meu centro

             lutando contra o mundo

Os sonhos colidem

                 e estão despedaçados —

e eu que tentei fazer um paradiso

                         terrestre
[…]

CXX

Tentei escrever o Paraíso

Não se mova
          Deixe falar o vento
                esse é o paraíso.
Deixe os Deuses perdoarem
                    o que eu fiz
Deixe aqueles que eu amo tentarem perdoar
                       o que eu fiz.

Ezra Pound: Os cantos. Tradução José Lino Grünewald, Nova Fronteira, 2006.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Zé Miguel Wisnik, além de tudo, é pianista e um dos maiores compositores brasileiros em atividade. Tudo pode se referir ao professor de literatura e ensaísta de mão cheia que ele também é.

Claro, não é alcançável pelos rebanhos. No título de seu álbum de 2003, Pérolas aos poucos, poucos tem valor pronominal. Na letra da canção que ouviremos (dele com Paulo Neves), atualíssima, a palavra tem função adverbial, mas não só: “Eu jogo pérolas aos poucos ao mar…”, uma troça poética com “pérolas aos porcos”, referência ao evangelista Mateus 7,6: “Não deis aos cães o que é santo, nem atireis as vossas pérolas aos porcos, para que não pisem e, voltando-se contra vós estraçalhem.”

As pérolas de Zé Miguel vão para poucos. E por sinal passam longe do radar do jornalismo cultural, que hoje, nas trincheiras da “guerra cultural”, despreza a música (e a arte) de qualidade, interessado demagogicamente em dar lugar à diversidade — e, óbvio, na própria sobrevivência na era do caça-clique.

O jornalismo perde a função crítica quando o valor artístico é o de menos.

A criação sem balizas desaparece como bolhas de sabão, e todo o ambiente cultural se banaliza e degrada. Culturalmente, somos uma espécie de Roma destruída pelos bárbaros.

Eu jogo pérolas ao fogo todo meu sonhar/ E o cego amor entrego ao deus dará…

Eu jogo pérolas aos poucos ao mar
Eu quero ver as ondas se quebrar
Eu jogo pérolas pro céu
Pra quem pra você pra ninguém
Que vão cair na lama de onde vêm

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
E o cego amor entrego ao deus dará
Solto nas notas da canção
Aberta a qualquer coração
Eu jogo pérolas ao céu e ao chão

Grão de areia
O sol se desfaz na concha escura
Lua cheia
O tempo se apura
Maré cheia
A doença traz a dor e a cura
E semeia
Grãos de resplendor
Na loucura

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
Eu quero ver o fogo se queimar
E até no breu reconhecer
A flor que o acaso nos dá
Eu jogo pérolas ao deus dará

Viajei de carro no Natal, comi muito asfalto, de novo rumo a Itaúnas, Dunas de Itaúnas, passando, oh vida, oh dor, por Manhuaçu etc. com pernoite a meio caminho na deliciosa Pousada do Nono, em Venda Nova do Imigrante, já no Espírito Santo, onde cliquei os maracujás que embelezam este número da Ju.

Já a imagem no alto da página capta os lindos urubus que frequentam a área de coleta dos pescadores da vila. Observar o voo magistral dessas aves é um espetáculo sempre renovado. São mesmo os mestres do vento, como canta Jobim n’O boto.

Ouvi muita música brasileira na estrada, sobretudo Tom, que é com quem melhor viajo, à parte os quartetos de Beethoven. Consigo a um tempo me distrair e melhorar a concentração para guiar com calma e cuidado. É minha “estratégia” para me meter na selvageria, entre tarados do volante.

Pois nessa viagem a Dunas outra canção de Zé Miguel me subiu à cabeça, além de Pérolas aos poucos.

Subiu como revelação, revelação artística, a única que às vezes ainda experimento. Além da arte apenas aos santos algum mistério se revela. Se bem que publicitários deram para falar em “epifania”.

Essa música é Mais simples:

É sobre-humano viver/ E como não seria…

É sobre-humano amar
‘cê sabe muito bem
É sobre-humano amar, sentir
Doer, gozar
Ser feliz

Vê quem sou eu quem te diz
Não fique triste assim
É soberano e está em ti querer até
Muito mais

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

Mas deixa tudo e me chama
Eu gosto de te ter
Como se já não fosse a coisa mais humana
Esquecer

É sobre-humano viver
E como não seria
Sinto que fiz esta canção em parceria
Com você

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

“É sobre-humano viver/ E como não seria…” são versos de uma precisão cristalina. E o que seria a “expressão mais simples” da vida e do viver?

O super-homem nietzschiano e todas as noções assemelhadas estão mofadas.

Sim, parte da ciência persegue o humano 2.0, via transumanismo, inclusive a cura da morte com a engenharia genômica. Mas aí não vale.

Ser humano, humano pra valer, é sobre-humano, por certo.

Presumo que é mais simples ser gafanhoto, golfinho ou andorinha.

E que o verdadeiro ser humano era o caçador-coletor nômade de dez mil anos atrás.

Ser humano era não se deixar almoçar pelo tigre, e dormir alimentado e exausto sob as estrelas, aos bandos, nada menos.

A civilização — 1% da história do Homo sapiens sapiens — da agricultura ao Vale do Silício, o corrompeu e tornou a vida sobre-humana —para a maravilha e a desgraça.

O mal-estar tão bem descrito por Freud só faz crescer, ou inchar, e chega à náusea.

É o mal que se tenta remediar com drogas de toda espécie, inclusive as das farmacêuticas, da cosmética, do consumo, da tecnologia.

Para Bifo Berardi somos neo-humanos “cercados e subjugados pela onipresença dos automatismos da máquina digital conectada às redes”, que ele compara a um organismo sem ar.

Esse filósofo italiano de esquerda diz que vivemos uma crise da imaginação, asfixiados pelo capitalismo financeiro, e que é preciso “reativar o corpo erótico da sociedade” por meio da revitalização da linguagem e da poesia (como metáfora).

Sei não.

Nossa espécie é do balacobaco. Poetas como Pessoa ou Shakespeare conceberam tudo que é humanamente inconcebível. Eram gênios.

Mas ainda tocarão o mundo que sai das forjas frias do tempo e põe para dormir o espírito?

A alienação da cultura, as massas atomizadas pela tecnologia e as ideologias pamonhas das “guerras culturais” converteram a humanidade num formigueiro desgracioso.

“Dão à luz do útero para o túmulo, o dia brilha por um instante, volta a escurecer”.  Me pergunto se essa conhecida citação de Beckett em Esperando Godot ainda inspirará algo em alguém, além do gesto autômato de decalcá-la no Facebook e esquecer o assunto. Ah, se ao menos o inspirasse a tomar um Chicabon na esquina.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Deixa o mato crescer em paz

Boca de siri. Não me vá dar com a língua nos dentes. A notícia pode chegar aos ouvidos do ministro do Meio Ambiente de sua excrescência jumentíssima. No Parque Estadual de Itaúnas trabalham para recuperar matas de restinga e conter o avanço das dunas, das areias sopradas pelo vento que já sepultaram a antiga vila local. Como se sabe, o ministro Ricardo de Aquino Salles é um janota filisteu por princípio contrário ao meio ambiente, por isso está no cargo. Saleraço e Caveirão.105mm tem poluções ao sonhar com fogo, trator, expansão agropecuária e imobiliária e a mineração geral do país. Caveirão.105mm projeta construir em Angra dos Reis uma espécie de Disney marinha. Tem horror ao mato, ao bicho, ao índio. Quero dedicar a Saleraço, nesta carta, uma curta serenata, de uma música só:

Canção dedicada ao ministro Salles: Não quero fogo/ quero água…

Brexit is Brexit

Brexit means Brexit. Brexit is Brexit. Dona Theresa May tinha razão. Não somos ruminantes, por mais fracos que alguém seja, para digerir sem parar um medo ou ideia “fixa”. Nem roedores para roer até o osso uma promessa ou decisão jamais realizada. Sim, saída é saída e não é não.  Mas tenho cá minhas dúvidas… Cada luz do dia nos traz uma nova cor, e a confusão de hoje pode pacificar amanhã, como o suflê de enxofre da aflição que a insônia infla em geral murcha de manhã.

Somos todos Dilma

Sua excrescência jumentíssima voltou a zurrar sobre a tortura sofrida pela ex-presidente Dilma Vana Rousseff. Todo apoiador do presidente é seu cúmplice nisso. Caveirão.105mm repete os relinchos que ouvimos, e me fizeram vomitar, em seu voto no impeachment de Dilma. Nossa humanidade foi rebaixada ainda mais. Que tanta gente seja incapaz (de pai e mãe) de perceber a brutalidade desse fato deve dizer algo sobre nossa pretensão de ser um país que preste.

Dilma presa. Foto do Arquivo Público de São Paul

“Do you like it, macacada?”

Na véspera do Réveillon Demétrio Magnoli publicou uma de suas melhores colunas do ano. É um dos raros comentaristas brasileiros com estofo e destemor ao opinar. Ele não se deixa patrulhar nem tenta agradar no Instagram. Sua presença no GloboNews em Pauta, sou capaz de apostar, tem os dias contados. Ele não se afoga na poça demagógica dos colegas e costuma respaldar análises com firmeza e reflexões bem apuradas. O texto em questão é “Que vontade de nascer americano”, e saiu em O Globo. Magnoli desenha como extrema direita e esquerda no Brasil macaqueiam ridiculamente a “guerra cultural” que divide os EUA. Para você com preguiça de sair dessa página, copio os dois parágrafos finais:

“A esquerda brasileira já foi anarquista, modernista, cosmopolita, comunista, tropicalista e sindicalista — mas, em cada uma de suas encarnações, conservou-se fiel à convicção de que existe uma nação única, cozida no forno do passado. Não mais. #MeToo, #BlackLivesMatter: nossa esquerda vive a história dos outros e já nem sabe mais falar português.

“É um duplo divórcio da realidade brasileira. A extrema-direita enxerga, em meio a brumas, uma nação sem leis ou instituições, habitada por colonos armados e pregadores puritanos agarrados a cruzes: os EUA imaginários do faroeste. A esquerda, por sua vez, confunde seu país com um outro: os EUA das Leis Jim Crow, da segregação legalizada, do censo que classifica as pessoas em categorias raciais estanques.”

O viés do NYT

No New York Times — do alto de seu jornalismo de torre de marfim, como o chama um articulista na revista Quillette —pode parecer que a facção delirante da direita republicana faz “guerra cultural” sozinha, contra quem está inocentemente quieto no seu canto, senão contra fantasmas. Um crítico do jornal como James Poniewozik, em artigo traduzido pela Folha, não consegue apontar o outro lado em guerra com os conservadores. A esquerda é nomeada apenas como de “viés liberal”. É uma gente justa que não comete excessos ou tortura a história; não se ferra a ideologias anacrônicas; não alimenta o ressentimento do eleitorado republicano; não patrulha nem cancela ninguém que dê um passo fora do riscado do credo politicamente correto. Imagina-se que estão do lado do bem e da verdade e sob ataque de bárbaros ensandecidos como o espantalho laranja que tentou tocar fogo em Washington. Isso mostra que a jornalista Bari Weiss estava coberta de razão quando se demitiu do Times e, em carta aberta, acusou o jornal de se deixar editar pelo Twitter. Vai uma passagem da entrevista que ela deu à Folha quando esteve no Brasil, mês passado:

Em sua carta de demissão, a sra. fala que o Twitter tornou-se o editor do NYT. A mídia capitulou às novas formas de comunicação? Antes da internet, o chefe era o anunciante. Esse modelo se desintegrou. Agora é o assinante, o leitor, e os que são estridentes em lugares como o Twitter têm influência desproporcional. O público do NYT é formado por liberais ou democratas, mais de 90%. O incentivo passa a ser dar aos leitores o que eles querem. Toda pressão empurra para publicar mais um artigo sobre como Trump é um monstro ou um palhaço. Há um desincentivo para contar verdades inconvenientes contra noções pré-concebidas. Cada vez mais, o NYT e outros veículos mostram uma pequena faixa do país, um mundo como os editores ou os leitores gostariam que fosse. É mais realismo socialista do que relatar as notícias.

“Quando o NYT a contratou, a razão foi tornar o jornal mais diverso. Acha que era um desejo genuíno? As pessoas que dirigem o NYT sentiram, após a eleição de Trump, que haviam errado numa grande história. Você pode me chamar de ingênua, mas acho que eram genuínas no desejo de expor seus leitores a um espectro mais amplo. O problema é que muitas das pessoas mais jovens que contrataram têm uma visão diferente. Entraram no jornalismo para advogar coisas, estar do lado certo da história. Era inevitável que isso fosse resultar em algum tipo de conflito.

“É algo geracional? Em grande medida, sim. Essas pessoas jovens, inteligentes, estudaram nas faculdades mais respeitadas do país. Mas essas faculdades são o ponto de origem desta nova ideologia. E as pessoas levam suas ideias para empregos em editoras, museus, jornais. Em vez de essas instituições transformarem os jovens, são os jovens que as transformam. Esse pequeno grupo fanático e moralmente justo maneja as mídias sociais e faz acusações de intolerância com total descaso. Aterroriza os que acreditam nos métodos tradicionais.

“Universidades de esquerda sempre existiram. O que mudou agora? É a internet? Se eu quero ir à mídia social e ganhar pontos com meus amigos, é muito fácil, não leva dois segundos e não custa nada. Funciona quase como um movimento religioso. É capaz de, como muitas religiões em seus estágios iniciais, queimar muita coisa para conseguir o que quer. Essas ideias, tenham o nome que tiverem —política identitária, teoria racial crítica, justiça social— estavam contidas em departamentos periféricos de universidades. Mas como disse Andrew Sullivan [escritor britânico], todos nós vivemos num campus agora. Estamos vivendo no mundo dos departamentos de estudos de gênero.”

Ela não faz bundalelê

Leila Pinheiro é uma grande artista e uma senhora elegantíssima. Claro, não faz bundalelê nem posa de pijama para atrair engajamento nas redes sociais. Sua conta no Youtube nos deu mais este presente às vésperas do Natal. Sua carreira é o caminho iluminado de quem conhece a dimensão da música popular e não se permite pular a cerca da concessão à vulgaridade.

Quase levo uma rabanada do bicho acima, postado à beira-rio e defronte à sede do Parque Estadual de Itaúnas. Parei ali várias vezes pra admirá-lo, como volto sempre aos restos do pequi vinagreiro que na praça da igreja representa a destruição da mata atlântica

Dezembro, mês ou menstruação?

Jurupoca_51. 11 a 17/12/2020. Ano 2

Marte em foto da Nasa.
LISBON REVISITED (1923) – Fernando Pessoa em fase Álvaro de Campos

 Não: não quero nada 
 Já disse que não quero nada.

 Não me venham com conclusões!
 A única conclusão é morrer.

 Não me tragam estéticas!
 Não me falem em moral!
 Tirem-me daqui a metafísica!
 Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
 Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
 Das ciências, das artes, da civilização moderna!

 Que mal fiz eu aos deuses todos?

 Se têm a verdade, guardem-na!

 Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
 Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
 Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

 Não me macem, por amor de Deus!

 Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
 Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
 Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
 Assim, como sou, tenham paciência!
 Vão para o diabo sem mim,
 Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
 Para que havemos de ir juntos?

 Não me peguem no braço!
 Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
 Já disse que sou sozinho!
 Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

 Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
 Eterna verdade vazia e perfeita!
 Ó macio Tejo ancestral e mudo,
 Pequena verdade onde o céu se reflete!
 Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
 Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

 Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
 E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! 

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). / ARQUIVO PESSOA

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Eta dezembro brabo. Tá craude bro. É menos mês que menstruação. O comercial do Chester Sadia pede um Sal de Fruta Eno Tutti Frutti para descer.  E ninguém bebeu nada, ainda. A coisa não alui, só isso. Não é mais novembro e ainda não é janeiro, e o intermezzo é uma caçoada dos infernos.

A mensagem de fim de ano da Globo é outro porre de tubaína. Quanta celebridade criança esperança! no Projac e no Jardim Botânico a brincar de costas pra ela, a roda-dança da morte carioca.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

A morte de Michael Corleone

Coppola aplainou a compreensão de seu grande filme, ao remontá-lo como desejavam ele o roteirista Mario Puzzo, a quem o título em inglês homenageia. O final da saga O poderoso chefão ressurge fresco e inteiro, capaz de recompor a alma desconsolada de um amante do cinema. Os urros da dor de Michael na escadaria do teatro, diante do corpo morto de Mary, a filha preferida que lhe dava sentido ao viver, nos provoca compaixão por um ser humano monstruoso, assassino do próprio irmão, do filho de seu pai e de sua mãe, como ele diz ao confessar, numa explosão de choro, ao cardeal que logo se tornaria o trágico João Paulo I. Como escreve Javier Cercas, “é esse (…) o lugar eticamente equívoco a que a grande arte nos conduz, e com a qual, precisamente por isso, nos enriquece, permitindo-nos vislumbrar, de nosso posto de leitor ou espectador, áreas de experiência às quais muito provavelmente, felizmente, nunca teremos acesso, e de outra forma nem ousaríamos espreitar”.

Ópera mafiosa

Coppola e Puzzo, neste final, durante e depois da encenação de Cavalleria Rusticana no teatro de Palermo, realizam o epílogo de sua própria ópera sobre a máfia, paralelamente à de Pietro Mascagni, e ao mesmo tempo revelaram no cinema a grande beleza do gênero que já foi a mais popular das formas de representação e hoje perdura praticamente como memento, lembrança, para o deleite de poucos aficionados. Mas talvez a própria arte hoje sobreviva como lembrança em um mundo que afinal conseguiu destruir todas as idealizações do espírito.

A pedofilia com RP

As relações públicas, braço da comunicação social engajado com quem pode pagar pelo serviço, também atendem a um gigante como o Pornhub: 3,5 milhões de visitas por mês, entre as dez maiores potências da internet e à frente de Netflix, Yahoo e Amazon. O portal ajuda cidades a limpar a neve das ruas e investe em instituições antirracistas. Durante a pandemia liberou conteúdo grátis para favorecer o isolamento social. O conglomerado de vários canais de pornografia, com quartel general no Canadá e sede fiscal em Luxemburgo, está infestado de vídeos de estupro e violência contra adolescentes. Essa história é contada em reportagem de Nicholas Kristof, colunista do New York Times. Como no Youtube, os usuários podem postar seus vídeos pessoais na plataforma. Meninas apaixonadas gravam vídeos para namoradinhos pilantras que vão parar nas teias do Pornhub, como estoques de cenas de mulheres no banho ou no vestiário tomadas por câmeras espiãs. No Pornhub é fácil baixar esses vídeos e compartilhar com colegas de ginásio. Depois disso se tornam eternos na internet. Kristof relata tragédias pessoais de crianças terminadas em abandono, dependência química e suicídio. O feminista prafrentex Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, acusa Kristof, não move uma palha para expulsar o antro bilionário de seu higiênico país.

Espelho

A excitação pornográfica é o reflexo necessário de um mundo deserotizado.

Um sonho!

A sonhada democratização da informação com o advento da internet se realiza plenamente na pornografia.

Retratos da pandemia

Sem a distração das viagens internacionais e o turismo de shopping, a pandemia expõe a insignificância de quem não sabe o que fazer da vida.

E passa a récua!

O Corona Kung Flu continua matando, e a récua —coletivo de bestas, o mesmo que canzoada, farândola, cáfila ou parranda — não se dá por vencida. O general da banda e da Saúde vai à frente da comitiva, logo atrás do guia, Sua Excrescência presidente Jumentíssimo, o Franco, e do colega do Meio Ambiente, um adventista dos Santos do Aquecimento Global. Em seguida no tropel avistam-se o bonecão inflável que governa São Paulo, os líderes do Senado e da Câmara, os garantistas e os manobristas da Constituição e todas as autoridades civis e militares do Rio de Janeiro. O governador das Minas do Matos Gerais, Zema-Zen, trota firme no cortejo, mas fica na moita. É difícil saber onde ele está e o que anda aprontando, cê besta!

Abaixo o espanhol!

Uma récua nacionalista e extremista luta na Espanha para abolir o espanhol! Esses supremacistas — se acham mais puros e melhores que os outros — querem impor o euskera e o catalão sobre a língua de Cervantes. A depender da lei, vão conseguir. Só faltam queimar literatura espanhola em praça pública. Mario Vargas Llosa comenta e lamenta cada ato dessa opereta macabra.

A Vale em Marte

Marte é bem feiosinho. O planeta parece ter infinitas jazidas de minério de ferro. Deviam mandar a Vale pra lá. Faria muito bem a Minas, à paisagem que resta e a quem vive perto de suas barragens.

Imagem de Marte tomada pelo veículo espacial da Nasa.

Lobo mau, uma fábula pandêmica

Em seu passeio bem contente pela estrada afora até Tiradentes, ainda no meio do ano, o correspondente desta Jurupoca descreveu uma cena futura: quem enchia bares e daí, baladas, era o lobo mau em pessoa. O malvado acabaria por levar o Corona para a vovozinha, adocicado por carinhos e beijinhos.

Data vênia (1)

Como todo analista político sabe, a suprema corte tem ministros garantistas e manobristas da carta magna. O maior dos garantistas é o novato “Nosso Kassio”, cujo lema reza: “Mateus, primeiro os teus”. Um garantista, claro, pode se tornar de repente manobrista e vice-versa.

Data vênia (2)

Para o ministro Gilmar Mendes, o comentarista político e pop star Reinado Azevedo é “Nosso Reinaldo”. E Reinaldo, ao mesmo tempo, é um garantista quanto a Gilmar e um manobrista no que tange ao garantista “Nosso Kassio”, e vice-versa.

Tudo um saco

Não se vende mais disco, streaming é uma roubada, direitos autorais raramente bancam luxos, e o Corona barra a realização de shows. Alguns artistas entraram na pinda pra valer. Os mais sensíveis se irritam ao fazer lives, de onde ainda tiram algum, como as promovidas pelos canais do Sesc e Blue Note. Há quem tenha que alimentar famílias numerosas, já na terceira geração, de candidatos ao estrelato. Sem falar de quem descobriu, graças ao Corona, as delícias do engajamento e as maravilhas das redes sociais. Como Raul, acho tudo isso é um saco: engajamento, fã-clube e o colunismo de rede social, que nos atualiza sobre quem posou de pijama ou fez bundalelê no sítio.

Ah, cuá.

É preciso tocar o barco. Para 2021, prometo que me reinvento e me reciclo. E saio da zona, da zona de conforto!

Vale a pena ver de novo

Jornalista cultural abandona a zona de conforto e se agarra como pode à primeira oportunidade que aparece. Foto: Shamus Culhane/FP_PRESSE

«O triunfal regresso de Sonny Rollins. Yahvé M. de la Cavada escreve no El País sobre o lançamento de Rollins In Holland, gravações de 1967 em excelente estado, recuperadas com a supervisão do saxofonista de 90 anos, o maior do músicos do jazz ainda vivo, e lançadas em LP triplo e CD duplo.»

Último Noel

Nana Caymmi canta — e como canta — Último desejo, de Noel Rosa (originalmente faixa A2 do LP Chora brasileira, de 1985).

E Paulinho da Viola interpreta — e como interpreta — Pra que Mentir, de Noel e Vadico (faixa B1 do LP Memórias cantando, de 1976).

O acompanhamento de Hélio Delmiro (violão) e Rafael Rabello (7 cordas) envolve a voz de Nana Caymmi como um presente luxuoso,  e Nana é capaz de transitar de um grave sensualíssimo a um quase sussurro. O efeito é segurar a música no espaço, enquanto a ouvimos, como num chiaroscuro de Rembrandt.

Último desejo  é a segunda das 10 canções de Noel mais buscadas na rede. Foi muito e esplendidamente gravada por Aracy de Almeida, Isaurinha Garcia, Bethânia, Gal, Ney Matogrosso, o português António Zambujo, como fado, (inclusive juntos, Zambujo e Ney, num encontro memorável)… muita gente bamba.

O samba foi composto em 1937, mesmo ano, ou começo de ano, de Pra que mentir, veja você, com a Indesejada das gentes batendo à porta de Noel, debilitado pela tísica, para finalmente entrar em 4 de maio.  No mesmo ano foi gravado por Aracy de Almeida, em julho, e lançada pela Victor em maço de 1938, conforme o site Discografia Brasileira (IMS).

Pra que mentir, registrado por Silvio Caldas em 1938, também pela Victor, veio a público em fevereiro do ano seguinte.

Há inúmeras boas versões, como a magnífica de Caetano Veloso, mas Paulinho da Viola, acompanhado apenas pelo violão do pai, César Faria (Benedicto Cesar Ramos de Faria), adentra o território do sublime.

Dizem os biógrafos de Noel que essas duas canções se inspiraram, como outras em sua obra, na mocinha Ceci, dançarina de 16 anos do Apollo, um cabaré da Lapa carioca, que ele conhecera em 1934.

As letras não por acaso se tornaram clássicas, patrimoniais.

A aguda dramaticidade de Último desejo só é superada por estes versos de Pra que mentir: “…Se tu sabes que eu te quero/ Apesar de ser traído/ Pelo teu ódio sincero/ Ou por teu amor fingido…”.

 ÚLTIMO DESEJONoel Rosa

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre, hoje, sem foguete
Sem retrato, sem bilhete
Sem luar e sem violão

Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero seus beijos
Mas meu último desejo
Você não pode negar

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

E às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim

PARA QUE MENTIR – Noel Rosa e Vadico

Pra que mentir
Se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?

Pra quê? Pra que mentir?
Se não há necessidade de me trair?

Pra que mentir, se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?

Pra que mentir
Se eu sei que gostas de outro
Que te diz que não te quer?

Pra que mentir
Tanto assim
Se tu sabes que eu já sei
Que tu não gostas de mim?

Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero
Ou por teu amor fingido. 

Chavões para abrir o Brasil

Jurupoca_50. 4 a 10/12/2020. Ano 2

Na última sexta-feira (27/11) me surpreendi com esse efeito de luz , fundo e flor.
Cascatinha do Parque Municipal Renné Gianetti, no Belo.
 
LA VIDA NUEVA – A VIDA NOVA

 MI DIOS ES HAMBRE — MEU DEUS É FOME

 MI DIOS ES NIEVE — MEU DEUS É NEVE

 MI DIOS ES NO — MEU DEUS É NÃO

 MI DIOS ES DESENGAÑO — MEU DEUS É DESENGANO

 MI DIOS ES CARROÑA — MEU DEUS É CARNIÇA

 MI DIOS ES PARAÍSO — MEU DEUS É PARAÍSO

 MI DIOS ES PAMPA — MEU DEUS É PLANÍCIE

 MI DIOS ES CHICANO — MEU DEUS É AFRO    
     
 MI DIOS ES CÁNCER — MEU DEUS É CÂNCER

 MI DIOS ES VACÍO — MEU DEUS É VAZIO

 MI DIOS ES HERIDA – MEU DEUS É FERIDA 
          
 MI DIOS ES GHETTO — MEU DEUS É GUETO

 MI DIOS ES DOLOR — MEU DEUS É DOR

 MI DIOS ES — MEU DEUS É

 MI AMOR DE DIOS — MEU AMOR DE DEUS 

Poema do Chileno Raúl Zurita que teve seus versos formados no rastro de pequenos aviões no céu de Nova York. Extraído do livro Tu vida rompiéndose, Penguin Randon House. Livre tradução de quem vos escreve. Zurita também é autor de poemas escritos (e inscritos) no deserto de Atacama. Um fragmento da performance, ocorrida em 2 de junho de 1982, pode ser visto neste vídeo:

Cascatinha, Parque Municipal Renné Gianetti, BH
Nesse mundo imundo só se escuta a teia da
Teq, teq, tequiri, brode, brode, brode, chá
Nesse mundo imundo só se escuta a teia da
Teq, teq, tequiri, brode, brode, brode, chá

Frufru manera, Frufru manera, Frufru
Frufru manera, Frufru manera, Frufru

 

Trecho de Manera Frufru, manera (Raimundo Fagner e Ricardo Bezerra), canção-título do álbum de Fagner lançado em 15 de maio de 1973, com produção de Roberto Menescal e arranjo de Luiz Cláudio Ramos.

“Versão gravada em 1972. Sobras de estúdio do álbum Manera Frufru Manera”, conforme o canal do YouTube Mucurype 49.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

É só catimbó e o Chicó tá no icó tralalá…

Sou reservista. 5ª Categoria, mas honrado reservista (incluído no “excesso de contingente” de 1980, Certificado da 4ª Região Militar do Ministério do Exército Nº 153652).

De 5ª Categoria são os reservistas que tocavam e cantavam Para não dizer que não falei das flores com a patota inebriada de Brahma e bongo (o mesmo que bagulho). Primeira classe tinha quem cantava Sabiá.

Neste instante estou disposto como uma gaivota a servir a pátria. Vosmecê sabe, a gaivota é uma ave marinha típica das Minas dos Matos Gerais.

E aqui — o Itamar Franco se ufanava disso — temos pólvora, chumbo e bala (apud op. cit. Milton Nascimento & Tavinho Moura).

Nós queremos é guerrear Xi Jinping.

Se a guerra contra China for declarada, aux armes, citoyens! Formez vos bataillons! Marchons, marchons. Qu’un sang impur abreuve nos sillons!

Brasília vai lançar foguete contra os amarelos e dedetizar o Super Corona Kung Flu que eles criaram. Xi Jinping e Kim Jong-un vão contra-atacar.

E até dizem que dessa vez é pra valer: Cuba lança!

E quero ver Cuba lançar!

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

A arte de não abandonar a zona

Confessei, numa furtiva lágrima, numa das primeiras Jurupocas, que o mais gabaritado coaching seria um rematado picareta aqui na redação. Um padre faria um trabalho melhor. Como jornalista inativo, não me reciclei, não me reinventei, não saí da zona, da zona de conforto, não aprendi a fazer biscoito, cookie nem pamonha para fora; criar galinhas poedeiras, então, que utopia! Para não lembrar que quando ouço falar em marketing, mormente “marketing digital”, me segura!, ou pulo do Viaduto das Almas.

O que serei quando crescer

Acho que tenho talento para influenciador analógico! É o que quero ser quando crescer. Como não havia pensado nisso? Precisou de um gênio, Sir Gordon Jô Soares, se definir como tal, influenciador analógico, numa cartinha ao nosso, quer dizer, vosso “ExcelentíSSimo!” (sic) presidente, para que a Ju acordasse e vislumbrasse seu target e seu benchmarking (com o perdão da pornografia) neste mercadão de meu Deus.

Influenciador digital x influenciador analógico

O influenciador digital é quem tudo sabe e tudo ensina sobre cada retalho de uma colcha de retalhos. É capaz de isolar e dividir para “monetizar” um retalhinho assim de nada em pixels, bits e bytes, tudo em inglês, claro. Já a tarefa do influenciador analógico é dura e altruísta. A este profissional cabe referenciar um retalho com outro retalho e outro conjunto de retalhos de uma colcha de retalhos, o antigo contexto. E ninguém entende nada! Perde a paciência. O digital não precisa ter esses cuidados, afinal digitalizou-se também a história. E o tempo (antes, agora, depois) liquefez-se. O digital influencer tem mais é que ir em cima do clic e do stream, e bater bola no Insta, no Face e por aí, tá sabendo; já o analogic… coitado dele.

Uma rara foto do autor da Jurupoca

Jornalista cultural e futuro influenciador analógico, o titular da Ju, um leitor de poesia e ouvinte de música antiga (MPB) agarra-se, para sobreviver, à primeira oportunidade que aparece.  Mas ninguém o tira da zona, de conforto, isso não! Foto: Shamus Culhane/FP_PRESSE 

Poetar é preciso, viver…

“O dia que se deixe de escrever poesia, acabará a Humanidade”, diz o poeta chileno Raúl Zurita, galardoado na Espanha com o prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana. Na mesma entrevista ao El País ele compara o ofício do poeta ao do engenheiro. “Se cai uma ponte pode morrer muita gente, se um poema cai não acontece nada. Mas é muito mais difícil erguer um poema que uma ponte”. Outra do Zurita, agora em conversa com o catalão El Cultural: “A poesia está mais perto do sofrimento real que qualquer outra literatura, por isso é importante escrever poesia agora, ainda que não se leia”, reflete, sugerindo que os poetas devam olhar para as angústias e incertezas da pandemia. Acho que já disse nesta Ju do gosto que tenho por descobrir um grande poeta, seja onde for. Zurita, até onde sei, não é traduzido no Brasil, o que é notável, isto é, notável desinteresse dos editores. O Chile é um país de grandes escritores e tem dois poetas nobelados.

“Irracionalmente relevante”

Andrés Seoane, no El Cultural, lembra no papo com Zurita outro proeminente ficcionista chileno: Alejandro Zambra, para quem o Chile é “um país literário, onde a poesia, curiosamente, é irracionalmente relevante”.

Pornô com “diversidade”

Helahoho! helahoho! Houve um tempo no Brasil em que alguém ainda citava num boteco dois versos de Bandeira, um poemeto de Drummond ou um soneto do Álvares de Azevedo. Agora nem letra de música — gênero vizinho da poesia e que ensinou muita gente o português — mais importa. Toca-se, canta-se e reporta-se qualquer coisa, inclusive o pornô, desde que um pornô com correção política e selo de “diversidade”.

Enquanto isso, no ex-caderno de ex-cultura
mais vanguardeiro da América do Sul…

Os meninos da Barão de Limeira são uns danados, sô. Agora nos revelam, leitores ávidos que somos, a geopolítica da modernidade dos jogos eletrônicos. A Ilustrada, tal ex-caderno, nos próximos capítulos vai nos trazer o que a Hungria de Viktor Orbán e a Bielorrússia de Lukashenko têm de culturalmente mais diverso, embora nesses países, a democracia pene. E a Eslovênia vem aí. A Polônia, berço de literatas como Wisława Szymborska e Olga Tokarczuk, cada qual com seu nobelzinho, foram bem esquecidas. Claro, na música erudita ou no cinema, o país também teria muito a declarar, ontem e hoje, mas isso não tem nada a ver, e onde já se viu um gamer se interessar por outra coisa além games? A Polônia, pobre Polônia, violada por nazistas, soviéticos e autoviolada, agora é potência e vanguarda desse novo gênero de lazer elevado a 9ª ou 11ª arte pela Ilustrada: os jogos eletrônicos, e nada mais vem ao caso. Mas a “democracia pena” por lá. Como pode? Nem uma pista histórica? E a Iara Rennó?, artista genial que “expande os limites da música”. Um Bach, se vivo estivesse, invejaria tal expansão de limites. Disco erótico? Matutamos na redação se o menino ou menina que escreveu a matéria terá ouvido a trilha de Emanuelle, ou o mela-cueca-e-calcinha de primeira que foi Je t’aime moi non plus, com Jane Birkin et Serge Gainsbourg.

Cuba e o negacionismo da esquerda garnisé

A vida do artista inconformado não é fácil lá na Ilha do Fernando Moraes, do Chico Buarque, do Boulos, da Gleisi Helena Hoffmann. Como se sabe, Cuba é um país livre, y cual solamente puede ser libre, e ai de quem não é! A quienes no son solamente libre, os rigores da cana brava e da prensa oficial (digital e analógica). “A primeira coisa que a polícia política faz ao prender um artista é confiscar e desfigurar seu telefone celular”, fofoca o imperalista Rafael Rojas na revista mexicana Letras Libres, num despacho de La Habana. A greve de fome de integrantes do Movimiento San Isidro, coletivo de jovens artistas e intelectuais desse bairro paupérrimo, terminou com a  borracha comendo. A turma protestava contra a sorte do rapper Denis Sólis, que vai curtir oito meses com vista para o sol enquadrada. O coletivo está cheio de “marginais”, “delinquentes”,  “agentes do imperialismo”, como se soube pelas revelações do regime em seus jornais e perfis nas redes sociais. Na Ilha amiga do PSOL e do PT, o regime decide no decreto quem é ou não é artista ou pode ou não pode fazer cinema independente. A reportagem da Ju tentou ouvir o outro lado, a franja cubófila da nossa esquerda garnisé, hoje de muito boas relações com o “mainstream” do jornalismo nacional, mas até o fechamento desta edição, nada.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (1)

Muita saúva, pouca saúde, os males do Brasil são. Mário de Andrade bem que tentou diagnosticar nossa problemática essencial no Macunaíma. Bola fora! Muita saúva, pouco Siúves, os males do Brasil são. A emendava do saudoso colunista Marcelo Rios saiu-se ainda pior. Os índices depravados da má qualidade da educação fundamental e o cocô de metade do país a escorrer por ruas e valas (olha a perpetuação da pobreza aí, gente!), os males do país são. Na, na, ni, na não. A obscenidade da administração pública, o roubo, o sistema de casta do funcionalismo estatal e da Justiça, os planos econômicos delirantes, os males do Brasil são. Ih, tá frio, frio, tá gelado. Nada disso ajuda ninguém mais a pensar direito. Triste Brasil! ó quão dessemelhante. Não sei se ainda se se pode, impunemente, parafrasear o Gregório de Matos sem “direito de fala”. Pode? Cartas para a redação.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (2)

A imprensa virou uma câmara de eco das redes sociais. Ecos são modas, e todo mundo sabe de tudo desde os cueiros, até que venham novas ondas e modas, novos escândalos, novas gravações quentinhas. Obras seminais sobre escravidão, formação da República, analfabetismo, política oligárquica, patrimonialismo etc., que escarafuncham nossa história com ou sem imaginação, caíram do galho. Anuncia-se para qualquer momento a tradução do país segundo o “lugar de fala”. Vêm aí o Gilberto Freire, o Sérgio Buarque de Holanda, o Raimundo (ou Raymundo) Faoro, o Darcy Ribeiro capaz de revisar tudo sem a miopia da branquitude, como se sugeriu no último Foro de Teresina. Espera-se o advento de um diplomado em Harvard capaz de encaixar a “cultura do estupro” e o “racismo estrutural” na equação.  Asseiam por novas chaves gerais, boas para abrir as portas da esperança no Brasil, e para iluminar nossa natureza e nossa miséria.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (3)

Chaves ideológicas dão hashtags e desaguam no mar teorético, quando sabem a chavões. Chaves gerais abrem cabeças, como o serrote daquela revista. Talvez nos façam menos burros, mais humanos, outra gente que, enfim, vai brincar na nova ordem moral o Carnaval da Democracia.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (4)

Chaves gerais abrem os portais do Brasil, da nacionalidade, da “cultura” disso e daquilo, dos vícios e perversões totalizantes. Afinal, mostram que nada pode ser feito contra realidades “estruturais” e estruturantes, até que caiam as estruturas. Gestores públicos e a velha (ou a nova) política tricotada no Parlamento vão dormir em paz, sossegados para cuidar de seus afazeres, lobbies e pecúlios. Até que caiam as estruturas.

Nossos comerciais, por favor!

Peroba que é madeira. Paca/tatu que é caça. Correinha que é primeira. Correinha que é cachaça. Bote mais uma!

Coppola e o Poderoso chefão 3, coda

O elenco de O poderoso chefão — Desfecho…
Francis Ford Coppola fala sobre O poderoso chefão — Desfecho: A morte de Michael Corleone e explica o sentido do termo “coda” (no título em inglês) emprestado da linguagem musical para rebatizar o filme

«Como Francis Ford Coppola regressou para fazer O poderoso chefão — Desfecho: A morte de Michael Corleone. No New York Times. A nova versão estreia nesta quinta (3) e na terça-feira (8) estará disponível em várias plataformas de streaming: Claro, Sky, Apple TV, Google Play, Vivo, Oi, Xbox Video e PlayStation Store. O longa-metragem foi remasterizado com resolução 4K. O título, em inglês Mario Puzo’s The Godfather, Coda: The Death of Michael Corleone  (O Poderoso Chefão  de Mario Puzzo, coda: A morte de Michael Corleone) valoriza o trabalho de Puzzo (1920-1999), roteirista da saga e autor do romance no qual a trilogia é baseada. A remontagem retoma ideias de Puzzo e Coppola, hoje com 84 anos, recusadas pelo estúdio há 30 anos. O filme, com um novo começo, um novo desfecho e cenas reposicionadas, volta ligeiramente encurtado. »

«A amarga verdade de La dolce vita. No El País.»

«Brasil viveu ‘utopia’ de que internet seria democratizante, diz pesquisador. Entrevista com Francisco Brito Cruz, autor do livro Novo jogo, velhas regras. Na Folha de S.Paulo

«Emmet Cohen Trio feat. Cyrille Aimée: “La Vie en rose”. A live gravada na casa da jazzista francesa está há menos de um mês na youtubaria e já foi vista, quando enlaçada aqui, 234.613 vezes. E quem ainda não viu é mulher do padre!»

«Eu moro dentro da casca do meu violão, com João Bosco. 4º e último episódio. É do balacobaco. Ouçam João em Corsário , canção que parte do Adágio do Concierto de Aranjuez, do espanhol Joaquín Rodrigo, e Amigos novos e antigos, inspirada em uma música do disco Abbey Road dos Beatles, Sun King, em que John Lennon diz a palavra “obrigado”. Ambas são dele e Blanc.»

Ê, Minas, oh Minas

Paulo César Pinheiro é letrista de mão cheia, fabuloso, ninguém pode negar. É autor da épica Matita Perê (com Tom Jobim, do disco homônimo de 1972) e de Desenredo (encomenda de Dori Caymmi), uma canção singela sobre vida, morte e a consolação do amor.

Ambas se inspiram em Minas Gerais e na obra de João Guimarães Rosa, evocadas no imaginário dos artistas em foco neste Intervalo.

Em uma entrevista a Ana Clara Brant para Estado de Minas sobre a história dessa composição, em que lembra seus dias no estaleiro, depois de romper o tendão do calcanhar numa fatídica pelada, Dori se apresenta como “33,3% baiano, 33,3% carioca e 33,3% mineiro”.

Nasceu no Rio, fruto da união do baiano Dorival com dona Stella Maris, mineira de Pequeri, vizinha a Juiz de Fora, onde os Caymmi têm casa e onde Nana cumpre esta quarentena.

Sobre a influência de Rosa, César Pinheiro disse ao jornal:

“De tanta paixão, acabei assimilando aquela maneira de escrever. Rosa me ensinou a amar o sertão mineiro; foi a partir da literatura dele que procurei saber tudo. Conheci Minas em seus livros e só depois fui conhecê-la in loco. Quando me casei com a Clara [a cantora Clara Nunes], ela desbravou muitos lugares comigo”.

Desenredo foi composta e lançada por Nana Caymmi em 1976, no LP Renascer. Ela canta a faixa acompanhada pelo violão do mano e um fundo de cordas. Mas vale a pena dar uma olhadela na estelar ficha técnica desse álbum:

João Donato: Piano
Dori Caymmi: Violão, piano
Nelson Ângelo e Milton Nascimento: Violão
Danilo Caymmi: Violão, flauta
Fernando Leporace e Novelli: Baixo elétrico
Luiz Alves: Baixo acústico
Hélio Delmiro: Guitarra
Robertinho Silva: Bateria
Rubinho: Bateria e percussão
Direção de produção e arranjos: Dori Caymmi

Gosto tiquinho mais da gravação de  Edu Lobo no álbum Tempo presente (1980), com participação de Dori no canto. O arranjo, mais uma vez de Dori, é ensolarado como uma manhã de Cordisburgo. Nas duas gravações, seu violão autoral é a alma do negócio. Eis a ficha técnica:

Café: Chaves e coco
Chico Batera: Sino e triângulo
Edu Lobo: Pau de chuva
Chiquinho do Acordeom (Romeu Seibel): Acordeom
Dori Caymmi: Violões
Luiz Alves: Contrabaixo

DESENREDO – Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Por toda terra que passo
Me espanta tudo o que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso

Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tramas/tranças do teu desejo

O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo
O olhar que assusta anda solto/morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tramas do teu segredo

Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe

A cera da vela queimando
O homem fazendo o seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo 

O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte indefeso
Mas quando eu chego eu me perco/enrosco
Nas cordas do teu cabelo

Delícias da pindaíba

Num gesto largo, liberal e moscovita do autor da Ju, os diários de viagem de 2019 estão de volta ao blog

Jurupoca_49. Belo. 27/11 a 3/12/2020. Ano 2

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Altruísta como só ele, o autor da Ju reabriu aqui seus diários de viagem de 2019, num gesto largo, liberal e moscovita, para citar o Álvaro de Campos.

Os diários integram o livro divulgado ao pé dá carta, Turismo cultural e literário na Europa. Reaparece também por aqui o Inferno em Florença, outra crônica de viagem, anterior, depois reescrita e incluída no livro. Debalde, esse texto foi oferecido à Piauí, na honesta tentativa de um jornalista desocupado cavar uns caraminguás, alguém que poderia estar por aí, afanando, trucidando, currando etc.

A revista do Moreira Salles por sinal anda embirrada com a The New Yorker, na qual se decalca na origem, e de onde tirava o suprimento de suas melhores páginas, sempre muito bem traduzidas.

Vai ver que é isso. O Alcino Leite Neto e o José Roberto de Toledo, editores executivos da publicação criada e servida por João Moreira Salles, não dão bola para a marginália fora do “Eixo Rio-Sumpa”, logo um mineiro, residente a menos de 600 quilômetros de Poços de Caldas!, onde os Moreira Salles se estabeleceram.

Mas deixemos de prosa. Aos enlaces, a quem interessar possam:

Diário embriagado de Berlim

Diário congelado de Copenhague e Milão

Diário apaixonado de Trieste

Inferno em Florença

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Das delícias da pindaíba

Um alma poética consegue achar uma ou outra vantagem na dureza, acredite. Duro é quem vive de brisa, sem um puto para beliscar uns profiteroles na padaria da esquina. Se você não pode viajar, viaje ao redor de seu quarto. Não pode se dar ao luxo de novas aquisições de livros? Não morra por isso. Um leitor na pinda sempre tem a redescobrir delícias empoeiradas em suas estantes. Quem sabe ele não terá à mão (e nos braços fortes), e nem se lembra disso, as 1274 páginas (fonte Haarlemmer, corpo 9.5, 1,2 kg) de O homem sem qualidades, o romance inacabado! de Robert Musil, genial romancista austríaco do século 20 comparado a Joyce, Kafka e Proust, hoje desconhecido até dos corretores ortográficos. É leitura para mais de mês. Ou o humor fino e diabólico de Evelyn Waugh no breve (154 págs.) O ente querido. A maior graça de Waugh é fazer seu leitor se sentir mais vivo e inteligente do que é e está.

Abanando o rabo no céu

Em O ente querido, Dennis Barlow é um poeta inglês pilantra, desempregado como roteirista de Hollywood. Ele insiste em ficar nos EUA, e para pagar as contas e o uísque com soda no Clube de Críquete, trabalha numa funerária de pets. Aqui, ainda no início da novela, Barlow atende à chamada de uma senhora milionária, devastada pela perda de seu cachorro, Arthurzinho, atropelado por um caminhão de entregas. Barlow dirige a van preta da empresa rumo à mansão da Via Dolorosa, 270, onde é recebido pelo marido da grã-fina, o sr. Heinkel. Logo desfia o rosário de um papa-defunto de escol para empurrar na freguesia o que a Campo de Caça Mais Feliz tem do bom e do melhor, e mais caro, a oferecer. Nesse caso, os cuidados póstumos de Arthurzinho, um membro da família:

— Com disse?

— Enterrar ou queimar?

— Queimar, eu acho.(…)

— E os ritos religiosos? Temos um pastor que está sempre disponível para ajudar.

— Bem, senhor…?

— Barlow.

— .Senhor  Barlow, nenhum de nós é o que o senhor poderia chamar de pessoas muito devotas, mas acho que numa ocasião como esta a senhora Heinkel desejaria todo o conforto que vocês puderem oferecer.

— Nosso serviço classe A inclui vários itens exclusivos. No momento da cremação, uma pomba branca, simbolizando a alma do falecido, é solta acima do crematório.

— Sim, disse o sr. Heinkel —, calculo que a senhora Heinkel gostaria da pomba.

— E todo aniversário é enviado um cartão de cumprimento sem taxas adicionais. O cartão diz: Seu Arthurzinho está pensando em você no céu hoje e abanando o rabo.

— É um pensamento muito bonito, senhor Barlow.

— Então, basta o senhor assinar o pedido…

Bodes não abanam o rabo

Mais à frente em O ente querido, um Barlow assoberbado pelo trato crematório de canários, cães e gatos, vítimas de uma onda de envenenamento no sul da Califórnia, delibera com o sr. Schultz, seu empregador, sobre o caso excepcional de um bode despachado para o além aos cuidados da Campo de Caça Mais Feliz.

— Agora estou indo embora — disse o sr. Schultz. — Você poderia, por favor, esperar até que [as cinzas] estejam frias o bastante para embalar? São todas para entrega domiciliar, menos a gata. Ela vai para o columbário.

— Certo, senhor Schultz. E quanto ao cartão do bode? Não podemos propriamente dizer que ele está abanando o rabo no céu. Bodes não abanam o rabo.

— Eles abanam quando vão ao banheiro.

— Sim, mas isto não ficaria bem no cartão de cumprimentos. Eles não ronronam como gato. Não cantam uma oração como os pássaros.

— Imagino que eles apenas se lembrem.

    Dennis escreveu: Seu Billy está se lembrando de você esta noite no céu.

Entes Queridos e Entes à Espera

O venenoso Waugh compara o Campo de Caça Mais Feliz aos serviços funerários do verdadeiro Éden higiênico e poético das Clareiras Sussurrantes, luxurioso campo santo hollywoodiano onde não se fala absolutamente em defunto ou cadáver, nem se pronuncia o nome do de cujus. São aos “Entes Queridos”, em vez disso, a quem se destinam os serviços classe AAA daquela MGM das necrópoles. Já para os vivos, isto é, “Entes à Espera”,  existe a previdente Reserva Antes da Necessidade.

Negar o negacionismo (1)

Um crime filmado comove e move mundos e fundos compensatórios. Pois é. Os Entes Queridos brasileiros levados pelo Corona que podiam ainda estar por aí, como Entes à Espera, houvesse governo em Brasília, desgraçadamente não puderam ser filmados ao expirar. Sequer podem ser computados entre as mais de 170 mil almas da contagem oficial do consórcio de imprensa. Mas que existem, existem, ou existiam, tais almas. Ocorre que, como o sangue de Cristo, a negação do negacionismo tem poder. No pau de arara, as estatísticas da pandemia vão mostrar que nunca uma praga fez tão poucas vítimas na história deste mundo. E nada como um dia após o outro até o próximo Carnaval da Democracia.

Negar o negacionismo (2)

O negacionismo de Sua Excrescência Caveirão Jumentíssimo, o Franco, eleito no Carnaval da Democracia de 2018, é negado impunemente no Planalto-Centrão. Negar à “nação”, como se diz no New York Times, o impeachment é nosso modo institucional de negar o negacionismo. Ou estamos aqui nesta Ju a menoscabar nossas operantes instituições?

A tecnologia da indignação

O mundo do espetáculo vai ao paraíso com os telefones inteligentes. No mundo do espetáculo, a indignação é seletiva e intempestiva. Uma boa tragédia, injustiça ou covardia não existe sem um vídeo quente como uma hemorragia. Espancamentos, assassinatos, operações policiais, atropelamentos, avalanches, enchentes. Eis o menu do jornal da noite; eis o tempero amaro na boca e no semblante indignados de um Reinaldo Azevedo (note suas pausas dramáticas) ou de um comentaristas da “família Globonews”.

Equivalências trágico-midiáticas

Segue válida a “lei de McLurg” , formulada há mais de 50 anos por um eminente jornalista para estabelecer o valor relativo da notícia: um europeu equivalia a 28 chineses, e 2 mineiros galeses a 100 paquistaneses. Considerada a inflação do período, pode-se verificar no câmbio das agências noticiosas que um europeu sai hoje por 180 iraquianos, e 2 americanos por uns 350 afegãos.

McLurg por aí

Na mesma segunda-feira, 2 de novembro, quando se foram 4 almas em Viena, incluindo a de um terrorista, supostos atiradores talibãs fizeram 32 vítimas fatalíssimas na universidade de Cabul, no Afeganistão. Numa homenagem velada a McLurg, essa última notícia não coube no Jornal Nacional e em outros telejornais.

À sombra da indignação

O antirracismo é uma unanimidade no país, ao menos na mídia e sempre que um crime é filmado. A violência policial é coisa nossa, ou talvez o racismo possa mesmo explicar por si só por que se mata tanta gente todo santo ano. Além do racismo policial, haverá o racismo do tráfico, o racismo da milícia e o racismo puro. Uma certeza sucede outra e a indignação de ontem será amanhã uma sombra fugidia.

A viúva de Marielle

Já estamos na eleição da viúva de Marielle no noticiário, e ninguém sabe quem mandou matar a vereadora e seu motorista. Hoje, a morte do menino João Pedro, de 14 anos, uma entre tantas crianças pretas mortas por “bala perdida”, prova que essa forma de morrer incorporou-se à natureza majestosa do Rio; como o raio, o trovão e a roda de samba, não pode ser evitada. O caso de João Freitas segue a toada. Servirá para acordar o Carrefour para os benefícios da renovação publicitário-corporativa. Nas hostes de Sua Excrescência Caveirão Jumentíssimo, o Franco, disfarçaram mal sua excitação com as cenas do estacionamento do macabro supermercado francês; para essa turma, melhor pornô não há, a não ser, claro, as sessões oferecidas pelas milícias que regem a Zona Oeste do Rio.

Um país jovem

O Brasil é um país em permanente renovação. Como um idiota, nunca envelhece.

Dominguinhos & Chico

Chico Buarque é parceiro de Dominguinhos em duas canções: Tantas palavras, 3ª faixa de Chico Buarque (1984) e Xote de navegação, 5ª faixa de As cidades (1998). Ambas estão no núcleo das obras primas do nosso artista maior.

A letra da primeira tem duas versões, uma que é indigna da melodia de Dominguinhos e do próprio Chico, cantada por ele, Chico, na trilha da novela Sabor de mel (Ariola, 1983) e a versão definitiva, gravada no LP autoral do ano seguinte. Aí sim Chico se houve com a própria arte e com a música do grande parceiro.

A segunda letra é a que tem versos como “Trocamos confissões, sons/ No cinema,/ dublando as paixões/ Movendo as bocas/ Com palavras ocas/ Ou fora de si/ Minha boca/ Sem que eu compreendesse Falou c’est fini/ C’est fini”.

Tantas palavras foi arranjada por Cristóvão Bastos, e bastou (me permita, leitora amiga) para o resultado, mais que justo, agregar o acordeom de Dominguinhos aos teclados de Hugo Fattoruso, músico que há décadas acompanha Chico em shows e gravações.

Quinze anos mais tarde — contou Chico em entrevista recomenda na Ju#48 — ele teve a ideia de uma canção, um mote poético, e se lembrou de um dos temas que recebera do amigo e guardava numa fitinha K-7 durante todo esse tempo.

Era o Xote de Navegação, um rubi luminoso incrustado na tiara mais preciosa da canção brasileira.

Na mesma entrevista, Chico lembra que ao ouvir a letra cantada, já no estúdio, Dominguinhos não conseguia parar de chorar. Nos ensaios da gravação, tirava uma introdução atrás da outra na sanfona, cada uma mais bela que a outra, para não se lembrar depois do que havia criado, quando lhe pediam para tocar de novo, agora para valer.

O resultado é desses que revelam ou traduzem o poder da música. O acordeom dá o tom da melodia, arranjada por Dominguinhos e Luiz Claudio Ramos, que faz o violão. Entram Jorge Helder (contrabaixo), Ricardo Amado (violino) e Zé Menezes (José Menezes França), bandolim.

Se Tantas palavras é o romantismo levado à quintessência literária de uma letra de música, esse Xote de navegação é de salvar uma alma sem eira nem beira, ao fazê-la reencontrar o curso franco da existência ao navegar na barcaça onde ‘tudo, tudo passa/ só o tempo não”.

O tempo passa mas agora o vemos, ou flagramos, pois “passam paisagens furta-cor/ Passa e repassa o mesmo cais/ Num mesmo instante eu vejo a flor/ Que desabrocha e se desfaz”. É o tempo da “tua música”, da “tua respiração”.

Dominguinhos (José Domingos de Morais) tinha mesmo que, como se dizia antanho, prorromper em pranto ao ver sua criação ganhar uma nova espécie de vida, por meio da palavra.

TANTAS PALAVRAS – Dominguinhos e Chico Buarque (2ª versão da letra)

Tantas palavras
Que eu conhecia
Só por ouvir falar, falar
Tantas palavras
Que ela gostava
E repetia
Só por gostar

Não tinham tradução
Mas combinavam bem
Toda sessão ela virava uma atriz
"Give me a kiss, darling"
"Play it again"

Trocamos confissões, sons
No cinema, dublando as paixões
Movendo as bocas
Com palavras ocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou c'est fini
C'est fini

Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Quantas palavras
Que ela adorava
Saíram de cartaz

Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui

XOTE DE NAVEGAÇÃO – Dominguinhos e Chico Buarque

Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo
O afazer
Me pego em sonho
A navegar

Com o nome Paciência
Vai a minha embarcação
Pendulando como o tempo
E tendo igual destinação
Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa
Só o tempo não

Passam paisagens furta-cor
Passa e repassa o mesmo cais
Num mesmo instante eu vejo a flor
Que desabrocha e se desfaz

Essa é a tua música
É tua respiração
Mas eu tenho só teu lenço
Em minha mão

Olhando meu navio
O impaciente capataz
Grita da ribanceira
Que navega pra trás
No convés, eu vou sombrio
Cabeleira de rapaz
Pela água do rio
Que é sem fim
E é nunca mais




Liberadas para adultos

Adultos podem se entreter sem susto e sem surtos de acne com estas novas séries: Speakerine (Film & Arts) ambienta nos estúdios da TV francesa uma trama de crime e luxúria durante o mandarinato do general De Gaulle e a perigosa diplomacia na Guerra Fria. A britânica Gangs of London (Starzplay) reúne um elenco de primeira, tem excelente roteiristas e, para os chegados, a Ju está fora, esbanja violência. Já No man’s Land  (Starzplay) é um thriller sobre a Guerra Civil na Síria, na qual se mete um engenheiro francês, Antoine, em busca da irmã supostamente desaparecida. Esta classificação se baseia em um ou dois capítulos e poderá ser alterada sem aviso prévio, na próxima Ju.

Das delícias da pindaíba

Ver séries à vontade, para uma alma serena, é outro benefício da desocupação, enquanto se pode pagar a TV a cabo e a conta de luz.

Glórias que não dão cliques

Toninho Horta faturou o Grammy Latino de melhor álbum de MPB. Belo Horizonte foi lançado em maio do ano passado. Aqui e ali deram notas sobre o prêmio. Prêmio e glória, por festivos, dão cliques. Você não encontrará muito além disso. Nada de velharias como entrevista, crítica ou reportagem sobre o disco. Um artista da envergadura de Horta, cuja arte é celebrada há mais de 50 anos da Savassi, no Belo, a Asakusa, em Tóquio, com parada certa em Manhattan, já não passa no crivo dos ex-cadernos de ex-cultura de certos ex-jornais brasileiros. Os ex-cadernos favorecem antes games, influencers e, se você me permite, funkers com causa. Escute ao menos Aqui Ó!  Ficou um primor com a participação de João Bosco, ou Pedra da Lua, com Joyce Moreno.

E o que é diverso à diversidade?

Um tardígrado: única espécie sobrevivente ao jornalismo cultural contemporâneo

Atualizo e resumo um post de cinco anos trás, hoje ainda mais válido:

[1] Acossado pelo infantilismo,  patrulhado pelas milícias do pensamento, tangido pelo advento das redes sociais e das recompensas do caça-clique, o jornalismo cultural perdeu o norte, além do caráter. A geleia geral sem osso ou tutano um dia apontada por Décio Pignatari atomizou-se em farofa cibernética — e vende-se como Baconzitos empacotado com design exclusivo para cada tribo consumidora.

[2] Literatura, teatro e outras artes moribundas doravante só têm o que comunicar com seres errantes, como ursos brancos pendentes em blocos de gelos nos mares glaciais.

[3] Pepe Escobar, velho herói do jornalismo cultural brasileiro, tascava o “juvenilíssimo” que, à época, uma faixa entre os anos 1980 e 1990, predominava nas redações de cultura. E pensar que hipsters de academia, fofoqueiros multimídia, fãs de livros para colorir, Mondrians da cozinha e Rosas do vinho tomariam todas as posições.

[4] O próximo passo do jornalismo cultural será operar em modo algoritmo. O usuário terá o serviço completo em apps de entretenimento com menu de engajamento enviesado ao máximo: “gostei”, “não gostei”, “é demais”, “ri”, “rachei os bicos”, “fiz pipi”, “fiz cocô” etc. Vai assistir a vídeos, interagir com o editor, pautar a redação, contratar e demitir jornalistas. Toda a diversidade será contemplada, exceto o que for diverso à diversidade.

[5] A memória na diluição homeopática do espírito pelo jornalismo cultural desenvolveu seu próprio mal de Alzheimer. E ainda persiste o “vamos todos ligar o foda-se”, em massa, como blague, dos que ainda imaginam a possibilidade de ser livres!

[6] O jornalismo cultural logo vai incorporar como subgêneros, além dos games e do colunismo de rede social, a jardinagem e os cuidados com pets. Mas já incorporaram, não?

[7] Embora não sejam lidos, os poetas vivos sobrevivem no Brasil como entertainers ou, pior ainda, influencers. Suas chances crescem à proporção de sua adesão ao e-Tudo, e da capacidade de seus poemas emocionar no Instagram, além da correção política. Há quem literalmente se vista de palhaço. O mais constrangedor são os adolescentes semicalvos à beira das sete décadas a declamar seu batatinha-quando-nasce por aí, isto é, nas redes sociais.

[8] O provincianismo de metrópole só tem feito expor-se ainda mais no jornalismo cultural carioca e paulista, o que seria impensável há 40 anos.

[9] O leitor médio do jornalismo impresso só lia títulos e bigodes. No jornalismo para telefone inteligente, enxerga apenas as listas de mais clicados ؙ— e, satisfeito, se dá por informado.

[10] Está tudo dominado pelo Homo facebookensis.

El pibe de oro

Até a bola se entristece com o destino de Maradona

O fim de Diego Maradona me lembrou a velha frase atribuída a Eurípedes: Os deuses primeiro enlouquecem a quem querem destruir. Podem, os deuses, terem sido uns invejosos, e feito dele “o mais humano dos imortais”, no título lapidar do New York Times. Para quem ama o futebol e o viu em campo, fica o bailarino e coreógrafo e o compositor de trilhas silenciosas que ainda ouvimos quando ele parte com a bola e acende o fogo perpétuo do lance.

«Até dia 30 você pode ver o especial de Monica Salmaso e André Mehmari no Youtube, e quem sabe contribuir pagando um “ingresso consciente”. É o melhor produto cultural de 2020, uma produção impecável em arte e técnica. No piano de Mehmari, a música popular brasileira se faz intemporal, altiva e universal, e Salmaso, vem cá, canta como pouquíssimas estão cantando. A Mônica amou o comentário do primo Franquilim da Silva entre os youtubeiros: “Aplauso, aplauso, aplauso, aplauso, aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso… de pé… continua…”.

«Leila Pinheiro e GuingaCanibaile (Guinga e Aldir Blanc)»

«Se você ainda não ouviu o pianista islandês Vikingur Ólafsson, pode ser que ainda não tenha ouvido esse instrumento em tão boas mãos.»

JURUPOCA, O AUTOR
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Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas.

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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.