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O curador do ar invade o jornal

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— O curador do ar chega ao JS. Quer seu lugar no “espaço expositivo” das mentes, quer fabular Inhotins que durem o tempo de uma caminhada. Aprende o bê-a-bá do olhar.

— O curador do ar não aceita que alguém meio morto, ou já um tanto gasto, gaste suas horas a pensar em como estender a vida. As pessoas vão e vem falando em temperança e regime, e em doença, e o tempo escorre, ele já sabe. Quer olhar e ver, além de ouvir, onde esteja o que, aqui, já.

— No Largo do Sol, Parque Municipal, Belô, há uma pequena e desajeita pérgula rococó no centro do lago verde-musgo ocupada por uma garça negra, e aquém há uma Vitória Alada da Samotrácia a bater asas, em vão, até a mão dum Aleijadinho.

— O curador do ar aprendendo a olhar. Olha a bonita igreja do Sagrado Coração de Jesus em restauro, vê o tapume das obras e nota o contraste entre placas de madeira tingidas de preto e as chapas zincadas com marcas de oxidação esbatidas pelo sol manso. Vê a lisura da madeira contra o corrugado do metal.

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— Na pista da avenida dos Andradas, à margem do esgotão Arrudas, aonde sempre volta a caminhar, já se vão 30 anos, o curador do ar prende-se à passarela e ao movimento da gente indo e vindo da estação do metrô. Há beleza na linha horizontal sobreposta às três pistas e ao esgotão entre Santa Efigênia e Santa Tereza. Os passageiros entre as grades formam ângulos retos em relação à passarela e o movimento não é só do andar. Movem-se roupas, cores, bolsas, desejos, compras, dúvidas, mochilas, memórias, sacolas, transes, bonés.

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— O curador do ar ainda se surpreende com certas pichações, na permanência e anacronismo desse tipo de despojo individual na paisagem urbana, em geral pura imundície do atraso. Dadá e companhia estarão por aí, nos assombrando? “Viva o maoismo”, lê-se, contra a fachada do Shopping Bulevar, no 3.000 da Andradas.  O maoismo hoje é um sonho, um sonho de consumo bobo de revanche contra a liberdade. Ao lado, alguém declara aos interessados por meio de um possível slogan  LGBT ipsilone: “Mãe sou lésbica!”; contíguo à frase, um hater evangélico extraí o máximo da alma, do sumo de si mesmo. O desprezo pela ortografia deve ser outra forma de protesto.

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— O curador do ar pergunta-se sobre que tipo de mostra abriga a Grande Galeria do Palácio das Artes até 1º de julho. Anunciada nas paredes externas do espaço, para o pedestres na Afonso Pena et orbi, com frases de um lugar-comum de fotonovela (“Ardia de amor e se queimava”), será uma tentativa da artista de expor ao revés a frivolidade de algumas ideias soltas sobre o feminino? A imagem de divulgação ao lado não promete sequer um déjà-vu. Letal.

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3 O diário da sexta

O Santander e o patrocínio involuntário das artes

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Depois de censurar, ou, como se diz, descontinuar a exposição Queermuseu em Porto Alegre, subjugado pela lábia moralista de neobrucutus, o Instituto Santander Cultural continua a prestigiar nossa vanguarda artística. Que não se diga o contrário. No caso que aqui se relata, é verdade, o estímulo às artes visuais se dá à revelia da instituição multinacional e de seus curadores, até onde se sabe.

As marquises de uma agência premium (dir-se-ia gourmet?, afinal, suas propagandas mostram tantas comidas finas) do banco Santander em Belo Horizonte, estabelecida nas esquinas de Aimorés com avenida Brasil, diante da portentosa e repulsiva estátua do mártir mineiro, há muito abrigam moradores de rua desbancados. Com seus carrinhos de supermercado, trastes e panos e papelões, um grupo teima em passar suas noites ali, a despeito das diuturnas intervenções higiênicas do pessoal do Santander. Na manhã do último sábado (28/04), o transeunte que subia Aimorés, mal acostumado ao fedor das intervenções nada higiênicas dos sem teto, podia deparar, além da ausência dos maus odores, algo novo e raro no local. Uma obra de arte contemporânea fora concebida e era exposta gratuita e universalmente no local.

Santander4A técnica usada pelos artistas anônimos na obtenção do fundo negro e a dilatação do pigmento cinza que revistia a fachada podia (peço licença poética) ser chamada de carbonização aleatória conjungada ao happening culinário, que consiste no aquecimento de uma panela de sopa com letras de macarrão, batatas da xepa e migalhas de carne. Um cinzel ou canivete parece ter sido empregado na abertura da fenda na argamassa para revelar a boca larga e branca, suavemente iluminada pela luz de abril no sábado.

O conjunto remetia o observador a um grande buquê de flores do mal ou a veste luxuosa de uma beldade de Klimt, sem dourados, é certo, mas decorado por reluzentes transparências de apliques de organdi. As formas circulares e ciliares sugeriam frutos, peixes cegos de abismos oceânicos e pequenas expansões atômicas, como que transpostas da imaginação de um Hieronymus Bosch ou, quando menos, de um curador do ar.

 

O prazer de reler grandes livros

Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa na feira do livro de Gotemburgo, Suécia, em 2011

A transmissão da partida entre Boca Juniors e Palmeiras (25/04) me surpreendeu ao destacar a elegante figura de Mario Vargas Llosa na tribuna de honra do estádio. Como tudo que não pertença ao mundo da bola era alheio a eles, narrador e comentaristas da Fox Sports ignoraram a presença de um Prêmio Nobel na Bombonera. Para mim, vê-lo no campo aquela noite foi motivo de júbilo.

Poucas horas antes do jogo havia terminado de reler, agora em espanhol, “El Pez En El Agua” (Alfaguara, 1993; a tradução brasileira [“O Peixe na Água, Companhia das Letras, 1994] descansa nos sebos). A releitura só fez aumentar meu apreço pelo autor de “Conversa na Catedral”, “A Festa do Bode” e outras tantas grandes obras, incluindo o ensaio “A Civilização do Espetáculo” (Objetiva, 2013), que nos ajuda a entender boa parte dos desatinos de um mundo banalizado pela imagem, pela tecnologia e pelo ditame das redes algorítmicas.

Peixe na águaO livro é magistral na profundidade e clareza do estilo belo e corrente com que narra a frustrada e agônica tentativa de Vargas Llosa de aplicar ideias e dignificar a política peruana. Como é sabido, ele constituiu o Movimiento Libertad e concorreu à Presidência do Peru, em 1990, sendo derrotado por Alberto Fujimori. É referencial ao retratar a formação da sociedade peruana e distingui-la na América Latina, em suas divisões e tensões étnicas e na pobreza e desigualdade abissais. É obra prima por alternar com fluidez os planos da experiência política e da autobiografia, desde a infância à formação literária, com o andamento de um grande romance. Os capítulos propriamente autobiográficos relatam o trauma da relação com o pai ausente e abusivo e os anos de formação do escritor. Muitos dos episódios, para o leitor de sua obra, se confundem com a ficção, na qual foram recriados.

Llosa ensina como a política pode ser concebida com fins civilizatórios e para o resgate da cidadania, o que é impensável fora da democracia, mas também como o populismo fez da América Latina um manguezal putrefato, onde só podem sobreviver e sobressair criaturas que se adaptam de corpo e alma, moral e intelectualmente, à vida que tal ecossistema degradado permite.

A propósito do lançamento do novo livro do autor, “La Llamada de La Tribu”, o premiado jornalista Juan Cruz, do “El País”, encabeça com “El Pez En El Agua” uma eleição dos cinco livros mais importantes de Llosa. “Este é um livro essencial”, ele diz. “É a melhor autobiografia que li de um escritor hispano”, ajunta, ao enaltecer o texto que “combina duas vocações que se vão encontrando: uma termina em êxito, a literária, e outra em fracasso, a política”. Cruz ainda comenta que os dois marcos que se entrecruzam no livro, a gestação do escritor e o fracasso na política, são definidos por chegadas a Paris, “acreditando que [a cidade] seguia sendo uma festa”.

Penso que não pode haver leitura mais recomendável a quem se interesse pela política, por suas bases, valores e práticas, em um universo muito familiar ao leitor brasileiro, e também pelo trabalho necessário à confirmação de uma verdadeira vocação literária  em uma vida dedicada à leitura e à escrita.

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Uma missa para a imprensa

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[Coluna da Inclusive.com número 9, novembro_2017]

A imprensa morreu e não descansa em paz.

Nasceu o jornal online sem caráter e dispensável. O antigo leitor acordou metamorfoseado em cascudo clicador, condenado às galés do ciberespaço.

É quase um ET semeador de tráfego na internet, presa do Google e do Facebook. Pois o clique é o critério absoluto da notícia na era digital, a teia sem escape.

O apelo dos jornais em luta pela sobrevivência — pautado em concessões à política de bandos, à banalidade, à fofoca, à controvérsia oca, ao culto da celebridade — soa cada dia mais tonto. Alguns contorcem-se como enguias sacadas do mar para tentar se sobrepor à segregação ideológica animada pelo Google e pelas redes sociais.

Cliques dão dinheiro. A aposta barata no populismo midiático (como as “fake news”) dá dinheiro.

Isso talvez explique a falta de sintonia dos editores e o confuso alinhamento das matérias (conteúdos) nos portais.

Quando mais vulgar, mais cliques no papo. Quanto mais reles o humor, mais suja a fofoca, mais pornô a controvérsia e mais enviesada a manchete, maior a chance de um troço viralizar.

E aonde a vaca da internet vai, os jornais digitais vão atrás.

Entre o atentado terrorista e as malas do Geddel, você pode se informar sobre as aulas de furadeira da Lolita para atuar na novela das sete, desfrutar a sabedoria humanística do “artista de gênero” em voga, se iluminar com o pensamento mágico engagé de Wagner Moura e Cássia Kiss.

Um jornal deve se adaptar aos tempos. Não há nada de novo nisso. Novas editorias sempre foram criadas por imposição do público, da caça à raposa ao salve as baleias, do xadrez ao Pokémon, da crítica literária à culinária.

O negócio é o meio, seu McLuhan, que agora ultrapassou a mensagem.

O que exigia perícia dos editores para hierarquizar os fatos com senso e sensibilidade, no portal online virou uma terra de leiloeiros na bolsa de cliques.

A ordenação dos “conteúdos”, isto é, qualquer merreca, é um desafio que editores, desenhistas de web e programadores em geral estão perdendo.

O leitor em papel conferia uma espécie de procuração aos editores para filtrar e ordenar o que valia a pena se saber do turbilhão do mundo.

Toda manhã, confiante nesse contrato tácito, repassava as manchetes, os editoriais, as seções e separava o caderno ou a página a que mais se habituara. O resto ia para o serviço do gato. Assim se começava a ganhar o dia.

O jornal, dizia Hegel, era a “oração matinal do homem moderno”, pois havia algo de ritualístico na prática cidadã de se ler um periódico.

Agora é esse deus nos acuda. Se o jornal analógico era um veículo aristotélico, o digital está essa choldra mefistofélica.

Os anúncios viabilizavam o impresso de qualidade, mas não concorriam com a informação. Hoje travam com a matéria uma luta pixel a pixel na tela em transe.

Os donos de jornal podiam distinguir seu negócio: para o público letrado, com certa sofisticação intelectual, iam as folhas de primeira linha, e para as massas indistintas os tabloides com a pletora de sangue, suor e bundalelê. Agora, eis o busílis, os dois apelos convivem promiscuamente na mesma telinha.

O online precisa garantir milhões de cliques por milissegundo. Não tem procuração alguma de leitorados específicos, mas a imposição de publicar tudo que possa fisgar a atenção do internauta cigano.

O clicador — conforme o tipo que os digitais mais parecem perseguir — é iletrado tendente a babar na gravata, com menos de 30 anos e algum poder de compra, politicamente coxinha ou mortadela e incapaz de se deter por dois minutos numa leitura, que abandonará se não tiver carne fresca, isto é, algo que o faça estacionar e clicar mais num mesmo sítio.

As velhas gazetas, em geral, não estão conseguindo reafirmar suas identidades e põem a perder marcas e reputações, esmagadas pelo império do Facebook e do YouTube.

Jornalões e jornaizinhos estão numa cilada. Creem, falo do Brasil, que vai se safar quem mais despudoradamente representar um mundo infantilizado e hostil à inteligência e ao compromisso moderno do bom jornal de se aproximar o mais possível da verdade.

A imprensa morreu e vaga como alma penada.

É preciso que alguém mande celebrar uma missa para que pare de nos assombrar e descanse no silêncio eterno. Amém.